DR. CASTELLO
Hoje não era seu dia, estava nervoso,
preocupado, mas claro tinha operações a fazer, nem podia pensar em outra coisa,
era chefe de cirurgia do hospital Universitário Gemelli de Roma, ligado
estritamente a universidade de medicina.
As noticias não eram boas, inclusive como
sempre fazia antes, analisou todas as informações sobre o paciente, era pelo
visto um sujeito importante do governo.
Ficava furioso com isso, dar preferência a
uma pessoa, só porque era importante, do governo, quando ele se guiava por uma
pauta totalmente diferente, embora estivesse ali, para atender a todo mundo.
Alguém desde cima, da diretoria, devia ter
interferido para que essa operação se fizesse primeiro, que a outra de um
paciente que estava ali em urgência, mas era um coitado qualquer.
Entrou na sala furioso, foi dando ordens
como sempre, o pessoal já o conhecia suficiente para executar tudo, sem
discutir.
Vamos que tem outro paciente, esperando, devia
estar no lugar desse mequetrefe puxa saco de alguém.
Estava no meio da operação, quando sentiu
algo, disse ao seu enfermeiro predileto, que fosse a farmácia dali, lhe
buscasse um medicamento para colocar embaixo da língua, pois estava tendo
principio de enfarte, o mesmo saiu correndo como um louco, em segundos estava
de volta, ele em momento algum tinha parado o que estava fazendo, apenas
alertou o pessoal, se me acontece algo, disse ao seu segundo, segues tu com o
procedimento, colocou a pastilha embaixo da língua, sentiu uma melhora, acabou
o que estava fazendo imperturbável, disse ao outro que fechasse o paciente,
caiu redondo no chão.
O retiraram rapidamente dali, tinha tido um
principio de enfarte, cuidaram dele, rapidamente, por sorte era querido por
todos dali, segundo alguns, estar com ele, era como aprender mais que em muitos
anos de universidade.
Estava agora com 56 anos de idade, as vezes
dizia que estava farto desse profissão que tinha escolhido.
Depois de tudo o levaram para um quarto
especial, o melhor da planta, em seguida entrou no quarto a enfermeira chefe,
osso duro de roer, foi soltando logo, estamos lascados, um paciente médico, é
pior que dez pacientes complicados juntos.
Foi dando ordens, lhe retiraram a roupa
toda, lhe colocando uma dessas batas do hospital, logo um dos seus melhores
alunos, cardiologo, esteve revisando tudo.
Lhe deu uma bronca incrível, se estavas te
sentindo mal, porque operaste.
Esse sujeito, é algum filho da puta, do
governo, se eu deixo morrer tudo bem, mas se fosse algum de vocês, iam cair em
cima reclamando.
Lhe deram algo para dormir, um relaxante
também.
Ficou como num limbo, a dois dias atrás
tinha começado tudo, estava atendendo em urgências, cercado de alunos que
faziam estágio, o caso era complicado, um paciente, desses que vivem nas ruas,
com problemas de todos os tipos, foi explicando o que tinham que fazer, dando
ordem a cada um deles, esses ficavam impressionados, pois no primeiro dia,
diziam seus nomes, ele nunca esquecia, nada de colocar nomes divertidos,
chamava todos de Doutor fulano, sicrano, mas sobrenome dos mesmos, como no
fundo seriam conhecido.
Sempre se dirigia a eles assim, mesmo que
fosse para chamar a atenção.
Se aproximou um detetive que ele conhecia
bem, tenho urgência em falar com o senhor, acabou de dar as ordens, que o
paciente reclamou, mandou raspar a cabeça do mesmo, deve estar cheia de
piolhos, mandou fazer isso, um que era, conhecido por ser cheio de escrúpulos,
lhe disse que colocasse luvas grandes.
Saiu de lado, tirando suas luvas, com esses
pacientes nunca se sabia, acompanhou o inspetor a uma lateral.
Necessito que o senhor venha até a morgue,
não disse mais nada, normalmente era para verificar algum procedimento.
Quando chegou deu de cara com seu irmão
mais novo, Carlo Castello, tinha um tiro no meio da testa.
Tinha sido avisado que ele tinha
desaparecido de Mollarella, na Sicília, de aonde ele também era natural.
Tinha sido avisado pelo advogado da família
a dias atrás, disso.
Transmitiu ao inspetor o que sabia, que ele
andava metido em alguma coisa com a Máfia, esse sempre esta metido em
confusões, a última agora, se trata da casa de meus pais, na praia, com um
terreno imenso, parece que junto com alguém, ia derrubar a casa, para construir
um hotel de luxo, para turistas, usando a mesma, que tem uma praia
particular. Mas claro a porca torceu o
rabo, pois os documentos que apresentou é falso, por herança, mesmo no
testamento dos meus pais, pertence a mim, ou seja ele não podia fazer nada.
Já tinha vendido o que lhe tocava a casa e
o consultório do pai, na cidade. Esse
sempre foi uma bala perdida.
Se lembrou de criança, tinha uns dez anos,
quando Carlo se metia em alguma confusão, seu pai soltava, quem sai aos seus
não degenera. Ele não entendia, porque
estaria se referindo a si mesmo. Mas se
lembrou então, pois já sabia como nasciam as crianças, tinha ajudado seu pai
num parto, que sua mãe, não tinha estado gravida.
Simplesmente seu pai apareceu com Carlo nos
braços, disse para ela, mais um para criarmos.
Anos depois descobriria que ele tampouco
era filho dos dois, também tinha sido adotado, seu pai lhe contou antes de
morrer, contra a vontade de sua mãe.
Ele desde sempre estava agarrado ao doutor
Castellito como o conheciam, saia correndo da escola, ao contrário dos outros
que ficavam jogando bola, ia para o consultório, se sentava numa parte mais
afastada, mas assim que seu pai pedia alguma coisa, lá estava ele fazendo o
papel de enfermeiro ou ajudante.
Foi assim que desenvolveu essa paixão pela
medicina.
Creio inspetor que o senhor deveria falar
com o comissário de Mollarella, que deve saber em que ele estava metido.
Pediu que assim que liberassem o corpo,
fosse cremado, para levar as cinzas para ficarem junto aos de seus pais.
Ele tinha somente voltado a cidade, nessas
circunstâncias, no dia que foi para Roma para estudar, teve uma conversa
impressionante com seu pai, ele disse, vá, aproveite ao máximo tudo, seja um
grande cirurgião, pois tens habilidades para isso, nada de ser um médico de
província como eu.
Ele ia discordar, pois tinha aprendido
muito ajudando o pai, todos esses anos, o achava incrível, se matava de rir,
quando aparecia uma dessas mulheres que não tem merda nenhuma, reclamando de
dores inexistentes, ele receitava um chá, que fosse assistir a missa todos os
dias, assim se curava, ao mesmo tempo ficava furioso, pois o faziam perder
tempo.
Na casa na praia, tinha um outro
consultório, bem como uma sala, ali atendia muitos da máfia que vinham com uma
bala no corpo, aprendeu a abrir e procurar a mesma com ele, venha mete teus
dedos nesse buraco, tens os dedos finos, vais encontrar o metal da bala.
Mas de propósito não dava anestesia
nenhuma, aqueles marmanjos metidos a machos, reclamavam, alguns inclusive
choravam, mas não era com o velho.
Antes de morrer, lhe tinha dado um
envelope, que disse aonde estava escondido, isso para te resguardares sempre,
só abra se sentires necessidade.
Por isso, depois de ter visto o irmão, se
lembrou da puta carta, estava no cofre a anos, do seu pequeno apartamento,
vivia ali perto mesmo, num apartamento que tinha um belo salão, pois tinha
incorporado um dos quartos do mesmo, ali tinha sua biblioteca particular,
basicamente de livros de medicina, desde o primeiro que tinha comprado na
universidade.
Depois um quarto, com o banheiro
incorporado, uma pequena cozinha, com uma mesa simples, aonde tinham duas
cadeiras.
Nunca tinha vivido com ninguém, quando
chegava em casa, queria estar sozinho, sem ninguém lhe enchendo o saco como ele
dizia.
Se tinha alguma aventura, preferia ir a
casa da pessoa, assim mais ou menos analisava quem era a mesma, nunca ninguém
do hospital, preferia alguém que nunca mais fosse ver.
Primeiro durante o tempo que estudou,
compartia um apartamento mais ou menos igual, com mais quatro colegas, esses
adoravam as festas, diziam que tinham que aproveitar o momento que estavam
livres, a maioria depois voltaria para suas cidades, para ser um médico de
província.
Ele não, almejava chegar ao mais alto. Tinha operado muita gente importante, ao
mesmo tempo qualquer um que necessitasse.
Em seu curriculum, estava um primeiro-ministro, um papa, além de outros
mais.
Carlo ao contrário dele, mal terminou o
curso, já estava metido em problemas, a única pessoal que ele respeitava,
atendia, era sua mãe, uma mulher grande, com um humor de cachorro sarnento como
dizia seu pai.
Está o colocava em ordem imediatamente, só
dizendo seu nome, “CARLO”, ele dizia rapidamente, o que foi que fiz errado.
Algumas vezes ela olhava para ele, soltava,
não o fizeste ainda, mas estava planejando.
Se ele escapava para ir jogar futebol, ela
ia atrás dele, o trazia para casa, puxando sua orelha, o fazia tomar um banho
frio, fosse verão ou inverno.
Lhe deu muitas chineladas na bunda, ele
reclamava, porque Humberto nunca apanha.
Ela sorria, dizendo, porque nesse momento
ele está ajudando seu pai, não como tu, que escapas para fazer merdas todo o
tempo.
Quando se formou com as melhores notas,
seus pais foram a Roma para assistir sua graduação, em seguida, ele já estava
metido no hospital, trabalhando como um louco em Urgências, aonde gostava de
estar.
Dizia ao pai, aqui realmente é aonde
acontece as coisas, aonde precisam da gente.
Agora com 56 anos, estava cansado, tinha os
cabelos todos brancos, como se fosse uma juba de leão, quando vinha pisando
duro, as enfermeiras soltava, cuidado que o leão saiu da jaula.
Agora isso, estar numa cama, a enfermeira
chefe, não deixava ninguém lhe agradar.
Estava como ele dizia, com os olhos postos
em cima dele, riu com ela, quando soltou, estou literalmente fudido, ela agora
vai se aproveitar mandar me castrar.
No dia seguinte já estava dando problemas,
já farto de estar na cama, vestiu uma cueca por baixo da bata, começou a
examinar, quarto por quarto, como estavam os pacientes, lia o que estava na
tabuleta, revisava o paciente, passava para outro, ela o pegou no pulo, só
faltou o arrastar para seu quarto, pela orelha.
Foi assim nessas escapadas, que soube que o
paciente que tinha operado tinha morrido depois, de um enfarte, ele tinha visto
coração do sujeito, tinha comentado com seu ajudante, olha como esta cheio de
gordura. Mas claro a operação era no
pulmão, extirpar um tumor do tamanho de um punho fechado, já sabia que o mesmo
não ia aguentar as seções de quimioterapia.
Por isso, fez ele a operação, se a culpa
caia em cima de alguém, seria a dele.
O diretor do hospital depois apareceu para
lhe comunicar isso, ele soltou o sujeito ocupou lugar de outro, quando
realmente não havia grande solução, além do tumor, tinha esse coração cheio de
gordura, não ia mesmo aguentar os tratamentos posteriores.
Pois estão pedindo tua cabeça, por isso.
Ele riu, sabia que isso sempre acontecia,
quando se tratava de alguém importante, pensou rapidamente para seus adendos,
virou-se para o diretor.
Se queres me fazer um favor, coloque minha
cabeça numa bandeja, como São João Batista, porque estou cansado, talvez seja a
hora de pendurar as chuteiras, tenho problemas cardíacos, mais dia, menos dia,
terei um enfarte massivo na sala de operações, acabarei matando algum paciente,
me farias esse favor?
Depois disse baixinho ao mesmo, porque nas
informações do paciente, não havia nenhuma informação sobre o coração, quem fez
isso antes devia ter visto, ou foste tu, que mandaste passar isso por alto,
para agradar a algum filho da puta do governo.
O mesmo ficou vermelho.
Vê, dei no ponto certo, tu querias puxar
saco de alguém, por isso, camuflou a informação, agora vem a chantagem, se não
me consegues a aposentadoria completa, vou te denunciar, pense bem como vão
gostar os jornalistas de saber que o diretor do hospital mais importante de
Roma, quiça da Itália, para puxar o saco de um político, comprometeu uma
operação, séria.
O outro ficou em pé, sabia que ele era
capaz dessas coisas, pois sempre conseguia o que queria.
Vou pensar no teu pedido.
Sabia que o mesmo faria qualquer coisa para
não perder seu cargo.
Nesse dia, ele mesmo assinou a alta, foi
para casa, odiava estar no hospital, sendo cuidado, quando deveria ele mesmo estar
trabalhando.
Mal chegou em casa, se sentou na sua
poltrona favorita, parou para pensar, realmente tinha trabalhado sem parar
desde que tinha se formado, nunca tirava umas férias, quando muito tinha ido ao
enterro dos pais, isso que tinha ido até Palermo de avião, de lá, alugado um
carro para ir a Mollarella.
Agora lhe tocaria levar as cinzas do irmão.
Coitado, saber que na verdade era filho de
um mafioso, se tinha uma vida já mal equilibrada, deve ter sido uma merda.
Um dia perguntou a ele, porque nunca tinha
se casado, ou se tinha filhos.
O irmão olhou diretamente na sua cara,
colocar mais um bastardo no mundo, outro como eu, nem pensar.
Ele quando leu a carta do pai, tinha
entendido, no fundo era filho Don Carllucho, o todo poderoso da região. Seus pais nunca tinha podido ter filhos,
então o tinham recebido de braços abertos, no fundo, se olhassem uma fotografia
dele, da formatura ao lado do pai, eram muito parecidos, na carta descobria que
seu pai na verdade, era da família do mafioso, por isso, ajudava aos feridos.
Tudo em família pensou.
Já Carlo era filho de um irmão de Don
Carllucho, que abusou de uma menor de idade, a família dela, também era todos dessa
família mafiosa.
Telefonou ao inspetor, esse riu, consegui
todas as informações, mas infelizmente nada de saber que o matou.
Já temos as cinzas de teu irmão numa urna.
Depois lhe perguntou pela sua saúde?
Disse que lhe aposentavam, o que vinha bem,
nunca tirei umas férias na vida.
Duas semanas depois, com tudo resolvido,
comprou um bilhete de avião, para Palermo, lá alugou um carro como sempre, ia
com as cinzas do Carlo, numa caixa no banco ao lado do seu.
Levou um susto, quando chegou a casa da
praia, a casa, simplesmente estava começando a ser arrasada, não tinha telhado,
totalmente vazia por dentro.
Foi para um pequeno hotel na cidade, marcou
com o comissário, para conversarem num jantar, assim informalmente.
O conhecia desde criança, Humberto
Schiavone, tinha sido companheiro seu de escola, seu pai também tinha sido
comissário na cidade.
Se sentaram num reservado, para jantarem,
assim puderam conversar.
Primeiro trivialidades, como iam a família,
essas coisas.
Depois ele lhe contou o que tinha
acontecido, o advogado da família, quando viu o que o seu irmão estava fazendo,
usando uma propriedade que não era dele, avisou não só ao comissário, bem como
ao Don Carllucho, que ficou uma fera, mandou parar tudo.
Agora terás que falar com ele, te sobra na
verdade a casa do Zinio, um primo de seu pai, que vivia ao lado, já no final da
pequena praia, numa cabana de pedra, com uma horta atrás, quando era garoto ele
o levava a praia, o ensinou a nadar, tinha um certo retraso mental, mas ele o
achava inteligente, pois sabia cuidar de tudo, era ele quem cuidava dos
jardins, depois ao final dele tinha construído como um muro com árvores, que
isolava sua cabana da vista da propriedade, da casa de seu pai, não se via a
dele.
Se queres pode ficar lá, ele tinha morrido
logo em seguida ao seu pai, era este quem o protegia de todos, claro na cidade,
o tratavam como um idiota, mas seu pai, logo ia de dedo em riste para cima da
pessoal que fazia alguma coisa má.
Ia logo dizendo, espero que não precises de
mim, pois eu vou te tratar como um cão sarnento que eres.
Carlo não gostava de Zinio, mas ele sim.
Lastima não pude vir ao seu enterro.
Está no mesmo mausoléu, da família, ordens
de tua mãe, teu irmão ficou uma fera.
Pois de vingança o vou colocar ao lado.
Bela confusão esse me deixou, queria saber
em que gastou o dinheiro da casa familiar que ele vendeu.
Em besteira, carro do ano, se comportava
como rico, talvez por isso, convenceu o neto de Don Carllucho, de fazerem no
lugar da casa de teu pai, um hotel cinco estrelas, com praia particular.
Se queres depois te levo a cabana de Zinio.
Comeram comentando as coisas dos dois, Humberto
reclamou de seu filho, esse é outro com a cabeças nas nuvens, porque acha que
sou comissário, lhe vou livrar das merdas que faz.
Sua mãe pediu o divorcio por isso, pois na
primeira briga que provocou, o deixei uma semana numa cela.
Ela como sempre o defendeu, inclusive
contratou um advogado, queria que eu pagasse o mesmo, lhe disse que nem pensar,
que seu filho era um bosta.
Agora esta em Palermo, a família dela, a
ajuda para ir à universidade, mas suas notas são lamentáveis, eu passo
disso. Tu fizeste bem em não se casar.
Na verdade, dizem que me casei muito jovem
com a medicina, era um garoto, quando me apaixonei por ela, adorava ajudar meu
velho no consultório, contou para ele, como o mesmo fazia quando aparecia
alguém dos homens de Don Carllucho, não dava nenhuma anestesia, me fazia enfiar
o dedo até encontrar a bala.
Vi muito marmanjo chorando como uma
criança, ele soltava na cara do mesmo, se tivesses estudado, não tinhas que
passar por isso.
Mas veja Carlo, morrer com uma bala no meio
da testa, foi uma merda.
Depois de comerem bem, Humberto o levou, a
cabana tinha um entrada isolada, se a pessoa fosse com muita velocidade
passava, se descia até a mesma, por um caminho antigo, que necessitava de
arrumar, a cabana estava como ele se lembrava.
Foi direto aonde sabia que Zinio escondia
uma chave sobressalente.
Dentro, estava tudo igual como ele se
lembrava, tudo muito simples, uma sala, com um fogão a lenha dos antigos, um
quarto que mais parecia a cela de um mosteiro, um banheiro dos antigos, nada de
luxo, na frente tinha uma varanda, a lastima era sua horta que estava tudo
morto.
As roseiras da frente, igual, se tinham
transformado em selvagens.
Pois vou arrumar essa cabana, ficarei aqui.
Vamos, eu avisei Don Carllucho que íamos lá
sua casa vê-lo, ele sabe o que aconteceu com teu irmão.
Pelo visto Carlo, pegou o dinheiro do neto
dele, se mandou para Roma.
Pois é eu não sabia que estava lá, só
quando o inspector que falou contigo, me chamou para ir a morgue, foi que
descobri.
Já dizia meu pai, quem sai aos seus não
degenera.
Creio que Carlo quando soube que não era
filho de meus pais, sim de um irmão de Don Carllucho, o mesmo piorou.
Foram conversando, ele ia se lembrando da
paisagem, em sua cabeça, se lembrou um dia que antes de ir para Roma, foram
visitar o seu outro pai.
Don Carllucho o recebeu, olho de cima a
baixo, realmente era mais alto que ele, mas eram parecidos, se levantou da
poltrona, colocou os dois braços em seus ombros, dizendo, finalmente alguém
dessa família vai a universidade para ser um doutor.
Depois tinha descoberto que o mesmo tinha
pagado a universidade do pai, para ir a Roma estudar, talvez por isso, ele
atendia os seus homens.
Ele tinha olhado aquele homem, que muitas
vezes tinha cruzado pelas ruas da cidade, seguido de seus guarda costas, mas ao
contrário do que se podia pensar, não o respeitava, se precisa de homens atrás
dele, é porque não sabe se defender, pensava ele.
Quando pararam o carro, na parte de baixo
da escadaria, apareceu logo dois homens armados de metralhadoras, os
examinaram, mas não retiraram as armas do comissário.
Os levaram até o alto da varanda, numa
sombra aonde estava sentado seu pai verdadeiro, agora numa cadeira de rodas.
Este o examinou de cima a baixo, sorriu,
pareces um leão, só te falta rugir.
Ele riu, assim me chamavam no hospital.
Por que chamavam?
Resolvi me aposentar, primeiro quero
resolver a merda que fez meu irmão Carlo.
Tenho ainda que falar com meu advogado,
pois essa casa, bem como a propriedade me tocava por testamento, não sei se
falsificaram minha assinatura para fazer isso.
Don Carllucho chamou seu filho, era mais
novo do que ele.
Sabias dessa confusão?
Sim coisas de teu neto, o avisei que não se
metesse nessa merda.
Perdão ele é filho de minha irmã, como o
Carlo, sempre esta metido em merdas, não gosta que lhe deem ordem.
Pois agora tens uma minha, ordeno, que tudo
volte como era antes nessa casa, se os moveis desapareceram, devem voltar, que
construam o telhado novamente.
Como sabes disso meu pai.
Olha estou nessa cadeira de rodas, mas não
sou um idiota, sei de tudo que acontece por aqui, inclusive a cor dos teus
peidos fedorentos, dos rabos de saia, que andas atrás.
A cara do Humberto era ótima, tinha vontade
de rir.
Aonde ficaras esse tempo, Humberto?
Eu ficarei na cabana de Zinio, que farei
uma mudanças, vou arrumar alguém para modernizar o banheiro, o resto farei
devagar, não tenho pressa, vou desfrutar da vida a partir de agora.
Vais atender pacientes na casa de teu pai.
Ainda não sei Don Carllucho, quero
descansar, tive um principio de enfarte, por isso ainda não sei.
O velho o olhava de uma maneira diferente,
ficou mudo, ele se levantou, tomou seu pulso, colocou os dedos sobre o pescoço,
gritou para o empregado, quais são seus remédios.
Mas intuiu que era outra coisa, em seguida
por impulso começou a agir, o retirou da cadeira de rodas, o deitou no chão,
começou uma massagem cardíaca, depois o virou de lado, enquanto ele soltava uma
baba branca, o tinham tentado envenenar, fez tudo como faria num hospital, viu
uma garrafa em cima da mesa, a cheirou, deu para o Humberto, guarde como prova,
tem veneno nessa água, os empregados estavam como barata tonta.
Chegou a ambulância, ele saiu carregando
aquele homem frágil, de uma certa maneira, estava salvando seu pai, na
ambulância, tomou a frente de tudo, como sempre fazia, quando chegaram ao
hospital, Don Carllucho, já estava normal.
Ficou segurando a mão dele, agradeceu
baixinho, obrigado meu filho, querem me ver pelas costas, mas ainda sou o chefe
desses merdas.
Humberto tinha montado um sistema policial,
quando o filho chegou, lhe retiraram todas as armas, para ele poder entrar.
Mas o olhar que seu pai lhe dirigiu, o
deixou frio.
Teu filho aprontou mais uma, mas desta vez
não tem perdão.
Agradeça ao teu irmão, ou o maldiga, porque
salvou minha vida.
No dia seguinte ele voltou a sua vila, com
um esquema de segurança dele, bem como da policia que estava mais afastado.
Ele ainda voltou para ver como ia, escutou
o agradecimento.
Sabe o senhor fez bem, me conseguindo
aquela bolsa de estudos para estudar medicina, sim eu sei que foi o senhor, meu
pai me contou, antes de morrer.
Algumas coisas na vida, fiz bem, uma te
deixar com o doutor Castello, outra ele te educar como fez, nenhum filho meu,
deu certo, tu eres o único.
Lastima que tua mãe verdadeira, tenha
morrido no parto, era uma mulher especial, venha me ver quando possa.
Ele depois das mudanças que fez na cabana,
comprou uma cama nova, colchão, arrumou o banheiro, jogou fora todas as coisas
velhas que estavam ali, uma geladeira nova, pegou o hábito de sentar-se na
varanda olhando o mar, isso lhe dava uma calma impressionante.
A obra para restaurar a casa de seu pai
como era antes, andava a passos largos, uma das vezes, socorreu um homem que
tinha se cortado, lhe costurou o braço, este perguntou se ia ficar cicatrizes.
Nada disso, fiz uns pontos miúdos, como de
cirurgia estética, quando resolvas cortar o pinto, eu te deixo com uma buceta
linda.
O homem se matou de rir.
Um dia estava sentado na varanda, apareceu
uma mulher carregando uma criança, foi dizendo aflita, doutor Castellito,
falava como se tivesse falando com seu pai, meu neto está estranho, os levou
para dentro, deitou o garoto em cima da mesa da salão, colocou uma almofada que
tinha comprado a dias, o examinou inteiro, quando tocou aonde ficava o
apêndice, disse que tinha que o operar.
Mas no hospital, disseram que não podem?
Ele chamou o Humberto, disse o que passava,
eu vou agora com a senhora até lá, imagina que veio caminhando da cidade, com
esse menino nos braços.
Quando chegaram no hospital, Humberto,
estava lá com o diretor, este tinha cara feia.
Ele foi seguindo uma enfermeira, aonde é a
sala de cirurgia, fez todos os procedimentos, operou o garoto, depois tirou seu
cartão de crédito, disse a mesma, os coloque num quarto particular, ok por
minha conta.
Ela riu, parece que estou vendo teu pai
agir, ele era assim.
Durante dois dias, enquanto o menino esteve
internado, ele ia lá, ver como estava.
A enfermeira se aproximou um dia, se ele
podia olhar um outro enfermo, quero uma segunda opinião.
Ele sem olhar nada, já que era para uma
segunda opinião, examinou o homem, perguntou se tinha algum scanner por
ali. Foi direto ao coração do homem,
estava inchado.
Riu para ela, mais um pouco, estará
morto. Vamos para a sala de cirurgia,
tem alguma desocupada?
Sim a de urgências, esse homem é meu pai.
Vamos embora, se vestiu, fez os
procedimentos para operar, quando estava abrindo o homem entrou o diretor do
hospital, disse que ele não era do quadro.
O senhor examinou esse paciente.
Claro que não, não sou cirurgião do
coração, aqui não temos ninguém.
Ou me ajudas, ou não atrapalha.
O outro em seguida estava ajudando, ele
abriu o peito do homem, fez tudo que se faz num caso desse. O homem parecia até ter outra cor.
A enfermeira o agradeceu.
Ele depois de ver o paciente na
recuperação, foi embora.
No final da noite, Humberto apareceu, já
soube o que fizeste hoje, aqui não fazem esse tipo de operações, o teriam que
mandar para Palermo.
Chegaria lá morto, essa é a triste verdade.
15 dias depois a casa de seu pai, estava
recuperada, ele pediu ao Don Carllucho, como indenização, que lhe desse
dinheiro, ou comprasse, tudo que ele necessitava para atender aos pobres, creio
que mereço isso, por terem destruído minha casa.
Me dê a lista do que necessitas, vou mandar
comprar.
No dia seguinte, apareceu um advogado a
mando de Don Carllucho, seu filho não queria que o pai pagasse o que ele tinha
pedido, mas me deu ordem de fazer tudo como queria o senhor.
Foi com ele ao hospital, pediu para falar
com a enfermeira que o tinha ajudado na operação do garoto, soube que a mesma
tinha sido colocada na rua, mas conseguiu o endereço dela.
Foi até sua casa, seguido pelo advogado.
Disse para ela o que ia fazer, montar um
consultório, além de uma urgência, se ela podia trabalhar para ele.
Abriu um sorriso imenso, o diretor ficou
furioso, porque pedi para o senhor examinar meu pai.
Isso não me importa, Don Carllucho, como
seu neto, destruiu a casa de meu pai, a recuperou, vou montar uma consulta ali,
bem como uma sala de cirurgia de emergência.
Sentaram-se os dois com o advogado, foram
fazendo a lista do que precisavam.
Ela disse que ia conseguir um catalogo
atualizado, tinha visto um no hospital.
Ele lhe deu a chave de seu carro, logo
estava de volta, isso é o mais moderno no momento.
O homem ficou de providenciar tudo.
Dois dias depois Don Carllucho o chamou, me
salvaste, mas enfiaste a faca no meu bolso.
Já terei como agradecer isso.
Em dois meses a clínica funcionava, ele seguiu
morando na cabana, não sabia por que, o local lhe dava uma certa paz. Na frente da mesma, a praia fazia por causa
das pedras, como uma pequena praia.
Se levantava cedo, tomava um banho de mar,
depois ia para o consultório, sem fazer propaganda nenhuma, os pobres
apareciam, lhe chamavam como seu pai, Dr. Castellito.
Os mais velhos lhe diziam, ele ia estar
orgulhoso do senhor.
A enfermeira Constança, era fantástica, ele
pagava seu salário de seu dinheiro.
Pequenas operações faziam os dois ali
mesmo, depois os dois faziam a limpeza de tudo, deixando perfeitamente em ordem
para uma seguinte.
Um belo dia, trouxeram o filho de Don
Carllucho, tinha levado uma facada no abdome.
Acabou falando que tinha sido seu filho,
como o avô o mandou se apresentar, para pedir desculpas das burradas que faz,
ele desapareceu, mas o encontrei, ficou furioso, disse que o avô o vai mandar
matar, me enfiou a faca, saiu correndo.
É um desmiolado como era teu irmão.
Ele sem querer soltou como diria seu pai,
quem sai aos seus não degenera.
Esse ao final, lhe agradeceu, meu pai tinha
razão, eres um homem especial, vou mandar, lhe darem dinheiro para todos os
meses comprar medicamentos.
Tinham preparado dois quartos da casa, para
que os pacientes que necessitassem, o mesmo ficou lá três dias, se via que
estavam sendo guardados a distância pelos homens de Don Carllucho.
Quando lhe deu alta, o outro lhe agradeceu,
“obrigado meu irmão”.
Foi claro com ele, meu pai, foi e sempre
será o Doutor Castello, ele me criou e educou.
Humberto aparecia sempre, ficavam sentados
na varanda, sem luz nenhuma, olhando o céu estrelado.
Um dia, este lhe disse muito sério, te
lembras das nossa idade de 13 a 14 anos?
Sim, por quê?
Trocamos nosso primeiro beijo, nos
masturbávamos, fomos descobrindo o sexo juntos, nunca te esqueci, claro nunca
chegamos ao finalmente.
Se matava de rir, se aproximou, lhe deu um
beijo na boca.
Ele disse que ia denunciar o comissário por
corrupção de menores de sessenta anos.
Acabaram na cama, ele adorou, nunca tinha
tido isso com ninguém, uma calma interior, ficaram depois conversando.
Agora sempre que estava livre aparecia,
acho que vou trazer algumas roupas, para encher esse teu armário tão vazio.
Um dia que estava sozinho, se levantou de
manhã, foi nadar como sempre, viu um corpo jogado justo aonde as ondas batiam,
se aproximou, tomou pulso, colocou um dedo na carótida, nada.
Além que o mesmo tinha os lábios azuis.
Voltou para casa, chamou o Humberto, esse
apareceu com seus homens, inclusive o pessoal que fazia a parte forense.
Foi examinar, depois veio até aonde ele
estava, disse que era o neto de Don Carllucho, mas que devia estar morto a
dias, o devem ter jogado na entrada dessa pequena baia, para que acabasse aqui.
Depois de o removerem, disse que ia avisar
o velho.
Ele avisou Constança, foi junto.
O velho parecia estar esperando, com o
filho sentado ao seu lado.
Humberto lhe deu a notícia, aparentemente, está
morto a dias, pois tem os lábios brancos.
Agora é esperar os exames forenses.
Ele examino o velho, bem como seu filho.
Lhe perguntou se ele bebia, se o faz, deves
parar, tens um ritmo um pouco acelerado, chamou um dos homens, rabiscou uma
receita, vá comprar imediatamente isso para seu patrão.
Foram embora, Don Carllucho, disse que
sabia que ele estava atendendo bem o pessoal, sim seu filho me vem ajudando,
com medicamentos.
Eu já comentei com o Humberto, alguém está
vendendo fentanilo para os jovens, isso é um perigo.
O filho lhe olhou sério, quem fazia isso,
já não vai fazer mais.
Entenderam que era o filho do mesmo.
O que ele não entendia, comentou com o
Humberto, porque deixaram o mesmo na frente da minha cabana.
Talvez como uma desculpas, para dizer, já
acertamos tudo.
Não creio que tenha sido nenhum dos dois,
mais me parece um acerto de contas.
Aliás se eu fosse você, a dois dias estava
sentado de noite, não conseguia dormir, vi passar um barco estranho justamente pela
frente da cabana.
Pode ser um que esteja trazendo drogas,
fale com a polícia marítima de Agrigento.
Semanas depois pegaram um barco, ele tinha
razão, vinha justamente nessa linha, passava por diante da cabana, esses devem
ter matado o neto do velho, como um acerto de contas.
Um belo dia, o Humberto disse que já
falavam do relacionamento dos dois, imagine do nosso tamanho, venho viver aqui
contigo, nunca fui tão feliz.
O tempo foi passando, seguiam ajudando todo
mundo que aparecia, sem olhar quem fosse, alguns sabiam inclusive que ele nunca
chamava a polícia.
Num enfrentamento com traficantes, Humberto
ficou ferido, o tinham levado para o hospital, o novo diretor, mandou busca-lo.
O operou, quase tinha morrido na mesa de
operações, Constança estava ao seu lado, tinha aprendido a entender os menores
gestos dele.
Com isso, aposentaram Humberto da polícia,
condecorado como comissário.
Meses depois morreu o velho, seu filho o
avisou, que ele estava nos seus momentos derradeiros, o queria ver.
Ele foi até lá, sabia que não havia nada
para fazer, mas ficou sentado de um dos lados da cama.
Viu que o velho dizia ao seu filho, me
promete que vais proteger o doutor Castello?
Sim, pai, eu também lhe devo a vida.
Foi ao enterro, vestido como sempre andava,
de branco.
Foi a primeira vez que viu as mulheres da
família.
Algumas lhe sorriram, outras não, mas não
estranhou quando começaram a aparecer na clínica, ele dizia a Constança, cobre
a visita, pois precisamos de dinheiro para os que não podem pagar.
Um dia, apareceu seu irmão, queria que
orientasse seu filho, que todos esses anos tinha estudado interno em Palermo,
era filho de uma das muitas mulheres que tinha.
O rapaz, queria estudar medicina, o teve
ali com ele, durante todas as férias do mesmo, para ele ter certeza de que era
isso que queria, ao mesmo tempo que o observava.
Depois o recomentou a um amigo de Roma,
para o encaminhar, pelo menos quem sabe no futuro teria alguém para seguir seu
trabalho.
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