CRASH
No momento que assistiu tudo como de camarote, sem poder se
mexer, com o risco de cair de aonde estava, aonde ficou depois em uma crise
catatônica, levaria muito tempo para entender, o que tinha acontecido. As vezes tinha pesadelos com tudo isso, não
entendia o que tinha passado, com o tempo tio Dean, lhe contou tudo, embora
para ele também fosse amargo, se sentia culpado de muitas coisas, foi duro para
os dois.
Ele era o segundo filho, Marie era a mais velha, nesse dia
estava na vila fazendo um exame especial, para saber se era superdotada. Éramos cinco filhos, primeiro Marie, dois
anos depois eu, numa pausa larga os gêmeos, por último, minha mãe ficou gravida
antes de irem os dois a guerra outra vez.
Seu pai, tinha ido com Tio Dean, a uma festa de casamento, de
um dos soldados que tinha estado com eles na frente no Afeganistão. O interessante que não tinham ido com sabor
de festa, por causas das roupas que usavam, estavam sim preocupados, ninguém
sabia por quê.
Marie antes de sair de casa lhe perguntou, porque iam
vestidos assim, se era uma festa, sua mãe só levantou os ombros, nas coisas
entre seu pai e Dean, ela nunca se metia.
Só tempos depois soube o que tinha acontecido, estava no telhado,
sua mãe vinha pedindo a dias ao seu pai para subir, pois uma telha em cima do
quarto dos gêmeos, eu disse que fazia, sabia aonde tinha telhas guardadas no
celeiro, peguei duas, subia para meu quarto, que era no sótão, sai, fui olhando
aonde ficava o quarto dos meninos que era ao lado do meu. Achei a telha quebrada, a troquei, estava
verificando se tinha mais alguma, já que tinha outra sobrando quando vi o jeep
do tio Dean chegando, olhei lá de cima, achei raro meu pai vir dirigindo, vi o
tio jogado no banco detrás, tinha sangue no seu corpo. Meu pai desceu com um revolver em cada mão,
tinha os olhos fora de orbita, isso eu me lembraria sempre nos meus sonhos,
como de tão longe podia ver esse detalhe.
Os gêmeos correram para ele, como sempre faziam, deu um tiro
em cada um, abri a boca de susto, com ele podia fazer isso, escutava ao longe
ruídos dos carros de polícia, ele começou a me chamar, bem como a Marie, que
saíssemos, quem saiu foi minha mãe, com o bebê nas costas, amarado como sempre,
para ela poder fazer as coisas.
Ela gritou o nome dele, Jerry, foi o suficiente, lhe acertou
um tiro no coração, depois soube que tinha passado pelo seu corpo, matando
também o bebê que ainda nem tinha nome direito, o chamávamos de bebê,
simplesmente.
Como eu não atendia, tampouco a Marie, por não estar em casa,
ele percebeu os carros de policia se aproximando, se sentou calmamente no chão,
beijou a cabeça de minha mãe, colocou o revolver embaixo do queixo, deu um
tiro, falhou, ele teve a paciência de ir até o jeep, pegar mais balas, encheu o
carregador, foi quando me viu no telhado, deu um tiro em minha direção, como me
deitei por reflexo, deixou de me ver.
Sentou-se novamente, pegou a mão de minha mãe com a livre, fez o mesmo,
desta vez, colocou a arma dentro da boca, nisso chegava a polícia, deu somente
um tiro, que lhe estourou a cabeça.
Fiquei ali parado, não podia me mexer, a pergunta era por quê?
Vinha duas ambulâncias juntas, era tudo que havia na
cidade. Pelo que me contaram depois, tio
Dean estava ferido, tinham discutido na volta da tal festa, que tinha sido uma
tragédia. O noivo se levantou para fazer
um discurso, saiu do pátio, entrou em casa, voltou com uma metralhadora, que
ninguém descobriu nunca de aonde tinha saído, metralhou todo mundo, só sobrou
uma mulher que tinha ido à cozinha por mais comida. Depois se sentou ao lado da noiva que estava
caída para frente, deu um tiro como tinha feito meu pai.
O rapaz tinha estado com eles nessa última missão, anos
depois quando já entendia tudo, Dean me contou o que tinha acontecido por lá.
Segundo me contou a Marie, foram necessário dois homens da
policia subirem para me descerem do telhado, estava em estado catatônico.
Fechei os olhos, só o abri quase um mês depois, era a
primavera, escutei pássaros na janela aberta, o sol entrava pela mesma, senti
uma mão segurando a minha, pensei que era minha mãe, mas era Marie, quando abri
os olhos, ela me sorriu, com lagrimas nos olhos.
Não chamou a enfermeira, fez uma coisa que sempre fazia
quando ia me chamar de manhã para ir à escola, deitar ao meu lado da cama,
dizendo, vamos seu preguiçoso, levanta, mas claro nunca podia, pois ela estava
em cima do lençol, com a cama ficava encostada na parede, não podia me mexer,
ela ria muito, até que nossa mãe, nos chamava.
Estávamos ali de mãos dadas, quando entrou a enfermeira que
foi chamar o médico, mesmo assim não deixei a Marie sair do meu lado. Quase em seguida entrou tio Dean, com o
braço preso num lenço amarrado no pescoço, estava super magro.
Ele se sentou do outro lado, segurou minha mão livre. Só me disse não fale, nada, descanse, me
deram alguma coisa, voltei a dormir, agora me sentindo seguro, pois amava minha
irmã, bem com tio Dean, era a ele que sempre fazia as perguntas, pois meu pai,
parecia estar sempre de mal humor, a única pessoa que o fazia sorrir era minha
mãe.
Nisso abri os olhos outra vez, me lembrei dele atirando nela,
depois pegando sua mão, na hora que se suicidou.
Tio Dean, me disse, depois te explicarei tudo.
Fechei os olhos, acordei de noite, na cadeira ao meu lado
estava Marie. Começou a falar de uma
coisa totalmente diferente, dos exames que tinha feito, ela se aborrecia na
escola, era a mais adiantada de todos os outros alunos, já a tinha colocado em
uma turma mais a frente mas mesmo assim, era a que sabia tudo. Passei nesses exames com gloria, tenho um
coeficiente muito superior a todos dali.
Irei no próximo semestre para o último ano, quem sabe consiga uma bolsa
para a universidade.
Tio Dean, era o xerife da cidade, deixou tudo, disse que não
podia continuar, foi cuidar da fazenda para nós dois, disse que nos devia isso,
só muitos anos depois entendi esse fato.
Sua família deixou de falar com ele, porque ao invés de
cuidar da fazenda da sua família, foi cuidar da nossa. Na verdade prosperamos, quem levava tudo era
minha mãe, meu pai não gostava dessa vida, estava lá por nossa causa, essa era
a verdade, pois era ela quem vestia as calças na família.
Ao Tio Dean, ninguém tentava enganar quando ia negociar o
trigo, a cevada que plantávamos, eu tive que crescer rapidamente, pois depois
da escola, Marie e eu o ajudávamos sempre, ela ainda cuidava das coisas da
casa. Ele passou a viver lá, fez uma
coisa estranha, os quartos dos meus pais, ele fechou, de tal maneira que não se
podia entrar.
Deixem as coisas como estão, o mesmo fez com as coisas dos
gêmeos, levou tudo para esse quarto, era como se nunca tivesse existido. Nunca falava no assunto.
Marie atrasou um ano sua ida a universidade, primeiro porque
ainda não tinha 16 anos, Dean a achava muito jovem para o que ia
enfrentar. Várias universidades se
interessavam por ela, quem veio ficar em casa foi a irmã pequena do Tio Dean,
que estava gravida de um rapaz que ninguém sabia quem era, a família ficou
furiosa, mas ele a recebeu. Mas a
avisou, eu sou um simples empregado aqui, por isso respeite a Marie, bem como o
Jeff.
Ela ajudava em tudo, afinal nunca tinha ido bem na escola,
gostava de estar no campo.
Quando nasceu o Dean Junior, colocou o nome no filho assim,
por causa do irmão.
No ano seguinte, um dia tio Dean nos levou para o campo, nos
sentamos os três, Marie em seguida iria para a universidade.
Então ele contou o que tinha passado, ou pensava que era o
motivo. Eu conheci teu pai, em garoto na
escola, sempre foi meu melhor amigo, o considerei na verdade como meu irmão
sempre, em casa tinha sempre muitas mulheres.
Falávamos de tudo, nada de segredos entre nós, os sonhos eram os mesmos,
sair daqui, dessa vida rural, irmos pelo mundo.
Mas claro a realidade nem sempre permite isso, ele se apaixonou pela tua
mãe, logo ela estava gravida de ti Marie, nessa mesma época nos chamaram para o
exército, a idade 18 anos, lá fomos os dois, eu tinha uma namorada, mas não
queria me casar. Fomos para a guerra do
Golfo, na verdade não vimos muitas coisas, voltamos no primeiro contingente, já
tinhas nascido, ele herdou a fazenda de seus pais, que morreram logo em seguida,
tua mãe tinha tomado conta de tudo, logo nasceu o Jeff, la fomos nos outra vez,
desta vez para Bagdá, vimos muitas merdas, sempre tudo do pior, seu pai tinha
pesadelos, eu tentava borrar da minha cabeça, mas para ele era difícil.
Quando partimos, tua mãe estava grávida dos gêmeos, quando
voltamos, eles já andavam, ficaram loucos quando conheceram teu pai, queriam
estar com ele todo o tempo, mas a ele, o faziam lembrar das crianças nas ruas
abandonadas, ou mortas. Então vinha
correndo para mim, como tu fazias quando era pequeno Jeff, eu sempre quis ter
filhos, mas não me casei, nem penso em fazê-lo. Eu só entenderia anos depois porque Marie
me esfregou na cara.
Quando nos obrigaram ir ao Afeganistão, tua mãe estava
gravida outra vez, eu brincava com eles que deviam ver mais televisão. Na verdade na fazenda não tinha.
Tentei fazer que de todas as maneiras ele não fosse, mas não
consegui, numa das missões as coisas se complicaram, o comandante eram um filho
da puta de um coronel, hoje é general, mais desgraçado não podia ter. Nos dizia, matem todos, não deixem nem as
crianças, porque um dia virão contra nós.
Chegamos a uma vila pequena, acredito que todos eram famílias, se
celebrava um casamento.
Esse rapaz que se casava tinha 17 anos, estava como sempre
agarrado aos dois, pois era de aqui perto, acreditava que o protegeríamos.
O casamento era entre dois adolescente, ele devia ter uns 15
anos, a garota quando muito 12, o coronel, foi o primeiro a atirar, dizia que
assim não iam ter filhos, matou a todos que estavam na mesa, deu ordem para
metralhar todo mundo. Ao final sobrou
um garoto que chorava num berço, ele foi até lá deu um tiro na cabeça da
criança.
Teu pai ficou arrasado, passou a ter pesadelos com tudo isso,
pois ao coronel, lhe deram uma medalha, logo era general. Foi reclamar com ele, pois o rapaz que
estava conosco, agora vivia metido em brigas, se embriagava, pois tinha
pesadelos com esse casamento.
O general, fez o seguinte, nos embarcou no primeiro grupo que
retornava. Mas teu pai nunca mais foi o
mesmo, tua mãe me chamava pedindo ajuda, ele não se aproximava muito dos
pequenos, do bebê então nem pensar, pois o fazia lembrar do que o general tinha
matado.
Despertava de noite tendo pesadelos, por isso tua mãe, fez
com que vocês fossem dormir no sótão, assim não escutavam. No dia seguinte, eu tinha que inventar de ir
pescar com ele, no riacho, que na verdade não tem peixe nenhum. O
velho xerife reclamava, que eu passava mais tempo aqui, que trabalhando, mas
não podia deixar meu amigo na mão.
Me doía ver tua mãe em cima de um trator, enquanto ele ficava
sentado olhando para o nada, nunca reagia.
Quando soube que eu estava preocupado com o rapaz, quis ir
junto, tentei convence-lo de não ir, mas ele fincou pé. Durante todo o trajeto, não disse nem uma
palavra, quando chegamos, era tarde, o rapaz já tinha matado todos que estavam
ali, não sei de aonde ele tirou essa metralhadora, a noiva parecia uma criança
que esta vestida de fada para uma festa, era jovem tinha 16 anos, dele não
sobrou grande coisa, quando o xerife da cidade mais próxima chegou, voltamos, o
pai de vocês não dizia uma palavra, de repente começou me acusar de estragar a
vida dele desde criança, o fazendo sonhar com coisas que nunca ia ter, de o
arrastar para essas guerras que ele não queria ir.
Mas eu não tinha feito nada disso, simplesmente nos
convocaram, o tentava fazer entrar em razão, quando tirou o meu revolver que
estava do lado dele, me deu o primeiro tiro.
Consegui parar o jeep, ele desceu de um salto, andava para um lado para
o outro, ainda tenho pesadelos sobre isso, falava coisas sem sentidos, eu
tentava entender, avisei o xerife que o ia levar para o hospital, que ele
estava fora de si. Nisso me deu outro
tiro, queres me ver preso, verdade, essa é a tua vingança.
Me jogou no banco de trás, veio aqui para a fazenda, eu não
vi nada, só fui despertar no hospital.
Quando soube de tudo, fiquei horrorizado, mas me apeguei que tinha vocês
dois para cuidar.
Sei que as vezes vocês despertam com meus gritos, como eu
desperto com os gritos do Jeff, sei que é difícil, por isso Marie, tu que
estiveste a margem disso tudo, chegou a hora de ires para a Universidade,
sugiro que aceites a mais longe possível, que te cures lá, procure um
psicólogo, conte o que sentes, estou levando teu irmão a um que eu mesmo vou,
assim quiçá podemos ir em frente.
Marie tinha lagrimas nos olhos, eu não sei por que tinha
perdido a capacidade de chorar, entendia que alguma coisa na cabeça do meu pai,
vendo pela segunda vez uma tragedia, algo se rompeu. Me lembrei que repetia uma coisa, esse mundo
é uma merda, melhor é morrer todo mundo.
Sim ele veio fazendo disso um mantra, no jeep nos meus
momentos de consciência, o escutei falar isso.
Na verdade, apesar dele ser mais alto, mais forte fisicamente
do que eu, era mais frágil em muitos sentidos.
Os dois fomos levar a Marie a estação de trem mais próxima,
ela aceitou uma bolsa para NYC, aonde lhe davam inclusive alojamento, Dean, a
quem deixei de chamar de tio, por sugestão dele, lhe mandava mensalmente
dinheiro.
Contratou um rapaz mexicano para ajudar nos trabalhos, não
queria que eu abandonasse a escola, mas eu não era como minha irmã, tão
inteligente, tinha que dar duro para acompanhar, tirar boas notas. Josie, me ajudava nos estudos, mas a surpresa
foi Javier o mexicano, que me ensinava mais.
Me dei conta que me sentia atraído por ele, ficava excitado
quando ele tirava a camiseta, para se lavar antes de entrar para comer. As
vezes íamos os três, tomar banho numa parte do riacho que tinha como uma
piscina, cercado de pedras. Ficávamos
nus, eu tinha que me controlar, pois adorava ver o Dean, Javier nus, se eles
percebiam não sei.
Um ano depois Javier se casou com Josie, estavam namorando
todo esse tempo, fiquei chateado, perdia o companheiro com quem sonhava.
Eles foram viver num pedaço de terra que o pai do Dean deu
para eles começarem a vida.
Nos sentamos os dois, Dean entendeu o que passava comigo,
teve uma conversa franca, te entendo, pois o mesmo aconteceu comigo.
Eu sempre amei teu pai, desde o momento que o conheci, nunca
tivemos nada, mas eu faria qualquer coisa por ele, as vezes tomávamos banho no
riacho, ele me provocava, me mostrava seu pau, me dizendo, é teu se
quiseres. Mas já namorava tua mãe, eu
gostava imensamente dela, a respeitava, o mandava enfiar no seu próprio
cu. Não queria ser um segundo nessa
história.
Quando fomos para a guerra, era a mim que ele contava seus
pesadelos, o abraçavam, consolava, as vezes ficava excitado com isso, mas meu
amigo estava em desgraça, não podia me aproveitar. Uma vez quis fazer sexo comigo, me neguei
redondamente, ele me beijou, disse que sempre tinha querido fazer isso. Mas que tinha se casado, apesar de amar sua
mãe, me queria. Uma vez soltou que eu o
fazia sonhar com as coisa que queria da vida, que ele odiava a vida da fazenda,
se imaginava numa praia fazendo surf. Essas coisas.
Tu sabes que as vezes vou de noite a outra cidade por perto,
tenho aventuras, mas que não significam nada, pois esses homens estão na mesma
situação, vivem num lugar pequeno, aonde não podem demonstrar que gostam de
outro homem.
Sei que estavas apaixonado pelo Javier, mas ele não estava
por ti, desde o primeiro momento se apaixonou pela Josie, olha como ele cuida
do Junior, com certeza terão mais filhos.
A mim sempre poderás contar tudo, hoje sinto lastima de nunca
ter tido uma conversa franca com teu pai, tinha medo se dissesse que o amava,
que ele me colocaria para escanteio, não fazer parte da vida dele, me doeria
muito.
Gosto de ti como se fosse meu filho, por isso podes sempre
confiar em mim.
Dizia que eu parecia meu pai, que nessa idade, eles tinham
começado a se masturbar juntos, descobrindo o sexo.
Ele se atirava a todas as garotas que via, me incentivava
fazer o mesmo, mas eu queria era fazer com ele. Um dia descobri um garoto que me olhava de
olhos muito compridos, fizemos sexo, eu pensando em teu pai, até que não sei
como ele descobriu, me deu uma surra, como eu me atrevia fazer isso. Na guerra no dia que me beijou, disse que
me deu uma surra, porque achava que eu tinha que fazer sexo com ele.
O garoto não era daqui, a família logo foi embora. Mas nunca mais me atrevi a fazer nada por
aqui, me escapava no meu velho jeep, para as cidades mais perto.
Ele assim não descobria, mas as vezes quando bebia, me fazia
um verdadeiro questionário, porque nunca tinha namorada.
Não podia responder, pois só tinha olhos para ele, mesmo que
tenha atirado em mim, nunca deixei de o amar.
Me falou de um lugar entre duas cidades, no meio da floresta,
aonde os carros estacionavam, vinha gente de muitos lugares, me disse para
tomar cuidado, me comprou camisinhas, fui com ele, me mandou olhar direito as
pessoas.
Foi quando vi o Tom a primeira vez, estava num velho Dodge,
que ele mesmo tinha recuperado, me fez um sinal, entrei em seu carro, começamos
a conversar, me contou que era mecânico, que também era sua segunda vez ali,
quando te vi, gostei. Fizemos sexo, não
sei aonde o Dean andou, mas quase de manhã bateu no vidro, dizendo que tínhamos
que ir embora.
Tom perguntou se podia ir me ver, eu disse que sim, era um
final de semana, Dean disse que eu ficasse com ele, que viesse atrás dele.
Nas primeiras vezes, dormíamos na minha cama pequena, depois
o Dean comprou uma cama maior, ele vinha todos os finais de semana, eu contava
os dias, estávamos os dois apaixonados, acabou ficando para ajudar numa colheita,
nunca mais foi embora.
Marie, acabou a universidade, tinha feito duas coisas ao
mesmo tempo, riamos muito por não entender, fez matemática pura, bem como
psicologia. Depois dali, foi fazer uma pós-graduação
no MIT, nós íamos visita-la, ela nunca voltou.
Um dia sentados na varanda, falávamos em sonhos, Dean falou
como ele e meu pai sonhavam em ir para um lugar que tivesse mar, para fazer
surf.
Pela primeira vez, Tom falou que ele sonhava isso
também. Resolvemos experimentar,
alugamos os três, na cidade mais próxima, um motorhome, Dean com a desculpa de
nos deixar a vontade, dormia na parte da frente, ou montava uma tenda para ele.
Tive um amor à primeira vista, o mar, quando chegamos, fiquei
parado, ali na praia, respirando fundo, foi como sempre tivesse sonhado com
isso. Tom sabia da minha vida, mas desde
que estava com ele, quase não tinha pesadelos.
Ali na praia desapareceram, estivemos por várias delas, até que numa
pequena vila, com uma praia maravilhosa, os três imaginamos viver ali.
Vimos uma casa pequena na praia a venda, Dean tinha
economias, eu também, nunca gastava muito, a resolvemos comprar, falamos por
telefone com a Marie, que concordou em vender a fazenda, dividiríamos entre os
dois tudo. Queríamos fazer entre os
três, mas Dean não concordou. Ela mandou
uma procuração, fomos até lá, pela primeira vez, Dean abriu a porta do quarto
dos meus pais, tiramos dali uma foto em que estávamos todos, num aniversário do
gêmeos, ele guardou nas suas coisas.
Conseguiu negociar por um bom preço tudo, eram boas terras, a
vendeu por um valor muito superior ao que valia, a uma família que chegava à
cidade.
Fomos embora, Tom tentou fazer as pazes com a família, mas
como sabiam que agora vivia com outro homem, nem conversar quiseram.
Ele abriu uma oficina na vila, que faltava, o pessoal o
adorava, pois realmente entendia de carros, Dean, se interessou começou a sair
com um pescador, aprendeu a pescar com ele, mais tarde descobrir que tinha um
romance, pois o homem passou a frequentar a casa.
Eu, escutei falar num curso na cidade vizinha de
escritura. Me interessei, comentei com
os dois, eu adorava os livros, me tinham salvado a vida, me deram muitas força,
para o fazer.
As primeiras histórias que escrevi eram fáceis, mas como um
exercício maior, escrevi uma história que surpreendeu a todos que faziam o
curso, me tinha como um tipo duro, do campo, pelo tipo, minha maneira de se
expressar. Escrevi um romance, baseado
nas histórias que tinha descoberto, dos rapazes do campo que são gays, que tem
que fazer tudo escondido, dos encontros nas estradas, coisas assim. O professor só fez duas correções, perguntou
a parte se eu queria mandar para uma editora, ele conhecia uma que lançava
livros mais aberto.
Eu rindo lhe perguntei, gay’s?
Sim, não sabia como tratar disso contigo.
Antes lhe disse que daria para duas pessoas lerem, uma que
considerava meu tio, outra meu namorado, eles tinham esse problema, bem como
eu.
Os dois leram, gostaram muito, riram inclusive de algumas
passagens, pois sabiam que estava baseada nas vivencias deles. Uma em especial que Dean tinha me contado,
que estava fazendo sexo com um sujeito quando apareceu o xerife do lugar,
pensaram que ira ser preso, mas o mesmo entrou na dança.
Queriam transformar num filme, mas não cedi os direitos.
Depois escrevi uma sobre o rapaz que matou a família toda, da
falta de preparo que tem os rapazes do campo, usados como bucha de canhão,
pelos coronéis.
Nessa época Dean descobriu que o General, era um dos candidatos
republicanos ao senado, falavam dele como um herói, não sei como Dean, começou
a levantar as coisas sujas do sujeito, sobre o que tinha feito na guerra, de
sua ligação com a indústria das armas.
Quando apareceu o FBI, Dean lhes contou a história da festa,
como o General tinha agido, ao FBI não interessava, por sorte nesse mesmo
tempo, além que tinha perdido a cabeça por causa desse homem o matou em
Washington, por sorte do Dean, eles estavam em casa, não o podia acusar de
nada. Foi de uma certa maneira levantada
a vida do sujeito, muito podre se descobriu, inclusive postumamente, ele perdeu
suas condecorações. Me entrevistei com
muitos soldados, alguns completamente perdidos na vida, outros vivendo como
homeless, nas ruas da cidade, entrevistei o filho do mesmo, um rapaz frágil,
que tinha verdadeiro horror ao pai, me contou coisas horríveis, um dia se abriu
com ele, o pai abusava sexualmente dele, bem como do irmã menor, a mãe, filha
de um senador, tentou boicotar o livro, mas quanto mais fez, mais sucesso
fazia.
Primeiro porque o filho deu entrevistas, contando tudo que
tinha acontecido com ele, que adoravam quando o pai não estava para viverem em
paz, que sua mãe aproveitava para ter aventuras, mas quando ele estava em casa
o inferno abria suas portas, a irmã tinha tentado suicídio muitas vezes, a mãe
camuflava, pois frequentava a sociedade de Washington, não queria que os podres
saíssem a luz.
Queriam comprar os direitos para um filme, ele quando viu
quem ia dirigir, sua exigência principal, deduziu que iam transformar numa
grande desculpas. Não concordou.
Escreveu um roteiro baseado, na vivência do filho, depois de
largos papos com o mesmo na praia, ele passou a viver ali, com outros jovens,
estava estudando em West Point, mas deixou tudo para viver ali, fazendo surf,
tinha um fideicomisso do avô, que lhe permitia viver como quisesse.
O filme foi duro, pois falava dos abusos, do comportamento
neurótico do general, a mãe de novo tentou brecar, mas como sempre isso chamava
mais atenção.
A irmã ao contrário não resistiu a nada disso, foi viver numa
casa de repouso para o resto dos seus dias.
O rapaz, pelo menos encontrou um companheiro para se apoiar.
Levavam anos vivendo ali, não se podia dizer que foram
felizes, comeram perdizes, pois as vezes as coisas se torciam.
Descobriu que o Tom estava tendo uma aventura, principalmente
quando ele ia de turnê para lançar algum livro.
Se sentaram, ele foi sincero, me sentia só, a atração foi maior, embora
te ame, quero viver o que não vivi.
Ele não fez nenhum gesto para impedir a ida dele embora,
vendeu a oficina mecânica, ficaram ali, ele bem como Dean. Este o ajudou a lamber suas feridas.
Um dia encontraras alguém que te ame com eres.
De uma certa maneira Tom lhe tinha dado estabilidade, Marie
agora casada com um professor, vinha sempre passar férias, com o marido, depois
com os gêmeos que tinha.
Ele adorava ensinar os meninos a nadar, tinha feito isso com
seus irmãos, no riacho, se sentia vivo outra vez, nunca mais tinha tido
pesadelos, um dia conversou com a Marie, que queria escrever a história do pai,
se ela permitia.
Ela lhe deu a maior força, a parte da infância, juventude,
quem lhe contou tudo foi novamente o Dean, para ele recordar essas coisas, eram
sofridas, as vezes parava para chorar.
Estou ficando um velho frouxo dizia, qualquer coisa choro. Ao contrário, tinha se transformado num
homem mais bonito, moreno da praia, com os cabelos queimados do sol. Amava o mar, falou muito nisso, como dois
garotos que nunca viram o mar, podia sonhar com isso.
Sua frustração de ver o amigo ter uma namorada em sério, que
ele ficava para trás, apesar de o amar com loucura. Muitos anos depois, se lamentava de não ter
dado um passo em frente, pois descobriu que este o amava também a sua maneira.
Acabou sendo mais a história do Dean que de seu pai, embora
num capitulo inteiro relatasse o que tinha acontecido.
Quando a editora viu o texto apresentou a uma produtora,
esses se interessaram em fazer uma série, ele aceitou desde que pudesse
escrever o roteiro, fez um curso, para isso. Acabaram concordando quando ele
apresentou o primeiro capitulo, a infância dos dois.
Fez sucesso, um dia estava fazendo surf, viu na praia um
homem parado, com as pernas abertas, com os braços cruzados, de longe parecia
seu pai, ficou emocionado, quando chegou perto, realmente era um homem parecido
com ele.
Este se apresentou, era o ator que iria viver o papel de seu
numa idade maior, o apresentou ao Dean que o ficou examinando.
Este estendeu a mão se apresentando, Devon Scott, preciso
construir o personagem, por isso vim aqui, justo nesse instante o produtor os
chamava, para falar do Devon.
Ficou uma semana ali com eles, conversaram muito sobre seu
pai, as vezes ele conversava com o Dean sobre ele, como eram na adolescência.
Dean lhe falou da insegurança que ele tinha, dificuldades
para tomar decisões, mesmo para casar-se, falou do amor que tinha por ele desde
criança. Rindo ainda disse, se fosse
aqui, com a fartura de homens, talvez tivesse mudado minha vida. Mas a verdade, apesar do meu relacionamento,
nunca o esqueci.
Sem querer ao vê-lo conversar tanto com outro, ainda assim
falando do amor de sua vida, sem querer provocou a ruptura do seu
relacionamento. Seu pescador foi embora
dali para outro lugar, ele comprou sua barca, seguiria pescando, pois adorava
fazer isso.
Quando Devon foi embora agradecendo muito a hospitalidade dos
dois, disse que voltaria, tinha se aberto com eles, em Los Angeles quando
souberam que ele era gay, ficou marcado, só apareciam textos que não lhe
interessavam.
A série acabava, depois da morte de seu pai, com tudo que ele
tinha feito, sua perda de equilíbrio.
Mas dedicou um capitulo, ao que Dean tinha contado para ele,
quando o tinha beijado, que sempre o tinha querido, que esperava sempre que ele
avançasse, pois era muito covarde.
Dean quando releu isso, disse, graças a deus isso não
aconteceu, teria da mesma maneira destruído tudo, ele não estava preparado para
isso.
Logo em seguida ficou doente, tinha muita febre, seu médico
dizia que era alguma coisa do sistema nervoso.
Dean cuidou dele, carinhosamente, estava sempre todo tempo
com ele. As vezes se deitava ao seu lado na cama, ficava de mãos dadas com ele.
Um dia se despertou o viu ali dormindo, se aproximou de
mansinho, começou a beija-lo, esse despertou assustado, não faça isso, tenho
idade para ser teu pai.
Isso não importa, sou um homem adulto, que gosta de outro
homem adulto, ele depois do Tom nunca mais tinha tido ninguém, nem quando
viajava que tinha oportunidades.
Fazer sexo entre eles, era uma coisa espetacular. Jeff confessou que sempre o tinha amado, mas
também respeitado essa distância, que já não queria perder tempo, um dia
estarei velho, vou descobrir que fui covarde como meu pai, por não me declarar.
Dean, o olhava com amor, no dia que me contaste que eras gay,
quis eu mesmo te ensinar como era, mas te levei para aquele lugar, tinha medo
de ser rejeitado como fui com teu pai.
Agora faziam surf juntos, o pessoal ria, pois os dois estavam
sempre conversando.
Ele agora escrevia uma série baseada numa história que tinha
escutado de um rapaz ali na praia, um amor de verão, que por pouco se perdia.
Ficou taxado como um escritor de histórias gays, não reclamava,
pois não tinha nada a esconder. Quando
em seguida apresentou uma história, que ele tinha criado a partir de uma
noticia de jornal, sobre uma mulher que se vinga das pessoas que maltrataram
seu filho, que este tinha entrado para o exército, obrigado pelo pai, lá
descobrem isso, é perseguido por seus companheiros, numa frente de batalha, é
ferido, abandonado pelos companheiros, mas resgatado por um criador de ovelhas,
quando volta, é olhado com desconfiança, pois tinha aprendido a falar árabe.
Junto com a mãe, começa uma serie de vinganças, contra seu
pai, contra os companheiros que o deixaram para trás, por ser gay.
Um dia disse que não ia mais escrever para esse tipo de negócio,
estava farto, levou dois anos, escrevendo um livro sobre ele mesmo, analisando
desde o momento que tinha tido noção que gostava do Dean, quando era um garoto,
depois o que tinha acontecido, o tempo que ele cuidou deles como se fosse seu
pai.
Foi como entrar em si mesmo, mas em momento algum se afastou
do Dean, ele lia todos os capítulos, o adorava, um dia comentou, eu poderia
dizer que te amo, por seres parecido como teu pai, mas isso seria impossível,
pois eres completamente diferente dele.
Tens a força que ele não tinha, me fizeste me apaixonar por ti.
Já viviam muitos anos juntos, agora seus sobrinhos vinham
passar temporadas com eles, a férias eram mais divertidas, saiam de barco para
pescar, faziam surf, quando os pais chegavam, estavam morenos.
Sua irmã, já sabia que os dois viviam como amantes, nunca
tocou no assunto, achou normal.
Quando se aposentaram, compraram uma casa ali, já que os
garotos iam estudar em San Francisco.
Eram como ela, pequenos gênios, os dois adoravam Física, matemática,
fazer surf.
Foram a universidade com as melhores notas possíveis. Logo brilhavam no mundo acadêmico,
individualmente, ou mesmo escrevendo alguma coisa juntos.
Eles dois os tinham como seus herdeiros. Agora como já tinha escrito tudo a respeito
dele, de seu pai, se sentia mais livre.
Marie um dia lhe mostrou um diário escrito pela mãe deles,
para ele foi uma surpresa.
Falava que sabia do amor do Dean pelo seu marido, por isso
sempre que tinha problemas, procurava por ele, não entendia por que seu marido
não correspondia, ela achava natural.
No casamento tinha encontrado nele um homem que permitia que
ela fosse como gostava de ser, se vestir como homem, dirigir um trator, ser uma
mulher completa, ter filhos, contava de duas aventuras que tinha tido, quando
ele estava fora, com outras mulheres, que ficavam para trás na guerra.
Os homens estão sempre preocupados em sem sentirem homens que
nem percebe que tem ao seu lado, uma mulher que pode fazer tudo que eles fazem,
inclusive melhor.
Isso era uma coisa que seu pai dizia, que ela fazia as coisas
melhor do que ele, por isso o amava.
Escreveu um livro baseado nisso. Dean como sempre tinha uma memoria
fantástica, se lembrava de detalhes.
Um dia se lembrou de uma cena, que tinha acontecido entre os
dois. Sua mãe o tinha chamado, que seu
pai não estava bem, o levou para perto do riacho para se relaxar. Ficaram conversando, até que este resolveu
tirar toda a roupa, entrou na água. Subiu em cima de uma pedra plana, se
imaginou fazendo surf.
Dean tinha entrado na parte mais funda, estava excitadíssimo,
vendo ali o amigo nu, em cima da pedra de costa para ele, sem querer começou a
se masturbar, sabia que o outro tinha percebido, então fazia gestos como se
estivesse realmente em cima de uma onda, quando se voltou, estava de pau duro,
se jogou na água indo abraça-lo. Dean se
lembrava que se deu conta que ela os estava observando, lhe fez um sinal
positivo, como dizendo, avance, mas fiquei esperando que ele se jogassem em
cima de mim. Tinha medo de seu frágil
equilíbrio.
Só sei que depois voltou para casa falando bastante, animado,
isso foi dias antes da tragédia.
Muito tempo me levei pensando nisso, se o tivesse beijado,
feito sexo com ele, seria diferente, ou apenas aceleraria o processo, do
equilíbrio dele. Porque quando
voltamos do riacho, me disse uma coisa, que enquanto estava ali, em cima da
pedra imaginando que era uma prancha de surf, tinha sentido isso, que o seu
equilíbrio era muito frágil. Talvez se
quando jovens tivéssemos fugido nada disso teria acontecido.
Mas claro tudo sempre foram suposições, sem nada de
realidade.
Escreveu um livro sobre isso, como era viver num fio, entre o
desequilíbrio, a vida real, o que sonhas para ti. Os editores diziam que as pessoas não se
interessaram sobre o assunto, mas no momento que ele começou a dar entrevista
para divulgar o mesmo, falando que ele mesmo tinha passado por isso, logo o
livro estourou de vendas, muitos pensavam que era sua história particular. Quando quiseram levar ao cinema, ele escolheu
o Devon Scott, para fazer o papel principal.
Seu trabalho foi muito elogiado, ganhou prêmios.
Ele disse que se transformasse isso numa obra de teatro, ele
gostaria de fazer, levou um tempo mas conseguiu transformar, quando estreou na
Broadway, o publico ao principio não entendia, pois imaginavam a história do
cinema, mas ele só tinha usado a ideia, criado outras circunstâncias sobre o
assunto. Era mais por vezes um monologo,
em que um homem fala da sua solidão, de tentar saber o que está certo ou
errado, os erros que cometem o levando ao desequilíbrio, o quanto para ele que
é uma pessoa frágil, isso é difícil.
Um ator do tamanho físico do Devon, falando de sua
fragilidade, tinha sido um tour de force, para ele como ator, convencer as
pessoas da fragilidade humana, não importava o aspecto físico. O texto ganhou vários prêmios, bem como Devon
por seu trabalho.
Depois das críticas, Dean fez um comentário, ele realmente
entendia das pessoas, tinha sido capaz se suplantar toda a tragedia de sua vida
pessoal, para poder seguir em frente.
Graças a ti Dean, que sempre esteve do meu lado, desde essa
época, o que era uma verdade.
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