KURT

 

                                          

 

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Kurt olhava suas mãos, a comparando com as de seu pai, no caixão, era o velório dele, quase sorriu, pois tinham o mesmo tipo, claro seu pai tinha 95 anos, ele 55 anos, eram completamente diferentes em tudo.

Primeiro não tinha sido criado por ele, mas por sua mãe, que em paz descanse pensou, tinha morrido jovem.

De seu pai, ele só tinha o sobrenome Sherman, o velho se chamava Rolf Sherman, era conhecido como um grande pintor da América moderna, como o mesmo dizia para quem quisesse ouvir, tinha ficado famoso, primeiro fazendo abstratos, seguindo a corrente de Mark Rothko, depois com o tempo passou ao figurativo, mas sempre com cores que considerava suas, muito fortes, conheceu minha mãe justamente fazendo isso, ela posou para ele, era aluna da escola de Belas artes, mas com o tempo como não fazia sucesso, passou a ilustrar livros, trabalhos para revistas, coisas assim.

Só via seu pai, no dia do aniversário dele, ou no seu, pois ela fazia questão de o levar, para ele se lembrar que tinha um filho, ele não gostava muito, mas ela fazia uma coisa, telefonava antes.

Pois ele vivia fora de Los Angeles, numa espécie de campo, a beira do mar, mais abaixo, em direção a Carmel.

Nos recebia, como dizendo, “não vão demorar muito, verdade?”.

Seu negócio era pintar, quando ela morreu, ele simplesmente me meteu numa escola interno, para acabar o curso, só que entrei para a universidade com bolsa de estudos, fui independizado pelo juiz, isso conseguiu o advogado dela, bem como recebi a casa e suas economias.

Cai fora do internato, ele ficou furioso, pois tinha pagado dois anos adiantados para não lhe aborrecerem, claro a escola se negou a devolver.

Por milagre apareceu para reclamar, mas eu estava fazendo uma coisa, que para ele era impensável, estava esvaziando a casa, minha mãe tinha mania de juntar coisas, chamei uma dessas ONG que depois vendem tudo, iam levando suas roupas, moveis demais, fui limpando a casa como gostava, eu já estava pintando as paredes quando ele chegou, nada de cores como ela gostava, tudo branco, no salão só ficou uma estante com livros, bem como duas poltronas de orelha, uma mesinha, com um abajur, até as cortinas tirei, gostava da vista do apartamento, se via Malibu ao Longe.

Iria eu mesmo reformando a casa, até começarem as aulas na universidade, me perguntou o que ia estudar, lhe respondi direto, estudarei Direito, talvez faça algum curso paralelo de escrita, depois já se verá.

Perguntou se eu não gostava de desenhar, ou pintura.

Nem pensar, escapei de ter talento, o que não era verdade, mas era mais para provocar o mesmo, além de que, teria problemas psicológicos, um pai que preferia pintar que me dar atenção, uma mãe igual.

Ela tinha morrido de um câncer de pulmão, fumava muito, era muito bonita, mas no caixão parecia uma caveira, pois se via todos os ossos da cara, de tão magra que estava.

Ele ficou me olhando, pela primeira vez, perguntou se eu precisava de dinheiro.

Lhe disse que não, iria com bolsa de estudos, além de que o dinheiro da mesada dele para mim, estava todo no banco aplicado, saberei cuidar de mim mesmo.

Me olhou, um garoto de 16 anos, falando isso, com uma postura nada a ver com um adolescente, ficou sério, qualquer coisa, fale comigo.

Nesse dia, tomei uma decisão, não o iria procurar nunca, nem que tudo saísse mal.

Foi embora como tinha chegado, nem estendia a mão para cumprimentar, isso que as mesmas sempre estavam sujas de tinta.

Olhei de novo o caixão, por mais que tivessem limpado a mesma, cruzada sobre seu peito, se via que as unhas estavam sujas.

Quase soltei uma gargalhada, das minhas as pessoas falavam, que sempre estavam sujas, eu adorava recuperar moveis, então, tinha sempre as mesmas sujas de tinta.

Nos últimos anos, ele passou a me procurar, afinal eu era seu único parente vivo, um dia precisou de mim como policial, afinal eu tinha dirigido minha vida para isso.

Sem querer minha cabeça se desviou para isso, minha mãe sempre fazia muitas ilustrações de capas de livros de cowboy, de novelas de policial, negras, principalmente.

Eu estudei direito, nos dois últimos anos, fui fazer um curso de análise do comportamento, era um aluno brilhante no curso de direito, mas um dos meus melhores professores me avisou, dão esses cursos, para depois captarem alunos para trabalharem no FBI ou na CIA, isso nem pensar.

Mas me interessava fazer o curso. 

Segundo a professora, eu não me destacava, o fazia de proposito, nada de chamar a atenção, nas vésperas de acabar o mesmo, me disseram que eu tinha uma entrevista, disse que só podia depois das provas finais de direito.

No dia que finalmente fui, não sabia quem ia me entrevistar, mas fiz uma coisa, montei um personagem, adorava isso, fui a uma dessas lojas de segunda mão, estudei um personagem, acabei montando dois, um diferente do outro.

Fiz uma coisa que chamava atenção, tinha os cabelos imensos, raspei a cabeça a zero, tirei as sobrancelhas também, como era magro, parecia recém-saído de um hospital.

Nessa primeira, era uma combinação, complicada de roupas cinzas com marrom de quadros, como se fosse um rapaz de qualquer família burguesa.  Entrei, quase soltei uma gargalhada, estavam ali dois homens que se pareciam gêmeos, eram iguais.

Me sentei, fui respondendo as perguntas com monossílabos, sim, não, as vezes para variar soltava um talvez.  Já quase no final, me perguntaram por que tinha feito o curso, soltei uma coisa que não esperavam, só para fazer curriculum.

Escutei uma gargalhada, sabia que era da professora, que devia assistir do outro lado de um espelho, depois ela me disse que esses homens eram da CIA.

Ainda lhe perguntaram se eu era um bom aluno?

Sim dentro do que ele se propões, está mais preocupado em acabar direito.

No dia do FBI, fiz outro personagem, tipo rapaz que vive na praia, com um gorro enfiado até as orelhas, uns óculos de sol, camisas com estampas de coqueiros, sandálias, bermudas, quando entrei, chegaram a levantar as sobrancelhas, que faz esse aqui.

Até o tipo de voz era diferente, me lembrei de como falavam os companheiros que viviam em Malibu, que adoravam fazer surf.

Falava como eles, mal entrei escutei a professora rindo, respondi da mesma maneira, tratando os dois senhores, como companheiros de surf.

Acharam o fim da picada, minha falta de respeito.

Ela tinha entendido, disse para eles que eu era o pior aluno que tinha, esse só fez o curso para aumentar curriculum, nem sei se vai se advogado.

Depois me elogiou, enganaste esses dois direitinho, mas eu se fosse você, mudava teu comportamento.

Fui honesto, não me interessava nenhuma das duas agencias.

Já tinha tido uma decepção impressionante, quando me mandaram fazer estágio num escritório de gente rica, só lhes interessava divórcios conflitivos, para tirarem muito dinheiro dos clientes, ou sonegação de impostos, orientavam os clientes para se safarem.

Coloquei na minha cabeça que devia observar, aproveitar a lição de como ser filho da puta.

Estava atento a tudo, inclusive um advogado me elogiou, que normalmente os que vinham fazer estágio reclamavam muito.

No segundo, me mandaram para um, que só defendia bandidos, um escritório desses de advogados de porta de cadeia, era o extremo oposto, mas fui já pensando como me comportar, na verdade, foi aí, que nasceu a ideia de criar um personagem.

Fui dias antes, para observar como se comportavam, se vestiam, apareci igual, claro com roupas de segunda mão, tipo o defunto era maior, um deles ainda me perguntou de que família eu era.

Ora creio que nessa cidade deve ter muitos como eu, Sherman, disse que tinha saído de um orfanato, aonde tinham me educado.

Esse gostaram, era pau para toda obra, observei como funcionavam, subornando policiais, num dos casos, encontrei um policial, que riu comigo, era um tipo diferente, dependia dele, do seu testemunho que podia livrar o cliente.

Me mandaram procurar algum podre do mesmo, não achei merda nenhuma, ao contrário, parecia o tipo mais simplório da delegacia que trabalhava, mas era como se fosse um personagem.

No dia que falei com ele, riu na minha cara, esses idiotas nem se deram conta, que montaste um personagem, verdade.   Da mesma maneira que estavas me analisando, fiz o mesmo contigo, tua professora me falou de ti.

Me deu seu cartão, depois me procure.

Os advogados, não confiaram em mim, quando lhes disse que ele tinha uma ficha limpa, mandaram um tipo detetive rebuscar a vida do sujeito, o mesmo enrolou duas semanas, para trazer um relatório em branco, ficha limpa.

Mal sabia que eu o tinha observado, ele não tinha feito nada, soube depois que tinha trabalhado na mesma delegacia do outro, por isso já conhecia a fama dele.

O julgamento foi uma pantomina, me sentei bem no fundo, já tinha acabado meu estágio, ao contrário do outro, fizeram uma análise, de que eu nunca seria um bom advogado.

Quase soltei uma gargalhada, quando chamaram o inspector para prestar declarações, ele parecia um personagem de filme policial de televisão, só faltava um charuto, ou um palito no canto da boca.

Primeiro perguntou o fiscal, ele foi claro nas respostas, quando passou a ser o advogado de defesa, ele montou uma cara especial.  Respondia por monossílabos, sim, é, não, pode ser.

Nada mais que isso, poderia ter feito uma análise do acusado, quando lhe perguntaram, respondeu que isso não competia a ele, tinha reunido as provas, os fiscal as tinha, ele não tinha que dar opinião nenhuma sobre isso.

O sujeito foi condenado a 25 anos de prisão, não ameaçou ao policial, mas sim seus advogados.

Ele me reconheceu na saída, eu não me enganei contigo.

Saímos para tomar um café, me perguntou do curso, ele já sabia pela minha professora, do que eu tinha feito com o FBI e Cia.

Não me interessa trabalhar para eles, tampouco creio que serei advogado.

Eres jovem, porque não entras para a academia de polícia, se gostas, depois faça imediatamente uma extensão para ser investigador.

Trocamos o número de telefone, ia lhe dar meu endereço, ele riu, os dois sabemos aonde cada um vive, eu te investiguei, falei com teus professores, bem como sei que foste olhar aonde vivo.

Somos iguais.

Acabei o curso, com uma nota alta, sem querer fiz um trabalho final, analisando como se sairiam meus colegas, os professores se mataram de rir, usava só uma abreviatura dos nomes deles, o que seriam cada um no futuro.

A banca que julgava adorou, foi talvez o único trabalho que não foi lido, claro eles podiam ligar com outros alunos.

Foi fazer o curso como tinha lhe falado o inspector, mas não disse nada que tinha sido orientado por ele.   No princípio estranhou, nunca tinha sido um tipo de fazer exercícios, mas acabou se saindo bem, o que surpreendeu a ele mesmo, foram as classes de tiro, nunca tinha segurado na vida um revolver, mas entendeu rapidamente como funcionava, como montar e desmontar um, limpar, atirar, acabou o curso com as melhores notas, tinha uma cara normal, não era bonito como sua mãe, nem tinha a estampa do pai.

Quando acabou o curso, fez por indicação dos professores a tal extensão, mas conseguiu com um deles, queria saber como era patrulhar nas ruas, durante três meses, antes do dito curso, foi trabalhar numa delegacia, segundo ele das piores.

Era quieto, observava, mesmo no curso tinha feito um tipo de diário, aonde observava os companheiros, quem seria futuramente corrupto ou não.

Foi o mesmo nesse tempo na rua, passou pelas mãos de vários policiais, consideravam que ele era um aprendiz.   Só gostou de trabalhar com um, que estava à beira da aposentadoria.

Esse o fazia correr por ele, lhe ensinava como dominar um bandido direito, comentou uma vez que estava colocando algemas em um, que de repente se virou, com uma navalha nas mãos.

Tens que estar preparado para essas coisas, lhe treinou como fazer.

Lhe perguntou um dia fazendo um lanche, porque ele nunca tinha sido inspector.

Ele soltou uma sonora gargalhada, fui, mas errei, fui idiota, me deixei corromper, na época era casado, minha mulher queria luxos, acabei aceitando alguns subornos, isso cagou minha carreira, acabei sozinho, ela deu no pé com um sujeito rico, fiquei, marcado para sempre como corrupto.

Pensei que tivessem te avisado, mas por estranho que seja, foi com ele que aprendi mais coisas, como me comportar.

No último dia lhe agradeci, lhe disse que voltava agora para a academia, para terminar o curso, para sair mais completo.

Era jovem, isso sim, me disse tomando um café, muito importante isso, seja sempre tu mesmo, nada de ir pelos outros.

Quando me formei, mencionei seu nome, como o homem com que mais tinha aprendido, ser honesto, pois só depois tinham me falado da fama dele de corrupto.

Não sabia que ele estava ali assistindo, veio me agradecer ter mencionado seu nome, tinha se aposentado no dia anterior, estava preocupado, queria muito isso, mas não me preparei para o depois.

Eu lhe disse que a tempos numas férias tinha feito um curso para aprender a restaurar moveis, gosto muito, me relaxa, as vezes encontro no lixo algum móvel interessante, levo para esse quarto que tenho no apartamento, como é último andar, trabalho lá.

Ficou me olhando, como perguntando se isso era a sério, o convidei para ir a meu apartamento.

Ele ficou sendo o único que sabia que eu era filho de um pintor famoso.

Mostrei uma mesa pequena, que terminava de restaurar, só faltava uma mão de betume, cera, nada mais.

Gostou da ideia, o levei até aonde tinha estudado, estava esperando para aonde me mandariam.

Foi interessante, virou meu amigo, de uma certa maneira, ele tinha a mesma idade de meu pai, pela primeira vez conversava com alguém de sua geração, para entender a maneira dele pensar.

Quando acabei, avisei que tinha terminado meus estudos, que seria inspector, apareceu lá em casa, foi até grosseiro, que eu tinha gastado mal seu dinheiro.

Levou um susto, estendi um cheque do dinheiro que ele tinha mandado todos esses anos, estavam aplicado no banco, nunca tinha usado o mesmo.

Fiquei só com a parte do lucro, lhe disse muito sério, enfie seu dinheiro no cu, pois sabia que para o outro lado não se leva.

Nessa época, pois como queria espaço, para meus restauros, vendi o apartamento, com o dinheiro que tinha herdado de minha mãe, todos esses anos no banco, comprei uma casa pequena em Malibu, se fosse analisar, seria uma das menores da praia toda, ali vivia uma senhora, que tinha sempre cuidado bem de sua casa.

Na parte aonde tinha uma garagem imensa, montei minha oficina.

Foi quando fui chamado para ir para uma delegacia, aonde estava o tal inspector que tinha me orientado, ele era o chefe lá, guardou meu nome, quando viu na lista, me requisitou.

Era uma que ficava no meio de um bairro, de um lado residencial, do outro conflitivo.

Fui para uma entrevista com ele, mais seu assessor.

Fui de cara limpa, não precisava fazer nenhum personagem.

Depois da entrevista, ele me disse que tinha ficado contente em saber que eu tinha seguido sua orientação, mas que nunca tinha falado nisso para ninguém.

Tampouco disse para ninguém que eu tinha um curso de análise do comportamento.

Me colocou com um inspector, que segundo ele, era o mais conflitivo dali.

O mesmo chegava mal-humorado sempre, estava sempre meio atrasado, dizia que tinha que levar a filha na escola.

Os primeiros dias lhes tocou casos leves, ele sempre anotava tudo, o outro era relaxado, as vezes tinha que lhe chamar atenção, pois pisava no que eram provas.

Um dia foi chamado pelo chefe, tinha reclamação do outro, ficou olhando para o mesmo que riu, sei como ele funciona, está cheio de problemas, mas se o coloco fazendo trabalhos internos, a coisa piora.

Dias depois pediu demissão, ia trabalhar com outro policial, que tinha aberto uma agência de segurança, depois se esbarraria com ele, em uma série de casos, em que o mesmo tinha feito merda.

Agora lhe tocava um parceiro que no primeiro dia, achou pedante, mas o mesmo era cauteloso com tudo, só faltava examinar uma cena, com lupa, mas eram os dois juntos perfeitos.

Os dois tinham um hábito, não falavam muito, cada um escrevia um relatório, mas antes de apresentarem, passavam o de um para o outro, o faziam não em suas mesas, mas sim numa sala de interrogatório, depois fariam um outro relatório, pois as vezes um via o que outro não tinha visto.

Foram companheiros durante cinco anos, até que o mesmo foi promovido para ser chefe em outra delegacia.

Um sujeito lhe perguntou se não tinha ficado chateado com a promoção dele.

Na hora não entendeu, só respondeu que ele tinha mais prática, que tinha aprendido muito com o mesmo, que merecia essa promoção.

Lhe tocou em seguida um sujeito que cheirava a bebida e cigarro o tempo todo, suas roupas pareciam saída de um saco de lixo.

Mas tinha uma coisa, era um lince nos casos, parava na porta de aonde tinha acontecido algo, dali analisava tudo, aprendeu isso com ele, de repente soltava, o lugar original não é esse, começava a falar o que estava errado ali.

Ele anotava tudo, o mesmo nada, mas memorizava tudo, faziam igual, por sugestão dele, uma apresentava para o outro o relatório, se completavam sempre.

Aprendeu a fazer isso, parar para observar desde um ângulo, depois aprendeu a ir pelos cantos do local, dali se posicionar, para olhar.

Nessa época, por contenção de despesas, cada inspector, passou a trabalhar sozinho, ele foi um deles, mas seguia tudo que tinha aprendido, os fiscais diziam que seus relatórios eram perfeitos.

Odiava ir a algum julgamento, principalmente quando o tipo de advogado sem vergonha, tentava o fazer errar, mas tinha aprendido, construía como um personagem, respondia o necessário, quando faziam a famosa pergunta, de como ele via o crime, respondia simplesmente, o senhor leu o relatório, está tudo aí, se não leu, acho que o senhor errou de profissão.  O fiscal, aproveitava passava uma cópia para os do jurado.

Reclamavam que ele escrevia demais, mas detalhava cada visão que tinha tido do crime, aonde tinha sido, como analisava os ângulos, além de juntar os relatórios dos forenses.

Os juízes já o conheciam, quando o advogado de defesa insistia que queriam saber o que ele pensava, os mesmos diziam, o senhor leu o relatório, é um dos melhores.

Um dos juízes tinha birra com ele, mas foi a ele que procurou, quando sequestraram seu neto, analisou os últimos casos do mesmo, para ver aonde podia estar um sequestrador, mas descobriu que o caso tinha a ver com o pai da criança, não com o Juiz.

Resolveu o caso fácil, indo ele mesmo resgatar o garoto.

Seu pai nunca tinha entendido, até que um dia, achou que lhe enganavam, foi pedir ajuda, seu advogado, estava administrando mal suas propriedades, seus lucros.

Ele analisou tudo, contratou outro advogado para seu pai, levou o anterior a julgamento, foi manchetes de jornais.

Foi então que a maioria soube que ele era filho de um famoso, bem como milionário.

Mas nem era com ele.

Depois o velho pedia ajuda para ele, era o único filho que tinha, pediu que viesse morar com ele, assim cuidava dele, fez uma coisa, montou um sistema, com uma empresa especializada, afinal o mesmo tinha dinheiro, faziam rodízio de enfermeiros para cuidar do velho, ele ainda pintava, reclamava que ele como herdeiro tinha que lhe atender.

Um dia lhe perguntou, o senhor cuidou de mim alguma vez, é mais fácil eu cuidar de um companheiro que o senhor.

Seguia vivendo como sempre, os dias livres era para trabalhar em casa, fazendo suas coisas, só odiava cuidar da casa, tinha uma empregada para isso, que vinha, preparava comida para toda a semana, limpava o banheiro, o que fizesse falta, suas roupas ele levava para uma tinturaria, nada de lavar em casa.

Estava sempre vestido simplesmente, mas limpo.

O criticavam, pois, para a maioria ele era rico, nada mais longe da verdade, apenas sabia administrar o que tinha.

Pela primeira vez, foi a uma inauguração de uma exposição do pai, um jornalista de cultura, lhe perguntou o que achava, ele foi honesto, não entendo nada de arte, posso dizer gosto, não gosto, mas analisar nada disso é comigo.  Seu pai que estava por perto, soltou para o mesmo, em sua casa as paredes são nuas.

Explicou para o homem, vejo merdas todos os dias, preciso disso, tudo branco para relaxar.

Agora alguma vizinha, trazia algum móvel para ele restaurar, só dizia se não tens pressa, tudo bem, pois sou lento.

Agora, no enterro do seu velho, no fundo para ele, um belo desconhecido, as conversas nunca tinham sido profundas, numa das visitas que fazia para saber se tudo funcionava direito, primeiro escutava todas as reclamações que ele fazia, com a ideia de o convencer a cuidar pessoalmente dele.

Uma vez perguntou de aonde tinha saído?

A resposta o surpreendeu, do cu do mundo, não saberia voltar até lá, nem que quisesse, tudo isso tinha se originado, por um quadro que ele pintava.

Disse que era o que lembrava do passado, escapando da casa familiar.

Era uma paisagem, coisa rara nele, uma bifurcação, nesse dia começou a contar para ele, que tinha escapado de casa, que eram controladores, sem cultura, ele tinha ido à escola, queria mais.

Mas não falou mais nada, não gosto do passado, pois já passou, me deixa em paz.   A partir desse dia, parecia ter medo de que lhe perguntasse algo sobre seu passado.

Um dia o velho, lhe perguntou se não tinha ninguém em sua vida.

Foi franco, nem pensar, vejo meus amigos, os que se casam acabam se separando, pois é uma vida complicada, levam para casa as merdas que veem todos os dias.

Me chamam de frio, pois considero meu trabalho, me assusto sim com a bestialidade humana, escrevo meus relatórios, depois procuro esquecer, relaxando, arrumando algum móvel.

Agora com os anos, ele só levava casos especiais, bem como procurava, resolver casos parados de outros inspectores, o chefe tinha mandado ele fazer isso, era como uma olhada diferente sobre algum caso parado.

Trabalhava sozinho, pior segundo ele mesmo, que tinha se acostumado.

Seus relacionamentos, as vezes, se passavam de uma noite, durariam uma semana, não mais que isso, pois em seguida queriam o controlar, não suportava isso.

A pouco tempo, tinha acontecido um caso interessante, uma mulher linda, vivia ali perto, trouxe um móvel para ver se podia restaurar, passou a vir sempre, basicamente se oferecia para ele, mas não gostava desse tipo de comportamento.

Um belo dia apareceu um homem, muito bonito, disse que falavam do seu trabalho, viu o móvel ali no canto, já pronto, comentou que era um bonito trabalho.

Acabou na cama com o mesmo, foi genial, depois descobriu que o mesmo era casado com essa mulher.

Pior foi saber que o mesmo era um ator com relativa fama, mas ele nunca via cinema, nem televisão.  Alguns amigos devoraram os telejornais, ele passava disso, já basta as merdas que vejo, ver mais em casa, nem pensar.

Era como se seu outro lugar de trabalho, fosse um lugar perfeito, nem música escutava, tudo era feito em silencio.

Aproveitava para pensar, mas sem se desligar do que fazia. As vezes no final da tarde, dava um mergulho, mas sequer tinha se interessado em aprender a fazer surf.

O romance com esse homem durou mais tempo, várias semanas, até que o viu com a mulher, lhe perguntou, disse que tinha se casado com ela, para esconder das fofocas dos jornais.

A partir desse dia, disse que não queria nada com o outro, apesar de gostar de estar com ele.

Estava numa idade agora, que gostaria de ter um companheiro, mas que fosse uma coisa simples, nada de ciúmes, ou controles.

Quando recebeu a herança do pai, era um absurdo, conversou com o advogado, fez uma doação, para bolsas de estudos de artes em geral, em nome do velho.

Bem como para a associação de policiais, que ajudava a viúvas e família de policiais mortos em serviço, tudo em nome do pai.

Quando escutava falar de alguma ONG, ou orfanato que precisasse de dinheiro, mandava um cheque comprado, em que não aparecia seu nome.

O galerista que cuidava de suas obras, foi vendendo tudo, para limpar a casa aonde ele vivia, esse dinheiro deu para um orfanato.

Quando fez sessenta anos, tinha se livrado da maior parte desse patrimônio.

Seu advogado veio lhe falar de uma casa ali perto que estava a venda, se não lhe interessava.

Mostrou a sua para ele, a outra era imensa, só se eu quisesse mostrar, olha, eu tenho dinheiro.

Tinha viajado, para lugares que tinha curiosidade em conhecer, mas tudo de uma maneira simples, nada de hotéis cinco estrelas, embora tivesse dinheiro para isso.

Se aposentou da polícia, ia viver como queria, restaurando moveis, tinha descoberto esse hobby sem querer.

Um dia numa exposição de trabalhos de restauro, encontrou um homem como ele, que adorava o que fazia, foram se conhecendo, o mais interessante é que o mesmo tinha sido polícia como ele, se conheciam de nome, nada mais.

Levava anos juntos, finalmente arrumaram uma casa maior para juntar suas oficinas, mas o outro era como ele, tudo pela simplicidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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