SABRA

 

                                                  

 

Para alguém que é a mistura de várias raças, no Brasil não é problema, eu sou um exemplo disso, uma mistura de judeu, com árabe, franceses, brasileiros.  Enfim isso nunca foi um problema para mim que sempre achei tudo isso uma coisa corriqueira, ou do destino.

Meu nome é Moisés Ibrahim, nada mais judeu e árabe ao mesmo tempo.

Fui basicamente criado pelo meu avô, que para diferenciar se chamava Moshe Ibrahim, mas quando se nacionalizou brasileiro, escreveram Moisés nos seus documentos.   Coisas de brasileiros dizia ele, funcionários públicos com o mínimo de informação.

O sem-vergonha aproveitou disso para movimentar dinheiro que tinha na Europa.

Ele sempre foi um sujeito avançado, quando Hitler assumiu o poder, ele conseguiu tirar de Berlin uma parente de minha avó, cuja família tinha desaparecido do dia para noite, só sobrou ela Tia Sara, era uma mulher de coragem.

Ele com alguma desculpas, pegou um barco, veio ao Brasil, sabia que tinham que sair da Europa, seu pai que tinha vivido em Jerusalém, falava horrores de lá.

Tinha vários negócios pela zona de Marais em Paris, viviam ali, num belo apartamento.

Meu avô veio ao Rio de Janeiro se apaixonou à primeira vista, como diria depois, não havia como hoje tanto malandro.   Era a época de Getúlio Vargas.

Se informou direito de como podia trazer dinheiro da Europa para o Brasil, um dos funcionários do Banco do Brasil, o convidou para um café. 

Lhe perguntou diretamente, “de quanto falamos”?

Meu avô fez por alto uma valorização de tudo, lhe deu um valor fictício, segundo ele o homem só faltou aplaudir.

Eu faço isso para o senhor, a troco de uma porcentagem, fazemos um arranjo, eu aqui passo a aplicar seu dinheiro no banco.

O filho da puta, não sabia com quem estava lidando, um judeu e árabe ao mesmo tempo.

Pegou o primeiro barco que voltava para França, desceu em Marseille, a coisa já estava feia, fez uma reunião de família.  Sara era quem tinha maior conhecimento de tudo, tinha visto sua família desaparecer, bem como todos os outros parentes que viviam por lá.   Estava ligada a um grupo de informação. 

Concordou com meu pai, era o momento de sair do pais, correndo.

Meus avós achavam uma besteira, mas pensaram bem, iam ficar sozinhos ali.  Não queriam vir para o Rio, acabaram indo com Sara, para as terras que ainda tinham na Palestina.

Meu pai, com minha mãe, meu pai que estava estudando na Sorbonne, arrumaram tudo, ele negociou com empregados, que se ocupassem dos negócios, por uma porcentagem.  Um deles com família numerosa, ocuparia o apartamento familiar.

Esvaziou os cofres nos bancos, bem como o que tinha em casa, escondido atrás de um armário.

Uma parte depositou no banco como o homem tinha lhe explicado, remeteu ao mesmo.

A outra parte, colocou em duas malas, com roupas por cima.

Chegaram a Marseille, embarcaram no mesmo barco que ele tinha vindo, o comandante comentou que talvez fosse a última vez que se pudesse atravessar o atlântico, sem problemas.

Meu avô, pegou uma cabine imensa, para os três era perfeito.  Na cabine ao lado, ia uma jovem mulher que estava estudando em Paris, sabe-se lá o que.

Meu avô dizia que devia estar era gastando o dinheiro da família, meu pai se apaixonou por ela perdidamente.   Era jovem inexperiente, dois dias depois, nem tinham saído ao atlântico ainda, já estava dormindo em sua cabine.

Ela era descendente de franceses, portugueses, uma bela mistura, era de uma família bem do Rio de Janeiro.   Meu avô foi contra, com a conversa que eles estavam indo com uma mão na frente outra atrás a convenceu a assinar um documento de separação de bens.   Iria ratificar depois no Rio com os pais dela.    Ela era quase três anos mais velha que meu pai, meu avô descobriria depois que tinha estado todo esse tempo em Paris, para arrumar um casamento, mas seu pretendente estava no exército francês.   Anos depois falaria dele como um herói, nunca soube se tinha sobrevivido.

Meu pai se deslumbrou com o Rio de Janeiro, Copacabana, com tudo o mais.

Os pais dela tinha recebido um telegrama dizendo que voltava casada.

Quando deram de cara, que meus avôs eram judeus, meu avô reforçou a ideia de que vinham com uma mão na frente, outra atrás, assinaram todos os documentos, que ele dizia isso para proteger a família dela.

Nesse meio tempo, se hospedou num pequeno hotel no Flamengo, muito familiar, pertencia a Judeus.

Logo procurou seu amigo do Banco, iria se referir sempre a ele, como seu amigo do banco.

O dinheiro já tinha chegado, abriu uma conta, para assumir tudo.  Riu muito, pois dizia que o homem tinha esfregado as mãos de contente, com isso ele seria promovido, pois tinha um cliente importante.

Mas o dinheiro, que tinha trazido pessoalmente, que estavam em todas as malas de roupas da família, que eram muitas, ele abriu conta em outro banco, era muito dinheiro, ao fazer o cambio de divisas, era um valor muito bom, se não tivesse feito imediatamente, em breve não valeria nada, com a invasão da França.

Desse outro banco, fez amizade com um dos diretores, disse que queria começar um negócio, bem como ter um lugar bom para viver.

O pai de minha mãe, deu aos dois um apartamento no Leme, em frente da praia.

Meu avô comprou o do lado, uniram os dois, anos mais tarde teria que comprar a parte dela.

O diretor do Banco, Samuel Benevides, ajudou meu avô a começar a montar seus negócios, seria seu amigo para o resto da vida.   Meu avô montou sua primeira loja no Saara, como era conhecido uma parte do centro do Rio, aonde existiam muitas lojas de roupas, a maioria era de Judeus ou Árabes, ele deixava que pensassem o que quisesse dele.   Se vinha um árabe falar com ele, lhe respondia nessa língua, mas tarde insistiria que eu aprendesse as duas, além claro do Francês, Inglês.

O Samuel Benevides, lhe ia informando quem necessitava vender sua loja, ele acabava comprando o edifício inteiro, logo ia retirando dinheiro do outro banco, passando para o do seu amigo.   Chegou a ter mais de dez lojas no Saara, quando Copacabana começou a abrir centro comerciais, comprava loja, para vender Jeans, com meu pai dirigindo o negócio, como se fosse outra empresa.

Quando eu nasci, foi uma paixão à primeira vista, tinha suas diferenças com meu pai, que ele dizia que as vezes era um pouco tonto.

Minha mãe jurou que era a última vez que ficava gravida, não tinha leite, uma empregada de uma das lojas, falou de uma prima, que tinha parido, mas que a criança morreu, por ter nascido antes do tempo, foi assim que Doralice, mais conhecida como Dora, virou minha segunda mãe, entrou para a família, para nunca mais sair.  Minha mãe, queria era frequentar suas amigas da sociedade, ia a festas, jogar bridge, ir a casa de uma ou de outra, mas nunca convidava ninguém para ir lá em casa.  Dizia que tudo era judeu demais.

Dora, administrava a casa, pois precisávamos de pelos menos duas empregadas para limpar tudo, servir mesas, uma cozinheira, que vivia como ela nas dependências de empregadas, dois quartos, uma saleta, um banheiro simples.  Eu adorava essa parte da casa, pelo menos não escutava minha mãe me dizendo, senta direito, as besteiras de sociedade.

Queria era mais escapar, para jogar futebol na praia.   Quando chegava o verão ficava negro, ela me proibia de ir à praia, deixas de ser branco, creio que na parte judia, tinha negros, mas na verdade era na sua.   Meu avô nos finais de semana, me levava pelas lojas, na sexta e sábado, eram os dias que aparecia de surpresa, para verificar os livros do caixa, a contabilidade, o que tinha vendido mais, escutar as sugestões das vendedoras, fazer o pagamento da semana, ele nunca pagou os empregados por mês, mas sim por semana, dizia que essa gente precisa de dinheiro para viver, senão tinha que pedir emprestado.   Ensinava a essas mulheres, que viviam a maioria nas favelas, como administrar seu dinheiro.   Elas riam com ele, como seu Moises, se as crianças comem muito.    De algumas ele era padrinho, sempre mandava um presente para as crianças, no meio do presente, sempre tinha uma nota de 100 reais, o dinheiro da época.

Quando os maridos traziam as crianças, ele as levava com ele a lanchonete mais próxima, para comerem um sanduiche, tomarem um sorvete.

Se uma empregada precisava de dinheiro, não permitia que fosse a um agiota, sentava-se com ela, via a necessidade, a ajudava, depois ia descontando o mínimo, por mês, nada de juros.

Dizia como essa família ia viver se tivesse que pagar juros.   Os outros árabes, ou judeus o chamavam de tonto, mas ele respondia que funcionário satisfeito, não rouba o patrão, era uma verdade, os outros sempre tinham problemas, ele não.

As vendedoras quando me via, me beijavam, a sobrinha da Dora era gerente de uma das lojas, muito séria se sentava com meu avô, ele a tinha ensinado a fazer o livro caixa, o famoso caixa dois brasileiro, a contabilidade, analisavam os pedidos.    Ele dizia que se os outros fossem como ela, ficaria rico.

Eu aproveitava para escapar, pois odiava ficar falando de dinheiro. Ia a Igreja de São Jorge, ia dando uma olhada nas outras lojas.

Nos sábados aquilo fervia, o pessoal que vivia nos subúrbios, as empregadas domésticas vinham fazer compras para a família.

Depois ia almoçar com ele em algum restaurante de comida árabe por ali.  Me deixava comer tudo o que gostava.   Depois comprava uma caixa de doces turcos para minha avô.

Ela controlava as lojas que levava meu pai. Como mulher creio que se realizou com a mudança para o Rio, tinha seu próprio carro, se vestia como queria, não tinha a mãe do meu pai, para controlar o que ela fizesse.   Mas não fazia como minha mãe, que ia a costureiras francesas, ela via nas revistas que recebia, tinha sua costureira ali no bairro, na subida da favela Chapéu Mangueira, levava os tecidos, que retirava das lojas do meu avô, fazia a empregada escrever quantos metros estava levando, assinava, para a contabilidade dizia, depois dava um recibo para meu avô, verificar se estava bem.

Usava sempre um colar de pérolas, uma vizinha lhe avisou, cuidado, isso é um chamariz, ela com essa mulher comprou um falso, bijuteria, mas idêntico ao que tinha.

Um dia saia do carro, dois pivetes se aproximaram, tentaram arrancar, ela se armou de sua bolsa, saiu correndo atrás deles, não viu um carro, que a atirou longe.  Foi parar no hospital, meu avô ficou uma fera, tudo por causa de um colar falso.   Depois ela confessaria, que tinha se esquecido desse detalhe, porque o original, tinha sido de sua família toda a vida.

Um ano depois tinha dores de cabeças impressionante, o médico disse que tinha um coagulo na cabeça, havia que abrir, mas acabou morrendo dormindo, pois o mesmo estourou.

Minha mãe, pensou que ia herdar o colar, mas se enganou, ele disse que seria da mulher com quem eu me casasse.

Nessa época eu me rebelei, queria estudar cinema, uma das minhas paixões, me inscrevi na universidade para cinema, pouco aprendi, mas por minha própria conta, consegui empregos em várias produtoras, tinha que começar debaixo, era continuísta, ou tudo que aparecesse, ajudava o diretor em tudo, mas o que gostava mesmo era de fazer parte, ou ajudar quem faria a montagem do filme.   Porque eles iam fazendo aos pedaços, sem sequência, os diretores me queriam porque eu tinha uma capacidade de prestar atenção a todos os detalhes.

Um dia estávamos no meio de uma filmagem, a cena era dramática, mas percebi que o ator, tinha se esquecido de tirar o relógio moderno que usava, não encaixava na cena, conforme ele se movia, aparecia na gravação, eu avisei o diretor, mandou parar a cena imediatamente.  Me agradeceu.

Quando começaram a fazer novelas, para a televisão, ele foi dirigir uma das primeiras, na televisão Tupi, me chamou para ser seu ajudante, lá fui eu.

Meu avô achava que era uma coisa passageira.  Eu estudava os roteiros todos, fazia anotações a parte.   As vezes discutia com o diretor, que o ator não casava com o personagem, mas eram atores famosos, que para engordar seu dinheiro faziam qualquer coisa.

Então me dedicava com o maquilador, ou um ajudante, a preparar o mesmo para ser esse personagem.   Poucos reclamavam, quando o faziam com o diretor, este ficava furioso, soltava, estas aqui para fazer o que eu diga.

Mas esse garoto é um abelhudo diziam.  Claro eu nem tinha vinte anos.

Um dia, justamente no meu aniversário, faria 21 anos, apareceu na porta do apartamento uma mulata linda, com um garoto de seus dez anos na mão.  Queria falar com meu pai.

Quando esse apareceu comigo atrás, bem como meu avô, lhe soltou, estas me enganando com outra, nunca vais de separar da tua mulher, veja o luxo que vives, eu tenho que viver na Men de Sá, numa quitinete fedorenta.   Um fazendeiro do Paraná, quer se casar comigo, mas não quer o nosso filho, portanto, toma que o filho é teu.

O garoto olhava assustado, mas eu o adotei nesse mesmo momento, venha, vás dividir quarto comigo, virou mais um querido da Dora.   Minha mãe, fingia que nunca o via, mas meu avô com o tempo pegou gosto por ele, adorava matemática, se sentava ao lado do velho, fazendo com ele os cálculos mentais da contabilidade.    Assim meu avô, largou um pouco do meu pé.

Como tinha feito 21 anos, recebi uma parte da herança deixada pela minha avô, bem com um saquinho cheio de pedras preciosas, diamantes, rubis, esmeraldas.

Ia gastar comprando um bilhete de avião para Paris.

O velho que nunca tirava férias, disse, chegou a hora de recuperar o que é meu.

Lá fomos os três, porque levou meu irmão Manuel Ibrahim, a tiracolo, vais aprender como se negocia.   Foi para ficar um mês, mas teve que contratar um advogado para reaver os seus negócios, que ia vendendo, só ficou um o apartamento que era da família, mandou reformar tudo, eu claro passei a ter um pouso.

Ele tinha feito uma valorização, numa joalheria das pedras todas que tinha me deixado minha avô, vendeu tudo, depositou num banco, em meu nome, assim tens como viver um bom tempo.

Saiamos com ele todas as noites para jantar, o Manuel, estava feliz, não tinha minha mãe, ali sentada na mesa, ignorando sua presença.

Voltaram os dois para o Brasil, meu avô dizia, imagino a quantidade de besteiras que teu pai deve ter feito na minha ausência.

Encontrou um belo ambiente, minha mãe tinha saído com as amigas para tomar um chá na Colombo, ela que odiava ir ao centro da cidade, deu de cara com meu pai, com sua nova amante, uma mulata, que poderia ser minha irmã.   Não fez escândalo nenhum, as amigas não conheciam meu pai.   Afinal ele era bonitão, todas comentavam sim, que homem, com essa franguinha, a mulher deve estar em casa, deve ser um dragão.  Ela engoliu em seco tudo isso.

Quando ele chegou, ela tinha as maletas prontas, não existia o divórcio, ela foi viver na casa dos pais, mas tinha uma pensão alta.   Nessa época meu avô aproveitou para comprar a parte dela do apartamento.

Dora me escreveria, a casa agora tem um equilíbrio melhor.  Nos dois tínhamos um segredo, nos sábados de noite, eu subia com ela a Mangueira para ir ao seu pai de santo.  Eu adorava, mais do que ir a sinagoga.   Depois vinha o melhor, descer para algum ensaio na velha quadra da Mangueira.   Foi lá pela primeira vez, que passaram a mão na minha bunda.

Um mulato incrível, muito bonito, com um corpo de enfarte, me chamou para tomar uma cerveja, eu tinha meus 16 anos, no dia seguinte escapei, fui a um hotel com ele no centro da cidade, me ensinou a fazer sexo.   Ficamos nisso algum tempo, mas ele foi se afastando até que sumiu, um dia o encontrei com sua mulher e dois filhos.   Fiquei rindo.

Depois fui conhecendo outros, nas filmagens, sempre tinha um que se engraçava comigo.

Em Paris, ao contrário, aonde eu imaginava que teria mais liberdade, mal comecei o curso, um professor me perguntou da minha experiencia, eu disse qual diretor tinha trabalhado no Brasil, com quais tinha feito novelas.

Me arrastou com ele a uma filmagem, queria me ver trabalhando, li o roteiro, viu que eu fazia anotações em tudo que ia vendo, semanas depois estava contratado, fazia meu primeiro filme na França.  Escrevi para a Dora, para o Manoel, estava feliz, mas sentia falta deles.

Filmei com muitos diretores, gostavam porque eu entendia a linguagem deles. Com um acabei reescrevendo o roteiro, porque algumas partes lhe chamei a atenção, ficavam sem pés nem cabeça.   Quando o filme passou num festival no Rio, a família inteira foi ver, pois aparecia meu nome nos créditos.

Tinha um relacionamento com meu irmão, muito especial, meu avô queria que ele fizesse um estágio na Galerie Lafayette, eu conhecia um dos homens poderosos da Printemps, no que fizemos um filme que aparecia várias cenas lá, o conheci, dali foi um pulo para a cama, embora fosse casado, durou um bom tempo nosso relacionamento.

Nesse meio tempo, meu avô tinha pedido para a Sara vir para o Rio, afinal seus pais já tinham morrido, muito velhos é claro.

Manuel, veio, ficou comigo no apartamento, se deslumbrava com o que ele pensava que era minha vida, achava que tinha glamour.

Eu o coloquei com os pés no chão, um dia o fiz levantar-se as cinco da manhã, hora que vinham me buscar para uma filmagem, fazia um frio do caralho, aquilo foi o dia inteiro, embora ali estivessem atores famosos, no set eram gente normal, trabalhando.   No final do dia, ele estava morto de fome, pois só comemos uns sanduiches gelados ao meio-dia, fui jantar com ele no Bistrô perto de casa, quando Marais começava a ser um bairro gay.  Que merda de vida levas me soltou em plena cara. Podias estar no Rio de Janeiro administrando as coisas do avô, estas aqui trabalhando com esse diretor, que só sabe gritar ordens, tens que acalmar o mesmo sempre.  Lidar com esses atores caprichosos, soltou uma série de comentários.

Um homem que estava ao lado, soltou, isso se chama trabalhar, teu irmão é um dos melhores que conheço.   Um dia estará ele dirigindo um filme.

Quando estava a ponto de fazer isso, tivemos que voltar os dois correndo para o Brasil, meu pai estava mal.   Tinha um câncer, não tratou quando devia, por preguiça, como meu avô dizia, meu filho virou tremendamente brasileiro, nada é para hoje, amanhã se resolve.

Olha no que deu, já não havia maneira.   Meu avô estava velho, mas seguia levando seu dia a dia, abraçou o Manuel, dizendo que ele tinha feito falta.   Pelo menos ele lhe entendia, disse isso me olhando.

Conheci a namorada do Manuel, no enterro de nosso pai, ele uma garota da sociedade carioca, que tinha estudado com ele na Universidade.   Era uma mulher bonita, ele dizia que não sabia o que ela via nele.

Mas a coisa fedeu, quando me apresentou, não sei por que ele disse que eu era o herdeiro de tudo, creio que estava desconfiado dela, pois o via manejando tanto dinheiro, pensou essa me dará boa vida.

Bastou isso para cair fora.

Eu lhe disse nunca falo com ninguém da parte financeira da família, porque na verdade não sei qual é.    Prefiro discutir com um diretor, quanto vai me pagar pelo meu trabalho, do que falar que não me importa, pois tenho dinheiro, ao contrário acho justo que me pague pelo meu valor.

Assim quando queira montar meu primeiro filme, terei meu próprio dinheiro.

Tinha acabado de fazer um curso de roteiro de cinema, tinha várias ideias escritas.

Saímos os dois para conversar, um dia o arrastei comigo para a Mangueira, quando vi estava no meio da pista, dançando com uma mulher fantástica.   Me apresentou, descobri por que vi sua mãe, era neta da prima da Dora.

Se apaixonaram, eu achava divertido, ela dava um duro desgraçado numa das lojas de Copacabana, ele nunca a tinha visto, pois tomava conta das lojas da cidade.  Meu avô a adorava, pois dizia que era como sua avô, uma mulher fantástica.  Logo a promoveu para cuidar de todas de Copacabana, foi ela que lhe alertou, que a moda já não era tanto Copacabana, que o negócio agora era os centro comerciais de Ipanema, sugeriu que ele se tornasse sócio de um rapaz que conhecia que fabricava calças jeans, que misturasse, as importadas com essas brasileiras.

Resultou que essas vendiam como água, pois era perfeitas, mas meu avô era esperto, quem virou sócio foi o Manuel, me chamou a parte para falar isso.

Nada mais merecido meu avô, ele está ao teu lado desde garoto, merece isso é muito mais.

Me encontrei com um diretor de que tinha trabalhando na Tupi, esse estava fazendo um novela, que levaria mais de um ano, me convidou para trabalhar com ele, mas como eram muitos personagens, eu teria que dividir a direção com ele, levamos uns dois dias negociando meu salário, essa era a parte que eu detestava, em Paris, quem fazia isso era o meu agente, no Brasil isso não existia.    Conversei com o Manuel, ele foi como meu agente, negociou no meu lugar.

Fizeram um bom contrato, da metade da novela em diante, acabei dirigindo eu, pois o outro diretor teve um enfarte com tanto trabalho, me sentei com o roteirista, disse que eram atores demais, que devíamos fazer alguma coisa, para diminuir, as histórias que não fosse importantes, teriam que ser cortadas, ele inventou um terremoto, que foram cenas complicadas de rodar, pois no Brasil, não existiam terremotos.

Os jornais falaram muito no assunto, mas foi divertido, encurtei a série um uns quantos meses, pois queria ir para Paris.

Meu avô pensou que eu ficava, lhe disse que minha vida estava lá.  Mas bastou chegar, para entender que basicamente tinha estado fora dois anos, era de novo um belo desconhecido.

Nem abri direito as malas, voltei para casa.    Meses depois o Manoel se casou, queria ir viver num outro apartamento, lhe perguntei por quê?

Me soltou que o apartamento seria meu no futuro.

Meu irmão, já viste o tamanho do mesmo, depois o nosso avô vai adorar ter os futuros bisnetos perto dele.

Talvez por isso, quero que meus filhos sigam seus destinos, que cada um como tu, possa escolher o que quer.

Ele iria abrir num bom shopping, uma loja com sua mulher, com dinheiro deles.

Me sentei com o velho, que queria interferir, não deixei, eles tem o direito de seguirem em frente, se o senhor quer, passe uma parte dos negócios diretamente para ele.

Ficou me olhando, nunca te interessaste nosso dinheiro, sempre foste por livre.

Ele já estava com 95 anos, ou isso dizia.  Depois do casamento, sentou-se com toda a família, foi detalhando tudo o que tinha de bens, não era pouco.

Quando falou num apartamento ali quase ao lado do nosso, eu disse que queria esse, que ele fosse viver comigo, que deixasse o grande para o Manoel, olhei para sua mulher Maria das Dores, ou como meu avô dizia a Das Dores.

Soltei, aqui vocês tem um apartamento para uma boa família, reformem o mesmo, mas tudo com uma condição avô, que seja passado para o nome dos dois imediatamente.

O velho não gostava como eu falava, ficou furioso, disse que tinha ganho tudo, com seu suor, suas ideias.  Que não ia fazer isso.   Levantei os ombros.

Eles foram morar no que eu queria para mim.

O velho durou um tempo, eu estava no nordeste filmando um reportagem para a televisão francesa, sobre a Bahia, um pai de santo me disse, telefone para casa imediatamente.

Liguei, o velho estava no hospital.

Peguei o primeiro voo para o Rio, só faltava uma cena para fazerem, uma cerimônia de Candomblé.

Cheguei para o velório, lá no cemitério do Caju, aonde já estavam enterrados meu pai e minha avô.   Ele tinha comprado uma parcela, erguido um mausoléu.

Comentei depois com o Manuel, que nunca tinha visto tanta gente, velhos empregados, gente que ele tinha ajudado, senhores que como ele tinham loja no Saara, enfim, ele conhecia muita gente.

Foi uma cerimônia impressionante, ele desde criança me tinha feito aprender a rezar o Kadish, o tinha feito com ele no enterro do meu pai.  Agora o fizemos os dois netos, Manoel emocionado, pois adorava o velho.  Ao seu lado sua mulher com uma barriga imensa, coloquei a mão em cima, disse que eram dois.   Estas louco soltou ela, já tenho um garoto em casa, apontou o Manoel, mais dois peço aposentadoria.  Foi um momento descontraído.

Dora que já tinha sua idade também, estava o tempo todo de braços dados com Sara, as duas tinham se transformando em grandes amigas.

Sara quando chegou, disse que a Dora, não podia ficar vivendo nas dependências de empregada, embora hoje em dia ninguém as usasse mais, tanto a cozinheira, como as que vinham limpar, chegavam de manhã, iam embora de tarde.

Depois foi a leitura de testamento, deixava coisas para as duas, elas se perguntaram, para que se tinham casa, comida, roupa lavada.

No testamento ele deixava como eu tinha pedido, o apartamento grande para o Manoel, o menor para mim, mas tinha feito uma divisão de bens muito bem-feita.

As lojas todas eram para o Manoel, para mim, ficavam apartamentos, lojas alugadas, que no final davam o mesmo valor.

Disse ao meu irmão, estou fudido, nunca administrei dinheiro como vou fazer?

Contratei um advogado que tinha ao mesmo tempo um escritório que administrava bens imóveis.   A única surpresa, era que me deixava a participação que tinham numa propriedade em Israel, um parente longe, que tinha trabalhado ali com meu bisavô, era quem levava tudo.

Depositava cada ano, um aluguel das terras, ele queria que eu fosse até lá, são nossas origens.

Das Dores reformou o apartamento todo, com ajuda da Sara e Dora, elas iriam ficar morando com eles.

Quando nasceram as crianças, eu fiquei como louco, pareciam minhas, um menino e uma menina.  Das Dores soltou, nunca mais diga nada, terei que comprar mais um berço.

O menino levou o nome do nosso avô, Moises, a menina o nome da mãe dela.

Eram lindos, meu irmão babava nos filhos.   Ele na verdade, nem acreditava que tinha uma mulher como ela, linda, inteligente, que cuidava dele.

Eu não gostei do final da reportagem, na montagem a cena do Candomblé, parecia, uma coisa para inglês ver.  Falei novamente com o Pai de Santo, fomos até lá.

Refizemos tudo, aproveitei que era uma saída de santo para fazer a coisa mais interessante.

Ele conversando comigo, soltou, eres uma mistura divertida, judeu, árabe, mas também tens santos, me fez uma firmeza, pois não conseguia seguir em frente com a história do filme ou série que queria fazer.

Quando fui a Paris, levar a reportagem, adoraram, principalmente o final.

Me queriam para uma minissérie francesa uma coisa de época.   Foi um prazer imenso, fui pesquisando outras, afinal acabei filmando, três, que eram como filmes, mas longos, coisas da história do pais.

Depois da última estava cansado, o advogado do Brasil, me disse que o outro herdeiro de Israel, queria falar comigo.    Achei mais fácil, pegar um voo, ir até lá.   Imaginei encontrar um homem velho, alguém tipo ultra ortodoxo.   Me dei de cara com um homem tão alto como eu, lindo de morrer.  Me disse que tinha saído em criança do campo, ali tinha ficado seu pai, com outro irmão seu, que morreu num atentado.

Ele sentia um certo antagonismo contra mim, mas como sempre eu falava calmo, lhe perguntei por quê?

Porque teu avô, ou bisavô, aplicou dinheiro aqui, mas nunca trabalhou, viveram no campo, durante as guerras, quando morreram ninguém veio aqui.  Só estava a Sara, isso segundo meu pai.  Depois ele passou anos, mandando dinheiro para o Brasil, uma parte dos lucros das terras aonde sempre se plantou laranjas.

Cada vez que ele tentava comprar a parte do seu avô, ele argumentava que era de seus descendentes.

Olhei bem para ele, pois vim aqui só para saber o que queres fazer, se queres ficar com ela bem, pois não tenho interesse.  Contei que vivia em Paris atualmente, tenho um pequeno apartamento no Rio, falei dos bens que tinha herdado, mas eu nunca cuidei de nada disso.

Minha vida sempre foi o cinema. 

Ele começou a rir, escutei falar de ti, que eras o ovelha negra na família, eu fui igual, nunca me interessei por nada disso, sempre pensei que ia ser do meu irmão.

Agora o governo quer essas terras para ampliar a cidade, fazer um bairro residencial.

Tu decides, pode ficar com o dinheiro.

Não se preocupe, tenho o suficiente, me disse, sou advogado.

Voltamos a Tel Aviv, fomos jantar, lhe perguntei se era casado, me disse que nem pensar, na hora não entendi, me perguntou se eu era.

Sem pensar muito lhe disse que era gay, acabamos na cama, ainda de gozação disse que era um pecado relações sexuais entre a família, mas na verdade éramos parentes muito longe.

O pior foi que nos apaixonamos, eu tinha que voltar a Paris, ele tinha negócios lá, fomos juntos, era o tipo de homem com quem eu sempre tinha sonhado, me lembrei que o Pai de Santo tinha falado nisso, que eu encontraria a pessoa dos meus sonhos.

Quando acabei o meu trabalho, comecei a escrever a história do meu avô, de como tinha sido tudo, ele me contava sempre com detalhes em crianças, o momento que chegou ao Rio, como era a cidade.

Eu queria pesquisar a respeito, fomos os dois para o Rio.   Foi um encontro de família, pois Sara o tinha conhecido quando criança. 

O advogado que cuidava das minhas coisas, apresentou contas, pedi que ele olhasse com o Manuel, o sujeito estava me enganando.    Lhe perguntei por que não ficava tomando conta disso para mim, era muita coisa, eu era um merda nesses assuntos, se vocês não descobrem esse sujeito ia me enganar o resto dos meus dias.

Fomos a Tel Aviv, para ele se desfazer de suas coisas por lá, Sara e Dora, ficaram tomando conta das crianças, meu irmão, veio com a mulher conhecer o pais, de férias.

Foi ótimo, eles cagavam para o fato das pessoas comentarem que os dois vivíamos juntos.

Posso dizer que valeu a pena esperar tanto tempo para encontrar alguém, ele me entendia, adorava ir com ele a Praia, pois ficávamos conversando, eu ria, pois via outros homens olhando para ele, mas ele ignorava.

Me contou parte da história dos meus bisavôs quando chegaram a Palestina, como era complicado.   Na verdade Abraham era mais árabe que judeu.

Eu não era religioso, ele tampouco.  O livro foi publicado na França e no Brasil, com algum sucesso.   Pensei em fazer um filme.

Mas olhei bem o que tinha com ele, queria viver a vida sem compromissos.

Adorava estar sempre com ele, as vezes o acompanhava a negociar algum contrato dos imóveis que tinha, ria muito, pois ele era esperto, já tinha aprendido a manejar os malandros brasileiros, os enganava direitinho.  Diziam deviam fazer um curso sobre árabes e judeus.

Já não tínhamos idade para adotar nenhuma criança, mas desfrutávamos dos filhos do Manoel, ele agora tinha seis, pois nasciam de dois em dois.  Das Dores dizia que a culpa era minha que tinha lançado uma maldição sobre ela.

Adorava os meninos, eles seriam meus futuros herdeiros, os lucros das coisas que tinham montamos os dois uma conta, para o dia que quisessem ir a universidade fazer o que quisessem.

Meu irmão dizia que eu sempre era exagerado em tudo, contava mil vezes ao Abraham a historia do apartamento, imagina a cara do nosso avô que não gostava que discutissem suas ideias, quando diz que queria o apartamento pequeno, que eu ficasse como grande.

Acabou fazendo isso.

Ora era uma coisa logica, sempre foste meu irmão, nunca liguei importância a isso.

Um dia, estávamos na casa dele, recebemos a visita de um advogado, era de parte de minha mãe, ela nunca tinha me procurado, eu tampouco, depois tinha a desculpas de estar fora a muito tempo.   Tinha morrido numa residência de maiores em Jacarepaguá, me devolvia o colar de pérolas de minha avô que ela tinha roubado, os dois o falso e o verdadeiro, estavam ali.

Eu ria muito, só mesmo ela para fazer isso.

Mandamos avaliar, no fundo eram originais, ela não soube ler um bilhete que tinha junto que era da minha avô, estava escrito em árabe, que ela nunca tinha sido mulher de usar coisas falsas, tinha comprado outro igual.

Um dei para a Das Dores, o outro que era mais largo, mandei fazer em dois, um para a Sara outro para Dora.  Elas riam, Dora dizia que queria ser enterrada com ele.

Mas na verdade ficaram para as duas meninas do Manoel.

Nossa família seguiu em frente, meu avô sempre tinha se preocupado com isso, que a família seguisse unida, talvez por isso, aceitou o Manoel, como seu neto, sem pestanejar.  No final tinha orgulho dele.    Ele e sua mulher tinham lojas nos melhores shopping da cidade.

Sua fábrica de Jeans, era a favorita, já nem vendia as importadas nas loja.   Eram caras demais diziam sua mulher, depois os traficantes trazem as falsas do Paraguai, para que ter essa merda na loja.

Finalmente fiz meu primeiro filme, mas foi mais aceito fora do Brasil que na minha terra, diziam que eu era demasiadamente francês para isso.

Mandei todo mundo tomar no cu.   Fui viver minha vida em Arraial do Cabo, com o Abraham.

A casa era grande, pois nos finais de semana a família chegava, era uma festa, para a criançada, éramos seus avôs, nunca dissemos que não.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

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