RETALIATION

 

O primeiro desejo de vingança, lhe surgiu no corredor ao lado do gabinete do padre superior do colégio, aonde sua mãe o deixava.  Ela gritava com ele, que ou me aceitava, ou ia contar aos seus superiores que tinha um filho, que tinha abusado dela.

Ou seja finalmente sabia quem era meu pai.  Esse tempo todo estávamos mudando de cidade em cidade, quando começavam as perguntas quem era meu pai, ela logo arrumava as trouxas nos mandávamos.

Ela apesar de tudo, era uma mulher linda, manobrava todo o possível, queria um casamento estável, com dinheiro é claro, por minha causa não tinha podido ir a universidade, sempre me atirava isso na cara.

Saiu furiosa, olhou na minha cara, sem um gesto de carinho, aliás isso ela nunca fazia a não ser que tivesse alguém por perto.  Eu aceitava, pois podia ter-me largado em qualquer lado.

Aqui agora é tua nova casa, aproveite bem, estude, sejas alguém.

De uma certa maneira, encontrei estabilidade, não tinha mais que ficar mudando de cidade, nem de colégio.

O homem que saiu, era de uma certa maneira um velho, me olhou de cima abaixo, chamou um outro que era seu secretário, mais um bastardo para ser educado, grátis, ele que aprenda a trabalhar em alguma coisa, para ir pagando viver e estudar aqui.

Nunca falou comigo, nem mesmo respondia se eu dizia, bom dia ou qualquer outra coisa, me ignorava completamente.

Tinha nessa época 8 anos, depois das aulas, das missas, todas essas coisas, me tocou nos primeiros anos ajudar um padre que era jardineiro.

Ao final do dia, tinha que ajudar outro que era o cozinheiro, que fazia duas comidas, uma para os padres, outra para os alunos, as dos padres era boa, a nossa tocava uma sopa rala, que colocava algumas coisa para dar sabor, mas também muita água.

Com um aprendi tudo que podia sobre botânica, com o outro, a sobreviver numa cozinha, ao final era seu braço direito, tinha uma fome perpetua, isso ajudava, comia mais, principalmente escondido.

Dormia num imenso dormitório, aonde estavam todos.

Evidentemente, mais tarde descobri que nessa escola, todos os alunos, estavam ali de favor, que a maioria dos padres, era escoria.  Tinham vindo fugido, ou mandados pela diocese, então os abusos aconteciam, sem direito a reclamação.

O primeiro a abusar de mim, foi um dos professores, estava tomando banho, depois de ter trabalhado na cozinha, ele entrou no grande banheiro, ficou ali me olhando, tirou o piru para fora, me agarrou pelos cabelos, me fez ficar de joelhos chupando o mesmo, me deu muita porrada para obedecer.

Passei a ir a esse banheiro somente se tinha mais alunos.

O seguinte foi o professor de ginastica, esse abusava de todos, tinha um corpo fantástico, mas a cara era cheia de furos, de quem sofreu acne quando jovem.   Era muito mal com todos, os castigos podiam ser diversos, te deitar em cima da sua mesa, te penetrar sem que tivesses tempo de dizer ai.

Eu só escapava do jardineiro, do cozinheiro, que odiavam os outros, mas entendi por que, o jardineiro, vivia perto de um lugar que preparava mudas, nunca ia a missa, mas de noite se ajoelhava, se flagelava sem parar, até as costas ficarem cheias de sangue.  Então o cozinheiro, passava uma pomada, que ele mesmo fazia, depois tirava suas roupas, faziam sexo.  

Segundo as conversas, isso era para pagar o pecado que iam fazer.

Eu sabia disso, porque me escondia nesse invernadeiro, nas noites que sabia, que algum padre ia buscar alguém para fazer sexo.  Ali não sobrava nenhum, todos sabiam que iam ser abusados, sem importar, cor ou idade.    Quando faziam 17 anos, se sobreviviam, eram colocados para fora, os que não enterravam, ali perto no bosque que fazia divisa com os muros do mosteiro.

Nenhum queria ser padre, queria sim a oportunidade de chegarem aos 17 anos.

Eu fui ficando forte com os dois trabalhos, um porque o jardineiro estava ficando velho, então o pesado tocava a mim.  Mas gostava de ficar nos dias de inverno, trabalhando com ele, nesse lugar que fazia as mudas, tinha uma parte que só me deixava olhar, era aonde estavam as plantas proibidas, as quais usava para fazer pomada, ou para coisas que levei muito tempo para entender.   Algumas mortes estranhas no mosteiro.

Foi quando vi pela primeira vez uma planta de Coniun Maculatum, ou Cicuta Maculata, um poderoso veneno, me contou a história toda da espécie, como tinha sido usada ao longos dos séculos.

Eu era bom aluno, passei a roubar pequenas mudas, plantei entre as árvores da escola, um dos professores, me maltratou, abusou sexualmente de mim, mil vezes, resolvi experimentar, na sopa da noite, como levava muitas folhas, misturei cicuta triturada, não deu outra, no dia seguinte o encontraram morto, isso porque tinha colocado poucas, atribuíram claro a um ataque ao coração, ali não se fazia autópsia.

Teria que aprender a calcular as porções.

Em seu lugar chegou outro, que era impressionante, um homem de 1,90, forte, com uma cara de mau desgraçada.   Abusou de um garoto nessa noite, o mesmo apareceu morto no dia seguinte.

Nada de perguntas, nem acusações, nessa época eu já tinha o corpo de um adolescente, andavam atrás de mim o tempo todo, mas conseguia me safar, me escondendo, conhecia cada esconderijo do lugar.

Uma noite escondido numa viga do teto, vi um grupo de padres abusando de dois garotos, inclusive o que entendia agora que era meu pai, se masturbando, abusando de um deles.

Um dia me tocou limpar o seu gabinete, ele entrou furioso, alguém tinha denunciado um dos padres de lá, ele ignorou completamente minha presença, foi falando alto a combinação do cofre que tinha dentro de um armário, eu guardei na minha memória, depois escrevi num pedaço de madeira da viga aonde me escondia.

Quando ele saiu, eu experimentei a combinação, funcionava, vi muito dinheiro dentro, bem como documentos.

Agora me tocava porque dois garotos que faziam a limpeza dos quartos deles, tinham saído, ia descobrindo esconderijos de coisas, dinheiro, objetos sexuais, mesmo um que tinha o meu tamanho, roupas normais.

Fui anotando tudo mentalmente.

Um dos melhores descobrimentos, foi o do próprio jardineiro, que vendia por fora medicinas que ele preparava, escondia o dinheiro numa maleta metálica, ali por detrás do herbolario, aonde preparava mudas de árvores.   Um dia o vi com a maleta aberta, cheia de dinheiro, alisava o mesmo, sorria, um dia desaparecerei, mas nunca ia embora, aliás tinha até medo de passar do portão.

O cozinheiro, agora me tinha como seu ajudante.  As vezes alisava minha bunda, um dia me agarrou, tinha uns braços poderosos, me jogou em cima da mesa de cozinha, se distraiu abaixando as calças, tinha ao meu alcance uma faca afiada de cozinha, não tive dúvida, com toda minha força a cravei na sua mão, ficou com a mesma presa na mesa.  Lhe avisei que se me tocasse de novo, eu cortaria seus ovos.

Nesse dia o escutei falando com o Jardineiro, não sabia se devia me denunciar ao que se dizia que era meu pai.

Ande com cuidado, soltou o outro, esse garoto sai o ano que vem, mas posso preparar algo para darmos fim nele.

Fiquei o vendo preparar alguma coisa, disse ao outro que colocasse na minha comida.

Mas eu esperto, troquei os pratos, quem morreu foi o que tinha chegado, se levantou da mesa, grande com a mão no pescoço, se contorcendo como um louco, caiu no chão babando.

Eu rapidamente sabia aonde ele tinha escondido o vidro com o pó dentro, o roubei, escondi aonde levava minhas coisas.

Houve uma bronca geral entre eles.   Ele ficou quieto, disse que o sujeito tinha sofrido um ataque.

Ia fazer 17 anos, bem como um grupo de outros garotos, o padre fez vir um homem da cidade, que preparou documentos para todos, tiramos fotos, etc.

Eu vi que guardava tudo no cofre, pensei comigo, isso será bom.

Mais dois garotos, morreram antes de sair, como sempre alguma coisa aconteceu, um deles estava cheio de sangue, nas calças, era o mais fraquinho de todos, ninguém sabia como tinha sobrevivido até agora.

Logo outros dois saíram, um deles da porta, fez o maior escândalo, os chamando de pervetidos.

Mas qual o problema, ali não passava ninguém mesmo, para chegar a estrada tinha que se andar quase um quilometro, estávamos no meio do nada.

Fui guardando cada vez mais coisas.

Uma noite escutei um deles dizendo que eu sempre tinha escapado mais que os outros, que tinham que fazer uma festa de despedida para mim.

Pensei comigo não perdem por esperar.  Sabia que não podia deixar nada, nessa época erámos somente 10 garotos lá.

Eu sentia por eles, mas não podia deixar nada ao azar.  Tinha escutado numa aula, um professor falar de cabos soltos, isso pensava eu, se deixo que escapem, um dia poderão me acusar.

O que fiz, foi misturar cicuta, bem como o outro veneno que não sabia o que era, na sopa, mas coloquei mais carne do normal, fiz de tal maneira que o sabor devia ficar muito bom.

Eu como era o ajudante de cozinha, tinha que servi a mesa deles, bem como dos alunos, só podia me sentar quando todos estivessem bem servidos.

Foi o que fiz, esperei que começassem a tomar a sopa, para depois servir os estudantes.

Estes sorriam, sabiam o que ia me tocar, mas nunca me defenderiam.

Nem dez minutos depois escutei uma cabeça caindo sobre a mesa. Era a do jardineiro, foi como uma música, cada uma que caia, era um som diferente, por último foram os alunos, todos com cara de espantados.   O cozinheiro ainda teve como me olhar, dizendo o que foi que fizeste, o pseudo pai, me olhou com um olhar de acusação.

Eram as seis da tarde, eu simplesmente fui para a cozinha, limpei tudo que tinha usado, despejei o conteúdo da sopa na pia, fui retirando os pratos todos.

Depois afiei as melhores facas dali, fui para aonde estavam sentados, a cada um levantava a sotaina, abria as calças, cortava os ovos e o piru, colocava na boca deles, não sabia que isso era uma maneira da máfia matar, para mim, era outra coisa.

Os deixei atirados ali assim, por derradeiro foi meu pseudo pai, esse podia ter tomando menos sopa, ainda respirava suavemente, não tive conversa, levantei a faca bem ao alto, enfiei aonde estava o coração, sabia pelas aulas de anatomia, ainda pensei, quem mandou me ensinar aonde estava o coração.   Mas com ele fiz maldades, dei uma facada em cada olho, com todas as forças, depois fiz o mesmo lhe cortei o piru, enfiei na boca.

Para acabar, não deixar cabos soltos, cortei os pescoços de lado a lado, nem sabia a história da jugular.   Depois fui para seu escritório, abri o cofre, retirei todos os documentos, bem como envelopes que estavam ali, depois iria descobrir o que eram.   Numa bolsa que encontrei, coloquei todo o dinheiro.  Depois fui de quarto em quarto, buscando dinheiro, inclusive do professor que tinha meu tamanho, peguei todas as roupas dele, bem como umas botas, pois a noite seria fria, tinha no armário, um blusão de plumas, serviriam para a primeira noite.

Depois fui aonde estava a maleta do jardineiro, estava cheia de dinheiro como eu sabia, bem como frascos pequenos de cicuta que ele vendia, peguei uns quantos, nunca se sabia.

Reuni na cozinha isso tudo, eles estavam ali no chão todos caídos, os alunos, estavam jogados na mesa correspondente.

Levei tudo até o portão, preparei uma mochila que tinha encontrado, bem como uma maleta pequena que escondi a cicuta, bem como mais dinheiro, me vesti com a roupa do outro, guardei algumas na maleta.

Finalmente a noite caiu, me tocaria agora resolver o problema final.

Juntei toda as roupas que foram possíveis ali, não havia gás, mas sim um fogão a lenha, fiz um caminho com as roupas, até aonde estavam, ou seja, cada um pegaria fogo ou eu imaginava isso.

Coloquei meus documentos novos no bolso, fui embora, deixei os portões fechados, sai pela estrada, a caminho da minha liberdade.   Como era de esperar, não cruzei com nenhum carro.

Cheguei a estrada cansado, me escondi, esperando o dia amanhecer, quando parou o primeiro caminhão, pedi carona até a cidade mais próxima.

O homem perguntou se eu vinha do mosteiro, lhe disse que não, que ia para a cidade estudar, que minha família tinha uma fazenda por ali.

Na cidade, descobri aonde ficava a estação de ônibus, tinha um mapa antigo na mochila, tinha desenhado um zig-zag, peguei um ônibus para o destino mais perto, sacramento.

Nessa noite dormi num hotel barato, o que iria conhecendo ao longo do meu caminho.  As baratas quando passavam te olhavam com ódio, por teres invadido o espaço que eram delas.

Nesse dia comecei a ler o que tinha no cofre, eram dossier de cada um dos padres que estavam ali, os filhos da puta, tinham andado o pais inteiro fazendo merdas.

No dia seguinte de manhã, quando fui tomar café num bar em frente, falavam do que tinha acontecido por lá, uns diziam que tinha sido a máfia por sua marca característica dos ovos na boca, esses homens devem ter abusado de algum garoto da máfia.

Outros diziam que a diocese se negava a dar detalhes, aparecia o inspetor que estava levando o caso, não encontramos nenhum documento relativo a esses padres, nem sobre os garotos.

Retirei o que era meu, limpei os papeis que tinha tocado, coloquei tudo num envelope grande, que tive o cuidado de como fazia frio, usar luvas, fui ao correio despachei a esse homem.

Dias depois o escândalo tinha estourado, a arquidiocese já não podia esconder, esses homens estavam ali, escondidos por ela.   Na autopsia, se verificou que todos os alunos tinham sofrido abusos.   A única coisa que ela dizia que eram bastardos, filhos de pai nenhum.

Reclamava do roubo de dinheiro, que devia ter sido o motivo das mortes.

Claro a autopsia levava todos ao jardineiro, aos vidros de cicuta, que encontraram no invernadeiro.   Não entendiam, porque ele estava morto, descobriram sim que ele se flagelava.

Levei meses para chegar aonde queria, tinha encontrado um bilhete de minha mãe para o padre, pedia que ele me mandasse em outra direção, nunca aonde estava ela, finalmente tinha a vida que tinha pedido a deus, casada com um homem rico.  Nesse envelope tinha dinheiro também.

Quando Cheguei a Los Angeles, aonde ela vivia, fui dar uma olhada na casa, era uma bela mansão, fiquei vigiando, vi que saia muitas vezes, num carro grande com chofer. Mas afinal descobri aonde estava seu quarto, que havia um sistema de alarma em seu jardim.

Numa mesma noite joguei umas três vezes cachorros abandonados por lá.  Fazia um escândalo de fazer gosto, fiz dois dias seguidos, a vi despedindo o homem que devia ser um segurança, a vi se despedindo de seu marido, parecia uma puta de tão maquilada como estava.

Entrei na casa, me escondi, no andar de cima que devia ser aonde viviam os empregados, ou que guardavam coisas.   Esperei que fosse de noite, vi que recebia um amante, não tive dúvida, quando o homem foi ao banheiro, lhe dei uma pancada na cabeça.

Quando me viu, ficou assustada, procurou uma arma que estava na mesa de cabeceira, mas eu já tinha a mesma na minha mão.

A obriguei a abrir o cofre do marido, colocar o dinheiro que tinha ali numa bolsa, depois a obriguei a arrastar o amante para sua cama, depois a fiz deitar ao lado dele. Os dois nus, em momento algum perguntei por que tinha me abandonado, ela falava sem parar que merecia uma boa vida, que o padre tinha abusado dela, quando jovem, que eu tinha estragado sua vida.

Tudo que eu já tinha escutado antes, lhe dei água, com cicuta, depois levei o copo comigo.

A mandei agarrar ao homem, quando morreu, seus olhos pediam piedade, mas ela não tinha tido nenhuma comigo.

Sai de fininho no outro dia de manhã, sabia que os empregados voltavam nesse dia.

Não levei joias, nada no gênero, pois não sabia como vender depois.

De Los Angeles, fui para San Francisco, primeiro fiquei num hotel pequeno, li as notícias do escândalo nos jornais, o sujeito que estava com ela, era o melhor amigo de seu marido.

Num noticiário, ele dizia ter estranhado, não tinha roubado nenhuma obra de arte, joias, somente dinheiro que tinha no cofre.

Abri uma conta no banco, depositei uma primeira parte de dinheiro, arrumei um emprego num restaurante, de ajudante, fui levando a vida, quieto no meu pequeno apartamento, que para mim era um palácio, quando depositei todo o dinheiro, o chefe me disse que eu tinha jeito, que devia, fazer um curso de cozinha.  Eles fechavam uma temporada para reforma.

Fui aonde ele tinha falado, me inscrevi, o professor era um francês ria muito com ele, pois tinha um bom humor, me convidada para tomar algum vinho, me ensinava como me comportar na mesa de um restaurante chic.   Me contou sua história, tinha vindo para San Francisco, para se esquecer do homem que tinha amado, mas esse o tinha explorado no seu restaurante.

Um dia acabamos na cama, me ensinou a me comportar, antes eu só sabia que ia ser penetrado sem dó, nem piedade.   Com ele era outra conversa.

Me ensinou a usar meu corpo, gostava de me explorar, eu nunca tinha tido um orgasmo, nem sabia o que era isso.

Ele trabalhava em seu próprio restaurante, me convidou para trabalhar com ele, fui, por ver nisso uma maneira de ir em frente.

Já não se falava nada a respeito da minha mãe, tampouco dos padres, claro nada disso interessava no mundo católico.

Fui ficando, Jean Claude, era uma pessoa fantástica.   Me ajudou a tirar passaporte, nas primeiras férias fomos para Paris, mas fiz questão de pagar meu bilhete, não queria ninguém dizendo que vivia as custas dele.   Inclusive mantinha meu pequeno apartamento, nos meus dias de folga passava lá.

Ir a Paris, que eu só tinha visto nos livros, foi uma coisa impressionante.  Agora sabia me vestir, me comportar.   Só não gostei que ele me levasse ao restaurante de seu antigo amante, para me mostrar, tipo, veja, me arruinaste a vida, mas tenho esse jovem comigo.

Fiquei uma fera, as férias foram para a merda, voltei sozinho para San Francisco antes do tempo, tinha cometido um erro, ele sabia aonde eu vivia.   Tinha um bom dinheiro aplicado no banco, o que fiz, foi me mudar de apartamento por um tempo, pensei em ir para NYC, mas depois cai em mim, disse esse filho da puta não perde por esperar.

No dia do encontro, o homem que supostamente ele dizia o ter abandonado, lhe cobrava que vivia na farra, que gostava de estar com outros homens, ou seja a verdade tinha duas caras, mais uma lição para mim.

Me matriculei em aulas de francês, bem longe do seu restaurante, durante um tempo não trabalhei.

Um belo dia, o vi na rua com outro jovem, até parecido comigo.

Relaxei, busquei um emprego, num restaurante do outro lado da bahia, aprendi a trabalhar com peixe, ia bem.  Não me aproximei de ninguém por um bom tempo.  Levava cantadas, mas preferia me masturbar a me enrolar com outra pessoa.

Escutei um dia um cliente dizendo que quem trabalhava bem com os peixes eram os Portugueses, que havia uns restaurantes muito bons em Boston.

Fui para lá, logo estava empregado, num, mais um aprendizado.   Aprender a trabalhar com o bacalhau fresco, ou o seco que vinha de Portugal, foi toda uma experiencia.

Através de companheiros de trabalho, consegui mudar de nome, assim ficava mais fácil, arrumei o nome de dois homens que apreciava.

Virei Jean Paul, por causa do ator Jean Paul Belmondo, adorava filmes franceses, além de ler todos os livros de cozinha de Paul Bocuse, então virei Jean Paul Belcuse.  Fiz uma primeira viagem a Paris, para fazer um curso de cozinha marítima, me disseram que no sul, era melhor, foi o que fiz, fui para Marseille, agora falava um francês impecável.

Trabalhei um tempo lá, mas o patrão, não gostava de pagar direito, logo no verão arrumei um emprego numa praia mais acima, fui para Nice, tinha encontrado meu pedaço de paraíso.

Fui transferindo meu dinheiro dos Estados Unidos, arrumei um apartamento pequeno, mas bonito, com muito sol, numa vila perto, em frente à praia.

Meu dia livre era a segunda feira, no verão ia a praia pela manhã, depois me dedicava a preparar alguma receita nova que aprendia basicamente sozinho.

Me dizia por que não montava um restaurante, mas eu observava a verdade, o trabalho que dava levar tudo, o que sempre queria era que o patrão me respeitasse, me pagasse direito.

Sem família, livre de tudo, só tinha gastado com meu pequeno apartamento, um carro de segunda mão que tinha comprado.

Achavam interessante eu nunca ter ninguém, no verão, nos dias de folga ainda arrumava aquelas fodas de uma noite, mas no inverno, tinha vários amantes, mas não queria estar preso a ninguém.

Queria ter o poder da mobilidade.

Me convidaram para trabalhar num restaurante em Cannes, antes fui dar uma olhada por lá, o dono era um filho da puta, pensei, nem pensar.

Já que estou aqui, aproveito dou uma olhada, não muito longe deste, vi um cartaz num pequeno restaurante, vi uma senhora sentada perto da janela, com a mão no rosto, a garota do bar, me disse que era a proprietária.   Seu filho que levava a cozinha, tinha morrido num acidente a dois dias.

Falei com ela, me olhou, vi que seus olhos eram inteligentes.  Me soltou em plena cara, procuras um pouso, que seja um lugar honesto.

Me levou para a cozinha, me disse abrimos em dois dias, lhe disse que era o tempo de ir até aonde vivia, procurar um lugar para viver.

Se quiseres pode te ceder o apartamento de meu filho, esta como ele deixou.

Era pequeno como eu gostava, mas cheio de coisas modernas, lhe falei isso, que gostava da simplicidade.  Mandou um ajudante a trazer caixas, retirei tudo que me parecia demais, vi uma foto do rapaz, era muito bonito.

No dia seguinte, o fiz primeiro que fiz, foi limpar a cozinha de cima a baixo, com rigor, deixei tudo brilhando essa seria uma norma, que a cozinha estivesse limpa, quando os outros ajudantes me escutaram, eu lhes expliquei, passamos basicamente todo o tempo aqui, nada mais que estejamos num lugar agradável.

Misturei minha experiencia portuguesa, com a francesa logo tinha uma carta diferente.

Fizemos sucesso nesse verão, sem ter que fazer propaganda, somente no boca a boca.

De noite servia uma sopa de pescado, que tinha aprendido com os portugueses, que os cliente amavam. 

Muitas vezes, me chamava a mesa do cliente para me agradecer pela boa comida.

A senhora Theodora, me dizia, um dia te perderei, não importa, pelo menos fecharei o local com uma estrela.   Foi o que aconteceu, nos deram uma estrela Michelin, ai a coisa virou um inferno, as reservas eram impressionantes.

Aquilo cansava qualquer um, quando acabou a temporada, ela me propôs sociedade, queria me deixar tudo em minha mãos, eu disse que odiava administrar um restaurante, não me sobrava tempo para criar coisas novas.  Além de que esse sonho da estrela era dela, do filho, não meu, não significava nada para mim, o excesso de trabalho, cansava muito, se perdia a liberdade a criatividade.

Ela concordava comigo.   Me falou de um cliente, que eu conhecia, ele tem uma mansão, vive sempre perguntando se não podes ir cozinhar para ele.

Fui uma vez, para ver como era, um jantar imenso, com muita gente, levei o pessoal que trabalhava comigo, ele disse o que queria, eu tinha liberdade de preparar.

A garota que cuidava da sala, preparou uma mesa imensa, bem decorada, nós os da cozinha fizemos o resto.

O homem nos pagou, o que ganhávamos um mês no restaurante.  Quando me apresentou seus convidados, todos queriam meu telefone, na temporada, todos recebiam muito.

Nos demos conta que tínhamos um negócio pela frente.  A senhora treinou a garota que virou minha socia, íamos levar o restaurante com outro nome, mas manteríamos a simplicidade, novos pratos, a estrela ela levava para sua casa.

Na temporada, reservávamos dois dias da semana para atender esses ricos, em suas casas, algumas vezes, já levávamos a comida, meia pronta, nos baseávamos nos pratos que o dono da casa gostava.

Fomos ficando conhecidos, ganhando dinheiro.

Não me sobrava tempo nenhum para aventuras.   Um dia um desses homens ao fazer contato com ele, me perguntou, um homem tão bonito como tu, porque não tens ninguém, andei perguntando por aí, me dizem que estás sempre só.

Eu tinha achado estranho, a casa era extremamente masculina, não havia sinal nenhum de mulheres.

Nesse jantar rimos muito depois, só haviam homens, ele me convidou para ficar, conhecer seus convidados.   Eram todos milionários, a maiorias vivia em Paris, mas todos eram gays.

Quando um deles tentou passar-se comigo, cortei o mal pela raiz.

Estou aqui trabalhando, como convidado do Arnaud, por favor me respeite.

Esse se matou de rir.   Já vi tudo, apesar da tua idade, a estas alturas estava com quase quarenta, não queres romances.

No dia seguinte quando foi me pagar, lhe disse, que preferia uma aventura de uma noite, a ter um romance.  Lhe falei que tudo tinha duas caras.   Eu gostava da honestidade.

Ele me contou que até a pouco tempo tinha tido um romance de mais de 20 anos, mas claro a ele chegou à idade, que achava isso uma perda de tempo, queria aventuras com jovens, para recuperar sua vida.

Eu ao contrário, não tenho interesse nenhum, começou a aparecer em casa drogado, acabou mal.   Foi assassinado por um jovem.

Claro o escândalo estourou na minha cara, eu tenho uma empresa de família para levar em frente, foi uma merda total, os amigos que sobravam, foram esses que estavam aqui, que reuni depois de muito tempo.

Me perguntou quando ia a Paris, lhe disse que assim que acabasse a temporada, queria fazer um curso mais moderno de sobremesas, para melhorar a apresentação.

Ele foi muitas vezes ao restaurante, sempre ficava para depois do jantar tomar alguma coisa comigo, ria muito, pois eu nunca passava de uma taça de vinho.

Não gosto de perder o controle com drogas, ou bebidas fortes.  Um dia se insinuou.

Lhe disse que não queria perder um bom cliente.

Quando foi embora, me deu seu número de celular particular, eu o meu.

Cheguei uns dois dias antes a Paris, pois queria andar pela cidade, comer em pequenos restaurantes, experimentar comidas diferentes.

Chamei o seu celular, marcamos de jantar, me levou a um restaurante simples só abria pela noite, o que achei interessante, menos cansativo, me apresentou o dono.  A cozinha era magnifica, me disse que tinha escutado falar ao meu respeito, não só pelo Arnaud, mas porque tinha recusado uma estrela Michelin.

Lhe expliquei por que, se torna uma coisa exaustiva, sei que a maioria depois da primeira quer a segunda, a terceira, sei lá se existe outras depois.

Mas gosto de ter o prazer de cozinhar.

Nessa noite Arnaud me levou ao seu apartamento, era um luxo só, ele viu que eu não ficava à vontade.

Lhe disse que gostava da simplicidade, nada de grandes luxos, lhe expliquei que meu luxo, era livros, silencio em casa, pois na cozinha havia muito ruido.  Então em minha casa isso era primordial.

Me deu um beijo, não me excitei, ele percebeu, parou ali.

Depois foi me levar ao hotel que estava, que era relativamente perto do tal restaurante.

No meio do curso, perguntou se tinha a noite livre, queria jantar comigo, antes que eu fosse embora.

No jantar, estavam pessoas que eu tinha conhecido em sua casa no sul.  Mas me colocou ao lado de um homem, que estava vestido simplesmente, era muito sério.  Começamos uma conversa entre os dois, enquanto os outros faziam fofocas.

Quando acabou a comida, eu disse que ia embora, tinha aulas pela manhã, ele perguntou o que estava estudando, lhe disse que era cozinheiro, que estava fazendo um curso de sobremesas, que o Arnaud era meu cliente tanto no meu restaurante, como eu tinha feito um jantar em sua casa.

Sou uma nulidade na cozinha, tudo que tenho é uma cafeteira, com um bom café, alguma bebida para os dias frios, nada mais.

Arnaud, soltou porque não vão juntos, ele esta num hotel perto da sua casa.

Rimos os dois, fomos andando, ele disse Arnaud me conhece muito bem, tentou alguma coisa comigo, mas aquele luxo da sua casa me incomoda, venha conhecer a minha, era antiga, com livros por todas as partes, no salão ao contrário de ter uma televisão, tinha uma mesa cheia de papeis, por todos os lados, sou professor da Sorbonne.

Nos aproximamos, fazia tempo que não me sentia bem com ninguém.  Acabamos na cama, foi um prazer incrível.

No dia seguinte eu ia embora, perdi o trem, ele telefonou a secretária, disse que não podia ir trabalhar, saímos pela cidade, foi me mostrando seus lugares prediletos, depois voltamos para sua casa.

Me contou que tinha tido uma vida assim, por escolha própria, gosto de estar sozinho, da tranquilidade, de poder trabalhar, as pessoas pensam que porque as vezes me convidam para um programa de televisão, para falar sobre algum livro, que estudo em profundidade.

Mas odeio, nunca vejo esses programas, apenas faço como um trabalho, para divulgar bons livros.

Me perguntou se tinha dias livres, eu só iria começar a trabalhar duas semanas depois, o convidei para vir comigo.

Amou a minha casa, me falou do seu sonho, uma casa numa aldeia dessas com praia, aonde pudesse levar uma vida tranquila, sem luxos.

Eu o entendia, na verdade mantenho o restaurante por necessitar trabalhar, dinheiro tenho, mas preciso me ocupar.  Cozinha é o que gosto.

Preparei uma comida para ele, que riu muito, dizendo que agora entendia o que falavam de mim.

Foram as melhores férias da minha vida, ele teve que ir embora, eu voltar a trabalhar, mas nós falávamos sempre.

Um dia vi um anuncio de uma casa, numa vila próxima, como ele sonhava, lhe chamei, veio no dia seguinte.  Antes matamos a saudade um do outro.

Amou a casa, deu um sinal para reservar a compra, tinha uma vista privilegiada, bem como estava isolada.

Nesse dia me perguntou depois de sexo, se eu gostaria de viver com ele ou perto dele.

Me confessou uma coisa, tenho um trauma muito grande, abusaram muito de mim em garoto, depois em rapaz, numa escola de padres, meu pai nunca acreditou em mim, não me queria por perto.   Minha vingança foi que quando ficou velho, precisou de mim, o coloquei numa casa de idosos que ele odiava.

Podia ter caído na vida depois disso, mas ao contrário me fechei, tu eres a primeira pessoa que gosto, que ter prazer contigo me faz bem.   Lhe contei parte de minha história que não era muito diferente da sua.

Descobri uma pequena casa quase ao lado da sua, era uma antiga casa de pescadores, a comprei, mandei reformar, melhorar, tinha uma bela cozinha incorporada ao salão.

Ele conseguiu uma transferência para a universidade de Aix en Provence, passamos a viver assim, ele tinha sua casa para trabalhar, eu a minha, dormíamos todos os dias juntos, ou numa ou noutra, só reclamava do inverno, aí preferia a minha. 

Vendi minha parte do restaurante, comprei um pequeno na praia, ao lado de casa, desses que ficam na praia, só abria no verão, durante a noite.

Arnaud, vinha sempre, dizia que ali estava em paz com ele mesmo.  As vezes o via triste, dizia que nunca encontraria ninguém em que tivesse confiança.

Nos dois agradecíamos ter-nos juntado.   Era sempre o amigo que aparecia para longos papos, eu preparava a comida que ele gostava, ria muito.

Dizia ao Paul, meu companheiro, que eu o tinha conquistado pelo estomago.

Não é verdade, me conquistou por ser a pessoa que é, soubeste ver isso nele, que seria meu companheiro ideal.

Depois de quinze anos juntos, um dia me chamaram da universidade, Paul tinha tido um enfarte, corri como um louco para Aix, ele me contou por que, tinha passado mal.

Tinha ido a uma missa por um amigo que tinha falecido, o padre que rezava a mesma era um dos seus abusadores.

Me disse que na hora queria matar o mesmo, imaginou a cena inclusive, mas tinha tido o enfarte.   Morreu dias depois, entrou em coma, eu jurei ali ao lado da cama, depois que me disse o nome do homem que ia me vingar por ele.

Depois do seu enterro, ele deixou tudo que tinha para mim, Arnaud, veio ficar um tempo, lhe contei o que tinha acontecido.

Vou me informar a respeito desse sujeito, montar um escândalo.

O deixei fazer, ele conhecia muita gente, realmente fez um escândalo, houve protestas na arquidiocese, mas o filho da puta ficou.

Eu fui por outro caminho, passei a seguir o homem, para ver aonde morava, era de hábitos fixos, saia de manhã, lhe tinham retirado as aulas que dava numa escola católica, já não rezava missa.   Dessa vez tinha visto muitos filmes de polícia.   Usei luvas entrei em sua casa de noite, não tinha nada de segurança, o peguei dormindo. O amordacei, lhe dei cicuta, que ainda tinha, quando foi se apagando, mas com ele vivo, lhe cortei o piru, enfiei em sua boca, que o fez morrer sufocado.

Deixei tudo como estava, não havia impressões digitais minhas por ali.

Só descobriram o homem dias depois, porque um jornalista, queria o entrevistar, chamava a porta, mas sentiu o cheiro da decomposição, quando apareceu a polícia, foram logo pelo escândalo, ele tinha estado um tempo na Itália, acharam que era um ajuste de contas da máfia.

Arnaud me disse que o escândalo tinha provocado isso, pois tinham ventilado todos os lugares que ele tinha andado, inclusive pela Itália.

Eu pelo menos fiquei tranquilo, segui vivendo na minha casa, doei os livros todos do Paul, a universidade, mas nunca me esqueci dele.

Um dia Arnaud, me falou de um escritor que tinha escrito uma novela policial, baseada numa história similar, mas que a pessoa que tinha matado, o tinha feito com o mosteiro inteiro, só tinha escapado um aluno.  Esse levou anos para se recuperar, mas sofreu tantos abusos, que conta uma história rara.   Que um anjo um dia desceu, viu o que faziam, liquidou a todos que abusavam dele.

Ele leu o livro, o homem tinha levantado que a pessoa que tinha feito isso, tinha sido algum aluno que conhecia os hábitos do mosteiro, alguém que saiu, mas voltou para se vingar.

Eu fiquei no meu canto, nunca comentei nada a respeito.

Agora estou esperando meu tempo acabar, levando minha vida simples, com o pequeno restaurante, um dia me reunirei ao homem que amei, meu Paul.

Não vendo sua casa, porque o Arnaud, agora vem sempre no verão, para ficar comigo, temos longos papos, falamos da vida, olhando o mar, mas quando chega a noite, vai para a casa do Paul, diz sempre que tinha inveja dos dois, mas que entendia.

Já não convida muita gente para vir passar dias com eles, diz que prefere conversar comigo, quem sabe um dia encontraremos Paul do outro lado.

Eu dispus meu testamento, tudo ira para obras de caridade, orfanatos, coisas assim. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                  

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