JORGE NEPOMUCENO DA SILVA

 

                              

 

Segundo seus amigos, o final do seu sobrenome acabava com sua pose, pois da Silva, era o nome de muitos, que tinham antepassados africanos.

Ele ao contrário, era loiro, olhos verdes, moreno sim, com o nariz que parecia cortado a faca, mas bastava um ou dois dias na praia, ficava quase um mulato.

Sua mãe era uma mulata, ele era filho do seu segundo companheiro, que ela botou para fora, no dia que quis se encostar na boa vida, ali na favela da Rocinha.   Como diziam as amigas era um bonitão, que tinha acabado como porteiro de um edifício em Copacabana, ele na verdade nem se lembrava da cara do pai.

Tinha duas irmãs filhas do casamento de sua mãe, o marido morreu, ela seguiu mantendo a família, trabalhando de costureira em São Cristóvão, numa empresa que fabricava calça jeans, por isso ele desde criança tinha calças com algum defeito de fabricação. 

A casa tinha sido construída aos poucos, no andar de baixo, que tinha uma sala, um quarto, o dela, uma cozinha, banheiro, depois ser construiu em cima uma outra parte, para sua irmã mais velha, ela o marido e duas crianças, por terceiro, ele com o dinheiro que ganhava, construiu na laje um quarto para ele, claro a luz era roubada, como todos dali, além da água é claro, na favela ninguém pagava água, luz, impostos, por isso por fora a casa sempre eram inacabadas, além de que os terrenos pertenciam a quem chegava primeiro, se fosse vender, era tudo sem documentos.

Tinha nascido nessa casa, construída pelo primeiro marido de sua mãe, ela era bonita, seguia tendo uns traços bonitos, embora hoje em dia reclamava das varizes, de estar todo o dia sentada numa máquina de costura.  Por isso nunca subia ao andar de cima, tampouco na laje, aonde ele tinha com o tempo colocado uma maquina de lavar roupa, que atendia a toda a família, de lá se podia ver o mar, mas estava continuamente com um mar de roupas penduradas como ele dizia.

Tinha começado cedo a trabalhar, quando tinha uns dez anos, começou a ganhar uns trocados, levando as compras das senhoras que viviam no alto da favela, ganhava sempre alguma moeda ou bilhete, os escondia tudo, numa caixa que quando tinha uma quantidade, trocava em algum armazém, por um bilhete maior.

Estudava de manhã, numa escola na parte baixa da favela, embora escutasse todos os dias antes de sair, que não se metesse com os do tráfico de drogas, nem tampouco consumisse.

Era considerado pelos professores um dos alunos mais prometedores, com possibilidades, ia guardando seu dinheiro, para comprar uma camiseta, ou um tênis, nada de marca, os amigos vendiam a alma por alguma coisa de marca, ele não.    Sua mãe dizia que isso era uma besteira, compram pensando que foi fabricado na américa, mas foi feito ali para os lados de São Gonçalo.

Ela sabia aonde comprar, calças jeans ele nunca tinha comprado nenhuma, quando ficavam velhas ou curtas, cortava as transformando numa bermuda.

As irmãs, também começaram a trabalhar desde cedo, a mais velha trabalhava com sua mãe, de costureira, a outra era manicura num salão de beleza, em Copacabana.  O marido da mais velha trabalhava na construção, ele tinha construído o que ele queria na laje, o outro era um malandro agulha como dizia sua mãe, pois tinha um corpo bonito, mulato com olhos negros, essa sua irmã, quando ficou gravida, disse que não queria ter filhos, já bastava a quantidade de filhos que tinham as amigas ali na favela.

Escorregou ou caiu de proposito, abortando, aproveitou, para tirar os ovários, disse na cara do médico, que o mundo já estava cheio de crianças sem pais, que ela não queria colaborar.

O marido concordava, assim não tinha que trabalhar muito para sustentar a família como o outro, nunca parava muito tempo num emprego.

Esse é malandro agulha dizia sua mãe, um exemplo que não deves seguir, com o tempo ele se especializou, com doze anos, ficava na parada de ônibus nos horários que as senhoras voltavam cansadas do trabalho, ele muito respeitoso, perguntava se a senhora queria que a ajudasse com as compras, seu melhor amigo, quando via a mãe chegando, desaparecia, dizia que a ele ela não dava nem uma moeda.

Pedro não gostava de trabalhar, de dar um duro, tampouco era bom aluno, quando chegava a época dos exames, se aproximava dele, pedia que lhe ensinasse alguma coisa que não tinha prestado atenção, dizia que matemática, era difícil, mas claro se não tirasse pelo menos uma nota média, pau comia em casa de Noca, ou seja sua mãe lhe dava uma surra.

Quando fez 16 anos, viu que tinha que arrumar a vida, foi com sua melhor camisa, calças jeans um tênis novo, ao Shopping da Gávea, procurar emprego, uma amiga de sua mãe, disse que o melhor era ele ir no Rio Sul, aonde estavam as lojas de gente jovem, aonde seria mais fácil.

O patrão de sua mãe, tinha uma loja que vendia jeans e camisetas, lá arrumou seu primeiro emprego com carteira assinada, trabalhava da parte da tarde, foi aprendendo, pois prestava atenção, em como atender, apesar que as aulas de inglês eram fracas na escola, ele sempre prestava atenção como os companheiros atendiam, assim sabia atender os gringos.

Eles tinham um sistema inventados pelos próprios funcionários, se revezavam, a não ser que o cliente fosse um conhecido, que já ia procurando seu vendedor predileto, isso ele tinha muitos, que diziam que como ele, para atender não tinha igual.

Claro não havia jeito de ter dinheiro para ir a universidade, nem que fosse de noite, foi quando surgiu os curso de informática, não teve dúvida nenhuma, ele tinha um mínimo em carteira, o resto era comissão em cima do que vendia, ele era um dos melhores da loja, a princípio esse dinheiro ele guardava, mas sempre com medo que alguém subisse, encontrasse seu esconderijo, abriu a conta num banco ali no shopping mesmo, era aonde o chefe depositava seu salário fixo, ele depois incluía as comissões, os outros não faziam, quando acabou a escola, ele fez uma coisa, trabalhava no período de duas da tarde até a noite, depois saia dali correndo ia para as aulas de informática, ao mesmo tempo guardando dinheiro para comprar um computador.

O chefe quando soube, veio falar com ele, tinham sempre problemas, a mercadoria saia da fábrica, mas sempre não quadravam com as que chegavam na loja.  Alguém no meio do caminho desviava sempre algumas camisetas, calças.  Ele agora ajudava o gerente a controlar, inventou um sistema, quando chegava a mercadoria, primeiro examinava as caixas, depois pegava a nota de remessa, contava tudo rapidamente, as que faltavam peças, ele relatava ao chefe, acabaram descobrindo que eram os do caminhão, que roubavam para vender por fora.

Logo ele fez uma sistema, uma programa de informática, que a nota era emitida na fábrica, quando chegava eram confirmadas, logo sabiam como tinha sido o roubo, por um tempo pararam os roubos, trocavam de funcionários, mas sempre acontecia o mesmo.

Ele deu uma solução ao chefe, as calças com defeitos, desse para esse homens venderem assim engordar o que ganhavam.

Passou a ganhar mais com 18 anos, por isso, era subgerente da loja, mas por isso, chegava cedo, antes de abrir, para receber a mercadoria, prestou atenção numa loja aonde trabalha um conhecido, como faziam com as mercadorias novas, as que chegavam ele imediatamente colocava na frente, depois ia levando para trás, até chegar no fundo da loja, as que vendiam sempre, montou numa lateral da loja, estavam arrumadas as calças jeans tradicionais que eram só de reposição, mas obrigava os outros se não vendessem a recolocar no lugar, ele mesmo ao meio dia quando trocava a turma, mandava verificar se estavam todas no lugar, no final de semana, pedia a numeração que faltava.  Seu chefe gostava dele, deixou de ter um salário-mínimo em carteira, passou a ter um maior, mas seguia atendendo seu clientes de sempre.

Alguns vinham recomendados pelos mesmo, quando for a loja, pergunte por Nepomuceno, ele atende bem, não vai te enganar, mas seguia ganhando comissão.

Nessa época estourou um escândalo na favela, um grupo de jovens, entre eles seu cunhado, que viviam na praia, ficavam na frente do hotel Nacional, aonde se instalavam os gringos, logo arrumavam algum para fuder.   Caíram na esparrela de fazerem filme pornográficos, com um grupo que alugou uma casa na estrada do Joa, mal sabiam que os do tráfico, roubavam o sinal da antena dessa casa, se podia ver tudo que faziam, fizeram uma gravação do vídeo, todo mundo ficou sabendo que esses rapazes metido a machão, davam o cu para todos os gringos, seu cunhado inclusive.   Claro sua irmã o botou para fora.   Mal sabia ela, que as vezes no domingo quando trabalhava ele subia com a desculpa de tomar sol na laje, para sentar em cima de seu caralho.   Tudo começou um dia que subiu, ele estava morto de sono, como a essa hora não tinha ninguém em casa, ele dormia nu, ele viu o “seu menino”, como ele chamava o seu caralho, duro, se sentou em cima sem a menor cerimônia, só fazendo sinal com o dedo, silencio.

Teve que desaparecer, sua irmã pediu o divórcio, rapidamente, para se livrar dele, ficou um tempo até as coisas se acalmarem na casa de uma amiga, para não dizerem, “olha o marido dessa dá o cu, para os gringos”.

Ele ficou na dele, finalmente conseguiu juntar dinheiro para poder fazer a universidade, disse ao patrão que agora de noite ele ia fazer administração de empresas.  Avisou a mãe, vou ver se consigo um quarto, tenho dois companheiros que dividem um apartamento, vou ficar com eles durante a semana, mas no final de semana venho para casa.

O chefe ficou contente, a partir desse momento, o gerente, foi para uma loja em Ipanema, ele ficou no seu lugar, com um salário mais alto.   Podia pagar o quarto, ainda ajudava a mãe, que claro estava ficando velha.

Sua irmã, seguiu vivendo na casa de sempre, tinha pensado em voltar para a casa da mãe, mas claro tinha duas crianças ali, isso não era com ela.

Anos depois se tornou amante de um homem rico, que lhe montou um apartamento na Barra, ela só concordou se fosse no seu nome.

Ele seguiu em frente, as vezes ria, quando algum gringo, lhe passava a cantada no shopping, teve um que era seu cliente a anos, esse um dia lhe disse, que ele tinha a mercadoria muito bem exposta, que devia guardar melhor a mesma, demorou para entender, o cliente quando provava uma calça, lhe mostrou, coloque teu piru para cima, assim a não ser que queiras, não chama tanto a atenção.

Esse era professor de Frances, um dia o convidou para tomar uma cerveja, ele sorriu, pediu desculpas, sinto muito, saio daqui correndo para ir a faculdade, depois estou morto de trabalhar o dia inteiro, numa sexta-feira, que ele ficava até mais tarde na loja, pois era o dia de um exame exaustivo nas mercadorias, para pedir reposição.   Queria ter certeza de que estava tudo em ordem.

Quando saiu, na porta do shopping, estava o professor Jean, ou João, como se chamava na verdade, lhe esperando.     Hoje não escapas, sei que não tens aula.

Me desculpa professor, mas estou morto de cansado, na verdade não bebo, quando muito tomo uma coca cola, nada mais.

Acabou o arrastando para seu pequeno apartamento em Botafogo, acabou passando o final de semana com ele.

Finalmente fazia um sexo como se devia, relaxado com outro homem.  Este lhe perguntou se não fazia sempre.

Como, não sobra tempo.

Na verdade, ele ainda se encontrava com seu amigo Pedro, ele era um dos únicos, que tinha feito o filme pornográfico, que tinha ficado na favela, teve que aguentar muita coisa, mas ficou, afinal sua mãe estava velha e cansada, tinha arrumado para ele, trabalhar de vendedor numa loja na Barra, mas claro ele nunca deixaria de ser um vendedor, se acomodou nisso, então quando ele vinha no final de semana, arrumava um jeito de subir, fazer sexo com ele.

Dizia que os gringos não sabiam o que perdiam, que ele sim sabia se mexer.  O professor disse o mesmo que fazer sexo com ele era bom demais, pois além do tamanho, ele tinha borogodo, sabia se mexer, dando prazer ao que estava com aquela coisa maravilhosa dentro do corpo.

Mas no domingo, se desculpava, era dia de almoçar com a mãe.  Ia para a Rocinha, pois sua mãe lhe esperava.

Nessa época seu cunhado, sofreu um acidente numa construção, então entrava menos dinheiro em casa, ele ajudava a irmã com os garotos.  Mas exigia que fossem a escola, olhava as notas dos mesmo, o pequeno, se chegava a ele, dizia que não entendia os deveres de matemática, encontrou uma maneira de o ensinar, esse ria com uma cara de sem vergonha dizendo, agora entendi, assim é mais fácil.

Ia levando sua roupa para lavar, ele mesmo subia, lavava, com o sol de rachar, secava rápido, dobrava tudo, colocava na bolsa outra vez, no seu quarto tinha uma tabua de passar roupa, nesse dia, de noite preparava a roupa da semana.

O professor era ciumento, achava que ele fazia alguma coisa por fora, observou que o vigiava, foi claro com ele, se eu te colocasse cornos, ia saber, pois quando estou contigo, nos poucos momentos livres que tenho, estou fazendo sexo.

Quando acabou o curso, o dono da empresa, lhe perguntou se não queria trabalhar na central, já que ele entendia como funcionava as lojas, bem como a fábrica.

Sua mãe agora era a coordenadora das costureiras, na casa de sua irmã mais nova, ao lado, esta alugou o mesmo para um sargento da polícia.  Só de olhar o mesmo ficava de pau duro, este quando passava por ele sorria, lhe dizia bom dia, como foi a semana, sempre puxava uma conversa, trabalhava na delegacia no pé do morro.

Ele agora tinha duas opções, ou seguir compartindo apartamento, viver com o professor, que ele não queria, ou voltar para a casa da mãe.   Mas primeiro fez uma coisa, seu cunhado que já estava melhor, o fez em agradecimento ao tempo que esteve de baixa, arrumou seu quarto, fizeram mais uma parte, como uma saleta para ele ter seu computador, além de um banheiro.

Voltou a viver com na casa da mãe, com isso foi se afastando do professor, pois tinha perdido a graça, mal chegavam a cama, o sujeito, fazia de tudo para ele ficar de pau duro, se sentava em cima, ficava como louco, mas tampouco passava disso, contava para os amigos, com o que tinha em casa, não precisava mais ficar procurando.

A grande desculpa, foi que um dia saiu mais cedo do trabalho, chegou na casa dele, o encontrou dando o rabo, para um negro que trabalhava numa obra em frente, aproveitou isso para dar no pé.

Na verdade, estava com ele por comodidade, assim não tinha que procurar nada fora, mas tinha se cansado do ciúmes do outro.

Agora ganhava bem, podia com suas economias, alugar um apartamento em Copacabana, falou com sua mãe, se ela queria ir viver com ele, mas ela tirou o corpo fora, dizendo que ele tinha direito a viver sua vida.

Era pequeno, mas bem situado, ali perto da praça do Lido, ele só tinha que atravessar a rua, para pegar um ônibus que o deixava ao lado da fábrica, era sempre o primeiro a chegar, andava pela fábrica inteira, ia anotando coisa, fazia um controle férreo através do computador de toda a mercadoria, dos pedidos, das entregas, exigia que a mercadoria quando entrasse fosse conferida.  Em menos de dois anos era o homem de confiança do chefe, que lhe aumentou o salário.   Agora vivia mais folgado, conseguiu que o patrão aposentasse sua mãe, com um salário completo, assim ela podia disfrutar da vida.   Mas se enganou, na semana seguinte quando foi visita-la, lá estava ela costurando, dizendo que era para ganhar uns trocados, mas senão também me aborreço, a entendia tinha trabalhado a vida inteira, ficar sem fazer nada, não devia ser fácil.

O mais velho de sua irmã, não gostava de estudar, agora trabalhava com o pai, usava o seu quarto da laje, ao outro ele pagava além da escola um curso de inglês, economizava para que um dia ele fosse a universidade.

Um dia ia saindo, o sargento também, com roupa normais, disse que ia para Copacabana tomar uma cerveja com uns amigos, te levo.    Esse te levo, acabou na sua cama, agora aparecia sempre, tinha um corpo fantástico, com ele rolava de tudo, era mais interessante.

Através dele, soube que seu amigo Pedro que não via a tempos, estava trabalhando com o chefe do tráfico da favela, ao mesmo tempo era seu amante.

Ficou com pena, mas como dizia Arthur, o sargento, cada uma escolhe a vida que quer levar, não se podia fazer nada.

Arthur, acabou sendo um grande amor na sua vida, saiam, iam jantar fora, se chovia ficavam em casa, fazendo sexo, com ele se relaxava.

Quando aprendeu a investir dinheiro com o patrão, foi dobrando seu capital, claro isso significava pagar imposto de renda, mas ele, sabia como funcionava os famosos caixa dois, que todas as empresas tinham, inclusive aonde ele trabalhava.   Tinha o seu também, um dia falou com o Arthur, se não queria investir suas economias.    Assim ele foi melhorando, quando finalmente conseguiu uma transferência para Botafogo, passou a viver com ele.

Mas antes perguntou se ele queria.  Um dia da semana, ele saia com os amigos, os da polícia, também foi honesto com ele, quando um dia lhe contou que estava apaixonado por seu companheiro de trabalho.   Lhe disse honestamente que fosse à luta, se era o que queria.

Não fez o menor gesto para segura-lo, passou a viver sozinho novamente, a estas alturas, já estava com 32 anos, quando olhava para trás, podia dizer que tinha feito um largo caminho, para chegar aonde estava.

Agora ia ao cinema, ao teatro sozinho, tinha aventuras de uma noite, de preferência se fosse na casa do outro, na sua, parecia que tinha uma invasão de sua privacidade.

Passou a aprimorar seu inglês, fazia aulas depois do trabalho, pois a empresa estava estudando exportar o que fazia.  Nessa época não tinha surgido os chineses, para roubarem a mão de obra para executarem na china.

Um dia estava no teatro, ao seu lado estava sentado um gringo, que o companheiro ia traduzindo para ele, o que diziam baixinho. Mas não tirava o olho dele.

Ainda pensou, que sem vergonha, acompanhado, mas não para de me paquerar.

No intervalo, o que lhe fazia a tradução, lhe disse a queima roupa, meu amigo, está interessado em ti, mas não fala português.

Riu muito, lhe disse o que tinha pensado dele.   Que estava acompanhado, mas não parava de olhar para ele.

Depois do teatro, saíram foram tomar um cerveja, o outro tampouco bebia como ele, tomaram uma coca cola, o americano, Jerry comentou que ele falava bem inglês, ele disse como fazia, três vezes por semana, ia a um curso de conversação, para não perder o que sabia.

Me desculpe lhe disse o olhando nos olhos, além de não saber falar a língua, sou tímido, tinha conhecido o seu amigo, quando ele esteve em NYC, fazendo um curso.

Alugava um quarto na casa de minha mãe.

Sou professor da universidade, contou mais ou menos sua vida, que tinha tido um relacionamento largo com um companheiro, mais velho do que ele, mas claro chegou a uma idade que queria recuperar sua juventude.

No dia seguinte, o levou com ele, para almoçar na Rocinha, avisou sua mãe, que preparou um senhor feijão como ele gostava, com deus manda, dizia.

Jerry ficou encantado, na volta disse que não tinha tirado ele da cabeça, o levou ao seu apartamento, ele era muito branco, disse que era descendente de irlandeses, com a pele cheia de sardas, faziam um contraste impressionante, quando fizeram sexo, foi uma loucura, pois ele gostava de tudo, mas disse que nunca tinha tido ninguém que lhe penetrasse dessa maneira.

Ainda tinha um mês de férias, foi ficar com ele, ele chegava em casa, o outro lhe esperava com a comida feita, estava pela primeira vez, feliz, não sabia por que, pois embora falasse inglês com ele o tempo todo, era como colocar para fora um sentimento novo.

Jerry lhe perguntou se não queria ir com ele para os Estados Unidos.

Posso conseguir um contrato de trabalho para ti, ele quando falou que sabia operar com a bolsa de valores, este disse que tinha um grande amigo, que fazia isso.

Levou dias pensando no assunto, pois se sentia estagnado, tinha chegado aonde queria, precisava agora de novos horizontes, mas primeiro foi falar com sua mãe.   Na verdade não esperava o que ela lhe disse.

Isso eu sentia, já não aguentava mais costurar, o fazia por instinto, inclusive sabia quando errava alguma coisa.   Acho que se tens oportunidade de novos horizontes, deves pensar nisso, mas não feche nenhuma porta.    Tens direito a férias atrasadas, vá com ele, veja como funciona a coisa, se for o caso, mude-se.   Tenho orgulho de ti, meu único filho que foi em frente, veja sua irmã mais velha, um foi trabalhar com o pai, pois não gosta de estudar, o outro é como você, procura estudar o máximo, isso graças a ti na verdade.

Tua outra irmã, virou uma mulher que sabe o que quer, já deixou o homem que lhe comprou o apartamento na Barra, alugou o mesmo, vive com outro homem muito rico, mas que podia ser o pai dela, o fez comprar outro apartamento, mas como sempre em seu nome, assim ela vai fazendo um pé de meia, mas fale em dinheiro com ela, imediatamente se coloca um pé atrás, nunca vem aqui, para não descobrirem que nasceu e foi criada na Rocinha, mas tu, inclusive trás teu amigo para me conhecer.

Nesse dia sua mãe tinha convidado sua madrinha, uma mãe de santo, ela quando viu o Jerry, lhe disse que finalmente iria ter alguém que o amasse.

Tirou férias, disse ao chefe que ia fazer um curso em NYC, ele lhe deu força, encomendou que comprasse jeans que fossem novidade por lá, para fazer cópias.

Jerry logo apresentou ao seu amigo, que tinha trabalhado anos, numa grande empresa de aplicações de capital, quando saiu, levou seus clientes com ele, estavam ligados o tempo todo na bolsa de valores, podiam analisar o que fazia.

Ele contou que sempre analisava as empresas, antes de aplicar o seu dinheiro, bem como de seus conhecidos, o outro se interessou, passou vinte dias trabalhando com ele, mas em uma semana, já tinha aprendido como era a coisa, diferente do Brasil, pois ele fazia tudo, através do jornal, de informações que conseguia de amigos do banco.

Ali aprendeu a controlar tudo pela informática, como entendia bem, logo tinha alguns clientes, amigos da universidade do Jerry, ele inclusive lhe deu suas economias para ele aplicar.

No final o chefe o convidou para ficar, gostava como ele atendia os clientes, tinha passado para ele alguns clientes.   Ele pela primeira vez também gostava muito de estar com o Jerry, era um tipo de pessoa com que tinha sonhado.

Tinha feito a mesma coisa ao chegar, o apresentou a família, mas antes avisou, não te receberam como fez tua mãe comigo, eles são desconfiados.

Dito e feito, não o trataram mal, mas tampouco fizeram uma festa com ele.

Foi ao Brasil, a primeira coisa que fez, foi a fábrica para levar a encomenda do patrão, pediu as contas, agradeceu todas as oportunidades, este lhe estendeu a mão, se voltas, sabe aonde estou.

Depois levou o pouco que tinha para a casa de sua mãe, seguiria ajudando seu sobrinho a estudar, abriu uma conta para ele no banco, depositou dinheiro, tens que aprendera a administrar esse dinheiro como eu fazia, qualquer coisa, fale com sua avó.  Dentro de uma ano ele iria à universidade, pagaria sua matricula.   Arrumou um emprego para ele numa das lojas do antigo patrão, lhe disse como tinha chegado lá em cima, que ele fizesse um curso nas férias de computação, é o futuro.

Ficou morando com o Jerry, quando ele voltou o outro confessou que tinha ficado com saudades, lhe ensinou a falar essa palavra.

Começou a trabalhar com o amigo dele, dois anos depois era o que dava mais lucro ao escritório, foi conhecendo imigrantes como ele, aplicava suas economias em empresa estáveis, podiam ganhar menos, mas sempre tinham mais algum, assim fez uma clientela a parte, mas foi ganhando também com os que seu chefe lhe passava, pois sabia que seriam bem atendidos.

Até mesmo os irmãos do Jerry, acabaram aplicando dinheiro com ele.

Os dois estavam felizes, saiam nos finais de semana, iam ao teatro, cinema, começo a apreciar a arte, pois ele o levava aos museus.   Eram os companheiros perfeitos, na cama a sintonia era imensa.

Quando seu sobrinho depois da universidade estava para vir fazer uma graduação em informática, no Brasil nessa época não havia, arrumaram um dos quartos do apartamento para isso, ele todos os meses mandava dinheiro para sua mãe, falava com ela todas as semanas.

Tinham ido os dois duas vezes ao Brasil, até o tomaram por um gringo, pois estava mais branco, além de o verem falando em inglês com o Jerry, quando seu sobrinho saia junto, o incorporava a conversa.  

As notas dele na universidade eram ótimas, podia ir com uma bolsa de estudos, lhe disse que não se preocupasse, pois conhecia gente que tinha chegado com essas bolsas, mas eram obrigados a trabalhar, pois claro na conversão, sempre se perdia.

Terás casa e comida, mas quero que sejas o melhor.

Estava já a oito anos com o Jerry, quando esse começou a passar mal, nos exames, foi um jorro de água fria na vida deles.   Estava com uma doença degenerativa, esse finalmente confessou que vinha escondendo dele, que tinha as vezes dificuldade para se mover.

Encontrou um jeito de cuidar dele, contratou um enfermeiro, seu sobrinho Roger também ajudava, mas em menos de um ano, estava já em cadeira de rodas.

Mesmo assim o Jerry ajudava o Roger a entender o que estava estudando, como tudo era em inglês, não existiam ainda alguns termos que os informáticos inventava para o que programavam.

Quando um dia despertou, Jerry estava frio ao seu lado, tinha morrido dormindo, avisou sua família, prepararam seu enterro, avisou seus colegas de universidade, era um final de semana, a cerimônia foi interessante, lhe chamaram para falar dele.

Primeiro pediu desculpas, está sendo difícil assimilar, que perdi meu companheiro, falou como tinham se conhecido, os anos felizes que tinham tido juntos.

Sua surpresa, foi na leitura de testamento, lhe deixava seu apartamento, ali perto da Universidade, uma parte do dinheiro que tinha ganhado com as aplicações dele, o resto era para sua mãe.

Os irmãos não gostaram muito, mas ela tinha aprendido a respeitar o Jorge, ou George como ela dizia, nenhum de vocês, ajudou ou cuidou de seu irmão, ele sim, nem sei como aguentava trabalhar, ainda cuidar dele, não lhe faltou nada durante esse tempo.

Ele as vezes ainda passava na casa dela, para busca-la para ver o filho, depois seu sobrinho a levava de volta a sua casa.

Até seu chefe tinha ido ao enterro, também tinha falado na cerimônia, nunca vi meu amigo mais feliz na vida, como nessa etapa da vida, claro morria de inveja, tinha encontrado o companheiro perfeito.

Seguiu trabalhando, no início do ano, levou seu chefe com ele, para o carnaval do Brasil, esse ficou como um louco.     Tinha pensado que ele se soltaria, em aventuras fáceis.

O levou a Rocinha, para conhecer sua mãe, ele ficou deslumbrado, riu dizendo, se saíste daqui e chegaste aonde estas agora, é porque deste um duro.

Ele também tinha vindo do interior profundo da América, aonde não havia oportunidades, tinha vencido em Walt Street, o distrito financeiro da cidade.

Lhe perguntou por que ele não estava de aventuras, afinal era um homem bonito, diferente, embora seus companheiros diziam que era sério demais.

Ele riu, no dia que entraste com o Jerry no meu escritório, me apaixonei por ti, pensei que sorte ele teve com esse homem.   Mas depois vi que o amavas de verdade, me fechei em banda.

Agora espero ver se tenho uma oportunidade.

Ele tinha acompanhado toda a doença do Jerry, sabia como tinha sido difícil.

Foram assistir ao desfile das Escolas de Samba, ficou como um louco, ainda brincou com ele, quando passou um carro, cheio de homens, mulatos seminus, acho que mudo de ideia, quero todos eles.   Mas falou isso roçando com as costas da mão, o seu piru.

Nessa noite no hotel, dormiram juntos, nunca imaginou que aquele homem tão sério fosse dessa maneira.

Tenho muita coisa guardada dentro de mim, esperando essa oportunidade, mas quando voltaram ele seguiu vivendo em seu apartamento, o Jonathan na sua, as vezes ia a alguma reunião que ele fazia em sua casa, a maioria eram gays, podres de ricos, seus clientes, as conversar era fúteis, nada que ele tivesse acostumado, buscou uma coca cola, foi para a varanda, esse vivia numa cobertura maravilhosa.

Estava ali, pensando na vida, seu sobrinho Roger no momento estava em Los Angeles, apresentando uma tese na universidade, a possibilidade que conseguisse um emprego na mesma eram boas, isso é claro, o deixava sozinho.

Não te encaixas no grupo, disse uma voz atrás dele, a reconheceu imediatamente, era um cliente que ele só conhecia por telefone.

Mister André Drew, reconheço sua voz, a anos se falavam por telefone.  Ficaram conversando, o Jonathan sempre me convida para suas festas, mas nunca vim, tampouco encaixo nisso, acabo de me divorciar, isso ele sabia, tinha sido uma coisa complicada, André estava na Europa, sua mulher, tinha se metido com um homem rico, casado com sua melhor amiga, essa descobriu, foi uma merda.

Menos mal que nunca tivemos filho, tinha lhe contado por telefone, sempre tinha tido um tempo para escuta-lo.

Agradecia isso dele, no fundo, tudo isso me ajudou a tomar decisões, tinha sido um casamento arrumando pela minha família, escapei do controle da família, mas tinha controle em casa, uma mulher possessiva.

Agora vou por livre, lembra-se do negócio que estava fazendo na França, deu certo, graças as orientações que me deste, consegui que o pagamento do projeto, fosse pago em Luxemburgo, como me orientaste.

Ficaram ali conversando, este comentou ainda que tinha sabido da morte do Jerry.

Ah, os dois estão escondidos aqui, se surpreendeu com o Jonathan comentando, estava com ciúmes.

Já tinha comentado isso com ele, o via vigiando sempre, mesmo no escritório, se estava conversando com qualquer companheiro, queria saber do que falavam.   Ele nunca respondia, agora achava que tinha feito uma besteira, ter feito sexo com ele.

Na sua cabeça, seguindo sua intuição, sabia que isso a largo prazo seria uma merda, por sorte, alguém chamou o Jonathan para comentar alguma coisa.

Estava irado, o André percebeu, saíram juntos do apartamento, sem saber como contou para ele o que tinha acontecido, agora me controla, não gosto dessa sensação, vivia anos com o Jerry, nunca aconteceu isso.

Pois eu sofri primeiro com minha família, que me controlou o tempo todo, mas fui esperto com o dinheiro que me tocou na herança, que certa pessoa aplicou, pude abrir minha empresa, meus projetos agora dão certo, ficou rindo do comentário.

Sabe tive poucas aventuras com homens, nunca passaram de uma noite, principalmente quando viajava.

Agora que estou livre, me fechei, talvez tenha medo como tu de um relacionamento, viver com uma pessoa.

Perguntou por seu sobrinho Roger, quando lhe contou que estava apresentando um trabalho em Los Angeles, ele sorriu.

Estou pensando em me mudar para lá, pois estou fazendo um projeto, que sai melhor neste lado do País.

Isso era uma sexta-feira à noite, o convidou para saírem no dia seguinte para jantar.

Que queres comigo, lhe disse diretamente olhando nos olhos, estavam perto de sua casa, nem sabia que ele vivia por ali.

Ficaram se olhando, se beijaram, daí foi um passo.    Não se sentia ligado ao Jonathan, pois para ele tinha sido uma aventura nada mais, dizer que o amava, seria uma mentira, por isso se arrependia.

Convidou André para subir, se desculpou, mas ali em sua casa, não tinha bebidas, nunca foi meu forte.

Ficaram conversando muito tempo, lhe comentou o que estava pensando em fazer em Los Angeles, uma vez um cliente me perguntou como eu investia meu dinheiro, falei de ti, sei que ele é teu cliente também.

Sim tenho alguns clientes dessa área, creio que foi ele que foi me enviando essa gente, hoje representam quase 60% de minha carteira de clientes.

Não passaram dos beijos, mas ficaram de se falar no dia seguinte.

Despertou com o interfone chamando sem parar, era o Jonathan, que entrou examinando a casa, procurando por André.

Sim estivemos conversando, sem querer me contou que esses clientes que temos do outro lado do pais, foram indicados por ele.

Te proíbo de ter relações com ele.

Ficou com a boca aberta.    Ficou olhando muito sério para ele, se lembrou da história dele, com o Jerry, talvez por isso, no voo de volta, quando ele sugeriu viverem juntos, disse que não, já achava um erro ter ido com ele para a cama.

Jerry tinha comentado que ele era controlador, ditatorial foi o termo que usou.

Pare teu carro, soltou na cara dele, não temos sequer um relacionamento, simplesmente fizemos sexo algumas vezes, não fui morar contigo como querias, justamente por isso, gosto e prezo minha liberdade.

Se isso significa que tenho que sair da empresa, tudo bem, mas não voltaremos a estar na mesma cama, aliás não gosto deste tipo de festas que dás, essa gente toda falando mal da vida alheia, por isso, fui para a varanda.   Tampouco tive nada com o André.

Nisso o celular chamou, viu que era seu sobrinho, estava feliz da vida, tinha conseguido, apresentar a tese, bem como um contrato para trabalhar na universidade.

Disse que depois o chamava, que não deixasse de falar com sua avó, nem com sua mãe, que iriam ficar feliz com a notícia.

Jonathan queria saber quem era, só disse meu sobrinho, nada mais, mas ele claro queria saber de tudo.

Depois começou a se insinuar, disse que nem pensar, erramos em fazer sexo no Brasil, mas não quero continuar com isso, segunda-feira nos falamos.

Quando André lhe chamou mais tarde, lhe contou o que tinha passado.

Bom eu vou tirar uns dias de férias, vou visitar meu sobrinho, depois falaremos.

Na segunda-feira, avisou que tirava uma semana de férias, iria visitar o sobrinho em Los Angeles, que ele não conhecia, sentia como se fosse uma vitória sua, o Roger ter chegado aonde tinha chegado.   Tinha falado com sua mãe no domingo, ela estava feliz, bem como sua irmã.

Jonathan, lhe perguntou se André também ia, pois sabia que tinha projetos por lá.

Na verdade não, tampouco me interessa, apenas vou curtir a vitória de meu sobrinho, que saiu como eu de uma favela, agora será professor na universidade de Los Angeles.

No mesmo dia, foi rapidamente para casa, não queria parar para pensar, arrumou uma bagagem pequena, se fosse necessário, compraria roupa por lá, só avisou o Roger a hora que chegava.

Este estava feliz, o esperando no Aeroporto, o levou ao pequeno hotel que estava hospedado.

Foi falando sem parar, a única dificuldade seria, agora arrumar um lugar para viver, pois perto da universidade o aluguel eram caros.

Foram a praia no dia seguinte pela manhã, ainda soltou, parece que estamos no Rio de Janeiro, vendo o pessoal fazer surf, nunca tive tempo para isso.

Seu advogado lhe avisava sempre que pagava muito imposto, pois além do dinheiro que ganhava, aplicava o seu por fora, o mesmo tinha acontecido, com o dinheiro que tinha recebido de herança do Jerry, aplicava, este dizia que tinha dinheiro parado, que pagaria muito por isso.

Comentou com seu sobrinho, podemos ver uma casa para ti.

Estava feliz, longe de NYC, nunca tinha saído muito de lá, na época que tinham programado uma viagem a San Francisco, aconteceu o da doença do Jerry, acabaram não indo.

Sabia de um cliente que tinha em San Francisco, que a cidade era diferente de NYC, telefonou, pediu dicas, iria com seu sobrinho para passar o final de semana.

Venha na quinta feira, assim reúno uns amigos que querem te conhecer, pois falam contigo por telefone, sabia que todos eram clientes ou amigos do André.

Tomaram um voo, este tinha conseguido um hotel para eles, no centro da cidade.

Estava esperando no aeroporto por eles, foi mostrando tudo, o que não esperava, imaginava um velho, o homem tinha sua idade, colocou a bagagem deles, num carro antigo, muito bem conservado, não sabes muito da minha vida, sou escritor, mas também louco por carros, esse eu mesmo recuperei.   Os levou para sua casa, numa parte tipicamente de San Francisco, aqui é o hotel que reservei para vocês.   Tinha puxado conversa com o Roger sobre seu projeto, se fosse aqui, eu te conseguiria algum contato na universidade, dou aulas lá de escritura, duas vezes por semana.

A casa era imensa, ele explicou que tinha sido de sua mãe, vivi muitos anos fazendo surf perto de Carmel, ao mesmo tempo que escrevia, ganhei muito dinheiro fazendo roteiro de cinema, foi comentando os filmes, com isso, pude recuperar essa casa, é imensa, vivíamos todos aqui, hoje meus irmãos estão espalhados pelo mundo.

Tinha montado dois quartos para eles.   Hoje à noite, encomendei um jantar, com o pessoal que são teus clientes, todos tem curiosidade por te conhecer, se sentem seguros como eu, confiando o dinheiro em tuas mãos.

Se sentia relaxado, tomaram um banho, foram comer num restaurante de um amigo de West Smith, esse contava rindo que seu pai era peculiar, odiava nomes, então cada filho tinha uma nome East, West, South, Nort, enquanto ele mesmo se chamava Ben, simplesmente.  Minha mãe odiava, mas ficou.

Depois de descansarem pela tarde, viram uma movimentação na parte da cozinha, West disse que era uma negação na cozinha, tinha contratado um self service, uma coisa amena para a noite, um buffet, assim todos estavam à vontade, tinham montado um lugar nos fundo da casa, não era como na casa do Jonathan, muita gente, mas ele foi reconhecendo cada um dos clientes pela voz.

Todos queriam saber se ele ia abrir um escritório na cidade, assim deixaremos de falar contigo por telefone, se interessaram logo pelo trabalho que fazia o Roger.

Um deles era casado com uma brasileira, ela apareceu mais tarde, era uma mulata impressionante.

Foi ótimo, no final da noite apareceu o André, lhe chamou de sem vergonha, tive que vir rápido de Los Angeles, fazer uma festa sem mim.

A conversa era diferente do que ele tinha em NYC, um dos motivos que odiava reuniões, se eram só de gays, ou só de negócios, ali a coisa era mais amena, se falava de tudo, do que estavam fazendo, essas coisas.

Roger estava relaxado, tinha explicado seu projeto, um deles soltou que tinha uma empresa pequena em Silicon Valley, que seu projeto lhe interessavam, o convidou para ir visitar sua empresa, trabalhei em várias, Microsoft, Apple, mas depois montei meu negócio.

Vivi um tempo por lá, agora, tenho uma casa aqui perto, esse depois tinha uma larga conversa com Roger, sobre o que fazia.

Todo mundo fez silencio, quando Roger contou como tinha sido sua vida, de garoto de favela, mas com um tio inteligente, que lhe traçou um caminho a seguir, estudar, estudar, depois lhe disse para fazer informática, que era o futuro, foi quando descobrir que amava isso, como ele o tinha ensinado matemática, na qual é um gênio.

Tirou seu celular, mostrou para todo mundo de aonde tinham saído, como ele, não tinha vergonha de suas raízes.

Alguns perguntaram como tinha vindo parar na América, ele contou do Jerry, do trabalho, aonde estava, nunca estou fechado a nada, quando apareceram os clientes daqui, meu chefe não queria, mas passaram a serem meus clientes, dava trabalho, mas estava contente.

Na verdade, eu sempre tive um mantra, estudar e trabalhar, nunca é demais.

A brasileira Djanira, eu imagino, quando meu marido falou que ia aplicar dinheiro com um brasileiro, por preconceito disse cuidado, ele riu muito.   Pois quando cheguei aqui, diziam que tinha dado o golpe do bau.

Eu entendo o que vocês passaram, eu mesma sai de Quintino, imagine, nem saberia hoje em dia ir até lá.   Meu pai era Francês, conheceu minha mãe que trabalhava no hotel que ele estava hospedado, foi ficando, foram morar juntos, ela era ali do Morro do Pinto, um belo dia, depois que nasci, apareceu uma mulher procurando por ele, era casado na França, desapareceu, minha mãe seguiu sua vida, eu ficava com minha avô, uma mãe de Santo ali do Morro, foi ela que previu meu futuro, dizia na cara da minha mãe que ela apenas era o meio que eu tinha de chegar ao mundo.  Dois anos depois ela conheceu o meu padrasto, que foi o melhor pai do mundo para mim, mas o problema era que ele vivia em Quintino, fomos morar lá.  Na escola eu não encaixava, imagina uma mulata de olhos verdes, cabelos lisos, uma pele mais clara que as outras crianças mulatas.

Um dia a professora chamou os dois, disse diretamente, essa menina tem um dom, mostrou os meus desenhos, comparado com os da outras crianças, eu realmente desenhava as pessoas, como eram, nada desse desenho infantil.   Ali estava meu pai, no caso meu padrasto, minha mãe, minhas irmãs.   Ele me deu a maior força, como trabalhava na construção, no meu quarto fez uma parede lisa, preparada para que eu pintasse.

Mais tarde vim morar com minha avô no Morro do Pinto, fui fazer Belas Artes, mas não gostava da pomposidade dali, acabei no Parque Lage, os dois balançavam a cabeças, passamos muito por aí, para ganhar uns trocados, pintava camisetas, vendia na Feira de Ipanema, foi aonde conheci meu marido, na época ele era Consul no Rio de Janeiro.  Ia todos os domingos, conversava comigo, nada daquela paquera, aqui te pego, aqui te mato.  Levou tempo para tomar coragem para me convidar para jantar.

Logo fui descoberta ou ele fez me descobrirem no Parque Lage, aonde eu participava de uma coletiva dos alunos.

Fiz minha primeira exposição, foi bem, ele conhecia muita gente, essas se deslumbraram comigo, imagina uma mulata de quase 1,90 metros, com essas pernas largas, mas se decepcionavam, pois eu odeio samba, não sei dançar, era tudo que eles esperavam de mim.

Quando vim para cá, ele tinha deixado o corpo diplomático, para se ocupar dos negócios da família, todo mundo me olhava de esquerda, mas só vim depois de casada lá, ele foi me buscar.

Um dia estava aborrecida, não tinha aonde pintar, tinha uma parede na casa da minha sogra, cheia de quadros antigos, tirei tudo, pintei de branco, comecei a pintar, fiz uma floresta tropical, me lembrando da que está por detrás do Parque Lage, na surdina, ela convidou as amigas, assim passei a ir pintar na casa de suas amigas, que queriam um mural.  Com esse dinheiro montei meu studio, sou conhecida aqui por isso, logo pintei por sugestão dela, um mural na entrada do edifício da família, aonde meu marido tem escritório, um dia o dono de uma galeria me viu pintando, me convidou para preparar uma exposição.    Mas logo em seguida fiquei gravida, foi complicado, passei muito tempo na cama, até que nasceu meu garoto, ele vai aparecer mais tarde.   O melhor é que ele saiu ao pai, é louco por mecânica, desenha muito bem, mas seu negocio é desenhar peças de motores, coisas assim.

Estão falando de mim, apareceu na porta, um rapaz, da mesma idade do Roger, tinha quase dois metros de altura, magro, olhos verdes como de sua mãe, uma cabeleira vermelho escuro, pele clara, mas o nariz não enganava, tinha herdado alguma coisa dos negros.

Foi até seu pais, beijou os dois na cabeça, depois se apresentou, aos dois. Quando disse que se chamava Roger, eles riram, logo os dois Roger’s estavam metido numa conversa de fazer gosto.

No dia seguinte quando se levantou, Roger tinha desaparecido, tinha um bilhete, sai com meu xará, vai me levar a universidade, conhece gente por lá.

Ele foi a uma reunião no escritório do pai do rapaz, que por acaso também se chamava Roger, ficou de boca aberta de ver o painel pintado pela Djanira, uma imensa floresta, cheia de animais, pássaros, ficou parado na frente observando tudo.

Estavam na reunião todos da noite anterior, além de outros empresários, virou-se para West, disse isso está me parecendo um golpe.

Os que não investiam com ele, tinham boas informações sobre ele, o que fazia, como agia.

Ao final lhe disseram se ele não se interessava em vir tentar a vida ali, tinham dois, descobriria que eram os mais ricos do grupo, que reclamaram da empresa que os representavam.

Depois desceram, Roger pai, lhe mostrou umas salas, com uma vista sensacional da Baia de San Francisco, essas salas estão para alugar, aqui podias montar teu negócio.

De noite quando apareceu seu sobrinho, conversaram os dois sentados na traseira da casa, este estava entusiasmado com o que tinha visto, tinha conhecido gente, tive que tirar cópias rápidas do meu trabalho, todos se interessaram, eles tem ligação com Silicon Valley, amanhã tenho uma entrevista.   Depois começou a rir, o senhor imagina que acabei levando um beijo do Xará.

Lhe contou da proposta, pode ser que venha para cá.

Na verdade nada lhe prendia em NYC, assim se livrava também do Jonathan, André apareceu outra vez no dia seguinte, saíram os dois, este foi lhe mostrar alguns locais que tinha ali na cidade, tudo herança familiar, mas ele adorou um em Castro, ficava em cima de uma livraria, André o apresentou ao dono.   Era um lugar totalmente aberto, ele gostou mais dali que do edifício do Roger, quem lhe disse algo que parou para pensar, foi o da livraria, disse que tinha muitos clientes gays, o bairro está cheio, todos tem bons trabalhos, podes conseguir clientes por aqui para investir.

No sábado, depois de ter passado finalmente a noite com o André, tinha sido um sexo fantástico, nada de pressa, tinham se curtido, como dois coroas que eram, um explorando o corpo do outro, acabaram dormindo juntos.

Quando chegou na casa do West, esse ria, teu sobrinho se preocupou, mas depois riu.

Se sentaram para conversar, comentou do lugar que o André tinha lhe oferecido, discutiram aluguel, como fariam com o lugar.

Se o senhor me permite tio, gostaria de organizar a parte de informática para o senhor, assim, coloco em prática algumas coisas que aprendi.

Precisamos alugar um lugar para viver, mas sem a interferência de ninguém, pois sabes que odeio favores, o André queria me oferecer o lugar, mas eu discuti com ele o preço do aluguel, ele não entendeu bem na hora, mas finalmente concordou. 

Foi a NYC, com o sobrinho, se enfrentou ao Jonathan, que fez uma coisa deplorável, como sabia quem eram seus clientes nessa região, escreveu a todos falando mal dele, foi a gota que faltava.

Retirou as poucas coisas que tinha no escritório, cabiam numa caixa, sendo esperto, tinha levado sua agenda de clientes que estava no computador, num pen drive, isso no dia anterior.

Pediu as contas, arrumou sua bagagem, manteria o apartamento fechado, iria pagar ao porteiro que abrisse de vez em quando para arejar.

Já estava pronto, para começar outra etapa de sua vida, se tudo desse certo, vendia o de NYC, compraria uma casa ou apartamento em San Francisco.

Agora a duvida tinha o Roger, tinha recebido a oferta de San Francisco, que era melhor que a de Los Angeles, lhe abria um leque maior.

Ao mesmo tempo, deram uma escapada ao Rio, para ver sua mãe, bem como sua irmã, queria que as coisas se assentassem, foi quando descobriu a história da carta do Jonathan.  Então fez uma coisa, escreveu uma aos seus clientes de NYC, avisando que mudava de pouso, que se quisessem investir no outro lado do pais, entrassem em contato com ele.

Em seguida recebeu notícias dessa gente.

Roger e o xará, estavam procurando um apartamento para viverem juntos, ele riu muito, quando soube que ia ao Brasil para visitar seus pais, resolveu ir junto, nunca tinha ido.

Foi uma excelente viagem, André estava louco para ir, mas não podia sair por negócios.

Ver sua mãe, a alegria da irmã e do cunhado, por verem o filho que tinha vencido fora, foi ótima, o irmão tinha se casado, agora vivia em São Paulo, lá tinha mais trabalho nas obras e pagavam segundo ele melhor, mas não apareceu para ver o irmão.

Um dia foram a Quintino, no endereço que a Djanira tinha de sua família, não moravam mais ali, quando perguntaram, disseram que os velhos tinham morrido, que suas duas filhas tinham ido embora dali, uma vivia em Sepetiba, outra ninguém sabia.

Mesmo assim o Xará, ficou feliz, sabia agora de aonde sua mãe tinha saído, foram com ele ao Parque Lage, pois eles tampouco conheciam.

Mas ninguém se lembrava dela, riram muito quando Jorge disse que isso era normal no Brasil, ninguém se lembra de mim tampouco.   Soube que o dono da fábrica, tinha vendido tudo, estava vivendo em Bali, de onde exportava coisas para o Brasil, vivia bem.

Levou sua mãe para fazer um check up, os médicos disseram que viveria ainda muito tempo, conversou muito com sua irmã, agora os dois se sentiam sozinhos.  Porque não vinham passar um tempo com eles, eu mando a passagem, vou montar meu negócio, quando tiver uma casa minha vocês três vem nos visitar.

Voltaram as obras estavam já no final, em seguida os dois Roger’s começaram a montar a parte de informática, ele começou a selecionar gente para trabalhar com ele.

Todo mundo ria, pois estava trabalhando sozinho, num espaço perto das janelas que davam para a Baia também.   Quando tudo funcionava, avisou seus clientes, que já estava operativo, a Djanira, o ajudou a decorar a única sala fechada, para reuniões, pintou um belo mural, retratando o Rio de Janeiro, não quis cobrar nada, quando algum cliente perguntar, só de meu contato.

Comentou com ele, sobre os fatos de não saber da família, pensaram igual a família do meu marido, que eu tinha dado um golpe do bau, todos queriam se aproveitar, menos meu padrasto, que achou um absurdo isso.  Foi o único que me desejou boa sorte.

Depois minhas irmãs me escreviam sempre pedindo dinheiro, para as ideias mais loucas, me informei a respeito com o pai delas, ele disse que as duas queriam era viver bem as minhas custas.

Com o tempo perdi contato, foi a única que lhe disse uma coisa, cuidado o André segue ligado ao homem com quem viveu a muito tempo.

Um dia tocou no assunto com ele, esse se abriu, está velho, cheio de problemas, me dá pena, ainda sinto por ele alguma coisa.

Não teve duvida nenhuma, agradeceu o ter ajudado a mudar sua vida, tinha sentido que tinha se acomodado um pouco, pois ele vivia na verdade em Los Angeles, começou a reclamar que tinha se deslocar para vê-lo.   West lhe avisou de uma casa ao lado da sua que estava à venda.

Foi olhar com seu sobrinho, precisava sim de uma reforma, a casa era grande, sua família podia viver ali, falou com seu cunhado, esse disse que faria ele a obra da reforma, só teria que arranjar um ajudante.   West disse que podiam ficar hospedados em sua casa, enquanto isso.

Tinha encontrado nele um bom amigo, era ele quem lhe dava notícias do André.

Foi duro convencer sua mãe, tinha medo de avião, dizia se eu nunca andei de trem, imagina de avião, viriam num voo noturno, que saia de São Paulo, deram uma pastilha para dormir para ela, roncou o voo inteiro, ele pagou para virem numa classe executiva, que tinha mais espaço.

A primeira coisa que sua mãe disse, foi que nada como ter terra abaixo de seus pés.

Seu cunhado e sua irmã, disseram que estavam fazendo um curso de inglês, mas com o tempo o melhor era de sua mãe.   Ele sempre dizia, o azar dela, era que não tinha podido estudar.

Adorava conversar com a Djanira, analisava sua roupa, logo ninguém sabe como conseguiu no momento que a casa ficou pronta, arrumou uma maquina de costura, estava costurando para fora, nada como ganhar em Dólares, dizia rindo, costuro devagar, mas com prazer.

Ela e sua irmã, agora faziam isso numa parte nos fundos da casa, uma antiga garagem, com um apartamento em cima.   Seu cunhado logo estava fazendo obras por ali.

Dizia sempre, pelo menos não nos sentimos sozinhos.

Para todos os efeitos West, era um homem heterossexual, um dia sem querer se beijaram, foi uma coisa eletrizante, ele confessou que tinha tido aventuras na sua juventude, mas depois não, agora não se largavam, o que ele achava interessante, podiam conversar horas.

Sua mãe só reclamava de uma coisa, não conseguia fazer um bom feijão, como do Brasil, nem tampouco encontrar farinha, até que Djanira que sempre estava por lá, disse que tinha um site na internet que vendia essas coisas, foi a solução.

Agora com sua irmã, as duas faziam roupas, a Djanira pintava as mesmas, faziam sucesso.

Seu sobrinho, tinha assumido o relacionamento com o xará, ele passou a viver com o West, os negócios iam bem, trabalhou até uma boa idade, sempre tinha trabalhado, quando o West reclamava, creio que vou morrer trabalhando.

Mas o que gostava mesmo era de ter sua família com ele.

Seu outro sobrinho, nem sua irmã, que não tinha aparecido de vez em quando ameaçavam de vir, mas nunca os convidou.

Nunca podia ter imaginado que seu relacionamento com o West, que tinha ido surgindo com naturalidade, fosse durar tanto, os dois já estavam com quase 70 anos, foi quando sua mãe morreu, dormindo, sorrindo.

Foi cremada, pois suas cinzas depois iriam para o Brasil.  Que ele foi com o West para levar, esse dizia que tinha adorado, quando via as mulatas sambando, dizia que ele fazia isso na cama, ou em cima dele, riam os dois.

Ano seguinte fizeram uma viagem a Europa, foi divertido, mas tinha encontrado seu pouso em San Francisco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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