JONAS JONES

 

                                              JONAS JONES

             

 

 

Nunca poderia explicar o porquê desse nome, tinha na época entre 15 para 16 anos, sua mãe foi com ele a cidade maior perto da fazenda do avô, seu nome era realmente Jonas, Jones era de seu irmão gêmeo que tinha morrido a um ano atrás.   Sua mãe conseguiu como ele era alto e forte pelo trabalho no campo, que fosse registrado como tendo 18 ano, assim seria maior de idade, tiraram carteira de motorista, o homem ficou impressionado com ele no teste.

Depois foi a um banco que a matriz era em Chicago, abriu uma conta para ele, depositando uma boa quantidade de dinheiro, disse ao gerente que era da herança do avô, que tinha morrido um pouco antes de seu irmão.

Na volta passaram numa cidade, ela ficou olhando carros de segunda mão, se decidiu por um furgão usado, ela entendia de motores, examinou o mesmo a consciência, na volta lhe disse, vais, colocas esse furgão na estrada que está por detrás da montanha, eu me encontro contigo lá, apareceu com o velho Jerry, que ele chamava de avô Jerry.   Camuflaram o carro.

Na volta passaram pelos túmulos de seu irmão e do avô.  Este tinha pegado um tiro em sua própria cabeça, andava muito mais confuso que o normal, tinha uma neurose de guerra do Vietnam, o único que conseguia o controlar era o Jerry, que vinha cuidando dele a muitos anos.

Sua mãe Wendy, parecia um garoto, podia passar por seu irmão, usava os cabelos muito curtos, sempre estava de macacão, como quase não tinha seios, parecia um garoto.

Viviam em Dakota do Norte, num lugar em que a fazenda mais próxima estava a cinquenta quilômetros, a vila mais próxima, a uns oitenta quilômetros, para o outro lado, estava a estrada que ia para Chicago.

Depois que seu irmão morreu, sua mãe contou sua história para ele, nesse dia seu avô estava sentado ao lado do Jerry, escutava com os olhos fixos na distância.

Ela tinha estado ali, todos os anos que o pai tinha estado no exército, com a mãe, além de um mexicano, que a ajudava a cuidar da fazenda, quando seu pai voltou, ferido, com a cabeça complicada, sua mãe achou melhor ela ir para uma cidade grande.  Foi viver com sua tia em San Francisco, uma viagem extenuante.

Lá uma garota de vila, se deslumbrou, em vez de estudar queria era viver.   Se meteu em muitas confusões até que a tia se fartou, a colocou na rua.  Lá conheceu meu pai, bem como seu irmão gêmeo, os dois eram completamente loucos, viviam na drogas, de golpes.

Um dia se deu conta que se tinha perdido, estava gravida, não sabia o que fazer.  Me contou que meu pai, disse que ia dar o melhor golpe de sua vida.

Ela só tinha que conduzir o furgão que tinham roubado.  Mas tudo saiu errado, quando saíram do banco, dois seguranças foram atrás deles, atiraram no irmão, meu pai voltou para o ajudar disse para ela se mandar para o esconderijo deles.

Ela foi embora, com duas bolsas cheias de dinheiro, mas pensou bem vendo o jornal da televisão, os dois iam para a prisão, pois tinham atirado numa senhora do caixa.

Seria sem dó nem piedade, pois a senhora, estava na sua última semana, antes da aposentadoria, então não teriam simpatia do jurado.

Ela comprou de segunda mão uma caminhonete, tomou caminho para casa.

Quando chegou, já tinha a barriga grande, tinha feito uma volta imensa, para não ser descoberta.  Dormia na caminhonete todo o tempo, tomava banhos nos postos de gasolina.

Sua mãe já tinha morrido, Jerry e o mexicano José, cuidavam de tudo, seu pai passava o tempo todo mergulhado em velhos livros, que roubava numa livraria da vila, Jerry tinha um combinado com o dono da mesma, este deixava ele levar os livros, mas Jerry pagava por eles.

Foi nesses livros que aprendi a ler, que me apaixonei pela literatura, amava os livros, isso que nunca fui a escola, era impossível, ali não passava nenhum ônibus para levar as crianças.  As que tinham os pais com algum conhecimento, aprendiam a ler e escrever, mas a maioria era semi analfabetos.

Por sorte, aprendera tudo com sua mãe, com Jerry, que lhe ensinou matemática de uma maneira simples.  Seu irmão Jones, não se interessava, tinha um certo retraso em algumas coisas, tanto que morreu da maneira mais besta.

Estava em cima de um cavalo, adorava isso, voltou para resgatar uma vaca que tinha ficado parada, não se movia de maneira nenhuma, ele não viu que ela estava cercada de serpentes, o cavalo empinou, ele estava distraído, caiu batendo a cabeça numa pedra, morreu no ato.

Quando o encontraram, ele estava cercado pelas serpentes, uma mãe com uma tocha, afugentou todas para recuperar o corpo.    O enterrou aonde se enterravam todos que viviam a muitos anos ali na fazenda, sua mãe, seus avôs, enfim todos que tinham vivido sempre, nada de padres, o mais próximo estava muito longe, depois foi o meu avô, num dia que ela e Jerry bem como eu estávamos no campo, sentado na varanda, foi atrás de seu revolver, enfiou o cano na boca, acabou com sua vida.

Eu estava acostumado desde pequeno, de manhã me jogar na cama deles, os dois dormiam juntos, ele fazia isso agarrado ao Jerry.   Depois me contaria, que tinham se apaixonado na guerra, ele tinha salvado muitas vezes a vida de seu capitão.

Jerry era um negro de mais de dois metros de altura, forte como um touro, foi outro que morreu de uma maneira tonta.

Tinha sido no ano passado, cortando lenha, uma lasca cortada, entrou em sua perna, aquilo inflamou, ele simplesmente a tinha arrancado como se nada.  Virou uma gangrena, acabou morrendo chamando pelo amor de sua vida, meu avô.

Minha mãe sempre encarou esse relacionamento com naturalidade, o que para nós que os vimos desde criança juntos, era normal.   Havia uma coisa interessante, Jerry se levantava, chegava perto dela, dizia baixinho, leve os garotos para longe, hoje será um daqueles dias.

Meu avô levantava gritando, que estavam para chegar, cercar a casa, que ia ser um inferno.

Só o convencendo de tomar seus comprimidos, com muita calma, era que Jerry o tranquilizava, o chamando de capitão todo o tempo.  Para quem tinha aquele tamanho todo, ele com uma voz tranquila, dizia “capitão não se preocupe, que os que iam na frente dominaram o perigo, desapareceram todos”.

Meu avô olhava serio para ele, “então, estamos a salvo”.

Jerry concordava é claro.

Em casa além dos livros, só tínhamos a rádio.  Quando ficamos só os dois, tínhamos arado a terra, pois anunciavam nevadas, assim a terra depois quando houvesse sol, absorveria a água, depois na primavera, arávamos outra vez uma terra mais húmida, era mais fácil plantar.

Escutou que meu pai, bem como seu irmão tinha saído da prisão.

Temos que nos preparar me disse ela, levou o dinheiro para o furgão, uma parte já estava no banco, atrás do banco da frente estava o pneu de reposição, tirou a câmera do mesmo, era ainda dos antigos, colocou ali o dinheiro que restava.

Eu tinha aprendido a atirar com o Jerry, segundo ele, eu seria um franco atirador dos melhores se fosse a guerra, mas que nunca fizesse tal besteira.  Olha como voltou teu avô.

Eu obedecia cegamente tudo que ele me dizia.  Ele adorava meu irmão, dizia que ele tinha uma inocência impressionante.   Minha mãe ao contrário dizia que como tinha nascido depois, tinha ficado um tempo sem respirar, tinha sido o Jerry que o ressuscitou, talvez tivesse faltado oxigênio no cérebro.   Ele sempre tinha andado atrás de mim como um cachorro perdido, hoje sinto sua falta, mas creio que ele não teria sobrevivido o que nos passou.

Eu levei as armas do meu avô, bem como as de Jerry, para a cova da montanha, as tinha bem cuidada, enroladas, em velhas camisas de flanela para proteger da poeira.

Em frente a cova, tinha uma árvore muito alta, a qual eu aprendi a subir, dali podia observar todo que se movesse em volta, inclusive quem chegava pela estrada.

Vi poeira, assoviei sinalizando para minha mãe, ela fez um sinal combinado, que eu ficasse ali.

Usava um binoculo do exército, vi que o carro parava, estava caindo aos pedaços, com certeza tinham roubado o mesmo.

Os homens que desceram eram iguais, mas vi que um comandava, esse devia ser meu pai, Joe, segundo minha mãe.

Pelo binoculo, vi que reviravam a casa inteira atrás do dinheiro.  Depois subiram a arrastando até o cemitério, ele deu ordem ao irmão, começaram a abrir as tumbas mais recentes, a do meu irmão, do avô, além do Jerry, todas eram mais rasas, chegaram a tirar os corpos para fora, para ver se as bolsas de dinheiro estavam ali.

Quando perguntavam a minha mãe, ela dizia que o dinheiro estava todo aplicado nas terras, que tinha esperado por ele, para seguirem cuidando da mesma.

Eu sou lá homem de cuidar de terras, quero o dinheiro para viver uma boa vida, depois desses anos todos na prisão.

Se matavam de rir, pois tinham aprontado muito.

Minha mãe perguntou como tinham chegado até ali?

Pelo visto os vizinhos não viam com bons olhos o relacionamento de teu pai, com esse negro, apontou o cadáver no Jerry.

Pensei que filhos da puta.

Arrastaram minha mãe de volta para a casa, não tive conversa, peguei o revolver do Jerry, bem como uma espingarda, ao lado da casa, tinha uma arvore, que subia ao que seria meu quarto, agora só tinha uma cama.

Então só tiveste um filho, perguntou o que seria meu pai.

Sim o outro morreu ao nascer, ela com o gênio que tinha ainda soltou, se vivesse seria tonto como teu irmão.

Ele ficou uma fera. Iam levantar suas roupas para abusarem dela.

Eu de aonde estava, peguei um tiro ao seu irmão, ele levou um susto, desci com a espingarda apontada.

Ah, disse meu pai, esse é dos meus, vou levar comigo.

Minha mãe tentava se libertar dele, lhe disse que a soltasse.

Mas nada, quando vi o que tinha ferido se levantou, me agarrou por detrás, vou comer o cuzinho do meu sobrinho dizia as gargalhadas.

O que ele não esperava, era que eu era bom em luta livre, quando viu eu estava com sua própria arma, na sua boca, lhe disparei.

Meu pai, deu um grito imenso, estava com uma faca no pescoço de minha mãe, agora vais ver, lhe cortou a jugular, ela ia se resvalando, eu lhe acertei com o revolver de seu irmão um tiro na testa, ele caiu para trás.    Mas era tarde, minha mãe se morria.

Me disse, cuspindo sangue, coloque fogo em tudo.

A deitei em sua cama, cruzei as mãos como tínhamos feito com Jerry e os outros,

Limpei a arma, coloquei com cuidado nas mãos do que seria meu tio, tinha lido isso num dos livros do meu avô.

Fui por gasolina, tínhamos muita, joguei em cima de cada um deles, fiz uma coisa que nunca me arrependi, fui até aonde estava os túmulos, peguei o meu irmão que estava enrolado num lençol, o levei para colocar ao lado da minha mãe, eu usava um cordão com meu nome, o tirei o coloquei nele.

Rociei os dois com gasolina, depois todo o resto da casa, inclusive por fora, liberei os animais, pois o fogo podia atingir o celeiro.

Coloquei fogo, iriam demorar dias que aparecesse alguém por ali, a não ser que passasse alguém pela estrada para ver a fumaça.

Voltei a enterrar meu avô, bem como o Jerry, no tumulo do meu irmão, coloquei toda minha roupa suja, cheia de sangue, rezei por eles, depois fui subindo, para  a cova, enterrei as outras armas, no mais fundo possível da mesma, fazia isso me lembrando quanto gostava de brincar ali com meu irmão.

Subi na árvore para olhar com o binoculo, se aproximavam carros, a casa já estava basicamente totalmente destruída, quase nos alicerces.

Fiquei ali, vendo as pessoas levarem os animais, pelo menos não morreriam de fome.

Quando anoiteceu, tirei tudo que cobria o furgão, ele estava numa cima, desci com o motor desligado, sem luzes, conhecia o caminho, só quando chegou na parte baixa, da estrada, foi que acendi o motor, logo estava na estrada para Chicago.

Não tinha parado para pensar, estava seguindo somente as instruções de minha mãe, tinha vestido as roupas que estavam na cova, estavam limpas, antes tinha me lavado num riacho que passava por dentro da mesma.

Sabia que alguém se aproveitaria, para usurpar as terras, afinal eram muito produtivas.

Creio que iriam pensar que tinham me matado também.

Parei na segunda cidade do caminho, entrei numa barbearia, pedi que raspasse minha cabeça, o homem a lavou bem, para ver se não tinha piolhos.

Comi alguma coisa que comprei num supermercado, segui viagem, tinha agora um mapa para seguir.  Tinha uma boa altura, mesmo assim quase chegando a Chicago dois dias depois, a policia me parou para pedir documentos.   Me disseram que eu tinha cara de garoto, que eu devia deixar crescer um bigode.

Passei a raspar o mesmo, até que nasceu um bigode sem vergonha, como eu diria, pois era ralo.

Arrumei um pequeno apartamento, desses para estudantes, procurei um emprego, transferi minha conta do banco para lá.

Aprendi rapidamente a me mover pela cidade, trabalhava de repartidor de uma empresa de pães, ia aos supermercados.   Fui me informando, procurei uma escola noturna, antes me fizeram um teste para saber que nível tinha.    Um ano depois, estava já a nível preparatório de ir a universidade.   Mas nem sabia dos curso que existiam.

Fui me informando, queria ser alguém, a cada salario que recebia, acrescentava um pouco do dinheiro que tinha guardado, assim chegou um momento, que segundo o gerente do banco eu era um cliente preferencial.

Quando acabei os estudos, fiquei na duvida se devia fazer uma universidade ou não.

Fui conversar com um homem de uma certa idade, que trabalhava como orientador do pessoal que tinha se recuperado estudando de noite.  Contei das coisas que gostava, ele me deu várias opções, direito, literatura, psicologia.

Contei para ele, como tinha aprendido ler, nos livros roubados pelo meu avô, alias os mesmo deviam ter ajudado a casa a se queimar.

Um dia fui a biblioteca, pesquisei nos jornais da época, da região, falavam num ajuste de contas, dos irmãos com minha mãe, no carro deles estavam os documentos, principalmente que tinham saído do presidio.    Ligaram uma coisa na outra.

Comentaram da minha morte, uma lastima, a senhora tinha perdido seus dois filhos.

Ninguém é claro foi olhar os túmulos.   Então para o mundo eu tinha morrido, era livre para seguir em frente.

Fui ao banco, perguntei se tinham filial em NYC, pois me mudava para fazer a universidade, um pouco atrasado, na verdade estava numa época certa, afinal minha mãe tinha aumentado minha idade.

Me informei aonde podia estudar literatura e jornalismo.

Os alugueis perto da universidade eram caros, numa imobiliária, me contaram que anos antes, viver no Village, Soho, Chinatown, Chelsea era barato, hoje, como estavam recuperados era caro.   Um rapaz negro me deu uma sugestão, ele vivia do outro lado da cidade, venho de metro, pela linha 1, me deixa aqui perto, fui por sua sugestão dar uma olhada, era o velho Harlem, que tinha mudado muito também, ele dizia que o que se via no cinema, hoje em dia era em outro bairro.  Que os Negros tinham sido obrigados a irem se mudando, pois os que viviam antes no Soho, Village tinham se mudado para lá recuperando casas.   Aonde ele vivia, era da família, nos oferecem muito dinheiro, mas minha mãe foi experta, conseguiu um empréstimo, comprou todo o edifício, aluga os apartamentos de cima.

Ao lado tinha um para alugar, um último andar, sem elevador.

Gostei da ideia, era pequeno, uma cozinha minúscula, um quarto que dava para a frente, justo com uma escada de incêndio.   A dona era amiga da mãe do meu novo amigo.

Me ria muito, pois ele se chamava Jerry também, saímos mais cedo em casa, claro pegávamos o metro, no início, aproveitávamos para ir estudando, ele só estudava jornalismo, eu claro amava descobrir o que tinha agora, autores mais jovens, literatura contemporânea, meu avô só lia autores antigos, pois os livros estavam super manuseados, imaginei que era o que chegavam ali.

Quando me perguntavam de aonde vinha, dizia que de Chicago.  Jerry arrumou um emprego num jornal, me falou de outro no NY.Times, era como se fosse um aprendiz, corria de um lado para outro, com os textos, as vezes aproveitava lia os mesmo, até chegar na mesa do editor.

Um dia li um, que me pareceu uma grande besteira, era de um crítico, falava de um livro que tinha acabado de ler, um jovem autor.

O editor me perguntou o porque da minha cara, eu nem conhecia direito o que tinha escrito, disse que tinha uma visão completamente oposta do crítico, pois tinha acabo de ler o livro, pensava que o estava vendo através de uma ótica antiquada.

Me mandou sentar-me, numa mesa ao lado da sua, me disse, escreva a mesma quantidade de palavras, eu tinha aprendido isso no laptop, que as palavras se mediam no final da página do Word.

Me sentei, reli o que ele tinha escrito, escrevi da minha maneira o que achava do livro, embora entendia que algumas pessoas pudessem achar difícil de entender.  Pelo pouco que sabia do autor, ele tinha sofrido abusos, tinha estado no exército, visto muita merda.

Entreguei ao editor, que leu,  foi fazendo anotações em um papel, depois chamou o que tinha escrito, soltou na cara dele, este rapaz escreveu um texto, pois achou que não tinhas entendido o livro, aliás, pelos anos que escreves, continuas fazendo os mesmo erros ortográficos de sempre, ele ao contrário não cometeu nenhum.

Não mencionas o que ele mencionou, porque esse homem escreve dessa maneira.

Lhe deu meu texto, para ele ler.   O homem foi ficando vermelho, olhou em minha direção, disse ao editor que exigia que me mandasse embora, senão iria ele.

O Editor, apontou com o dedo a porta, podes ir, estás parado no tempo, como falta pouco para tua aposentadoria, até logo, esses meses que faltam finjo que não vejo.

Publicaram meu texto, meu trabalho seguinte, seria conseguir uma entrevista com o autor, que ninguém conseguia, falei com a editora, me falaram que ele não dava entrevistas.

Contei que acabava de publicar uma crítica do livro, o homem da editora respondeu, que tinha sido o único com uma crítica favorável.

Talvez porque eu seja jovem, vejo de outra maneira o que ele escreve.

O homem me convidou para almoçar, era uma arapuca, ele tinha um almoço com o escritor, me apresentou como Jonas Jones, mas não disse que eu estava agora como jornalista.

Conversamos, eu lhe contei que entendia o que tinha escrito, lhe falei do meu avô, como roubava livros, que a única maneira que sua neurose não fosse além era essa, o que ele mais gostava era desses livros, romances de capa espada, de jovens desprotegidas, esperando o príncipe encantado.   Aprendi a ler e escrever nesses livros.

Me perguntou se eu estudava?

Sim retomei meus estudos um pouco tarde, estou terminando literatura e jornalismo.

Ai ele se deu conta, tu foste o que escreveu a crítica do NY.Times?

Fui honesto, lhe disse que sim, que tinham me pedido que fizesse uma reportagem com ele, para a revista do domingo.

Caiu na gargalhada, me enganaram, isso é uma cilada.

Mas saímos dali, fomo andando até a estação do metrô, me perguntou aonde vivia, eu lhe expliquei, vivemos então perto um do outro.

Fomos juntos para casa, ele perguntou que queria ir até a sua, nossos apartamentos era parecidos, ficamos conversando, ele estranhou que eu não anotasse nada.  Bati o dedo na cabeça, eu vou memorizando tudo, comecei a repetir o que ele tinha dito desde o começo, me chamou de papagaio.

Assim nasceu nossa amizade, John tinha sido criado num orfanato, saiu dali para o exército, sofreu abusos desde criança, só no exército quando criou corpo, pode estudar, aprendeu a se defender.

Me contou que tinha descoberto muitas coisas, a muito pouco tempo, aliás os dois éramos assim, combinamos de no domingo ir a um museu, queria ver como eu via os quadros, me contou que estava escrevendo uma história baseada na vida de um amigo dele. Que tinha morrido torturado pelos talibãs.

Adorava a pintura, podia falar horas de seus pintores favoritos.

Fui com ele no domingo, aproveitei que tinha que estudar no sábado, para uma prova final em literatura.

Foi um dia fantástico, fazia um sol maravilhoso, vimos a exposição no MOMA, depois fomos andar no Central Park, comemos um sanduiche, ele rindo me disse, que eu tinha uma coisa que ele invejava, inocência.

Lhe disse que não era tão inocente assim, que já tinha visto muita coisas horríveis, não ia dizer que tinha de vez em quando pesadelos, com o que tinha acontecido com minha mãe, sonhava sempre vendo desde longe a casa pegando fogo.   Por sorte o vento estava em sentido contrário, senão teria sentido o cheiro de carne queimada.

Sabe, soltou de repente, se não fosses tão jovem, era capaz de me apaixonar por ti.

Fomos para sua casa, lhe confessei entre beijos, que era virgem em todos os sentidos.

Foi como descobrir um mundo novo.   Só me disse uma coisa, não quero viver com ninguém, tenho medo.

O editor, agora mandava todos os livros que acabavam de lançar, em breve minha biblioteca foi aumentando, eu tinha sobre o que escrever, fazia matérias para a revista de domingo.

Foi conhecendo arte, as vezes ia com John, que tinha uma maneira diferente da minha de analisar os quadros, isso aprendi a fazer, lia sobre o pintor, ou escultor, depois analisava de uma maneira como veria um experto em arte, e depois como eu o via.

Logo me mandavam escrever matéria sobre a mesma, agora ganhava melhor, tinha até uma estante com livros que ia recebendo.  As outras editoras, me convidavam para os lançamentos, mas eu fazia questão de ler antes, para saber de que iam os livros, me informava sobre os escritores.

Um dia, ele se sentou muito sério comigo, estava tendo surtos com as neuroses que tinha, que NYC, era um caos em sua cabeça, que as vezes não podia escrever.  Me passou o texto que não tinha apresentado ainda sobre seu amigo pintor.

Foi quando descobrir que o mesmo tinha sido a grande paixão de sua vida, que escrever sobre ele, o tinha feito reviver tudo que tinha acontecido.   O texto estava confuso.

Perguntei se podia reordenar para ele, tivemos mil conversas sobre os dois.

Apesar de adorar estar encostado a ele, vi que agora, me repelia, pois na verdade eu sabia muita coisa a seu respeito.

Quando o texto ficou pronto, ele levou para o editor, foi me buscar no trabalho, saímos para nos sentar num restaurante de calçadas, me disse que já tinha feito suas malas, ia para viver um tempo numa cabana numa praia, mas que não o procurasse, preciso me curar.

Sabes demais sobre mim, isso eu não posso suportar, sem querer viste mais do que eu mesmo, meus sentimentos.

Eu entendia, pois tinha lido o texto, o tinha reordenado, feito perguntas que não estavam ali, mas que se subentendia.

As semanas seguinte dei graças a deus ter meu lugar, foi quando soube que a senhora vendia o apartamento, pois precisava de dinheiro.   Lhe perguntei quanto queria, estava acostumado na minha toca, o comprei com o dinheiro que tinha guardado, afinal esse filho da puta roubou por alguma coisa.

Fiz algumas reformas, as vezes me encontrava com o Jerry que estava furioso, pois não lhe davam muitas oportunidades no jornal que estava.

Tinha sonhado em sair pelo mundo escrevendo, mas isso não acontecia.

Eu embora estivesse dentro da minha área, sentia falta de algo mais.

Numa das minhas férias, eu normalmente ficava, me sentia perdido na cidade, resolvi fazer uma viagem, fui a Londres, conhecer os museus de arte moderno, depois fui para Paris.

Me pediram para escrever matérias sobre esses museus, dei graças a deus, por não me pedirem escrever sobre museus como o Louvre.

Eu os achava um monstro.

Durante a viagem, tive várias vezes pesadelo com o incêndio, talvez porque estava relaxado, me vinham na cabeça detalhes que tinha esquecido no fundo da minha cabeça.

Comecei a pensar, se tivesse seguido todas as ordens de minha mãe, a teriam matado igual, depois ido embora, ou teriam ficado ali escondidos.  Desmontando a casa para ver se encontravam o dinheiro, creio que nunca pensaram que ela era inteligente.

Quando voltei, li um artigo, sobre um companheiro de prisão dos dois, como se vangloriavam de abusar dos jovens que chegavam no presidio.

Dizia que meu pai, tinha minha mãe, porque ela se parecia com um garoto, os dois irmãos adoravam abusar dos garotos.   Ela era quem conduzia o carro para eles, foi ela quem me ensinou a dirigir.

Li o artigo, procurei me informar sobre o sujeito, quando consegui uma entrevista, minha primeira pergunta foi como os tinha conhecido, fui claro não quero historietas, se queres posso escrever sobre tua vida, mas exijo a verdade.

Me contou então que quando entrou no presidio, ele tinha 18 anos, que os dois foram os primeiros em abusar dele, as vezes eram os dois ao mesmo tempo, falou que realmente o mais velho, protegia o outro, porque como dizia “ele tinha poucas luzes”,  não era muito inteligente, seguia o irmão por todos os lados, mas adorava abusar de algum rapaz.

Depois me contou toda sua vida, fui me encontrado com ele várias vezes, até que tive sua história inteira, ao contrário de outros que saiam de um orfanato, ou casa que cuidavam de menores, ele tinha ido de adoção em adoção, de abusos em abusos.

Abri mão do direitos do livro, assim ele poderia ter um dinheiro para viver sua vida, seu medo era cair nas drogas.   Me informei sobre uma comunidade, ele foi viver lá.

O editor ria muito, fizeste um belo trabalho de jornalismo, devias escrever mais livros.

Finalmente me sentei para escrever como via a história do meu avô e do Jerry, me sentava procurava recuperar na minha cabeça, desde a infância, a primeira vez que me lembrava de me jogar na cama deles, encontrar os dois abraçados, nos metermos no meio.

Depois fui escrevendo como o Jerry contava, que meu avô tinha saído do campo, para o exército, deixando para trás a mulher e a filha, mas nunca tinha vivido outra vida, desconhecia o mundo fora de Dakota do Norte.

Tinha se conhecido no ônibus que os levava ao primeiro acampamento, Jerry ao contrário vinha de uma cidade grande, ninguém queria se sentar perto dele, primeiro pelo seu tamanho, depois por ele ser negro.  Segundo ele meu avô não tinha esse tipo de preconceito.

Se fizeram amigos a partir desse dia, se apoiavam mutuamente, ele insistiu que meu avô aproveitasse as oportunidades, estudasse, como ele fazia, foi assim que chegou a capitão.

Depois foram juntos para o Vietnam, os horrores viveram juntos.

Jerry ao contrário dele que vinha de uma vida, vamos dizer bucólica no campo, vinha de um gueto, aonde o trafico de drogas, as guerras entre gangs, estava no dia a dia, então estava acostumado a sair da escola, ou ir ao armazém, encontrar alguém morto com um seringa no braço, ou um tiro na cabeça.

Talvez por isso não lhe afetou tanto como meu avô, que segundo o Jerry, só tinha visto sangue no parto de sua filha.

Este conseguiu que Jerry fosse seu ajudante, assim compartiam quarto, finalmente cama, agora entendia que meu avô não tinha podido ficar longe dele.

Um tinha salvado o outro varias vezes, Jerry tinha meu avô como seu deus, o seguiu na volta até Dakota do Norte, por isso, não saberia viver sem ele.

Como minha avó que tinha aprendido a viver sozinha aceitou isso, mas queria algo melhor para sua filha, por isso a mandou estudar em San Francisco, tinham vivido em harmonia, embora as pessoas falassem deles.

Reordenou o livro inteiro, começou por essa saída do avô do campo para ir ao exército, do encontro dos dois, até a velhice, como adorava o avô Jerry, pois o tinha ensinado a ler, direito, com ele discutia os livros, que seu avô real lia.   A história dos roubos dos livros, meu avô tinha sua entrada na biblioteca da cidade, proibida, pois nunca devolvia os livros, se sentava numa mesa, enfiava um livro nas calças, ia embora.

Depois eram as livrarias, aonde roubava os livros que ficavam nas bancas, em oferta, normalmente de segunda mão, romances agua com açúcar que gostavam as mulheres.

Pois ele lia e relia o mesmo, as vezes soltava alguma gargalhada sonora, por alguma coisa que era uma pura fantasia.   Ao final do livro, fechava o mesmo, dizia ao Jerry, como as mulheres são complicadas, olhava minha mãe dizendo, tai o resultado.

Mas também podia passar semanas sem dizer uma palavra, por estar lendo um livro complicado, Jerry em seguida lia o mesmo para entender porque ele ficava quieto. Ao final me passava, para saber o que eu pensava no assunto.

Hoje em dia fico pensando nisso, um garoto que tinha aprendido a ler nesses livros, quando tinha uma palavra que não sabia, ia perguntar aos dois.   Um dia meu avô apareceu com um dicionário, que tinha roubado, ali eu consultava o que queria dizer essas palavras.

Foram os dois homens que amei primeiro.  Já falar do meu irmão, foi outra catarse, pois como falar de uma pessoa que fisicamente era idêntica a ti, mas diferente como a agua e o vinho.

Todos seus interesses estavam voltados para os animais, aprendeu a ler e escrever, por insistência do Jerry, achava uma grande besteira isso.   O mais interessante, era que vivia grudado a mim.   Muitas vezes, principalmente no inverno, despertava com ele colado a mim.

Tenho frio me dizia, achava que estar comigo o protegia.

No dia que lhe aconteceu a tragedia, eu vinha num cavalo muito mais a frente, por isso não vi quando caiu, que sentiu sua falta foi o Jerry.

Nos primeiros dias fiquei desconsolado, mas depois escutando minha mãe e Jerry falando, me surpreendi, pois ela soltou que era igual meu tio com meu pai, o seguia como um cachorro.

Disse que as vezes estava fazendo sexo com meu pai, o outro deitava do lado para ficar olhando.  Quando ela reclamava, ele dizia que estava aprendendo.

A história do Jerry com meu avô, o livro vendeu como água, para minha surpresa, foi considerado como um livro LGBT, eu achava que era a história de duas pessoas.

Me convidavam para falar em associações sobre o mesmo,  claro que ia, achava interessante as perguntas que me faziam.

Um dia um jovem ainda com uniforme militar se aproximou, para falar comigo, me convidou para tomar um café, lhe disse que tinha o corpo cheio de cafeína, pois tomava muitos enquanto escrevia algo para o jornal,

Nos sentamos, me contou que tinha amado o livro, que nunca tinha imaginado ler num livro, escrito sem preconceitos.

Ele tinha perdido seu companheiro, eu entendia que as pessoas retornavam da guerra com uma série de problemas, contei a ele do meu primeiro amor.

Este nem sabia se estava vivo, nunca mais tinha escrito nada.

Grant, estava refazendo sua vida, tinha voltado a universidade para estudar psicologia, para ajudar aos retornados como ele, que se sentiam perdidos.

Fomos nos encontrando, estamos juntos a tanto tempo, que as vezes digo que é como estivéssemos a vida inteira juntos, nos basta um olhar para entender o outro, nada me dá mais prazer que despertar de manhã o encontrar nos meus braços.

Ele é meu Jerry, só tem uma diferença, é mais baixo, saímos os dois hoje em dia para correr, pois estamos naquela idade, que podemos engordar por não levar uma vida agitada.

Ele trabalha agora com homeless, principalmente soldados, diz que quando chega em casa, está no seu oásis.

Eu de uma certa maneira, concordo, pois nunca falamos de problemas alheios, aproveitamos para desfrutar um do outro, temos sonhos juntos, de quando iremos embora da grande cidade, talvez retorne um dia a Dakota do Norte, para saber das terras, mas sempre me dá um pouco de medo, remexer nas antigas desgraças.

Ele ao contrário sonha em viver perto do mar.

Qualquer dia desses, jogamos uma partida de carta para decidir.

  

 

 

 

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