O MAIOR SURURU

 

                                          O MAIOR SURURU

 

Meu nome é Jimmy Durante Alvarenga Peixoto, de família bem do Rio de Janeiro, filho único, de pais complicados, que sempre me encheram o saco, diga-se de passagem.  Meu pai achava que tinha que ser médico como ele, minha mãe ao contrário queria que eu fosse famoso.

Nenhum, nem outro, para todo mundo eu era Jimmy Durante, levei muito tempo para entender o nome, ela adorava um cômico americano, por isso me colocou esse nome, vivia escutando um disco dele que alguém lhe trouxe de lá, uma das músicas a fazia lembrar de um namorado que teve antes de meu pai, “smile”.   Ele ao contrário ficava uma fera quando chegava em casa por causa disso, vivíamos num belo apartamento no Flamengo, aonde viviam muitas dondocas da sociedade, hoje já morreram todas.

Para azar dos dois, eu era moleque de rua, adorava ir jogar na praia do Flamengo, para escândalo dela, meu melhor amigo era o Negão, Eduardo da Silva, meu amigo até hoje, saiu outro dia do presidio, eu lhe avisei, mas não me escutou, tive que colocar um bom advogado para tirar ele de lá.  Agora esta na minha casa, em Santa Teresa.

Ao longo dessa vida, passamos muitas coisas juntos, eu fiz universidade, ele não, sua família vivia numa quitinete, ali no Largo do Machado, então como ele dizia o apertamento era tanto que ele fugia para a praia.

Para todo mundo, estou vivendo em Sepetiba, na praia, a outros digo que vivo em Maracangalha, isso porque gosto de paz para trabalhar, quando recebi uma herança da minha avó, que adorava minhas loucuras, bem como as do negão, o fazia sentar-se aos seus pés, pedia que contasse o que tínhamos feito durante o dia.   Claro ele exagerava, que eu tinha feito dois gols importantes, que tinha apartado uma briga minha com dois valentões, essas coisas.

Mas claro isso tudo, na cozinha, porque se minha mãe escutasse, era um Deus nos acuda, menos mal que sempre saia para jogar Bridge com as amigas.

Ela tinha sido casada com um dos Peixotos, tinham dinheiro, só teve meu pai, era uma mulher esperta, comprava ações, vendia, logo de manhã seu café era a coisa mais importante do dia.

Se sentava na mesa da cozinha, não queria as interrupções de minha mãe, pegava a parte do jornais que falava em ações, com um caderno ao lado anotava tudo, comparava com os dias anteriores, passava a mão no telefone, começava a falar com seu homem como dizia, um diretor de banco, que fazia tudo para ela.

Ai da minha mãe que tentasse passar a mão no telefone, ficava uma fera, dizia que estava trabalhando, será que essa inútil não tinha o que fazer, que fosse a pé ao salão de beleza arrumar seus cabelos.

Meu pai para tranquilizar o ambiente, comprou outro número de telefone, naquela época se comprava.   Assim encontrou paz.

Se havia alguma festa em casa, ela implicava que minha avó queria usar o mesmo vestido de sempre, que iam pensar as amigas dela, pois nesse dia, minha avó, passava a mão nos dois, íamos para o centro da cidade de taxi, para a confeitaria Colombo, essas idiotas, se pelo menos jogassem a dinheiro o Bridge, eu ia tirar todo o dinheiro delas.

Aproveitava para comprar alguma roupa para mim, iguais ao do Negão, quando saímos na rua, parecíamos conjuntados.  Na escola, todo mundo nos gozava, isso foi outra briga, queria que eu estudasse numa escola fina, fui um dia, esperei meu pai chegar, disse que nem pensar em estudar ali, lhe perguntei aonde tinha estudado, ele rindo disse que na escola ali perto, que sua mãe não gostava de frescuras.

Ali claro estava o negão, nos protegíamos, eu lhe ensinava o que ele não entendia, ele me defendia dos Bullying daquela época.

Fomos crescendo, sempre nos metendo em confusão, algumas era por culpa dele. Outras por minha culpa, mas sempre nos defendíamos.

Tudo mudou quando minha avó morreu, acho que os únicos que choraram no velório, depois no enterro, no cemitério do Caju, na parte dos judeus, fomos nos dois, bem como o pessoal que trabalhavam em casa.  

Minha mãe, fazia cara de sofredora, mas no fundo dava graças a deus, meu pai estava chateado, tinha sido uma mãe maravilhosa, mas ele era incapaz de mostrar o que sentia.

Aí começou o inferno, na maior me matriculei na escola de Belas Artes, fui fazer o que queria, ela tinha deixado uma herança para mim, que receberia quando fizesse 21 anos, basicamente ao final da universidade.

Evitava ir para casa, pois torravam meu saco, consegui uma mesada, que dava para pagar um studio, aonde eu poderia pintar, basicamente passei a viver lá com o Negão.

Ele estava sempre fazendo algum trabalho para alguém, era pau para toda obra.  Nos finais de semana, íamos para a Mangueira, foi assim que comecei a desenhar carros para a Escola, até mesmo participar na construção, pois precisava saber como realmente se montava, uma coisa era desenhar, outra executar.   Quando chegava essa época o Negão trabalhava como um louco, era pau para toda obra para os carnavalescos.

Sabia fazer de tudo, até consertar maquinas de costura ele sabia, não me pergunte como, mas fazia.

Hoje fui levar os desenhos de dois carros que foi um quebra cabeça, encaixar dentro do samba enredo da escola.   Eu pensava, porque não escolhem um tema mais simples, mas não sempre era uma coisa complicada.

Eu tinha sempre o carro abre alas, bem como o último.  Tinha passado semanas quebrando a cabeça com os dois, menos mal que hoje era possível, trabalhar em 3D nos computadores, fui anadindo os detalhes do carro abre alas, para contar mais ou menos o samba enredo.

Depois o figurinista me consultaria a respeito dos destaques essas coisas.

Eu nunca tinha romances que passassem de uma noite, minha desculpas era que não me sobrava tempo para isso, quando não estava fazendo isso, estava pintando, preparado alguma coisa.   Tinha vivido muito tempo num apartamento, que dava para o lado do Museu de Arte Moderno, esse tinha comprado na surdina.   Era uma casa imensa, além de uma garagem, aonde fazia meu trabalho.  O meu jeep ficava numa garagem na casa de uma senhora vizinha que não usava a sua.  Era perfeito. 

Tinha na porta um sistema de vídeo, se alguém chamava, eu via de aonde estava trabalhando, raramente atendia, normalmente eram namorados ou namoradas, que estavam a minha procura.

Eu nunca prometia nada, pois não queria compromisso, mas as pessoas não entendiam minhas diretas.    Diziam que eu nunca era claro, podia ser.

Fomos entrando na quadra, quando disse para o Negão, xi vem complicação, era uma garota que eu tinha feito sexo uma vez, odiava essas que fazem sexo suspirando, cheios de ais, depois começam a falar em amor, em casamento, eu dizia que tava fora, mas isso nem sempre adiantava, quando ia escapar pela esquerda, saia do meio do pessoal, um garoto com quem tinha feito sexo uma noite, era uma menina na cama, dizia que tinha se apaixonado, me telefonava, mil vezes ao dia, até que troquei o número do celular, ai passou a aparecer lá em casa, eu nunca abria, a vizinha que me fazia o favor de quando perguntavam por mim, dizer que eu estavam em Sepetiba, ou tinha ido a Bahia, mas não sabia aonde eu estava.  Ela adorava fazer isso, um dia disse para um senhor que me procurava, o advogado da minha avó que eu tinha me mudado para Moscou.   O homem ficou de pedra, menos mal que o encontrei na esquina indo embora, ele continuava aplicando o dinheiro, queria me dizer que pensava em se aposentar, o que eu pensava fazer.

Fiquei pensando, esse menino ficou louco de vez, virou comunista.

Ele me ajudou muito com a história do Negão, foi um sufoco.  O idiota para ajudar um conhecido, ficou com as drogas do mesmo, o sujeito escapou, ele pagou o pato.

Negão só disse uma coisa, como nunca consegues te decidir, homem ou mulher, olhos os dois de cima a baixo, vinha como uma fúria em cima de mim.

Me colocou atrás dele, eu desaparecia é claro.  Começou a falar com uma voz aflautada, altíssimo, que queriam aquele homem era dele, nos conhecíamos desde o jardim de infância, quando tínhamos começado a fazer troca-troca.  Não era porque ele tinha estado fora, trabalhando para Jean Paul Gaultier que eles iam avançar no homem que era seu, nesse momento a bateria parou, já estava todo mundo olhando, ele aproveitou, começou a gritar dramaticamente que aqueles dois queriam roubar seu homem.  Eu com a mão na boca, pois estava louco para soltar uma gargalhada.   Um dos seguranças amigo dele apareceu.

Ele exagerou mais ainda, Manel, uma pessoa não pode passar um tempo na Europa, para bom entendedor, significava prisão, que essa gentalha quer roubar nosso homem.

Manuel se contendo de vontade de rir, levou os dois para fora.

Eu caí da gargalhada, devias fazer cinema, tu eres mais Jimmy Durante que eu. O carnavalesco estava morrendo de rir, com a história.   Isso é porque te metes com quem não deve.

Olharam os planos, as impressões em 3D, ele soltou tu eres o único que já trazes tudo bem-feito.

Vais quando para os barracões?

Quando me avisares, eu preciso deste mês para acabar a exposição que estou montando, depois estou livre.

Quando ia saindo, olhei para o outro lado da quadra, vi um rapaz que conhecia, talvez o único com quem queria ficar, mas nos tínhamos conhecido no pior momento da minha vida, separação complicada dos meus pais, ter descoberto que ele tinha outra família a tempos, bem como tinha outro filho.

Ele tinha dormido em casa, eu nunca fazia isso, arrumava uma desculpas para a pessoa ir embora, chamava inclusive um taxi para a mesma, mas ele ficou para dormir, no dia seguinte de manhã, lhe contei que estava no meio de uma coisa familiar complicada. Contei por alto o que acontecia, o Negão preso, a confusão dos meus pais, não tenho muita cabeça nesse momento, podemos nos ir falando.

Ele me disse que também estava num momento complicado, tinha uma relação com um homem mais velho que era um problema.

Ficamos de nos ver, mas nunca mais o vi.  Me aproximei, começamos aquela conversa, de como vai, etc.

Mas era impossível falar com o ruido todo da bateria, lhe disse que ia embora, se quisesse o levava, fiz um sinal para o negão que estava conversando com uma mulata linda.

Fez sinal que ficava, eu entendia, tinha que trocar de óleo como ele dizia, depois de tanto tempo preso.

Fui saído, acompanhado do rapaz, tentava fazer um esforço para me lembrar do nome dele. Quando saímos suspiramos ao mesmo tempo, o barulho não era o meu, bastava quando estava construindo alguma coisa.

Começamos a conversar, se surpreendeu que eu me lembra-se seu nome, André Barroso, mas ele também se lembrava do meu, me contou que tinha visto minha última exposição, que tinha gostado muito, mas claro não tinha dinheiro para comprar um quadro meu.

Perguntei se já tinha resolvido seu problema?

Bom foi um caos, conheci esse homem tinha 15 anos, sem possibilidade nenhuma de estudar, uma família complicada, ele ia ao mesmo terreiro que meus pais, que sempre acham que os espíritos vão resolver tudo, mas não se mexem para ir em frente.

Ele convenceu meus pais, que morando com ele, ia ter oportunidades, me atraia ao princípio, pois me parecia uma pessoa inteligente.  Imagina sair de Deodoro, para viver em Copacabana, num bom apartamento, escola ao lado.   Mas claro tinha o sexo, o controle, ciúmes, etc., quando entrei na universidade a coisa piorou, pois me controlava o tempo todo, se me via falando com um colega, me fazia um verdadeiro questionário.   Esse era seu problema, tentei falar com ele sobre isso várias vezes, mas nunca escuta ninguém, se acha dono da verdade, depois claro me jogava na cara o que tinha feito por mim.   Não sabia me defender, uma colega da universidade, me falou de seu irmão psicólogo, comecei a conversar com ele, me orientou como sair dessa.

Arrumei um emprego assim que sai da universidade, mas para ele, eu tinha que fazer um concurso, ser funcionário público, para ter um futuro garantido.

Ficava escapando de ir para casa, passei a ter meu dinheiro no banco, ele queria controlar isso também, foi quando comecei a não permitir nada.  Comecei a sair, mesmo sabendo que quando voltasse para casa, ia ter problemas, nem tinha amigos, a única que podia falar era essa conhecida.   Mas quando o namorado dela ficou com ciúmes, me afastei, já tinha problemas em casa, não ia provocar problemas na casa dos outros.

Então te conheci, sou honesto, que se passamos daquela noite, me apaixonaria por ti, mas os dois tínhamos que resolver nossos problemas.  Nesse dia quando cheguei em casa, o escândalo foi grande, pela primeira vez, tentou me bater.  Arrumei minhas coisas, fui para a casa de um conhecido, fiquei dois dias lá, depois arrumei um studio na Men de Sá, aonde vivo até hoje.

Ele fez um escândalo com minha família, a um ponto de meu pai ir me procurar no trabalho, aí descobri, que basicamente me tinha comprado, pois todos os meses dava dinheiro a minha família que se acomodou nisso.   Mas tampouco querem saber de mim, pois sou o viado da família.

Mas desta vez explodi, mandei todo mundo a puta que pariu, eu tinha direito a férias, além de algumas economias, fui para Parati, era fora de estação, me escondi lá um mês, voltei, tive a oportunidade de trocar de emprego, não disse nada a ninguém.   Me fechei, precisava me recuperar, saber quem eu finalmente era.   Nada de relacionamentos, namorados de uma noite, nada, é a segunda vez que saio de casa com esses amigos.

Me matei de rir com o escândalo do teu amigo, me lembro que me contaste a história dele.

Pois é somos amigos desde pequenos, de jogar futebol na praia.

Mas tua família é rica, quando vi tua exposição, tinha uma mulher fina, dizendo que era seu filho, que lhe chateava muito que não usasse o nome da família, Alvarenga Peixoto, que afinal tinhas um nome a zelar.

Teve que rir, escutaste minha mãe, meu eterno problema, não aceita que não viva com ela, no seu puto apartamento do Flamengo, nem que tampouco use o sobrenome, que seja amigo do Negão, isso nunca aceitou, tampouco dá o divorcio ao velho, que vive com sua outra família, teria que deixar de ser Alvarenga Peixoto, imagina.

Pois é as coisas acabaram mal, ele foi viver com sua outra família, tenho um irmão, que vim a conhecer, com 14 anos, um garoto estupendo.

Mas meu irmão na verdade é o Negão, Eduardo Silva, para os íntimos. Quando nos conhecemos, estava preso, foi fazer um favor a um conhecido, lhe prenderam como traficante.

Deu muito trabalho, tira-lo da cadeia, mas não o podia deixar lá.

Pensei que realmente existisse alguma coisa entre vocês, como ele fez esse escândalo.

Nada, ele faz isso para me salvar.  Nunca tivemos nada, sempre fomos amigos, ele gosta mesmo é de uma mulata, mas também sempre se mete em confusão, já saiu muito na porrada, com essa história que dizem que vivemos juntos.

Na verdade atualmente vive comigo, pois a família ficou furiosa com ele, era pobres, mas nunca ninguém esteve preso.

Não importa, ele é minha família, tampouco me importo que pensem alguma coisa de nós dois, sempre nos respeitamos, falamos disso sempre, rimos muito.  Quando quer me ameaçar, me chama de branquinho, vou arrebentar teu cu.

Estavam sentados no jeep, tomando uma cerveja.

Ia te convidar para ir a minha casa, mas isso se queres.

O que estas fazendo no momento?

Acabando uma exposição, me faltam dois quadros, vim trazer os desenhos do carro que faço sempre para a escola de samba.   Agora posso trabalhar em 3D, fica super fácil, o difícil é entender o samba enredo, mas depois que fica pronto desapareço, dizem que não entende por que faço.   Começou a rir, dizem que nem sei sambar direito, nunca sai na escola, prefiro escapar para algum lugar, na serra por exemplo.  

Herdei de minha avó, uma casa em Teresópolis, está bem situada, fora da cidade, no meio do mato, em criança, ela levava os dois para lá.   Mas o negão sempre fica, adora essa confusão do carnaval.

Estou pensando em ir para fora um tempo, mas o problema é conseguir passaporte para ele.

Já vês minha vida está ligada à sua para sempre, um namorado tem que aceitar isso, ficou rindo da cara do André.

Desde que ele não esteja na cama junto, tudo bem.

Bom aonde te deixo, eu vou para Santa Teresa, mas não vivo mais no mesmo lugar.

Eu sei, fui lá te procurar, mas ninguém sabia aonde estavas.

Ah, não te esqueceste de mim?

Não, mas veja bem, tens tua vida, se vais embora, eu ficarei como sempre a duas velas, pois não posso te acompanhar.   Tampouco quero só uma noite contigo, sou complicado, quero sonhar com uma relação bonita, nada a ver com a que tive.

Eu te entendo, o mesmo acontece comigo, mas conviver comigo é difícil, estou sempre metido na minha garagem, pintando como louco, ou fazendo algum projeto.

Ficaram ali se beijando no escuro, sentia prazer só nisso, podia ficar a noite inteira fazendo isso.

André disse é melhor parar.    Lhe deu o número do seu celular.

Vamos nos falando.

O levou para casa, depois dali, subiu para Santa Teresa, pensando justamente isso, talvez eu não tenha capacidade de dar o que ele quer.  Sou um medroso, como diz sempre o Negão.

Tomou um banho caiu na cama, sem saber bem por que dormiu pensando quando eles eram garotos, mesmo no sonho, sabia que era o momento de sua vida que era feliz.

No dia seguinte tinha prometido almoçar com seu pai, com seu irmão Vitor, quando o via o abraçava, lhe fazia milhões de perguntas, a primeira vez que viu o Negão, se abraçou a ele, disse que era seu outro irmão, seu pai tinha lhe contado, que erámos como irmãos, desde criança.

Despertou quando escutou este entrando em casa, prestou atenção para saber se não estava bêbado, viu que como sempre tomava um banho como ele antes de cair na cama.

Voltou a dormir, despertou as 10 da manhã, com o dono da galeria, perguntando se podia subir com um colecionador, acompanhado do dono de uma galeria francesa.

Lhe pediu uma meia hora, para tomar banho, beber uma bela caneca de café, bem forte.

Se sacudiu todo.  Deixou uma caneca de café na mesa de cabeceira do quarto do Negão, quem se levantava primeiro fazia isso.

Colocou seu macacão de trabalho, prendeu os cabelos, estava fazendo um quadro em cima da única foto que tinha dos dois juntos em garoto, feita pela sua avô lá em Teresópolis.  Os dois estavam de mãos dadas, se lembrava deste dia perfeitamente.

Estava retocando o rosto dos dois, tinham rido muito, sua avó furiosa, pois não ficavam quietos.

Tinha a cara suja, pois estavam num pé de Jabuticaba, tinha toda a cara manchada da cor da fruta por fora.

Manteve isso, por isso riam, queriam colocar no nariz uma fruta para parecerem palhaços.

Escutou chamarem na porta, olhou, viu que era o dono da galeria, correu, pois o Negão era capaz de atender nu.   Quando ia chegando, lá estava ele a ponto de abrir a porta, lhe disse que era o da galeria, com um colecionador, depois que tomes banho, pode nos levar café.  Esperou que ele desaparecesse para abrir a porta, os levou para a garagem que era imensa.

O dono da galeria, ria ao ver o quadro, apontou para ele, dizendo que o outro era seu irmão, a cara do francês era ótima.

Chose du Brésil, disse isso rindo.   O outro era o dono de uma galeria, se apresentou. Disse que tinha visto o catalogo da última que gostava muito do seu trabalho, muito brasileiro, com tanta cor.

Tinha um imenso na parede, que era uma das coisas da sua memória, um jogo de futebol na praia, com o Pão de Açúcar por detrás.

Tinha um que ele amava, nem pensava vender, era sua avô, com roupa de gala como chamava a roupa de ir à missa, com sua fiel companheira, a senhora que cuidava da cozinha.  Uma negra imensa, mas com uma voz preciosa, que estava sempre cantando.   Sua mãe a odiava, acabou que vivia hoje com a nova família do seu pai.

Tinha uma música que sempre se lembrava dela cantando.

Garçom apague essa luz,

Que eu quero ficar sozinha,

Garçom me deixe comigo,

Que a mágoa que eu tenho é minha.

Ou então, cantando a preferida de minha avó, “Ninguém me ama”.

As duas eram da época do rádio, na cozinha esse sempre estava em alguma estação com esse tipo de música.    A velha nem parecia a dona real da casa, o apartamento era dela, pois seu lugar preferido era ali, tinha ali naquela cozinha imensa, um cadeirão, aonde passava o tempo conversando com sua amiga Lindaura, as vezes cantavam alguma música juntas.

Odiavam quando chegava o carnaval, isso não era com elas, as marchinhas de carnaval, que diziam que eram uma besteira.

Sem querer se viu explicando isso ao francês, que olhava para ele surpreso, falando perfeitamente sua língua.   Nisso entrou o Negão trazendo uma bandeja de café, ele apresentou Mon Frère, o homem os colocou um ao lado do outro, depois olhou o quadro que estava pintando, começou a rir, pois os dois no quadro eram pequenos, pegou a foto que estava ao lado, ria muito. Queria saber de que estava suja a cara, abriu os olhos quando o Negão começou a explicar o que era Jabuticaba, em francês.

O Galerista ria, soltou que não imaginava que os dois falassem francês, os dois disseram ao mesmo tempo que tinha estudado sempre juntos, quando queriam encher o saco dos outros, falavam em francês.

O colecionador, disse que ficava com o do jogo de futebol, bem como o da Jabuticaba.  Mas entendia que antes estariam na exposição, queria o da sua avó também, mas este ele não pensava vender.

De repente ficou sério, se lembrou um dia que tinha ido com a Lindaura num terreiro, que esta emprestou uma roupa para sua avó que ria, dizendo que uma judia vestida de macumbeira era ótimo, sem se importar que os outros estavam ali, pegou uma tela começou a desenhar, como um louco.   O negão conseguiu cadeiras para eles, fez sinal de silencio, ficaram ali o vendo pintar, ao mesmo tempo chorar, sentia um aperto no coração ao se lembrar desse dia, embora tinha sido uma festa, pois era saída de santo de alguém.

Sem se dar conta, colocou dois outros quadros ao lado, começou a fazer um tríptico, lhe vinham à cabeça todas as imagens que estavam ali guardadas.  

Agora só faltava os retoques.

O colecionista agradeceu a oportunidade de vê-lo trabalhando, ficou louco por uma maquete que estava ali, do carnaval do ano anterior, um dos carros da mangueira, que tinha sido difícil de fazer, mas ele tinha montado a maquete para ajudar na confecção, normalmente ficava para a escola, ele trouxe para fazer uma foto para mostrar para o Negão, não tinha devolvido.

O homem perguntou se ele era escultor também, riu, em vez de responder, pediu ao Negão um álbum de fotos, com os carros que já tinha feito ao longo dos anos.

A cara do homem era fantástica, tinha uma foto de uma revista, com ele construindo no barracão, um dos carros, com as esculturas altíssimas, de um Xangô imenso.

Disse que se ele fosse para Paris, devia fazer esculturas também, ele compraria.

Apontou uma central de Xangô, esse gosto muito, no seu português macarrônico.

Disse que quem era modelo era seu irmão Negão.

Eduardo é espetacular disse o homem, se via que estava interessado nele.

O dono da galeria, estava rindo, nem tinha feito a exposição, já tinha vendido vários quadros, o de Paris, lhe disse que gostaria muito de contar com ele em breve.

O brasileiro, disse que depois lhe chamava por celular, que tinha sido um golpe de mestre ele pintar na frente dos homens.

Ele não tinha feito de proposito, simplesmente tinha sido espontâneo.

Depois tomou outro banho, isso sua mãe nunca tinha entendido, como explicar que era uma mania que tinha pegado com o Negão.

Os dois desceram para o largo do Guimarães, pois tinha marcado com seu pai ali.

Vitor quando os viu, saiu correndo para abraçar os dois.   Seu pai, depois do divórcio, tinha ficado mais amoroso, o abraçou e beijo, agora fazia isso com os dois.

Meninos como os chamava, estou louco para comer um pastel de camarão, daquele restaurante que gostas Eduardo, ele nunca chamava o mesmo de Negão, tampouco permitia que o Vitor o fizesse.

Este estava se deliciando com o Negão contando, como tinha acontecido a cena, do Jimmy pintando, os homens assistindo de plateia.   Ele ria muito.  Se virou para o pai, será que um dia vou pintar como ele?   Não sei meu filho, o futuro é teu, escolhes tu.

Ele estava fazendo uns cursos no Parque Lage, que Jimmy tinha arrumado para ele, com um conhecido seu.   Este dizia que o garoto tinha futuro.

Já tenho dinheiro para nossa viagem, contava Jimmy, mas claro falta o passaporte do Eduardo, quando falava com seu pai, referia-se ao outro pelo seu nome.

Ontem aprovaram os carros, tens um dia que vir ao studio Vitor, agora posso fazer os desenhos em 3D, no computador, para apresentar nem preciso fazer a maquete mais.

Quero aprender, era um garoto que sabia conversar, participava com eles de tudo.

Menos mal que tua mãe, não te enche o saco como a minha, que tinha que ser um Alvarenga Peixoto, fazer algum curso para honrar o nome da família, uma chata.

Ia uma vez por mês almoçar com ela, em algum restaurante chic, que ela tinha descoberto através de uma amiga, ficava contando os minutos para ir embora.

As vezes se encontravam com alguma, que tinha uma filha casadoira, como ele dizia, para ver se ele se interessava, normalmente era de família rica, mas feia, depois a cantilena que ele tinha que pensar no futuro.

Chegava em casa dizendo que precisava de um banho de descarrego.

Contava isso sempre as gargalhadas.

Quando o Eduardo, falou do tema, seu pai se surpreendeu, nunca imaginei minha mãe num terreiro de Candomblé.

Pois ela ia sempre com a Lindaura, claro nos dois nunca perdemos, verdade Negão.

Seu pai lhe olhou feio.

Vitor soltou, que pena que não a conheci.

Realmente, ela ia te amar, como fez com nós dois, só assim, porque minha mãe, fez tudo para nos separar.   Mas como ia perder meu irmão.

Agora somos três, verdade Vitor, disse o Eduardo puxando o garoto para junto deles.

Um dia fazes um quadro com os três juntos?

Não, vamos fazer uma foto, desenhas, depois um dia escapas ao studio, pinta o quadro, assim te ensino um pouco de técnica.

Minha mãe, sempre diz que não, que vou incomodar, ele sabia o número dela, chamou, disse que nunca falasse isso para seu filho, não queria outro traumatizado com a mãe, ele pode vir sempre que queira ao Studio.  Até logo um beijo.

Riu, problema resolvido.

Chegaram os pasteis de camarão, tinham pedido também Bobo de Camarão, que ali faziam muito bem, pediram cerveja, Vitor ia pedir uma coca cola.    Nada disso, já tens idade de tomar alguma cerveja, nada de fazer essas coisas escondidas.

Esses dois uma vez me roubaram uma garrafa de whisky, beberam tudo, tiveram uma ressaca monumental.     As vezes Negão se escapava da casa de seus pais, dormia ali num dos quartos de empregada, ele escapava do seu para dormir lá também, sua mãe ficava uma fera, pois quando entrava na cozinha para reclamar, sua avô dizia, não estas nos teus domínios.

Pai, como pudeste te casar com uma mulher que pensa que tem o rei na barriga, era uma chata de galocha, soltou sem pensar.

O de sempre meu filho, quando nos conhecemos, era outra pessoa, depois que se viu rica, mudou, tudo tinha a ver com a alta sociedade, que hoje nem existe mais.

Seu pai trabalhava num das melhores clínicas da cidade, da qual era sócio, sua mãe tinha ficado como direito de viver no apartamento, pois na verdade era da sua avô, que o tinha deixado para ele.  Além de pagar uma bela pensão a sua mãe.

Mudemos de assunto, vamos falar de coisas agradáveis, depois de comerem foram até seu studio, Vitor soltou que adorava sua casa, sem tantos moveis.

Seu pai, quando viu o quadro dos dois, ria muito, me lembro dessa foto, tua avó adorava esse lugar, ainda é nosso.   Pensei em vender, mas gostamos de passar as férias lá.

Quando viu o da sua mãe, com turbante, ficou emocionado, filho, consegues ter uns traços, parece que estou vendo minha mãe falar.

Vitor estava parado na frente, ela tinha uma energia forte, consegues transmitir, se querer se virou aonde estava pintando o Xangô, soltou, esse sempre aparece nos meus sonhos.

Um dia peça a Lindaura que te leve com ela.

A pobre diz que já não consegue subir o morro, esta velha, acha que deveríamos manda-la para uma casa de maiores.

Se ela quiser tem espaço suficiente aqui.   

Eu ia adorar, soltou o negão, foi uma segunda mãe para mim, quando estive no xadrez me mandava aquelas empadas que levavas, lembra?

Posso tirar uma foto, para levar para ela?   Claro Vitor, ela vai adorar.

Esse das duas juntas, não está a venda, quero tê-lo aqui em casa, foram as duas mulheres que mais amei na vida.   Sem querer começou a chorar, pois tinha sido ele que tinha encontrado sua avô morta, Lindaura tinha saído para ir ao mercado, ele entrou a encontrou sentada na sua poltrona com a cabeça para frente, mas já era tarde, chamou seu pai, que veio como um louco, pois amava sua mãe.

Foi muito triste é verdade.

Nisso tocou o celular do Jimmy.   Era outra vez o dono da galeria, passou para o outro, este disse que queria que ele fosse para Paris, montar uma exposição, seria tudo patrocinado pelo colecionador.  Que podia levar o Negão, disse isso rindo.

Mas quando?

Assim que acabes esta, queríamos pegar o início da Saison. 

Disse que tinha um certo problema em tirar os documentos para o Eduardo.

Seu pai fez sinal que ia conseguir, nem sabia o que era.

Quando desligou, riu.

Querem que vá para Paris, logo em seguida a inauguração desta exposição, que é daqui 15 dias, que me conseguem um studio em Paris, mas tens que ir também Eduardo, convite do patrocinador, o que comprou os quadros.

Jesus, o que quer esse homem comigo, soltou uma puta gargalhada, Vitor queria saber do que se tratava, ele sem pudor nenhum contou.   Ele ria muito.

Vais virar um gigolo dos bons Eduardo.

Deus me livre e guarde, não sou desses, garoto.   Gosto mesmo é de uma mulata.

Seu pai lhe abraçou, sua avó ia ficar feliz, Jimmy Durante, triunfa em Paris.

O problema seria que não estaria para montar o carro, teria que falar como carnavalesco.

Lhe foi surgindo uma ideia louca na cabeça, ficou parado, pegou um papel, começou a desenhar, na parede, a cara do Vitor era impressionante, nunca tinha visto seu irmão fazer, isso, André, os fez sentar-se, colocou o dedo na boca em sinal de silêncio.

Esse trabalhou um hora mais ou menos, se virou, dizendo, imaginem o fundo da galeria com um carro da escola de samba, ficaria ótimo, vou trabalhar em cima do carnaval, esses franceses vão levar uma surpresa.

Vitor correu se lançou nos seus braços, posso vir então aqui desenhar?

Se eu for realmente para Paris, temos que resolver o problema do senhor Eduardo, te deixo a chaves, podes vir sempre que queiras.

Falou com o carnavalesco, que disse que se apanhariam sem ele.  Aproveitou para lhe perguntar se podia lhe dar fotos de carnavais, disse da ideia, ele ria até, marcou em sua casa essa noite.

Seu pai foi embora com o Vitor, que queria ficar, com o um comentário, mais um que não quer ser médico.

Amigo não se preocupe, se não conseguimos os documentos, eu fico.

Nem pensar, não vou de jeito nenhum sem ti.  Quero é veres te livrar desse homem que quer uma coisa que tens no meio da perna.

Ele seguiu trabalhando no quadro da avô, tinha tirado uma foto, do desenho do carnaval, mandou para o dono da galeria passar para o francês.

Depois que acabou o da sua avô, sem querer se lançou num desenho de uma baiana, rodando com sua quitanda na cabeça, o celular tocou, olhou quem era, o André Barroso.

Contou para ele, o que tinha acontecido, perguntou quando se veriam.

Ah te chamava para dizer que vou de viagem pela empresa, vou passar vários meses no Rio Grande do Sul.

Ficaram conversando, se desces um dia, venha almoçar comigo.

Nessa noite ele foi a casa do carnavalesco, que lhe deu um arquivo imenso só com fotos do carnaval.

Depois se insinuou para ele, mas ele tirou o corpo fora.   Levou o arquivo para casa para estudar as fotos.

Tinha acabado de fechar a porta, quando tocou o celular, era de novo o dono da galeria.  Ufa, ficaram loucos com a ideia.   

Olha amanhã, terei mais esboços, se eles quiserem, os convido para almoçar num lugar especial no largo do Guimarães. 

Ok, transmito o convite.   Te aviso logo cedo.

André estava dormindo, quando se levantou, contou da história. 

Acho que amanhã, esta fechado.  Mas espera aí, ele conhecia a dona do lugar, lhe chamou, ela disse que sem problemas.   Já ia dormir, quando Vitor chamou, estou te mandando o desenho que fiz dos três.  Aqui não tenho espaço para pintar.

Amanhã vou almoçar com os franceses, venha também, assim saberás como é esse mundo.

Se escutava falando com os pais, seu pai concordava, sua mãe tinha dúvidas, ele disse que passasse o telefone para ela.

Esse menino precisa abrir as asas, nada melhor que conheça gente desse mundo para saber com quem vai lidar se segue em frente.

Aí, ela concordou, lhe disse que o colocasse num taxi, ele pagava quando chegasse, depois fazia o mesmo para ele voltar.

Caiu na cama desmaiado, tinha pensado em desenhar, mas estava com sono, isso para ele era sagrado, dormir o sono dos justos.

Se levantou muito cedo, se colocou a desenhar com uma caneca de café na frente, se esqueceu do café, ia espalhando as fotografias, imaginando como faria a figura, gostava das Baianas, que representavam tanto o Brasil mestiço.

Depois foi imaginando por algumas fotografias antigas, pierrôs, colombinas, que já, não entravam mais no carnaval de hoje em dia, sem querer por causa de Xangô, começou a desenhar de memórias os Orixás que tinha feito para um carro a muito tempo atrás, mas os detalhes vinham em sua cabeça com precisão, ia só virando a imensa pagina do bloco.

Nem escutou a campainha da porta, quem abriu para o Vitor foi o Negão, que veio buscar o café dele, trouxe com uma torrada cheia de manteiga como ele gostava.

Ele olhou o Vitor ali ao seu lado, lhe disse para ficar numa posição, desenhou um Ogum, vestido de São Jorge, o Xangô tinha cara do Negão.

Quando desenhou Nanã, colocou a cara da Lindaura, Iansã com a cara de sua avó, uma batalhadora.

Depois parou, deu um beijo na cabeça do Vitor, já volto vou tomar, banho, olho os teus desenhos.    Quando voltou os dois estavam a gargalhadas, o Negão tinha saído para pagar o taxi, enrolado num lençol, esse quase cai para alegria das velhas da vizinhança.

Sentou-se colocou seus óculos, passou a olhar os desenhos do Vitor, ele tinha feito um retrato de cada um, mas o melhor vinha no final, tinha juntado ao quadro que tinha visto, dos dois em criança, uma dele na mesma idade.  Tinha ficado fantástico, tinha equilibrado, o Negão no meio, um de cada lado.

Tens futuro garoto, voltou ao primeiro, começou a mostrar aonde consertar, o que ele ia fazendo rapidamente, até que chegaram ao final, esse não tem reparo, tens que tirar esse negrinho do meio, estraga o desenho.   Ficaram rindo os três, quando por celular, o da galeria avisou que estavam subindo para Santa Teresa, colocou uma camiseta, estava pronto.

Foram para o restaurante, que acabou abrindo, mas tinha reservado um espaço para eles poderem conversar.

Foi uma farra, chegaram pedindo cerveja para todos, bem gelada, uma caipirinha que tinha um rapaz ali que fazia estupenda, ensinou os gringos a beber um gole de caipirinha, depois um de cerveja, adoraram.   Quando chegaram os pasteis, a cara deles era de assombro.

Pediram um quantidade, de pasteis de siri.   Depois casquinha de siri, os franceses estavam loucos, chegaram a chamar a cozinheira, uma negra com um turbante na cabeça, ela se virou para o Vitor dizendo algo em Yoruba, ele perguntou o que era.   Ela explicou que ele era de Ogum, que ia vencer na vida.   Ele estava superfeliz.

Jimmy, pediu que ela se sentasse, depois de servir o Bobo de Camarão um minuto.

Queria desenhar seu rosto, para colocar numa baiana, ela ria até, ele aproveitou isso, pensou numa baiana com as cores de Ogum, na cabeça, uma quantidade de pasteis, com os camarões escapando, se Negão não lhe toca o braço ele ia continuar desenhando, tinha se esquecido de aonde estavam.

A senhora se levantou, levando as toalhas da mesa, para mostrar aos outros clientes.

Lhe aplaudiram.    O francês finalmente sabia seu nome François Dumont, estava feliz, foram os dois melhores dias para mim no Rio de Janeiro, queria o desenho do restaurante, ia mandar emoldurar para colocar no seu escritório.  Ele teve que se contentar em fazer uma foto, depois voltaria a trabalhar no mesmo.    Os dois viram todos os desenhos, a ideia para o fundo da Galeria, as esculturas de um carro de escola de samba.  O da baiana rodando, ficaram de boca aberta, aplaudiram a ideia.

Depois disso, todos os clientes vão querer vir ao Brasil.

No final da tarde, os levou ao barracão da escola de samba, aonde as senhoras, já tinha o modelo da roupa, estavam reproduzindo em vários tamanhos, o pessoal todo trabalhando, o homem disse, já queria ele ver seus empregados trabalhando assim.

Só então souberam que ele tinha uma fabrica no sul, de cerâmica fina, pratos, que iam para o Palacio do presidente, para com o símbolo da república, que fazia para os melhores restaurantes de Paris, bem como Fabricas de moveis, modernos, tinha vários negócios que administrava desde Paris.

Um amigo seu tinha mandado as fotos do Studio para ele trabalhar, mostrou no celular, aonde ficava, em Montmartre, perto do metro de Abbesses. 

O da galeria do Rio, disse ao Vitor, que depois da exposição do seu irmão, iria fazer uma coletiva com novos artistas, se ele queria expor esses quadros, ele gostaria.  Por isso tinha um sorriso na cara, quando chegou a casa de seu pai, ele mesmo o levar, pois tinha avisado sua mãe que ele estavam juntos.   Ela o convidou para entrar, deixou o filho entrar, falou baixinho com ele, insista para teu pai fazer uns exames médicos, sabe como é ele odeia, dizem que os médicos são os piores para tratar, é verdade.

O pai, estava sentado num cadeirão, com a boca aberta, com o Vitor contando tudo, parecia uma maquina falante.  

Calma Vitor, disse o Negão, esta deixando teu pai tonto, fale devagar, nem eu estou entendendo.

O pai mandou ele tomar um banho, pois estava suado, falamos no jantar.

Ele contou tudo ao pai, esse ria, esse garoto vai longe, te adora, quando era pequeno, vivia me perguntando quando ia conhecer o irmão grande, o melhor é que gostas dele.

Olha pai, eu vou para Paris, prometi a ele, deixar a chave da casa de Santa Teresa, para ele ir pintar lá, espero que tenha feito bem.  Assim pelo menos veem movimento na casa.

Deixarei dinheiro para ele subir sempre de taxi depois das aulas, bem como para comprar comida por lá.

Eu realmente não cozinho, quem faz isso é o Eduardo, meu negócio são os pinceis.

Falar nisso soltou o Rubens, ele fez um desenho da cozinheira de turbante, como se fosse uma das baianas da ala, na quitanda pasteis de camarões, com os mesmo saindo, o gringo ficou como louco, bateu o pé, fizemos umas fotos do desenho, ele levou para emoldurar, para colocar na sua sala de trabalho, parecia que estava levando um troféu.

Tinham passado as fotos de aonde iam ficar.

Seu pai contou que quando tinha se separado, ele e sua mulher tinha passado uns dez dias justamente aí, tinham alugado um apartamento ali nas Abbesses, foi ótimo.

Porque vocês não vem para a inauguração de Paris, seria ótimo, assim eu poderia ir passear com o Vitor por todos os museus que ele queira.

Nos dias seguintes, foi complicado, os da galeria, vieram buscar os quadros para a exposição, os de Paris tinha resolvido ficar, tinham ido para Parati, numa pousada muito chic, voltavam para a inauguração.   Lindaura, tinha lhe dado um cordão que tinha pertencido a sua avó, riu muito, tua mãe, entrou no quarto dela, procurando pelas joias, mas ela muito esperta, tinha colocado tudo na caixa do banco, teu pai sabia, ela começou a dizer que eu tinha roubado, teu pai ficou uma fera.

Ele falou do quadro que tinha feito das duas.

Eu vi as fotos teu pai me mandou, se for o caso já que o Vitor vai ficar na sua casa, sou capaz de ir para lá, para fazer comida para ele.

A casa é tua Lindaura, tem uns dois quartos vazios, que estavam com coisas da dona antiga, que mandei vender.   Só precisa comprar camas.   Mas isso o negão faz antes de irmos embora.

Seu pai tinha marcado com ele, para irem tirar documentos, o advogado da clínica, tinha bons relacionamentos na polícia federal.

Na casa de seu pai, ela se sentava na mesa com eles, como mais uma da família, na casa da sua mãe, ele comia com ela, com a avó, na cozinha da mesma, depois claro de servir na sala de jantar imensa, seu pai, sua mãe, isso quando ele aparecia, sua mãe comia sozinha.

Ninguém para lá, ela coloca defeito em tudo, me contou uma empregada de uma vizinha.  É o terror dos empregados, quando sabe que é para trabalhar para ela, ninguém quer.

Eles tinham rido muito disso.  Ele contou como ela fazia, quando tinha que comer com ela, arruma um jeito de me apresentar uma solteirona louca para casar, cheia do dinheiro, mas eu fui educado pela minha avó, sou simpático, mas caio fora, malandro que é malandro não bobeia.

Vitor se matava de rir.  Adoro isso pai, quando estamos todos na mesa, reina a alegria.

Realmente seu pai tinha cara de cansado.   Falou com ele, deixa de frescura, vai ao médico, antes de ir embora, vamos na clínica, para fazermos um check up, verdade Eduardo.

Esse concordou, para chegarmos em Paris, como uma flor.

Foi o que eles fizeram dois dias antes da exposição, o pai fez a maior onda, mas acabou aceitando.   Afinal ele era sócio, tudo saia grátis.

No dia da exposição, a família foi em peso, ele não avisou sua mãe, sabia que ela iria depois com alguma amiga.  Os franceses quando conheceram a Lindaura, ficaram encantados, pois ela escutava os meninos falando com a sua senhora em francês tinha aprendido.

Amou o quadro, falou com eles, como era sua avó, uma senhora fina, de família importante, saia comigo de braços para ir fazer as compras, não tinha frescura, falava com todo mundo, na rua todos a conheciam como Madame Alvarenga Peixoto, ela soltava logo, deixa disso.

Esse vai lá para casa, Lindaura, não está à venda.   Se alguém falava alguma coisa, ela de braço dado com a mãe do Vitor, a apresentava Gloria Peres, a esposa do doutor, eu criei esse garoto com sua avó.

Foi uma festa, no final se despediram dos franceses, quando a exposição acabasse, os quadros vendidos seriam despachados para lá.

Ele levava num tubo o desenho da cozinheira.

Dois dias antes dele partir, seu pai subiu com sua mulher, esta o chamou de um lado, quando o Vitor arrastou seu pai, para ver aonde ia trabalhar.

Teu pai, está fazendo um tratamento, açúcar demais, o coração não vai bem, tenho que brigar todos os dias de manhã, mas é duro.

Sabe que a idade está chegando, mas sua cabeça é de jovem, isso é difícil de encaixar, mas vou levando.

Qualquer coisa me telefone, mas espero vocês em Paris, dentro de dois meses.

Você acha que teu irmão, vai parar de falar nisso.

Negão tinha mostrado o quarto que tinha arrumado para a Lindaura, outro para o Vitor no caso dele ficar, na cabeça deste, já pensava sempre em ter desculpas para ficar, seja pintando ou cuidando dela.

Esta adorou, a varanda de atrás aonde tinha uma mesa, logo apareceu a vizinha ao lado ao ver o movimento, qualquer coisa estou as ordens.

Vitor fez questão de ir leva-los no aeroporto, voltava de taxi para casa.

Os dois sentados no avião, ele dizia ao Eduardo que aí ter que chama-lo de Edu, porque negão na França era ofensivo.  Vai ser difícil meu irmão.

O teu irmão, realmente podia ter sido nosso amigo quando erámos criança, ele é igual a ti, o mesmo entusiasmo por tudo, as vezes me dava na lata, quando via alguma coisa que te interessava, não parava de falar no assunto, tinha que te parar as pernas, dizendo, vamos jogar futebol, nunca foste bom, mas enganava, os dois riram tanto, que os das cadeiras ao lado olhavam para eles.

Devem pensar, o que vão fazer esses doidos em Paris.

Ele contou ao Edu, fazia questão que agora fosse assim, telefonei para o André, ele está em Porto Alegre, montando alguma coisa relativa ao seu trabalho.   Uma lastima, talvez com ele, eu tinha podido dar certo, nos encontramos num momento errado, os dois com problemas.

Deixa para lá, vai ter muitos franceses aos teus pés.

Bom tu, vais ter um rico empresário atrás de ti.

Nada eu já conversei com ele, para ir devagar que o santo é de barro.  Tive que traduzir, além de explicar para ele.

Depois de comerem algo que serviram, os dois dormiram como pedra, só despertaram em Paris, Edu estava deslumbrado, pois tinham mandado um carro para os buscar, levar ao Studio, o motorista lhes entregou uma carta, do patrocinador, para chamar, se não estivesse cansado, gostaria que fossem comer na sua casa.

Eles combinaram que queriam o primeiro dia, a sos.  Ficaram de jantar lá dois dias depois, no dia seguinte ia conhecer a galeria, para tomar ideia do espaço.

Deixaram seus desenhos em cima de uma mesa, num espaço excelente, tinham dois quartos, ele preferia os do fundo, pelo silencio para dormir. Um bom banheiro, uma cozinha pequena, o resto era o studio.

Foram comer, depois de um bom banho, num restaurante ao pé do metro Des Abbesses, aproveitaram para saber como podia se mover através de Metro.

Depois tomaram um taxi, foram até a Torre Eiffel, realizar um sonho do Edu.

Era já final do dia, ver a cidade iluminada dali de cima, era o máximo, eles que tinham saído do calor do Rio de Janeiro, pegavam o outono, de Paris.

No dia seguinte de manhã, usando o mapa do metro, sabiam que tinham que descer em rue du Bac, foi o que fizeram, o Edu reclamando, que tinham que aprender a andar de ônibus, porque andar embaixo da terra não era com ele.

Dali foram deslumbrados até Saint Germain du Prés aonde estava a Galeria, parou de reclamar, olhando os prédios, tudo que via pela frente, os dois iam admirando tudo.

Lembra quando íamos com tua avó pelo centro da cidade, que íamos olhando tudo com admiração, ela explicando o que estávamos vendo, reclamava dizendo que nada era mais como antigamente.

O dono da galerias André Rochechouart, fez a maior festa, foi mostrando tudo, inclusive, explicou quando não tinha exposição, encurtavam a galeria, mostrou como fazia, essa parede vai para o fundo, mostrou o espaço atrás, calcularam a altura que poderia ter o painel que ele queria fazer em relevo atrás.  Para ele ir pensando, depois falou com a secretária foi com eles a uma loja ali perto, para comprarem material, conhecia a dona do local.

Ia dizer que pagava tudo, mas ele não concordou, já tinha o dinheiro do Rio depositado em sua conta, perguntou se podia pagar com cartão de crédito, ela disse que sem problemas.

Ele foi selecionando pinceis, tinta, pigmentos, inclusive queria experimentar para os retratos, fazer alguma coisa em papel, como tinha acabado de ver na galeria, eles mandariam levar no dia seguinte, avisou que era o último andar, quando fosse para lá que chamassem antes, assim ajudavam.

Tinha perguntado ao André Rochechouart, como seria o jantar na casa do François, disseram que não tinham roupas finas, que não usavam isso.

Direi a ele que faça uma coisa descontraída.

Tinha passado o dia inteiro, deixando o studio como ele queria, depois ajudaram os homens a subir o material, quando lhes deu dinheiro agradecendo, riram, vê-se que são estrangeiros, aqui quando muito dizem Merci.

Mas assim sabia que quando pedissem material, eles trairiam mais rápido.

Colocou tudo em ordem, separou os desenhos, por uma ordem imaginaria, pois sabia que depois sua cabeça funcionaria de maneira diferente.

Já ia começar a trabalhar, quando o Edu, lhe chamou para tomar banho, se arrumarem para o Jantar.   Ele fez a maior gozação, quando viu o Edu arrumado, hoje ele coloca aos teus pés o coração dele.

Preciso o convencer de me conseguir um emprego, preciso ganhar dinheiro, não ficar aqui as tuas custas.

Sabia que Jimmy diria, o que é meu, é teu.  Sempre tinha sido assim.

Realmente arrumando o Edu estava muito bonito.   Como tinha emagrecido muito na prisão estava com um tipo espetacular.

Pensou consigo mesmo, se não fosse meu melhor amigo, o arrastava para a cama.

No carro foi dizendo a ele, que tinham que descobrir, aonde encontrar material para fazerem as esculturas, primeiro fariam em isopor, para depois recobrir de fibra.

Teriam que arrumar outro lugar, pois não teriam como descer pelas escadas.

Vê como preciso de ti, sem ti, não conseguirei fazer isso.

No caminho, combinaram que ele lhe pagaria um salário, para ter uma conta no banco, bem como comprar coisas que precisassem.

Mas sabia que ele ia se virar, quando eram garotos, iam escondidos no Largo do Machado, vender os doces da Lindaura, sua avó se matava de rir, por se acaso sua mãe descobrisse, o escândalo, imitava a mesma.

Sempre tinham uns trocados que ele abria mão, pois sabia que o amigo levaria para sua casa.

Quando chegaram viram que era um edifício fino, eita, disse o Eduardo, frequentando a alta sociedade de Paris.   Tinham mais homens que mulheres, alguns se notava o poder do dinheiro. 

Foi sendo apresentado a todo mundo, mas confessou ao François, sou incapaz de guardar nomes, isso deixo para o Edu, ria pois ele chamava o mesmo de Édouard, os ia apresentando como irmãos.

Mas não tirava os olhos do Edu, esse ria, mas se surpreendeu quando os dois pediram cerveja, ele disse que tinha na cozinha, foi com ele até lá.

Eduardo se surpreendeu, pois este lhe deu um beijo, que o pegou desprevenido.  Ele tinha tido experiencias gays também nunca falava, mas tinha tido, inclusive na prisão, ninguém tinha se atrevido a se meter com ele, por causa do seu tamanho. 

Só disse ao François que fosse com calma.

Este voltou da cozinha com um sorriso na cara.   

Ele se chegou ao Jimmy, o sem vergonha me deu um beijo na boca, esses homens vão pensar que sou um gigolo.

Um homem muito sério, se apresentou como professor da Escola de Belas, artes, tinha visto os catálogos de sua exposição no Brasil, disse que o ele conhecia de artes no Brasil, eram de um estilo mais contemporâneo.

Sim mais americanizado diz tu, sim mas nunca estive nessa corrente de arte, eu gosto de pintar à minha maneira, nunca fiz arte abstrato, nem segui essa corrente americana.

Embora adore o trabalho de Georgia O’Keeffe, e alguns outros.

Foi como dizer um nome magico, o homem adorava o trabalho dela.  Ficaram conversando, viu que o mesmo se insinuava.  Ao lhe perguntar se tinha alguma coisa com o Edu.

Não nos conhecemos desde garotos, somos amigos, é como meu irmão.

Não tenho ninguém, aliás a pessoa sairia perdendo, pois quando estou pintando, me esqueço do mundo, se não é ele, apontou o Edu, sou capaz de me esquecer do mundo.

Ele disse que tinha pedido ao François seus catálogos para mostrar para seus alunos, se um dia podia ir à escola de Belas Artes falar com eles.

O outro frisou seu nome, escutei quando dizias que te esquecias dos nomes, passou um cartão, Jean-Paul Castro, disse que seu avô era espanhol.

François mandou um carro os levar em casa.  Perguntou antes ao Édouard quando poderiam almoçar juntos, posso ir até Les Abbesses de for o caso.

Depois comentou que tinha gostado do beijo dele, mas sabe com sou um cagão, com essas coisas de relacionamento, de repente posso gostar dele, mas ver uma mulher, sair atrás dela.

Ora deixa isso bem claro para ele.  Falou do professor, tens que me fazer uma agenda, senão vou me perder, isso não é Brasil, tu me conheces.

Subiram rindo as escadas, aproveitou o fuso horário para falar com seu pai, este riu, já estás na sociedade francesa, tua mãe ia adorar.

Soltou, merda, me esqueci de dizer que vinha, agora terei que falar com ela.

Bom teu irmão muito esperto, basicamente se mudou para tua casa, com a Lindaura, ela esta super bem lá, tem com quem conversar, já fez amizades, ele está preparando o quadro grande dos três, em criança, riu, ele diz que é como se fosse assim.

Pelo menos, nos dois temos como uma lua de mel, enquanto isso.

Lhe perguntou se estava se tratando, claro que sim, quero ir daqui a dois meses a Paris.

Depois ligou para sua mãe, esta estava furiosa, pois a pegava no meio de uma partida de Bridge, reclamava que a empregada tinha ido embora, imagine servir coisas compradas prontas.

Quando ele disse que estava em Paris, ela começou a falar dos lugares que ele devia ir, em nenhum momento perguntou como ele estava, acabou se fartando, dizendo que tinha que trabalhar.

Puta merda, como pode ser minha mãe.   Ele sabia por que sua avó sempre falava nisso, que ela tinha usado o conto da gravidez para se casar.  Teu pai caiu no conto do vigário.

Talvez por isso sempre fosse distante.

Se fechou para o mundo, começou a preparar os quadros, as vezes conseguia fazer dois ao mesmo tempo.  O professor Jean-Paul Castro, um dia perguntou se podia o ver trabalhando, ficou impressionado, pois estava pintando dois retratos ao mesmo tempo, era duas telas aplicadas em cima de um papel firme.   Um desenho não tinha nada a ver com o outro.

Marcou com ele de ir no outro dia de manhã, a École de Beaux Arts, lhe explicou como ir.

O convidou para depois ir ao seu Studio, vivo em Marais, assim podemos almoçar.

Riram quando Edu tirou o corpo fora, ele muito esperto, estava fazendo pasteis de camarão para vender no Bistrô ali ao lado, estava ganhando seu dinheiro por fora, não dava abasto, o dono queria que ele fizesse lá, mas dizia que não podia pois seu irmão podia precisar dele.

Ele resolveu ir de Taxi, assim ia com a cabeça solta, pensando no que queria fazer.

Chegou antes do tempo, o Jean-Paul, o levou para conhecer a École, apresentou aos outros professores, quando chegou a hora, como muitos se inscreveram para te escutar falando, achei melhor um anfiteatro, que temos.

Ele só pediu para ter tipo um painel para desenhar se fosse o caso.

Quando foi apresentado, viu que todos eram muitos jovens.  Começou a falar, escutou alguém dizendo, nem parece brasileiro, fala perfeitamente o francês.

Eu sempre desenhei, foi meu primeiro contato com a arte, até hoje meus quadros partem de um desenho, de uma ideia, comentou que o Jean-Paul, tinha lhe perguntado pela arte moderna brasileira, ele disse que era muito americanizada, influenciada pelos americanos, alguns europeus, disse que gostava muito do trabalho de um inglês, um soltou o nome que ele não conhecia.

Estou falando de um inglês, que foi para o Brasil de férias, nunca mais foi embora, ele tem um studio, pinta, dá aulas, falou do Parque Lage, disse que adorava pintar pássaros, o fazia a perfeição, ele diferente de mim, é capaz de ficar horas num detalhe, depois seus quadros vão todos a Inglaterra, não sobra nenhum.   Foi um dos meus professores.

Ah, virou-se para quem tinha perguntado, estás falando de Francis Bacon, adoro seus trabalhos, realmente creio que é uma mistura de uma ideia clássica, com o mais moderno.

Embora eu só conheça seu trabalho, a partir de catálogos, livros, mas também adoro o trabalho de Picasso, desde o começo, até seu final.   Não sei se algum dia chegarei a isso.

Agora para a exposição, estou fazendo um quadro, de um personagem que ele pintou, um arlequim, mas juntei uma colombina, falou que tudo isso tinha a ver com o carnaval de antigamente, sugeriu que para ver isso, vissem um filme de um diretor francês Marcel Camus, para uns Orfeu do Carnaval, Orfeu Negro, verão um carnaval que já não se faz mais.

Eu para essa exposição incluirei esculturas, disse como as fazia, como são os carros de carnaval, se levam meses para fazer, pois são imensos, aqui farei em tamanho menor, mas dá muito trabalho, contou que depois do desfile, se perdiam, ficavam só os despojos disso tudo.

Mas voltando ao arlequim, viu um rapaz de cabelos vermelhos, pediu que ele se sentasse ali perto dele, os alunos alucinaram, como ele começou a desenhar, se colocou de lado, mas depois viu que todos estavam em volta dele, alguém tinha colocado lápis de cores ali, foi desenhando com uma rapidez impressionante, os contornos dos olhos do mesmo, a boca rosada, o nariz, eram traços ligeiros, mas definitivos.   Quando terminou, sem ter consertado nada nenhuma vez, pegou o Jean-Paul, o fez sentar-se, lhe trouxeram um papel firme grande, ele fez o mesmo em tamanho grande, era só seu rosto, mas ocupava o papel inteiro.

Pouco olhava para o Jean-Paul, mas quando o fazia, olhava principalmente os olhos.

O que aparecia ali, era um homem solitário, com sorriso triste, mas os olhos transmitiam que ele queria viver.

Os alunos alucinaram, quando fazemos um retrato de alguém, pensamos sempre que o importante são os detalhes, evidentemente que sim, mas mais importante, é vermos quem é a pessoa que esta diante de nós, como é o seu interior, isso se faz olhando a pessoa nos olhos, captando sua essência.

Se afastou, pediu que cada um falasse do professor.  O único que acertou não era seu aluno, era de outra turma, disse que tinha o olhar triste, que era uma pessoa fechada em si mesma.

Então houve aplauso generalizado, foi quando viu que na parte de cima estavam os outros professores assistindo.

A maioria veio falar com ele, um deles, lhe disse que tinha ficado interessado na história do bonecos como ele chamava de carnaval.

Estou procurando um lugar para trabalhar, pois disse o tamanho que teriam.

Bom podemos lhe emprestar alguma oficina aqui.  Desde que ensine os meninos a fazerem isso, vou avançar com meus quadros, pois preciso de pelo menos um mês para fazer tudo isso.

Os alunos queriam ir ao seu studio, ele disse que ali era como um templo, trabalho em silencio, muita gente por perto me desconcentra.

Disse ao Jean-Paul, os que se saírem melhor no exercício que fiz, você leva.

O via agora animado, sem querer me tocaste fundo, me vi como as pessoas me vêm, mas que no fundo sou assim.

Estou só a anos, amei muito alguém que morreu longe de mim, longe daqui.  Um daqueles idiotas que vai para a guerra com se fosse andar de carrossel.

Foram almoçar, tinham ido andando, ele conhecendo a cidade, disse o que já tinha visto, mais por causa do Edu, ele reclama de andar de metro, pois não vê nada.

Depois foram ao studio do Jean-Paul, havia uma série de trabalhos começados, nada terminado.

Sem querer, por um toque acabaram na cama, foi fantástico, ele lhe atraia, depois ficaram abraçados, lhe disse que fossem devagar, vamos fazer o seguinte, se sente minha falta, me liga de manhã, nunca pela tarde ou noite, ou melhor apareces por lá, não quero parar meu trabalho.

Fizeram sexo de novo pela manhã, ele dizia que devia borrar de sua cara, o sorriso que tinha, pois seus alunos iam fazer gozação com ele.

O mais importante Jean-Paul, é seres feliz, isso é o que importa, sou honesto de te dizer, que vivi tanta confusão, perdi uma das pessoas que mais amei na vida, minha avó, no meio disso tudo, mas não fui feito para sofrer.

Meu trabalho me salva disso tudo.

Estava indo para o Studio, quando seu celular tocou, era o Vitor, feliz da vida, seus três trabalho tinham sido aceitos pela galeria, para a coletiva.  

Lhe disse que tinha dado uma aula na École de Beaux Art, que os alunos tinham gostado, ias gostar de estar lá, pois cada um tem uma personalidade.

Quando chegou ao studio, Edu ria da cara dele, pelo visto foi bom meu bem.  Contou para ele tudo, é um sujeito sério diferente, gostei de estar com ele, era uma coisa que precisava.

Este lhe contou para sua surpresa que o François tinha aparecido, não lhe deixei entrar, disse que tinha que levar pasteis ao restaurante, ele foi comigo para lá.  Depois me convidou para dormir com ele, é muito formal, lhe disse que preferia como ele tinha feito, me dando um beijo, voltou comigo para cá, estava nervoso, fechei o teu studio, lhe disse que não gostava que entrassem antes que fosse autorizado.

Eu não vim aqui por isso, mas o pobre ficou tão nervoso quando me viu nu, que ejaculou antes, mas mesmo assim dormiu agarrado comigo.

Me perguntou se eu queria penetra-lo, lhe disse que com o tempo sim.  De manhã o fiz, ele ficou como louco.

Mas entendeu que vou por livre, nada de me ter amarrado.

Quem diria, o negão deflorando cuzinhos franceses.

Ficaram os dois a gargalhadas.  Cada um foi fazer suas coisas, ele cada vez tinha mais encomendas.

Se dedicou a trabalhar, se encontrava com Jean-Paul, quando podia, este tinha voltado a pintar, dizia que agora tinha inspiração.   Ele não entendia isso, necessitar de alguém para ter inspiração.

Quando terminou os quadros, 15 mais do estipulados, chamou o da galeria, este marcou com um fotografo, para já fazer a parte dos quadros.

Agora vinha o mais difícil, num pais diferente, escolher material para fazer as alegorias.

Edu, bem como Jean-Paul, alunos da escola de belas artes o ajudaram, pois queriam aprender, mas claro era jovens, acabavam as vezes estragando o já feito.  Pediu desculpas, acabou escolhendo os melhores, colocou em marcha, quando teve todas as esculturas como tinha planejado em isopor, começou a parte mais difícil, todo mundo reclamava do cheiro, recobrir tudo com material sintético, eram diferentes do Brasil, tomou cuidado para não queimar o isopor, depois de recoberto, chegou outra parte complicada, lixar tudo para que tivesse uma boa aderência de tinta, tudo isso era feito com máscaras próprias.  Jean-Paul, os alunos, estavam como loucos com a experiencia. Depois pintar com spray tudo.

Finalmente ficou tudo pronto, agora era transportar para a galeria que fechou, moveram o fundo montaram o painel, como se fosse um grande carro alegórico, mas só a parte de cima, os mesmos alunos, aprenderam a logica de montar uma exposição, diziam que isso era melhor que fazer aulas.     Duas grandes esculturas de Xangô, ficavam logo a entrada da galeria, o resto estava disposto, em painéis, dois quadros como se fossem um tríptico ocupavam as laterais ao fundo antes do painel, um era uma ala de baianas em plena evolução, tudo era movimento, as únicas coisas fixas eram a cabeça da baiana, bem como sua quitanda, algumas, se via os camarões, outras, acarajés, frutas tropicais, enfim um mundo de detalhes.

Depois ao principio se via o carnaval antigo, pierrôs, colombinas, em tons de rosa e verde da mangueira, mas ao mesmo tempo uma homenagem a Picasso.

O catalogo estava perfeito, foram com Jean-Paul que conhecia como funcionava a coisa, comprar roupas, tinha reservado um hotel, para seu pai, sua mulher, bem como o Vitor, na última hora, Lindaura disse que não montava nesse bicho, o avião, nem morta.

Nessa noite que chegaram, foram jantar, Vitor estava mais ansioso que eles, riram muito com as suas histórias, contou ao ouvido do Edu, que tinha perdido a virgindade, mas isso era segredo, depois lhe contaria a história.   Estava contente, tinha vendido os quadros, repetia isso mil vezes, meu pai me fez depositar tudo, aplicar esse dinheiro para o futuro.

Ele via seu pai de melhor aparência, Gloria disse que estavam seguindo o tratamento ao pé da letra, que esse tempo com o Vitor fora, tinham aproveitado só para eles.

Vitor olhava tudo como se estivesse descobrindo o mundo.  Quando foram ver o studio, já com alguns quadros de um outro trabalho, ficou alucinado, que o material era bom.

Depois te levo na loja, mas terás que ir de camisa de força, porque tudo que nos falta no Brasil, aqui tem aos montes.

François Dumont, mandou uma limousine recolher seu pai e família no hotel, ele foram mesmo de taxi.

Edu tinha ajudado a empresa de catering a preparar um coquetel a brasileira, estavam deslumbrados, como era tudo diferente, pequenos acarajés, pasteis de camarões, coisas loucas dele.  Já o queriam contratar.

Ele quando entrou, um pouco mais tarde, ali estavam jornalistas, de todos os tipos, claro, movidos pelo François, que aparecia mesmo no catalogo como patrocinador, repetia a história que tinha visto um quadro, depois tinha se deslumbrado com a maneira do Jimmy trabalhar.

No dia antes, foram os três, a uma entrevista na televisão, Jean-Paul, tinha soprado a historia da maneira dele desenhar.

De repente apareceu um quadro em branco, lhe pediram para desenhar alguém da plateia.

Ele escolheu uma senhora muito bem-vestida.    A sentou ali na sua frente, olhou bem seus olhos, eram de uma tristeza incrível.  Em segundos a desenhou como a via, ela tinha lagrimas nos olhos.

Depois no intervalo veio falar com ele, como tinha adivinhado de sua tristeza?

Sei que a senhora perdeu alguém, isso reflete nos seus olhos.   O programa deu de presente a mesma seu quadro.

Agora ela estava ali na exposição, tinha comprado um grande, que era a Lindaura de baiana.

Essa mulher tem um sorriso que cativa qualquer um.  Ele lhe mostrou uma foto da Lindaura, foi nossa segunda mãe, tinha lhe apresentado o Edu como seu irmão.

A senhora convidou sua família inteira para um jantar no dia seguinte em sua casa.

Gloria estava deslumbrada, de brincadeira soltou, sua mãe que gostaria de viver na alta sociedade, eu que sou uma pé no chão, sou convidada por uma da alta sociedade de Paris.

A noite foi perfeita, François tinha fechado seu restaurante predileto, para seus convidados particulares, incluiu Madame Fleur de Lis, que se sentou ao lado da Gloria.

No final, André, falou ao seu ouvido, que não tinha sobrado nada, nunca vendemos assim, claro os amigos do François representam alguma coisa, mas meus velhos clientes, batalharam por quadros.  Surpresa, o painel inteiro foi vendido, disse por quanto, ele ficou de boca aberta.

Teria que fazer uma lista de cuidados para manter o mesmo bem.

Seu pai gostava do Jean-Paul, ele temia que este estivesse apaixonado por ele.

Lá pelas tantas, recebeu uma chamada do André, desde o Rio Grande do Sul, perguntou pela exposição, tinha recebido o catalogo, disse que o mesmo tinha provocado uma crise de ciúmes do namorado que tinha.  Me ofereceram para ficar definitivamente aqui, vou aceitar, gosto dele, quero tentar viver direito com alguém.

Ele não disse nada, de uma certa maneira tinha esperança de voltar ao Brasil, retomar a relação deles.

Quando teve o dinheiro do painel em mãos, fez uma coisa, separou uma parte para os que tinham ajudado, os alunos receberam dinheiro, bem como ele fez uma doação a escola de Beaux Arts, pois afinal tinham emprestado o local.

Tinha o convite da escola para dar aulas livres na mesma, pela maneira como ensinava os jovens, disse que ia pensar.

Seus pais foram embora, dois dias depois o André, o chamou a galeria, foi preocupado pelo seu tom de voz.   O encontrou com uns senhores muito sérios, se via que eram estrangeiros.

Tinham uma imensa galeria em Berlin, queriam saber se podia fazer uma exposição por lá.

Perguntaram se estava trabalhando.  Riu, os convidou para irem ao seu studio.

Comentou que quando tinha visto uma foto de Mademoiselle D’Avignon de Picasso, se lembrou de uma fonte no rio, as Três Graças, estava pintando um painel, comentou que tinha conseguido através de um amigo, a localização anterior da mesma, disse que hoje em dia estava num lugar feio, tinha feito um painel, como se elas estivessem dançando, era tudo muito estilizado.

Tinha ido a escola de dança do Teatro, através de François, algumas dançarinas tinham posado para ele, tudo tinha movimento, estático era seu fundo, se lembrou uma vez no Parque Lage, um exercício, para desenharem um fundo de um quadro, com a floresta de fundo.

Na outra parede, estava já terminado, as mesmas Três Graças, vestidas de índias, com pinturas no corpo.

Viram em cima da imensa mesa, a quantidade de desenhos que ele tinha, era como uma grande imersão no Xingu, com as cenas de danças, os homens pintados, pediu desculpas, mas ainda estava no começo, estou fazendo um exercício mental para me lembrar de tudo que já vi um dia em reportagens sobre esse lugar.

Os alemães, queriam a exposição, ele pediu um tempo, tinha programado uns 15 dias de descanso, encaixando com as férias de Jean-Paul, no sul da França.

Eles lhe mostraram um vídeo da galeria, era muito grande,

Um deles, muito branco não tirava o olho do Negão, depois que foram embora, lhe disse, agora um alemão, tenha vergonha na cara. 

Este ria, creio que já saciei o François, pelo menos me deixou em paz, tinha inventado que estava saindo com uma das cozinheiras do buffet.

Quando estavam para partir, recebeu uma chamada de telefone do advogado de seu pai, levou um choque, seu pai tinha ido buscar o Vitor em Santa Teresa, um carro que descia uma ladeira ali, perdeu o controle chocou contra eles, Lindaura, seu pai tinham morrido no ato, Gloria e Vitor estavam no hospital.

Ele avisou o Jean-Paul, vamos imediatamente para o aeroporto, este resolveu ir junto.

Foi um voo difícil, além da tensão, o avião pegou um monte de turbulências.

Chegou exausto, o advogado o esperava, temos um outro problema, tua mãe mal soube que teu pai tinha morrido, pediu a posse do apartamento dele.

Mas isso consegui com o juiz, deixar para depois.

Filha da puta pensou, o homem nem esfriou, já está aprontando.   Ela não sabia, mas ele tinha papeis no banco, relativos à herança de sua avô, no meio tinha encontrado um documento, que ela tinha assinado antes de se casar, que o fazia com separação de bens.

O primeiro que fez, era preparar o enterro da Lindaura, de seu pai.  Foi ao hospital, Gloria estava num estado lamentável, o médico, dizia que achava que não ia escapar.   Ela lhe pediu que ele cuidasse do Vitor, agora que estávamos tão bem, acontece isso.

Faleceu nessa mesma noite.  Agora seria o enterro dos três. 

Ele os enterrou no cemitério no mausoléu, dos Alvarenga Peixoto, junto com sua avó.  Sua mãe, mandou um advogado tentar impedir.   Ele olhou serio para o homem, diga a essa jararaca, que ela não perde por esperar. Fora daqui.

Nunca pensou em ver tanta gente, no enterro, vieram inclusive o pai de santo da Lindaura, que lhe apertou a mão, lhe disse que não se preocupasse, que ia dar tudo certo, a minha filha de santo te queria, bem como ao Negão, como se fossem seus filhos.

Lhe colocou no pescoço, uma cordão de Xangô, bem como outro de Exu, se tiveres tempo, sabes aonde estou, gostaria de fazer uma firmeza para os dois, um mundo novo vai se abrir para vocês.

Foi tudo muito emotivo, ele rezou um Kadish para seu pai, embora esse nunca tivesse frequentado a sinagoga.  O pai de santo, rezou em Yoruba uma oração muito bonita.

Ele tinha estado como Vitor, esse queria ir ao enterro, tanto fez, que o negão o levou em cadeira de rodas.

Chorou muito agarrado aos dois.  Agora só tenho vocês.

Antes do encontro com sua mãe pela posse do apartamento de seu pai, ele fez uma coisa, subiu com o Negão, o Jean-Paul foi junto, não entendia nada, mas também fez uma firmeza.   Pois dentro de pouco fazia uma exposição.

Se sentiu melhor mais seguro, viu no momento que esteve deitado para Xangô, uma figura negra, que algumas vezes aparecia em seus sonhos, quando perguntou ao pai de santo, ele disse que esse era seu Exu, que não tinha nada a ver que ele fosse judeu, estaria sempre com ele, quando o veja, siga sempre suas instruções.

Dois dias depois se encontraram no escritório do advogado de seu pai, sua mãe, chegou muito maquilada, quando viu o Negão, soltou, esse carrapato não te larga.

Quando falou que como nunca tinha dado o divorcio ao seu pai, tinha direito a tudo que era dele, as ações na clínica, que os sócios queriam comprar, o apartamento que ele tinha.

Passou uma cópia dos documentos que tinha, ao advogado dela.  Este falou baixinho com ela, foi o que faltava, explodiu.

Essa velha bruxa me enganou.

Bom eu tenho uma proposta, é pegar ou largar.  A senhora tem dois dias para deixar o apartamento que vive, que é meu, está no testamento de minha avô, ou da velha bruxa com a senhora a chama. Ou sai, ou peço uma ordem de prisão por invasão de domicilio, a senhora escolhe, sair num camburão ou sair pelos teus próprios pés.

Quanto ao apartamento de meu pai, este fica, bem como as ações, para o meu irmão Vitor, quando muito posso lhe emprestar minha casa de Santa Teresa, mas no dia que eu volte para o Brasil, a senhora tem que sair, talvez para alguma residência de velhos, sei lá.

Mas como vou viver sem a pensão de teu pai?

Isso não é problema meu, tivesse economizado.

Estamos entendido, dois dias, depois camburão, policia, escândalo.

Não pense que me importo com esse último, não vivo aqui, mas tuas amigas sim.

Eu não vou morar em Santa Teresa.

Isso é problema teu, vá viver com sua irmã, com quem a senhora nunca fala.   Dois dias, disse ao advogado que colocasse o apartamento a venda, com tudo que tinha dentro.

Aonde estão as joias da tua avô?   As que me deram eram falsas, quando fui vender me disseram.

A velha bruxa como a chama, não era tonta como a senhora, mandou fazer cópia, ela mesma vendeu as originais, colocou o dinheiro na minha conta no banco.

Eram minhas por direito.

Bom ela deixou as joias do seu quarto para a senhora, ou seja as falsas.

Ela só faltava espumar, ficou mais furiosa, ainda quando viu que o Negão ria. 

Eu não sei quem dá o cu para o outro, mas os dois, todos dizem são viados.

Saiu pisando forte.

Ele disse ao advogado, assinando os papeis, mande vender o apartamento, divida em três partes, somos três irmãos, cada um vai receber uma parte.

O negão disse que não queria nada.

Olha eu já perdi a paciência hoje, não me faça perder outra vez.   Quero ir embora daqui, assim que o Vitor possa andar.

Saíram os dois caminhando pela praia do Flamengo, como faziam em criança.

Temos que encontrar um apartamento, para os três, acho que aquilo que me disseste que gostaria de ter um pequeno Bistrô, podemos pensar nisso, se tivéssemos algum, aonde vivemos, com um apartamento em cima, seria perfeito.  Já conversei com o Jean-Paul, não posso mais usar o studio, pois ele pertence a um amigo do François, este agora pede uma fortuna pelo mesmo, posso sim conseguir um inclusive maior e melhor diz o Jean-Paul, quero fazer uma coisa, saber que estou saindo de casa para o trabalho.

Pediu para o advogado arrumar os papeis do Vitor, conseguir seus documentos da escola, assim poderia ir a École de Beaux Arts, em Paris.

Ia todos os dias vê-lo com o Negão ao hospital, quando lhe deram alta, foram para Santa Tereza, aonde separou alguns desenhos.

Telefonou para o André, este disse que seguia em Porto Alegre, que as coisas não tinham saído como ele queria, se estava sozinho?

Não lhe mentiu, no momento, estou no meio de uma grande confusão, ele já sabia de seu pai, lhe contou a história de sua mãe, bem com agora tinha seu irmão, com ele, que voltavam para Paris, pois tinha que preparar a exposição de Berlin, creio mesmo que por um bom tempo ficarei por lá, encontrei uma coisa que não tinha aqui, paz para trabalhar.

No voo de volta, foi falando com o Vitor, Jean-Paul, tinha voltado antes, para acabar de preparar sua exposição.    Na vinda, conversei muito com ele, quero trabalhar para essa exposição, esculturas, mas que seja de terracota, ou seja, como falo dos índios do Brasil, tem que ser terra.

Tu vais entrar na escola, creio que conviver com esses jovens vai te fazer bem, mas quero que pense bem, vi muitos deles, tomando drogas, esses coloquei para fora, quando estavam trabalhando comigo.  Estes dizem que as drogas os fazem se encontrar, nada mais que uma balela, se perdem, pense bem antes de fazer qualquer coisa que possa te prejudicar.

Tens a mim, bem como o Negão para conversar, somos teus irmãos como você mesmo diz, portanto, qualquer coisa me conte.

Ele te contou que não sou mais virgem.

Como é que é, contaste para ele, para mim não?

Claro estava no meio daquela confusão de exposição, não queria te incomodar.

Então agora me conte tudo.   Ele contou tudo com detalhes para eles, tinha sido com um colega dele de muitos anos, sempre falamos de tudo, somos os únicos que temos sonhos diferentes do resto. Sem querer aconteceu, num dia que veio ver meu trabalho em Santa Teresa.

Cada um pegou uma orelha, manchaste a reputação do nosso santuário.  A aeromoça, veio perguntar o que acontecia.  Ele rindo contou para ela, esse menino perdeu a virgindade.

Ela ria, entendeu que era brincadeira.

No dia seguinte começaram a olhar todos os lugares que poderiam viver.  Jean-Paul recomendou um agente imobiliário que ele conhecia.  Este lhe conseguiu um studio imenso, num andar térreo, com um apartamento em cima.

Negão queria uma boa cozinha, seguia ganhando dinheiro com suas coisas, tinha feito também um curso de cozinha francesa, agora era sempre chamado pelo pessoal com quem tinha trabalhando para aprontarem alguma encomenda, sabiam que ele podia fazer coisas diferentes. Tinha aprendido a ir comprar coisas como quiabo, mandioca, numa feira de produtos africanos.

Se virava.

Tinha guardado o dinheiro que o Jimmy tinha lhe dado num banco, o dinheiro da venda do apartamento tinha ficado aplicado no Brasil, resolução dos três.  

Jimmy daria uma mesada para o Vitor, bem como uma parte do studio para ele trabalhar.

No primeiro dia de aula, veio eufórico da escola.   Os dois riam dele, fazia falta essa tua euforia de sempre, o agarraram deram beijos nele.

Ele dizia para todo mundo que tinha dois irmãos maiores.   Dias depois disse rindo, que tinha sido convidado para uma festa, que tinham lhe soltado que ia ter muitas drogas, bebidas, tirei o corpo fora, senão não vou a lugar nenhum.

O studio do Jimmy agora era como ele queria, como ocupava a parte de baixo toda do edifício, tinha lugar de sobra para trabalhar.    Ia a umas aulas de escultura em barro, na escola, os que tinham trabalhado para ele riam, como ele fazia aulas, se era todo um mestre.

Explicou que havia que ser humilde, reconhecer que não sabia tudo.   O professor, era mais velho que ele, ria muito, tinha acompanhado o trabalho dele, mas lhe ensinou todos os truques, lhe disse que quando chegasse o momento de fazer as esculturas em tamanho real, ele tinha no seu studio, forno para coser as mesmas.

Paul Bergueson, tinha fama de mal-humorado, de ser muito sério, usava uns cabelos imensos, amarados num rabo de cavalo, uns bigodes grandes, tinha uns olhos imensos, azuis.

As vezes enquanto esculpia, se perdia olhando para ele trabalhando. Era muito sério.

Jean-Paul, um dia teve um ataque de ciúmes, primeiro sua exposição não tinha ido como ele queria, vendeu, mas não tudo, alguns diziam que ele tinha ficado parado no tempo, que precisava mudar sua técnica, isso caiu muito mal nele, que via o Jimmy, trabalhando de outra maneira.   Quando viu os dois juntos, conversando, discutindo uma maneira de esculpir um trabalho como o Jimmy imaginava, com o Paul, com uma mão no seu ombro o escutando, foi a gota.

Jimmy, andava nervoso, pois não tinha encontrado ainda a sua maneira de trabalhar, com o material como queria, foi a conta.  Cortou o relacionamento, eu não te vigio, não gosto que me cobrem coisas, depois nunca assumi nenhum compromisso contigo.

Quando Jean-Paul disse que a crítica tinha falado dele, ele tinha sido honesto, acabaste os quadros começados, os seguintes que fizeste, foi do mesmo jeito, precisas mudar tudo, partir do zero, a cada trabalho.

Quando tinham voltado do Brasil, ele agora estava trabalhando em Papel colado em cima de placas por causa do peso do material que estava usando.

Já tinha sido difícil descer os trípticos do studio antigo, imagina o resto.

Dizes isso, porque eres jovem, invés de escutar, se grudou nas aulas que dava na escola de belas artes.

Quando o tinham convidado, ele não tinha aceitado por isso, era um emprego público, sentia que o pessoal se acomodava.   Paul mesmo dizia isso.  Imagina escultura então, que quem compra basicamente são os governos.  Ele também pintava.

Eu quando ganhei meu primeiro dinheiro, investi, até ter dinheiro para comprar esse studio, a primeira grande escultura que fiz para uma praça em minha cidade, foi igual, dinheiro aplicado. Tudo bem dou aulas, mas olha a quantidade de alunos, o interesse é mínimo, para mim funciona como uma fonte de ingressos, tinha uma fonte extra, criava pequenas esculturas, que vendia numa galeria, bem como numa loja de decorações, não tinha vergonha nenhuma disso.

Não tenho família, ninguém que dependa de mim, por isso tudo é lucro.

Quando soube do Jean-Paul, pediu desculpas não sabia que tinham um relacionamento.

Me interessei por ti, quando te vi dado aquela aula na escola, depois quando fizeste o seguinte trabalho, estou contente de te ter aqui, gosto de ver como trabalhas.

Um dia que lhe ensinava aonde estava um erro que cometia, se beijaram, dali o resto foi outra coisa.  A grande diferença, era que ele era forte, tinha um corpo fantástico, adorava na cama quando ele estava de cabelos soltos.  Era como lutar com ondas fortes.

Pela primeira vez tinha um homem como tinha sonhado. Ninguém era dono de ninguém.

Quando entendeu seu erro, fez todas as esculturas, em tamanho médio, para ver como ficavam, depois de cozidas, ficaram fantásticas.

Mas as grandes, aprendeu com ele a fazer uma parte policromadas.   Um dia estava andando por Marais, sentiu o negro ao lado dele, este o levou pelas mãos, ou pelo menos sentiu isso a uma sinagoga ali perto.    Quando viu estava conversando com um rabino, que lhe aconselhou e levou para conhecer um mais jovem, contou que nunca tinha desconfiado que fosse judeu, já que só soube quando sua avó morreu.   Sentia necessidade dessa parte nele, contou que sua avó ia ao candomblé com sua fiel amiga Lindaura.   O outro era inteligente, alguém te trouxe aqui, é verdade.

Marcou com ele um dia, o levou para se encontrar com um homem impressionante, já de uma certa idade, era nigeriano, dava aulas de Yoruba na universidade.

Quando os cinco se encontraram, ele queria que Vitor tivesse uma participação nisso.

Mas o mais interessante, foi o Negão, se grudou nesse homem como uma lapa, sentia falta disso um contato com sua realidade mística, do candomblé.

Tinha os cinco largas conversas sobre religião.   Sempre que se reunião, ele sentia o negro ali, até um dia que o Matuboune, lhe disse que se fizesse presente, o espirito colocou o dedo na frente de cada um que passaram a vê-lo.  Agora podia conversar com eles.

Isso influenciou totalmente sua compreensão do que queria fazer com as esculturas.

Preparou uma como via o Exu, com uma parte policromada, fez uma menor para colocar na sua casa.   Paul começou a ir nos bate papos deles.

Era as vezes desajeitado falando, mas procurava entender.

Ele acabou fazendo mais esculturas que pensava, inclusive, fez uma das Três Graças, de índias, com todas as plumas policromadas.

Os alemães, vieram ver os quadros, bem como as esculturas no studio do Paul, adoraram, um deles tinha uma loja, viu os objetos do Paul, lhe fez uma encomenda monstruosa.

Assim se ganha dinheiro disse ele.

Jean-Paul o evitava, nas raras vezes que ia a escola.   Nesse tempo que tinha estado no studio do Paul, Vitor tinha preparado uma série que ele chamava de raízes, tinha estudado como Rabino, bem como o professor, uma identidade que relacionasse as duas religiões, seu trabalho era uma relação disso.

Jimmy, pela primeira vez, sentia falta de alguém, agora que estava tudo preparado, resolveu complementar, preparou uns alguidares grandes, todo policromados, no dia da inauguração, teriam frutas verdadeiras, arrumada pelo Negão, que sabia como fazer, depois seriam frutas em terracota policromada.

Paul, mostrou numa das lojas, que pediu uma quantidade desses alguidares, para terem a venda, fazia sucesso.

Era uma bela desculpas para estarem juntos, a maioria das vezes, Paul ia dormir com ele, outras ele ia a sua casa.

Este ria, que dizia que estava tanto tempo sozinho, que as vezes se assustava com o Jimmy ao seu lado.

Foram os cinco para Berlin, o André Rochechouart, iria para a inauguração.

O público, os compradores eram diferentes, se sobrar alguma coisa, vendo para ti. Disse que o François iria também, claro que vai querer competir com os compradores alemães, vai dizer para todos que foi ele quem te descobriu, blá, blá, blá.

Se mataram de rir com isso, de uma certa maneira dizia o Jimmy, na verdade ele descobriu uma parte do Negão, aí riam mais ainda.

Este tinha preparado com os da galeria, que contrataram seu grupo de cozinha, manjares, comidas de santo, servida com muita caipirinha, cerveja.

A noite foi um sucesso, desta vez ele fez uma coisa, se vestiu de branco totalmente, com as guias que o pai de santo tinha lhe dado.

Para os alemães era uma coisa sui generis. O François mostrava para todo mundo as peças que já possuía dele.   Comprou a escultura das três graças, de índias, nada mais abrir a exposição, o resto se vendeu em dois ou três dias.

Vieram donos de galerias de Londres e NYC, ao final lhe convidaram para fazerem exposição, mas descobriu que não tinha sido os alemães que os tinha convidado, mas sim André Rochechouart.   Ganhei dinheiro contigo, como fiquei como teu representante, com os alemães, ganho também, se me contratas como teu agente, irei trabalhando para ti, ganhas tu, ganho eu.

Ficaram se sentar-se para conversar, como fariam para expor fora.

Ele não queria de maneira nenhuma se separar do Paul, era uma coisa importante agora em sua vida.

Bom Londres, tens a vantagem de que podemos fazer tudo em Paris, mandar de caminhão pelo Túnel, mas o melhor seria antes, irmos ver as galerias que oferecem, para escolher bem.

Foi quando ficou sabendo que o grande painel, tinha sido vendido para um Museu de Londres.

Tiraram 15 dias, Negão não podia ir, pois tinha negócios com seu agora sócio nos negócios de catering.

Foram com o Paul, Vitor, André Rochechouart, examinaram as de Londres ele gostou de uma imensa, perto da Tate Modern, embora ainda não soubesse o que ia pintar, nem o que iria fazer.

Depois foram para NYC, Vitor estava adorando, pois de certa maneira estava conhecendo novas cidades.    Lá era mais difíceis, pois a galerias não eram tão grande assim.

Voltou com a cabeça complicada, mas sem querer as coisas com ele funcionavam de uma maneira sempre espontânea, o professor de Yoruba, ia a Nigeria para um encontro de línguas, os convidou, até o Negão se incorporou.

O professor o apresentou a um velho senhor, que vivia nas aforas da cidade, numa casa humilde, quando ele chegou, mandou tirar toda sua roupa, mandou lhe darem um banho de ervas, depois o deixou numa cabana dedicada a Xangô, não te preocupe, ele vai te mostrar o caminho.

Fez o mesmo com Vitor, bem como o Negão, os preparou, para seus santos.

Ficaram ali mais de três dias, ele ficou sem comer ali deitado, na sua cabeça, acontecia uma história, seu Xangô lhe contava uma história inteira de como tinha surgido sua figura, bem como do Exu que o acompanhava, na sua cabeça vinham desenhos ancestrais, que ficaram guardadas em seu subconsciente, tudo isso vai se liberar na medida que trabalhes.

Ele estava alucinado quando saiu, o homem primeiro lhe hidratou, depois, lhe deu de comer, ao final se sentou com ele, lhe explicando tudo, a cada coisas que fazes, colocas um pouco da tua alma, por isso, as vezes tem essa sensação de vazio.

Deves ir encontrar também tua outra parte a judia, tu bem como teus irmãos.

Ele achava engraçado isso, o homem esclareceu, os dois sempre foram irmãos em várias encarnações, daí essa ligação entre vocês.

Agora vira o inesperado, devem ir a Israel, lá um homem se aproximara dos dois, vão com eles, representa uma antiga seita de Israel, oculta no mundo atual.  Descreveu o homem para eles.

Quando encontraram o Rabino, bem como o professor, este disse que iam para Israel, Paul voltou a Paris, pois tinha trabalho para entregar.

Ele foram juntos, as vezes um olhava para o outro, sorriam, agora tinham segredos que eram só deles, sabiam que realmente eram irmãos.

Chegaram a Tel Aviv, o rabino, bem como o professor, foram ao encontro de línguas que tinham programado.

Os três saíram de passeio, entraram numa sinagoga muito velha, estavam ali admirando tudo, quando um senhor com umas barbas imensas, com uma roupa muito velha, se aproximou, estão me esperando e sendo esperados.

O seguiram, não se preocupem que vossos amigos serão avisado, que estarão bem.

Foram para o deserto, até que o próprio jeep que iam entrou numa gruta imensa.

Bem-vindos ao encontro com a fé, os levou para uma parte mais subterrâneas, ali estiveram com um grupo imenso de velhos, no meio da rezas, era como se eles fossem recebendo instruções sobre suas vidas, as imagens que recebia, eram quantiosas, algumas nunca poderiam usar, mas algumas sim, as representações da autentica essência de deus, que era a ligação com muitas coisas da língua Yoruba.

Três dias depois alguém os levou a Tel Aviv. De lá foram para Paris.

Matou as saudades que tinha do Paul, lhe disse que era um sentimento novo para ele, dormia agarrado a ele, fazia parte de sua vida.

Começou a colocar no papel, tudo que tinha em sua cabeça, seu trabalho se transformava em mais gráfico, num mesmo quadro contava a história dos Orixás, estilizados, era totalmente diferente de tudo.

Tinha idealizado um imenso painel, para o fundo da galeria, uma sequência, como se a Diáspora africana, tivesse levado para as Américas seus Orixás de várias maneiras e cultos.

Nas imagens tinha visto como eram preparados cada um, tinha liberdade para trabalhar isso.

Quando terminou os quadros, se meteu no studio do Paul, a primeira folia do dia como ele dizia era fazerem sexo, tomar um banho, caírem no trabalho.

Todas suas escultura eram policromada de negro, com detalhes em cores, nas tangas de plumas, ou algo a parte, negão posou para ela, um dia trouxe um homem que tinha conhecido no mercado, este posou para ele, para fazer Oxalá, pois tinha cabelos brancos, o imaginou como tinha visto, depois foi ao studio de pintura para o mesmo.

Um dia se levantou de manhã, fazia dias que não dormia em casa, quando viu o mesmo saindo do quarto do Negão, este soltou, encontrei minha meia laranja.   Por incrível, ele tinha o nome americano, tinha nascido lá, mas tinha passado anos na Nigeria.   Dava classes de Yoruba para africanos que tinham perdido suas raízes.  Era professor numa escola pública.

Steve, era uma pessoa divertida, como o Negão, os dois podiam ficar horas falando de coisas, que ninguém entendia, pois agora o Negão falava quase todo tempo em Yoruba.

Pediu que ele preparasse um texto para o catalogo, já que tinha visto todo seu trabalho.

André Rochechouart, tinha visto o trabalho do Vitor, ia fazer sua primeira exposição em sua galeria.  Contou que o François tinha oferecido seu patrocínio, mas não aceitaram.

Nunca imaginou que fosse ter problemas, mas este surgiram em Londres, as pessoas como dizia o Negão não o conheciam, pois Jimmy não gostava de ser provocado, pois depois entrava na briga com ou sem razão.

Como nas noticias diziam que ele residia na França, mas era brasileiro, o Embaixador, saiu dizendo que o Brasil o patrocinava, ele desmentiu o homem, nunca tinha dependido do governo de seu pais, nem vivia lá.

Negão ainda soltou isso vai dar o maior Sururu, depois teve que explicar o que queria dizer.

O pior foi mesmo mandar uma pessoa pedir uma obra para colocar na embaixada, por um acaso tinha um jornalista por perto, quando ele disse ao galerista que nem pensar, tampouco vender, pois era sabido que o governo brasileiro era dado a calote.

O idiota do Embaixador colocou lenha na fogueira, tinha mandado saber de quem ele era filho, deu uma entrevista, dizendo seu nome completo, que era descendente de um ilustre antepassado brasileiro.

O senhor se engana disse, ele, inclusive sou judeu, o meu sobre nome nada tem a ver com o poeta, sou um garoto de rua, que se fez a si mesmo, deixa de encher o saco, antes que o mande tomar no cu.

Isso caiu na boca dos jornais de Londres, que adoram fofoca, mas também fez com que a inauguração fosse concorrida, todos queriam uma obra dele, foi tudo vendido, ele não teve conversa foi embora.   O galerista ainda disse que a embaixada tinha mandado um cheque por um dos quadros que não tinha reservado, por curiosidade, foram levantar o mesmo, não tinha fundos, publicaram isso, mas ele já não estava lá.

Em Paris, recebeu no seu studio, um cônsul, que veio tomar satisfação, primeiro perguntou o que ele queria, reclamaram que nunca tinham recebido nenhum convite para suas inaugurações, como ele podia renegar de seu pais.   Ele mandou o mesmo reclamar com dono da galeria, ele nunca dizia a quem convidar.  

Depois estava estudando, o senhor está me incomodando.

Bom sua falta de educação, é notória, quando saiu o negão de cueca de seu quarto, perguntou meu irmão, qual é o problema.  A cara de escândalo do sujeito era imensa.

Ele examinou bem o sujeito, lhe disse na cara, sim ele é meu irmão, o senhor com certeza também deve ter irmãos, negros, porque pelos seus traços, sua família tem um pé na cozinha.

O sujeito saiu batendo a porta.

Ele sabia que as coisas no Brasil não iam bem, resolveu rapidamente a questão, mandou que todo o dinheiro que tinha para no banco, fosse transferido para um que tinha ligações, com banco de Luxemburgo, mandou vender a casa de Santa Teresa, assim liquidava tudo que era seu, o apartamento de seu pai também, que fizesse o mesmo com as contas dos três.

Pronto cortei qualquer vínculo com essa merda.

Foi sim passar uns quinze dias de paz, em uma casa na praia, no sul que tinha alugado, com o Paul.   Desligou o celular.

Vitor veio, com a notícia, estou tentando falar contigo, mas teu celular está apagado, parece que como saiu no jornal as noticias ao teu respeito, tua mãe botou a boca no trombone contra ti, dizendo barbaridades, que tinhas roubado a herança que pertencia a ela, etc. Que vivia de favores na casa de sua irmã em Jacarepaguá.

Mostrou a praia na frente da casa, disse ao Vitor, já que estas aqui desfruta de tudo isso, porque será noticia 15 minutos, deixa a coitada ter seu tempo de gloria, para quem nunca saiu em jornais, isso alegrará seu ego de velha.

Ele não mexeu um dedo para nada.   Ela deu todas as entrevistas que quis, depois caiu no ostracismo outra vez.

Quem sentiu-se incomodada foi sua tia, que ele nunca tinha conhecido, que reclamava dela, que era uma parasita, ele respondeu simplesmente, nunca foi minha mãe, a coloque num asilo, que aonde merece viver.   A outra dizia que era insuportável.

Se negou a falar no assunto, no fundo ria.   Pensava, sua avó nunca tinha se enganado com as pessoas, ela e Lindaura, deviam estar rindo no céu.   Quando comentou com o Negão, esse se matou de rir.

Tinha convite ainda de NYC, mas não estava disposto a sair de Paris, pediu inclusive a cidadania, já que pagava os impostos lá.  Aliás fizeram os três, todos viviam ali, pagavam tudo lá.      Dez anos depois ganhou a medalha das Artes.

Agora trabalhava devagar, se comparava seus primeiros trabalhos, estes eram suaves em comparação com os atuais, sempre tinha novidades.

Vitor tinha vencido por si mesmo, depois da primeira exposição, disse que achava um saco trabalhar assim, gostava de desenvolver objetos como Paul, sempre ganhava muito dinheiro com isso.

Paul dizia que tinha o filho que sempre tinha sonhado ter, uma lastima que não aproveitei sua infância, se ele foi como tu, devia ter dado muitos problemas, riam disso.

Negão, agora era um excelente cozinheiro, além de viver com seu querido, viviam num apartamento perto.  Seus negócios sempre iam bem.

Agora todos os anos, ia a Nigeria, algumas vezes com o Paul, outras sozinho, se internava na casa do velho, venho descansar, me recarregar.

Algumas vezes iam os dois, ou com o Vitor a Israel, ia a velha sinagoga, para ver se os seus amigos apareciam, mas isso nunca mais aconteceu.   Nunca se atreveu a perguntar pelos mesmo, deixou a vida correr.

Algumas vezes dava aulas a convite na École de Beaux Arts, mas com fixo, nem pensar, se cruzava com o Jean-Paul, agora se falavam, ele seguia igual, uma vez soltou que tinha voltado a produzir por se sentir insuflado por ele, mas que agora produzia pouco.

Vitor tinha ganho um premio de criação de objetos, foram todos com ele, afinal eram família.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentarios

Entradas populares de este blog

PRECISO ANDAR

DR. CASTELLO

CORPUS CHRISTI