MEDO

 

                                          

 

Quando tinha 10 anos, o mandaram para viver na casa do avô, uma mansão, para ninguém botar defeito ali na Av. República do Libano, quase ao lado do Ibirapuera, iam sempre passear por lá, quando ficou mais velho ia correr, fazer exercícios com seu melhor amigo.

Seu avô, vivia basicamente sozinho nessa, casa imensa, com dois empregados, uma vez por mês vinha um grupo de senhoras de uma empresa, para limpar e arejar os quartos fechados.

Tudo isso, porque sua mãe, tinha surtos, seu pai com vergonha de interna-la preferiu manda-lo para a casa do avô.

A princípio ele não entendia, na verdade sua mãe, apesar de viverem na mesma casa, era uma perfeita desconhecida para ele, nunca se aproximava, o olhava com terror.

Suas duas irmãs, mais velhas, eram filhas de seu pai, do seu primeiro casamento, viviam na verdade com sua mãe, as duas eram feias, um dia seu avô fez um comentário que o surpreendeu, que se podia esperar, de um casamento entre um judeu e uma Libanesa, só podiam sair essas meninas feias, como a mãe delas.

Nunca falava no assunto, seu pai, aparecia uma vez por semana, para saber se estava tudo bem.

Ele só dizia que sim, na verdade pela primeira vez, tinha a atenção de alguém, seu avô, a muito trabalhava em casa, dali geria seus negócios, se precisava sair, o motorista e faz tudo da casa o levava, se eu estava de férias ia com eles.

Foi quando entendi que tinha umas quantas lojas no Bom Retiro, bem como uma fábrica, que levava ali mesmo, seu genro, casado com sua tia, única irmã de meu pai.  Não tinham filhos, os dois trabalhavam ali.

O Velho dizia, esses nem sabem aproveitar a vida.

Um dia lhe perguntou se gostava de Opera, ele nem sabia o que era, o arrastou com ele, tinha uma assinatura de toda a programação do Teatro Municipal, uma frisa, se sentaram os dois, ele totalmente absorvido pelo música, o que acontecia em cena, foi uma grande descoberta, depois iam aos concertos, já que ele gostava, o velho só não gostava muito de ballet, mas ia mesmo assim, já que paguei tenho que usufruir.

Agora então que tinha companhia, lhe comprou um terno, que logo ficou pequeno para ele, foi esticando.

De manhã, Samuel o motorista, ia leva-lo a escola Judaica, aonde estudava, depois ia busca-lo, assim ele falava mais de uma língua, com seu avô, esse só falava hebreu, ria muito, pois ele tinha um sentido de humor fantástico, ao contrário de seu pai, que quando muito sorria.

Quando ficava furioso com alguma coisa, soltava todos os palavrões que sabia em português, ele ria, depois escutava, não repita isso hem.

Se podia dizer que tinha sido seu companheiro de juventude, pois ele ao contrário dos companheiros de escola, não gostava de esportes, era sim magro, ia crescendo a um ritmo impressionante.

Seu avô lhe dizia que tinha saído a sua família, pois todos eram altos.

Quando sua mãe morreu, foi um enterro muito simples, nada de convidarem muita gente, era como fazer as coisas escondidas.

Só escutou seu avô dizendo ao seu pai, que agora ele colocasse o piru dentro das calças, não se metesse mais em confusão.

Nessa época seu pai que era advogado, começou uma campanha que ele fosse estudar direito, pois o queria no seu escritório.

Ele não dizia nada, mas odiava isso, tinha ido lá uma vez, mas claro, ao ver todo mundo de ternos escuros, gravatas, caras fechadas, não era o que queria para ele, nem sabia direito o que se levava ali, mas não gostava.

Um dia que ele insistiu muito, estava sentado no escritório com um bloco de desenho, fazendo um retrato do seu avô, esse não tinha percebido, nisso entrou seu pai, o viu desenhando, ficou uma fera, é isso que aprendes na escola, tens que pensar em estudar coisas relativas ao que será teu futuro.

Seu avô lhe cortou, eu nunca lhe pedi nada, deixei que fosses estudar o que quiseste, agora isso, deixa de martelar a cabeça do garoto, ele vai ser o que quiser.

Preciso de um filho homem para me substituir um dia, construí esse escritório para ser o melhor da cidade, mas não quero meu filho desenhando.

Foi embora, furioso, por meu avô ter-me defendido.

O velho me pediu para ver o desenho, se matou de rir, era seu retrato, quando acabe, quero colocar aqui no escritório.

Ficou todo orgulhoso, quando terminou, colocou o que seria sua assinatura para sempre BK, ou Bruno Klein, não seu sobrenome, Bruno Bristklein, o velho ficou todo orgulhoso, o levou junto para colocarem uma moldura.

Nesse dia, decidiu, que ele fosse depois das aulas, ali perto da escola tinha uma de artes, que ele fizesse o que quisesse ali, só não devia comentar nada com seu pai.

Lhe dava dinheiro para comprar material,

Fez uma coisa, como o motorista e sua mulher, viviam dentro da casa, num pequeno apartamento ao lado da cozinha, o velho disse que ele podia usar a parte de cima da garagem, como studio.

Foi o que ele fez, quando chegou a época da universidade, seu avô lhe deu uma sugestão, faça direito como quer teu pai, mas ao mesmo tempo, faça outra como Belas Artes, ou algo parecido.

Foram olhar, uma na Vila Mariana, lhe fizeram um teste, ele foi aprovado imediatamente.

O velho lhe comprou uma vespa, para ele se mover de uma para a outra.

Mas nada de comentar com teu pai, dizia, lhe dava uma mesada para comprar material, os dois passaram a ir aos museus, finalmente ele aceitava os convites das galerias de arte, para ir a inaugurações, iam os dois.

Uma vez, encontraram com seu pai, com uma namorada nova, uma garota, que poderia ser filha dele, não sabia aonde se enfiar, me deixaram conversando com a mesma, que disse que não entendia merda nenhuma disso.  Gostava mesmo era de discotecas, da boa vida.

Meu avô arrastou meu pai dali, se via que lhe dava uma bronca.

Depois foi no carro resmungando, podia ser sua filha, aonde esse tinha a cabeça.

Suas notas na faculdade de direito eram as melhores, mostrava para o pai, cada vez que ele vinha, mas nunca o tinha levado ao seu pequeno studio.

Um dos seus professores elogiava seu trabalho, lhe disse uma vez, aqui não temos nada demais para te ensinar, a parte técnica já aprendeste, agora é desenvolver tua criatividade.

No final do ano, o velho como odiava essas festas, Natal, Ano Novo, o arrastou com ele, tirou um passaporte, foram para Paris, meu pai ficou uma fera, mas na verdade, só aparecia com um presente para os dois, que seu avô logo perguntava ao Samuel, se ele gostava, esse dizia que não, jogava no lixo na maior.  O mesmo comigo, passava logo para frente, se via algum garoto na rua, lhe dava de presente, uma camisa, ou sapatos que eu não usava.

Fomos para Paris, eu estava como louco, afinal ia fazer 21 anos, era meu presente segundo ele, fomos a todos os museus, galerias de arte do Rive Gauche, depois andamos por Marais, que ele ia me dizendo que era o antigo bairro judeu da cidade.

Fomos por dez dias, ele acabou mudando, ficamos vinte dias, pois se encontrou com uma antiga amiga de minha avô, ela nos convidou para ir para sua casa, vivia no Vale do Loira, foi genial, saiamos por todos esses lugares, eu fiz um retrato dela.

Me apresentou um amigo seu da École de Beaux Arts, esse riu muito, me disse que me faltava vivência, mas que seria um artista, repetiu o que o professor de São Paulo tinha falado, tinham me ensinado técnicas, o resto agora dependia de mim.

Nessa época fiz uma sociedade com uma amiga da escola, ela pintava camisetas, disse que eu tinha possibilidades, me mostrou como fazia, usando tinta de serigrafia, em seguida fui a uma das lojas do meu avô, ele encomendou como eu queria, uma série de camisetas brancas, tamanho único.

Comecei a pintar, ganhava dinheiro, um dia, uma das minhas irmãs apareceu para visitar o velho, vinha com uma camiseta minha.  Lhe perguntei aonde tinha comprado, me disse a loja do Shopping aonde eu as vendia, o velho como não quer nada perguntou quem as fazia, ela levantou os ombros, aqui tem uma assinatura BK, mas não sei quem é.

Acabei a faculdade de direito, meu pai logo queria que eu fosse trabalhar lá, estagiar, isso tinha feito uma vez, chegava em casa, derrotado, odiava aquilo.

Meu avô disse que íamos a NYC, passar o final do ano por lá, que ele tinha ido uma vez, com minha avô, os dois tinham isso, viajavam nesta época.

Meu pai como sempre não gostou. Lá fomos os dois, de novo nos divertimos, fomos a todos os museus, galerias de artes, encontrou um velho amigo por lá, que vivia reclamando, que tinha liquidado seus negócios em São Paulo, vivia lá com o filho, esse era dono de uma galeria.

Um dia fomos almoçar com ele, fiquei impressionado, pois era um belo tipo, disse sem a menor cerimônia, que tinha herdado a galeria do homem com quem vivia, ele morreu de AIDS, por sorte já não fazíamos sexo.

Seu pai estava incomodo, mas nem era com meu avô, esse sim, tirou sem eu saber, tinha trazido várias fotografias do meu trabalho, o outro se interessou, disse que eram muito bons.

Eu ainda não sei direcionar minha criatividade, lhe expliquei o que os dois professores tinham me falado.

Me perguntou o que ia fazer no dia seguinte, eu não tinha nada programado.

Te vou levar a um lugar especial, fui com ele a Parsons, claro as aulas de artes eram diferentes de uma escola dita normal.  Fiquei alucinado, devias fazer alguns cursos livres aqui.

Fomos nos informar, depois nos encontramos com os velhos como ele dizia, comentou com meu avô.

Faz uma coisa, vamos agora daqui a Israel, um velho sonho desses dois velhos, tu ficas, vais procurando um lugar para ficar.

No dia seguinte ajudado por Carl, já tinha um studio de um pintor que ia passar uma larga temporada fora.

O mesmo só me disse uma coisa, muita gente vai chamar na porta, não abra, com certeza antigos amantes, a não ser que queiras aventuras.

Carl se matou de rir, esse é teu problema, perdes tempo demais fazendo sexo, com qualquer um.

Depois me contou que só tinha tido esse homem de quem tinha herdado a galeria, me apaixonei por ele em São Paulo, mas claro depois chegou na idade que acontece muito por aqui, homens que acham que ter aventuras com jovens, recuperam a juventude.

Tudo besteira, simplesmente claro, isso acontece muitas vezes, nosso relacionamento tinha estacionado.

Eu adorava como ele falava tudo simplesmente, quando comentei, o único incomodado é meu pai, que nunca se acostumou a isso, achava que ia ter um filho para levar seus negócios em frente, nada mais longe da verdade.

Conheço muita gente, mas na verdade se me perguntas se tenho amigos, só tenho um, uma pessoa fantástica, que conheço desde que cheguei aqui.

Um dia fomos jantar com esse seu amigo, era completamente o oposto dele, um homem sério, professor da universidade, os dois conversando, pareciam uma coisa familiar.

Os velhos voltaram de Israel, felizes, meu avô me soltou que meu pai estava uma fera, ainda comemoramos meus 21 anos lá, agora eres maior de idade, tu decides.

Queres ficar ou voltar, eu só fiz uma coisa, o levei aonde já estava vivendo, mostrei para ele o que estava pintando.  Ele se matou de rir, me abraçou me beijando.

Pode deixar que eu enfrento o furacão.

Uns dias depois meu pai apareceu em NYC, foi ao studio, ficou pasmo segundo ele com o que viu, eu estava construindo um quadro imenso, de um exercício que meu professor tinha dado, tentou argumentar comigo que era uma vida difícil, se eu sabia o que estava fazendo.

Me deu um ano, para pensar, eu não lhe disse nada.

Meu avô preocupado, tinha chamado o Carl, para que fosse me ver.

Ele chegou quando eu tinha acabado o quadro, lhe expliquei que era um exercício simplesmente, pois meu professor batia sempre na mesma tecla, pintar não é pegar o pincel, sair colocando tinta na tela, há que pensar, o que queremos dizer, ou construir.

Nos tinha dado um exercício, de sairmos, conversar com uma pessoa qualquer na rua, sobre seu passado, a partir daí, construir um quadro.

Embaixo de casa, sempre tinha um homeless, que vinha dormir, um dia lhe comprei o cobertor novo, pois o seu estava cheio de buracos, me sentei para conversar com ele, aproveita que estou lucido.

Foi me contando a vida inteira dele, como ele tinha se destruído, tudo por um erro do passado.

Tudo que ia me contando, era como se na minha cabeça tivesse tomado forma.

Era isso o quadro.

Tinha subido com ele na tarde anterior, lhe mostrei, ficou me olhando, bebeste na fonte, entendeste o que eu perdi ou me perdi.

Me agradeceu muito, no dia seguinte, comprei para ele um saco de dormir, mas não apareceu mais por ali.

Carl disse que eu mostrasse para meu professor, depois vou levar para a galeria, para ver como os clientes recebem o mesmo.

Como era complicado levar o mesmo para a Escola, o professor veio com todos meus companheiros.

Se sentaram aonde puderam, ali não havia muitas cadeiras.

Ficaram de longe analisando, escutei algumas besteiras, mas ele foi enfático, entendeste realmente a proposta, daqui a pouco já não terei o que lhe ensinar.

Tirei uma foto do mesmo, mandei ampliar, mandei para meu avô, depois o Carl, levou para a Galeria.  No dia seguinte, me telefonou rindo, tens que vir aqui.

Quando cheguei tinha um crítico de arte, disse que passava pela rua, ia ver uma exposição, que meu quadro o tinha sugado para dentro, é de uma realidade impressionante.  Vi que na lateral tinha umas quantas marcas de vermelho.

Reservado por muita gente, mas como não discutimos preço, eu prefiro esperar que me aprontes pelo menos uns dez destes, para fazermos uma exposição.

Sai dali, parecia que flutuava.  Telefonei para meu avô, quem atendeu foi o Samuel, disse que estava no hospital, desde o dia anterior.

Avisei o Carl que ia para São Paulo, consegui um assento num voo na mesma noite, me sentei no rabo do avião, tinha medo incrível de perder meu velho.  Era como perder uma parte da minha vida.

O Samuel, me levou direto de Guarulhos ao hospital, tinha tido um derrame sério, me fez aproximar dele, lhe dei um beijo, disse que tinha amado o quadro, tens futuro, não deixe ninguém se interpor.

Tirou do pescoço, uma chave que sempre estava ali, depois entenderas, é o teu futuro.

Nisso chegou um rabino, esse como o preparava, iria me ensinar a rezar o Kadish, pois meu avô o tinha pedido.

Nisso chegou meu pai, por isso, estou chamando o teu telefone, não podias me avisar que vinhas, mas como sempre falava alto, meu avô disse para ele moderar.

Morreu nessa noite, segurando minha mão, meu pai voltou ao trabalho, pois tinha um caso importante no fórum.

Eu tomei um banho ali mesmo, quem não saia dali também era o Samuel.

Morreu dormindo, Samuel disse, foi em paz.

Avisei meu pai, que veio como sempre nervoso, mais ainda ficou quando Samuel, lhe entregou uma carta do velho, ele tinha todas suas vontades escritas ali, era de um advogado que tinha estudado com meu pai.

Este ficou uma fera, mas teve que engolir.

Ele queria uma cerimônia simples na sinagoga que ia, depois queria ser cremado, que eu levasse suas cinzas para Israel, especificava aonde, que as deixasse ali, no deserto.

No velório, vi minhas duas irmãs, bem como a mãe dela, ao mesmo tempo minha tia, seu marido.

Dois dias depois foi a leitura de testamento, o advogado entregou um envelope ao Samuel, bem como outro a sua mulher.

Começou dizendo que a fábrica era da minha tia e seu marido, Samuel tinha me comentado que ele tinha tido o derrame, pois desde que tinha voltado, não tinha parado.

Tinha vendido todas as lojas, bem como a mansão, o dinheiro, estava dividido em três partes iguais, uma para cada neto, o dinheiro da mansão era meu.

Ao meu pai, deixava o edifício aonde ele tinha escritório, nem sabia que o velho era proprietário.

Mesmo assim meu pai não gostou, pensava que ia colocar a mão no dinheiro todo, como filho mais velho.

Sempre era assim, uma das minhas irmãs que tinha estudado direito, estava trabalhando com ele, está sempre de mal humor, é horrível trabalhar com ele, estou procurando outro lugar, pode ser que com esse dinheiro, abra um escritório pequeno para mim.

A outra ia se casar em breve.

O advogado me fez um sinal, para esperar.

Meu pai foi embora como sempre, furioso, não entendia a cabeça do velho.

O homem me entregou um envelope, apontou para o cordão de ouro que levava no pescoço com a chaves.

Fomos a um banco imenso ali perto, foi direto ao diretor, apresentou um documento da morte de meu avô, esse me mostrou uma conta, dessa conta se transferia dinheiro para sua manutenção em NYC, eu mal usava tudo, pois não me sobrava tempo.

Se fosse outro talvez estivesse vivendo a liberdade, de ir a discotecas, festas, nada disso me atraia.

Depois descemos para a parte debaixo, ele pediu a chave, verás que dentro dessa, tem outra chave, ele pediu que eu lhe alertasse, veja essa primeiro, depois vês a outra.

Nessa tinha documento de um apartamento em São Paulo, bem como dinheiro, tudo em dólares, para seguires em frente, beijos teu avô.

Preso nesse tinha a outra chave, fechei bem essa, depois chamei o homem, que abriu comigo a outra. Fiquei pasmo, ali estavam uns dez saquinhos de diamantes, bem como mais dólares, em notas grandes.

Estava um pouco abalado, ou seja ele acreditava em mim.

Fui para casa, com o Samuel, eles iriam embora de lá, meu avô tinha deixado por fora um pequeno apartamento para os dois, bem como documentos de aposentadoria.

Mas creio que vamos para o interior, aonde minha mulher tem família, assim viveremos melhor, ele retirou coisas do seu studio de lá, colocou numa caixa, despacharia no voo que fosse para NYC.

Seu pai veio falar com ele, se sentaram no escritório, primeiro teve que escutar uma ladainha sobre o testamento, nem se atreveu a falar do resto do banco.

Só lhe disse que tinha que voltar, pois tinha uma exposição agendada, foi então que descobriu que ele tinha feito duas universidades ao mesmo tempo, ideia do velho.

Esse meu pai, nunca pude entender sua cabeça.

Se despediu dele, voltou ao banco, retirou dinheiro de lá, um bom punhado de dólares, pois tinha que arrumar outro studio, pois o dono do seu voltava.

Teria que ir a Israel, levar as cinzas do velho, tinha colocado as mesmas junto com as coisas que tinha trazido do Brasil.

Carl conseguiu um studio para ele, um pouco longe, mas era grande, um último andar no Harlem num edifício recém restaurado, era um espaço aberto, com um pequeno salão, com cozinha e banheiro, ali seria seu quarto.

Agora tinha a cabeça aberta, parecia que a perda do velho, a tinha agitado, o primeiro quadro que saiu, no fundo era ele mesmo, se abrindo para o mundo.

Depois saia pelas ruas, pelas praças, ficava observando a pessoa, a desenhava, depois puxava assunto, para saber como era a mesma.

Só que ao pintar, mudava a cara da pessoa, mas a história estava ali.  Todos eram grandes formatos, tinha uma que ele adorou, era um homem que hoje cuidava de cavalos, no estabulo do Central Park, lhe contou que tinha vivido sua juventude no Nebraska, que tinha fugido dali, com o sonho de Hollywood, de fazer filmes de cowboy, tudo que consegui foi fazer pontas.

Mas o que lhe interessava era a história de sua juventude, ele foi detalhando o que era viver num lugar, que a única diversão era ir tomar banho num riacho, que as águas vinham da montanhas.  As vezes na adolescência, tinha companhia, fez uma cara de sem vergonha, lhe contou de um cowboy mexicano que adorava fazer sexo na água, eu sempre tinha a desculpa de levar os cavalos para tomar um banho, adorava entrar nu com eles, na água.

Uma vez fizemos sexo os dois ali em cima do cavalo que ficou estático.

O homem tinha uns cinquenta e cinco anos, o convidou para ir ao studio, queria o desenhar nu.

Ele foi, tinha um corpo fantástico, foi o primeiro homem de sua vida, as vezes aparecia de noite, para dormir.

Nunca cobrou por posar nu para ele, ria muito dizendo que adorava seu corpo peludo.

Mas quando ele chegava, cobria os quadros.

Quando Carl veio ver o que ele tinha para expor, era muito mais que caberia na galeria, siga com a ideia, depois arrumo para expor em outro lugar.

Bob apareceu num dia que o Carl estava revisando os quadros, foi quando se viu a si mesmo, completamente nu em cima de um cavalo, a cena do riacho, esse puto garoto, gravou tudo na cabeça dele.

Houve uma sintonia imediata do Carl com o Bob, entendeu que dali sairia uma nova vida, ele não ia interferir.

Veio um fotografo, para preparar as fotos para o catalogo, elogiou seu trabalho.

Ele gostava de um quadro, que era uma mulher obesa que sempre estava no parque, fuçando o lixo, comendo coisas deixadas ali.

Um dia, se aproximou, lhe ofereceu um sanduiche que tinha acabado de comprar, ela o olhou de cima a baixo, não preciso de caridade.

Mas comeu assim mesmo, quase arrancando o sanduiche de sua mão.

Depois o arrastou com ela, a um edifício ali perto, entraram pela entrada de serviço, não me deixam entrar pela frente, era um apartamento imenso, ela tinha o síndrome de Diógenes, estava cheio de coisa encontradas no lixo, mas tinha um salão imenso, impecável, uma poltrona imensa, que ela disse que era sua cama.

Ele perguntou se podia desenha-la ali, ela foi contando sua vida, algumas coisas não faziam sentido, entendeu que ela misturava realidade com a fantasia, se pegou nisso.  O quadro final era no centro ela sentada nessa poltrona como se fosse um trono, vestida como andava, com uma coroa dessas que dão no Mcdonalds, para as festas das crianças, de papel.

Numa outra, era ela, como tinha visto numa foto, muito bem vestida, sentada no mesmo trono.

De um lado todas as fantasias que tinha lhe contando, do outro a realidade dela fuçando o lixo.

Quando foi lhe levar o convite, soube pelo porteiro, que a mesma tinha morrido sozinha ali, os parentes pareciam urubus, levaram até as merdas que ela trazia.

Agora estão brigando na justiça pelo apartamento, mas deve tanto de impostos que vai comer todo seu valor.

Foi embora triste, tinha gostado de conversar com ela, entendia esse lado da fantasia, o outro a realidade.

A inauguração, foi fantástica, apesar de todos os quadros não estarem ali, estavam no catalogo, No dia seguinte, Carl contava rindo que o primeiro quadro tinha dado trabalho, eu não aceitei nenhum dos compradores, pois finalmente com os outros pude colocar preço, então, ele vai para um museu, que aceitou esse preço, vai para Boston, te querem lá para quando colocarem o quadro.

Bom agora vou a Israel, levar as cinzas do meu velho.

Ele nunca tinha parado para se olhar no espelho, num desses dias parou, no hall de um edifício que tinha ido atender um cliente da galeria, que queria que lhe fizesse um quadro, o homem que o olhava, não era ele.

Tinha mudado tanto nesse meio tempo, usava uns cabelos imensos, seu corpo tinha se expandido, achou graça disso, sempre tinha sido magro, na verdade nunca tinha prestado atenção em sua própria aparência.

Atendeu o homem, que gostou do desenho que ele tinha feito do mesmo, disse que acabaria quando voltasse de Israel.

Tinha mandado para o pai e as irmãs, catalogo da exposição, mas só a que era advogada lhe respondeu, agradecendo, fiz o que te disse abri um escritório para mim.

Ele embarcou para Israel, com a urna com as cinzas do avô, seguiu suas instruções, tudo como ele queira, no deserto do Sinai, foi com um guia, aproveitou passou uns dias andando por Jerusalém, desenhando coisas, detalhes de algumas coisas que via.

Depois voltou, pois Carl necessitava dele.

Precisava de pelo menos mais cinco quadros, para uma exposição em Los Angeles.

Perguntou se não se incomodava que incluísse coisas novas.

Não eram pessoas com quem ele tinha conservado, mas tinha imagens do comportamento das mesmas, duas eram dois tipos de homens diferentes, um ultraortodoxo, com suas roupas de ir a Sinagoga, o outro era um rapaz jovem, com uma cara que estava perdido, não tive tempo, pois tinha na cabeça ir a uma Yeshivá para desenhar esses jovens estudando.

No outro, era uma mulher toda vestida de negro, sentada num banco de uma praça, muito gorda, comendo como uma louca, nem via que a cara estava suja, parecia uma criança quando come sorvete que fica com a cara suja, a cara da mulher refletia gula, desespero, amargura.

Tinha feito um quadro que era só a cara dela, imensa, refletindo tudo isso.

Quando acabou tudo, vieram fotografar, já tinha as do resto que estava ali, que iria para Los Angeles.

Se sentia frustrado de não ter ficado mais tempo em Israel.

Quando isso acabe, vou para lá.

A exposição foi um sucesso, pois era diferente de tudo que tinham visto até agora.

Carl queria agendar outra para San Francisco, ele disse que antes iria de novo a Israel, tenho que fazer isso agora, que está latente na minha cabeça.

Voltou, alugou um apartamento, entre Tel Aviv e Jerusalém, assim podia se mover de um lado para o outro, depois foi a uma agência, pediu se podia arrumar um carro, explicou o que queria, arrumaram um condutor para ele, um palestino.

Foi como descobrir um outro mundo, levou mais de um mês andando com ele de um lado para o outro.

Esse se admirava dele, ir anotando coisas ao lado dos desenhos.

Desenhou muitas crianças pelas ruas, um dia estavam parados numa grande praça, as crianças correndo atrás de uma bola, quando um carro entrou, estourou ali mesmo, foi um caos generalizado, ele não foi atingido, mas o condutor sim, teve que ir para o hospital. Ele se salvou por pouco, estava atrás de uma coluna, sentado no chão desenhando uma senhora sentada na porta de sua casa.   Ficou pasmo, pois num instante a cara dela tinha se transformado, tinha sido destruída, pelos destroço do carro que voaram.

Isso ficou na sua cabeça, o carro deles estava longe, foi levando seu condutor, o arrastou a um hospital, a agência mandou outro carro, com outro condutor.  Uma semana depois voltou para NYC, tinha muito que pintar.

Anos depois, já tinha um nome consagrado, teve que voltar ao Brasil, aonde nunca tinha feito nenhuma exposição, o pai estava mal, com uma doença degenerativa, a mesma que tinha tido sua avó, relatada pelo seu avô.

O pai já estava numa cama, mal podia se mover, ficou bravo, porque não o tinham avisado antes, a irmã mais nova que cuida disso, contou que ele não tinha permitido.

Ficou ali com ele seus últimos dias, quando chegou um momento que não podia respirar sem maquina, existia um documento que ele tinha feito a anos, que não permitia que fosse entubado, acabou morrendo como seu avô segurando sua mão.

O enterro, como não tinha deixado nada, tampouco frequentava a sinagoga, foi como as irmãs queriam, pois eram católicas, de qualquer maneira rezou um Kadish na beira do tumulo.

A leitura do testamento, foi interessante, deixava tudo para suas duas irmãs, sabia que ele não necessitava de nada.

Pelo menos cumpri, não estava preocupado com nada disso, tinha sua vida em NYC, tinha comprado um studio a muito tempo no Brooklyn, aonde trabalhava devagar.

Uma exposição por ano estava bem, Carl, mantinha seu relacionamento com o Bob, nunca saberia como os dois encaixavam, tinha uma certa inveja disso.

Nunca tinha encontrado ninguém em sua vida, que permanecesse muito tempo, alguns queria a fama que ele tinha, mas quando viam como levava sua vida, sem glamour nenhum, davam no pé.

Já estava com quase cinquenta anos, quando sentiu os primeiros sintomas, entendeu que não tinha escapatória, se preparou a fundo, ainda tinha coisas no Brasil, nunca tinha tocado nos diamantes da família, só uma das suas irmãs tinha filhos, os dois eram diferentes, riu quando os viu, ela nunca tinha se casado, os dois eram de pais diferentes.

Sentou-se com ela que era advogada, preparou tudo relativo ao que existia por lá.

Deixou tudo para os dois fazerem a universidade que quisessem.

Voltou para casa, como dizia de NYC, fez a mesma coisa, toda sua obra que estava ali em desenhos, ficaria para o Carl, ele que resolvesse, uma parte do dinheiro que tinha deixava para as fundações que ajudavam novos pintores.

Quando teve tudo organizado, apenas terminou os dois quadros que estavam ali, com uma dificuldade tremenda, um dia, caiu no chão, levou um tempo imenso, para conseguir se levantar, não podia chamar ninguém.

Quando conseguiu se deitar na cama do studio, abriu a mesa de cabeceira, vinha juntado medicamentos que sabia que excesso morreria, foi o que fez, foi encontrado pelo Carl, na mesa de cabeceira tinha uma carta para ele, queria ser cremado que suas cinzas fossem para o mesmo lugar que tinha deixado seu avô em Israel, no Sinai.

Carl de posse do que ele tinha deixado, conseguiu montar uma bela retrospectiva, expondo o original, bem como os estudos em forma de desenho.

Quando quiseram levar para o Brasil, nunca chegou a nenhum termo para isso.

Se o governo se metia, não dava certo.

Carl dizia que sempre era a mesma coisa, ele era um belo desconhecido no Brasil, para sua cremação, com uma cerimônia antes na sinagoga, vieram suas irmãs e sobrinhos.

Não havia leitura de testamento, tudo já estava feito.

Deixava só uma carta, passei a minha vida inteira com medo, primeiro de acabar como minha mãe, fechada dentro de uma casa, com ataques psicóticos, depois o de morrer sozinho, pior foi encarar a possibilidade de ter a mesma doença de meu pai, ver como ele acabou em cima de uma cama, por isso quando vi os primeiros sintomas me preparei, fui em vida resolvendo tudo, pois o medo me corroía por dentro, de não despertar um dia, não ter nada resolvido.

Fui organizando tudo, até meu próprio enterro, assim não dou muito trabalho, só me frusta não ter amado com paixão ninguém em minha vida.

Amei sim meu trabalho, meu avô, que quiça reencontre em outra vida.

Adeus, vou para não voltar.

 

 

 

 

 

 

 

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