E AGORA JOSÉ
Tinha saído de Paris de noite, embaixo de
neve, eram as primeiras de dezembro, ele se lembrava bem quando chegou a cidade
na mesma época a uns dez anos atrás, vinha com uma bolsa de estudos para
estudar na École de Beaux Arts.
Tinha algum dinheiro no bolso, tinha feito
sua primeira exposição em La Petit Galerie em Ipanema, com sucesso, ao mesmo
tempo tinha participado de um concurso para uma bolsa de estudos. Então contra tudo e contra todos, tinha-se
mandado. Se lembrava nitidamente que
estava morto de frio, entrou em um bar, pediu um capuccino para esquentar.
Apesar do frio, estava deslumbrado, eram
cinco horas da tarde, tinha andado o dia inteiro pela cidade, o hotel que
estava era pequeno, lhe tinha avisado que essa época, as imobiliárias estariam
fechadas, mas ele não se incomodou.
Evidentemente quando trocou todo o dinheiro que tinha, esse se reduzia
pela diferença do câmbio. Mas claro era
o bilhete mais barato que tinha conseguido.
Já me apanharei, pensou.
Agora dez anos depois, era conhecido, suas
exposições vendiam bem, embora alguns críticos criticassem que tinha perdido as
cores maravilhosas que tanto gostavam, mas na verdade ele também tinha mudado, já
não tinha nada do garoto mimado, o que vivia num dos lugares mais bonitos do
Rio de Janeiro, no Jardim Botânico, ao lado do Parque Lage.
Seus amigos, eram os garotos ali da rua,
que iam com ele a escola, mas tinha dois que esses além de melhores amigos,
eram pau para toda obra.
Foi com eles que escapou a primeira vez a
Escola do Parque Lage, aonde havia uma mistura de artistas, vindos de todos os
lugares, com referencias diferentes, ele olhava aquilo tudo como que
deslumbrado, já naquela época pensava, quero ser assim.
Nesse dia levou uma surra de fazer gosto do
seu pai, lhe proibiu de ir a esse lugar, decadente.
Nessa noite pensou que a ele gostava essa
decadência. Falou com sua avó, que era uma mulher sabia, nas
férias ela o colocou numa aulas de desenho, com um professor especial, na hora
que ela disse isto, ele não entendeu, levaria anos para isso. Se referia que ele era gay.
Para surpresa, ele logo se destacou, seus
amigos não gostaram muito, ele faltava agora na hora da pelada, sem ele no gol,
perdiam. Jogavam ali na rua mesmo, o
tráfego era pouco.
Seu pai quando descobriu, ficou uma fera,
mas isso era para boi dormir, pois sua avô chamou seu filho a parte lhe disse,
pelo mesmo ele fica fazendo uma coisa boa, invés de estar jogando pelada com
esses meninos na rua.
Mal sabia ela que ele tinha descoberto seu
mundo, o que ele queria ser no futuro, desse curso passou por outros, aprendeu
técnicas, fez várias coletivas, sempre se sobressaia com seu estilo próprio.
Procurava nunca abandonar os amigos, os
dois, o José, o pivete do Marcus Azambuja.
Ele era conhecido por J. Arimathea, mas
seus quadros, assinava como J. Athea.
Seu pai morreu um ano antes dele ir embora,
sua mãe o queria prender de qualquer jeito, pois sua irmã, já estava casada com
um tipo rico, viviam em Ipanema. No
apartamento imenso que viviam, uma cobertura, duplex, só ficaram ela, além da
babá, a Deolinda já estava na casa quando ele nasceu, foi ela na verdade que o
criou.
Quando a mãe morreu, ele veio como um
louco, pois tinha agendada uma exposição para vinte dias depois, lhe faltavam
dois quadros para terminar.
Fez o mesmo voo que este, saiu de madrugada
de Paris, para chegar no Rio de manhã, tomar um banho, ir para o enterro ali no
São João Batista.
Deolinda o abraçou como sempre fazia,
falava mais com ela que com sua mãe, as vezes quando chamava, ela nunca estava,
tinha saído para jantar, ou jogar bridge com as amigas. Sabia que ele ia chamar, mas não se
importava.
A leitura do testamento foi interessante,
na verdade era um adendo ao testamento do pai, ele deixava o apartamento para o
filho, bem como dinheiro no banco. Sua
mãe nunca tinha tocado nessa parte. A
irmã, não lhe tocava nada, pois ele tinha dado sua parte quando se casou.
Esta ficou uma fera, era cinco anos mais
velha do que ele, nunca tinham se dado bem.
Ele pediu para a Deolinda ficar vivendo lá,
assim tinha alguém que seguiria tomando conta da casa. Esta depois dizia que sua irmã sempre
aparecia para buscar alguma coisa da casa, mas sabe anoto tudo. As vezes mencionava alguma peça, mas ele nem
se lembrava do que era.
O quarto de sua mãe, tinha ficado fechado,
Deolinda guardava a chaves na cintura.
Sabia que sua irmã iria passar a mão nas
joias da mãe.
Agora o advogado o tinha chamado de
surpresa, disse que só tinha descoberto dois dias depois, quando a jovem que
vinha limpar o apartamento, visto a Deolinda não ter mais idade, a tinha
encontrado sentada na sua poltrona favorita, um tiro perdido vindo do morro
atrás a tinha matado, avisei a tua irmã, que apareceu já querendo as chaves do
quarto da tua mãe, mas faz tempo que a senhora Deolinda, me tinha dado para
guardar, foi necessário a polícia a conter.
Mas não quer deixar que a senhora Deolinda
seja enterrada no mausoléu da família.
Ele desceu do avião pensando nisso, como
sua irmã podia ser uma pessoa assim, tratava sempre os empregados como
ralé. Ele riu, nunca tinha sido um modelo
de garoto, adorava ou estar desenhando, ou jogando bola com os amigos na rua, a
maioria eram filhos de empregadas das casas ali dos ricos. Eram seus amigos, lhe importava uma merda se
eram ricos ou pobres.
Ele quando o dinheiro acabou viveu muito
tempo num quarto miserável, trabalhando como ajudante de cozinha de um barco
para turistas no Rio Senna. Até ter
sua primeira oportunidade, foi duro.
Mas tinha vencido, agora tinha seu próprio ateliê,
em Montmartre, grande luminoso, num canto tinha uma cama imensa, que se jogava
com algum amante. Nunca soube por que, seus romances nunca
passavam de uma noite. Tinha descoberto
o sexo, com seus dois amigos, ali no meio da mata da floresta, nos caminhos que
subiam por dentro para o Cristo Redentor, quantas vezes não subiram até lá.
Tinha feito sexo com os dois, os adorava.
Entrou no Taxi, dando o endereço para o
motorista, teve que lhe explicar que teria que sair do Túnel Rebouças, pegar a Rua
Jardim Botânico, pegar a Rua R.J.Carlos, para depois entrar na rua Maria
Angélica, quando disse isso, o homem teimou que era em Ipanema ou Leblon. Ficou bravo, disse ao mesmo, o senhor acha
que estou enganado, com a rua em que nasci e cresci.
O tipo calou a boca, viu que não era um
turista, apesar de estar muito branco, com os cabelos compridos, largos, uma
mistura de loiro com brancos, ainda sujo de tinta em alguns lugares, olhos
azuis, além de um casaco de inverno nos braços.
Tinha avisado o advogado, mas nem se
lembrava que o mesmo agora estava mais velho, por sorte morava ali perto na
Lagoa Rodrigo de Freitas.
Quando chegou este estava na portaria do
edifício. O abraçou como fazia sempre, o
conhecia desde garoto.
Passou a mão pelos seus cabelos, aonde
estava sujo de tinta. Nem tive tempo de
tomar um banho, joguei alguma roupa de verão na bolsa, corri para o aeroporto.
Tinha vindo em classe executiva, pelo menos
era mais confortável, pois suas pernas eram imensas, tinha 1,90 metros de
altura.
Menino, segues como sempre, essa tua cara
bonita, bateu com as duas mãos.
Venha vá tomar banho, trouxe pão, acredito
que tenha café na cozinha, depois vamos para o cemitério, o velório é lá. Ontem a noite quando passei, estava lotado,
consegui com um juiz, autorização que ela fosse enterrada com tua família,
afinal, ela estava nessa casa, desde os quinze anos de idade.
A Deolinda, não era nem mulata, negra, nada
do gênero, era uma garota vinda do nordeste em busca de um emprego. Nunca se casou, foi babá de sua irmã, depois
dele, cuidou da casa sempre, do seu pai até morrer, bem como de sua mãe, nem
sua irmã fazia isso.
O advogado disse que ela sequer tinha
aparecido depois que ele se negou a dar as chaves do quarto de sua mãe. Como sempre interesseira.
Ele tomou um banho, procurou no seu quarto
uma camiseta velha, para colocar, nem bermuda tinha, para sua surpresa, ainda
lhe serviam.
Sentaram-se para tomar café, o advogado
disse que tinham que falar.
Quando ganhou seu primeiro dinheiro em
Paris, se consultou com ele. Se devia
mandar o mesmo para o Brasil. Ele tinha
muitos clientes que viviam lá e cá.
Nada disso, pagaras imposto aí, e aqui, o
dinheiro já chegara mais curto. Lhe deu
um número de telefone, de um senhor amigo dele, que vivia em Luxemburgo, quando
a cada exposição, ganhava mais dinheiro, pois seus preços iam subindo, ele pelo
menos 60% mandavam para lá, esse homem ia aplicando para ele, gerenciava essa
parte para ele. A cada dois meses, lhe
mandava através da internet, os valores aplicados, o dinheiro que tinha
ganho. Ainda era assim hoje em dia.
Sabia que o fundo que tinha no Brasil, ele
nunca tinha mexido no mesmo, era para pagar os gasto do apartamento, bem como a
Deolinda. Ela reclamava, se quase não
gastava nada, vivia de graça, que mais queria na idade dela.
Procurou uma roupa que não fosse chamativa
no armário, cheirava um pouco a naftalina, mas isso depois ele resolvia.
Se arrumaram foram para o cemitério, ficou
impressionado com a quantidade de gente que tinha por ali, principalmente
mulheres, da mesma idade dela, algumas ele reconheceu por trabalharem nas casas
vizinhas.
Muitas vieram falar com o menino Arimathea,
ele sorriu com isso, já não se lembrava que Deolinda o chamava assim.
Algumas o beijavam, dizendo obrigado, ela
merecia isso, era uma da família. Era
uma verdade, se sentava na mesa para comer como todos, mas evitava fazer quando
vinham sua irmã e o marido. Eles não
tinham filhos.
Depois de tudo, foi com a advogado ao seu
escritório em Ipanema, na Rua Visconde de Pirajá.
Antes tinham ido almoçar, o comentário
dele, nunca vi tantas senhoras juntas.
Claro era as que como ela trabalhavam no
bairro, algumas hoje devem viver mal, pois a maioria me falava da sorte dela
estar até hoje na casa da família para quem tinha trabalhado.
Se esquecem que a Deolinda, foi mais minha
mãe, que a minha própria, que estava sempre almoçando com as amigas, em algum
jogo de Bridge, ou coisa parecida.
Ela me pediu para te dar essa carta, a
algum tempo atrás, com a história de sua irmã, ela me convenceu de fazer uma
coisa, tinha visto num filme, não sei se sabes, seu prazer era ver cinema na
televisão. Fui com ela ao banco, alugou
uma caixa, guardou tudo que era da sua mãe ali, bem com coisas dela, não sei o
que é.
Mas deixou essa carta, com uma autorização,
bem como as chaves para ir ao Banco.
Era muito inteligente, lastima que não pode
estudar.
Uma vez que fui ver se estava tudo bem, me
mostrou teus primeiros desenhos, dizia, meu menino, é um mestre, olhe estas
cores, eram desenhos teus, na floresta, pássaros, tudo o que vias por ali,
alguma flor, algo que te atraia a atenção.
Isso ela dizia que tinha bem escondido no
quarto dela, nunca deixou de usar as dependências de empregada, sempre vivi
aqui me dizia, tinha um quarto uma pequena saleta, banheiro que dava para a
área de serviço.
Depois começaram a falar do dinheiro, nesse
pais sabes como é, procuro nunca tocar no teu dinheiro, pago os impostos do
apartamento, tudo que com leva isso.
Água, luz, gás, o condomínio, alguma avaria do edifício. Isso tudo está em dia, o que fiz, foi tirar
uma parte do dinheiro da tua herança, uma parte sempre ficou aplicada no banco
do Brasil, a outra aplicava a parte para pagar tudo. Ele todos os anos mandava um relatório para
Paris.
Deves ter-te cruzado com o que te mandei,
está tudo aí.
Há uma boa oferta de compra do apartamento,
um vizinho viu o que tinha acontecido, perguntou se estava a venda, fui me
informar do preço, nunca desvalorizou, apesar de precisar de uma boa obra, segue
tendo um valor alto.
Na verdade Dr. Alfredo, terei que pensar,
não posso me queixar da minha vida em Paris, mas estou um pouco cansado de
tudo. Vou tirar umas férias, para me
colocar em dia aqui, escapar do inverno, normalmente nessa época alugo uma casa
no sul, para seguir pintando. O frio de
Paris, depois dos dois primeiros anos, que me encantavam, agora me pesam, a
cidade parece estar sempre cinza.
Não ia dizer que se tinha apaixonado pela
primeira vez, que tinha levado na cabeça, pois o sujeito era um sem-vergonha. Só não conseguiu uma coisa, levar
dinheiro. Mas tinha roubado um quadro,
vendido o mesmo por um bom dinheiro, desaparecido.
Por isso tinha fechado o studio, com muito
cuidado, colocado várias fechaduras, se queriam entrar chamariam atenção, pois
tinha colocado um sistema de alarma. Um
amigo seu iria sempre olhar.
O banco era ali perto, mas pensou, para que
pressa, estou é precisando olhar o mar.
Depois iria para casa, descansar. Saiu andando pela Visconde de Pirajá, precisava
comprar umas camisetas, umas bermudas, o cheiro de naftalina era muito forte.
Por sorte se deu conta na primeira loja,
que só tinha euros, a senhora, lhe disse aonde trocar, voltou para pagar,
depois se deu conta, podia pagar com cartão de credito, isso usou para pagar
umas sandálias que tinha comprado, bem como um tênis.
Estava perdido, nem sabia como voltar para
casa dali. Tomou um taxi, disse a direção, o sujeito como sempre, gringo, lhe
disse que deveria ter ficado em algum hotel da orla, que era melhor, quando
chegaram na Rua R. J. Carlos, disse que descia ali, foi subindo, era como se
visse pela primeira vez as coisas, as cores, pouco tinha mudado, quando estava
quase chegando na curva do seu edifício, viu um carro da policia parando, imediatamente
reconheceu o Marcus Azambuja, pela maneira de andar. Gritou seu nome, ele se girou, não deu mostra
de reconhece-lo, de repente se voltou, saiu correndo em sua direção.
Seu filho da puta, foi logo dizendo, esses
anos todos sem noticias tuas, se não fosse Dona Deolinda, nem saberia se
estavas vivo ou não.
Não parava de falar, ele ao contrário
estava de boca aberta, tinha se transformado num homem impressionante.
Que fazes por aqui?
Vim ao enterro da Deolinda, uma bala
atravessou as janelas, a matou vendo um filme na televisão.
É o que vim ver por aqui, ontem aconteceu
isso de novo. É sempre a mesma coisa,
alguma briga entre os traficantes. Nem
imagina que é o manda mais nisso tudo?
Nem lhe deu tempo de pensar, o filho da puta do José. Virou traficante de drogas.
Olha depois de atender isso, posso ir até
tua casa. Tens cerveja na geladeira.
Não acredito.
Não se preocupe, dou um jeito, quero falar
muito contigo.
O viu entrar, notou que estava excitado,
sem querer se lembrou que nos últimos anos, subiam os dois escondidos para
fazer sexo. Riu, imaginando, como éramos
ingênuos.
Subiu rindo para si mesmo, que tempos
aqueles pensou, mas era impressionante o homem que ele tinha se transformado.
Começou a examinar o apartamento todo,
realmente precisava de uma reforma urgente, com isso se lembrou da carta da
Deolinda.
Abriu, meu menino, sempre o tinha chamado
assim, sabes o quanto te quero, esse dinheiro todo que mandas me entregar é
muito, com ele tiro uma parte para ajudar as amigas que de uma hora para outra,
pela idade ficam sem emprego, nunca tiveram carteira assinada como eu, tenho
uma pequena aposentadoria, elas não, então tomei a liberdade de usar o teu
dinheiro para isso, lhes digo que quem mandas es tu.
Por isso, o abraçavam tanto. Teria que
continuar com isso.
Eu anoto tudo num caderno que está no meu
quarto, se puderes siga ajudando.
Você foi o filho que eu não tive, por isso
sempre te cuidei como se fosse meu, tua irmã caçoava dizendo sempre, aonde está
seu filhinho.
Sei que ela quer as joias da tua mãe, pois
os dois não andam bem de dinheiro, por isso falei como advogado, colocamos
nesse lugar estranho do banco, tinha visto isso num filme.
Coloquei também os documentos que achei no
quarto da tua mãe, como estavam fechados, não abri. Talvez eu nunca mais te
veja para te abraçar, pois se estas com esta carta, significa que já
morri. O quarto de tua mãe, tem as
janelas cheias de tiros. O Marcus
Azambuja, disse que devia colocar vidros a prova de bala, mas dizem que custa
uma fortuna.
Ele sempre pergunta por ti, lhe mostro os
catálogos que mandas sempre de tuas exposições, ele solta logo, esse
sem-vergonha sabia o que queria fazer da sua vida. O mais triste para mim é o que aconteceu com
o José, se meteu com quem não devia, agora vive do tráfico de drogas, nas
montanhas aí atrás. Se a mãe dele fosse
viva, lhe daria um belo corretivo, era uma mulata linda, se meteu com um chefe
das drogas do morro, levou o garoto com ela, agora vejam, aonde acabou.
Agora entendia o que tinha acontecido com o
José. Ele quando falavam do futuro,
sempre dizia que seria rico, nenhum patrão ia mandar nele, os ricos iam comer
da sua mão.
Já o Marcus, queria ser policial, como seu
pai que era Inspetor de Polícia numa delegacia ali de Botafogo.
Leu até o final, tudo que está no banco é
teu, decidas o que decidas.
Beijos Deolinda.
Era interessante, realmente via sua mãe
sair sempre bem-vestida, com joias em conjunto, gostava de presumir. Tinha dois carros na garagem, um de seu pai,
outro era o dela. Quando seu velho
morreu, vendeu o dele, lhe deu o dinheiro, ele comprou um jeep, aonde iam os
três a Ipanema, para surfar, com um pouco de dinheiro, além de um quadro que
tinha vendido, compraram pranchas de segunda mão.
O melhor era o Marcus, esse aprendeu rápido,
uma vez no final do dia, ficaram conversando sobre o futuro, de mãos dadas,
deitados na prancha, esperando uma boa onda.
Contou para ele o que ia fazer, que tinha
se candidatado a uma bolsa de estudo, estava esperando a resposta, se consigo
me sair bem nessa exposição, terei algo de dinheiro para começar. Na verdade só deu para alugar um lugar
velho, fedorento, aonde usou sua imaginação, para colocar cores nos
quadros. Um inclusive era o Marcus,
saindo de um mergulho, com seus cabelos cacheados, nunca tinha se esquecido
disso, tinha o desenho ainda no studio de Paris.
O quarto de sua mãe era o maior da casa,
tinha um vestidor, um luxo para aquela época, um banheiro grande, além do
quarto em si, ficava justo na curva do edifício, por isso recebia mais luz que
os outros, realmente as janelas estavam cheias de buracos de tiros.
Uma delas inclusive estava fora de prumo,
teria que ser trocada.
O papel de parede de branco estava cor de
sépia, de tão velho, depois foi olhar o quarto do seu pai, era a mesma coisa, a
cozinha precisava inteira ser renovada, bem só estava o quarto da Deolinda que
estava pintado de branco, como limpo.
Resolveu dormir lá esta noite.
Estava completamente fora do ar, quando
chamaram pelo interfone, ele nem se lembrava aonde ficava, sua cabeça deu um
estalo, ao lado da geladeira, off course.
Era o Marcus Azambuja, que entrou sorrindo
no apartamento, lhe deu um abraço interminável.
Que saudade velho amigo.
Ficaram se olhando nos olhos, estamos mais
velhos, é verdade.
O beijo que se seguiu foi largo, não
queriam se mover do lugar para não quebrar o momento.
Os dois estavam superexcitado, acabaram
fazendo sexo ali mesmo no chão da sala, sem dizer sequer uma palavra.
Quando começaram a falar, foi tudo ao mesmo
tempo, a saudade, a falta de notícias.
Eu sabia que ias embora, mas nunca imaginei
que fosse na surdina.
Se viu contando para ele, que por falta de
vivência, pensou que ia chegar, encontrar meios para viver, sobreviver, ser
descoberto, acontecer. Essas coisa que
brasileiro sonha, vou chegar arrasando, nada disso. Imagine, eu que nunca lavei
um prato, me vi de repente trabalhando de noite num Barco, lavando prato,
fazendo qualquer coisa para ganhar dinheiro para pagar o quarto que vivia,
pintava, tudo isso, durante o dia fazia a École de Beaux Arts, depois pintava,
saia pelas galerias mostrando meus trabalhos, o maldito catalogo da exposição
do Brasil, até que um dia, um ano depois, já estava desistindo, entro numa
galeria, tem um senhor mandando colocar moldura num quadro que tinha comprado
no Brasil, o da galeria elogiava o pintor, interrompi cheio de vergonha, falei
que era meu. Eu já tinha ido várias
vezes lá. Mostrei o quadro no meu catalogo, que ele nunca sequer tinha visto.
Ficou com cara de tonto, o dono do quadro,
sorriu dizendo, que os franceses era assim, tontos, creiam que eram os reis do
mundo, mas que no fundo era uns idiotas.
Perguntou se eu tinha outros trabalhos, eu
disse que sim, mostrei as fotografias, me perguntou o que eu fazia, lhe contei,
nunca tive vergonha de ser quem sou, ele riu, disse que queria dois, me
perguntou se podia fazer um retrato da mulher dele, pois ela amava o quadro que
ele tinha comprado no Brasil.
Saiu me arrastando, me levou a um belo
apartamento, sua mulher estava sentada numa cadeira grande, levei um tempo para
entender que era paralitica.
Ela me disse que o quadro a
emocionava. No dia seguinte fui para
lá, com uma tela grande, comecei a esboçar o que ia fazer, ela me dizia que
adorava os pássaros.
A desenhei no meio da nossa floresta, cheia
de orquídeas, de beija-flores, ela ali sentada no meio disso tudo, como uma
criança, que eu imaginava, quando viu o quadro pronto, ria muito, pois sonhei
muitas vezes com isso, desde criança.
Foi o chute que eu precisava, o quadro hoje
ocupa uma parede do imenso apartamento desse homem, foi meu mecenas, quando viu
o lugar que eu vivia, disse que era impossível viver ali, me levou para o
apartamento que hoje é meu, era de sua família. Quando ela morreu, me deixou um pouco de
dinheiro, como dizia, para triunfar.
Fiz minha primeira grande exposição, com tudo que tinha na cabeça, foi
genial, as cores das quais eu sentia saudade, inclusive tinha um quadro teu, hoje
só tenho um desenho do mesmo.
Aonde está o quadro?
Num museu da Alemanha, sentia muita falta
das nossas conversas, te lembras, quando ficávamos esperando a onda perfeita
como falávamos, de mãos dadas, quando o José não estava, era como se fossemos
namorados. Quando ele estava junto, não
parava de falar em sexo, queria pertencer aos dois, logo empinava aquela bunda
morena dele, pedia para ser penetrado.
Como éramos tontos. A pouco tempo quase me matou, me olhou com um
ódio imenso, pois quando foste embora, ele foi o último a saber, sem querer
soltei que tinha me contado teus planos, ficou uma fera, mas depois se ria,
mofando de mim, sempre o amaste como um idiota, mas ele quer outra coisa.
Isso eu sabia, tu nunca escondeste teus
sonhos. Tens alguém por lá.
Não, nunca dei certo com ninguém, a pouco
tempo atrás me meti numa confusão, mas depois analisando, sabia que tudo era
carência afetiva.
Tenho sim uma grande amiga, que é minha
agente, uma negra maravilhosa, uma pessoa incrível, ela é do Benin, é minha
vizinha também, ela me avisou desse sujeito.
O mundo nunca é perfeito, verdade.
E tu, tens alguém?
Ele riu, eu quase casei, com uma
companheira, mas um dia ela me disse uma coisa que fiquei impressionado, que eu
com todo meu tipo de macho, na cama era como um garoto, procurando seu
amiguinho com quem aprendeu a fazer sexo.
Eu gelei, fiz a famosa pose de ofendido,
rompemos, mudei de delegacia, foi quando vim para essa zona.
Não sei o que fazer, se levantaram os dois
nus, segurando a mão um do outro, lhe mostrou o quarto de sua mãe, veja esse o
tiro, chegou a tirar a junta da janela de lugar.
Se fico vou precisar reformar esse
apartamento, pensava em transformar esse quarto em meu studio.
Aonde moras agora Azambuja, sempre o tinha
chamado assim.
Fala meu nome de novo, como fizeste antes,
na minha orelha.
Ele ria, moro no mesmo lugar, mais abaixo,
no apartamento com minha mãe, meu pai, um garoto que o velho um dia apareceu,
dizendo que era seu filho.
A velha adora o garoto, aliás eu também,
ele vai adorar te conhecer, vive para desenhar.
Estou morto de fome, aqui não tem
nada. Tenho colocar meu carro para
funcionar, o advogado disse que está na garagem. O outro minha irmã levou, para vender é
claro.
Sabe 10 anos fazem diferença, muitas coisas
que conheceste, já não existe mais.
Mas vou te levar pelos lugares que ainda
frequentamos, em Ipanema.
Ele tomou outro banho, agora junto com seu
amigo, o único que nunca tinha esquecido, lhe disse que quando ia subindo, o
viu sair do carro, sempre tiveste uma maneira especial de andar, sabia que não
me engana, quando vi já estava te chamando.
Eu olhei para trás, não podia acreditar,
mas quando olhei de novo, meu coração parecia explodir, queria sair correndo,
te dar um beijo. Imagina um inspetor
chefe, fazendo isso na frente de seus homens.
Fizeram mil perguntas, tive que contar que
eras um antigo amigo, que tinha vindo para um enterro. Falar nisso, minha mãe deve ter-te visto,
pois foi ao enterro, se dava bem com a Deolinda. Pedia sempre para nos vigiar.
Era uma mulher especial, essa era a
verdade, se pudesse saber quem atirou, matava.
O pior meu amigo, junta as pontas das
balas, mas todas foram roubadas da polícia, ou do exército, não se pode acusar
ninguém.
Venha, estou com minha moto aqui, lembra,
esse era meu sonho naquela época, ganhar dinheiro para ter uma moto. Essa é a segunda, a anterior, destruí numa
corrida louca atrás de um bandido, um tal de José.
Mas o desgraçado tem sorte, diz para todo
mundo que tem corpo fechado.
Deolinda escreveu que ele acabou nesse
lugar, porque seguiu sua mãe que se juntou com um traficante.
Sim é verdade, dizia que estava cansada de
esfregar o chão na casa de ricos, ela era muito bonita, esse homem ficou louco
por ela, lhe montou até uma casa, em Botafogo, ela queria que ele fosse a
universidade, mas o sem vergonha, adora uma cheirada. Dizem que é o traficante que mais consume
drogas.
Foram de moto até Ipanema, tiveram que
esperar um pouco para descer da mesma, estavam de pau duro. Riram como faziam.
Adoraria fazer surf, eram bons tempos.
Tenho nossas pranchas, guardadas na garagem
de casa, o meu irmão vive gozando, pois diz que elas me denunciam.
Passaram todo o final de semana falando,
contou toda sua vida em Paris, os primeiros invernos, que adorava ver a neve,
mas que hoje odiava, ia para o sul, na casa de um amigo, que lhe emprestava, não
dá para nadar, a água está mais fria, nem fazer surf, não tem ondas para isso.
O ano passado fiz uma exposição em Berlin, era
outono, adorei, mas quando chegou o inverno, com dias tão curtos, arrumei tudo,
voltei para casa.
Começou a rir, já nem sei qual a minha
casa.
Procurei esse tempo todo um porto seguro,
sinto isso agora que estou contigo.
Tu com este tipo todo, deve ter mil
namorados, verdade.
Mas da mesma maneira que contigo, uma noite
nada mais. Pior fico procurando uma
pessoa parecida contigo.
No domingo de tarde, Azambuja tinha pedido
a um mecânico, que trocou a bateria do jeep, depois foram buscar as pranchas, a
mãe do Azambuja apareceu, eu logo imaginei, te vi no enterro, mas eram tantas
senhoras falando contigo, eu queria avisar o Marcus, mas como sempre seu
celular está ocupado.
Saiu um garoto, não podia negar que era
filho do velho, era a cara do Marcus na mesma idade.
Ah o grande pintor. Um dia a dona Deolinda me mostrou os
catálogos, sempre os tinha ali ao lado do seu cadeirão. Gostei demais, mas o velho não quer que eu
faço o parque Lage, diz que tem muitas drogas por lá.
Vais montar studio aqui, era como o
Azambuja falando, tudo muito rápido.
Ele começou a rir, eres igual ao teu irmão,
sempre falando mais rápido do que pode, sem respirar.
Vens surfar com a gente?
Com velhos, nem pensar, ria ao falar isso,
piscou um olho, disse aproveite, ele sempre te adorou. Tem no quarto dele, uma foto dos dois no
Arpoador.
Foi como recuperar uma parte dele mesmo,
perdida nas suas lembranças, em determinado momento, suspirou, pois se lembrou
dos papos que tinham ali, pelo uma coisa podia dizer, tinha vencido.
Na semana seguinte, arrumaram seu quarto,
pois estava cansado de dormir no chão, Azambuja chegava em casa cansado.
Foi a primeira coisa que mandou arrumar,
pintar tudo de branco, comprou uma cama grande para os dois. Não conseguia
imaginar parar de fazer sexo com ele.
Quando lhe contou que tinha estudado
direito, ficou pasmo.
Porque não foste trabalhar de
advogado. Tudo que me aparecia, era
para ser advogado de bandido, me nego a isso.
O apresentou seu, que disse que precisava de um ajudante.
Tira uma licença, se gostas, preciso de
alguém para tomar conta das coisas do Arimathea.
Encomendou as putas janelas de vidro a
prova de bala, os colocou na sala, bem como no quarto de sua mãe, o resto não
tinha problemas.
Um dia tinha ido ao centro para comprar
material para trabalhar, tinham lhe dado endereço de uma livraria que poderia
conseguir material, tinha sido um ledo engano, vinha subindo a rua, quando
sentiu atrás dele.
O filho da puta voltou, era o José, ficou
impressionado, era um belo homem, mas se via que as drogas lhe começavam a
fazer efeito.
O ia abraçar, mas ele fez sinal indicando
que não estavam sozinhos.
Soube que estava aqui, sinto o da Deolinda,
era uma mulher fantástica.
Avisou a minha mãe da besteira que fazia,
mas não lhe escutou, acabei metido nisso até o pescoço.
Já sei que estas vivendo com o Azambuja,
que deixou a polícia. Posso aparecer uma
noite para ver os dois?
Sim, podes, me avisa, assim teremos comida,
eu passo mais tempo trabalhando que outra coisa.
Acabo de ir à cidade comprar material, nada,
como nosso pais é pobre nisso.
Claro, te acostumaste ao bem bom de Paris,
vai ser difícil.
Subiu, telefonou a loja que comprava
material, pediu que mandasse material para ele, lhes deu o número de seu cartão
de crédito. Mandariam no primeiro voo, pode
ser que saia essa noite te avisamos.
No dia seguinte, foi com Flavio, que agora
fazia aulas com ele, o garoto tinha um traço impressionante.
No carro foi falando, ele sempre lhe dizia,
respire, porque senão não te entendo.
Com o Marcus, não tens dificuldade, aliás
quase não devem falar, outro dia entrei pela cozinha como me mandaste fazer, queria
desenhar, vi os dois fazendo sexo, fiquei com uma puta inveja, espero um dia
encontrar alguém que seja assim para mim.
Já tinha alguns trabalhos, feitos com o
material que ainda tinha em casa, mas era necessário mais coisas.
Encheram a Jeep, que inveja soltou o
Flavio, conseguir bom material aqui é quase impossível.
Nem pense, quando comecei a trabalhar em
Paris, mal tinha dinheiro para comprar material, significava deixar de tomar o
café da manhã ou almoço, por sorte jantava aonde trabalhava.
Mas porque não pedias dinheiro para tua
mãe.
Significaria que eu não estava vencendo por
mim mesmo.
Vais preparar material, vamos levar juntos
na galeria que me lançou. Vamos ver como
nos saímos.
Ele estava refazendo o quadro, agora como
rosto que via ao acordar de manhã, ou quando Marcus estava sentado ou deitado
em cima dele.
Pensava como pude ser tão tolo, o que eu
queria estava aqui, mas meus sonhos atrapalharam.
Sem querer verbalizou isso alto, o sábio
garoto, respondeu, podia ter não dado certo, vocês eram jovens demais.
De aonde tiras tu essas coisas?
Olha quando sabes que eres só parte dessa
família, sei que me querem, o velho me salvou, minha mãe era uma puta, já
morreu, mas ele quando soube me levou para sua casa, não escondeu nada. Madrinha, olhou para mim, disse que eu era o
Marcus na mesma idade, não precisava mais, me quis desde esse momento. O velho é que é duro, Marcus diz que ele
sempre foi assim, incapaz de um carinho.
Mas ele ao contrário, já viste como é comigo, me abraça, sempre me dá
força. Agora então que parece outra
pessoa, com tua volta, trabalhando no que sonhou, então que mais se pode pedir.
Os dois trabalharam como loucos, colocaram
tudo na jeep, tinha se esquecido já do José, foram a galeria, o velho quando o
viu, riu muito, não me diga que estas aqui outra vez, tenho todos teus
catálogos.
Primeiro mostrou os trabalhos do Flávio,
ele foi separando, colocando ao longo da parede, balançava a cabeça, muito, bom
uso das cores.
Depois quando viu o seu, riu muito,
recuperaste tuas cores, nada como voltar a mãe pátria.
Riram com ele. Sabe o cliente que te
descobriu, me mandou uma foto do quadro que fizeste da mulher dele, nada podia
ser mais puro.
Quando marcamos exposição, os dois juntos,
ou separados.
Ele tem mais quadros do que eu, devíamos
lançar o garoto por todo o alto, lhe deu o número de sua casa, não tenho
celular, nem em Paris tinha. Odeio essa coisa tocando quando estou trabalhando.
Ia pedir para sua agente mandar uns quantos
quadros que estavam prontos lá.
Lhe explicou como embalar, assim tinha
desculpa de atrasar.
Ajudou o Flavio no que podia.
Montaram juntos o catalogo, Azambuja disse
que ia acabar ficando com ciúmes.
O dono da galeria, adorou tudo, fizeram
entrevistas como Flávio, para a televisão, ele soltou no meio de uma
entrevista, tive a sorte de conhecer uma pessoa que venceu lá fora, que teve o
cuidado de me ensinar, me orientar, pinto em seu studio.
Todos queriam saber quem era, mas o diretor
da galeria, cortou o assunto, já saberiam.
No dia da inauguração, os pais dos dois,
estavam eufóricos.
Estava lotada, ele saiu para respirar, deu
de cara com o José, olhando os quadros, soltou na cara dele, não mudaste nada, imagina
o garoto fino, jogando futebol com os pivetes da rua, subindo a mata, fazendo
sexo com os dois amigos, sempre foste único.
Nunca te preocupas com o que vais arrastando pelo caminho. Esse garoto que se cuide, é melhor que você
na idade dele.
Será que o vais abandonar pelo caminho?
Primeiro ficou ofendido, mas parou como
sempre fazia. Vocês eram os únicos
amigos que eu tinha, brigava contra tudo, a única que entendia isso era a
Deolinda. Sabia que eu não era como o
resto da família.
Todos sabiam dos meus sonhos, nunca escondi
de nenhum dos outros, apenas aproveitei a oportunidade, não sabes o que passei
por lá, para ficar falando nisso.
Nunca me considerei rico, sigo trabalhando
como sempre.
Fiquei esperando que viesses para
conversar, sempre serás bem-vindo a minha casa.
Nisso Azambuja os viu junto, veio para
perto deles.
Que reencontro.
Não vais chamar a polícia?
Não faço mais parte dela, agora sou
advogado finalmente.
Graças a ele, verdade, como sempre ajudando
a todos, contornando a situação.
Nisso um homem com uma cara de mau, disse
que tinham que ir embora.
Quando for a tua venho compra um para
olhar, mijar em cima, talvez cagar.
Ficou abalado, nesse noite, se levantou,
sentou-se no chão no meio do studio, ficou pensando no que ele tinha falado.
Podia ser que ele visse assim, um garoto
filho de ricos, descer para jogar futebol com os pivetes da rua, a maioria
filhos dos empregados, os outros ricos, os pais não permitiam.
Mas eram seus amigos. As vezes ganhava
muitas camisetas, passava a maioria aos amigos, para eu pudessem andar
iguais. Iam com etiquetas e tudo, com o
valor.
Isso talvez pudesse incomodar, quem lhe
chamou a atenção, foi a Deolinda, assim eles sabem que eres diferentes dele.
Passou a arrancar as etiquetas, mas claro
eram das marcas da época.
Azambuja veio se sentar com ele, falou tudo
que tinha sentido com o José falando na cara dele.
Talvez sim, eu não posso dizer nada, tinha
uma casa, pai e mãe, íamos a mesma escola os três, mas claro, todos queriam ser
teu amigo, mas os ignorava, teus amigos erámos nós.
O que o ofendeu, foi teres ido embora, sem
se despedir.
Eu não queria que ninguém me parasse os
pés, nem minha mãe sabia, a única que chamou um taxi para mim, foi a Deolinda. Só ela sabia. Minha mãe, ficou super ofendida.
Os quadros do Flavio venderam todos, ele já
estava metido no meio de outro trabalho, quando chegaram os seus de Paris.
Ele ficou parado, olhando, que vais fazer,
mostrar essa parte negra tua, teu desespero, depois a recuperação das cores?
Foi até ele, o abraçou, isso mesmo garoto,
o mundo é assim, eu fui perdendo as cores, me faltava esse vigor, o tempo é um
inimigo poderoso.
Desta vez quem o ajudou com o catalogo, foi
o Flavio, mandou rapidamente cópias para Paris, sua amiga avisou que vinha, ele
preparou o quarto que tinha sido de seu pai para ela.
O diretor da galeria que fazia sempre suas
exposições veio também se hospedando num hotel de luxo em Ipanema.
Flavio ficou como louco quando conheceu sua
amiga. A arrastava para todos os lados,
para conhecer a cidade.
Ele foi com o Azambuja dar a entrevista
para a televisão. Os jornalistas estavam todos ali.
As perguntas algumas vezes eram tontas, mas
ele sabia manejar isso.
Disse que um motivo complicado o tinha
feito voltar ao Brasil, a senhora que basicamente me criou, morreu, vim
enterra-la, acabei ficando, para umas férias a principio prolongadas, mas não
sei como será o futuro, o diretor da galeria, tinha falado do francês que
estava ali.
Bom desde que ele mande sempre obras para
lá, pode passar o verão lá, vir no inverno, era o que eu faria, aguentar o
inverno branco é difícil, com as cores do vosso pais.
Isso o salvou, no dia seguinte estavam em
todos os jornais, falavam de um artista que tinha vencido na Europa, mas que
estava na mãe pátria nesse instante.
Recebeu um telefonema da irmã, que sequer
perguntou como ia, perguntou diretamente pelas joias da mãe, essa bruxa da
Deolinda, com certeza roubou todas.
Ele simplesmente desligou o telefone. Nada muda para algumas pessoas, ele tinha se
esquecido completamente disso. Nunca
tinha ido ao Banco.
Bom depois já se veria. Quando chegou um dos quadros de maior valor,
já tinha uma marca de vermelho.
Perguntou quem tinha comprado, o da galeria, sinalizou o José, pagou em
efetivo.
Ficou sem graça, foi até ele, dizendo se
querias esse quadro era só pedir.
Mas pintaste um dele, acha que não
reconheço, os romances que tinham os dois, na praia, nunca me queriam lá. viu que ele se descontrolava, fez um sinal ao
homem que sempre o acompanhava, ele o apresentou, meu amante e protetor.
Foram embora, a coisa não foi a melhor,
pois apareceram sua irmã, bem como o cunhado, mal falou com eles, na verdade
não sabia o que dizer.
O quadro do Azambuja, não estava a venda,
mas tinha interessados.
Escutou uma coisa que o deixou estarrecido,
sua irmã tinha comprado um quadro, estava sinalizado, quando escutou uma mulher
falando com o da galeria, se te pagam em cheque é que não tem dinheiro.
Ficou com pena, a mulher seguiu falando,
gastaram a fortuna dele, bem como a que herdou de seu pai, vive falando nas
joias da mãe, mas não tocaram a ela.
Viu que a irmã escutava, foi embora sem se
despedir.
O quadro, era um retrato de sua mãe que ele
tinha feito o esboço quando jovem, como se lembrava dela. Disse ao dono da galeria, que ele ia dar de
presente a sua irmã, a senhora que tinha reservado o quadro.
O resto vendeu antes de terminar a noite, o
de Paris, reclamava, nem tinha podido fazer nada, queria levar alguns.
Não se preocupe, tenho alguns em casa, bem
como quero que veja o trabalho do meu amigo Flavio, o apresentou.
Vi o teu catalogo, disse ele, quando fores
a Paris terás que expor comigo. Sua
amiga se adiantou, cuidado sou sua agente também.
Se via que estava apaixonado por ela, sabia
que ela manejava bem isso, num determinado momento saiu com ele, venha tenho
que atender a chamada da minha namorada.
Flavio voltou sem graça, porque não me
avisaste, estou louco por ela.
Flavio eu nunca me meto nesses assuntos da
vida dos outros.
Viu pelo rabo do olho, um carro vindo em
velocidade, só teve tempo de jogar o Flavio no chão, quando sentiu que uma bala
passava raspando por ele. Dois carros da
polícia saíram em perseguição do outro.
O levaram para o hospital, ele sabia que
tinha sido o José. Azambuja estava uma
fera, mas não podia fazer nada, já não era da polícia. Por sorte a outra bala, tinha cruzado o
salão, indo parar no teto da galeria.
Pior foi sair, receber a noticia que
finalmente tinham prendido o José.
Puta merda, mas a coisa só durou uma noite,
ele se suicidou na prisão, ninguém sabia como.
Achavam que ele tinha provocado seu
ajudante, a um ponto que este tinha perdido a cabeça, os policiais dizia que
não parava de discutir. Que ele
inclusive ainda tinha marca branca de cocaína no nariz.
Só mesmo nessa terra pensou, um traficante
que consume o que vende.
Mesmo assim tomou rédeas junto com o
Azambuja, o enterraram aonde estava o tumulo da mãe dele.
Na cerimônia, ele se lembrou de uma coisa
que acontecia na cozinha da sua casa, ele fazia alguma merda, Deolinda colocava
as mãos nas cadeira e lhe dizia” E AGORA JOSE”, fazendo com que ele buscasse
resolver a situação. Mas sempre era
coisas confusas, descontroladas.
O que ele achava interessante, era que
quando iam a mata, ele logo abaixava as calças pedia para os dois penetrarem
nele, quando perguntou por que, ele ria, dizendo assim pertenço aos dois, nunca
me deixaram de lado. Pois sei que
gostas mais dele que de mim. Ele já sentia
ciúmes naquela época. Era o mais pobre
dos três, usava as roupas dos outros dois.
Isso na cabeça de um garoto devia ser
difícil.
Quando acabou sua exposição, foram os três
para Paris, a primeira coisa que fez, foi levar o Flavio a École de Beaux Arts,
lhe disse que tinha estudado lá, sempre precisamos aprender coisas novas, mas
te aviso de uma coisa, muitos aqui se perdem depois dos dez minutos de gloria,
as drogas já sabem o que faz.
Ele tinha adorado o apartamento do
Arimathea, logo os dois estavam trabalhando.
Os amigos dele, adoravam o Flavio, era um
toque de ar fresco diziam, mas quem se apaixonou foi seu melhor amigo.
Atenção Jean, eres dez anos mais velho do
que ele.
Sem querer começaram a sair, pois Jean o
levava para todos os museus, era professor na École de Beaux Arts, se meus
alunos fossem como ele, eu me sentiria realizado.
Um dia os pegou se beijando, falou
seriamente com o Flavio, cuidado, Jean é uma pessoa sensível, gosta realmente
de ti.
Eu dele, não me trata como os outros como
uma criança.
Antes fale com teu irmão, já te disse que
não gosto de me meter nesses assuntos.
Azambuja, deu uma bronca de fazer gosto, se
noto que estas usando esse homem te darei uma surra de fazer gosto.
Ele agora dormia na casa do Jean, que
parecia ter remoçado com o romance.
Azambuja começou a trabalhar com sua amiga,
que era advogada também, agente de muitos artistas, foi aprendendo como se
trabalhava, afinal ela o convidou para viverem lá.
Quando os pais dos dois vieram para a
primeira exposição do Flavio, esse na maior apresentou o Jean, como seu
namorado, o velho quase engasgou, já não basta um, assim não vou ter netos.
Quando chegou o inverno, depois de
inaugurar sua exposição, se sentou com Marcus, disse que queria ir para casa.
Esse ria, eu também, embora possa te dizer,
que contigo vou até o inferno.
Ele ia agenciar alguns artistas para
exporem no Brasil.
Quando chegaram em casa, o vidro da sala
que tinha custado uma fortuna, tinha uma bala presa no mesmo.
Isso é como nos recebem, disse Arimathea
rindo, teremos que tomar cuidado, quando fazermos sexo aqui na sala.
Nada lhe fazia mais feliz na verdade que
despertar de manhã, abraçado ao seu eterno amigo e amante. Ele agora preparava uma exposição no Brasil,
em seguida ia para Paris, preparava outra lá.
Quando finalmente resolveu ir ao banco, riu muito, a maioria das joias
da velha, eram boas bijuterias, um dos documentos, foi uma grande descoberta,
quando sua mãe tinha se casado, já tinha uma filha, ou seja ela filha adotiva
de seu pai.
Lhe entregou esse documento também, nunca
entendi isso, pensava que essas joias eram verdadeiras.
Tinha um bilhete no final da caixa, a filha
quando leu, ficou uma fera, ela tinha ido vendendo os originais, para dar o
dinheiro para a filha.
Sinto muito, mas é tudo que tinha no quarto
dela.
A Deolinda deve ter roubado as originais.
Deixa de fazer besteira, arrume tua vida,
deixa de acusar os outros dos teus fracassos.
Quando nasceste, papai só tinha olhos para
ti.
Claro na verdade não eras filha dele.
Olha não vou perder meu tempo contigo, use
isso como queria, mas estou farto que fales da Deolinda, ela te criou como a
mim, mamãe, nunca tinha tempo para nós, devia estar realizando o sonho de sua
vida, bem-casada, frequentando uma falsa sociedade, aonde jogava Bridge com as
amigas. Era a Deolinda quem te levava
na escola, quem te escutava, por isso favor honrar a vida dela.
Finalmente agradeceu o quadro, o acabei
vendendo para pagar umas dividas.
Ele não disse nenhuma palavra. Já não era
problema dele.
Contou ao Azambuja, que disse que a
Deolinda desconfiava disso, que eram falsas, porque uma vez a viu com a mesma
joia, uma em cada mão.
Dizia que tua irmã sempre vinha aqui a
pedir dinheiro.
Um dia isso acabará mal. Dito e feito, descobriram que tinham vendido
o apartamento que viviam para duas pessoas diferentes, estavam vivendo em
Miami.
E o José achava que tinhas uma vida
perfeita. Nada é perfeito.
Um dia encontraram um bebe na porta do
edifício, tinha sido abandonado ali.
Acabaram o adotando, o pai do Azambuja
dizia que finalmente tinha um neto.
Marcus era um paizão a toda regra, o menino
era um mulato bonito, sorria como ninguém, quando ficava com o Arimathea, esse
babava, pois o menino, se sentava no chão, ficava desenhando o que via o outro
pai fazer.
Ao final, acabaram com três filhos, os
adorava, dizia que não podia deixar de trabalhar, pois tinha que dar um futuro
a esses garotos.
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