PALAVRAS
Desde quando sorrir é ser feliz?
Tinha despertado com essa música na cabeça,
vestiu um short esportivo, camiseta, tênis, colocou um fone de ouvidos, saiu de
casa, se é que podia chamar de casa esse apartamento velho na Ilha do
Governador, mas era o mais perto que tinha encontrado do trabalho, estava como polícia
Federal no Aeroporto do Galeão, do Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo, estava com mau humor, no
dia anterior tinha falado com seu superior, afinal estava a quase um ano ali,
queria voltar ao serviço que fazia antes, que tampouco era uma maravilha, mas
ficar todo o dia prisioneiro no aeroporto, observando as pessoas, ou atrás de
uma tela de computador, que vigiava as pessoas que andavam pela parte de
embarque.
O mesmo elogiou que ele era o melhor
observador que tinha, quando chegaste aqui, pensei, mais um merda que vem se
recuperar de um tiro, mas não, foste efetivo desde o primeiro dia.
Se lembrava disso, o tinham colocado para
andar pelos que esperavam um avião, quando notou uma mulher que volta e meia colocava
a mão no pescoço, entrou no banheiro de senhoras, ele falou pelo rádio,
mandando uma policial para lá, não deu outra a mesma estava tendo um ataque,
tinha engolido bolsas de drogas para levar para os Estados Unidos.
Mas não sobreviveu para contar, para quem
trabalhava.
Isso acontecia sempre, se ele fosse
enumerar os casos, desses dois anos, o melhor nunca errava suas suspeitas.
O chefe foi rotundo, nada feito, não te
querem em Brasília, nem tampouco em outro lugar, tens fama de inclusive culpar
teus colegas de subornos, então não te querem.
Um dos primeiros casos que levou, tinha que
ficar numa floresta na Chapada Diamantina, observando o chefe de uma seita, que
levava mulheres para lá, as induzia a ter sexo com ele, além de drogas, mas não
estava permitido homens, portanto tinha que ser de longe.
Um belo dia, chegou o marido de uma dessas
mulheres, lhe acertou um tiro na cara, acabou com seu trabalho, pior, tinha
documentado o homem fazendo isso, mas deu em nada, pois o mesmo era político, o
caso bem como a gravação que tinha feito desapareceram.
O mandaram para Brasília, devia trabalhar
no Senado, a ordem era só observar, mas pegou dois senadores recebendo suborno,
gravou com seu celular.
De novo não deu em nada, simplesmente o
mandaram para a fronteira com a Bolívia, já chegou com direito a olhadas de
esquerda, pois ninguém queria trabalhar com ele.
Recebeu ordens do chefe dali, com cara
feia, que devia só observar nada mais, colaborar com os companheiros.
Desconfiava muito de um deles, um dia esse
parou um carro, desceu, deu ordem para ele ficar lá, viu pelo retrovisor o
mesmo recebendo dinheiro do homem que conduzia, desceu do carro, o sujeito
estava passando drogas, pegou o companheiro com a mão na massa, simplesmente se
virou para ele, lhe deu um tiro, subiu no carro do traficante foi embora o
deixando ali jogado na estrada.
Levou um tempo desacordado, até que
conseguiu chegar ao carro, pedir auxílio, vieram com toda a calma do mundo, o
mandaram para Brasília para se recuperar, depois de duas operações no ombro
esquerdo, sorte que atirava com o direito, uma prótese na articulação, o
mandaram para o Rio de Janeiro de aonde tinha saído.
Não aguentou nem dois dias na casa dos pais
no Leblon, na frente da praia, acabava ficando o dia inteiro andando pelo
calçadão, os dias de folga eram infernais.
Resultado, arrumou esse apartamento.
Chegou ao fim da praia, se sentou numa
pedra, para ruminar, por pressão do pai, tinha estudado direito, mas quando foi
estagiar no escritório do mesmo, um imenso ali na avenida Rio Branco, descobriu
que 90% dos casos, era para defender bandidos, traficantes, os de colarinho
branco.
Não era o que ele queria, quando disse isso
ao pai, a resposta dele o deixou gelado, o que queres se neste pais, quem tem
dinheiro são esses, se queres defender os pobres, estás fudido, muita ideologia
não leva a nada.
Sentiu que tinha perdido 4 anos, na verdade
tinha feito direito, por não saber o que fazer, tinha sido sempre um excelente
aluno, ia fazer surf, mas não tinha amigos, era extremamente fechado.
Só gostava nessa época de escapar para a
casa do avô, ele vivia numa casa simples, mas grande no Alto da Boa Vista, tinha
um jardim na frente, bem como uma horta atrás, vivia ali com sua tia, uma
delegada de policia para ninguém botar defeito.
Em comparação, com sua mãe, que parecia se
levantar maquilada para alguma festa, a tia parecia mais um homem, andava de
cara lavada dizia ela, mas honesta.
Ia passar os finais de semana com o velho,
andar pelas Paineiras, conversando com ele, foi o único que lhe disse que não
fizesse direito, mas morreu justo antes dele entrar para a Universidade.
Quando saiu, ao ter essa discussão com seu
pai, este lhe apontou a porta da rua, viu que sua mãe, falava com alguém, disse
que fosse para casa de sua tia, ela te espera, converse com ela, é pelo menos
sensata. Arrumou sua coisa, ia sair
pela saída de empregados, pois ia direto a garagem, tinha o velho carro de seu
avô lá, que seu pai vivia reclamando, sua mãe lhe deu um envelope, para os
primeiros meses.
Elogios só se tirava a maior nota na
escola, mas isso não passava de um momento fulgas.
Sua mãe era igual, estava era sempre pronta
para sair, ir de compras com as amigas, ir jogar bridge, se alguma comprava
roupas para o filho, trazia igual para ele, que enfiava no fundo o armário, ou
dava para o filho do porteiro, odiava essas roupas de mauricinho como se dizia
na época.
Quando conversou com a tia, ela foi franca,
ou fazes outra universidade, ou entras para a polícia, lhe arrumou uma
entrevista em Brasília, com a Policia Federal, foi admitido, era apesar de tudo
um excelente esportista, sempre tinha feito surf, ia a um ginásio para gastar
sua agressividade, tinha consciência disso, mas entrava e saia, sem falar com
ninguém.
Era mais fácil ele ter amizade com o filho
do porteiro, que tinha sua idade, tinham ido juntos a escola, até que o pai
descobriu, o mandou para uma escola particular.
Odiou desde o primeiro momento, olhava os
colegas, ficava imaginando o que acabariam sendo, na adolescência foi pior,
pois as conversas nunca lhe interessavam.
Na verdade era um paira, só se sentia bem
nos finais de semana quando subia o avô ainda fazia gozação, que ele deixava de
fazer surf para estar com ele.
A tia pouco via, pois seu avô insinuou uma
vez que tinha um relacionamento complicado com alguém, mas não disse com quem,
ele como sempre tampouco perguntou.
Ele só tinha um problema desde o primeiro
momento na Polícia Federal, não confiar em ninguém, pois via as pessoas
pregando uma coisa, fazendo outra.
Se lembrou de uma coisa que uma baba que
tinha tido dizia, faça o que eu mando, não faça o que eu faço.
Amigos nenhum, conhecidos, colegas de
trabalho, que lhe contavam balelas, fingia que escutava, ficava por isso mesmo,
um deles inclusive disse na sua cara, que com ele se podia falar, pois não
fazia fofocas.
Mas na verdade, não se lembrava o que o
sujeito tinha falado, mas em compensação guardava cada palavra que dizia um
bandido, ou mesmo alguém que o tinham mandado observar, nisso era bom, sabia
analisar o comportamento das pessoas, pelo andar, por gestos, movimentos, pelos
olhos, por isso era bom no seu serviço.
Ali no Galeão trabalhava com um, que era
assistente do chefe, que disse, que tinha visto tanta merda, que preferia esse
trabalho, pois assim podia viver tranquilo com sua família, esse foi quem lhe
arrumou o apartamento.
O mesmo um dia, soltou que tinha inveja
dele, pois sabia observar tudo em volta, sem chamar a atenção. Nessa semana tinha observado um homem que
estava para embarcar, o mesmo estava nervoso, levava uma mochila nas costas, de
repente viu que saia de uma porta um policial, que lhe fez um sinal estranho,
foi atrás discretamente, afinal parecia estar pronto para embarcar também.
O mesmo entrou por uma porta de serviço que
o outro tinha deixado aberta, lhe deu uma mochila igual, o sujeito estava
fardado e tudo, como policial interno.
Não deu outra, quando prendeu o mesmo, o
sujeito se mijou nas calças, o fundo da mochila, estava cheio de drogas, em
cima uma camisa, por baixo era tudo bolas de drogas.
Mas o policial, não era policial, o pegaram
saindo do aeroporto, era um traficante com uma placa de um deles, por isso
tinha passado no controle, quando procuraram o mesmo, tinha desaparecido, ou
seja, tinha vendido sua placa.
Claro como dizia seu chefe, ganhar uma
merda, que mal dava para viver, era fácil convencer as pessoas.
Pelo visto depois analisando os vídeos, a
dias esse sujeito entrava com uma mochila, depois saia com outra.
Mas tampouco falou quem era o chefe, o que
ele tinha caçado vamos dizer assim, esse então não tinha ideia de nada, estava
voltando para a Europa, precisava de dinheiro, disse que esse o tinha captado,
por ter escutado uma conversa dele com um parente num bar, aonde dizia que
precisava de dinheiro urgente.
Então era fácil conseguir gente para fazer
esse trabalho, normalmente iram em classe turística, em busca de uma vida
melhor em outro pais, já que no brasil tudo seguia igual, quem tinha, tinha, ou
se roubava para chegar a ser alguém.
Duas vezes tentaram o convencer de fazer
vista gorda, o que fazia isso, acabou na cadeia.
Por isso os amigos o olhava de soslaio.
Puta merda soltou alto.
Escutou uma voz do seu lado, o dia já
começou difícil?
Olhou era um homem de sua altura, branco, com
uns cabelos imensos, amarelos de um loiro velho, estava vestido de branco, com
uma guia atravessando todo seu peito.
Entendeu que era um pai de santo, levava
umas quantas bolsas de supermercado, carregadas, se ofereceu para ajudar.
O outro riu, isso já não se faz hoje em
dia.
Tirou os fones do ouvido, pois assim o
escutava melhor.
Sem querer se viu conversando com o mesmo,
que estava num beco sem saída, não sabia o que fazer de sua vida.
Foram andando por um caminho estreito, até
uma parte mais alta, se admirou de ali ter uma casa grande, antiga.
Isso foi um dia uma fazenda, só sobrou essa
parte, de baixo ninguém diz que aqui viva alguém.
A herdei de meu antigo Pai de Santo, agora
levo a casa que ele tinha, mas não sou como ele, o sujeito era incrível.
Me salvou a vida várias vezes, me orientou.
Pois é o único que fazia isso era meu avô,
mas morreu cedo, foi um grande homem para mim, talvez meu único amigo.
Se viu sentado na varanda com o homem, sem
querer lhe contou toda sua vida.
O mesmo sorria, realmente entraste pelo
caminho errado, pensavas escapar, mas foste aonde o lobo toma água.
Neste pais, honestidade é sinônimo de
burrice, ninguém é honesto.
Fechou os olhos, começou a falar em outra
língua, quando ele olhou para seu lado ali estava um homem negro, imenso, vestido
somente com um pano em volta da cintura.
Riu por perceber que o mesmo falava através
da boca do outro.
Quando viu que ele o via, como por milagre
o outro desapareceu, toda a ilusão daquele lugar, apareceu como era na
realidade, uma casa caindo aos pedaços.
Aqui foi uma antiga casa de santo, quando o
último morreu, não tinham ninguém para seu lugar, os filhos foram
desaparecendo, o puxou pela mão, achou estranho teve a sensação que tocar algo
com eletricidade, venha, foi mostrando, aqui foi uma senzala, depois o lugar
aonde se faziam as cerimonias, o teto estava no chão, depois o levou para um
lugar que parecia várias quartos, ou várias partes, tudo no chão também, aqui
era a casa dos Orixás, não sobrou nada, os garotos vinham aqui roubar que que
restou, foi entrando com ele pela mata, até darem com uma árvore imensa, isso
era o Iroco daqui, ainda tinha pedaços de alguidares ali, não sobrou nada, o
último pai de santo, não preparou ninguém para seu lugar, não confiava como tu
nos outros, hoje em dia isso é difícil.
Vou te mostrar uma coisa, feche os olhos,
estás na casa de teu avô, ele ia te contar isso, mas morreu antes, sei que está
tudo igual, viu o avô movendo a mesa de cabeceira, embaixo tinha tabuas soltas,
ali tinha uma lata imensa, estava cheia de dinheiro.
Ele pensava em dar a ti, isso, para ires
embora daqui.
Pensava que se fosses para os Estados
Unidos, poderias ser feliz.
Mas tua tia daqui não pode saber, na
verdade eres o herdeiro dessa casa, assim que ela morrer é tua.
Mas antes tens que fazer uma coisa, falou
em Yoruba com ele.
Ires a Nigeria, eu vou contigo. Estou contigo a muito tempo, sou teu Orixá de
cabeça, talvez por isso, sejas tão fechado.
Vá a casa de teu avô, encontre isso,
encontraras documentos dentro, leia tudo com atenção, depois decides.
Já nos veremos.
Por um momento se sentiu perdido, voltou
até as casas, a via agora como eram, tudo parecia cair de podre, voltou pelo
caminho, no final encontrou um policial, te perdeste por aí.
Isso foi propriedade privada, hoje em dia,
existe uma disputa entre o ecologista, que querem manter como é, empresas que
querem construir aqui.
Pois não tem dono, o último a morrer foi um
pai de santo, não tinha filhos, isso ficou nessa confusão.
Agradeceu as informações, voltou lentamente
para seu apertamento como ele dizia.
Tomou um belo banho, telefonou para sua
tia, está disse que estava na delegacia, que hoje não tinha hora para sair.
Se vais até em casa, sabes aonde está a
chave que abre, a mantenho no mesmo lugar, depois nos falamos.
Pegou o seu carro, que era gozação te
todos, pois era o velho de seu avô, ele já tinha mandado pintar, mas esse tipo
de carro, um aero Willis, do ano catapum, como dizia o mecânico, nem existia
mais, mas soltava sempre, motor como esse nem se faz mais.
Foi em direção ao Alto da Boa vista,
discretamente, achou a chaves, embaixo de um vaso carregado de flores, umas
rosas que seu avô gostava muito, eram miúdas, floriam o ano inteiro.
Limpou a chave, abriu a porta traseira,
pois essa era de lá.
Andou pela casa toda, o quarto dele parecia
que tinha parado no tempo, era capaz de ver o velho sorrindo para ele.
Fez o que tinha visto na sua visão o avô
fazer, moveu do lugar a mesa de cabeceira, achou estranho a mesma parecia
pesada de proposito.
Moveu as tabuas soltas, realmente ali havia
uma caixa, por cima só tinha blocos de dólares, com uma carta dirigida a ele.
Se encontras isso, é porque já te contei do
meu esconderijo.
Tudo é para ti, por baixo tem documentos, o
mesmo embaixo da mesa de cabeceira, preste atenção, tem uma madeira na
traseira, puxe a mesma, é uma gaveta disfarçada, ali tem documentos sobre teu
pai, seus tráficos de influência.
Tirou tudo, fechou o lugar outra vez, foi
dar uma olhada no lugar que ele disse, ali havia mais dinheiro, era como uma
gaveta escondida, por isso pesava tanto, por baixo do dinheiro, estava uma
quantidade de papeis.
Tirou tudo, foi a cozinha, pegou uma bolsa
de supermercado, colocou tudo dentro, saiu como tinha entrado, colocou a chave
no mesmo lugar, para todos os efeitos não tinha estado ali.
Depois telefonaria a sua tia, para dizer
que iria outro dia conversar com ela.
Se lembrou que no seu tempo em Brasília,
estranhou seu pai lhe chamar duas vezes, mas nenhuma era para saber se ele
estava bem, ia direto ao assunto, queria que ele ajudasse algum deputado.
Se negou é claro, não ia se meter nessas
coisas, quando dizia não, o velho batia o telefone.
Depois lhe chamava sua mãe, essa era mais
suave, mas tornava a dizer não.
Agora entendia as coisas eram mais negras
que brancas.
Quando chegou em casa, deu uma olhada
nesses papeis, eram todos provas contra o escritório de seu pai, que na verdade
era do velho.
Tinha um bilhete, quando te escuto falar da
pressão para seres advogados, eu sofri a de meu pai, nunca quis ser, por isso
me aposentei cedo, essa casa aonde vivo, foi de um homem que não podia me
pagar, por isso fiquei com ela, foi meu remanso de paz, depois da
aposentadoria, meus dias ficavam melhores quando aparecias, tua mãe, tampouco
nunca veio até aqui, só minha filha pequena que passou a viver comigo, mas
quase não a vejo.
Eram provas velhas, mas envolviam gente que
ainda estava na ativa.
Depois abriu a caixa grande de lata, depois
de tirar todo os blocos de dinheiro de cima, encontrou escrituras, presas num
bloco, tinha o nome de um advogado, bem como um bilhete curto, são para ti, achou
raro, pois realmente estavam em seu nome, Marcos Bionder, sem o sobrenome de
seu pai, Alcântara.
Eram apartamentos, no Leblon, Ipanema,
Copacabana.
Telefonou para o número que estava ali, uma
secretária atendeu, riu, o doutor Gomes já morreu, mas passo para o filho dele.
Quando disse seu nome, falou só Marcos
Bionder.
Caramba, ando a muito tempo te procurando, temos
que falar, marcaram no dia seguinte.
Mais abaixo achou uma certidão de
nascimento só com esse nome, além de uma explicação, o que pensas que é teu
pai, te reconheceu como filho, mas tua mãe, já estava gravida quando se casou.
Em sua casa, não tinha nenhuma fotografia
do dia do casamento, agora entendia.
Ficou rindo, o velho era malandro,
esclarecia que a ideia tinha sido do Alcantara, estava louco para ser socio no
escritório, mas nunca foi dele, te pertence por herança, ele não pode vender o
mesmo, não é dono do local, fale com o advogado.
A quantidade de dinheiro ele explicava, que
ia trocando tudo por dólares, os aluguéis que recebia, mesmo o do escritório,
assim se um dia ele resolvesse alguma coisa tinha dinheiro para ir embora.
Nisso viu ao seu lado o negro, que disse
seu nome, para poderes me chamar, sou Exu Ti Ina, que quer dizer do Fogo, vês,
tens dinheiro para ir a Nigeria se preparar.
Mas antes vá a esse advogado.
Estava sentado na pequena sala, pensando,
em cima da mesa, estava o dinheiro, os documentos, nisso para sua surpresa, sua
mãe lhe telefonou, precisava falar com ele, marcaram num restaurante em
Copacabana, achou estranho quando chegou não a viu, até que o maitre lhe levou
para uma sala separada.
Aqui me reúno com minhas amigas, assim
ninguém nos incomoda.
Foi direto ao assunto, seu pai, precisava
que ele assinasse certos documentos, relativos ao escritório.
Ele perguntou o que?
Diz que é relativo ao local, que pelo
testamento do seu avô é para ti.
Por que ele nunca comentou isso?
Descobriu recentemente, pois foi ao
cartório de registro, lá constava tu como proprietário.
Ele riu, Marcos Bionder, sem o Alcântara,
verdade, porque não sou filho dele.
Ela abriu uma boca imensa, como dizendo
“OH”, como sabes disso, meu avô, teu pai, me deixou documentos a respeito.
Mas porque ele quer vender?
Diz que vai se aposentar, quer se livrar de
tudo.
Desconfiado como era disse que ia pensar.
No dia seguinte logo cedo, ligou para um
conhecido da Polícia Federal, perguntou se estavam analisando ou investigando o
escritório de seu pai?
O outro quis disfarçar, mas acabou dizendo
que sim, nos faltam provas, mas ultimamente ele está movendo coisas
estranhas. Vendeu inclusive o
apartamento que vive.
Olha, me dê seu endereço, ou melhor, me dê
meia hora, marcaram num restaurante perto da central.
Tirou uma cópia de todos os documentos,
numa papelaria ali perto, tornou a guardar os documentos, iria outra vez a casa
do avô para esconder lá, pois a partir que estivessem em movimento, iriam ao
seu apartamento, tinha certeza disso.
Deixou escondido no carro, estacionou longe
de aonde tinha marcado, ainda, pegou o metrô, para sair justo em frente ao
lugar marcado, dali iria ao advogado.
Encontrou o conhecido, se sentaram, numa
mesa afastada, lhe entregou o envelope, perguntou se era isso que ele estava
buscando, a cara do sujeito era impressionante.
São cópias verdade?
Sim, recebi isso do meu avô, ficou guardada
todo esse tempo, até descobrir que esse senhor não é meu pai.
Mostrou uma cópia da certidão de
nascimento, o nome da mãe, com pai desconhecido, só o sobrenome do avô Bionder.
Espero que te sirva, me desculpa, mas tenho
um compromisso.
Foi ao escritório do advogado, era uns dez
anos mais velhos do que ele, se desculpou, mas nunca o procurei pelo nome, sim Bionder,
que era o que meu pai tinha anotado.
Acabo de descobrir que não sou filho desse
senhor, tornou a mostrar a cópia da certidão de nascimento.
Lhe perguntou por um acaso esse apartamento
do Leblon, é aonde vive minha mãe.
Sim como sabe, pois o filho da puta acaba
de vender o mesmo.
Espere, telefonou para o registro civil,
falou com uma pessoa conhecida.
Diz que hoje ele irá assinar a venda.
Diga ao mesmo, que o mesmo me toca por
herança, que deve falsificar a assinatura. Espere ligou para o conhecido com
quem tinha falado, disse o que ele ia fazer.
Ok, melhor não pode ser.
O pegaram no fraga, assinando o papel como
Marcos Bionder.
Ele chegou com o advogado nesse momento,
como podes vender alguma coisa que não é tua.
Pelos anos que te aguentei, bem como a
família.
Saiu dali algemado, como era conhecido, se
escutava murmúrio. O que estava
comprando levou um susto, disse que ia entregar o dinheiro agora para ele, me
pediu tudo em dólares.
Telefonou para sua mãe, disse que chamasse
sua tia, que esperava as duas na polícia federal.
Chegou dizendo que uma amiga tinha lhe
telefonado, que ele tinha saído algemado do Cartório de Registro, mas ninguém
sabia por quê.
Explicou para as duas, numa sala que lhe
emprestaram. A polícia Federal, por
algum motivo que não sei, estava atrás dele, como ele não sabia do testamento
do velho, sua tia, soltou que só sabia que o seu pai tinha falado, que a casa
um dia seria dele.
Nenhum advogado fez contato.
Bom, o teu marido, disse a sua mãe, ia
falsificar minha assinatura, que ele nem sabe como é, para vender o apartamento
que a senhora vive, que é meu, por herança do meu avô, por isso viveram lá grátis
todos esses anos.
A cara dela era o máximo, isso se acabou,
sugiro que a senhora desça do cavalo, pois o buraco é mais embaixo, ele deve
milhões não sei para quem, foi tudo que soube da polícia.
Pelo visto, ia escapar essa noite, tinha um
bilhete para Los Angeles, só para ele, ia deixar a senhora no hora veja.
A cara dela foi desmontando, com certeza ia
visitar algum amigo.
Deixa de desculpas, ele disse que não
aguentava mais aguentar a senhora.
Tudo bem tínhamos um casamento de
conveniência, mas nos dávamos bem, frequentamos a sociedade.
Sua tia soltou, acorda minha irmã,
frequentas sim umas amigas, que os maridos são como ele, bandidos, claro todos
do colarinho branco.
Finalmente os ombros cederam, escondeu a
cara entre as mãos, quando tirou, tinha a cara toda borrada, a outra lhe
ofereceu um lenço de papel.
Aonde acharam esses documentos perguntou.
Nas coisas que o vosso pai me deixou, mas
que estavam com um advogado que procurava Marcos Bionder, não Alcântara.
Foste tu que o entregaste a polícia, disse
sua mãe escandalizada.
Bem vejo que a senhora é burra quanto a
realidade, ia a deixar no hora veja, pois estava vendendo a casa que a senhora
vive.
Com certeza me levava com ele, para algum
cruzeiro pelo Caribe.
Sua tia deu um tapa tão forte em cima da
mesa que ela se assustou, abre os olhos minha irmã, deixa de ser burra ou se
fazer de burra.
Não penses que quero que vivas comigo.
Ela seguia de boca aberta. Tornou a perguntar se tinha ele que tinha
entregado os documentos.
Agora o que faço?
Ele resolveu ser mal, arrumar sua bagagem
sair desse apartamento, pois foi vendido, não verás nem um puto dinheiro do
mesmo, terás que ir viver no subúrbio, ou numa residência de velhos.
Faras isso comigo.
Ora a senhora nunca foi minha mãe, me pariu
isso sim, minha tia é mais minha mãe que a senhora.
Nisso tomou consciência de uma coisa, agora
é que a coisa ficava feia para seu lado, um policial da Federal, com o pai
metido em negócios escuros.
Se levantou, disse algo ao ouvido da tia,
ela concordou.
Foi ao departamento pessoal, pediu os
formulários de demissão, preencheu assinou tudo, subiu outra vez, fez um sinal
de positivo para ela.
Essa ia levar sua mãe para casa, ainda se
encontraram com o velho no corredor, tinha os ombros caídos, disse baixinho,
filho da puta.
Vê minha mãe, está chamando a senhora de
puta.
Ele soltou, não pense que nunca soube de
tuas aventuras, disse na cara dela, ela fazia a mesma coisa, a boca de “OH”.
Sua tia a saiu arrastando, marcaram de se falar na casa do avô.
Disse ao advogado, que no dia seguinte
voltaria, que tinha muita coisa para pensar.
Foi até a casa do velho, entrou por detrás
como sempre, escondeu as coisas todas nos seus lugares originais, saiu dali
direto para andar pela Paineiras, tinha encontrado a roupa que usava quando ia
com o velho.
Se o estavam seguindo, era o que veriam,
colocou seus fones de ouvido, escutou o Exu Ti Ina, rindo, fizeste bem.
Parecia que ia caminhando com ele, ali pela
floresta, não cruzaram com nenhum carro.
Atendeu o celular, falou com a tia aonde
estava, uma das amigas de tua mãe, esta aqui com ela, lhe dei um tranquilizante
pois não para de fazer dramas como sempre.
Nos veremos quando voltes para casa.
Ele fez um passeio como fazia como avô
parando para observar a paisagem.
Que filho da puta, deve estar em alguma
coisa muito gorda, os que tinha negócios com ele que se cuidem, pois ele é daqueles
que conta tudo.
Caiu numa gargalhada, que um casal que
passava por ali, correndo, chegou a parar para o olhar, parecia um louco, se
desculpou.
Quando conversou com a tia, na volta,
algumas vezes riram muito, outras nem tanto.
Eu sabia que não eras filho dele, porque
era uma adolescente na época, estranhei aquele casamento só no civil, o velho
em seguida saiu do apartamento veio viver aqui, vim com ele, pois era a
pequena, na verdade eu não encaixava lá.
Sempre fui muito masculina, em comparação com tua mãe, ela adora fazer
esse papel de frágil, se ele diz que tinha amantes, eu acredito, depois que
foste embora de casa, mais ainda, pois nunca vinha aqui ver o velho, no enterro
perguntou ao advogado se tinha testamento, esse disse que sim, mas que nenhuma
de nós fazia parte do mesmo.
Ficou uma fera, mas imaginou que ele tinha
algum filho ou filha por aí, se falava muito nisso.
Eu não me incomodei, sempre tive um pé
aqui, mas na verdade sempre vivi com um homem casado, temos uma casa perto de
aonde trabalho, quando ele pode estamos juntos, caso contrário não. Como eu digo, aparentemente gosta desse meu
tipo masculino, já tentaram me transferir da minha delegacia, mas me nego sair
de lá, para algum lugar complicado.
Lá estou acostumada, o pessoal me respeita.
O que foste fazer, falar nisso, quando
saíste da sala.
Bom na verdade ia fazer de qualquer jeito,
fui ao departamento pessoal, preenchi o formulário de demissão, estou queimado,
pedi para me mandarem para outro lugar, mas claro já deviam saber que estavam
investigando o sem-vergonha, por isso me mantinham no Galeão.
Na verdade, nunca gostei desde o primeiro
momento que descobrir que tudo é uma fachada, que os de dentro são tão podres
como os de fora, claro existe exceções, mas desconfio sempre, imagina levar um
tiro de um companheiro, escutar teu chefe dizer na tua cara, que eu devia ter
ficado quieto.
Ou seja, a coisa é complicada, nunca quis
estudar direito, não sabia o que fazer de minha vida, essa é a verdade, só o
velho me entendia, me dizia vai chegar uma hora que tudo se resolvera.
Só que ele morreu antes do que pensava.
Creio que nunca imaginou que não faria ele
mesmo o que acabei de fazer.
O herdeiro que ela pensava que era algum
filho dele ou filha, sou eu na verdade, agora já sei, mas claro consta como
Marcos Bionder, o velho advogado morreu em seguida a ele, o filho não sabia me
encontrar.
Amanhã saberei de mais.
Ela fez uma coisa, as chaves da casa, eu só
venho aqui molhar as plantas, essa é a verdade, a casa ele sempre dizia que
seria tua.
É verdade, aqui eu tinha paz, como hoje ao
correr pela floresta.
Me pergunto em que ele andou metido, para
querer fugir assim?
Alguma merda grande com certeza, esperemos
que chegue a um julgamento, se não o matam antes.
Dormiu lá, no seu velho quarto, sentia
falta desse lugar, despertar de manhã, com pássaros cantando, foi até ao
apartamento, na Ilha, falou com o proprietário, deixou o mesmo, os moveis era
dali mesmo, só tinha que levar sua roupa.
Falou com o advogado, foi para o centro da
cidade.
Este o esperava, disse que confusão ontem,
depois conversei com o homem que ficava com o apartamento, achei que ele
mostrou pouco dinheiro, me disse que seu pai, devia horrores para ele, pois
jogava num casino clandestino do mesmo, assim liquidava sua dívida. Mas não ficou lá, ele conhece os homens da polícia
Federal, ao parecer ainda deu mais informação.
Primeiro ele não é meu pai, nem adotado
sou, tenho esse outro registro que é o que vale para mim, saber que não sou
filho dele.
Já pedi as contas da Polícia Federal, agora
vou tratar da minha vida.
O mesmo relatou que tudo referente aos
apartamentos, há uma conta no banco que está em teu nome que pagava os
impostos, por aí ele deve ter achado o nome Marcos Bionder, ia falsificar a
venda através disso.
Bom, tens um apartamento, muito bom,
alugado a anos, para um cônsul da França, cada vez que vai um embora, eles
alugam para o seguinte. Pois o lugar é
maravilhoso, consta como uma compra feita a alguém que devia dinheiro a ele.
O outro de Ipanema, é menor, também está
alugado, depois está aonde vive sua mãe.
Sabe o que eu devia fazer, vender o mesmo.
O senhor vai fazer o seguinte, diga que o
real proprietário não sou eu, se ela quer ficar, tem que pagar todos os
impostos, condomínio, não creio que tenha dinheiro próprio.
Tem sim, pois herdaram de seu avô dinheiro
de uma conta que ele tinha no banco, cada uma recebeu uma parte, de muito
dinheiro na época, se o manteve isso é com ela.
Outra coisa, temos que ir ao banco, tem uma
conta em nome do senhor, tem o dinheiro aplicado, ele era previdente, bem como
uma caixa, mas tampouco sei o que existe dentro, pois se está lá não foi
declarado.
Ele era muito amigo do meu pai, esse nunca
me disse nada, como morreu logo em seguida, tive que aprender a destrinchar as
coisas que deixou.
Gosta disso, lhe perguntou diretamente,
pois eu fiz direito, confesso que odiei.
Sim, eu de garoto vinha aqui para o
escritório, fingia ser advogado.
Ah, o andar inteiro do escritório de
advogados é seu também, nessa conta, vai todos os valores de alugueis, se paga
imposto de renda de tudo, tenho registrado para depois passar para ti.
Quero que continue assim, vou sair do pais
por um tempo, quero me afastar para pensar.
Perfeito, mas vamos ao banco, depois o
senhor terá que tirar novos documentos com esse novo registro que tens.
No banco viu o valor, era alto, nunca tinha
esperado isso, o Rogério Scarzela, lhe explicou que era uma conta de aplicação,
por isso o dinheiro ia rendendo, mostrou quando tinha começado, muito antes,
pelo cálculos ele tinha uns 15 anos.
Depois com a chave do cofre debaixo, desceu
com um do banco, abriu ali sozinho, riu muito, tinha outro bilhete, ações do
governo, o último valor, antes dele morrer, era uma fortuna, sempre investi
pensando em ti.
Quando subiu, foi pensando numa coisa.
Voltaram para o escritório, ele pediu um
mapa, mostrou para o advogado, descubra a quem pertence isso, se posso comprar
mais a frente, entre a negociar o mesmo.
Dali saiu, marcou hora no dia seguinte,
para tirar os novos documentos, inclusive passaporte, podia viajar com o que
tinha, mas queria ir com um novo.
Falou por celular, com o conhecido da
policia federal, esse riu a bessa, como todos, quando se aperta um pouco, ele
soltou tudo que tinha dos clientes complicados dele, aonde estão os documentos,
tivemos que ir ao apartamento de tua mãe, que ficou histérica, ela nunca
entrava no que era o escritório, o tinha proibido.
Não parava de dizer muito dramática, o que
vai ser de mim, lá estava uma amiga dela, que nesse momento recebeu uma chamada
de alguém o marido tinha sido denunciado pelo marido de tua mãe, de simpática
virou uma fera, quase avança em cima dela.
Cena digna de uma telenovela da televisão.
Já aceitaram tua demissão, houve um
comentário que tive que rebater, aonde já se viu denunciar o próprio pai.
Eu expliquei ao que disse isso, que ele não
era teu pai.
Mas não importa, é um advogado, um homem de
bem, mais um para minha lista de bandidos aqui dentro.
Ficaram os dois rindo, vou viajar, mas
antes falo contigo.
No dia seguinte, deu entrada nos novos
documentos, teve que explicar bem por que trocava, o rapaz disse que para
viajar, como seu passaporte da polícia federal, era melhor.
Não prefiro ir com um novo.
Aonde vais, ele explicou, o outro lhe deu
uma lista, de vacinas que tinha que tomar, o que havia que providenciar.
Tudo era uma imensa barafunda, sua tia
ligou rindo a bessa, agora a coisa fedeu, pois todas suas queridas amigas,
estão como ela, com os maridos presos, muita merda jogada no ventilador, ele
esperava escapar, tinha uma amante esperando o mesmo em Los Angeles, tua mãe
agora sabe disso.
Esta dentro de casa feito uma barata tonta,
mas não se atreve a te chamar, agora que sabe que ele nunca foi seu pai, ela
tampouco uma mãe exemplar.
Eu lhe avisei a anos, quando vi como ela te
tratava, mas as coisas são assim, nada de pagar os crimes no inferno, é aqui
mesmo que se paga tudo.
Sem saber o porquê, disse a ela, pergunte
se ela sabe quem é Pai André do Obaluaye, pois ele sabe muito dela.
Sem saber por que, fez uma chamada ao
Rogerio Scarzela, mandou ele verificar tudo sobre esse homem, acho que é o que
conheci em imagem, quando estive naquele lugar.
Desta vez que ligou foi ela, perguntou
aonde ele estava rindo disse que na casa dele.
Mas aonde?
Ora senhora minha mãe, aonde vivia vosso
pai.
Depois silencio, escutou uma porta se
fechando, chamou sua tia, está estava mais, perto, só disse vou para aí, porque
ficou histérica quando falei esse nome que disseste.
De aonde saiu isso?
Uma larga história, te contarei depois,
creio que foi quando me dei conta de algo ao meu respeito que não sabia.
As coisas começavam a se encaixar, sem
querer porque tinha pensado, o Exu Ti Ina, sentou-se rindo ao seu lado. Sim ele o homem com quem conversaste lá na
pequena floresta, é o teu pai verdadeiro, só soube depois que morreu, deve ter
conseguido de alguma maneira regressar, mas não podia falar nada para ti, por
isso foi contando o que era aquele lugar.
Ele não era filho do pai de santo anterior,
mas foi adotado por ele em criança, esse homem era filho de um milionário que
jogou tudo para o alto para ser pai de santo, era de família rica, herdou
somente esse lugar, que todo mundo desprezava, mas era a fazenda original da
família que tinha ficado rica assim.
Tinha uma senzala, imensa, por isso tem muitos Exus por lá, foram
liberados por ele, mas seguiram vivendo ali, era o primeiro terreiro de
Candomblé do Rio de Janeiro regido por um Exu.
Ao seu filho, ele mandou com tua idade para
a Nigeria, para saber mais, imagine chegar la um menino loiro de olhos azuis,
muito branco, que se internou no país, voltou outro, mas tinha uma ordem, ter
um filho.
Morreu pensando que não tinha conseguido,
esse eres tu, tua mãe uma dondoca de Ipanema apareceu por lá, tinha a
informação errada que ele era de família bem, muito rica, o envolveu, mas ele
sabia o tempo todo o que ela queria, fizeram sexo, foi quando escutou a
conversa, que ele era filho adotivo do homem que ela pensava que era rico.
O velho ainda era vivo, ria muito, pois
tinha envolvido o filho nisso, sem ele entender nada, era para conseguir alguém
no futuro para levar tudo isso lá.
Basta agora pedires uma prova de ADN, te
levo aonde está enterrado, assim ficará mais fácil, o mundo se modernizou,
aprendi, recebo orientação.
Ficou rindo, mas isso depois terás que ir a
Nigeria com combinado.
Ele marcou com o Rogerio Scarzela, no dia
seguinte.
Nisso chegou sua tia, ele riu muito com
ela, dizendo tens uma cara curiosa, vamos nos preparar, eu já sei quem é o Pai
André.
Já me contaram, o conheci a dias.
É vivo ainda?
Não já morreu.
Como o conheceste?
É a tal história que tinha que te contar,
depois que ela for embora te conto tudo.
Viram quando parou um taxi na porta, ela
gritando ao homem que esperasse, como ia voltar desse lugar horroroso.
Ele abriu a porta, entrou como uma fera.
De aonde saiu esse nome?
De meu pai, diz a senhora?
A cara dela era impressionante, foi por
isso que entregaste os papeis.
Não, fiz a pedido do meu avô, que teve a
honra de me dar seu sobrenome, para que no futuro eu não ficasse com o de um
bandido.
A cara dela era impressionante, era uma máscara
de ódio, acabo de perder todas minhas amigas da sociedade, os maridos estão
presos.
Ah, então era uma sociedade de bandidos,
quer dizer tu, soltou sua tia.
O que faz ela aqui?
Bom, na verdade ela foi mais minha mãe que
a minha própria que me gerou, apenas pensando em se casar com um homem que
pensava que era rico, para descobrir que era filho adotivo do pai de santo,
esse sim era rico, mas velho. Foi ele
que a enganou.
Filho da puta, de fina já não tinha nada.
Quero esse apartamento para mim.
Impossível, teu marido vendeu o mesmo para
o dono de um casino, aonde devia milhões, além de que ia fugir com sua amante,
que o esperava em Los Angeles, aliás uma amiga da senhora.
A máscara, mesmo com toda a maquilagem era
impressionante.
O filho da puta, nem sabia fazer sexo, era
um ingênuo, tinha passado anos na Africa, não sei aonde para ser pai de Santo,
mas era como tu, loiro de olhos azuis, alto, até muito bonito, pensei que tinha
me arranjado.
Depois escutei que ele era filho adotivo,
que não tinha direito a nada da herança da família do outro.
Quando descobri que estava gravida, já
estava no quinto mês, impossível me desfazer de ti, foi quando o meu marido, me
convenceu de casar-se com ele, nunca o enganei a respeito.
Sei que nunca foi perfeito, no acordo o
velho passava o escritório para ele, não gostava de lá, mas nunca lhe deu a
posse do local, isso ele descobriu depois, que o tinha enganado, o mesmo com o
puto apartamento, estava no nome do velho, nunca mudou, me prometeu que seria
meu.
Quando morreu, pensei que agora ia ser meu,
mas o filho da puta do advogado me disse que só tínhamos direito ao dinheiro no
banco.
Nunca o toquei com medo do futuro, afinal
tinha uma quantidade de dinheiro por mês do acordo de casamento.
Bom agora chegou a hora da senhora usar
esse dinheiro, porque terá que sair do apartamento, pertence a outra pessoa, um
bandido como seu marido, que denunciou a todos que confiavam nele.
Tampouco poderá conseguir nada, o dinheiro
que ele conseguiu fazendo merdas, já está na posse da amante, segundo a Polícia
Federal, não podem fazer nada contra ela.
A cara de fúria, era imensa, vocês dois
devem estar rindo as minhas custas pelas costas.
Não senhora, rimos na frente mesmo, por ser
uma das muitas loiras idiotas desse pais, que pensa que assim ficam bem na
vida.
Se for morar numa quitinete de Copacabana,
esse dinheiro pode durar.
Você não vai me ajudar?
Não senhora, vou fazer como meu pai, irei
para Nigeria, até aprender a ser um pai de Santo.
A cara de asco dela era impressionante,
como poderia a partir de agora chamar essa mulher de mãe.
Olhou a irmã, que soltou, te vira, me
chamaste a vida inteira de sapatão, mas meu homem, é muito mais que o teu.
Saiu batendo a porta.
Espero que tenha dinheiro para pagar o
Taxi.
Espere, telefonou de novo para o Rogerio,
deve estar de saco cheio desse cliente, que não para de chamar.
Nada, pelo menos movimenta meu dia, pode
falar.
Exija a saída dela do apartamento, pergunte
a esse homem se quer comprar o mesmo, venda para ele, como as coisas já estava
mais ou menos feita, assinarei como Marcos Bionder, mas quero o valor real,
amanhã nos falamos.
Vais fazer isso mesmo? lhe perguntou sua
tia?
A senhora não viu, se lhe dou dinheiro,
será como abrir uma torneira em que a água não para de jorrar.
Ela caiu na gargalhada.
Saíram os dois para jantar, foram a um
restaurante que o velho gostava de ir, na Barra da Tijuca, o dono a reconheceu
em seguida, riu dizendo, não me diga que esse é o menino Marcos, teu avô,
sempre estava falando em ti.
Os sentou a parte, perto de uma janela,
dali se via o mar.
Ele aqui mesmo me disse uma vez, que tua
mãe tinha saído a sua mulher, que tudo fazia por interesse, o deles foi um
casamento desses combinados, nunca a amou, na verdade, ela fugiu com o melhor
amigo dele.
Nem sei se é viva ainda. Caíram na
gargalhada, que família, como disse o da Polícia Federal, parece uma telenovela
das oito da noite que são mais dramáticas.
Bom me conta a história.
Ele contou do momento magico que tinha
vivido, para mim aquele homem era real, eu realmente o ajudei com as bolsas,
quando chegamos na casa, me contou o que era aquele lugar, mas quando apareceu
o Exu Ti Ina, que é meu Orixá de cabeça, a coisa voltou a realidade, me mostrou
tudo como era, me levou até o Iroco, quando sai de lá vi tudo caindo aos
pedaços.
Vou procurar saber disso.
Mas não falou com ela das coisas do avô, ainda
era cedo para isso.
Ela o deixou em casa, dia destes vou marcar
um jantar para conheceres meu homem.
Ele dormiu essa noite, sonhou com seu Pai,
André, esse contou sua parte, eu fiquei furioso quando descobrir que meu pai,
tinha tramado isso, para conseguir um filho meu que herdasse o terreiro, mas
ele não contava que eu tampouco sabia o nome dela, usou um nome falso.
Sei que nos jogos dava que eu tinha um
filho, mas não sabia aonde, os Orixás diziam que tinha que ter paciência, mas
não contava em morrer jovem, tinha um problema de coração, que nem eu mesmo
sabia, um dia na frente do Iroco cai, nunca mais me levantei, meu corpo foi
enterrado lá.
Te mostrarei aonde.
Depois dormiu pesado até as 9 da manhã,
quando escutou tocarem na porta, era o seu conhecido da Polícia Federal.
Vinha lhe dar uma satisfação, tinha
acontecido o que ele imaginava, como todos estavam em prisão preventiva, ele
deve ter visto que não tinha escapatória, se suicidou, porque ali estava também
o marido da mulher com quem ele ia fugir.
Sinto muito.
Nada disso, ele não era meu pai, ao
contrário era um perfeito desconhecido, quando muito me dirigia a palavra para
saber se ia bem na escola, fui daqueles garotos que tinha inveja dos colegas,
aos que os pais levam na escola, passam a mão pelos seus cabelos, que eles
pentearam, reclamam, eu sonhava com isso, pois nem chegava perto de mim.
Aliás, muitas vezes pensei em ir a um
psicólogo, mas meu avô fazia isso por mim, saiamos íamos fazer largos passeio
pela Paineiras, aonde eu falava tudo para ele.
Ele dizia uma coisa, tudo que se faz aqui,
se paga aqui, creio que não esperava morrer antes.
Aproveitou colocou a cafeteria para fazer
café, tomou um banho, saiu de casa, sorriu para si mesmo ao sentar-se no velho
carro do seu avô. Adorei o dia que ele
me deu de presente essa é a verdade.
Foi até o centro da cidade, Rogerio
Scarzela, esperava por ele, contou tudo para ele, para fazer um teste de ADN,
teremos que ter a ordem de um juiz, pior se ele não está enterrado num
cemitério.
Posso pedir esse favor ao meu amigo da
Policia Federal.
Isso seria ótimo.
Falou com ele, marcaram os dois, vou
descobrir quem leva o caso dessa propriedade.
A caminho comentou com o Rogerio, em dias
minha vida, deu uma volta incrível.
Quando estavam entrando, viu que o Exu
estava ao seu lado, lhe fez um sinal, ele parou para fazer que amarava seu
sapato.
O juiz vai te perguntar o que queres fazer
com a propriedade, existe um clausula, por isso não se resolve, que lá só pode
ser uma casa de santo.
Entendi.
Rogerio perguntou se falava com ele, nem
precisou responder, pois seu conhecido vinha descendo as escadas.
Venham eu sei quem é o juiz, quando falei
no caso, me mandou ir até sua sala, vai nos atender.
O senhor ficou olhando para ele, conheci o
último pai de Santo, ele completou o nome de seu Pai, André do Obaluaye,
verdade?
Sim, esse mesmo, como chegaste a isso.
Se virou para o homem, vejo que o senhor
acredita nisso, posso falar a sos com o senhor.
Os dois saíram, ele lhe contou a história
do encontro dos dois, o que tinha acontecido a partir disso, nem sabia que ele
era meu pai, descobri por acaso.
Seria necessário uma prova de ADN, ele me
disse que me mostra aonde está seu corpo, isso claro se o senhor concordar.
Esse homem me ajudou muito no meu começo de
carreira, me disse uma coisa um dia que perguntei o que podia fazer por ele, me
soltou na cara, um dia uma pessoa vai procurar o senhor, te tocara ajudar.
Marcaram para dois dias depois ele levaria
com ele, médicos legista.
O seu amigo da Polícia Federal, contou que
a coisa era mais feia do que parecia, todos que estão presos, tinham pensado em
escapar.
Os negócios desses sem-vergonhas se
misturam, se lembrou do comentário de sua tia, falou uma alta sociedade de
bandidos.
Exatamente isso, pior que se estende a Brasília,
então toca andar de sapato alto, em cima de ovos, tu sabes como é.
Nesses dias seguintes, ele saia para largos
passeios como os que fazia com seu avô, escutando a música que o tinha
despertado no dia, que tudo começou a se mover, Palavras de Gonzaguinha.
Chegou à conclusão que estava certa, nada
de ficar chorando o leite derramado, como dizia seu avô, tocar o barco para
frente.
Sua tia veio com ele, até a Ilha do
Governador, disse que não ia perder isso por nada desse mundo. Quando chegou a
pedra, seu pai estava lá, sorria para ele, os outros não vão me ver, mas tu
sim, do lado dele estava o Exu Ti Ina, aqui começa tua outra caminhada meu
filho.
Foram subindo, pararam para olhar as ruinas
da casa, da senzala, da casa dos Orixás, até chegarem ao Iroco.
Ele lhe mostrou, cai aqui, me enterraram
justo aqui, nessa lateral ao lado do meu pai adotivo.
Explicou aos legistas, aqui tem dois
corpos, um mais próximo a árvore, é o do pai adotivo de Pai André, o outro é o
dele.
Não estava muito profundo, ainda sorriu,
pois havia uma pedra ali, meio apagada, Pai André.
Os homens começaram a escavar, deram com um
corpo enrolado numa mortalha.
O senhor quer que o tirem do tumulo, para
ir para outro lugar, lhe perguntaram.
Nada disso, ele pertence a esse Iroco, isso
seria ofender os Orixás.
Tiraram amostras várias, inclusive de um
pedaço de osso, que levaram, mais abaixo no carro, retiraram sangue dele, bem
como uma amostra de pele, pois no corpo ainda tinha pele grudada ao ossos.
Ele já tinha agora ao passaporte, estava
imaginando como fazer a viagem, foi a uma agência, olhar, qual era o caminho
mais fácil.
Havia duas maneiras simples, uma era ir por
Paris, a outra ir por Casablanca, de lá outro avião para a Nigeria.
Nesse dia o Rogerio lhe chamou, tinha
falado com o homem do casino clandestino em Bento Ribeiro na Baixada.
O mesmo queria o apartamento, já tinha
feito planos para ele, apresentei o valor real, concordou em pagar.
Faras o seguinte, vais depositar todo esse
dinheiro, em outro banco aonde vou abrir a conta, no Banco do Brasil, em meu
nome, tenho os documentos, vou contigo lá, abrimos essa conta, deixarei esse
dinheiro rendendo.
Com ele vais começar a limpar o lugar aonde
era a casa de santo do meu pai, contrate alguém para isso.
Vou adorar fazer isso.
Dias depois de tudo resolvido, o homem
disse no cartório, que seu pai tinha concordado, que ele ficava com tudo que
estava dentro, ele disse que sem problemas, mas creio que terás que ir com um
batalhão para tirarem essa mulher de lá.
Ela o chamou furiosa, quer dizer que esse
filho da puta tinha realmente vendido o apartamento para esse mafioso.
Veio aqui, com alguns homens me deu um
prazo para sair, só posso levar minhas roupas, descobri que as joias eram todas
falsas, as verdadeiras ele deu para a outra.
Ele disse que estava ocupado, não podia atendê-la.
Como podes falar assim, com a mulher que
viveu para ti.
Ele não se conteve, sabe o que meu amigo da
Polícia Federal falou, que tudo que sai da sua boca, parece novela da Globo.
Desligou o Telefone, dois dias depois
embarcou.
Só sua tia e o Rogerio sabiam aonde ia.
Foi por Casablanca, de lá trocou de avião.
Estava era preocupado, mas quando chegou a
Nigeria, viu um homem velho, com uma roupa branca, que parecia ter visto dias
melhores, foi direto a ele, saudou o Exu que estava ao seu lado, venha comigo.
Tinha um carro velho, algumas partes, eram
metal emendados.
Viu que ele tinha seguido o conselho, nada
de uma bagagem grande, iremos acampando no meio do caminho, nada de chamar a
atenção, lhe passou dois panos, um muito estampado, para enrolar no seu corpo,
outro para sua cabeça, tapar seus cabelos loiros.
Três dias depois de estrada com muito
solavanco, chegaram a uma montanha.
Venha.
Ele saiu do carro, esticou seu corpo todo,
o Exu se matava de rir, vinha ensinando a ele a falar Yoruba.
Subiram a montanha, uma parte eram
plantações, mas quanto mais subiam, a mata começou a se fechar, até se
transformar em floresta. Ele ia de bota, mas o homem descalço, reparou que a
sola de seu pé, era como uma casca.
Nessa noite dormiram em volta de uma
fogueira, ele tinha um saco de dormir, o outro não, lhe ofereceu, esse gostou,
eres mais jovem, riu a bessa disso.
Não saberia dizer a idade do mesmo, tinha a
cara cheias de rugas, agora só falava com ele em Yoruba como via o Exu fazer,
ele entendia, as vezes não tinha vocabulário para responder.
Quando depois de dois dias, em outra
montanha, chegaram a um lugar estranho, ali só havia um casebre, pronto para
cair, estava sentado um homem mais velho do que o outro, idade indefinida, ah,
o filho do menino André disse.
O outro imediatamente tirou toda a roupa
que tinha, ficou como o homem só com um taparabos, o velho se inclinou, a
partir de hoje, o Exu, estará presente em tudo, poderemos ver, conversar com
ele.
Quando disse que tirasse sua roupa, ficou
nu na frente deles, o velho disse que parecia estar vendo o menino André quando
chegou.
O outro, lhe passou uma mistura de cinzas
de uma fogueira, são do Ina, disse ele, misturada com a terra, disse da mãe.
Ele não saberia dizer depois quanto tempo
ficou, só se lembrava do dia que tinha chegado, só seis anos depois foi que
voltou.
No aeroporto foi uma confusão, foi
necessário chamar a embaixada brasileira, veio um homem reclamando, mas o
conhecia, só que de branco ele não tinha nada, a pele era morena, os cabelos
era imensos, como o de seu pai, uma mistura de brancos com loiro.
O conseguiram embarcar, já tinha avisado a
embaixada de Casablanca, quando chegou ao Rio foi o mesmo problema, mas ele
tinha avisado sua tia, que pareceu preocupada, bem como o Rogerio, os dois
estavam ali, ela se agarrou a ele pela cintura, menino, estás magro demais.
O Rogerio, ria, não se parece nada com o
homem que saiu daqui claro na época ele tinha quase 30 anos, agora sabia que
tinha mais seis.
Na verdade, não queria voltar, tinha
encontrado a paz em sua alma.
No carro, o levaram para a casa de seu avô,
estava igual, segui vindo aqui molhar as plantas, mandei dar uma arrumada em
tudo.
Depois te conto as novidades.
Ele não tinha dormido a viagem inteira,
entrou em seu quarto, viu que não ia conseguir dormir em sua cama, jogou um
pano no chão, o que estava enrolado no seu corpo, dormiu o sono dos justos,
ainda sonhou com o velho lhe dizendo agora tens que te levantar tudo outra vez.
Sua tia dormiu no quarto de seu avô, acho
que vou me mudar para cá, agora estou sozinha, meu companheiro morreu.
Ele riu, sabia disso, disse o nome do mesmo,
como sabes disso, soltou ela.
Ele bateu na sua cabeça.
Iria sentir falta de despertar com os
pássaros cantando na arvore em cima de aonde estivesse dormindo, nunca poderia
dizer a ninguém aonde tinha estado todo esse tempo, sentia dificuldade de falar
em português, já que pensava em Yoruba.
No dia seguinte, marcou com o Rogerio, foi
com sua tia até a Ilha do Governador, um policial disse para eles a hora que
pararam, que ali era propriedade particular.
Ele soltou, eu sou o dono, sempre serás
bem-vindo, nisso chegava o Rogerio que explicou ao homem que ele era o dono de
tudo.
O contratei, porque chamou muita atenção, quando
começaram a remover os restos daqui, mas só limpamos, tudo está te esperando.
Por cima da casa, tinha como um telhado de
metal, protegendo o resto da construção. Já não há perigo para entrar.
A senzala, tinha só as paredes, com outro
telhado igual, a casa dos Orixás igual.
Marquei com o engenheiro que fez tudo isso,
ele vem para cá.
Agora me desculpem algum tempo, vou ver meu
pai.
Quando chegou ao Iroco, lá estava seu pai,
bem como o pai adotivo dele, havia como uma energia no abraço que recebeu, se o
vissem de longe abraçava o nada. Exu Ti
Ina, disse aos dois, ele cumpriu tudo, agora já pode assumir o lugar.
Vou reconstruir tudo, aos poucos creio que
apareceram pessoas procurando ajuda.
O engenheiro que apareceu, quando ele
finalmente desceu, era um negro tão alto como el, foram andando pela casa, disse
como queria, riu muito, não tinha visto, só em sonhos a casa funcionando, a
cozinha tinha um fogão antigo a lenha, que formava um “L” numa parede, teremos
que reconstruir a chaminé, pois a parte de cima desmoronou.
Disse tudo como ele queria, havia um antiga
biblioteca, mas nada se salvou, só um livro em Yoruba, está guardado na casa de
minha mãe.
Ele disse como queria a senzala, tudo
aberto, do lado o senhor vai construir, um lugar para os filhos de santo,
trocarem de roupas, mas nada de altar.
Depois foi andando com ele, pediu para
subir os muros das casinhas dos Orixás, para serem mais altas, mas o espaço o
mesmo para cada um.
Lhe deu uma sugestão, pois tinha ido olhar
a casa dos Orixás, em outro lugar.
Esqueça, aqui nunca haverá matanças, nada
disso.
Saneamos todo o esgoto, mandei abrir um
canal ligando ao esgoto da parte da cidade embaixo, o mesmo com a água, vem da
cidade.
Perfeito, o senhor mande pintar tudo de
branco, retocar o reboco da casa toda, em branco também.
O homem apresentou, Jesus dos Prazeres, ele
estendeu a mão dizendo Marcos Bionder.
Te chamo de Pai Marcos?
Não, eu não sou pai de ninguém, isso é
coisa do candomblé, minha função e outra, sua tia acompanhava tudo maravilhada.
No final lhe perguntou quando isso ficar
pronto posso vir morar aqui?
Claro que sim, aqui são todos bem vindos,
quem vai separar sempre o joio do trigo será o Ti Ina, mas o falou em Yoruba.
Ele disse que ia ficar morando ali perto do
Iroco, estou acostumado a isso, viver no mais simples possível.
Vou arranjar uma barrada do exército para o
senhor.
Me chame de Marcos como eu te chamarei de
Jesus, ou prefere dos Prazeres.
Jesus está bem, só minha mãe me chama
assim.
Posso traze-la aqui, ela quando jovem vinha
ao terreiro de Pai André, sempre me falou daqui.
Claro que sim será um prazer, posso me
mudar amanhã.
Tinha limpado todo o chão em volta da casa,
bem como o caminho até o Iroco.
Depois de volta a casa se sentou, mas no
carro tinha rido muito, ele já sabia, mas como sua tia contou, o fez rir muito.
Tua mãe sobreviveu a tudo, se casou com o
dono do casino, um bicheiro na verdade, vive no apartamento como sempre, frequenta
o casino com suas roupas antigas, mas o homem atrás com mãos duras, nada de
luxos.
Na verdade, ela é mais para salvar as
aparências como fazia com o marido.
Assim ele pode ir a lugares que não podia
antes.
Rogerio rindo disse, sabes que a maioria
dos processos deram em nada, principalmente os que envolviam políticos, teu
amigo saiu da policia federal, agora trabalha comigo de advogado, dizia que tu
tinhas razão, há algo podre em tudo isso, quer vir aqui um dia conversar
contigo.
Sempre que quiserem, sei que viras junto.
Depois explicou a sua tia, que ele não
seria um pai de santo da maneira tradicional, o velho tinha lhe explicado que
teria que ser uma coisa mais atual.
Demorei para entender mas vou tentar.
Quando a casa ficou pronta, a tia ficou
encarregada de ir arrumando a mesma, ele ficava a maior parte do tempo na
varanda ou na biblioteca, trouxe os livros da casa do avô, depois ia a cidade
comprar livros sobre os Orixás, seguiria estudando.
O mais interessante, ele se vestia como os
homens de aonde tinha estado, mas normalmente usava somente um pano em volta da
cintura, como se fosse uma grande saia.
Sua tia se impressionou, ele era mais magro
do que antes, quando quis fazer um lauto jantar para ele, disse que não comia
de noite, só frutas.
Comia devagar, saboreando os alimentos,
quando o Jesus trouxe sua mãe, ela queria se prostar diante dele, disse que nem
pensar, saiu andando com ela por ali, conversando, falando dela,
As vezes ele parava, para pegar uma
pedrinha no chão, estou juntando coisas daqui com as que trouxe, para jogar os
búzios, como fazem normalmente,
Depois se sentou com ela na varanda, tinha
arrumado uma mesa pequena redonda, tinha duas cadeiras confortáveis, ali, ele
abriu uns panos africanos, colocou as pedras que tinha pegado não chão, vamos
ver se o resto as aceita, a mulher parecia uma criança, pois tudo corria em
cima da mesa, uma delas não foi aceita, ele estendeu a mesma para o Exu, que
disse que estava suja, a mulher soltou, de aonde saiu esse negro.
Ele é meu Orixá, senhora das Dores, Exu Ti
Ina, o homem do fogo.
Quando esse voltou, parecia que a pedra
andava sozinha no ar, ela ria a bessa, se conto isso, vão dizer que estou
louca.
Agora as outras aceitaram a mesma, Exu
disse que algum animal tinha mijado em cima da mesma.
Ele começou a falar com ela em Yoruba, ufa
estou destreinada, mas vou recuperar.
Tentei depois daqui ir a algum lugar, mas
pai André era especial, era diferente como o senhor, nada de matanças,
dinheiro, aqui era tudo muito simples.
Oferendas aos santos, eram frutas.
Como eu, ele foi feito pela mesma pessoa,
nem sei dizer a idade dele, se ele conhecia o pai adotivo de pai André imagina.
Ela foi conhecer a casa com sua tia, essa
já tinha arrumado um quarto para ela, trouxe suas poucas coisas, nunca gostei
de tralhas.
Agora se vestia de branco, um dia ele a
levou floresta adentro, até chegarem a um lugar, que tinha uma pequena
cachoeira, a fez se sentar ali, embaixo de uma pequena cascata, lavou sua
cabeça, rezando em Yoruba, assim prepararia seus filhos.
Agora se vestia de branco todo o tempo, o
único luxo da cozinha era uma lavadora grande.
Sem querer, a mãe do Jesus, a Das Dores,
foi ficando, era a Yao maior, sua tia, o Jesus, que vinha sempre ver a mãe,
depois se sentava para conversar com ele, sua tia dizia que era impossível
escutar o que ele falava as pessoas, de tão baixo que ele falava.
Finalmente o Rogerio, veio com seu
conhecido da Policia Federal, que ficou surpresos da aparência dele.
Se sentou com os dois, para conversar,
alertou a eles, que deviam se preparar, pois um dos irmãos de Rogerio, queria
dinheiro, ele anda nas drogas, já sabes disso, mas está violento, se
conseguires o trazer aqui, pode ser que possa ajudar.
Dias depois ele vieram, o rapaz olhou para
ele, disse, porque sempre apareces quando durmo.
O levou para dentro da mata, foram subindo
o levava pela mão, ele parecia uma criança, quando chegou a cachoeira. Quando a
água começou a cair na sua cabeça, evaporava, Exu apareceu, o ajudou, começou a
sair da cabeça dele, uma coisa negra, como uma gosma, que fazia uma bolas,
caindo na água, o Exu ia pegando as mesmas, enfiando na terra, o cheiro era
horrível.
No final o rapaz chorava muito, porque me
fizeram isso.
Quando desceu, vinha só com um pano branco,
em volta da cintura, os outros não viam, ele parecia torto, pois vinha abraçado
ao Exu, que o levou a sua casa.
Ele se sentou explicou ao Rogerio o que
tinha acontecido. Teu irmão, falou tanto na herança que ia receber de teu pai,
pois ele não é filho da tua mãe, que a mãe dele, fez uma macumba num lugar
horrível, contra ti, mas nessa época já estava sobre a proteção do meu Exu, ele
te livrou de tudo isso, quando fazes algo contra alguém isso vira contra ti,
por isso acabou desse jeito, ela morreu com um câncer negro, verdade, quando
lhe fizeram a autopsia, ficaram horrorizado.
Como sabes de tudo isso.
Eu não, estão me contando.
Ele ficará aqui algum tempo.
Agora os dois subiam sempre, ele tirava uma
hora do dia, para conversar com o rapaz, esse tinha tido sempre em sua cabeça,
que não passava de um bastardo, por isso queria tirar dinheiro do irmão.
Mas disse ao Rogerio, nunca de dinheiro
para ele, deixe que vá à luta sozinho. Foi incutindo isso na cabeça dele.
Quando voltou a viver na casa de sua
família, um dia chegou feliz da vida, tinha arrumado um emprego.
Depois sempre aparecia no seu dia de folga
para conversar com ele.
As pessoas apareciam ali, se mais nem
menos, alguns queriam ficar como filhos de santo, ele explicava que ajudava,
mas nunca iam ter gira, nada disso, oferendas, festas nada, ajudava, escutava,
orientava, nada mais.
Nos dias de chuva, se sentava na imensa
senzala, ali cercado dos Exus todos que habitavam o lugar, recebia as pessoas.
Os que vinha pedir ajuda para ganhar na
loteria, nem entravam, quando viam que ali não se fazia nenhum trabalho.
Só apareciam aqueles que precisavam de
ajuda espiritual, nada mais, orientação, um dia um pai de santo apareceu, cheio
de joias, num carro grande, ficou chateado, pois não se podia subir de carro,
não tinha estrada, só um caminho no meio da mata.
Ele se assustou quando viu uma arara passar
voando por ele.
Quando chegou lá em cima, viu a casa, nesse
dia chuviscava, o recebeu na senzala, que lugar é esse perguntou o outro antes
de mais nada, estava ali em pé confuso, cheio de joias, uma roupa inventada por
ele, como deviam ser os pais de santo.
Quando aquele homem magro, só com um pano
em volta da cintura, se sentou numa cadeira, oferecendo outra igual a ele, se
espantou.
Vais jogar para mim.
Não preciso, tu me dirás.
Vim aqui curioso, pois todo mundo fala de
ti.
O que é esse ruido todo, ele fez um gesto,
ele começou a ver todos aqueles homens mulheres, crianças negras, todos semi
nus.
Esses eram os que viviam aqui, escravos.
Mas tu eres branco?
Só por fora, ou não sabia disso, nesse pais
todos temos uma parte negra dentro.
Me falaram que estiveste anos na Nigeria.
Sim fui aprender aonde meu pai aprendeu,
meu avô também, como devia ser, nada do que se usa aqui, nada de matanças,
despachos, comidas de santo, eles não comem.
O máximo que aceito é oferendas de frutas,
pois depois os animais da floresta comem por eles.
O homem ficou olhando para ele de boca
aberta, quem é esse ao teu lado.
Meu Orixá, Exu Ti Ina, do fogo.
Meu amigo, vejo que veio na verdade porque
estas perdido, aprendeste a funcionar de uma maneira, mas não vês nada, não
escuta nada, quando jogas, tens que inventar, pois imagina o que a pessoa quer
escutar.
A cara do outro era impressionante, te
convido a fica dois dias aqui comigo retirado.
Ficaremos nessa senzala, eles vão te
orientar, mas antes tire todas essas porcarias que usas, pediu a sua tia, um
pano, para o homem se enrolar, nessa noite, os dois conversavam a luz de uma
fogueira do lado de fora, deixou o homem falar tudo que queria, estavam só os
dois, ele ainda perguntou se tudo que falasse, era só entre eles.
Sim, mostrou todos os outros sentados ali,
quem são esses?
Teus orixás, esses dois dias, os escutarás,
dormiras sonhando com eles, irã te orientar.
Depois antes de ir embora, entendi que vou
perder a metade de meus filhos de santo, pois nada será como antes.
Mas estarás contente, o abraçou dizendo que
aparecesse sempre que quisesse.
Volta e meia aparecia algum, escutei falar
que o fulano veio aqui mudou sua maneira de pensar.
O mais interessante, veio um famoso.
A primeira coisa que fez, foi ficar parado
o analisando, sacudiu a cabeça, várias vezes.
Ele rindo disse, vês na verdade a multidão
que sou eu numa só pessoa verdade.
O levou para se sentar, na sua mesa de
jogo.
Mas não a tocou.
Vens cheio de perguntas, colocou uma
cadeira vazia ao lado. A cada pergunta que fazia, se sentava um orixá do mesmo,
era quem lhe respondia.
Por que agora os vejo?
Porque eles querem, nunca é quando
queremos, para enganar algum filho de santo.
Não tens filhos de santo?
Nenhum, não pari, sou virgem.
O outro descaradamente, perguntou se ele
não tinha relações sexuais com seus filhos de santo.
Jamais, sou como um eunuco, um dia desses
aparecera um garoto que irei preparar para me substituir, aí começou a rir,
acabam de me corrigir, serão muitos garotos.
Quem está te corrigindo, nisso apareceu
para ele, seu Exu.
Ele rege minha vida, não eu a dele.
Estou aqui para servir a todos eles, nada
mais.
Depois o levou para passear pela Senzala,
se espantou novamente, aquele espaço totalmente vazio, quando comentou isso,
ele respondeu, não está vazio, estalou os dedos ele viu todos que estavam ali.
Preciso digerir tudo que vi, posso voltar?
Sabia que o mesmo levaria seu tempo, o
mesmo deixou seu numero de celular, ele se desculpou mas não tinha um.
Meses depois voltou.
Viu um garoto sentado ao lado dele,
perguntou quem era esse, riu dizendo o André, o primeiro.
Cada vez que voltava tinha algum outro.
Eram garotos que o Exu encontrava pelas
ruas, ia trazendo. Os ia distribuindo pela casa, tinha espaço, ele mesmo
gostava era de dormir na varanda, escutar ao abrir os olhos algum passarinho
cantando para ele.
Os meninos tinham que ir à escola, Rogerio
era o encarregado da adoção dos mesmos, ao final levava as senhoras do sistema
para ver como viviam.
Algumas iam várias vezes era conversar com
ele, se desesperavam, em seus trabalhos, as ajudava.
Um dia trouxe um, era a viva imagem dele.
A mãe o abandonou numa lixeira, o menino
chorava muito, o pegou no colo, o menino parou no ato, falou com ele, lhe deu a
benvinda, acaba de chegar o filho que ficara no meu lugar.
E os outros, esses irão durante algum tempo
a Nigeria, depois voltarão formando novo núcleos.
Um dia sua tia perguntou, se o homem que o
tinha preparado estava lá ainda, acho que sim, mas se não está, o que chegou
junto com meu pai, está.
Quando faziam 15 anos, os mandava para lá.
Voltavam depois de algum tempo, já sabiam
sem ele dizer para aonde deviam ir.
Eram poucos os que voltavam perdidos.
Sua tia viveu segundo as contas dela, até
quase cem anos, nunca esperei viver tanto, nem aprendendo tanto depois de
velha.
Rogerio, era igual, estava sempre lá, vinha
agora de branco, mas segundo ele, adorava chegar lá enrolar um pano na cintura,
me sinto livre de qualquer coisa, já não trabalhava mais, só cuidava das suas
contas, afinal ele tinha que ter dinheiro para a manutenção do lugar, bem como
mandar seus filhos a Nigeria.
Preparou seu filho pequeno o garoto era
cópia dele, em criança, quando se separou dele, na idade de ir a Nigeria, foi a
única vez que sentiu, pediu pelo menos, se podia esperar que voltasse.
Muitos anos depois de conviver com o filho,
já não estavam ali os originais, nem sua tia, Da Graças, nem Jesus, foi quando
ele morreu, da mesma maneira que seu pai, ao pés do Iroco.
O mundo era mais moderno, mas ele
acompanhava no que podia, os problemas agora eram outros, ele tentava
acompanhar para orientar, nunca estava fechado para nada.
Achava as pessoas duplicadas, tinha uma
cara, para o mundo físico, outra para o da IA, como diziam, das comunicações,
montavam outra personalidade, por isso eram duplas.
Seu filho estava preparado para isso, ele
acompanhava, já não se fazia jogos de búzios, havia que olhar os olhos da
pessoa, para poder entrar até a alma das mesmas, fechadas em casulos, esperando
a liberdade, da outra personalidade inventada.
Foi enterrado ali ao lado do seu pai.
As cinzas de todos que tinha vivido com ele
ali, estava, em urnas numa gruta atrás da cachoeira.
Mas ele ficaria no Iroco para orientar seu
filho.
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