TOULOUSE
Estava na fase como ele dizia de “OMO”,
branco total, não tinha nenhuma ideia no momento para escrever.
Da cama começou a rir, tinha um processo
todo pessoal para isso, se levantou, daqui a pouco tinha que ir para a
universidade, dava classe de literatura comparada, de espanhol, inglês, francês,
era considerado um dos poucos especializados nas três.
Adorava comparar os grandes mestres das
três línguas, no fundo era relativamente fácil, tinha tido isso de bandeja
desde criança, pois sua mãe tinha sido professora das três na universidade de
Toulouse.
Seu pai em contrapartida, a muito tempo não
sabia dele, como dizia sua mãe, era um cu inquieto, nunca parava muito tempo em
lugar nenhum, para um homem de seu tempo, tinha sido moderno demais dizia ela.
Nunca tinham se casado, ele levava só o
nome da mãe, mas ninguém podia dizer nada, pois em sua certidão de nascimento
constava o nome dele, Joan Castro, ele mesmo uma mistura de raças, tinha desde
judeus, a catalã, árabe, português, como ele soltava quando perguntavam, o
diabo a quatro.
Ninguém entendia isso, mas ele se negava a
explicar, desaparecia por temporadas sem ninguém saber dele, nunca parava muito
tempo em nenhum emprego, em contra partida, tinha uma figura impressionante,
como ele dizia infelizmente não tinha saído ao seu pai, só em criança tinha
sido bonito. A única coisa que herdou
foi sua altura, o que não era normal na época.
Foi educado por sua mãe, quando o pai
aparecia, era como se confrontar com um estranho no ninho, quem era esse homem,
só na sua adolescência é que passou a entender o mesmo, já tinha lido tantos
livros nessa época que agora era mais fácil entender esse homem.
Com uns doze anos, sabia que ele estava em
Toulouse, trabalhava com um tipo marroquino, iam os dois para todos os lados
fazendo obras, depois com o mesmo desapareceu durante uns quatro anos, só
voltou a vê-lo quando fez 16 anos.
O escutou dizendo para sua mãe, mais um que
queria me dominar, ser meu dono, isso impossível.
Na hora não entendi, depois ela como era,
me explicou que os dois tinham um relacionamento, que tinha ido para Marrocos,
por isso, tinham ido viver em Esauíra, que ele contava depois que era um lugar
maravilhoso, mas que começavam a aparecer muitos surfistas por lá, ao parecer o
marroquino o viu fazendo sexo com um deles, contava isso como se fosse uma
história normal, no meio se lembrava de alguma coisa, soltava uma gargalhada,
estrondosa.
Depois sumiu outra vez, a alguns anos sabia
que ele vivia em Pau, uma das cidades perto da fronteira espanhola.
Segundo ele tinha lhe contado, quando lhe
perguntou de aonde era afinal, disse que durante a guerra civil espanhola, seu
pai, simplesmente transladou a família para os Pirineus, para uma cidade ali
perto de Toulouse, mas nas montanhas, de aonde era fácil, passar para o outro
lado, depois se dedicava a fazer contrabando de um lado para o outro.
Ele tinha feito a universidade ali mesmo em
Toulouse, depois foi fazer uma pós-graduação em Paris, dizia a sua mãe que não
devia ter herdado nada do pai, pois sentia falta de casa.
Tinha sido criado por ela a não ter
prejuízo nenhum seja de raça, cor, ou mesmo das opções das pessoas, como
levavam a vida, para ele tudo era normal.
Nessa época revisou um livro que tinha
escrito pelo pouco que sabia do pai, numa das épocas, este lhe contou como
tinha sido sua infância, atravessando a fronteira, tendo amigos e relações dos
dois lados, contou sem menor preocupação do relacionamento que tinha com um
amigo, os dois se embrenhavam no verão pelas montanhas, seguindo caminhos pelo
meio da floresta dos Pirineus, tomando banhos de cascatas, ou lagos que
encontravam, os dois nus, felizes da vida, seu pai quando descobriu, lhe deu
uma surra de fazer gosto, o amigo desapareceu.
Ele não entendia, seu pai vivia falando da
mistura de raças que eram, mas tinha preconceito contra tudo e todos.
Em casa não se falava espanhol, mas sim o
catalã, mas claro aprendeu a outra língua, pois as vezes atravessava para o
outro lado.
Talvez esse movimento de um lado para o
outro, fez que tivesse essa ideia de que podia ir aonde quisesse na vida.
Depois por interesse conheceu um policial,
mais velho do que ele, que trabalhava na fronteira, teve um relacionamento
largo com ele, bem ao mesmo tempo com uma viúva que os hospedava e escondia o
contrabando. Dizia que no sexo, não
devíamos ter prejuízos, pois ele o fazia com quem lhe atraísse mais, isso na
época era uma coisa impensável, o mais interessante, que segundo ele, nunca
escondia isso das pessoas com quem tinha relacionamento.
Sua mãe é um exemplo, sabia desde o
primeiro dia como eu era.
Apresentou o texto no curso de escrita que
estava fazendo, o professor gostou do mesmo, o titulo era conversas intimas com
meu pai.
Fez uma revisão total, mostrou o livro ao
Pai, quando este foi visita-lo em Paris, se matou de rir, pois os dois nas
ruas, ele chamava muita atenção, era realmente bonito.
Um dia estavam num café, um tipo se
aproximou, perguntando se queríamos fazer sexo a três com ele, se matou de rir,
disse que eu era seu filho.
No dia seguinte, me contou que tinha se
encontrado com o sujeito, soltou na maior que besteira, ele queria era que os
dois o comêssemos, mal chegamos a sua casa, virou a bunda para cima.
Tempos depois encontrei o mesmo na
universidade, acabou fazendo parte da banca que analisava minha pós-graduação.
Veio falar comigo do livro, tinha gostado
demais, foi simpático, me levou até um editor amigo dele, me apresentou, ficou
meu amigo.
Dizia sempre, quando vi os dois juntos,
imaginei um ménage, mas quando ele disse que era teu pai, pulei fora, ainda
acrescentou que seu pai na cama era uma coisa de dar em loucos.
Não entendi, mas o interessante, eu sempre
fiquei esperando que se aproximasse com segundas intenções, queria saber se era
verdade o que meu pai tinha me contado, mas ele nunca avançou o sinal, um dia
de curiosidade, lhe perguntei, riu muito, imagino o que ele te contou, mas na
verdade, prefiro ser teu amigo, tenho poucos, sei que sais comigo, porque de
uma certa maneira eres como eu, um solitário.
Isso era verdade, desde jovem, não tinha
tempo para os amigos da escola, tampouco na universidade, achava todos uns
tontos, claro eu tinha uma outra vivência desde jovem, adorava os mil livros da
biblioteca de minha mãe, lia de tudo que me caia nas mãos. Tinha um conhecido, que me disse que seus
pais enchiam o saco dele, para ter amigos, fazer esportes, não entendiam que
ele gostava de estar no meio dos livros, dos personagens, dessa vivência
impressionante que ia adquirindo com isso.
Foi o primeiro com quem foi para a cama, os
dois tinham uma coisa, adoravam descobrir coisas um do outro, explorar o corpo
até a exaustão. Só se separaram, quando
o outro entrou numa fase de sadomasoquismo, queria outras experiencias, nessa
época se candidatou a universidade de Toulouse, sentia falta de lá.
Foi a deixa para se afastar do outro, ficou
furioso, pois imaginava que ele o acompanharia nessa nova fase.
Sua mãe jamais lhe perguntou o que ele
fazia de sua vida, contou sim ao seu pai, esse se matava de rir.
Durante um tempo foi adjunto de professor
de literatura comparada, mas depois o mesmo foi embora, tinha sido convidado
para dar aulas nos Estados Unidos.
Ele ficou no lugar, o mais interessante,
esse lhe ofereceu sua casa, a ia vender, contou que estava na família a muitos
anos, era num bairro residencial, adorou desde o primeiro momento, disse que
seu pai, era um escritor, hoje em dia já se esqueceram dele, contou que ele
tinha os tempos de OMO, mas lhe mostrou o segredo, duas partes das estantes se
moviam, havia como uma outra sala pequena por detrás, aqui ele guardava todos
os textos, de um lado o que tinham sido publicados, sejam em livros, revistas,
coisas por encomendas, de outro lado, os textos que não tinha avançado, nem
publicado.
Nas épocas OMO, ele corria para esses
textos, buscando ou termina-los, ou reescrever os mesmo, ou resgatando algum
personagem que tinha se perdido.
Odiava que as pessoas entrassem nessa
parte, era como uma coisa intima dele, infelizmente só sou professor, nunca
gostei de escrever.
Ficou com a casa, pagou com o dinheiro
guardado do seu primeiro livro.
Sua mãe não gostou muito, mas ele queria
seu espaço, ela entendia, agora tinha depois de uma certa idade, um
relacionamento com um professor de Física Nuclear, um americano que tinha vindo
para lá.
Claro ele era um a mais na casa, não tinha
mais a liberdade de antes, leu o seu primeiro livro, confessava que não
entendia, nesse ponto era um tipo chapado a antiga, tampouco gostou do meu pai.
O convidei para conhecer minha casa, amou,
principalmente essa parte escondida, ria dizendo que ali eu podia esconder meus
esqueletos, esse humor particular, creio que herdei dele.
As vezes me desesperava com meus alunos,
alguns sabia que quando muito iam ser professores nas vilas do pais.
Um dia que trabalhava com eles, sobre os
personagens de Don Quixote de la Mancha, pedi que construísse a história desse
personagem, bem como do Sancho Pança, de aonde tinham saído os mesmos,
construir um personagem em cima disso.
Só um se saiu bem, o resto era para atirar
no lixo.
Nessa época, quando tivemos as férias
grandes, fui fazer um curso em Madrid, sobre justamente Cervantes, quando
comentei com o professor o que tinha experimentado fazer, ficou me olhando.
Não entendia essa ideia, sabia analisar os
personagens, a história, mas não de aonde podiam ter saído.
Eu de brincadeira, disse que Sancho
aceitava acompanhar o outro, porque era gay, apaixonado pelo mesmo.
Ficou uma fera comigo, era como se eu
tivesse profanado a história, ainda soltou, esses franceses só pensam em sexo.
Eu já tinha dois livros publicados, mas não
falei nada no curso, um dia lhe dei de presente meu primeiro livro, ele disse
que tinha um exemplar, esse escritor, é complicado, se vê que o pai era
promíscuo, fazendo sexo com todo mundo, retirei o livro que oferecia, soltei na
cara dele, se ele tivesse lido o nome do escritor saberia que era eu.
Ficou me olhando, não me admira que tenhas
essas ideias.
Era a época da movida de Madrid, dias
depois sai para jantar com uns companheiros de curso, me arrastaram para uma
discoteca, lá estava ele, de beijos e abraços, com um tipo que deveria
trabalhar numa obra ou coisa similar.
Quando me viu, fugiu como uma ratazana.
Mas já não teria aulas com ele, escrevi um
livro sobre isso, sem nunca mencionar Cervantes, um personagem complicado, que
vive brigando pelo mundo, mas sendo sempre defendido por seu companheiro um
sujeito que trabalhava em obras que mal sabia escrever seu nome.
Foi interessante, logo alguém se interessou
em transformar em filme, mas isso eu sabia, se começava a fazer filmes mais
livres, disse que ia pensar, que pensava eu mesmo escrever um roteiro.
Nessa época minha mãe morreu dormindo de
enfarte, seu herdeiro era eu, fiz uma seleção em sua biblioteca de coisas que
me interessavam, doei o resto para a universidade, vendi a casa, afinal já
tinha uma.
Com esse dinheiro, fui fazer um curso de
escritura de roteiros de cinema em Los Angeles, os outros diziam que ia atrás
de aventuras.
Não foi verdade, não gostava muito do
estilo dos americanos, um dia estava num café revendo meu texto, um tipo de
aproximou, achei graça, pois o mesmo, riu, perguntou se eu o reconhecia, lhe
disse que não. Então se sentou relaxado,
começou a conversar, que tal ia o curso, me disse que estava atrasado no que
estudava, tinha me visto na universidade, tirou o óculos que usava, vi que não
tinha grau nenhum, riu me disse que fazia parte de seu disfarce.
Acabamos na cama, ai me contou por que
tinha me perguntado, até a pouco tempo fui ator de filmes pornográficos, todos
querem fazer sexo por causa disso, eu quero que conheçam a minha cabeça, até o
final do curso nos encontrávamos, conversávamos, trocávamos ideias, eu o achava
com uma cabeça fantástica, para quem tinha saído da merda, tinha uma vontade
impressionante.
Ele foi claro comigo, contigo posso ser eu
mesmo, confessei que nunca tinha visto filmes gays, não me interessavam nada,
meu tempo era muito restrito, o convidei para vir a Toulouse, mas infelizmente
morreu antes, estava no lugar errado na hora errada, entrou numa loja de
bebidas para comprar uma para uma festa que ia, entraram para roubar, lhe deram
um tiro.
Fiquei impressionado, escrevi a história
como ele tinha me contado, mas isso anos depois, pois o tinha colocado num
outro livro, assim foi um dos personagens que reconstruí, mas claro o passando
para a França, um tipo que vem de uma vila na Bretanha, fugido, sem eira nem
beira, que começa em Paris se prostituindo, até que o descobrem o lançam no
cinema pornográfico.
Como reconstrói sua vida, usando o que
ganha para estudar, mas claro fiz o final como ele contava o que sonhava, ser
alguém.
Escrevi paralelamente o roteiro de um
filme, o duro foi discutir com os diretores que apareceram, cada um pensava
fazer o filme de uma maneira, meu roteiro era seco demais para alguns, crus,
começavam como me tinha contado dos abusos que tinha sofrido na vila, porque
era bonito, inclusive de professores, padres da igreja, além dos mesmos em sua
própria casa, até que fugiu, primeiro se prostituindo, já que faziam grátis,
pelo menos ganhava dinheiro, depois seu reconhecimento, em saber que era um
semi analfabeto, criar um personagem para poder estudar, chegar até a
universidade, falava disso que queria que as pessoas o amassem pela sua cabeça,
pelo homem que era, nada a ver com o corpo que tinha, nem sua cara bonita.
Nessa época conheci uma vizinha, não me era
estranha, foi interessante, a via sempre cercada de crianças, um dia nos
encontramos no supermercado, quando a fui ajudar a colocar tudo no carro,
comentei da quantidade de filhos que tinha.
Riu muito, não são meus filhos, eu cuido
dessas crianças, as mães, ou são prostitutas, ou scooter.
A maioria vivia em Paris, eram mulheres
bonitas, conheci algumas.
Nos tornamos amigos, até um dia que me
contou que era transexual, mas não se prostituia, estudava na universidade,
enquanto os meninos estavam na escola, me trouxe um texto que tinha escrito,
para ver e corrigir.
Era sua história, a aconselhei fazer desde
que tinha noção de que era diferente, ficou interessante, revisei o texto uma
série de vezes, antes de mandar para meu editor.
Primeiro ele pensou que eu tinha escrito
essa história.
Depois fui com Pascal, seu nome verdadeiro
um dia a Paris, o apresentei ao editor, que ficou de boca aberta, era uma
mulher lindíssima, de 1,85 de altura, mas nada nele era exagerado, tipo peitos
grandes, era um corpo normal.
Sabia se comportar nos ambientes, fomos
comer com o mesmo num restaurante chic, ficou impressionado, ainda soltou que
se não fosse casado se apaixonaria.
O livro fez sucesso, como lhe ensinei a
escrever o roteiro para o cinema, alguém na universidade me pediu para dar
aulas.
Fiquei de pensar, pois assim, eu teria
menos tempo para escrever.
Dividia meu dia completamente, nisso era
organizado.
Meu pai quando apareceu, agora com muitos
cabelos brancos, ficou amigo de Pascal, os via rindo como loucos, me soltou ah
se eu tivesse conhecido teu pai antes, teria uma aventura com ele, mas meu pai
tinha vindo com um de seus filhos, era a mesma coisa, não tinha se casado, a
mãe do garoto sabia de tudo, mas estava doente, então ele tinha a guarda do
mesmo.
Vinha para olhar se gostava da
universidade, andei com ele por tudo, o apresentava como meu irmão, mas havia
algo nele que não entendia.
Um dia me falou abertamente, como eu podia
entender nosso pai, ele se esforçava, mas não entendia sua cabeça, o fiz pensar
de como tinha sido criado, a vontade de liberdade que ele sempre tinha falado,
lhe dei o livro que tinha escrito a respeito para ler.
Ficou fechado em si mesmo na biblioteca,
lendo todos meus livros, me soltou ao final, que de uma certa maneira eu era
muito parecido com nosso pai.
Foram embora, tinha resolvido estudar em
Paris, nunca mais soube dele, até que o encontrei num lançamento de um livro.
Um dos famosos dias de OMO, sai para ir a
universidade e fazer compras, Pascal me chamou, vi que estava sentado numa
cadeira que tinha na varanda, atravessou a rua, quando olhei para trás o garoto
veio atrás dele, ia atravessar a rua, vinha um carro, fiz um sinal, atravessei
o peguei no colo, foi uma surpresa, era negro, tinha os olhos azuis, me abraçou
pelo pescoço, ficou ali acomodado, meu mais novo inquilino me disse Pascal.
A mãe, pagou seis meses adiantado, esta num
romance com um sujeito rico, mas não quer criança junto.
De repente o garoto passou a mão pela minha
cara, ria muito, de novo se abraçou a mim.
Perguntei o que queria de mim, me falou que
ia começar outro curso, mas tinha um problema, aonde deixo o garoto.
Procure alguém para ficar com ele pela
manhã.
Já tentei, mas ele chora, podias ficar com
eles enquanto escreves.
Lhe falei que tinha minha famosa crise de
OMO, passei para o colo dele, disse que tinha uma reunião na universidade,
queriam que eu desse um curso de escritura de roteiros, descobriram por ti
isso.
Fui embora, mas não me esquecia do garoto
abraçado comigo.
Não aceitei a proposta, queriam pagar
pouco, o máximo de alunos, disse quem nem pensar.
Fui ao supermercado, sem querer me vi
comprando para o garoto um jogo de cubos com letras.
Jeremy Cherrier, agora ficava comigo pelas
manhãs, estava relendo uns textos de mais de 10 anos atrás, procurando um
personagem mal desenvolvido.
Ele subiu pelas minhas pernas, como se
soubesse o que eu procurava, colocou o dedo em cima de um nome.
Realmente era um personagem mal
desenvolvido, tinha começado a escrever o texto por causa de uma noticia do
jornal de Paris, mas a coisa morreu.
Quase que o atiro ao chão quando me
levantei, ele se matava de rir. Acabei me jogando no chão com ele, brincando
com os cubos de letras, escrevi seu nome, o meu, ria muito.
Me acostumei com ele, as vezes dormia lá em
casa, quando Pascal saia com os companheiros de curso, sem me dar conta, montei
um quarto, como o que queria quando criança, mas minha mãe achava uma besteira,
o teto cheio de estrelas, a via láctea, no escuro brilhavam, ele adorou, um
abajur que se movia, tinha um avião que se refletia no teto.
Quando o colocava na cama, ficava esperando
que eu lhe contasse uma história.
Pascal contou que eu saia um perfeito
paizão.
Sem querer escrevi uma história que fez o
maior sucesso, tinha lido isso num jornal, procurei o texto inicial, era um
rapaz gay, que descobre que tem um filho, de uma relação com uma amiga antes de
ir à universidade.
O mesmo o procura, não sabe o que fazer,
está no meio de um relacionamento conflitivo, o namorado tem ciúmes, pois o
rapaz é muito bonito, o obriga a escolher, não esperava que ele escolhesse o
filho, que quer conhecer, esse faz um escândalo imenso, o denunciando a escola
que trabalha.
Não se importa, vai conhecendo o filho, o
leva para estudar justamente lá.
Anos depois quando precisa que alguém cuide
dele, só conta com esse filho, os amigos desapareceram, ninguém gosta de cuidar
de alguém com problemas sérios.
Fica pensando nisso, nunca se imaginou com
um filho, uns meses depois apareceu a mãe do Jeremy, Pascal pensa que veio
buscar a criança.
Diz que o vai levar para um orfanato, pois
vai embora com o namorado para os Estados Unidos.
Pascal quando o chama, está nervoso,
imagina aquela criança dócil, num orfanato.
Ele chama seu advogado, consegue a adoção
do Jeremy, o garoto adora, agora já fala, ele mesmo constrói jogos de palavras
que vê nos textos que ele escreve.
Sem querer constrói uma nova vida em torno
ao Jeremy, agora quando o convidam para ir a Paris, para um lançamento, tem
exigências, tem um filho junto.
Com dez anos se surpreende, Jeremy, escreve
uma história, tinha que fazer uma redação para a escola, escreve um texto, o
dia que escolhi meu pai.
A professora pensa que foi ele que escreveu
o texto.
Quando lê, fica de boca aberta, ele relata
como com três anos, ia atravessar a rua, para conhecer aquele homem que estava
falando com Pascal.
Quando ele parou o transito para o
recolher, o colocou no colo, sabia que um dia seria seu pai.
Isso realmente aconteceu, depois em casa
conversou com ele, foi ao seu quarto, trouxe uma série de coisas escritas por
ele.
Sem querer tinha copiado dele uma coisa,
antes de escrever no laptop, ele escrevia num bloco, os comprava em quantidade
na universidade, tinham sumidos alguns, lá estavam, cheios de anotações.
Sabia inclusive do tempo de OMO, falava
disso, mas como se tivesse mais maturidade.
Mostrou para o Pascal, esse se matou de
rir.
Pascal seguia escrevendo, entrevistando
pessoas nas ONG, de trans.
Jeremy sempre estava escrevendo, quando fez
15 anos, lhe deu de presente um laptop, ele disse que preferia um velho, o
senhor sabe que não usarei isso para jogar nada disso, só quero para escrever.
Com 17 anos, escreveu seu primeiro texto,
ficou surpreso, a história partia da redação da escola, ele foi acrescentando
coisas, sobre o relacionamento dos dois.
Um dia lhe disse que tinha conhecido numa
praça um homem como ele, negro, que lhe contou que os dois eram pai e filho de
várias encarnações.
Um dia o apresentou, era um homem com quem
ele vinha sonhando, estava dando classes na universidade de Yoruba, vinha de
Paris, dizia que a grande cidade, parecia um exame de abelhas, muito ruido.
Adorou a biblioteca de sua casa, tempos
depois os dois estavam num relacionamento, incentivado na verdade pelo Jeremy.
Foram a primeira vez ao Senegal, procurando
de aonde o Jeremy tinha saído.
Foi uma viagem emocionante, pois os dois
não paravam de escrever tudo que viam.
Quando acharam a aldeia, souberam da
história dele, sua mãe tinha conhecido seu pai, que vinha de Paris, aonde era
emigrante, ela queria ir embora, se agarrou ao sujeito, quando viu estava
gravida do mesmo, voltou com ele, mas o mesmo era casado lá, com uma francesa,
a deixou no ora veja, foi quando por sua beleza, conseguiu trabalhar como
scooter, nunca foi prostituta.
O melhor foi ver o que seu filho tinha
escrito a respeito, a seguinte viagem foram a Pau visitar seu pai, que estava
doente, reclamava sempre por telefone, quando viu o Jeremy, ria muito, pois
tinha telefonado várias vezes, conversado com ele.
Voltaram mais de uma vez, seu pai vivia com
um homem negro também, encontrei meu porto seguro dizia, alguém que cuidava
dele, sem cobrar nada.
Isso ele tinha também com Abumyel.
Jeremy fazia classe com ele de Yoruba,
começou a falar o que queria, sonhava desde criança, estar naquele avião que
saia do abajur, foi estudar na escola da aeronáutica de Toulouse, adorava estar
no ar, logo a oportunidade de provar aviões, entrou para a aeronáutica, pois
tinha os aviões como ele sonhava, era um rapaz diferente, pois seguia
escrevendo, agora sobre o que via.
Esteve servindo no Mali, em algum outro
lugar, mas sem problemas, enquanto isso, finalmente tinha concordado dar o
curso de roteiros.
Quando Jeremy voltou para casa, como
capitão, voltou para fazer curso de literatura, o que surpreendeu os dois, logo
estava escrevendo como um louco.
Um dia entrou no seu local especial, foi
procurar um dos primeiros que estava ali, o que tinha escrito sobre seu pai.
Foi visitar o avô, ficou conversando com
ele dias, quando voltou, escreveu sem parar, deu para o pai ler, ele tinha
entendido seu pai, nos seus sonhos de liberdade, agora escrevia, sobre o que
ele no fundo tinha encontrado, procurei tanto, lhe contou que o homem que o
acompanhava, era um dos primeiros namorados que tinha tido em Barcelona, mas na
época não pensava de parar em lugar nenhum.
Seu pai nunca tinha lhe falado sobre isso,
mas Jeremy lhe mostrou no seu texto, que tinha visto seu pai se encontrar com
uma pessoa negra, mas uma coisa fulgas.
A vida dos dois tinha sido cheias de
encontros e desencontros, ao mesmo tempo que seu pai tinha filhos com as
mulheres que o aceitavam.
Foram os três até lá, levar o texto que ele
tinha escrito, seu pai fez uma coisa que nunca tinha visto, fazer, abraçou o
neto, chorou deitado no seu ombro.
No texto inteiro, não havia nenhuma critica
ao seu comportamento, mas sim falava de um amor que tinha sobrevivido a
encontros e desencontros.
Quando foram a Paris, foi que se
reencontrou com seu irmão, seu pai estava preso numa cadeira de rodas, não
podia ir.
Seu irmão o surpreendeu, agora era padre
católico, com uma cara fechada, disse que o velho tinha comentado com ele, por
isso tinha comprado o livro.
Nunca o entendi, só na religião é que me
encontro, vivia num mosteiro fora de tudo isso, aonde levava uma vida
contemplativa, era sua primeira saída em anos.
Depois telefonaria, pois tinha ido ficar
com o pai, nos seus últimos momentos, os avisou antes, foram para lá, o velho
estava feliz, ia partir, vendo os filhos e o neto juntos.
Meses depois seu irmão foi para o Canadá,
viver num mosteiro no meio de uma floresta, nunca mais deu notícias.
Quem tinha conversado muito com ele, tinha
sido o Jeremy, ele acha que se encontrou, pai, mas se engana. De um lado um pai livre, de outro uma mãe
castradora, ficou perdido desde sempre, quando te procurou, tampouco entendeu
tua maneira de viver.
Em sua cabeça poderias ir de famoso, mas só
sabia de ti, quando lançavas um livro diferente, falava pouco de sua vida
particular, nunca levantava nenhuma bandeira.
Quando conheceu Pascal, ele estranhava, um
transexual, que nunca tinha trocado de nome, seguia com um nome masculino.
Segundo ele Pascal tinha uma série de
comportamentos masculinos.
Aqui está minha casa, meus queridos amigos,
meu canto conseguido com suor, sem ter que fazer nada disso.
Sem querer começou a buscar textos, deu com
um que tinha escrito a partir de seu amigo, que depois de um tempo queria sado
masoquismo, o encontrou anos depois, vivia numa casa no campo, fui obrigado a
me retirar, pois me perdi em tudo isso.
Tinha ido para Paris, se enfiou na noite,
se perdeu.
Telefonou para o mesmo, pediu se podia
falar com ele.
Foram os três até lá, vivia uma vida
totalmente diferente, disse que quando queria aventuras ia a um posto de
gasolina, fazia sexo com os motoristas de caminhão.
Foi quando contou que quando adolescente
tinha sido abusado por um tio, irmão de seu pai, que era justamente isso,
motorista de caminhão, casado com família, depois quando descobriu que eu tinha
virado gay não me aceitava.
Contigo tive um romance, essa é a verdade,
foste a primeira pessoa que me aceitou, mas eu achei que com o sado masoquismo,
ia conseguir o mesmo que tinha tido quando jovem, mas não foi assim, me perdi
completamente.
Tinha herdado esse campo do pai, lá vivia
tranquilo, isso disse rindo, mas quando chega a lua cheia, vou para o posto de
gasolina, numa mesma noite faço sexo com todos que encontro pela frente, as
vezes com dois ou três, me relaxo, volto a minha vida normal de sempre, mas
tomo cuidado.
Perguntou se podia escrever sobre isso, foi
interessante, ele lhe entregou uma série de cadernos, escrevi tudo aí, podes te
basear nisso, eu tentei transformar num livro, mas nunca consegui.
Tempos depois, quando estava já na metade
do texto, leu uma notícia no jornal, que o tinha assassinado, seu corpo foi
encontrado embaixo de uma ponte, aonde os motorista paravam para tomar banho,
ou comer.
Tinha conversas impressionantes com seu
filho e com Abumyel, sobre o outro.
Sua alma foi perturbada quando ele era
jovem, dizia esse último, ele passou a vida procurando um equilíbrio, talvez
foste a única pessoa que chegou mais perto disso com ele.
Confessou que tinha se assustado quando lhe
propôs sado masoquismo, além de não ter vivência, não era o que queria para
mim.
Estava hoje outra vez, com OMO, sentado na
sua saleta particular, olhando vários textos, a procura de alguma coisa, seu
filho entrou, colocou as mãos no seu ombro, dizendo, como sempre procurando
alguma coisa que te escapou no passado.
Tu acabas tudo que escreve meu filho.
Este o levou ao seu quarto, tinha uma
estante, também igual, textos que tinha começado, muitos de sua época como
piloto, muitas vezes não entendi o que me falavam, ou contavam.
Um dia Pascal, disse que tinha recebido uma
chamada de sua mãe, queria ver seu filho, agora era viúva e rica.
Ele a esperou na casa de Pascal, como diria
depois, não queria que ela soubesse que vivia justo ao lado, desde o primeiro
momento, começou falando mentiras, quando ele contou como tinha escapado do
Senegal, o pai que ele nunca soube quem era.
Depois o largou para trás, para perseguir
seus sonhos, eu fui até lá para saber quem eu era na verdade, mas sem querer
pude escolher meu pai, o que quero até hoje.
O que a senhora quer na verdade.
Ia se casar com outro milionário, queria
pela última vez ver seu filho real, depois nunca mais poderei retornar aqui.
Ele lhe disse olhando na cara, vez, sou um
homem feito, não preciso de nada teu, tenho o que sempre sonhei, mas nada vindo
de ti, tua vagina foi um meio de eu chegar aqui, nada mais.
Depois escreveu um livro sobre esse assunto
de mães que abandonam os filhos em busca de seus sonhos, mas que a realidade
sempre é outra.
Nunca mencionou seu nome real, não lhe
interessava uma vingança, como diria sempre, através dela tinha encontrado o
pai perfeito como queria, a família real, incluía Pascal na história, sempre
estavam falando.
Quando chamava a atenção do Pascal, por
alguma coisa, esse ria dizendo, limpei muito tu bunda suja, me respeite.
Era uma verdade, sem querer tinha feito uma
família não perfeita, mas interessante, aonde todos podiam falar de tudo.
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