O MAIOR SURURU
O
MAIOR SURURU
Meu nome é Jimmy Durante Alvarenga Peixoto,
de família bem do Rio de Janeiro, filho único, de pais complicados, que sempre
me encheram o saco, diga-se de passagem.
Meu pai achava que tinha que ser médico como ele, minha mãe ao contrário
queria que eu fosse famoso.
Nenhum, nem outro, para todo mundo eu era
Jimmy Durante, levei muito tempo para entender o nome, ela adorava um cômico
americano, por isso me colocou esse nome, vivia escutando um disco dele que
alguém lhe trouxe de lá, uma das músicas a fazia lembrar de um namorado que
teve antes de meu pai, “smile”. Ele ao
contrário ficava uma fera quando chegava em casa por causa disso, vivíamos num
belo apartamento no Flamengo, aonde viviam muitas dondocas da sociedade, hoje
já morreram todas.
Para azar dos dois, eu era moleque de rua,
adorava ir jogar na praia do Flamengo, para escândalo dela, meu melhor amigo
era o Negão, Eduardo da Silva, meu amigo até hoje, saiu outro dia do presidio,
eu lhe avisei, mas não me escutou, tive que colocar um bom advogado para tirar
ele de lá. Agora esta na minha casa, em
Santa Teresa.
Ao longo dessa vida, passamos muitas coisas
juntos, eu fiz universidade, ele não, sua família vivia numa quitinete, ali no
Largo do Machado, então como ele dizia o apertamento era tanto que ele fugia
para a praia.
Para todo mundo, estou vivendo em Sepetiba,
na praia, a outros digo que vivo em Maracangalha, isso porque gosto de paz para
trabalhar, quando recebi uma herança da minha avó, que adorava minhas loucuras,
bem como as do negão, o fazia sentar-se aos seus pés, pedia que contasse o que
tínhamos feito durante o dia. Claro ele
exagerava, que eu tinha feito dois gols importantes, que tinha apartado uma
briga minha com dois valentões, essas coisas.
Mas claro isso tudo, na cozinha, porque se
minha mãe escutasse, era um Deus nos acuda, menos mal que sempre saia para
jogar Bridge com as amigas.
Ela tinha sido casada com um dos Peixotos,
tinham dinheiro, só teve meu pai, era uma mulher esperta, comprava ações,
vendia, logo de manhã seu café era a coisa mais importante do dia.
Se sentava na mesa da cozinha, não queria
as interrupções de minha mãe, pegava a parte do jornais que falava em ações,
com um caderno ao lado anotava tudo, comparava com os dias anteriores, passava
a mão no telefone, começava a falar com seu homem como dizia, um diretor de
banco, que fazia tudo para ela.
Ai da minha mãe que tentasse passar a mão
no telefone, ficava uma fera, dizia que estava trabalhando, será que essa
inútil não tinha o que fazer, que fosse a pé ao salão de beleza arrumar seus
cabelos.
Meu pai para tranquilizar o ambiente,
comprou outro número de telefone, naquela época se comprava. Assim encontrou paz.
Se havia alguma festa em casa, ela
implicava que minha avó queria usar o mesmo vestido de sempre, que iam pensar
as amigas dela, pois nesse dia, minha avó, passava a mão nos dois, íamos para o
centro da cidade de taxi, para a confeitaria Colombo, essas idiotas, se pelo
menos jogassem a dinheiro o Bridge, eu ia tirar todo o dinheiro delas.
Aproveitava para comprar alguma roupa para
mim, iguais ao do Negão, quando saímos na rua, parecíamos conjuntados. Na escola, todo mundo nos gozava, isso foi
outra briga, queria que eu estudasse numa escola fina, fui um dia, esperei meu
pai chegar, disse que nem pensar em estudar ali, lhe perguntei aonde tinha
estudado, ele rindo disse que na escola ali perto, que sua mãe não gostava de
frescuras.
Ali claro estava o negão, nos protegíamos,
eu lhe ensinava o que ele não entendia, ele me defendia dos Bullying daquela
época.
Fomos crescendo, sempre nos metendo em
confusão, algumas era por culpa dele. Outras por minha culpa, mas sempre nos
defendíamos.
Tudo mudou quando minha avó morreu, acho
que os únicos que choraram no velório, depois no enterro, no cemitério do Caju,
na parte dos judeus, fomos nos dois, bem como o pessoal que trabalhavam em
casa.
Minha mãe, fazia cara de sofredora, mas no
fundo dava graças a deus, meu pai estava chateado, tinha sido uma mãe
maravilhosa, mas ele era incapaz de mostrar o que sentia.
Aí começou o inferno, na maior me
matriculei na escola de Belas Artes, fui fazer o que queria, ela tinha deixado
uma herança para mim, que receberia quando fizesse 21 anos, basicamente ao
final da universidade.
Evitava ir para casa, pois torravam meu
saco, consegui uma mesada, que dava para pagar um studio, aonde eu poderia
pintar, basicamente passei a viver lá com o Negão.
Ele estava sempre fazendo algum trabalho
para alguém, era pau para toda obra. Nos
finais de semana, íamos para a Mangueira, foi assim que comecei a desenhar
carros para a Escola, até mesmo participar na construção, pois precisava saber
como realmente se montava, uma coisa era desenhar, outra executar. Quando chegava essa época o Negão trabalhava
como um louco, era pau para toda obra para os carnavalescos.
Sabia fazer de tudo, até consertar maquinas
de costura ele sabia, não me pergunte como, mas fazia.
Hoje fui levar os desenhos de dois carros
que foi um quebra cabeça, encaixar dentro do samba enredo da escola. Eu pensava, porque não escolhem um tema mais
simples, mas não sempre era uma coisa complicada.
Eu tinha sempre o carro abre alas, bem como
o último. Tinha passado semanas
quebrando a cabeça com os dois, menos mal que hoje era possível, trabalhar em
3D nos computadores, fui anadindo os detalhes do carro abre alas, para contar
mais ou menos o samba enredo.
Depois o figurinista me consultaria a
respeito dos destaques essas coisas.
Eu nunca tinha romances que passassem de
uma noite, minha desculpas era que não me sobrava tempo para isso, quando não
estava fazendo isso, estava pintando, preparado alguma coisa. Tinha vivido muito tempo num apartamento,
que dava para o lado do Museu de Arte Moderno, esse tinha comprado na
surdina. Era uma casa imensa, além de
uma garagem, aonde fazia meu trabalho. O
meu jeep ficava numa garagem na casa de uma senhora vizinha que não usava a
sua. Era perfeito.
Tinha na porta um sistema de vídeo, se
alguém chamava, eu via de aonde estava trabalhando, raramente atendia,
normalmente eram namorados ou namoradas, que estavam a minha procura.
Eu nunca prometia nada, pois não queria
compromisso, mas as pessoas não entendiam minhas diretas. Diziam que eu nunca era claro, podia ser.
Fomos entrando na quadra, quando disse para
o Negão, xi vem complicação, era uma garota que eu tinha feito sexo uma vez,
odiava essas que fazem sexo suspirando, cheios de ais, depois começam a falar
em amor, em casamento, eu dizia que tava fora, mas isso nem sempre adiantava,
quando ia escapar pela esquerda, saia do meio do pessoal, um garoto com quem
tinha feito sexo uma noite, era uma menina na cama, dizia que tinha se apaixonado,
me telefonava, mil vezes ao dia, até que troquei o número do celular, ai passou
a aparecer lá em casa, eu nunca abria, a vizinha que me fazia o favor de quando
perguntavam por mim, dizer que eu estavam em Sepetiba, ou tinha ido a Bahia,
mas não sabia aonde eu estava. Ela
adorava fazer isso, um dia disse para um senhor que me procurava, o advogado da
minha avó que eu tinha me mudado para Moscou.
O homem ficou de pedra, menos mal que o encontrei na esquina indo
embora, ele continuava aplicando o dinheiro, queria me dizer que pensava em se
aposentar, o que eu pensava fazer.
Fiquei pensando, esse menino ficou louco de
vez, virou comunista.
Ele me ajudou muito com a história do
Negão, foi um sufoco. O idiota para
ajudar um conhecido, ficou com as drogas do mesmo, o sujeito escapou, ele pagou
o pato.
Negão só disse uma coisa, como nunca
consegues te decidir, homem ou mulher, olhos os dois de cima a baixo, vinha
como uma fúria em cima de mim.
Me colocou atrás dele, eu desaparecia é
claro. Começou a falar com uma voz
aflautada, altíssimo, que queriam aquele homem era dele, nos conhecíamos desde
o jardim de infância, quando tínhamos começado a fazer troca-troca. Não era porque ele tinha estado fora, trabalhando
para Jean Paul Gaultier que eles iam avançar no homem que era seu, nesse
momento a bateria parou, já estava todo mundo olhando, ele aproveitou, começou
a gritar dramaticamente que aqueles dois queriam roubar seu homem. Eu com a mão na boca, pois estava louco para
soltar uma gargalhada. Um dos
seguranças amigo dele apareceu.
Ele exagerou mais ainda, Manel, uma pessoa
não pode passar um tempo na Europa, para bom entendedor, significava prisão,
que essa gentalha quer roubar nosso homem.
Manuel se contendo de vontade de rir, levou
os dois para fora.
Eu caí da gargalhada, devias fazer cinema,
tu eres mais Jimmy Durante que eu. O carnavalesco estava morrendo de rir, com a
história. Isso é porque te metes com
quem não deve.
Olharam os planos, as impressões em 3D, ele
soltou tu eres o único que já trazes tudo bem-feito.
Vais quando para os barracões?
Quando me avisares, eu preciso deste mês
para acabar a exposição que estou montando, depois estou livre.
Quando ia saindo, olhei para o outro lado
da quadra, vi um rapaz que conhecia, talvez o único com quem queria ficar, mas
nos tínhamos conhecido no pior momento da minha vida, separação complicada dos
meus pais, ter descoberto que ele tinha outra família a tempos, bem como tinha
outro filho.
Ele tinha dormido em casa, eu nunca fazia
isso, arrumava uma desculpas para a pessoa ir embora, chamava inclusive um taxi
para a mesma, mas ele ficou para dormir, no dia seguinte de manhã, lhe contei
que estava no meio de uma coisa familiar complicada. Contei por alto o que
acontecia, o Negão preso, a confusão dos meus pais, não tenho muita cabeça
nesse momento, podemos nos ir falando.
Ele me disse que também estava num momento
complicado, tinha uma relação com um homem mais velho que era um problema.
Ficamos de nos ver, mas nunca mais o vi. Me aproximei, começamos aquela conversa, de
como vai, etc.
Mas era impossível falar com o ruido todo
da bateria, lhe disse que ia embora, se quisesse o levava, fiz um sinal para o
negão que estava conversando com uma mulata linda.
Fez sinal que ficava, eu entendia, tinha
que trocar de óleo como ele dizia, depois de tanto tempo preso.
Fui saído, acompanhado do rapaz, tentava
fazer um esforço para me lembrar do nome dele. Quando saímos suspiramos ao
mesmo tempo, o barulho não era o meu, bastava quando estava construindo alguma
coisa.
Começamos a conversar, se surpreendeu que
eu me lembra-se seu nome, André Barroso, mas ele também se lembrava do meu, me
contou que tinha visto minha última exposição, que tinha gostado muito, mas
claro não tinha dinheiro para comprar um quadro meu.
Perguntei se já tinha resolvido seu
problema?
Bom foi um caos, conheci esse homem tinha
15 anos, sem possibilidade nenhuma de estudar, uma família complicada, ele ia
ao mesmo terreiro que meus pais, que sempre acham que os espíritos vão resolver
tudo, mas não se mexem para ir em frente.
Ele convenceu meus pais, que morando com
ele, ia ter oportunidades, me atraia ao princípio, pois me parecia uma pessoa
inteligente. Imagina sair de Deodoro,
para viver em Copacabana, num bom apartamento, escola ao lado. Mas claro tinha o sexo, o controle, ciúmes,
etc., quando entrei na universidade a coisa piorou, pois me controlava o tempo
todo, se me via falando com um colega, me fazia um verdadeiro
questionário. Esse era seu problema,
tentei falar com ele sobre isso várias vezes, mas nunca escuta ninguém, se acha
dono da verdade, depois claro me jogava na cara o que tinha feito por mim. Não sabia me defender, uma colega da
universidade, me falou de seu irmão psicólogo, comecei a conversar com ele, me
orientou como sair dessa.
Arrumei um emprego assim que sai da
universidade, mas para ele, eu tinha que fazer um concurso, ser funcionário
público, para ter um futuro garantido.
Ficava escapando de ir para casa, passei a
ter meu dinheiro no banco, ele queria controlar isso também, foi quando comecei
a não permitir nada. Comecei a sair,
mesmo sabendo que quando voltasse para casa, ia ter problemas, nem tinha
amigos, a única que podia falar era essa conhecida. Mas quando o namorado dela ficou com ciúmes,
me afastei, já tinha problemas em casa, não ia provocar problemas na casa dos
outros.
Então te conheci, sou honesto, que se
passamos daquela noite, me apaixonaria por ti, mas os dois tínhamos que
resolver nossos problemas. Nesse dia
quando cheguei em casa, o escândalo foi grande, pela primeira vez, tentou me
bater. Arrumei minhas coisas, fui para a
casa de um conhecido, fiquei dois dias lá, depois arrumei um studio na Men de
Sá, aonde vivo até hoje.
Ele fez um escândalo com minha família, a
um ponto de meu pai ir me procurar no trabalho, aí descobri, que basicamente me
tinha comprado, pois todos os meses dava dinheiro a minha família que se
acomodou nisso. Mas tampouco querem
saber de mim, pois sou o viado da família.
Mas desta vez explodi, mandei todo mundo a
puta que pariu, eu tinha direito a férias, além de algumas economias, fui para
Parati, era fora de estação, me escondi lá um mês, voltei, tive a oportunidade
de trocar de emprego, não disse nada a ninguém. Me fechei, precisava me recuperar, saber
quem eu finalmente era. Nada de
relacionamentos, namorados de uma noite, nada, é a segunda vez que saio de casa
com esses amigos.
Me matei de rir com o escândalo do teu
amigo, me lembro que me contaste a história dele.
Pois é somos amigos desde pequenos, de
jogar futebol na praia.
Mas tua família é rica, quando vi tua
exposição, tinha uma mulher fina, dizendo que era seu filho, que lhe chateava
muito que não usasse o nome da família, Alvarenga Peixoto, que afinal tinhas um
nome a zelar.
Teve que rir, escutaste minha mãe, meu
eterno problema, não aceita que não viva com ela, no seu puto apartamento do
Flamengo, nem que tampouco use o sobrenome, que seja amigo do Negão, isso nunca
aceitou, tampouco dá o divorcio ao velho, que vive com sua outra família, teria
que deixar de ser Alvarenga Peixoto, imagina.
Pois é as coisas acabaram mal, ele foi
viver com sua outra família, tenho um irmão, que vim a conhecer, com 14 anos,
um garoto estupendo.
Mas meu irmão na verdade é o Negão, Eduardo
Silva, para os íntimos. Quando nos conhecemos, estava preso, foi fazer um favor
a um conhecido, lhe prenderam como traficante.
Deu muito trabalho, tira-lo da cadeia, mas
não o podia deixar lá.
Pensei que realmente existisse alguma coisa
entre vocês, como ele fez esse escândalo.
Nada, ele faz isso para me salvar. Nunca tivemos nada, sempre fomos amigos, ele
gosta mesmo é de uma mulata, mas também sempre se mete em confusão, já saiu
muito na porrada, com essa história que dizem que vivemos juntos.
Na verdade atualmente vive comigo, pois a
família ficou furiosa com ele, era pobres, mas nunca ninguém esteve preso.
Não importa, ele é minha família, tampouco
me importo que pensem alguma coisa de nós dois, sempre nos respeitamos, falamos
disso sempre, rimos muito. Quando quer
me ameaçar, me chama de branquinho, vou arrebentar teu cu.
Estavam sentados no jeep, tomando uma
cerveja.
Ia te convidar para ir a minha casa, mas
isso se queres.
O que estas fazendo no momento?
Acabando uma exposição, me faltam dois
quadros, vim trazer os desenhos do carro que faço sempre para a escola de
samba. Agora posso trabalhar em 3D,
fica super fácil, o difícil é entender o samba enredo, mas depois que fica
pronto desapareço, dizem que não entende por que faço. Começou a rir, dizem que nem sei sambar
direito, nunca sai na escola, prefiro escapar para algum lugar, na serra por
exemplo.
Herdei de minha avó, uma casa em
Teresópolis, está bem situada, fora da cidade, no meio do mato, em criança, ela
levava os dois para lá. Mas o negão
sempre fica, adora essa confusão do carnaval.
Estou pensando em ir para fora um tempo,
mas o problema é conseguir passaporte para ele.
Já vês minha vida está ligada à sua para
sempre, um namorado tem que aceitar isso, ficou rindo da cara do André.
Desde que ele não esteja na cama junto,
tudo bem.
Bom aonde te deixo, eu vou para Santa
Teresa, mas não vivo mais no mesmo lugar.
Eu sei, fui lá te procurar, mas ninguém
sabia aonde estavas.
Ah, não te esqueceste de mim?
Não, mas veja bem, tens tua vida, se vais
embora, eu ficarei como sempre a duas velas, pois não posso te acompanhar. Tampouco quero só uma noite contigo, sou
complicado, quero sonhar com uma relação bonita, nada a ver com a que tive.
Eu te entendo, o mesmo acontece comigo, mas
conviver comigo é difícil, estou sempre metido na minha garagem, pintando como
louco, ou fazendo algum projeto.
Ficaram ali se beijando no escuro, sentia
prazer só nisso, podia ficar a noite inteira fazendo isso.
André disse é melhor parar. Lhe deu o número do seu celular.
Vamos nos falando.
O levou para casa, depois dali, subiu para
Santa Teresa, pensando justamente isso, talvez eu não tenha capacidade de dar o
que ele quer. Sou um medroso, como diz
sempre o Negão.
Tomou um banho caiu na cama, sem saber bem por
que dormiu pensando quando eles eram garotos, mesmo no sonho, sabia que era o
momento de sua vida que era feliz.
No dia seguinte tinha prometido almoçar com
seu pai, com seu irmão Vitor, quando o via o abraçava, lhe fazia milhões de
perguntas, a primeira vez que viu o Negão, se abraçou a ele, disse que era seu
outro irmão, seu pai tinha lhe contado, que erámos como irmãos, desde criança.
Despertou quando escutou este entrando em
casa, prestou atenção para saber se não estava bêbado, viu que como sempre
tomava um banho como ele antes de cair na cama.
Voltou a dormir, despertou as 10 da manhã,
com o dono da galeria, perguntando se podia subir com um colecionador,
acompanhado do dono de uma galeria francesa.
Lhe pediu uma meia hora, para tomar banho,
beber uma bela caneca de café, bem forte.
Se sacudiu todo. Deixou uma caneca de café na mesa de
cabeceira do quarto do Negão, quem se levantava primeiro fazia isso.
Colocou seu macacão de trabalho, prendeu os
cabelos, estava fazendo um quadro em cima da única foto que tinha dos dois
juntos em garoto, feita pela sua avô lá em Teresópolis. Os dois estavam de mãos dadas, se lembrava
deste dia perfeitamente.
Estava retocando o rosto dos dois, tinham
rido muito, sua avó furiosa, pois não ficavam quietos.
Tinha a cara suja, pois estavam num pé de Jabuticaba,
tinha toda a cara manchada da cor da fruta por fora.
Manteve isso, por isso riam, queriam
colocar no nariz uma fruta para parecerem palhaços.
Escutou chamarem na porta, olhou, viu que
era o dono da galeria, correu, pois o Negão era capaz de atender nu. Quando ia chegando, lá estava ele a ponto de
abrir a porta, lhe disse que era o da galeria, com um colecionador, depois que
tomes banho, pode nos levar café.
Esperou que ele desaparecesse para abrir a porta, os levou para a
garagem que era imensa.
O dono da galeria, ria ao ver o quadro,
apontou para ele, dizendo que o outro era seu irmão, a cara do francês era
ótima.
Chose du Brésil, disse isso rindo. O outro era o dono de uma galeria, se
apresentou. Disse que tinha visto o catalogo da última que gostava muito do seu
trabalho, muito brasileiro, com tanta cor.
Tinha um imenso na parede, que era uma das
coisas da sua memória, um jogo de futebol na praia, com o Pão de Açúcar por
detrás.
Tinha um que ele amava, nem pensava vender,
era sua avô, com roupa de gala como chamava a roupa de ir à missa, com sua fiel
companheira, a senhora que cuidava da cozinha.
Uma negra imensa, mas com uma voz preciosa, que estava sempre cantando. Sua mãe a odiava, acabou que vivia hoje com a
nova família do seu pai.
Tinha uma música que sempre se lembrava
dela cantando.
Garçom apague essa luz,
Que eu quero ficar sozinha,
Garçom me deixe comigo,
Que a mágoa que eu tenho é minha.
Ou então, cantando a preferida de minha
avó, “Ninguém me ama”.
As duas eram da época do rádio, na cozinha
esse sempre estava em alguma estação com esse tipo de música. A velha nem parecia a dona real da casa, o
apartamento era dela, pois seu lugar preferido era ali, tinha ali naquela
cozinha imensa, um cadeirão, aonde passava o tempo conversando com sua amiga
Lindaura, as vezes cantavam alguma música juntas.
Odiavam quando chegava o carnaval, isso não
era com elas, as marchinhas de carnaval, que diziam que eram uma besteira.
Sem querer se viu explicando isso ao
francês, que olhava para ele surpreso, falando perfeitamente sua língua. Nisso entrou o Negão trazendo uma bandeja de
café, ele apresentou Mon Frère, o homem os colocou um ao lado do outro, depois
olhou o quadro que estava pintando, começou a rir, pois os dois no quadro eram
pequenos, pegou a foto que estava ao lado, ria muito. Queria saber de que
estava suja a cara, abriu os olhos quando o Negão começou a explicar o que era
Jabuticaba, em francês.
O Galerista ria, soltou que não imaginava
que os dois falassem francês, os dois disseram ao mesmo tempo que tinha
estudado sempre juntos, quando queriam encher o saco dos outros, falavam em
francês.
O colecionador, disse que ficava com o do
jogo de futebol, bem como o da Jabuticaba.
Mas entendia que antes estariam na exposição, queria o da sua avó
também, mas este ele não pensava vender.
De repente ficou sério, se lembrou um dia
que tinha ido com a Lindaura num terreiro, que esta emprestou uma roupa para
sua avó que ria, dizendo que uma judia vestida de macumbeira era ótimo, sem se
importar que os outros estavam ali, pegou uma tela começou a desenhar, como um
louco. O negão conseguiu cadeiras para
eles, fez sinal de silencio, ficaram ali o vendo pintar, ao mesmo tempo chorar,
sentia um aperto no coração ao se lembrar desse dia, embora tinha sido uma
festa, pois era saída de santo de alguém.
Sem se dar conta, colocou dois outros
quadros ao lado, começou a fazer um tríptico, lhe vinham à cabeça todas as
imagens que estavam ali guardadas.
Agora só faltava os retoques.
O colecionista agradeceu a oportunidade de
vê-lo trabalhando, ficou louco por uma maquete que estava ali, do carnaval do
ano anterior, um dos carros da mangueira, que tinha sido difícil de fazer, mas
ele tinha montado a maquete para ajudar na confecção, normalmente ficava para a
escola, ele trouxe para fazer uma foto para mostrar para o Negão, não tinha
devolvido.
O homem perguntou se ele era escultor
também, riu, em vez de responder, pediu ao Negão um álbum de fotos, com os
carros que já tinha feito ao longo dos anos.
A cara do homem era fantástica, tinha uma
foto de uma revista, com ele construindo no barracão, um dos carros, com as
esculturas altíssimas, de um Xangô imenso.
Disse que se ele fosse para Paris, devia
fazer esculturas também, ele compraria.
Apontou uma central de Xangô, esse gosto
muito, no seu português macarrônico.
Disse que quem era modelo era seu irmão
Negão.
Eduardo é espetacular disse o homem, se via
que estava interessado nele.
O dono da galeria, estava rindo, nem tinha
feito a exposição, já tinha vendido vários quadros, o de Paris, lhe disse que
gostaria muito de contar com ele em breve.
O brasileiro, disse que depois lhe chamava
por celular, que tinha sido um golpe de mestre ele pintar na frente dos homens.
Ele não tinha feito de proposito,
simplesmente tinha sido espontâneo.
Depois tomou outro banho, isso sua mãe
nunca tinha entendido, como explicar que era uma mania que tinha pegado com o
Negão.
Os dois desceram para o largo do Guimarães,
pois tinha marcado com seu pai ali.
Vitor quando os viu, saiu correndo para
abraçar os dois. Seu pai, depois do
divórcio, tinha ficado mais amoroso, o abraçou e beijo, agora fazia isso com os
dois.
Meninos como os chamava, estou louco para
comer um pastel de camarão, daquele restaurante que gostas Eduardo, ele nunca
chamava o mesmo de Negão, tampouco permitia que o Vitor o fizesse.
Este estava se deliciando com o Negão
contando, como tinha acontecido a cena, do Jimmy pintando, os homens assistindo
de plateia. Ele ria muito. Se virou para o pai, será que um dia vou
pintar como ele? Não sei meu filho, o
futuro é teu, escolhes tu.
Ele estava fazendo uns cursos no Parque
Lage, que Jimmy tinha arrumado para ele, com um conhecido seu. Este dizia que o garoto tinha futuro.
Já tenho dinheiro para nossa viagem,
contava Jimmy, mas claro falta o passaporte do Eduardo, quando falava com seu
pai, referia-se ao outro pelo seu nome.
Ontem aprovaram os carros, tens um dia que
vir ao studio Vitor, agora posso fazer os desenhos em 3D, no computador, para
apresentar nem preciso fazer a maquete mais.
Quero aprender, era um garoto que sabia
conversar, participava com eles de tudo.
Menos mal que tua mãe, não te enche o saco
como a minha, que tinha que ser um Alvarenga Peixoto, fazer algum curso para
honrar o nome da família, uma chata.
Ia uma vez por mês almoçar com ela, em
algum restaurante chic, que ela tinha descoberto através de uma amiga, ficava
contando os minutos para ir embora.
As vezes se encontravam com alguma, que
tinha uma filha casadoira, como ele dizia, para ver se ele se interessava,
normalmente era de família rica, mas feia, depois a cantilena que ele tinha que
pensar no futuro.
Chegava em casa dizendo que precisava de um
banho de descarrego.
Contava isso sempre as gargalhadas.
Quando o Eduardo, falou do tema, seu pai se
surpreendeu, nunca imaginei minha mãe num terreiro de Candomblé.
Pois ela ia sempre com a Lindaura, claro
nos dois nunca perdemos, verdade Negão.
Seu pai lhe olhou feio.
Vitor soltou, que pena que não a conheci.
Realmente, ela ia te amar, como fez com nós
dois, só assim, porque minha mãe, fez tudo para nos separar. Mas como ia perder meu irmão.
Agora somos três, verdade Vitor, disse o Eduardo
puxando o garoto para junto deles.
Um dia fazes um quadro com os três juntos?
Não, vamos fazer uma foto, desenhas, depois
um dia escapas ao studio, pinta o quadro, assim te ensino um pouco de técnica.
Minha mãe, sempre diz que não, que vou
incomodar, ele sabia o número dela, chamou, disse que nunca falasse isso para
seu filho, não queria outro traumatizado com a mãe, ele pode vir sempre que
queira ao Studio. Até logo um beijo.
Riu, problema resolvido.
Chegaram os pasteis de camarão, tinham
pedido também Bobo de Camarão, que ali faziam muito bem, pediram cerveja, Vitor
ia pedir uma coca cola. Nada disso, já
tens idade de tomar alguma cerveja, nada de fazer essas coisas escondidas.
Esses dois uma vez me roubaram uma garrafa
de whisky, beberam tudo, tiveram uma ressaca monumental. As vezes Negão se escapava da casa de seus
pais, dormia ali num dos quartos de empregada, ele escapava do seu para dormir
lá também, sua mãe ficava uma fera, pois quando entrava na cozinha para
reclamar, sua avô dizia, não estas nos teus domínios.
Pai, como pudeste te casar com uma mulher
que pensa que tem o rei na barriga, era uma chata de galocha, soltou sem
pensar.
O de sempre meu filho, quando nos
conhecemos, era outra pessoa, depois que se viu rica, mudou, tudo tinha a ver
com a alta sociedade, que hoje nem existe mais.
Seu pai trabalhava num das melhores clínicas
da cidade, da qual era sócio, sua mãe tinha ficado como direito de viver no
apartamento, pois na verdade era da sua avô, que o tinha deixado para ele. Além de pagar uma bela pensão a sua mãe.
Mudemos de assunto, vamos falar de coisas
agradáveis, depois de comerem foram até seu studio, Vitor soltou que adorava
sua casa, sem tantos moveis.
Seu pai, quando viu o quadro dos dois, ria
muito, me lembro dessa foto, tua avó adorava esse lugar, ainda é nosso. Pensei em vender, mas gostamos de passar as
férias lá.
Quando viu o da sua mãe, com turbante,
ficou emocionado, filho, consegues ter uns traços, parece que estou vendo minha
mãe falar.
Vitor estava parado na frente, ela tinha
uma energia forte, consegues transmitir, se querer se virou aonde estava
pintando o Xangô, soltou, esse sempre aparece nos meus sonhos.
Um dia peça a Lindaura que te leve com ela.
A pobre diz que já não consegue subir o
morro, esta velha, acha que deveríamos manda-la para uma casa de maiores.
Se ela quiser tem espaço suficiente
aqui.
Eu ia adorar, soltou o negão, foi uma
segunda mãe para mim, quando estive no xadrez me mandava aquelas empadas que
levavas, lembra?
Posso tirar uma foto, para levar para ela? Claro Vitor, ela vai adorar.
Esse das duas juntas, não está a venda,
quero tê-lo aqui em casa, foram as duas mulheres que mais amei na vida. Sem querer começou a chorar, pois tinha sido
ele que tinha encontrado sua avô morta, Lindaura tinha saído para ir ao
mercado, ele entrou a encontrou sentada na sua poltrona com a cabeça para
frente, mas já era tarde, chamou seu pai, que veio como um louco, pois amava
sua mãe.
Foi muito triste é verdade.
Nisso tocou o celular do Jimmy. Era outra vez o dono da galeria, passou para
o outro, este disse que queria que ele fosse para Paris, montar uma exposição,
seria tudo patrocinado pelo colecionador.
Que podia levar o Negão, disse isso rindo.
Mas quando?
Assim que acabes esta, queríamos pegar o
início da Saison.
Disse que tinha um certo problema em tirar
os documentos para o Eduardo.
Seu pai fez sinal que ia conseguir, nem
sabia o que era.
Quando desligou, riu.
Querem que vá para Paris, logo em seguida a
inauguração desta exposição, que é daqui 15 dias, que me conseguem um studio em
Paris, mas tens que ir também Eduardo, convite do patrocinador, o que comprou
os quadros.
Jesus, o que quer esse homem comigo, soltou
uma puta gargalhada, Vitor queria saber do que se tratava, ele sem pudor nenhum
contou. Ele ria muito.
Vais virar um gigolo dos bons Eduardo.
Deus me livre e guarde, não sou desses,
garoto. Gosto mesmo é de uma mulata.
Seu pai lhe abraçou, sua avó ia ficar
feliz, Jimmy Durante, triunfa em Paris.
O problema seria que não estaria para
montar o carro, teria que falar como carnavalesco.
Lhe foi surgindo uma ideia louca na cabeça,
ficou parado, pegou um papel, começou a desenhar, na parede, a cara do Vitor
era impressionante, nunca tinha visto seu irmão fazer, isso, André, os fez
sentar-se, colocou o dedo na boca em sinal de silêncio.
Esse trabalhou um hora mais ou menos, se
virou, dizendo, imaginem o fundo da galeria com um carro da escola de samba,
ficaria ótimo, vou trabalhar em cima do carnaval, esses franceses vão levar uma
surpresa.
Vitor correu se lançou nos seus braços,
posso vir então aqui desenhar?
Se eu for realmente para Paris, temos que
resolver o problema do senhor Eduardo, te deixo a chaves, podes vir sempre que
queiras.
Falou com o carnavalesco, que disse que se
apanhariam sem ele. Aproveitou para lhe
perguntar se podia lhe dar fotos de carnavais, disse da ideia, ele ria até, marcou
em sua casa essa noite.
Seu pai foi embora com o Vitor, que queria
ficar, com o um comentário, mais um que não quer ser médico.
Amigo não se preocupe, se não conseguimos
os documentos, eu fico.
Nem pensar, não vou de jeito nenhum sem
ti. Quero é veres te livrar desse homem
que quer uma coisa que tens no meio da perna.
Ele seguiu trabalhando no quadro da avô,
tinha tirado uma foto, do desenho do carnaval, mandou para o dono da galeria
passar para o francês.
Depois que acabou o da sua avô, sem querer
se lançou num desenho de uma baiana, rodando com sua quitanda na cabeça, o
celular tocou, olhou quem era, o André Barroso.
Contou para ele, o que tinha acontecido, perguntou
quando se veriam.
Ah te chamava para dizer que vou de viagem
pela empresa, vou passar vários meses no Rio Grande do Sul.
Ficaram conversando, se desces um dia,
venha almoçar comigo.
Nessa noite ele foi a casa do carnavalesco,
que lhe deu um arquivo imenso só com fotos do carnaval.
Depois se insinuou para ele, mas ele tirou
o corpo fora. Levou o arquivo para casa
para estudar as fotos.
Tinha acabado de fechar a porta, quando
tocou o celular, era de novo o dono da galeria.
Ufa, ficaram loucos com a ideia.
Olha amanhã, terei mais esboços, se eles
quiserem, os convido para almoçar num lugar especial no largo do
Guimarães.
Ok, transmito o convite. Te aviso logo cedo.
André estava dormindo, quando se levantou,
contou da história.
Acho que amanhã, esta fechado. Mas espera aí, ele conhecia a dona do lugar,
lhe chamou, ela disse que sem problemas.
Já ia dormir, quando Vitor chamou, estou te mandando o desenho que fiz
dos três. Aqui não tenho espaço para
pintar.
Amanhã vou almoçar com os franceses, venha
também, assim saberás como é esse mundo.
Se escutava falando com os pais, seu pai
concordava, sua mãe tinha dúvidas, ele disse que passasse o telefone para ela.
Esse menino precisa abrir as asas, nada
melhor que conheça gente desse mundo para saber com quem vai lidar se segue em
frente.
Aí, ela concordou, lhe disse que o
colocasse num taxi, ele pagava quando chegasse, depois fazia o mesmo para ele
voltar.
Caiu na cama desmaiado, tinha pensado em
desenhar, mas estava com sono, isso para ele era sagrado, dormir o sono dos
justos.
Se levantou muito cedo, se colocou a
desenhar com uma caneca de café na frente, se esqueceu do café, ia espalhando
as fotografias, imaginando como faria a figura, gostava das Baianas, que
representavam tanto o Brasil mestiço.
Depois foi imaginando por algumas
fotografias antigas, pierrôs, colombinas, que já, não entravam mais no carnaval
de hoje em dia, sem querer por causa de Xangô, começou a desenhar de memórias os
Orixás que tinha feito para um carro a muito tempo atrás, mas os detalhes
vinham em sua cabeça com precisão, ia só virando a imensa pagina do bloco.
Nem escutou a campainha da porta, quem
abriu para o Vitor foi o Negão, que veio buscar o café dele, trouxe com uma
torrada cheia de manteiga como ele gostava.
Ele olhou o Vitor ali ao seu lado, lhe
disse para ficar numa posição, desenhou um Ogum, vestido de São Jorge, o Xangô
tinha cara do Negão.
Quando desenhou Nanã, colocou a cara da
Lindaura, Iansã com a cara de sua avó, uma batalhadora.
Depois parou, deu um beijo na cabeça do
Vitor, já volto vou tomar, banho, olho os teus desenhos. Quando voltou os dois estavam a
gargalhadas, o Negão tinha saído para pagar o taxi, enrolado num lençol, esse
quase cai para alegria das velhas da vizinhança.
Sentou-se colocou seus óculos, passou a
olhar os desenhos do Vitor, ele tinha feito um retrato de cada um, mas o melhor
vinha no final, tinha juntado ao quadro que tinha visto, dos dois em criança,
uma dele na mesma idade. Tinha ficado
fantástico, tinha equilibrado, o Negão no meio, um de cada lado.
Tens futuro garoto, voltou ao primeiro,
começou a mostrar aonde consertar, o que ele ia fazendo rapidamente, até que
chegaram ao final, esse não tem reparo, tens que tirar esse negrinho do meio,
estraga o desenho. Ficaram rindo os
três, quando por celular, o da galeria avisou que estavam subindo para Santa
Teresa, colocou uma camiseta, estava pronto.
Foram para o restaurante, que acabou
abrindo, mas tinha reservado um espaço para eles poderem conversar.
Foi uma farra, chegaram pedindo cerveja
para todos, bem gelada, uma caipirinha que tinha um rapaz ali que fazia
estupenda, ensinou os gringos a beber um gole de caipirinha, depois um de
cerveja, adoraram. Quando chegaram os
pasteis, a cara deles era de assombro.
Pediram um quantidade, de pasteis de siri. Depois casquinha de siri, os franceses
estavam loucos, chegaram a chamar a cozinheira, uma negra com um turbante na
cabeça, ela se virou para o Vitor dizendo algo em Yoruba, ele perguntou o que
era. Ela explicou que ele era de Ogum,
que ia vencer na vida. Ele estava superfeliz.
Jimmy, pediu que ela se sentasse, depois de
servir o Bobo de Camarão um minuto.
Queria desenhar seu rosto, para colocar
numa baiana, ela ria até, ele aproveitou isso, pensou numa baiana com as cores
de Ogum, na cabeça, uma quantidade de pasteis, com os camarões escapando, se
Negão não lhe toca o braço ele ia continuar desenhando, tinha se esquecido de
aonde estavam.
A senhora se levantou, levando as toalhas
da mesa, para mostrar aos outros clientes.
Lhe aplaudiram. O francês finalmente sabia seu nome
François Dumont, estava feliz, foram os dois melhores dias para mim no Rio de
Janeiro, queria o desenho do restaurante, ia mandar emoldurar para colocar no
seu escritório. Ele teve que se
contentar em fazer uma foto, depois voltaria a trabalhar no mesmo. Os dois viram todos os desenhos, a ideia
para o fundo da Galeria, as esculturas de um carro de escola de samba. O da baiana rodando, ficaram de boca aberta, aplaudiram
a ideia.
Depois disso, todos os clientes vão querer
vir ao Brasil.
No final da tarde, os levou ao barracão da
escola de samba, aonde as senhoras, já tinha o modelo da roupa, estavam
reproduzindo em vários tamanhos, o pessoal todo trabalhando, o homem disse, já
queria ele ver seus empregados trabalhando assim.
Só então souberam que ele tinha uma fabrica
no sul, de cerâmica fina, pratos, que iam para o Palacio do presidente, para
com o símbolo da república, que fazia para os melhores restaurantes de Paris,
bem como Fabricas de moveis, modernos, tinha vários negócios que administrava
desde Paris.
Um amigo seu tinha mandado as fotos do
Studio para ele trabalhar, mostrou no celular, aonde ficava, em Montmartre, perto
do metro de Abbesses.
O da galeria do Rio, disse ao Vitor, que
depois da exposição do seu irmão, iria fazer uma coletiva com novos artistas,
se ele queria expor esses quadros, ele gostaria. Por isso tinha um sorriso na cara, quando
chegou a casa de seu pai, ele mesmo o levar, pois tinha avisado sua mãe que ele
estavam juntos. Ela o convidou para
entrar, deixou o filho entrar, falou baixinho com ele, insista para teu pai
fazer uns exames médicos, sabe como é ele odeia, dizem que os médicos são os
piores para tratar, é verdade.
O pai, estava sentado num cadeirão, com a
boca aberta, com o Vitor contando tudo, parecia uma maquina falante.
Calma Vitor, disse o Negão, esta deixando
teu pai tonto, fale devagar, nem eu estou entendendo.
O pai mandou ele tomar um banho, pois
estava suado, falamos no jantar.
Ele contou tudo ao pai, esse ria, esse
garoto vai longe, te adora, quando era pequeno, vivia me perguntando quando ia
conhecer o irmão grande, o melhor é que gostas dele.
Olha pai, eu vou para Paris, prometi a ele,
deixar a chave da casa de Santa Teresa, para ele ir pintar lá, espero que tenha
feito bem. Assim pelo menos veem
movimento na casa.
Deixarei dinheiro para ele subir sempre de
taxi depois das aulas, bem como para comprar comida por lá.
Eu realmente não cozinho, quem faz isso é o
Eduardo, meu negócio são os pinceis.
Falar nisso soltou o Rubens, ele fez um
desenho da cozinheira de turbante, como se fosse uma das baianas da ala, na quitanda
pasteis de camarões, com os mesmo saindo, o gringo ficou como louco, bateu o
pé, fizemos umas fotos do desenho, ele levou para emoldurar, para colocar na
sua sala de trabalho, parecia que estava levando um troféu.
Tinham passado as fotos de aonde iam ficar.
Seu pai contou que quando tinha se
separado, ele e sua mulher tinha passado uns dez dias justamente aí, tinham
alugado um apartamento ali nas Abbesses, foi ótimo.
Porque vocês não vem para a inauguração de
Paris, seria ótimo, assim eu poderia ir passear com o Vitor por todos os museus
que ele queira.
Nos dias seguintes, foi complicado, os da
galeria, vieram buscar os quadros para a exposição, os de Paris tinha resolvido
ficar, tinham ido para Parati, numa pousada muito chic, voltavam para a
inauguração. Lindaura, tinha lhe dado
um cordão que tinha pertencido a sua avó, riu muito, tua mãe, entrou no quarto
dela, procurando pelas joias, mas ela muito esperta, tinha colocado tudo na
caixa do banco, teu pai sabia, ela começou a dizer que eu tinha roubado, teu
pai ficou uma fera.
Ele falou do quadro que tinha feito das
duas.
Eu vi as fotos teu pai me mandou, se for o
caso já que o Vitor vai ficar na sua casa, sou capaz de ir para lá, para fazer
comida para ele.
A casa é tua Lindaura, tem uns dois quartos
vazios, que estavam com coisas da dona antiga, que mandei vender. Só precisa comprar camas. Mas isso o negão faz antes de irmos embora.
Seu pai tinha marcado com ele, para irem
tirar documentos, o advogado da clínica, tinha bons relacionamentos na polícia
federal.
Na casa de seu pai, ela se sentava na mesa
com eles, como mais uma da família, na casa da sua mãe, ele comia com ela, com
a avó, na cozinha da mesma, depois claro de servir na sala de jantar imensa, seu
pai, sua mãe, isso quando ele aparecia, sua mãe comia sozinha.
Ninguém para lá, ela coloca defeito em
tudo, me contou uma empregada de uma vizinha.
É o terror dos empregados, quando sabe que é para trabalhar para ela,
ninguém quer.
Eles tinham rido muito disso. Ele contou como ela fazia, quando tinha que
comer com ela, arruma um jeito de me apresentar uma solteirona louca para
casar, cheia do dinheiro, mas eu fui educado pela minha avó, sou simpático, mas
caio fora, malandro que é malandro não bobeia.
Vitor se matava de rir. Adoro isso pai, quando estamos todos na mesa,
reina a alegria.
Realmente seu pai tinha cara de
cansado. Falou com ele, deixa de
frescura, vai ao médico, antes de ir embora, vamos na clínica, para fazermos um
check up, verdade Eduardo.
Esse concordou, para chegarmos em Paris,
como uma flor.
Foi o que eles fizeram dois dias antes da
exposição, o pai fez a maior onda, mas acabou aceitando. Afinal ele era sócio, tudo saia grátis.
No dia da exposição, a família foi em peso,
ele não avisou sua mãe, sabia que ela iria depois com alguma amiga. Os franceses quando conheceram a Lindaura,
ficaram encantados, pois ela escutava os meninos falando com a sua senhora em
francês tinha aprendido.
Amou o quadro, falou com eles, como era sua
avó, uma senhora fina, de família importante, saia comigo de braços para ir
fazer as compras, não tinha frescura, falava com todo mundo, na rua todos a
conheciam como Madame Alvarenga Peixoto, ela soltava logo, deixa disso.
Esse vai lá para casa, Lindaura, não está à
venda. Se alguém falava alguma coisa,
ela de braço dado com a mãe do Vitor, a apresentava Gloria Peres, a esposa do
doutor, eu criei esse garoto com sua avó.
Foi uma festa, no final se despediram dos franceses,
quando a exposição acabasse, os quadros vendidos seriam despachados para lá.
Ele levava num tubo o desenho da
cozinheira.
Dois dias antes dele partir, seu pai subiu
com sua mulher, esta o chamou de um lado, quando o Vitor arrastou seu pai, para
ver aonde ia trabalhar.
Teu pai, está fazendo um tratamento, açúcar
demais, o coração não vai bem, tenho que brigar todos os dias de manhã, mas é
duro.
Sabe que a idade está chegando, mas sua
cabeça é de jovem, isso é difícil de encaixar, mas vou levando.
Qualquer coisa me telefone, mas espero
vocês em Paris, dentro de dois meses.
Você acha que teu irmão, vai parar de falar
nisso.
Negão tinha mostrado o quarto que tinha
arrumado para a Lindaura, outro para o Vitor no caso dele ficar, na cabeça
deste, já pensava sempre em ter desculpas para ficar, seja pintando ou cuidando
dela.
Esta adorou, a varanda de atrás aonde tinha
uma mesa, logo apareceu a vizinha ao lado ao ver o movimento, qualquer coisa
estou as ordens.
Vitor fez questão de ir leva-los no
aeroporto, voltava de taxi para casa.
Os dois sentados no avião, ele dizia ao
Eduardo que aí ter que chama-lo de Edu, porque negão na França era
ofensivo. Vai ser difícil meu irmão.
O teu irmão, realmente podia ter sido nosso
amigo quando erámos criança, ele é igual a ti, o mesmo entusiasmo por tudo, as
vezes me dava na lata, quando via alguma coisa que te interessava, não parava
de falar no assunto, tinha que te parar as pernas, dizendo, vamos jogar
futebol, nunca foste bom, mas enganava, os dois riram tanto, que os das
cadeiras ao lado olhavam para eles.
Devem pensar, o que vão fazer esses doidos
em Paris.
Ele contou ao Edu, fazia questão que agora
fosse assim, telefonei para o André, ele está em Porto Alegre, montando alguma
coisa relativa ao seu trabalho. Uma
lastima, talvez com ele, eu tinha podido dar certo, nos encontramos num momento
errado, os dois com problemas.
Deixa para lá, vai ter muitos franceses aos
teus pés.
Bom tu, vais ter um rico empresário atrás
de ti.
Nada eu já conversei com ele, para ir
devagar que o santo é de barro. Tive que
traduzir, além de explicar para ele.
Depois de comerem algo que serviram, os
dois dormiram como pedra, só despertaram em Paris, Edu estava deslumbrado, pois
tinham mandado um carro para os buscar, levar ao Studio, o motorista lhes
entregou uma carta, do patrocinador, para chamar, se não estivesse cansado,
gostaria que fossem comer na sua casa.
Eles combinaram que queriam o primeiro dia,
a sos. Ficaram de jantar lá dois dias
depois, no dia seguinte ia conhecer a galeria, para tomar ideia do espaço.
Deixaram seus desenhos em cima de uma mesa,
num espaço excelente, tinham dois quartos, ele preferia os do fundo, pelo
silencio para dormir. Um bom banheiro, uma cozinha pequena, o resto era o
studio.
Foram comer, depois de um bom banho, num
restaurante ao pé do metro Des Abbesses, aproveitaram para saber como podia se
mover através de Metro.
Depois tomaram um taxi, foram até a Torre
Eiffel, realizar um sonho do Edu.
Era já final do dia, ver a cidade iluminada
dali de cima, era o máximo, eles que tinham saído do calor do Rio de Janeiro, pegavam
o outono, de Paris.
No dia seguinte de manhã, usando o mapa do
metro, sabiam que tinham que descer em rue du Bac, foi o que fizeram, o Edu
reclamando, que tinham que aprender a andar de ônibus, porque andar embaixo da
terra não era com ele.
Dali foram deslumbrados até Saint Germain
du Prés aonde estava a Galeria, parou de reclamar, olhando os prédios, tudo que
via pela frente, os dois iam admirando tudo.
Lembra quando íamos com tua avó pelo centro
da cidade, que íamos olhando tudo com admiração, ela explicando o que estávamos
vendo, reclamava dizendo que nada era mais como antigamente.
O dono da galerias André Rochechouart, fez
a maior festa, foi mostrando tudo, inclusive, explicou quando não tinha
exposição, encurtavam a galeria, mostrou como fazia, essa parede vai para o
fundo, mostrou o espaço atrás, calcularam a altura que poderia ter o painel que
ele queria fazer em relevo atrás. Para
ele ir pensando, depois falou com a secretária foi com eles a uma loja ali
perto, para comprarem material, conhecia a dona do local.
Ia dizer que pagava tudo, mas ele não
concordou, já tinha o dinheiro do Rio depositado em sua conta, perguntou se
podia pagar com cartão de crédito, ela disse que sem problemas.
Ele foi selecionando pinceis, tinta,
pigmentos, inclusive queria experimentar para os retratos, fazer alguma coisa
em papel, como tinha acabado de ver na galeria, eles mandariam levar no dia
seguinte, avisou que era o último andar, quando fosse para lá que chamassem
antes, assim ajudavam.
Tinha perguntado ao André Rochechouart,
como seria o jantar na casa do François, disseram que não tinham roupas finas,
que não usavam isso.
Direi a ele que faça uma coisa
descontraída.
Tinha passado o dia inteiro, deixando o
studio como ele queria, depois ajudaram os homens a subir o material, quando
lhes deu dinheiro agradecendo, riram, vê-se que são estrangeiros, aqui quando
muito dizem Merci.
Mas assim sabia que quando pedissem
material, eles trairiam mais rápido.
Colocou tudo em ordem, separou os desenhos,
por uma ordem imaginaria, pois sabia que depois sua cabeça funcionaria de
maneira diferente.
Já ia começar a trabalhar, quando o Edu,
lhe chamou para tomar banho, se arrumarem para o Jantar. Ele fez a maior gozação, quando viu o Edu
arrumado, hoje ele coloca aos teus pés o coração dele.
Preciso o convencer de me conseguir um
emprego, preciso ganhar dinheiro, não ficar aqui as tuas custas.
Sabia que Jimmy diria, o que é meu, é
teu. Sempre tinha sido assim.
Realmente arrumando o Edu estava muito
bonito. Como tinha emagrecido muito na
prisão estava com um tipo espetacular.
Pensou consigo mesmo, se não fosse meu
melhor amigo, o arrastava para a cama.
No carro foi dizendo a ele, que tinham que
descobrir, aonde encontrar material para fazerem as esculturas, primeiro fariam
em isopor, para depois recobrir de fibra.
Teriam que arrumar outro lugar, pois não
teriam como descer pelas escadas.
Vê como preciso de ti, sem ti, não
conseguirei fazer isso.
No caminho, combinaram que ele lhe pagaria
um salário, para ter uma conta no banco, bem como comprar coisas que
precisassem.
Mas sabia que ele ia se virar, quando eram
garotos, iam escondidos no Largo do Machado, vender os doces da Lindaura, sua
avó se matava de rir, por se acaso sua mãe descobrisse, o escândalo, imitava a
mesma.
Sempre tinham uns trocados que ele abria
mão, pois sabia que o amigo levaria para sua casa.
Quando chegaram viram que era um edifício
fino, eita, disse o Eduardo, frequentando a alta sociedade de Paris. Tinham mais homens que mulheres, alguns se
notava o poder do dinheiro.
Foi sendo apresentado a todo mundo, mas
confessou ao François, sou incapaz de guardar nomes, isso deixo para o Edu, ria
pois ele chamava o mesmo de Édouard, os ia apresentando como irmãos.
Mas não tirava os olhos do Edu, esse ria,
mas se surpreendeu quando os dois pediram cerveja, ele disse que tinha na
cozinha, foi com ele até lá.
Eduardo se surpreendeu, pois este lhe deu
um beijo, que o pegou desprevenido. Ele
tinha tido experiencias gays também nunca falava, mas tinha tido, inclusive na
prisão, ninguém tinha se atrevido a se meter com ele, por causa do seu
tamanho.
Só disse ao François que fosse com calma.
Este voltou da cozinha com um sorriso na
cara.
Ele se chegou ao Jimmy, o sem vergonha me
deu um beijo na boca, esses homens vão pensar que sou um gigolo.
Um homem muito sério, se apresentou como
professor da Escola de Belas, artes, tinha visto os catálogos de sua exposição
no Brasil, disse que o ele conhecia de artes no Brasil, eram de um estilo mais
contemporâneo.
Sim mais americanizado diz tu, sim mas
nunca estive nessa corrente de arte, eu gosto de pintar à minha maneira, nunca
fiz arte abstrato, nem segui essa corrente americana.
Embora adore o trabalho de Georgia
O’Keeffe, e alguns outros.
Foi como dizer um nome magico, o homem
adorava o trabalho dela. Ficaram
conversando, viu que o mesmo se insinuava.
Ao lhe perguntar se tinha alguma coisa com o Edu.
Não nos conhecemos desde garotos, somos
amigos, é como meu irmão.
Não tenho ninguém, aliás a pessoa sairia
perdendo, pois quando estou pintando, me esqueço do mundo, se não é ele,
apontou o Edu, sou capaz de me esquecer do mundo.
Ele disse que tinha pedido ao François seus
catálogos para mostrar para seus alunos, se um dia podia ir à escola de Belas
Artes falar com eles.
O outro frisou seu nome, escutei quando
dizias que te esquecias dos nomes, passou um cartão, Jean-Paul Castro, disse
que seu avô era espanhol.
François mandou um carro os levar em
casa. Perguntou antes ao Édouard quando
poderiam almoçar juntos, posso ir até Les Abbesses de for o caso.
Depois comentou que tinha gostado do beijo
dele, mas sabe com sou um cagão, com essas coisas de relacionamento, de repente
posso gostar dele, mas ver uma mulher, sair atrás dela.
Ora deixa isso bem claro para ele. Falou do professor, tens que me fazer uma
agenda, senão vou me perder, isso não é Brasil, tu me conheces.
Subiram rindo as escadas, aproveitou o fuso
horário para falar com seu pai, este riu, já estás na sociedade francesa, tua
mãe ia adorar.
Soltou, merda, me esqueci de dizer que
vinha, agora terei que falar com ela.
Bom teu irmão muito esperto, basicamente se
mudou para tua casa, com a Lindaura, ela esta super bem lá, tem com quem
conversar, já fez amizades, ele está preparando o quadro grande dos três, em
criança, riu, ele diz que é como se fosse assim.
Pelo menos, nos dois temos como uma lua de
mel, enquanto isso.
Lhe perguntou se estava se tratando, claro
que sim, quero ir daqui a dois meses a Paris.
Depois ligou para sua mãe, esta estava
furiosa, pois a pegava no meio de uma partida de Bridge, reclamava que a
empregada tinha ido embora, imagine servir coisas compradas prontas.
Quando ele disse que estava em Paris, ela
começou a falar dos lugares que ele devia ir, em nenhum momento perguntou como
ele estava, acabou se fartando, dizendo que tinha que trabalhar.
Puta merda, como pode ser minha mãe. Ele sabia por que sua avó sempre falava
nisso, que ela tinha usado o conto da gravidez para se casar. Teu pai caiu no conto do vigário.
Talvez por isso sempre fosse distante.
Se fechou para o mundo, começou a preparar
os quadros, as vezes conseguia fazer dois ao mesmo tempo. O professor Jean-Paul Castro, um dia
perguntou se podia o ver trabalhando, ficou impressionado, pois estava pintando
dois retratos ao mesmo tempo, era duas telas aplicadas em cima de um papel
firme. Um desenho não tinha nada a ver
com o outro.
Marcou com ele de ir no outro dia de manhã,
a École de Beaux Arts, lhe explicou como ir.
O convidou para depois ir ao seu Studio,
vivo em Marais, assim podemos almoçar.
Riram quando Edu tirou o corpo fora, ele
muito esperto, estava fazendo pasteis de camarão para vender no Bistrô ali ao
lado, estava ganhando seu dinheiro por fora, não dava abasto, o dono queria que
ele fizesse lá, mas dizia que não podia pois seu irmão podia precisar dele.
Ele resolveu ir de Taxi, assim ia com a
cabeça solta, pensando no que queria fazer.
Chegou antes do tempo, o Jean-Paul, o levou
para conhecer a École, apresentou aos outros professores, quando chegou a hora,
como muitos se inscreveram para te escutar falando, achei melhor um anfiteatro,
que temos.
Ele só pediu para ter tipo um painel para
desenhar se fosse o caso.
Quando foi apresentado, viu que todos eram
muitos jovens. Começou a falar, escutou
alguém dizendo, nem parece brasileiro, fala perfeitamente o francês.
Eu sempre desenhei, foi meu primeiro
contato com a arte, até hoje meus quadros partem de um desenho, de uma ideia,
comentou que o Jean-Paul, tinha lhe perguntado pela arte moderna brasileira,
ele disse que era muito americanizada, influenciada pelos americanos, alguns
europeus, disse que gostava muito do trabalho de um inglês, um soltou o nome
que ele não conhecia.
Estou falando de um inglês, que foi para o
Brasil de férias, nunca mais foi embora, ele tem um studio, pinta, dá aulas,
falou do Parque Lage, disse que adorava pintar pássaros, o fazia a perfeição,
ele diferente de mim, é capaz de ficar horas num detalhe, depois seus quadros
vão todos a Inglaterra, não sobra nenhum.
Foi um dos meus professores.
Ah, virou-se para quem tinha perguntado,
estás falando de Francis Bacon, adoro seus trabalhos, realmente creio que é uma
mistura de uma ideia clássica, com o mais moderno.
Embora eu só conheça seu trabalho, a partir
de catálogos, livros, mas também adoro o trabalho de Picasso, desde o começo,
até seu final. Não sei se algum dia
chegarei a isso.
Agora para a exposição, estou fazendo um
quadro, de um personagem que ele pintou, um arlequim, mas juntei uma colombina,
falou que tudo isso tinha a ver com o carnaval de antigamente, sugeriu que para
ver isso, vissem um filme de um diretor francês Marcel Camus, para uns Orfeu do
Carnaval, Orfeu Negro, verão um carnaval que já não se faz mais.
Eu para essa exposição incluirei
esculturas, disse como as fazia, como são os carros de carnaval, se levam meses
para fazer, pois são imensos, aqui farei em tamanho menor, mas dá muito
trabalho, contou que depois do desfile, se perdiam, ficavam só os despojos
disso tudo.
Mas voltando ao arlequim, viu um rapaz de
cabelos vermelhos, pediu que ele se sentasse ali perto dele, os alunos
alucinaram, como ele começou a desenhar, se colocou de lado, mas depois viu que
todos estavam em volta dele, alguém tinha colocado lápis de cores ali, foi
desenhando com uma rapidez impressionante, os contornos dos olhos do mesmo, a
boca rosada, o nariz, eram traços ligeiros, mas definitivos. Quando terminou, sem ter consertado nada
nenhuma vez, pegou o Jean-Paul, o fez sentar-se, lhe trouxeram um papel firme
grande, ele fez o mesmo em tamanho grande, era só seu rosto, mas ocupava o
papel inteiro.
Pouco olhava para o Jean-Paul, mas quando o
fazia, olhava principalmente os olhos.
O que aparecia ali, era um homem solitário,
com sorriso triste, mas os olhos transmitiam que ele queria viver.
Os alunos alucinaram, quando fazemos um
retrato de alguém, pensamos sempre que o importante são os detalhes, evidentemente
que sim, mas mais importante, é vermos quem é a pessoa que esta diante de nós,
como é o seu interior, isso se faz olhando a pessoa nos olhos, captando sua
essência.
Se afastou, pediu que cada um falasse do
professor. O único que acertou não era
seu aluno, era de outra turma, disse que tinha o olhar triste, que era uma
pessoa fechada em si mesma.
Então houve aplauso generalizado, foi
quando viu que na parte de cima estavam os outros professores assistindo.
A maioria veio falar com ele, um deles, lhe
disse que tinha ficado interessado na história do bonecos como ele chamava de
carnaval.
Estou procurando um lugar para trabalhar,
pois disse o tamanho que teriam.
Bom podemos lhe emprestar alguma oficina
aqui. Desde que ensine os meninos a
fazerem isso, vou avançar com meus quadros, pois preciso de pelo menos um mês
para fazer tudo isso.
Os alunos queriam ir ao seu studio, ele
disse que ali era como um templo, trabalho em silencio, muita gente por perto
me desconcentra.
Disse ao Jean-Paul, os que se saírem melhor
no exercício que fiz, você leva.
O via agora animado, sem querer me tocaste
fundo, me vi como as pessoas me vêm, mas que no fundo sou assim.
Estou só a anos, amei muito alguém que
morreu longe de mim, longe daqui. Um
daqueles idiotas que vai para a guerra com se fosse andar de carrossel.
Foram almoçar, tinham ido andando, ele
conhecendo a cidade, disse o que já tinha visto, mais por causa do Edu, ele
reclama de andar de metro, pois não vê nada.
Depois foram ao studio do Jean-Paul, havia
uma série de trabalhos começados, nada terminado.
Sem querer, por um toque acabaram na cama, foi
fantástico, ele lhe atraia, depois ficaram abraçados, lhe disse que fossem
devagar, vamos fazer o seguinte, se sente minha falta, me liga de manhã, nunca
pela tarde ou noite, ou melhor apareces por lá, não quero parar meu trabalho.
Fizeram sexo de novo pela manhã, ele dizia
que devia borrar de sua cara, o sorriso que tinha, pois seus alunos iam fazer
gozação com ele.
O mais importante Jean-Paul, é seres feliz,
isso é o que importa, sou honesto de te dizer, que vivi tanta confusão, perdi
uma das pessoas que mais amei na vida, minha avó, no meio disso tudo, mas não
fui feito para sofrer.
Meu trabalho me salva disso tudo.
Estava indo para o Studio, quando seu
celular tocou, era o Vitor, feliz da vida, seus três trabalho tinham sido
aceitos pela galeria, para a coletiva.
Lhe disse que tinha dado uma aula na École
de Beaux Art, que os alunos tinham gostado, ias gostar de estar lá, pois cada
um tem uma personalidade.
Quando chegou ao studio, Edu ria da cara
dele, pelo visto foi bom meu bem. Contou
para ele tudo, é um sujeito sério diferente, gostei de estar com ele, era uma
coisa que precisava.
Este lhe contou para sua surpresa que o
François tinha aparecido, não lhe deixei entrar, disse que tinha que levar
pasteis ao restaurante, ele foi comigo para lá.
Depois me convidou para dormir com ele, é muito formal, lhe disse que
preferia como ele tinha feito, me dando um beijo, voltou comigo para cá, estava
nervoso, fechei o teu studio, lhe disse que não gostava que entrassem antes que
fosse autorizado.
Eu não vim aqui por isso, mas o pobre ficou
tão nervoso quando me viu nu, que ejaculou antes, mas mesmo assim dormiu
agarrado comigo.
Me perguntou se eu queria penetra-lo, lhe
disse que com o tempo sim. De manhã o
fiz, ele ficou como louco.
Mas entendeu que vou por livre, nada de me
ter amarrado.
Quem diria, o negão deflorando cuzinhos
franceses.
Ficaram os dois a gargalhadas. Cada um foi fazer suas coisas, ele cada vez
tinha mais encomendas.
Se dedicou a trabalhar, se encontrava com
Jean-Paul, quando podia, este tinha voltado a pintar, dizia que agora tinha
inspiração. Ele não entendia isso,
necessitar de alguém para ter inspiração.
Quando terminou os quadros, 15 mais do
estipulados, chamou o da galeria, este marcou com um fotografo, para já fazer a
parte dos quadros.
Agora vinha o mais difícil, num pais
diferente, escolher material para fazer as alegorias.
Edu, bem como Jean-Paul, alunos da escola
de belas artes o ajudaram, pois queriam aprender, mas claro era jovens,
acabavam as vezes estragando o já feito.
Pediu desculpas, acabou escolhendo os melhores, colocou em marcha,
quando teve todas as esculturas como tinha planejado em isopor, começou a parte
mais difícil, todo mundo reclamava do cheiro, recobrir tudo com material
sintético, eram diferentes do Brasil, tomou cuidado para não queimar o isopor,
depois de recoberto, chegou outra parte complicada, lixar tudo para que tivesse
uma boa aderência de tinta, tudo isso era feito com máscaras próprias. Jean-Paul, os alunos, estavam como loucos com
a experiencia. Depois pintar com spray tudo.
Finalmente ficou tudo pronto, agora era
transportar para a galeria que fechou, moveram o fundo montaram o painel, como
se fosse um grande carro alegórico, mas só a parte de cima, os mesmos alunos,
aprenderam a logica de montar uma exposição, diziam que isso era melhor que
fazer aulas. Duas grandes esculturas de Xangô, ficavam
logo a entrada da galeria, o resto estava disposto, em painéis, dois quadros
como se fossem um tríptico ocupavam as laterais ao fundo antes do painel, um
era uma ala de baianas em plena evolução, tudo era movimento, as únicas coisas
fixas eram a cabeça da baiana, bem como sua quitanda, algumas, se via os
camarões, outras, acarajés, frutas tropicais, enfim um mundo de detalhes.
Depois ao principio se via o carnaval
antigo, pierrôs, colombinas, em tons de rosa e verde da mangueira, mas ao mesmo
tempo uma homenagem a Picasso.
O catalogo estava perfeito, foram com
Jean-Paul que conhecia como funcionava a coisa, comprar roupas, tinha reservado
um hotel, para seu pai, sua mulher, bem como o Vitor, na última hora, Lindaura
disse que não montava nesse bicho, o avião, nem morta.
Nessa noite que chegaram, foram jantar,
Vitor estava mais ansioso que eles, riram muito com as suas histórias, contou
ao ouvido do Edu, que tinha perdido a virgindade, mas isso era segredo, depois
lhe contaria a história. Estava
contente, tinha vendido os quadros, repetia isso mil vezes, meu pai me fez
depositar tudo, aplicar esse dinheiro para o futuro.
Ele via seu pai de melhor aparência, Gloria
disse que estavam seguindo o tratamento ao pé da letra, que esse tempo com o
Vitor fora, tinham aproveitado só para eles.
Vitor olhava tudo como se estivesse
descobrindo o mundo. Quando foram ver o
studio, já com alguns quadros de um outro trabalho, ficou alucinado, que o
material era bom.
Depois te levo na loja, mas terás que ir de
camisa de força, porque tudo que nos falta no Brasil, aqui tem aos montes.
François Dumont, mandou uma limousine
recolher seu pai e família no hotel, ele foram mesmo de taxi.
Edu tinha ajudado a empresa de catering a
preparar um coquetel a brasileira, estavam deslumbrados, como era tudo
diferente, pequenos acarajés, pasteis de camarões, coisas loucas dele. Já o queriam contratar.
Ele quando entrou, um pouco mais tarde, ali
estavam jornalistas, de todos os tipos, claro, movidos pelo François, que
aparecia mesmo no catalogo como patrocinador, repetia a história que tinha
visto um quadro, depois tinha se deslumbrado com a maneira do Jimmy trabalhar.
No dia antes, foram os três, a uma
entrevista na televisão, Jean-Paul, tinha soprado a historia da maneira dele
desenhar.
De repente apareceu um quadro em branco,
lhe pediram para desenhar alguém da plateia.
Ele escolheu uma senhora muito
bem-vestida. A sentou ali na sua
frente, olhou bem seus olhos, eram de uma tristeza incrível. Em segundos a desenhou como a via, ela tinha
lagrimas nos olhos.
Depois no intervalo veio falar com ele,
como tinha adivinhado de sua tristeza?
Sei que a senhora perdeu alguém, isso
reflete nos seus olhos. O programa deu
de presente a mesma seu quadro.
Agora ela estava ali na exposição, tinha
comprado um grande, que era a Lindaura de baiana.
Essa mulher tem um sorriso que cativa
qualquer um. Ele lhe mostrou uma foto da
Lindaura, foi nossa segunda mãe, tinha lhe apresentado o Edu como seu irmão.
A senhora convidou sua família inteira para
um jantar no dia seguinte em sua casa.
Gloria estava deslumbrada, de brincadeira
soltou, sua mãe que gostaria de viver na alta sociedade, eu que sou uma pé no
chão, sou convidada por uma da alta sociedade de Paris.
A noite foi perfeita, François tinha
fechado seu restaurante predileto, para seus convidados particulares, incluiu
Madame Fleur de Lis, que se sentou ao lado da Gloria.
No final, André, falou ao seu ouvido, que
não tinha sobrado nada, nunca vendemos assim, claro os amigos do François representam
alguma coisa, mas meus velhos clientes, batalharam por quadros. Surpresa, o painel inteiro foi vendido, disse
por quanto, ele ficou de boca aberta.
Teria que fazer uma lista de cuidados para
manter o mesmo bem.
Seu pai gostava do Jean-Paul, ele temia que
este estivesse apaixonado por ele.
Lá pelas tantas, recebeu uma chamada do
André, desde o Rio Grande do Sul, perguntou pela exposição, tinha recebido o
catalogo, disse que o mesmo tinha provocado uma crise de ciúmes do namorado que
tinha. Me ofereceram para ficar
definitivamente aqui, vou aceitar, gosto dele, quero tentar viver direito com
alguém.
Ele não disse nada, de uma certa maneira
tinha esperança de voltar ao Brasil, retomar a relação deles.
Quando teve o dinheiro do painel em mãos,
fez uma coisa, separou uma parte para os que tinham ajudado, os alunos
receberam dinheiro, bem como ele fez uma doação a escola de Beaux Arts, pois
afinal tinham emprestado o local.
Tinha o convite da escola para dar aulas
livres na mesma, pela maneira como ensinava os jovens, disse que ia pensar.
Seus pais foram embora, dois dias depois o
André, o chamou a galeria, foi preocupado pelo seu tom de voz. O encontrou com uns senhores muito sérios,
se via que eram estrangeiros.
Tinham uma imensa galeria em Berlin,
queriam saber se podia fazer uma exposição por lá.
Perguntaram se estava trabalhando. Riu, os convidou para irem ao seu studio.
Comentou que quando tinha visto uma foto de
Mademoiselle D’Avignon de Picasso, se lembrou de uma fonte no rio, as Três Graças,
estava pintando um painel, comentou que tinha conseguido através de um amigo, a
localização anterior da mesma, disse que hoje em dia estava num lugar feio, tinha
feito um painel, como se elas estivessem dançando, era tudo muito estilizado.
Tinha ido a escola de dança do Teatro,
através de François, algumas dançarinas tinham posado para ele, tudo tinha
movimento, estático era seu fundo, se lembrou uma vez no Parque Lage, um
exercício, para desenharem um fundo de um quadro, com a floresta de fundo.
Na outra parede, estava já terminado, as
mesmas Três Graças, vestidas de índias, com pinturas no corpo.
Viram em cima da imensa mesa, a quantidade
de desenhos que ele tinha, era como uma grande imersão no Xingu, com as cenas
de danças, os homens pintados, pediu desculpas, mas ainda estava no começo,
estou fazendo um exercício mental para me lembrar de tudo que já vi um dia em
reportagens sobre esse lugar.
Os alemães, queriam a exposição, ele pediu
um tempo, tinha programado uns 15 dias de descanso, encaixando com as férias de
Jean-Paul, no sul da França.
Eles lhe mostraram um vídeo da galeria, era
muito grande,
Um deles, muito branco não tirava o olho do
Negão, depois que foram embora, lhe disse, agora um alemão, tenha vergonha na
cara.
Este ria, creio que já saciei o François,
pelo menos me deixou em paz, tinha inventado que estava saindo com uma das
cozinheiras do buffet.
Quando estavam para partir, recebeu uma
chamada de telefone do advogado de seu pai, levou um choque, seu pai tinha ido
buscar o Vitor em Santa Teresa, um carro que descia uma ladeira ali, perdeu o
controle chocou contra eles, Lindaura, seu pai tinham morrido no ato, Gloria e
Vitor estavam no hospital.
Ele avisou o Jean-Paul, vamos imediatamente
para o aeroporto, este resolveu ir junto.
Foi um voo difícil, além da tensão, o avião
pegou um monte de turbulências.
Chegou exausto, o advogado o esperava,
temos um outro problema, tua mãe mal soube que teu pai tinha morrido, pediu a
posse do apartamento dele.
Mas isso consegui com o juiz, deixar para
depois.
Filha da puta pensou, o homem nem esfriou,
já está aprontando. Ela não sabia, mas
ele tinha papeis no banco, relativos à herança de sua avô, no meio tinha
encontrado um documento, que ela tinha assinado antes de se casar, que o fazia
com separação de bens.
O primeiro que fez, era preparar o enterro
da Lindaura, de seu pai. Foi ao
hospital, Gloria estava num estado lamentável, o médico, dizia que achava que
não ia escapar. Ela lhe pediu que ele
cuidasse do Vitor, agora que estávamos tão bem, acontece isso.
Faleceu nessa mesma noite. Agora seria o enterro dos três.
Ele os enterrou no cemitério no mausoléu,
dos Alvarenga Peixoto, junto com sua avó.
Sua mãe, mandou um advogado tentar impedir. Ele olhou serio para o homem, diga a essa
jararaca, que ela não perde por esperar. Fora daqui.
Nunca pensou em ver tanta gente, no
enterro, vieram inclusive o pai de santo da Lindaura, que lhe apertou a mão,
lhe disse que não se preocupasse, que ia dar tudo certo, a minha filha de santo
te queria, bem como ao Negão, como se fossem seus filhos.
Lhe colocou no pescoço, uma cordão de
Xangô, bem como outro de Exu, se tiveres tempo, sabes aonde estou, gostaria de
fazer uma firmeza para os dois, um mundo novo vai se abrir para vocês.
Foi tudo muito emotivo, ele rezou um Kadish
para seu pai, embora esse nunca tivesse frequentado a sinagoga. O pai de santo, rezou em Yoruba uma oração
muito bonita.
Ele tinha estado como Vitor, esse queria ir
ao enterro, tanto fez, que o negão o levou em cadeira de rodas.
Chorou muito agarrado aos dois. Agora só tenho vocês.
Antes do encontro com sua mãe pela posse do
apartamento de seu pai, ele fez uma coisa, subiu com o Negão, o Jean-Paul foi
junto, não entendia nada, mas também fez uma firmeza. Pois dentro de pouco fazia uma exposição.
Se sentiu melhor mais seguro, viu no
momento que esteve deitado para Xangô, uma figura negra, que algumas vezes
aparecia em seus sonhos, quando perguntou ao pai de santo, ele disse que esse
era seu Exu, que não tinha nada a ver que ele fosse judeu, estaria sempre com
ele, quando o veja, siga sempre suas instruções.
Dois dias depois se encontraram no
escritório do advogado de seu pai, sua mãe, chegou muito maquilada, quando viu
o Negão, soltou, esse carrapato não te larga.
Quando falou que como nunca tinha dado o
divorcio ao seu pai, tinha direito a tudo que era dele, as ações na clínica,
que os sócios queriam comprar, o apartamento que ele tinha.
Passou uma cópia dos documentos que tinha,
ao advogado dela. Este falou baixinho
com ela, foi o que faltava, explodiu.
Essa velha bruxa me enganou.
Bom eu tenho uma proposta, é pegar ou
largar. A senhora tem dois dias para
deixar o apartamento que vive, que é meu, está no testamento de minha avô, ou
da velha bruxa com a senhora a chama. Ou sai, ou peço uma ordem de prisão por
invasão de domicilio, a senhora escolhe, sair num camburão ou sair pelos teus
próprios pés.
Quanto ao apartamento de meu pai, este
fica, bem como as ações, para o meu irmão Vitor, quando muito posso lhe
emprestar minha casa de Santa Teresa, mas no dia que eu volte para o Brasil, a
senhora tem que sair, talvez para alguma residência de velhos, sei lá.
Mas como vou viver sem a pensão de teu pai?
Isso não é problema meu, tivesse
economizado.
Estamos entendido, dois dias, depois
camburão, policia, escândalo.
Não pense que me importo com esse último,
não vivo aqui, mas tuas amigas sim.
Eu não vou morar em Santa Teresa.
Isso é problema teu, vá viver com sua irmã,
com quem a senhora nunca fala. Dois
dias, disse ao advogado que colocasse o apartamento a venda, com tudo que tinha
dentro.
Aonde estão as joias da tua avô? As que me deram eram falsas, quando fui
vender me disseram.
A velha bruxa como a chama, não era tonta
como a senhora, mandou fazer cópia, ela mesma vendeu as originais, colocou o
dinheiro na minha conta no banco.
Eram minhas por direito.
Bom ela deixou as joias do seu quarto para
a senhora, ou seja as falsas.
Ela só faltava espumar, ficou mais furiosa,
ainda quando viu que o Negão ria.
Eu não sei quem dá o cu para o outro, mas
os dois, todos dizem são viados.
Saiu pisando forte.
Ele disse ao advogado, assinando os papeis,
mande vender o apartamento, divida em três partes, somos três irmãos, cada um
vai receber uma parte.
O negão disse que não queria nada.
Olha eu já perdi a paciência hoje, não me
faça perder outra vez. Quero ir embora
daqui, assim que o Vitor possa andar.
Saíram os dois caminhando pela praia do
Flamengo, como faziam em criança.
Temos que encontrar um apartamento, para os
três, acho que aquilo que me disseste que gostaria de ter um pequeno Bistrô,
podemos pensar nisso, se tivéssemos algum, aonde vivemos, com um apartamento em
cima, seria perfeito. Já conversei com o
Jean-Paul, não posso mais usar o studio, pois ele pertence a um amigo do
François, este agora pede uma fortuna pelo mesmo, posso sim conseguir um inclusive
maior e melhor diz o Jean-Paul, quero fazer uma coisa, saber que estou saindo
de casa para o trabalho.
Pediu para o advogado arrumar os papeis do
Vitor, conseguir seus documentos da escola, assim poderia ir a École de Beaux
Arts, em Paris.
Ia todos os dias vê-lo com o Negão ao
hospital, quando lhe deram alta, foram para Santa Tereza, aonde separou alguns
desenhos.
Telefonou para o André, este disse que
seguia em Porto Alegre, que as coisas não tinham saído como ele queria, se
estava sozinho?
Não lhe mentiu, no momento, estou no meio
de uma grande confusão, ele já sabia de seu pai, lhe contou a história de sua
mãe, bem com agora tinha seu irmão, com ele, que voltavam para Paris, pois
tinha que preparar a exposição de Berlin, creio mesmo que por um bom tempo
ficarei por lá, encontrei uma coisa que não tinha aqui, paz para trabalhar.
No voo de volta, foi falando com o Vitor,
Jean-Paul, tinha voltado antes, para acabar de preparar sua exposição. Na vinda, conversei muito com ele, quero
trabalhar para essa exposição, esculturas, mas que seja de terracota, ou seja,
como falo dos índios do Brasil, tem que ser terra.
Tu vais entrar na escola, creio que
conviver com esses jovens vai te fazer bem, mas quero que pense bem, vi muitos
deles, tomando drogas, esses coloquei para fora, quando estavam trabalhando
comigo. Estes dizem que as drogas os
fazem se encontrar, nada mais que uma balela, se perdem, pense bem antes de
fazer qualquer coisa que possa te prejudicar.
Tens a mim, bem como o Negão para
conversar, somos teus irmãos como você mesmo diz, portanto, qualquer coisa me
conte.
Ele te contou que não sou mais virgem.
Como é que é, contaste para ele, para mim
não?
Claro estava no meio daquela confusão de
exposição, não queria te incomodar.
Então agora me conte tudo. Ele contou tudo com detalhes para eles,
tinha sido com um colega dele de muitos anos, sempre falamos de tudo, somos os
únicos que temos sonhos diferentes do resto. Sem querer aconteceu, num dia que
veio ver meu trabalho em Santa Teresa.
Cada um pegou uma orelha, manchaste a
reputação do nosso santuário. A
aeromoça, veio perguntar o que acontecia.
Ele rindo contou para ela, esse menino perdeu a virgindade.
Ela ria, entendeu que era brincadeira.
No dia seguinte começaram a olhar todos os
lugares que poderiam viver. Jean-Paul
recomendou um agente imobiliário que ele conhecia. Este lhe conseguiu um studio imenso, num
andar térreo, com um apartamento em cima.
Negão queria uma boa cozinha, seguia
ganhando dinheiro com suas coisas, tinha feito também um curso de cozinha
francesa, agora era sempre chamado pelo pessoal com quem tinha trabalhando para
aprontarem alguma encomenda, sabiam que ele podia fazer coisas diferentes.
Tinha aprendido a ir comprar coisas como quiabo, mandioca, numa feira de
produtos africanos.
Se virava.
Tinha guardado o dinheiro que o Jimmy tinha
lhe dado num banco, o dinheiro da venda do apartamento tinha ficado aplicado no
Brasil, resolução dos três.
Jimmy daria uma mesada para o Vitor, bem
como uma parte do studio para ele trabalhar.
No primeiro dia de aula, veio eufórico da
escola. Os dois riam dele, fazia falta
essa tua euforia de sempre, o agarraram deram beijos nele.
Ele dizia para todo mundo que tinha dois
irmãos maiores. Dias depois disse
rindo, que tinha sido convidado para uma festa, que tinham lhe soltado que ia
ter muitas drogas, bebidas, tirei o corpo fora, senão não vou a lugar nenhum.
O studio do Jimmy agora era como ele
queria, como ocupava a parte de baixo toda do edifício, tinha lugar de sobra
para trabalhar. Ia a umas aulas de
escultura em barro, na escola, os que tinham trabalhado para ele riam, como ele
fazia aulas, se era todo um mestre.
Explicou que havia que ser humilde,
reconhecer que não sabia tudo. O
professor, era mais velho que ele, ria muito, tinha acompanhado o trabalho
dele, mas lhe ensinou todos os truques, lhe disse que quando chegasse o momento
de fazer as esculturas em tamanho real, ele tinha no seu studio, forno para
coser as mesmas.
Paul Bergueson, tinha fama de mal-humorado,
de ser muito sério, usava uns cabelos imensos, amarados num rabo de cavalo, uns
bigodes grandes, tinha uns olhos imensos, azuis.
As vezes enquanto esculpia, se perdia
olhando para ele trabalhando. Era muito sério.
Jean-Paul, um dia teve um ataque de ciúmes,
primeiro sua exposição não tinha ido como ele queria, vendeu, mas não tudo,
alguns diziam que ele tinha ficado parado no tempo, que precisava mudar sua
técnica, isso caiu muito mal nele, que via o Jimmy, trabalhando de outra
maneira. Quando viu os dois juntos,
conversando, discutindo uma maneira de esculpir um trabalho como o Jimmy
imaginava, com o Paul, com uma mão no seu ombro o escutando, foi a gota.
Jimmy, andava nervoso, pois não tinha
encontrado ainda a sua maneira de trabalhar, com o material como queria, foi a
conta. Cortou o relacionamento, eu não
te vigio, não gosto que me cobrem coisas, depois nunca assumi nenhum
compromisso contigo.
Quando Jean-Paul disse que a crítica tinha
falado dele, ele tinha sido honesto, acabaste os quadros começados, os
seguintes que fizeste, foi do mesmo jeito, precisas mudar tudo, partir do zero,
a cada trabalho.
Quando tinham voltado do Brasil, ele agora
estava trabalhando em Papel colado em cima de placas por causa do peso do
material que estava usando.
Já tinha sido difícil descer os trípticos
do studio antigo, imagina o resto.
Dizes isso, porque eres jovem, invés de
escutar, se grudou nas aulas que dava na escola de belas artes.
Quando o tinham convidado, ele não tinha
aceitado por isso, era um emprego público, sentia que o pessoal se
acomodava. Paul mesmo dizia isso. Imagina escultura então, que quem compra
basicamente são os governos. Ele também
pintava.
Eu quando ganhei meu primeiro dinheiro,
investi, até ter dinheiro para comprar esse studio, a primeira grande escultura
que fiz para uma praça em minha cidade, foi igual, dinheiro aplicado. Tudo bem
dou aulas, mas olha a quantidade de alunos, o interesse é mínimo, para mim
funciona como uma fonte de ingressos, tinha uma fonte extra, criava pequenas
esculturas, que vendia numa galeria, bem como numa loja de decorações, não
tinha vergonha nenhuma disso.
Não tenho família, ninguém que dependa de
mim, por isso tudo é lucro.
Quando soube do Jean-Paul, pediu desculpas
não sabia que tinham um relacionamento.
Me interessei por ti, quando te vi dado
aquela aula na escola, depois quando fizeste o seguinte trabalho, estou
contente de te ter aqui, gosto de ver como trabalhas.
Um dia que lhe ensinava aonde estava um
erro que cometia, se beijaram, dali o resto foi outra coisa. A grande diferença, era que ele era forte,
tinha um corpo fantástico, adorava na cama quando ele estava de cabelos
soltos. Era como lutar com ondas fortes.
Pela primeira vez tinha um homem como tinha
sonhado. Ninguém era dono de ninguém.
Quando entendeu seu erro, fez todas as
esculturas, em tamanho médio, para ver como ficavam, depois de cozidas, ficaram
fantásticas.
Mas as grandes, aprendeu com ele a fazer
uma parte policromadas. Um dia estava
andando por Marais, sentiu o negro ao lado dele, este o levou pelas mãos, ou
pelo menos sentiu isso a uma sinagoga ali perto. Quando viu estava conversando com um
rabino, que lhe aconselhou e levou para conhecer um mais jovem, contou que
nunca tinha desconfiado que fosse judeu, já que só soube quando sua avó morreu.
Sentia necessidade dessa parte nele,
contou que sua avó ia ao candomblé com sua fiel amiga Lindaura. O outro era inteligente, alguém te trouxe
aqui, é verdade.
Marcou com ele um dia, o levou para se
encontrar com um homem impressionante, já de uma certa idade, era nigeriano,
dava aulas de Yoruba na universidade.
Quando os cinco se encontraram, ele queria
que Vitor tivesse uma participação nisso.
Mas o mais interessante, foi o Negão, se
grudou nesse homem como uma lapa, sentia falta disso um contato com sua
realidade mística, do candomblé.
Tinha os cinco largas conversas sobre
religião. Sempre que se reunião, ele
sentia o negro ali, até um dia que o Matuboune, lhe disse que se fizesse
presente, o espirito colocou o dedo na frente de cada um que passaram a
vê-lo. Agora podia conversar com eles.
Isso influenciou totalmente sua compreensão
do que queria fazer com as esculturas.
Preparou uma como via o Exu, com uma parte
policromada, fez uma menor para colocar na sua casa. Paul começou a ir nos bate papos deles.
Era as vezes desajeitado falando, mas
procurava entender.
Ele acabou fazendo mais esculturas que
pensava, inclusive, fez uma das Três Graças, de índias, com todas as plumas
policromadas.
Os alemães, vieram ver os quadros, bem como
as esculturas no studio do Paul, adoraram, um deles tinha uma loja, viu os
objetos do Paul, lhe fez uma encomenda monstruosa.
Assim se ganha dinheiro disse ele.
Jean-Paul o evitava, nas raras vezes que ia
a escola. Nesse tempo que tinha estado
no studio do Paul, Vitor tinha preparado uma série que ele chamava de raízes,
tinha estudado como Rabino, bem como o professor, uma identidade que
relacionasse as duas religiões, seu trabalho era uma relação disso.
Jimmy, pela primeira vez, sentia falta de
alguém, agora que estava tudo preparado, resolveu complementar, preparou uns
alguidares grandes, todo policromados, no dia da inauguração, teriam frutas
verdadeiras, arrumada pelo Negão, que sabia como fazer, depois seriam frutas em
terracota policromada.
Paul, mostrou numa das lojas, que pediu uma
quantidade desses alguidares, para terem a venda, fazia sucesso.
Era uma bela desculpas para estarem juntos,
a maioria das vezes, Paul ia dormir com ele, outras ele ia a sua casa.
Este ria, que dizia que estava tanto tempo
sozinho, que as vezes se assustava com o Jimmy ao seu lado.
Foram os cinco para Berlin, o André
Rochechouart, iria para a inauguração.
O público, os compradores eram diferentes,
se sobrar alguma coisa, vendo para ti. Disse que o François iria também, claro
que vai querer competir com os compradores alemães, vai dizer para todos que
foi ele quem te descobriu, blá, blá, blá.
Se mataram de rir com isso, de uma certa
maneira dizia o Jimmy, na verdade ele descobriu uma parte do Negão, aí riam
mais ainda.
Este tinha preparado com os da galeria, que
contrataram seu grupo de cozinha, manjares, comidas de santo, servida com muita
caipirinha, cerveja.
A noite foi um sucesso, desta vez ele fez
uma coisa, se vestiu de branco totalmente, com as guias que o pai de santo
tinha lhe dado.
Para os alemães era uma coisa sui generis.
O François mostrava para todo mundo as peças que já possuía dele. Comprou a escultura das três graças, de
índias, nada mais abrir a exposição, o resto se vendeu em dois ou três dias.
Vieram donos de galerias de Londres e NYC,
ao final lhe convidaram para fazerem exposição, mas descobriu que não tinha
sido os alemães que os tinha convidado, mas sim André Rochechouart. Ganhei dinheiro contigo, como fiquei como
teu representante, com os alemães, ganho também, se me contratas como teu
agente, irei trabalhando para ti, ganhas tu, ganho eu.
Ficaram se sentar-se para conversar, como
fariam para expor fora.
Ele não queria de maneira nenhuma se
separar do Paul, era uma coisa importante agora em sua vida.
Bom Londres, tens a vantagem de que podemos
fazer tudo em Paris, mandar de caminhão pelo Túnel, mas o melhor seria antes,
irmos ver as galerias que oferecem, para escolher bem.
Foi quando ficou sabendo que o grande
painel, tinha sido vendido para um Museu de Londres.
Tiraram 15 dias, Negão não podia ir, pois
tinha negócios com seu agora sócio nos negócios de catering.
Foram com o Paul, Vitor, André
Rochechouart, examinaram as de Londres ele gostou de uma imensa, perto da Tate
Modern, embora ainda não soubesse o que ia pintar, nem o que iria fazer.
Depois foram para NYC, Vitor estava
adorando, pois de certa maneira estava conhecendo novas cidades. Lá era mais difíceis, pois a galerias não
eram tão grande assim.
Voltou com a cabeça complicada, mas sem
querer as coisas com ele funcionavam de uma maneira sempre espontânea, o
professor de Yoruba, ia a Nigeria para um encontro de línguas, os convidou, até
o Negão se incorporou.
O professor o apresentou a um velho senhor,
que vivia nas aforas da cidade, numa casa humilde, quando ele chegou, mandou
tirar toda sua roupa, mandou lhe darem um banho de ervas, depois o deixou numa
cabana dedicada a Xangô, não te preocupe, ele vai te mostrar o caminho.
Fez o mesmo com Vitor, bem como o Negão, os
preparou, para seus santos.
Ficaram ali mais de três dias, ele ficou
sem comer ali deitado, na sua cabeça, acontecia uma história, seu Xangô lhe
contava uma história inteira de como tinha surgido sua figura, bem como do Exu
que o acompanhava, na sua cabeça vinham desenhos ancestrais, que ficaram
guardadas em seu subconsciente, tudo isso vai se liberar na medida que
trabalhes.
Ele estava alucinado quando saiu, o homem
primeiro lhe hidratou, depois, lhe deu de comer, ao final se sentou com ele,
lhe explicando tudo, a cada coisas que fazes, colocas um pouco da tua alma, por
isso, as vezes tem essa sensação de vazio.
Deves ir encontrar também tua outra parte a
judia, tu bem como teus irmãos.
Ele achava engraçado isso, o homem
esclareceu, os dois sempre foram irmãos em várias encarnações, daí essa ligação
entre vocês.
Agora vira o inesperado, devem ir a Israel,
lá um homem se aproximara dos dois, vão com eles, representa uma antiga seita
de Israel, oculta no mundo atual. Descreveu o homem para eles.
Quando encontraram o Rabino, bem como o
professor, este disse que iam para Israel, Paul voltou a Paris, pois tinha
trabalho para entregar.
Ele foram juntos, as vezes um olhava para o
outro, sorriam, agora tinham segredos que eram só deles, sabiam que realmente
eram irmãos.
Chegaram a Tel Aviv, o rabino, bem como o
professor, foram ao encontro de línguas que tinham programado.
Os três saíram de passeio, entraram numa
sinagoga muito velha, estavam ali admirando tudo, quando um senhor com umas
barbas imensas, com uma roupa muito velha, se aproximou, estão me esperando e
sendo esperados.
O seguiram, não se preocupem que vossos
amigos serão avisado, que estarão bem.
Foram para o deserto, até que o próprio jeep
que iam entrou numa gruta imensa.
Bem-vindos ao encontro com a fé, os levou
para uma parte mais subterrâneas, ali estiveram com um grupo imenso de velhos, no
meio da rezas, era como se eles fossem recebendo instruções sobre suas vidas,
as imagens que recebia, eram quantiosas, algumas nunca poderiam usar, mas
algumas sim, as representações da autentica essência de deus, que era a ligação
com muitas coisas da língua Yoruba.
Três dias depois alguém os levou a Tel
Aviv. De lá foram para Paris.
Matou as saudades que tinha do Paul, lhe
disse que era um sentimento novo para ele, dormia agarrado a ele, fazia parte
de sua vida.
Começou a colocar no papel, tudo que tinha
em sua cabeça, seu trabalho se transformava em mais gráfico, num mesmo quadro
contava a história dos Orixás, estilizados, era totalmente diferente de tudo.
Tinha idealizado um imenso painel, para o
fundo da galeria, uma sequência, como se a Diáspora africana, tivesse levado
para as Américas seus Orixás de várias maneiras e cultos.
Nas imagens tinha visto como eram
preparados cada um, tinha liberdade para trabalhar isso.
Quando terminou os quadros, se meteu no
studio do Paul, a primeira folia do dia como ele dizia era fazerem sexo, tomar
um banho, caírem no trabalho.
Todas suas escultura eram policromada de
negro, com detalhes em cores, nas tangas de plumas, ou algo a parte, negão
posou para ela, um dia trouxe um homem que tinha conhecido no mercado, este
posou para ele, para fazer Oxalá, pois tinha cabelos brancos, o imaginou como
tinha visto, depois foi ao studio de pintura para o mesmo.
Um dia se levantou de manhã, fazia dias que
não dormia em casa, quando viu o mesmo saindo do quarto do Negão, este soltou,
encontrei minha meia laranja. Por
incrível, ele tinha o nome americano, tinha nascido lá, mas tinha passado anos
na Nigeria. Dava classes de Yoruba para
africanos que tinham perdido suas raízes.
Era professor numa escola pública.
Steve, era uma pessoa divertida, como o
Negão, os dois podiam ficar horas falando de coisas, que ninguém entendia, pois
agora o Negão falava quase todo tempo em Yoruba.
Pediu que ele preparasse um texto para o
catalogo, já que tinha visto todo seu trabalho.
André Rochechouart, tinha visto o trabalho
do Vitor, ia fazer sua primeira exposição em sua galeria. Contou que o François tinha oferecido seu
patrocínio, mas não aceitaram.
Nunca imaginou que fosse ter problemas, mas
este surgiram em Londres, as pessoas como dizia o Negão não o conheciam, pois Jimmy
não gostava de ser provocado, pois depois entrava na briga com ou sem razão.
Como nas noticias diziam que ele residia na
França, mas era brasileiro, o Embaixador, saiu dizendo que o Brasil o
patrocinava, ele desmentiu o homem, nunca tinha dependido do governo de seu pais,
nem vivia lá.
Negão ainda soltou isso vai dar o maior
Sururu, depois teve que explicar o que queria dizer.
O pior foi mesmo mandar uma pessoa pedir
uma obra para colocar na embaixada, por um acaso tinha um jornalista por perto,
quando ele disse ao galerista que nem pensar, tampouco vender, pois era sabido
que o governo brasileiro era dado a calote.
O idiota do Embaixador colocou lenha na
fogueira, tinha mandado saber de quem ele era filho, deu uma entrevista,
dizendo seu nome completo, que era descendente de um ilustre antepassado
brasileiro.
O senhor se engana disse, ele, inclusive
sou judeu, o meu sobre nome nada tem a ver com o poeta, sou um garoto de rua,
que se fez a si mesmo, deixa de encher o saco, antes que o mande tomar no cu.
Isso caiu na boca dos jornais de Londres,
que adoram fofoca, mas também fez com que a inauguração fosse concorrida, todos
queriam uma obra dele, foi tudo vendido, ele não teve conversa foi embora. O galerista ainda disse que a embaixada
tinha mandado um cheque por um dos quadros que não tinha reservado, por
curiosidade, foram levantar o mesmo, não tinha fundos, publicaram isso, mas ele
já não estava lá.
Em Paris, recebeu no seu studio, um cônsul,
que veio tomar satisfação, primeiro perguntou o que ele queria, reclamaram que
nunca tinham recebido nenhum convite para suas inaugurações, como ele podia
renegar de seu pais. Ele mandou o mesmo
reclamar com dono da galeria, ele nunca dizia a quem convidar.
Depois estava estudando, o senhor está me
incomodando.
Bom sua falta de educação, é notória,
quando saiu o negão de cueca de seu quarto, perguntou meu irmão, qual é o
problema. A cara de escândalo do sujeito
era imensa.
Ele examinou bem o sujeito, lhe disse na
cara, sim ele é meu irmão, o senhor com certeza também deve ter irmãos, negros,
porque pelos seus traços, sua família tem um pé na cozinha.
O sujeito saiu batendo a porta.
Ele sabia que as coisas no Brasil não iam
bem, resolveu rapidamente a questão, mandou que todo o dinheiro que tinha para
no banco, fosse transferido para um que tinha ligações, com banco de Luxemburgo,
mandou vender a casa de Santa Teresa, assim liquidava tudo que era seu, o
apartamento de seu pai também, que fizesse o mesmo com as contas dos três.
Pronto cortei qualquer vínculo com essa
merda.
Foi sim passar uns quinze dias de paz, em uma
casa na praia, no sul que tinha alugado, com o Paul. Desligou o celular.
Vitor veio, com a notícia, estou tentando
falar contigo, mas teu celular está apagado, parece que como saiu no jornal as
noticias ao teu respeito, tua mãe botou a boca no trombone contra ti, dizendo
barbaridades, que tinhas roubado a herança que pertencia a ela, etc. Que vivia
de favores na casa de sua irmã em Jacarepaguá.
Mostrou a praia na frente da casa, disse ao
Vitor, já que estas aqui desfruta de tudo isso, porque será noticia 15 minutos,
deixa a coitada ter seu tempo de gloria, para quem nunca saiu em jornais, isso
alegrará seu ego de velha.
Ele não mexeu um dedo para nada. Ela deu todas as entrevistas que quis,
depois caiu no ostracismo outra vez.
Quem sentiu-se incomodada foi sua tia, que
ele nunca tinha conhecido, que reclamava dela, que era uma parasita, ele
respondeu simplesmente, nunca foi minha mãe, a coloque num asilo, que aonde
merece viver. A outra dizia que era
insuportável.
Se negou a falar no assunto, no fundo
ria. Pensava, sua avó nunca tinha se
enganado com as pessoas, ela e Lindaura, deviam estar rindo no céu. Quando comentou com o Negão, esse se matou
de rir.
Tinha convite ainda de NYC, mas não estava
disposto a sair de Paris, pediu inclusive a cidadania, já que pagava os
impostos lá. Aliás fizeram os três,
todos viviam ali, pagavam tudo lá.
Dez anos depois ganhou a medalha das Artes.
Agora trabalhava devagar, se comparava seus
primeiros trabalhos, estes eram suaves em comparação com os atuais, sempre
tinha novidades.
Vitor tinha vencido por si mesmo, depois da
primeira exposição, disse que achava um saco trabalhar assim, gostava de
desenvolver objetos como Paul, sempre ganhava muito dinheiro com isso.
Paul dizia que tinha o filho que sempre
tinha sonhado ter, uma lastima que não aproveitei sua infância, se ele foi como
tu, devia ter dado muitos problemas, riam disso.
Negão, agora era um excelente cozinheiro,
além de viver com seu querido, viviam num apartamento perto. Seus negócios sempre iam bem.
Agora todos os anos, ia a Nigeria, algumas
vezes com o Paul, outras sozinho, se internava na casa do velho, venho
descansar, me recarregar.
Algumas vezes iam os dois, ou com o Vitor a
Israel, ia a velha sinagoga, para ver se os seus amigos apareciam, mas isso
nunca mais aconteceu. Nunca se atreveu
a perguntar pelos mesmo, deixou a vida correr.
Algumas vezes dava aulas a convite na École
de Beaux Arts, mas com fixo, nem pensar, se cruzava com o Jean-Paul, agora se
falavam, ele seguia igual, uma vez soltou que tinha voltado a produzir por se
sentir insuflado por ele, mas que agora produzia pouco.
Vitor tinha ganho um premio de criação de
objetos, foram todos com ele, afinal eram família.
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