BESOURO DE OSSAÍM

 

                           

 

Besouro, como era conhecido, vinha descendo o morro do Pavão, Pavãozinho, da casa de sua madrinha, Mãe Mirinha de Ossaím, de que ele era filho de santo, bem como no fundo era sua avó carnal.

Quando sua mãe desapareceu no mundo, sua avô consultou os búzios, jogou infinitas vezes para saber se sua decisão era certa.   Era raro vê-la descer o morro, se arrumou toda, com roupas fora de moda, mas com um bom turbante na cabeça, podiam dizer que suas roupas era antiquadas, o que era uma verdade, como estava sempre vestida para dar consulta, com sua roupas rodadas brancas, impolutas como ela dizia.    Só as tirava, quando ia ver sua horta de ervas, colocava umas calças velhas de homem amarrada na cintura, uma camisa imensa, ia recolher alguma coisa, para fazer alguma poção, já sabia com antecedência que algum filho de santo ia precisar.

Muito decidida, caminhou até a avenida Atlântica, de lá um filho seu que tinha um quiosque na praia a levou até o Leme, disse que ia ficar esperando, para que sua mãe de santo não caminhasse tanto.

Entrou num edifício antigo, em que os apartamentos era imensos. Disse ao porteiro que avisasse Dona Marina Guedes da Silva que mãe Mirinha estava ali, na verdade se chamava Miriam, mas todo mundo a conhecia desde sempre como Mirinha.

O homem, um mulato forte, quase se curvou ante ela, disse a acompanhando ao elevador, que sua mãe frequentava o terreiro.  Ela falou baixinho como se estivesse num confessionário, tu estás precisando de um belo banho de descarrego.  Quando desça, me espere fora.

Quem abriu a porta foi a própria Dona Marina, assustada, fez uma reverência, minha mãe levei um susto, a senhora em pessoa vir até minha humilde casa.

Mãe Mirinha, contaria muitos anos depois, que lançou uma olhada em volta, viu isso sim muito luxo, que não trazia felicidade.

O apartamento Dona Marina, tinha herdado de seu pai, um General da época de Getúlio Vargas, que tinha vindo com ele desde o Rio Grande do Sul.  Nunca mais voltou para lá se apaixonou pela praia do Leme, ali ficou.

Dona Marina era casada com um Coronel, que passava mais tempo em Brasília, babando segundo ela o saco de algum presidente do momento.

Estamos claro falando da época que os presidente, eram generais, que se sucediam a cada seis anos.

Um dia Dona Marina, levada por uma empregada, a levou para ver Mãe Mirinha, esta foi muito clara com ela, a anos tentava ter filhos, nada acontecia, o coronel a acusava de estar seca por dentro.

Antes de se sentar, para o jogo, uma Yao da casa, lhe deu um belo banho de descarrego, para que as coisas fossem clara.

Mãe Mirinha avisou, posso falar coisas que não gostaria de escutar, nem sempre é agradável a verdade, tens certeza de que queres saber tudo que aparece no jogo dos orixás?

Sim minha mãe, quero, porque estou farta da vida que levo, esperando o que nunca acontece.

Mãe Mirinha, antes acendeu um pau de canela, para que o jogo fosse favorável.

Rezou, começou a jogar, anotava coisas, resmungava, tornava a jogar, até que foram ficando poucas coisas de fora, ela ia anotando tudo num caderno ao seu lado, com a letras redondas de uma menina que tinha estudado numa escola de irmãs de caridade.

Quando acabou, olhou diretamente nos olhos da Dona Marina, olha, não tens filhos, porque teu marido é um frouxo, é ele que não consegue de dar filhos, a culpa não é tua.

Foi desfilando ante os olhos dela, dizendo que ele corria para Brasília, porque lá tinha uma amasia como se dizia na época as amantes.   Essa não lhe importa, porque não quer filhos.

Ele está velho, apesar da aparência que tem.

Se eu fosse você, se livrava dele rapidamente, pois teu pai, como um bom descendente de judeus, te fez casar com separação de bens, não deves nada a ele.

Era uma verdade, ela mesma administrada toda a herança que o pai tinha lhe deixando, apartamentos no Catete, que tinha comprado na época do Getúlio, lojas no Saara, outro apartamento em Copacabana.

Foi o que ela fez, quando o fajuto do marido voltou de Brasília, se sentou na biblioteca que tinha sido de seu pai.   A empregada entrou para saber se servia o café, o marido disse que sim, mas ela disse que não estamos esperando uma pessoa.

Entrou o advogado, claro o coronel pensou aí tem.

O advogado era um esperto, tinha contratado um homem em Brasília que o tinha seguido por todos os lados, o muito idiota por achar que estava longe do Rio de Janeiro, saia se exibindo com a amasia.

Quando viu as fotos, engoliu em seco, começou uma ladainha, de que a amava, que essa não passava de uma distração.

Eres um inútil isso sim, nem para me fazer um filho serve, fui a um médico, me disse que sempre pude ter filhos, mas que tu lhe pagava para dizer que era eu.

Como toda minha fortuna é minha, quero uma separação de ti, naquela época não existia o divórcio.

O coronel a ameaçou, mas não arredou pé, inclusive lhe disse na cara que já tinha falado com seus superiores sobre essa quantidade de viagens a Brasília para lamber botas dos superiores, mas falando mal dos seus no Rio de Janeiro.

Ele só faltou espumar.

Dona Marina, tinha sangue espanhol, bem como era descendente de judeus sefardita, ele quando se deu conta, tinha maletas com suas coisas na porta do apartamento.

Nunca o deixavam subir até sua antiga casa, teve que se contentar em viver na Men de Sá, num edifício cheio de putas, por pouco não perde a patente de coronel.

Acabou em Brasília, num emprego de chefe de segurança do Banco do Brasil, emprego arrumado por sua amasia, essa o manobrava bem.

Dona Marina, ficou feliz da vida, refez sua vida, vivia agora com um homem que tinha conhecido no Saara, judeu como ela, mas não estava com idade para fazerem filhos.

Agora ia sempre ao terreiro, um dia arrastou o companheiro com ela.

Mãe Mirinha se acomodou na biblioteca, sentada em uma poltrona em frente da outra, em seguida tinha um café, um copo de água, regras de boa educação de uma casa brasileira.

Lhe disse por que tinha vindo até ali. Falou porque tinha pensado na senhora.  É um garoto forte, ainda está nas fraldas, claro que o podia oferecer a muita gente, mas meus orixás me recomendaram a senhora.

Contou toda a história da mãe do Besouro, nem foi batizado ainda, imagina.

Quando saiu, estava aliviada, sabia que ela podia dar uma boa educação ao Besouro, que colocou esse nome tinha sido ela, pois ele não chorava, fazia um ruido como se fosse um besouro voando.   Na sua horta tinham muitos.

O porteiro estava conversando com o seu filho de santo, este tinha avisado que deixava a porta do prédio fechada, assim era mais fácil.

Subiu o morro com ela, foi direto tomar um banho de ervas que ela foi dizendo a sua Yao, para o santo do rapaz.

Quando esteve pronto, começou a jogar para ele.   Falou de seus problemas, que ele devia se emendar, pois corria risco de vida, não se meta com os traficantes do Chapéu Mangueira, pois esses não tem piedade.

A senhora sabe, minha mãe fez de tudo, mas meu irmão pequeno acabou lá, morreu na praia numa briga com outros traficantes, isso não é justo.

Não se preocupe, esses nunca duram muito, não suje tuas mãos, pois a hora dele está próxima.

Ganhou mais um adepto, pois dias depois o traficante foi preso, indo morrer na prisão.

Quando Dona Marina, subiu ao morro, viu o Antonio ou melhor dizendo Besouro, no seu berço improvisado, embaixo de muitos santos que existiam ali, se apaixonou.

Se parece com meu pai, tenho uma foto dele em criança no Rio Grande do Sul, na fazenda perto de varginha, é a cara dele.

Semanas depois estava tudo resolvido, era o batizado como Antonio Guedes da Silva, sua nova mãe nunca escondeu dele, como tinha vindo viver com ela.

Cada vez que subia o morro, ele ia junto.

Quando foi para a escola, ali na praça do Lido, ele já sabia ler, escrever, gozavam dele, pois falava “tu” como os gaúchos.

Adorava jogar bola na areia, mas um dia ficou louco quando viu um grupo dançando capoeira, pediu tanto a sua mãe, ela não soube negar.

Era um campeão, quando lhe perguntaram como se chamava ele disse que Besouro, pois cada vez que ia ao terreiro, sua avô lhe chamava besouro.

Acabou fazendo medicina, ao mesmo tempo que sua avô lhe ia ensinando o segredo das folhas, raízes, todas as ervas, para que serviam.

Ele tinha um dom, ela comentou que ele devia isso a Ossaím, que era o orixá dessa parte, sua missão era curar.

As vezes colocava sua mão em cima de um paciente, sabia imediatamente aonde estava o problema.

Os professores se encantavam com sua intuição, diziam eles, mal sabiam que era um dom que tinha.

Agora aos 30 anos, descia o morro, com sua maleta de médico nas mãos, tinha ido ver sua avó, que não estava bem, aproveitou para olhar todos os santos, fazer algumas obrigações.

Todo mundo dizia que ele era antigo, pela maneira de se vestir, estava sempre com roupa branca de linho, tudo perfeito, calças, casaco de linho, que sua mãe mandava fazer num velho alfaiate judeu lá pros lado do Saara.

Adorava um sapato bicolor, tinha vários.

Descia preocupado, cantando uma música que adorava, que era Canto de Ossanha, ou Ossaím, quando eu morrer me enterrem na Lapinha, calça culote, paletó almofadinha.

Trabalhava a muitos anos, no hospital da Lagoa, atendia a todos que necessitavam, até demais, sua mãe lhe chamava a atenção, assim nunca terás tempo para se casar, me dar netos, ela já tinha uma idade avançada, mas sonhava com isso.

Ele não podia lhe dizer a verdade, que nunca se casaria, que sua função estava para começar, com lhe dizer que em breve teria que substituir sua avó lá no morro.

Subia uma vez por semana, para aprender a jogar búzios, saber tudo que devia saber dos orixás, ele agora tinha uma coisa mais, era médico.

Teria que conjugar as duas coisas.  Os outros médicos, nunca entendiam como ele podia gostar do horário noturno de urgências.

Como lhes explicar, que saia dali, dormia umas quantas horas, subia o morro.

Quando subia, muita gente que não podia ir a um médico, sabia que podia ir até a casa de mãe Mirinha, que ele atenderia.

Sua mãe Marinha Guedes da Silva morreu antes de mãe Mirinha, foi um enterro interessante, muitos judeus, o marido apareceu, com certeza para saber do testamento, mas ficou isolado, pois já ninguém o reconhecia.

Foi lá prós lado do cemitério do Caju. O pessoal do terreiro estava em peso, um deles tinha conseguido ajudado por uns Ogans, descerem até a parte baixa, aonde um taxi de um deles a levou, até o cemitério.   Alguns judeus reclamaram, mas o rabino da sinagoga que ela frequentava em Copacabana sabia de sua história, bem como tinha subido umas quantas vezes para falar com Mãe Mirinha.

Quando o viram se curvar diante dela, bem como beijar suas mãos, ficaram quietos, os dois fizeram uma bela oração por sua mãe, ele a adorava, estava desconsolado, com sua morte.

Dois dias depois o advogado o visitou, lhe contou que o filho da puta do coronel, tinha ido ao seu escritório para saber se não tinha direito a nada, vivia de uma pensão miserável do exército, mas claro o testamento era claríssimo, tudo ficava para ele.

Agora era resolver o que fazer com todo esse dinheiro.  Primeiro deu um jeito no terreiro de Mãe Mirinha, um banheiro novo para os banhos, arrumou o quarto que era dela, para quando necessitasse ficar ali, ela sempre que ele se oferecia para melhorar as coisas dizia que não eram importantes.

Os filhos de santo o respeitavam, isso era o importante, quanto tinham algum filho destes com problemas era ele que resolvia, de uma certa maneira conseguiu espantar os traficantes de drogas dali.  Tinha apoio do Major Silveira, um viúvo, com uma filha problemática, com quem ele conversava sempre, não queria estudar, ele conseguiu um emprego para ela num hotel na praia, ia bem.

Agora nos dias que tinham festas na praia, ele bem como o major Silveira, faziam uma ronda, não deixando os jovens roubar, ou mesmo se prostituirem.

A tempos tinha conseguido retirar da prostituição um rapaz muito bonito, Jonas Hauster, um jovem gaúcho, que tinham abusado em sua terra, fugiu para o Rio, pensando em conseguir um futuro, mas não tinha estudos, era bonito e frágil demais para trabalhar pesado.

Ele o socorreu uma vez no hospital, no turno da noite, quando abusaram dele outra vez.  Começou a conversar com ele, dizendo que sua mãe também era do Rio Grande do Sul, ele a principio não acreditou, pois Besouro era mulato sarara.

Lhe mostrou uma foto dela que tinha na carteira, aí ele acreditou, contou que ela tinha lhe dado oportunidades na vida, nasci no morro, ela me adotou, me deu estudos, que é o que precisas.

Já sabia dele, por ter visto no jogo, que um rapaz ia necessitar dele, sabia que depois desse viriam muitos, por isso criou com todos os rendimentos que tinha um fundo.

Como o apartamento tinha quartos demais, arrumou de uma maneira que pudesse receber alguns jovens para lhes dar futuro.   A princípio os do edifício reclamavam, mas os ensinou a serem educados, abrirem a porta do elevador para alguma senhora, ajudar a subir as compras, dizer bom dia a todos.  Em breve eram queridos de todos, um casal inclusive adotou um deles.

Um dia foi a uma reunião dos residentes, explicou o porquê o fazia, eu fui adotado, minha mãe Dona Marina, me deu tudo, cheguei a médico por causa dela.

Fazia uma coisa, atendia os com mais idade, que viviam ali sozinhos.

Nesse dia havia um show na praia, estava sentado num banco de pedra no calçadão, conversando com o Jonas a respeito de um jovem que estava por ali, lhe orientava, como devia se aproximar, para não o assustar, lhe deu dinheiro para lhe pagar um sanduiche.

Sentia que alguém o olhava, quando virou para trás, viu um médico com quem tinha tentado um relacionamento, mas esse quando descobriu que ele era pai de santo, por isso trabalhava só de noite no hospital, tinha se afastado.

Veio se sentar furioso no banco com ele, queria uma explicação sobre o Jonas, o conhecia como prostituto.   Lhe cortou, não é mais, agora está sobre minha proteção, me ajuda com os jovens que estão por aí perdidos, sendo obrigados a se prostituirem, cuido deles, os encaminho na vida, nisso parou o Major Silveira, lhe perguntou por sua filha, saiu mais cedo não foi para casa.

Major, ela é jovem, precisa se distrair.   Olho em direção a multidão, a viu sentada na praia com umas amigas.  Vê está ali com umas amigas.

Quem homem é esse? Lhe perguntou Jairo Barbanegra?

É o Major Silveira, me ajuda no morro, com os poucos delinquentes que sobram, é meu Ogan no terreiro.

Ou sejas estas bem servido, um que é lindo, que se prostituia, com esse também fazes sexo?

Tu continuas pensando só nisso, verdade, há muito mais num relacionamento que só sexo.  Não o faço com nenhum dos dois.   Mas com o Major talvez faria, pois é um homem sério.

Ah, soltou, viu que Jonas tinha conseguido se aproximar do rapaz, lhe dava um sanduiche, se sentava ao seu lado.

Ficou em silencio, observando, foi interrompido pelo Jairo.

O que ele está fazendo?

Esse jovem apareceu a uns dias por aqui, tem dormido na praia, mas não deixa ninguém se aproximar dele, o está fazendo, para sabermos como o ajudar.

Depois de um tempo, viu que ele trazia o rapaz até eles.  Jonas quando viu o Jairo, soltou, o que faz esse filho da puta ao teu lado.

Trabalha comigo no hospital.

Fez sexo comigo, mas não me pagou, nem me ofereceu um copo de agua, ou uma comida, só pensava no prazer dele mesmo.

A cara do Jairo veio ao chão.

Ele o ignorou, passou a conversar com o jovem.

Ele era de Jacarepaguá, tinha sido expulso de casa pelo pai, pois este o viu beijando um amigo, o pai era do exército, o colocou na rua.    Com o pouco de dinheiro que tinha, vim parar aqui em Copacabana, mas todos querem isso que diz o Jonas, sexo.

Se levantou, disse baixinho ao Jonas para ir com o Major até seu apartamento, arrumar uma cama para o rapaz, melhor no teu quarto, assim ele sabe que tem alguém em quem confiar.

Foi conversando com o rapaz, o que tinha estudado, como era sua vida.

Jairo só escutava.

Lhe perguntou o que sonhava fazer?

Terminar o curso que faço, ir à universidade, tinha que tirar boas notas, pois só conseguiria ir com bolsa de estudos, mas com a crise, na escola sempre falam que estão escassas.  Queria fazer medicina, me especializar em Pediatria, para cuidar de crianças.  Vejo muitas lá em cima, se referia a Jacarepaguá, abandonadas a sua sorte.

Quando chegaram ao Leme, disse, estou te levando para minha casa, não se preocupe, mandei Jonas na frente para arrumar uma cama para ti.

O rapaz disse que se chamava Heitor dos Prazeres, quando viu o apartamento, ficou de boca aberta, o Jairo também, eu fui retirando os moveis antigos, pois ocupam muito espaço, na sala de jantar tinha uma mesa imensa.

Jonas levou o Heitor para tomar um banho, tenho umas roupas que podem servir para ti.

Na cozinha o Major estava preparando comida para todos, pela cara como o Jairo o olhou, disse, eu moro aqui com meu pai Besouro, assim ajudo com os meninos.

O que impressionava o Jairo era a quantidade de comida, mas depois entendeu, eram uns cinco garotos de tamanhos, cores diferentes, negros, brancos, mulatos.

Todos vivem aqui contigo?

Sim, vou procurando encaminhar, se os coloco na mão dos assistentes sociais, o primeiro que fazem é leva-los para um albergue, em seguida fogem, pois são abusados lá.

Daqui, um casal do prédio, que vivem sozinhos, adotaram um, uma garota, uma filha minha de santo adotou também, procuro que saiam encaminhados, os maiores, procuro tirar documentos, nisso me ajuda o Major, assim podem trabalhar em qualquer coisa.

O convidaram para comer.   Se sentou com eles, ficou observando os garotos, comiam com prazer, ninguém refutava uma verdura.

Besouro se sentava numa cabeceira, o major na outra, prestavam atenção nos garotos.

O Heitor, comia com ânsia, o major disse que comesse devagar, senão ia passar mal de noite, tinha já outra cara, depois do banho tomado.

Besouro perguntou se sua mãe tinha concordado com a expulsão.

Nada, levou um belo tabefe na cara, pois o meu pai é metido a machão.  A estas horas estará preocupada por mim, pois o filho da puta sai para beber com os amigos.

Venha telefonamos para ela.

O garoto deu o número, perguntou o nome dela antes?

Todo mundo a chama de Rosa, mas é Rosario, eu adoro minha mãe.

Falou com ela, se identificou, ela disse que uma vez ele a tinha atendido no hospital.

Disse que seu filho estava em sua casa, passou o telefone para ele, foi contando que graças a deus tinha encontrado o doutor Besouro, mas notou que ele estava alarmado.

Perguntou o que era?

Ele lhe deu uma surra de fazer gosto, mas não a deixa ir ao hospital.

Jairo, podias ir com o Major is buscar a senhora, me temo que esse homem seja violento.

Telefonou para ela, disse que fizesse uma bolsa de roupa dele, bem como do Heitor, que dois amigos iam busca-la, aqui ele não poderá maltrata-la, um deles é médico, o outro é o Major Silveira, é da polícia, fique tranquila.

Se fechou na biblioteca, Jonas organizou com os meninos, limpar a mesa, bem como a cozinha, depois colocou todos na cama.

Quando entrou na biblioteca, Besouro estava sentado diante de sua mesa de jogo, tinha duas uma na casa de santo, outra ali, para ele pudesse consultar.

Enfim respirou fundo, tudo deu certo, a mãe do Heitor está vindo para cá.   Diga a ele que fique tranquilo.

O Major Silveira, usava um dos quartos da área de serviço, que tinha um banheiro grande, bem como uma pequena varanda, pediu ao Jonas que arrumasse o outro quarto, vou dar uma olhada nos meninos.

Isso ele fazia até com os maiores, nos dias que estava em casa, ia a cama de cada um, arrumava direito os mesmos, como sua mãe fazia com ele, lhes dava um beijo na cabeça.

Quando horas depois chegou chegaram com a senhora, viu que ela tinha muitos hematomas pelo corpo, entre os dois, a examinaram para ver se necessitava ir a um hospital.

Lhe deram uma toalha de banho, o Major já tinha alguma coisa na mesa para ela comer.

Ele enquanto isso explicou para ela o que fazia, contou que tinha sido adotado, que tinha herdado o apartamento, bem como tinha uma boa renda, ajudo esses meninos ir para frente, bem como minha mãe fez comigo.  Nunca me sobra muito tempo, pois trabalho de noite no hospital, de dia normalmente estou na minha casa de santo atendendo as pessoas que necessitem, ou mesmo examinando como médico, lá no morro, nenhum médico se atreve a subir, então os velhos ficam desamparados.   Agora vou montar um pequeno dispensário para atender essa gente.

Esse dinheiro tem que servir para alguma coisa.

A cara do Jairo era ótima, só o conhecia de uma noite de sexo, nada mais.

No hospital, ele era o médico que menos falava, estava sempre com algum paciente que necessitasse de alguma coisa a mais.

A senhora pode ficar aqui o tempo que for necessário, de uma certa maneira, até é bom para seu filho, pois assim podemos conseguir alguma escola para ele, eu mesmo estudei aqui na do Lido, o Major pode ir com a senhora a escola de seu filho, assim conseguimos sua transferência.

Mas como vou pagar sua casa.

Nada, basta ajudar o Major com os garotos, já será ótimo, as cozinheira e arrumadora da casa, se aposentaram quando minha mãe morreu, mas tinham já muita idade, agora temos uma pessoa que traz um menu de comidas congeladas, que estão num frigorifico, foi a única que fazia as coisas em grande quantidade, os garotos sempre têm fome.  A maioria passaram mal vivendo nas ruas.

Heitor despertou com sua mãe, lhe afagando a cabeça, o fez adormecer, disse ao Jonas que fosse dormir, amanhã tens aula.

O Jonas estuda? Lhe perguntou o Jairo?

Sim, esta fazendo o último ano, mas está atrasado, quer ir a universidade, mas não tem nada decidido.

Ai como fazes?

Tenho um fundo para isso, os meus lucros, retiro só os dos impostos, o resto vai para isso, não tenho luxos, me basta uma cama para dormir, as vezes fico nos dias de folga lá no morro, tenho um quarto na casa de santo.

Estou pensando tirar uma licença do hospital, pois cada vez tenho mais filhos de santo.

Me desculpa ter pensado mal de ti?

Eu sei, estas perdido verdade, vives sozinho, tua família não te quer por perto, por ser gay, então teu mundo virou procurar por sexo, era isso que fazias ali na praia, verdade?

Sim, mas quando te vi, me lembrei que passei bem contigo, mas sempre foste muito fechado, não entendia, talvez por isso quando te vi com o Jonas, pensei que gostava disso.

Eu ao contrário quando estive com ele, sentia vergonha de ter que usar um prostituto, mas não pensei do lado dele, que necessitava de mais do que sexo.

Vou me emendar, vou te ajudar com esses garotos.

Se despediram o dia começava a amanhecer, sabia que ele voltaria, tinha encontrado alguém para ir em frente.

Jairo agora vinha todos os dias, se sentava com os garotos para os ensinar ou ajudar nos estudos.

Heitor já estava com aulas na escola ali perto, ele viu que o Major se interessava pela sua mãe, mas conversou com ele, este ria, não penso nisso, apenas é uma pessoa com quem posso falar, se fosse ter um romance seria com uma pessoa que já amo a tempos.

Os meninos se interessavam em ir as cerimonias na casa de santo, ele ao contrário de Mãe Mirinha, era mais aberto, mas avisava logo, se vinham atrás de uma oferenda que incluía matar um animal, dizia que os Orixás não queriam isso.

Muitos não voltavam, quando pediam isso, para abrirem caminhos, para alguma coisa fútil, inclusive descobrir o número da mega sena, achava isso uma idiotice.

Depois de um tempo, viu que Jairo se dedicava de corpo e alma ao Jonas, os dois acabaram indo viver juntos, mas estavam sempre ali para ajudarem os outros garotos, a cada um que saia dali para uma vida melhor, logo aparecia outro, era como que encaminhados.

Acabou deixando o hospital, montou com Jairo um dispensário ali ao pé do morro, para atender os dali, os encaminhavam para algum hospital, se o caso fosse grave, necessitando de um hospital particular, os dois mexiam seus pauzinhos para ajudar.

Jairo agora conversava muito com ele, sempre tinha se sentido sozinho, diferente dos outros, mas não sabia como resolver isso, agora estava feliz com o Jonas, bem como ajudando os outros garotos.

A mãe do Heitor, conseguiu finalmente um divórcio, complicado, abriu mão de qualquer dinheiro do ex-marido, assim a coisa ficou mais fácil, ajudava na casa tudo que era possível, quando Heitor entrou para a Universidade de Medicina, ela ficou imensamente feliz.

Um dia o Major disse que tinha se cansado.

Na hora não entendeu.

Nem parece que sabes jogar búzios, jogas para todo mundo, mas nunca vês nada para ti, ele era uns 8 anos mais velho de Besouro, segurou sua cara entre suas mãos, lhe deu um beijo prolongado.

Aí ele entendeu, que quando jogava para o Major, a pessoa aparecia oculta.  O relacionamento dos dois era completo, pois compartiam tudo, ele entendia o que o outro fazia, como dizia sempre se fosse um outro herdeiro, já teria gastado o dinheiro todo em besteiras.

Dizer que viveram felizes e comeram perdizes, isso seria uma aberração, pois todos os dias lidavam com garotos ou rapazes com problemas sérios, eles faziam tudo para ajudar.

Quando conseguiam, se sentiam satisfeito, Pai Besouro, era respeitado, porque na sua casa de Santo não existiam besteiras, nada de enganar as pessoas que vinham, ele dizia antes de jogar, que se não gostasse de sua maneira de falar, sentia muito, mas ele diria a verdade, por pior que fosse.   Alguns casos enviava diretamente ao ambulatório, Jonas tinha feito um curso de enfermagem, ajudava todo o tempo possível o Jairo.  Além disso, davam emprego a mais duas enfermeiras que atendiam as mães quando chegavam com crianças com problemas.

Sua casa nunca estava vazia, a cada um que encontrava seu caminho, aparecia outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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