PASSADO
Sempre se dizia que o passado sempre volta,
ou condena, parecia que o meu sempre queria me pegar uma peça.
Depois de toda a confusão que tinha passado
por causa de uma casa que cuidava em Fire Island, a do maldito Issac Stern, ou
como poderia se chamar hoje em dia, pois no final de tudo descobrimos que o
mesmo estava vivo, mas claro com outra cara.
Graças a minha intuição ou sentido de
observação, tinha ajudado primeiro o xerife da vila, depois o FBI e por último
a CIA. Inclusive tinha feito a tradução
de um livreto que contava a história do pai do mesmo, um cigano que tinha se
feito passar por judeu, para poder sobreviver depois da segunda guerra.
Poderia ter publicado a história do mesmo,
pois como escrevi tudo, para nunca me esquecer do que tinha passado, poderia
ter ganho algum dinheiro.
Pela primeira vez, tinha optado, nos largos
invernos pintar, primeiro em minha pequena casa, para reclamação do meu
companheiro, o Frank, dizia que o cheio das tintas o incomodava sempre, isso
além dos problemas que passamos a ter depois da minha exposição em NYC, que foi
bem recebida, na mesma época vendi o apartamento que tinha comprado, me parecia
em outra vida, que por estar reformado, por um bom dinheiro, além do que tinha
aplicado, este reclamava que eu vivia miseravelmente. Que devíamos viver numa das casas em frente
ao mar, que antigamente eu cuidava, mal sabia ele que alguns de meus clientes
favoritos, ainda ia dar uma olhada.
Demorei para entender isso, pois ele vinha
de uma infância complicada, de família humilde, me ver com tanto dinheiro, sem
usufruir, lhe parecia um absurdo.
Mas como explicar que depois de tudo o que
eu tinha passado na minha juventude, eu precisava disso, para manter os pés no
chão.
No ano anterior, eu tinha exposto em Paris,
pela primeira vez, já claro conhecia a cidade, da minha época de manequim, o
levei comigo, estava de férias. Mas ao
recordarem de meu nome, que anteriormente por lá esteve ligado a um escândalo,
parecia que todo mundo me queria ver por causa disso, como eu tinha
sobrevivido, estar na época sem saber metido com um mafioso.
Jurei nunca mais, expor em Paris, o
galerista tinha aproveitado disso, para promover a exposição, embora tinha
vendido tudo, foi também complicado fazer com que me pagasse como era devido,
tive que até acionar um advogado para isso.
O filho da puta estava meio falido, demorou
a me pagar tudo.
Frank dizia que eu sempre atraia confusões,
no fundo talvez era uma verdade, pois ele conhecia minha vida passada, tinha
contado para ele, desde minha infância no Mato Grosso.
Só nunca ia ao Brasil, por isso.
Quando lhe saiu uma oportunidade outra vez
de ir para uma delegacia boa de NYC, depois de muito pensar, de conversar
comigo, até mesmo dizer que eu devia ir com ele, ter na cidade um studio melhor
do que tinha, não gostou da minha resposta.
Lhe disse que nem pensar pensava nisso, ali
eu tinha paz, gostava de como vivia, tinha construído por causa dele, um studio
atrás da minha casa, aonde eu passava a maior parte do tempo. Depois nada como
no verão poder andar de camiseta, bermudas, sandálias, meus passeios pela praia
nos dias que estava tudo calmo, sem turistas, meus mergulhos na água fria,
tinha me acostumado a isso, inclusive tinha recuperado meu nome verdadeiro,
para assombro dele que não conseguia entender, Claudionor Silva Souza. Na ilha todos seguiam me chamando de Sharpe,
mas meu advogado tinha conseguido manter meu dinheiro com o outro nome.
Quando disse que eu ficava na ilha, mas que
ele devia aceitar o posto, afinal estávamos muito tempo juntos, sexualmente nos
dávamos bem, mas no momento que ele tinha seus ciúmes, eu ficava claro na
defensiva.
Como por um acaso, um dia lhe expliquei,
que talvez porque eu fosse uma mistura de raças, que seria considerado um
bugre, pois meu pai ninguém sabe de aonde tinha surgido, tinha sangue alemão, talvez
fosse um dos muitos refugiados, não sei de que lado, dos perseguidos ou
perseguidores, da Alemanha depois da guerra.
Minha mãe ao contrário era uma mulher rude,
ali mesmo do Mato Grosso, tinha vivido a vinda inteira na fazenda, tinha poucos
estudos, mas não era burra. Quando se
casou com ele, este não sei por que assumiu o sobrenome dela.
Ajudei o Frank a transportar suas poucas
coisas ao apartamento que meu advogado tinha conseguido para ele, Gilbert
Smith, me falou em particular que precisava falar comigo, era um amigo de larga
data.
Nessa noite dormi no novo apartamento do
Frank, mas no dia seguinte, ele foi trabalhar na sua nova delegacia, eu fui ao
escritório dele.
Primeiro lamentou da nossa separação.
Expliquei para ele o problema, seguíamos
amigos, eu gostava do Frank, tinha aprendido a aceita-lo, mesmo com seus
ciúmes, sua certa inveja do meu poder aquisitivo.
Contei que a ele lhe incomodava o fato de
não usufruir do meu dinheiro, ele odeia que nunca lhe diga o que penso, que
depois de todas as merdas que passei na vida, adorava o meu jeito de viver.
Quando fomos a Paris, pensou que íamos nos
hospedar num hotel desses famosos, claro eu me hospedei aonde ficava num hotel
velho, que inclusive um dos antigos funcionários se lembrava de mim. Imagina como explicar a ele, que adorava
isso, poder ser eu mesmo, sem luxos nem nada.
Quando acabei recebendo o dinheiro da
galeria, que te deu tanto trabalho para que pagassem, ele não entendia, pensava
que iria comprar uma casa que viviam as pessoas ricas da ilha.
Eu segui levando minha vida como sempre,
outra coisa que lhe incomoda é que eu siga indo comprar peixe no mesmo velho
pescador, que tenha uma maneira de comer, que o pouco me basta.
Tom o velho xerife me entende, ele tentou
ir viver fora de lá, mas acabou voltando para viver em sua velha casa. Diz que só de pensar em escutar o barulho da
cidade, se desconcentra.
Agora é ele quem me acompanha as vezes a
pescar, podemos ficar horas no barco pescando sem dizer uma palavra. Frank foi uma vez, não parava de falar,
queria comentar coisas de algum problema com o Tom, este lhe fazia um gesto de
silencio, com se ele falando espantasse os peixes.
Gilbert se matava de rir, tinha ido muitas
vezes me visitar no verão, por duas vezes me disse que eu poderia realmente ir
viver numa das casas dali, mas entendeu que o que tinha me bastava.
Foi direto ao assunto, pois sabia que eu
teria que pegar dois ferrys, para ir para casa.
Bom, basicamente foi tudo vendido das
terras da tua mãe, mas há um problema, aonde estava a casa original, o novo
dono, encontrou uma série de documentos guardados, numa caixa de metal, ao
fazer umas melhorias na casa. Entregou
ao delegado da cidade mais próxima, que procurou te encontrar, foi dar com o
advogado de São Paulo que cuida das coisas por lá.
Esse examinou dos documentos, alguns são de
teu pai, o alemão como ele diz, ao mesmo tempo descobriu que ele tinha uma
propriedade em seu nome, no que hoje parece ser uma nova província, Tocantins,
uma bela quantidade de terra, que esteve invadida durante um tempo.
Mas que realmente pertence a ti, mas isso
terias que ir pessoalmente a São Paulo, para resolver, ele já está mexendo nos
papeis de posse.
Riu muito, pois andou pesquisando no
consulado da Alemanha, levou um susto, quando um dia apareceram dois homens da
embaixada de Brasília, querendo falar com ele.
Teu pai, realmente era um capitão ou outra
coisa, da guarda pessoal de Hitler, imagine o susto do coitado, claro, escapou
de ser julgado em Nuremberg, porque nunca o encontraram, claro ele tinha
adotado o sobrenome de tua mãe, Silva Souza, que é a coisa mais comum no
Brasil, na época Mato Grosso, era um esconderijo perfeito, ele poderia ter se
escondido como os outros, segundo o advogado me falou, creio que em Santa
Catarina. Mas Mato Grosso?
Bom minha mãe nunca falava muito dele,
depois quando chegou a época que eu tinha que estudar, me enfiou num seminário
de padres alemães, para que assim eu aprendesse a língua de meu pai, eu só
voltava para casa na época das férias.
Depois ela nessa época vivia junto com o
administrador das terras, que já te contei a história, abusou de mim, ela o
matou, jogou para as piranhas.
Adoro essa história, como me contaste, pois
como não sobra nada, não se pode acusar, se ninguém viu melhor ainda.
Bom mas voltando a história, me parece que
teu pai tinha família na Alemanha, era de família importante, tinha duas irmãs,
que ficaram do lado soviético, justamente em Desdren, com a caída do muro de
Berlin, elas puderam recuperar seu patrimônio, que posteriormente ficou para um
dos filhos, esse não tinha herdeiro, elas andaram procurando teu pai, através
do consulado de São Paulo, embaixada em Brasília. Só descobriram essas terras, quando o
advogado mexeu na história das terras, eles foram direto para saber se seu pai
era vivo, se tinha descendentes. Pois
te toca as terras que elas tinham na Alemanha.
Estava com a boca aberta, só podia pensar
que confusão.
Vou pensar, com calma nisso tudo, passe meu
celular para o advogado de São Paulo, assim ele me explica melhor essa
história.
No Ferry, em alguns momentos, ele acabava
rindo, pois por mais que forçasse sua cabeça, não conseguia lembrar da figura
do pai, tudo que podia pensar que ele era muito alto.
Quando chegou em casa, antes passou pela do
Tom, pediu se podiam conversar?
Claro, estas com uma cara de fazer gosto,
parece que viste fantasmas.
Sim Tom, fantasmas do passado que parece
que sempre estão no meu pé.
Se sentaram na varanda detrás da casa,
primeiro ficou em silencio, como querendo concentrar tudo que tinha escutado.
Tu e Frank são os poucos que sabem da
história da minha vida, por isso hoje quando fui ao advogado que precisava
falar comigo, levei um susto.
Vocês riam do meu nome esse Silva Souza,
que acabo de descobrir, que era só o sobrenome de minha mãe, que meu pai para
se esconder, adotou.
Sabia que ele era alemão, sempre desconfiei
como poderia ter ido parar no Mato Grosso, Tom repetia sempre isso, não
entendia o nome.
Bom o novo proprietário da casa central da
fazenda, acabou descobrindo fazendo obras para melhorar a casa, uma caixa
fechada, que entregou para a polícia, que sua vez chegou às mãos do meu
advogado em São Paulo, esse descobriu uma nova propriedade, justamente em nome
dele, mas o nome original, Joseph Von Blinger, que era de uma família
importante, era guarda pessoal do Hitler, fugiu é claro, acabou lá, por isso
assumiu outro nome, para não ser encontrado, a família, ficou do lado Russo,
não pode fazer muita coisa, quando caiu o muro de Berlin, recuperaram suas
terras, que depois ficou para o filho de uma delas, que tampouco teve herdeiros,
elas tentaram encontrar o irmão, sabiam que tinha ido para o Brasil, mas não
para aonde, resultado sou herdeiro lá também, parece que só a mais nova e viva,
já com quase 95 ou mais anos.
Quando o advogado mexeu para descobrir se
essas terras ainda pertenciam a ele, logo apareceram dois homens da embaixada
de Brasília. Tudo é muito recente,
sabem que existo, mas não aonde.
Porra achas que devo mexer nesse vespeiro?
Tom se ria, Frank tinha razão, tudo que
tocas se transforma numa bela confusão, a última essa, a que aconteceu em
Paris, quando para fazer publicidade o dono da galeria desenterrou teu passado
como manequim, o escândalo do teu romance.
Por isso estou falando, achas que devo ir,
até São Paulo para resolver isso?
Eu desde já iria, se pudesse ia contigo,
sempre quis ir ao Brasil, minha mulher não perderia por nada.
Nessa noite despertei com o celular tocando,
nunca deixava mudo, pois nunca ninguém em chamava, na hora pensei que era o
Frank. Era o advogado de São Paulo,
primeiro pedi que falasse devagar, pois custava a entender o português dele. Me perguntou que horas eram?
Lhe disse olhando ao relógio que eram as
três da manhã. Pediu desculpas, mas
tinha querido falar comigo, fora do horário do escritório.
Agora falava devagar, me pediu desculpas,
preocupado que tivesse me metido numa confusão, eu só quis tirar informação
dessas terras, ela esteve ocupada muito tempo, mas agora está outra vez vazia,
mas para vender, terás que vir, se identificar como filho de teu pai, para
poder se livrar delas, principalmente que quando ele comprou, essa província
não existia.
Claro no momento que toquei no nome dele,
apareceram os da família dele, através da embaixada, eres herdeiro das terras
da Alemanha também.
Riu no final, só no Brasil, para acontecer
essas confusões.
Lhe disse que ia pensar, mas de maneira
nenhuma fale o nome que uso para ninguém.
Foi a mesma coisa que pensar, se mexo
nisso, jogarei merda no ventilador.
Pois dois dias depois, por sorte não estava
em casa, sim pescando com o Tom, quando chegamos o substituto do Frank na
delegacia nos estava esperando.
Apareceram dois tipos, vestido de terno e
gravatas, uma coisa rara por aqui, estiveram na tua casa, alguém disse que
estava fora, se identificaram na delegacia como sendo da embaixada em
Washington, a procura de ti, se eras Claudionor Silva Souza Von Blinger.
Puta merda, o melhor e cair fora, disseram
que voltariam daqui dois dias, deixaram esse cartão para ti.
Ficaram os dois sentados na varanda,
comendo um dos seus famosos sanduiches de peixe.
Tom adorava, o Frank odiava.
Falou com ele, esse disse que tinha sido
procurado pela CIA, pois sabiam que era teu amigo, disseram esse amigo muito sutilmente,
tentei falar contigo. Mas imaginei que
estavas pescando.
O que acontece?
Melhor ficares de fora nisso Frank, não
vives dizendo que tudo que toco, vira confusão, pois é sem querer, sem ter
feito nada, estou no meio de uma.
Depois te digo algo.
Acho melhor ir ao Brasil resolver isso,
pelo menos, só tenho que ir até São Paulo, queres ir comigo Tom.
Não perderia essa festa por nada do mundo.
Gosto, pois contigo posso falar, não fazes
drama.
Então amanhã mesmo vamos, iremos para NYC,
renovo meu passaporte, tu tiras o teu, mas só falaremos com meu advogado, pois
se falo com o Frank ele vai querer ir junto.
Ligou para o advogado de São Paulo, foi
como uma vingança, pois pegou o mesmo dormindo, disse que lhe avisava do voo
que tomaria, para ele pudesse reservar hotel.
Mas já avisou, alguma coisa simples.
Quando falou com o seu, viu que a merda já
tinha sido jogada no ventilador, tinha jantado no dia anterior com Frank, esse
já sabia de tudo.
Foi quando viu que no seu celular, tinha
chamada dele.
Quando falou com ele, esse se matava de
rir, depois sério, disse, me meti numa merda, odeio esse delegacia, quando
falei em trocar, me disseram se quero posso me aposentar.
Vou para aí, ou vens para cá para falarmos,
penso ir contigo ao Brasil.
Amanhã tomaremos o primeiro ferry para aí,
Tom quer ir junto.
Ok, te espero no ferry, ficam no meu
apartamento, já dei entrada no processo, vou me aposentar, quero voltar para a
Ilha, agora entendi o Tom, esse barulho, é uma merda.
De uma certa maneira, ele estava acostumado
do Frank, gostava dele, tinha convivido esses anos, no meio de muita confusão,
mas se ele fosse junto, pelo menos tinha o Tom para aparar as arestas.
Depois de conversar com o Gilbert, com o
qual tinha pelo menos relaxado, vais resolve, se vendes, ele que entre em
contato comigo para transferir o dinheiro.
Por falar nisso, tenho uns clientes, que
herdaram entre muitas coisas uma casa em Fire Island, quando disse o nome ele
conhecia, um dos meus melhores clientes, passava largas temporadas na ilha, sem
se misturar, aliás sua casa, está mais afastada das outras, a única que tem por
perto é de um médico. Sabia como era a
casa, pois tinha cuidado dela, inclusive era um dos poucos clientes que ficava
as vezes no inverno. O ruido das festas,
a confusão do verão quase não chegava até ele.
Quanto querem pela casa, pelo que ele se
lembrava, nos fundos tinha um studio de pintura, mas esse estava sempre
fechado, não deixava ninguém entrar lá.
Os sobrinhos, só foram até lá com o dono da
galeria que o representava, trouxeram todos os quadros, deixaram os studio
vazio, venderam o apartamento daqui da cidade, que valia uma fortuna, não pedem
muito pela casa, pois precisa de reformas, eles não gostam de lá.
Aliás são casados, com família, acham que é
um lugar para degenerados, mas bem que gostaram do dinheiro que o tio deixou.
Reserve a casa para mim, é uma das minhas
favoritas da ilha, porque está longe da confusão.
Falaram depois com o advogado de São Paulo,
avisou que do aeroporto lhe avisaria, o voo, mas que fosse muito discreto,
ainda não queria tocar no assunto da Alemanha.
Ia viajar com seu passaporte americano,
assim seria mais fácil, Tom Sharp, era seu nome mais visível.
Depois almoçaram com o Tom e Frank, tudo
resolvido, ia com pouca bagagem como sempre, o necessário, seus documentos, um
pouco de roupa. Gilbert os levou ao
aeroporto, de lá avisaria o voo que eles iam, compraram na hora um voo que saia
dentro de uma hora, os três em primeira classe, a senhora avisou que estava
vazia, por isso fazia um preço mais barato.
Acabou cada um dormindo afastado do outro,
depois de comerem o que serviram como jantar.
De manhã, chegaram a São Paulo, Frank e
Tom, olhavam pela janela, o tamanho da cidade, a senhora que os tinha atendido
durante o voo, disse que o melhor era pegar um taxi, dentro do aeroporto.
Mas não foi necessário, tinham um homem com
um cartaz Tom Sharpe, esperando, disse que era o motorista do advogado.
Os levou para um apart hotel, aonde tinha
reservado um grande, assim tinham como dormir confortavelmente.
Tomaram um belo banho, o homem continuava
os esperando, para levar ao escritório, resultou que não era longe dali, que
poderiam ter ido a pé.
Era um homem mais ou menos da idade do Tom,
primeiro pensou que era ele, por ter o mesmo nome de Claudionor.
Rindo depois perguntou se era complicado
trocar esse nome horrível?
Sim posso conseguir isso. Deixa só Claudio, fica melhor.
Estudou com ele, sobre as terras, disse
para colocar a venda, não lhe interessava ir até lá, depois o senhor fala com o
Gilbert, resolvem como mandar o dinheiro.
Tenho dois interessados, levantei o preço,
falou em milhões, a cara do Frank era ótima, o homem riu, mas não se esqueça
que transformado em dólares, isso vira uma mixaria.
Teve que explicar o que era mixaria. Todo esse tempo conversavam em inglês, pediu
desculpas, pois seus amigos não falavam português, eu mesmo teria dificuldade.
Depois entrou no assunto da Alemanha, levei
um susto de fazer gosto, pois eram dois homens imensos, pareciam agentes da
CIA.
O senhor imagina, que depois tentei
localizar na minha cabeça a figura de meu pai, só posso dizer que era magro e
muito alto, nunca tive uma foto dele.
Espere, abriu a bendita caixa, lhe mostrou
as fotos que estavam ali, ele vestido de oficial da SS, bem como com roupas
normais, era um homem bonito, Tom disse que se parecia com ele.
Mostrou tudo que estava dentro, inclusive,
condecorações, colocaram tudo num envelope, levaria como lembrança de um pai
que nem se lembrava.
Tinha um pequeno diário também.
Ficou rindo, comentou, fico me lembrando do
outro diário, deve ser ao contrário.
Contou para o advogado, estivemos metido
num caso, havia um diário, um homem que era cigano, que acabou se passando por
judeu, viveu o resto da vida e morreu como tal, esteve num campo de
concentração, fiz a tradução do diário, o filho até hoje e caçado pela CIA,
FBI, pois traficava com diamantes e armas, só que desapareceu.
Foram comer num restaurante relaxado ali
perto o Figueira Rubayat, que os três adoraram, principalmente o Frank que
disse, ufa nada de peixe.
Contou para o advogado que eu tinha
inventado um sanduiche que fazia de mil maneiras, mas o recheio era peixe
sempre.
Quando disse que morava em Fire Island, o
homem disse que quando era jovem tinha estudado em NYC, que tinha ido até lá
uma vez.
Ficam muito tempo, Tom e Frank se olharam,
rindo, com esse nunca se sabe, não fizemos planos, o que nos recomenda?
Posso tirar o final de semana, iriamos a
Parati, explicou o que era, tenho uma casa numa ilha, acho que vão gostar.
Amanhã tratamos disso, vou preparar a
procuração para a venda das terras, bem como a troca de seu nome, ele explicou
que usava normalmente o nome americano, que nunca soube como seu agente tinha
conseguido, Tom Sharpe, mas fiquei conhecido como Sharpe, com o qual assino
meus quadros também.
Meu chofer vai mostrar para vocês a cidade,
aproveite se querem comprar alguma coisa, de noite os levo para jantar.
Todos disseram que nunca comiam comidas
pesadas de noite, só os famosos sanduiches de peixe.
Avisarei o senhor que cuida da ilha que
tenha peixe para poder comermos.
Andaram pela cidade com o motorista, no
final este os deixou num shopping, eles sabiam aonde estava o apart hotel,
assim levo o patrão para casa.
Compraram camisetas, coisas que usavam,
bermudas, sandálias diferentes que viram por ali, tudo era em saldos, pois já
era considerado inverno no Brasil.
Para eles com a diferença do dinheiro era
barato.
O que vais fazer com esse dinheiro, soltou
o Frank quando voltaram.
Ficou rindo, tenho um amigo, que vive
reclamando da minha casa, fiquei sabendo de uma casa que cuidei muitos anos,
que esta a venda em Fire Island, vou comprar, assim ele não me enche mais o
saco, mas só vou contar qual, quando feche o negócio, ele vai ter que aceitar
de qualquer maneira, o lugar.
Frank foi enumerando as que sabiam que
possivelmente estavam a venda, ele não comentou nada.
Isso que dar ser curioso, soltou o Tom,
para mim desde que ele não vá embora de lá, é como meu filho, pode ir para
aonde queira, desde que seja ali perto.
Os dois estão contra mim, reclamava o
Frank, quando desceram o advogado estava esperando, os levou para um lugar
agradável, pediram comida leve, todos aliás pediram saladas, depois os levou
para escutar música brasileira.
Lá pelas tantas, estavam os três abrindo a
boca, disseram, ao mesmo tempo, estamos acostumados a dormir cedo.
Era uma verdade, o advogado perguntou que
hora mandava busca-los?
Podemos ir caminhando é perto, sabemos como
chegar, assim nos levantamos andamos um pouco.
Todos se levantaram cedo, Frank ficou
rindo, ele estava sentado na pequena varanda do apartamento, olhando para o
nada.
Não me lembrava nada disso, vivi aqui um
tempo, mas não era feliz, foi uma merda.
A única coisa que salvou, foi que conheci,
você sabe da história, o sujeito que me levou com ele para NYC, aonde acabei
virando modelo.
Era outra história que nunca gostava de
lembrar, o tinha conhecido numa noite que tinha saído com amigos, uma discoteca
gay, se deslumbrou com aquele homem que poderia ser seu pai, fino, educado,
pelo visto rico, que dizia ter-se apaixonado por ele.
Pensou na imagem que tinha dele mesmo, um
rapaz sem educação nenhuma, mal tinha estudado, no shopping tinha se lembrado
que trabalhava numa boutique na Rua Augusta, o ponto da moda na época, tinha
estampa isso sim, mas educação, só o que tinha estudado no seminário, depois
tinha vivido na fazenda trabalhando muito.
Sua mãe lhe tinha dado dinheiro para
começar a vida em São Paulo, foi como tinha começado, depois perdeu o contato,
não queria se lembrar do que tinha acontecido por lá, o abuso do padrasto,
depois os outros peões sabiam disso, se aproximavam pela sua aparência, ele não
encaixava lá.
Esse homem o tinha deslumbrado, mas como
sempre deu com os burros n’água, quando ele viu um dos seus amigos, um diretor
de agência de modelos, lhe dando um cartão, o colocou na rua.
Por sorte o homem, lhe arrumou
trabalho. As vezes o encontrava em Fire
Island, dizia que tinha hoje em dia um tipo fantástico.
Frank quando o conheceu ficou com ciúmes.
Embora tivesse lhe contado a história de
tudo, esse homem nunca tinha sequer se insinuado para ele, agora estava viúvo
de seu companheiro de toda a vida. As
vezes pensava nele, com os dois filhos adotivos que tinha, dizia que sua vida
estava cheia com essas crianças, hoje dois belos rapazes.
Era raro haver crianças em Fire Island, aliás
a única vez que tinha ido a casa que vendiam agora, estavam lá seus sobrinhos
com os filhos, parecia ter alegria na casa.
Mas como dizia o homem, adorava a solidão
que tinha lá para pintar.
Tinha sido a primeira pessoa que ele tinha
mostrado seus desenhos.
Tom e Frank, foram dar uma volta pela Av.
Paulista, ele ficou conversando com o advogado com respeito as coisas da
Alemanha.
Posso chamar uma pessoa que me atendeu no
consulado, ele pode te explicar melhor.
Pensou um pouco, queria se situar nessa
história, lhe disse que sim.
Meia hora depois, apareceu um homem
altíssimo, branco, com olhos azuis, se apresentou como adido do consulado.
Ele falou de seu pai, ele foi da guarda
pessoal do Hitler, mas conseguiu escapar, antes do fim da guerra, acreditamos
que pela Holanda aonde tinha amigos, mas nunca tinha participado da guerra,
como era de uma família importante, creio que isso o salvou. Sobraram suas duas irmãs menores, que sabiam
que tinha vindo para o Brasil, pois tinham um carta dele, mandada desde São
Paulo, depois nunca mais.
Sabemos que estas terras ele comprou nessa
época, depois desapareceu. Como foi
parar no Mato Grosso, não sabemos.
Bom ele morreu quando eu tinha 6 anos mais
ou menos, só me lembro que era muito alto, que eu ficava admirando isso.
A fazenda na verdade era da minha mãe,
nunca esteve no nome dele, tampouco sei por que ele adotou o sobrenome dela,
imagino, que para escapar de possíveis problemas.
Sim, ele era procurado pelos judeus, mesmo
pelos americanos.
Queriam saber o que ele sabia, pois era um
dos homens mais próximos do Hitler.
Menor ideia disso, minha mãe acho que
desconhecia tudo isso, pois nunca mencionou nada.
Nem sabia que tinha esse registro que o
advogado me mostrou, com o sobrenome dele.
Sua única tia viva, é a menor de todos, tem
muita idade, não sabe o que fazer com a propriedade que deu tanto trabalho em
recuperar, acho que gostaria de o conhecer, antes de morrer.
Eu na verdade não necessito de dinheiro,
vivo uma vida muito simples.
Isso me contaram os da embaixada em
Washington, pelo visto tua casa é muito modesta, dizem que pintas, no dia que
te procuraram estavas pescando, pensaram que era um pescador.
Ele se matou de rir. Vou sempre pescar com um amigo, tenho
dinheiro de meu trabalho como modelo quando jovem, depois, apliquei esse
dinheiro sempre, pinto, fiz duas exposições que venderam bem, mais dinheiro
para aplicar, não necessito de muito, a pouco tempo vendi um apartamento que
nunca usava em NYC, mais dinheiro aplicado, além do dinheiro da venda da
fazenda da minha mãe, que teve que ser dividida para se mais fácil de vender.
Como o senhor vê, não tenho família,
filhos, herdeiros nada disso, posso até ir visitar a senhora, mas como para
conhecer alguém de minha família.
Mas sempre fui sozinho, comecei minha vida
aqui nesta cidade, sendo muito jovem, sempre trabalhei, não lhe disseram que eu
cuido de casas na praia.
Fiz isso durante muito tempo, hoje em dia,
só cuido de duas, pois os dois são pessoas que gosto, vou sempre olhar se esta
tudo bem, limpo antes deles chegarem, mas no mais levou minha vida, reclamam
que eu não usufruía muito o meu dinheiro, mas adoro andar como estou agora, bermudas,
camisetas, sandálias, só no inverno é que me protejo mais, pois neva sempre.
Aliás, uma das maravilhas, que aprendi a
apreciar com a mulher de um dos meus melhores amigos, que foi xerife lá, a neve
por cima da areia na praia, as noites estreladas, ou de lua cheia sobre o
mar. É o meu paraíso.
O alemão soltou, eu vim para cá pensando
nisso, vou para o paraíso, acabei em São Paulo, com poluição, um consulado
complicado, aonde tudo é longe, enfim, acabo de ficar com inveja.
Lhe passou o contato da senhora, bem como o
telefone do advogado em uma pequena vila, perto de Desdren, no vale do Elba.
Terás que ir a Berlin, para ir depois para
lá. Se pode ir de trem.
Agradeceu muito, a conversa, ele se
apresentou Hans Meyer.
O advogado o convidou para ir no dia
seguinte com eles para Parati.
Não vou incomodar?
Imagine, só para os amigos do meu cliente,
poderem dizer que viram alguma coisa do Brasil.
Combinou com ele, que estivesse ali no
escritório as 9:00 da manhã, com roupas para praia.
Na hora não entendeu muito, tinha pensado
que iam de carro, mas não perguntou.
Resolveram todos os papeis, ele agora se
chamava Claudio Silva Souza Von Blinger.
Riu muito, mas seguiria usando seu
passaporte americano, de toda sua vida adulta.
Quando os outros chegaram, cruzaram com o
Hans, explicou o que ele tinha contado.
Acho mais fácil sair daqui, num voo para
Berlin, resolver isso de uma vez.
No dia seguinte chegaram no horário que ele
tinha falado, um sábado pela manhã fazia um dia fantástico, pelo menos não
vamos pegar frio.
Quando o Hans apareceu, apresentou aos
dois.
Entraram no elevador, subiram, os outros
não entendiam, mas ele sim, mas não disse nada, saíram na parte de cima do
edifício, ali estava um helicóptero esperando.
O advogado deu uma ordem, disse para ele
fazer uma passeio por cima da cidade, no sentido que vamos, assim vocês tem uma
ideia do tamanho monstruoso desta cidade.
Ele ia relaxado, pois imaginava o que eles
viam de boca aberta, o advogado soltou que tinha pedido a um dos sócios o
helicóptero, pois o dele era pequeno.
A viagem era fantástica, passaram por cima
de Parati, até a ilha que ele possuía, ali o helicóptero pousou.
Era uma bela mansão, com uma pequena praia
particular, explicou que só tinha essa casa ali.
Estiveram na praia, dando um belo banho, a
agua era completamente diferente de Fire Island, Frank dizia que ali sim dava
gosto se banhar.
Depois foram de veleiro até Parati, para
almoçarem, ele ria muito a carta a maioria era de peixes, marisco, mas tinha
dois tipos de carne, Frank disse que passava do peixe.
Quando Hans perguntou, ele explicou por que,
esse ria muito. Na região aonde nasci,
perto da Holanda, comemos muito arenque com pão, acho uma delícia.
Ele riu, na minha próxima casa, vou fazer o
que minha mãe tinha na cozinha, um fogão de lenha, por aonde saia a fumaça, ele
defumava carnes, peixes do rio, etc.
O passeio estava sendo fantástico, Tom e
Frank, estava gostando, ele aproveitou se relaxou, falava com o Hans em alemão,
preciso desenferrujar para falar.
O final de semana voou, quando viram no
domingo de tarde, saíram de lá, ia começar a chover, mas o helicóptero, subiu o
piloto teve que fugir da chuva.
Se despedira do Hans, ficou de lhe escrever
depois para falar como tinha ido na Alemanha.
Na segunda-feira, ainda tratou de papeis
com o advogado, deixando tudo em ordem, de noite, foram para o aeroporto, no
carro com chofer, a secretária dele, tinha reservado um voo direto a Berlin, em
primeira classe, fazendo a troca, saia barato.
Dormiram bem, foi um voo tranquilo, foram
para um hotel, lá ele fez contato com o advogado de sua tia, ficariam ainda
dois dias em Berlin, para eles conhecerem.
O senhor foi franco, não perca tempo sua
tia é muito velha.
Mesmo assim ficaram esses dois dias
conhecendo a cidade, ele sim conhecia, pois tinha trabalhado de modelo por lá.
Tomaram o trem, avisaram o advogado, que
horas chegariam.
Quando desceram na estação, com a pouca bagagem,
lhes esperava um senhor baixinho, com os cabelos brancos, a cara queimada do
sol, se via à primeira vista que trabalhava no campo, tinha um papel escrito
Von Blinger.
Foi até ele, estendeu a mão, ele sorriu,
sem dúvida nenhuma te pareces com a família, disse que era o capataz, se
chamava Franz.
Esse queria levar a bagagem, mas eles mesmo
o fizeram dizendo que era pouca.
Foi explicando, o caminho, sinalizou o rio,
dizendo que graças a deus estava baixo, falou das enchentes, sempre é bom para
o campo, não para as cidades, quando entraram já bem afastado da cidade, num
caminho rural, em determinado momento, disse que ali começavam as terras da
família, ao final, sinalizou os celeiros, disse que tinha sido construído por
seu parente, mas infelizmente morreu jovem, num acidente de carro.
Quando depois de uma curva, chegaram a uma
mansão que necessitava de muitos cuidados, uma parte estava completamente no
chão, o homem explicou que nunca tinham reconstruído, por ser uma ala que
viviam os empregados, agora cada um tem suas casas, na parte detrás, depois da
guerra, permanecemos aqui, cuidando da terra, nasci aqui, bem como meus pais,
meus filhos se espalharam pelo mundo.
Foram recebidos por uma senhora, que ele
pensou que era sua parente, mas se via que era mais jovem, o homem disse que
era sua mulher, que cuidava da casa, bem como da senhora.
Os fez entrar, disse que deixassem a
bagagem ali, que logo seu marido subiria para os quartos.
Os levou a uma grande biblioteca, aonde se
via que faltavam muitos livros.
Ali sim, estava sentada uma senhora, a qual
era difícil definir sua idade, com os cabelos brancos arrumados num coque
antigo, com uma roupa tampouco nova, com um colar de pérolas no pescoço. Disse que se chamava Marianne Von Blinger.
Sou tua tia, eres muito parecido com meu
irmão, que em paz descanse.
Como os dois não falavam alemão, pediram
desculpas, os deixaram sozinhos, ela lhe indicou um cadeirão de couro, dos
antigos.
Na casa sobrou pouca coisa, durante o tempo
de dominação, tivemos que viver na cidade, quem usufruiu disso tudo, foi um
coronel soviético, quando foi embora, levou muitos livros, quadros, cavalos,
tudo que pode colocar a mão.
Quando recuperamos, era tarde, não havia
que provar nada, depois seria muita briga.
Me fale de meu irmão.
Lhe contou que pouco sabia de seu pai, ele
morreu quando era criança, tenho dificuldade de me lembrar de sua cara.
Queria saber como tinha morrido?
Pelo que minha mãe dizia, tinha sido
mordido por uma cobra, teve que explicar o que era, ficou buscando a palavra em
alemão, pediu desculpa, mas normalmente pensava em inglês, tinha usado muito
pouco o alemão.
Quando ele era vivo, em casa de falava
alemão, depois fui estudar interno num seminário que os padres eram daqui, mas
depois pouco usei.
Contou aonde vivia, o que fazia, que tinha
mandado vender as terras que tinham descobertos em nome dele. Creio que quando comprou isso era florestas
ainda.
Não sei dizer como conheceu minha mãe, ela
nunca falava disso, era uma mulher bonita, mas muito fechada, sempre
trabalhando, contou o que criavam na fazenda, gado zebu, vindos da Índia, que
gostavam de ficar na água.
Todas as terras estavam cercadas de água,
essa região se chamava Pantanal, se plantava arroz, que tinha que depois
moverem por barcos.
Mas muito jovem fui para São Paulo, para
estudar e trabalhar, minha mãe não queria que eu ficasse por lá.
Depois fui para os Estados Unidos, mais ou
menos contou sua vida, como tinha ganho dinheiro, disse que tinha estado em
Berlin várias vezes, mas como seu pai, usava o sobrenome de sua mãe, ele nunca
tinha desconfiado que tinha família por aqui.
Ela depois contou a vida deles, ele foi
obrigado a entrar para a SS, para proteger a família, apesar do nome, minha mãe
era descendente de judeus, de gerações anteriores, ele por ser de família, foi
escolhido por seu porte, seu comportamento, para a guarda pessoal de Hitler,
nos contava como era, quando vinha nos visitar, achava que aqui estávamos
protegidas, minha mãe morreu durante a guerra, por falta de medicamentos.
Tinha uma série de fotos em cima de uma
mesa, mostrou a fotografia da família inteira, seu pai muito jovem, realmente
se parecia com ele. Seus avôs, com
roupas da época, mostrou uma foto que bem podia ser sua, de seu irmão pequeno,
morreu na Rússia, durante a guerra, foi contra a vontade de teu pai, isso o
afetou muito, enquanto ele estava protegido por estar perto do Hitler, seu
irmão pequeno foi bucha de canhão.
Perdemos tudo, só nos sobrou a terra.
Antes de ir embora, a guerra não tinha
terminado ainda, mas ele sabia que era questão de tempo, veio aqui, foi quando
disse que iria para Holanda, dali para Portugal, depois para o Brasil. Ainda nos trouxe dinheiro, não falou de
aonde tinha tirado, mas depois não valia de nada.
Quando chegaram os russos, meu pai morreu,
tivemos que sair daqui, pois eles queriam a casa, fomos viver na cidade, minha
irmã se casou com um homem que tinha um pequeno negócio, ficamos vivendo lá,
ela teve um filho, que foi quem conseguiu recuperar as terras.
Os únicos que não saíram daqui foram Franz
e sua família, sempre nos cuidaram, inclusive nos ajudaram a recuperar as
terras.
Infelizmente meu sobrinho, morreu num
desastre de carro, por culpa dele é claro, como era jovem, queria viver a vida,
ao mesmo tempo, preferia a cidade, dava dinheiro para o Franz, recuperar os
celeiros, mas preferia viver à sua maneira.
Para cá viemos as duas, não havia dinheiro
para muitos empregados no campo, mas conseguimos ir em frente.
Quando caiu o murro começamos a procurar
por teu pai, só conseguimos descobrir que tinha chegado a São Paulo, mais nada.
Explicou que por algum motivo ele tinha
assumido o sobrenome de sua mãe.
Viu que a senhora estava cansada, se
levantou, pois ela estava com um lenço no rosto chorando um pouco.
Chamou a senhora que os tinha recebido, está
trouxe uma cadeira de rodas, para a levar para seus aposentos, a acompanhou.
O quarto estava no andar térreo, disse que
era impossível subir escadas com ela.
A ajudou a colocar na cama, depois ficou
sentado numa cadeira ao lado da cama, segurando suas mãos.
Depois dormiu, a senhora fez um sinal para
ele a acompanhar, agora dormira até a hora do almoço. Depois muito baixo, se cansa por nada, pois
sofreu muito depois da guerra, passaram fome, até sua irmã se casar.
Depois quando veio para cá, trabalhava lado
a lado conosco, pois seu sobrinho ficou na cidade com o pai.
As duas queriam recuperar o esplendor de
antes, mas imagine, o tamanho da mansão, isso era impossível. O sonho delas, era encontrar o irmão, pois
ele era o herdeiro, achavam que tinha ficado rico no Brasil, assim poderia
ajudar.
Mas nunca desistiram de procurar, até que
ao parecer, quando o senhor mexeu no nome de seu irmão imediatamente o
consulado a avisou.
Saiu para conhecer as terras, acompanhado
dos amigos e do Franz.
Esse contou como tinha sobrevivido, tudo
que plantávamos, ia para a Rússia, mas claro, o homem que vivia aqui, passava
mais tempo na cidade, então escondíamos batatas, arroz, para dividir com elas,
mas depois que estiveram melhor, nos dizia para guardar para nós.
Quando voltaram, o tempo tinha passado,
restaurar tudo, não valia a pena, não havia dinheiro para pagar empregados.
Os russos levaram tudo, os quadros das
paredes, livros, objetos que tinham sobrado, a casa estava nua, só não levaram
os tratores que estavam no campo, pois escondi.
Muita coisas más aconteceram aqui em volta,
preferimos ficar, para manter o lugar que sempre tínhamos vivido, meus filhos
logo foram para Berlin, nunca voltaram, agora temos um neto nosso que nos
ajuda, vai todo os dias a cidade para estudar, mas depois ajuda o avô.
Meus filhos sempre acharam um absurdo
trabalhar numa terra que não era nossa.
A última vez que falei com o mais velho,
disse que eu era um tonto, pois o dia que algum herdeiro aparecesse, a iria
vender, nos colocaria na rua.
Hoje resta muito pouco de terra, pois
tiveram que ir vendendo, para pagar impostos, o advogado vira de tarde para mostrar
as contas.
Ficou com pena, mas claro não pensava ficar
por lá. Foram se lavar, se preparar para
o Jantar, quando entraram na sala de jantar, que precisava de uma bela reforma,
sua tia estava sentada na cabeceira, eles se sentaram, quando viram que seriam
servidos pelo casal, além de um jovem, disse que nem pensar, que se sentassem
com eles, não gostavam de ser servidos.
O rapaz ria, foi apresentado como neto do
Franz.
Eu disse a eles que vocês me pareciam
moderno, que não eram chapados a antiga.
Ele riu muito quando a senhora destapou uma
fonte, ali estava arenque, como ele gostava, contou a história do seu sanduiche
de peixe que ele pescava.
Ela riu muito, chegou a se engasgar.
Isso comíamos durante a guerra, pois o
arenque defumado, aguenta mais, quando se conseguia pão, era um pedaço de pão
com arenque em cima.
Isso eu não sei, mas como aonde fui criado
tinha peixes no rio, minha mãe fazia, eu adoro, é o que as vezes comemos de
noite.
Frank, soltou em inglês, que se fosse por
ele, comíamos todos os dias sanduiche de pão com peixe.
O rapaz traduziu para os pais e para a
senhora.
Falas inglês?
Sim estudamos na escola, eu acabo agora o
curso, mas não tenho como ir à universidade, queria estudar belas artes.
O advogado tinha avisado que viria no dia
seguinte, pois tinha problemas na cidade, assim a senhora podia participar.
Depois que a colocaram na cama, ele foi até
lá, estava recostada em muitas almofadas, ficou segurando a mão dele, ele lhe
perguntou se ele não aparecesse como ela pensava com a herança.
O título se perderia, mas é só um título,
deixaria para Franz e sua mulher, o filho mais velho claro viria aqui para
vender tudo, está louco para colocar a mão em tudo.
O rapaz não herdaria nada?
Não, pois o pai o odeia, porque é gay, ou
isso pensa ele, por gostar de estudar, desenhar.
Pensas em ficar?
Explicou a ela que tinha uma vida nos
Estados Unidos, eu vim aqui para conhecer a senhora.
Tampouco penso em prejudicar a ninguém, eu
não preciso de dinheiro, contou a ela, como vivia, gosto disso, como tampouco
voltarei para o Brasil, lá nunca fui feliz.
Quando viu ela estava dormindo segurando
sua mão.
Tom e Frank, tinham ido para cama, Franz e
sua mulher ainda estavam desperto, os chamou para a biblioteca, para conversar.
Foi claro com eles, contou o que ela tinha
falado, sobre o filho mais velho.
Sim, ele nunca gostou que trabalhássemos
para as senhoras, achava que quando os russos foram embora, que seriamos os
donos, queriam vender as terras para viverem bem em algum outro lugar.
Mas quando expulsou meu neto de casa,
fiquei furioso com ele, bem como ele comigo.
Nunca aceitou que seguíssemos aqui
trabalhando.
O seu neto, não tem como ir estudar?
Não sobra dinheiro, se gastou muito em
recuperar o que se pode, quando teu primo morreu, deixou dividas, que elas
foram pagando pouco a pouco.
Ele entendeu, era muito tarde, eles foram
dormir, subiu pensativo, viu que a porta do quarto que tinham colocado o Frank
estava aberta, estavam os dois conversando.
Sentou-se com eles, bom já me coloquei ao pé
do assunto, agora nos sobra o advogado amanhã.
Me dá uma lastima, ela pelo visto tem pouco
tempo de vida, pois está muito doente, mas o pior é essa família que sempre
esteve aqui, se herdo, eles ficam sem direito a nada, o rapaz sem
possibilidades, pois seu pai venderia tudo, o colocaria na rua outra vez.
Tinha se encostado numa cama ao lado,
acabou desmaiando.
Sonhou como se desesperava em São Paulo,
sem possibilidades de fazer uma universidade, como tinha escapado do Brasil.
Poderia ter estudado Belas Artes como
sonhava, mas foi ser manequim, para sobreviver.
Despertou de madrugada, ficou deitado como
estava, com as mãos na cabeça, mas tinha traçado já o que iria fazer.
No dia seguinte, desceram para um café da
manhã, tipicamente alemão, de gente que trabalha no campo, salsichas, pão
bruto, manteiga, muito café.
O rapaz nesse dia não tinha aula, perguntou
se ele desenhava.
Sorriu, faço isso escondido desde criança,
meu pai me pegava por causa disso, dizia que não era profissão.
Se levantou, voltou com vários cadernos de
desenhos, num dos últimos tinha desenhado o Tom no jantar, inclusive tendo
diante dele um sanduiche de peixe, o fiz ontem à noite.
Depois mostrou um esboço que tinha feito
dele, me lembrei de um quadro que tinha aqui na casa que o russo levou, depois
vou melhorar.
Tom e Frank, foram andar a cavalos pelo
campo, com o Franz, o rapaz estava ajudando a mãe na cozinha, até dar a hora de
levantar sua tia.
Sentou-se com ela, para tomar o café, ele
se levantou fechou a porta que dava para a cozinha, falou baixinho com ela da
ideia que tinha pensado durante a noite.
Ela ria com ele, tens a cabeça como de teu
pai, acho que era isso o que ele faria.
Quando chegou o advogado, ele pediu a
senhora que preparasse café e chá, para poderem discutir relaxados.
Ele prestou conta de tudo, sobrava
realmente pouco dinheiro, os impostos, a manutenção da casa, os lucros eram
todos engolidos.
Quando acabou, ele se levantou, pediu para
a senhora, mandar chamar seu marido, pois precisava deles.
Sua tia, tinha um belo sorriso na cara.
Ficaram conversando, contou aos dois das
vezes que tinha estado em Berlin, numa outra vida, posando para moda, fazendo
desfiles, fazia cursos de artes em Paris, aonde ficava mais tempo, mas nunca
pude estudar direito. Hoje pinto, trabalho
devagar, sem pressa, pois gosto de ter tempo para largas caminhadas na praia,
sair para pescar.
O homem perguntou se ele tinha um iate?
Riu a bessa, vês muito filmes americanos,
nada disso, saio com o meu amigo Tom, vamos num barco pequeno que um senhor
pescador ou nos empresta, ou leva, ele sempre me abasteceu de peixe.
A tia contou rindo do seu hábito, acredita
que foi meu irmão que ensinou ele a comer assim, falou do sanduiche de peixe.
A cara do advogado era ótima. Ele tinha no celular, fotos de sua casa,
bem como de algum trabalho, mostrou uma coisa que ele amava para sua tia, fotos
da praia nevada.
Quando cheguei nesse lugar, a mulher do Tom
me falou disso, acabei me apaixonado pelo inverno, depois fora da temporada, as
noites de lua cheia, as estrelas, é o que mais gosto.
Disse que agora tinha planos, vou comprar
com o dinheiro que tenho, uma casa maior, que inclusive o dono, tinha um
studio, os filhos não gosta de lá, vendem.
O dinheiro é das terras que eram de teu
pai?
Bom ele disse o valor da venda, mas que
transformados em dólares, o que ficava, além de ter que pagar os impostos.
Não, contou como tinha feito a vida
inteira, quando contou que durante muito tempo, para se ocupar, tinha limpado
casa de outras pessoas, pensavam que eu estava na miséria, mas era mais para me
ocupar, até que resolvi pintar.
Tenho o dinheiro das duas exposições que
fiz, totalmente aplicado, ainda me sobrara dinheiro por muito tempo.
Quando Franz chegou com sua mulher, os fez
sentar-se, ficaram se graça.
Foi direto ao assunto, conversei com minha
tia, lhe expliquei que vim aqui, para conhece-la, para saber se precisava de
alguma ajuda.
Mas minha vida não está aqui, teria que
começar tudo outra vez, adoro aonde eu vivo, tenho meus planos na cabeça.
Viu que Franz ficava desanimado, sorriu,
não penso em vender nada, mas ao contrário, tenho uma proposta, não tenho
filhos, pensei o seguinte, deixarei tudo para teu neto, bem como ajudarei que
ele possa ir a universidade, que aqui ele terá um belo lugar para pintar,
poderá montar seu studio, isso se ele quer, teu filho nunca poderá vender as
terras, pois de mim irá direto para ele, sei que ele ama os dois, que os
cuidará.
Todos os lucros da terras serão para vocês,
devem sim vir viver aqui, com minha tia.
Mas o senhor fica sem nada, disse o Franz.
Não preciso de nada disso, tenho meu
dinheiro, já expliquei ao advogado, afinal vocês cuidaram a vida inteira daqui,
bem como vossos antepassados, para que vender isso, se não necessito.
Ah, o senhor Tom, me contou como o senhor
anda aonde vive, muito modestamente, disse que com o dinheiro que o senhor tem,
viveria numa mansão, mas que ele entende.
Sim minha casa é um pouco maior que essa
biblioteca, mas é como gosto de viver.
Ali encontrei uma coisa que é muito
importante para mim, paz de espirito.
Pediu para o Franz, chamar o neto, lhe
contou o que pensava fazer, se não houvesse teu pai no meio, eu te adotaria,
para teres esse título, porque na verdade uso outro nome, lhe disse como o
conheciam Tom Sharpe, mostrou uma foto dele, quando jovem em Paris.
Caramba disse o rapaz, pediu se podia lhe
mandar, quero fazer um desenho para o senhor.
Não me chamem de senhor, só de Claudio, ou
de Sharpe como me conhecem.
Ficarei alguns dias aqui, para conhecer a
cidade, assim dará tempo do senhor preparar os papeis, a tia estava contente.
Eles foram fieis a família a muitas
gerações, gosto da tua ideia.
Depois ela estava cansada, a levaram para
descansar, ele se despediu do advogado, disse que depois iria com o Franz até a
cidade para acertar os papeis.
Esse estava feliz, você tem razão se
colocas em meu nome, meu filho logo vai querer vender as terras, estamos
felizes aqui, sempre vivemos aqui, nossa única preocupação, era realmente meu
neto.
Na hora do almoço a tia estava cansada,
disse que o esforço tinha sido grande, a colocaram confortável, ela tinha
assinado os documentos, passando tudo para o nome dele, como herdeiro da
família, agora o advogado teria que registrar e depois fazer os outros papeis.
De tarde ele saiu para andar com o rapaz,
viu que Frank estava de cara feia.
Pensou ele nunca entendera minha maneira de
ser, faz um esforço, mas não entende.
Quando estiveram a sos, perguntou por que
ele fazia isso. Ali seria um lugar
perfeito para ele viver.
Aonde esta o mar, meu canto que amo tanto,
nada disso, eu não preciso de nada disso, sabes bem.
Mas se vendesse terias mais?
Para que, me conta Frank, em que vou gastar
isso, eles ao contrário estão aqui a várias gerações, não tens ideia do que
aguentaram com os Russos aqui, trabalhando como escravos sem ganhar nada, essa
história que o comunismo reparte é uma balela.
Mas ficaram aqui cuidando da terra, para
que um dia elas pudessem recuperar. O
filho mais velho foi embora, porque o pai, desistiu de pedir para eles a terra,
a venderia em seguida para realizar seus sonhos.
Segundo o pai, teria perdido tudo, pois é
um bala perdida, inclusive expulsou o filho por ser gay.
Não quero que esse rapaz sofra o que eu
passei, viste seus desenhos, são melhores que os meus, ele tem futuro, aqui
será um lugar perfeito para ele ter um studio.
Antes que me perguntes, vou destinar o
dinheiro do Brasil, para ele ir a universidade, não preciso disso.
A cara do Frank era de desanimo, é duro te
entender as vezes.
Eu sei Frank, vives de teu salário, mas
desde que estamos juntos, sente necessidade de mais?
Se for isso, estas com a pessoa errada,
comigo terás que comer sanduiche de peixe o resto da tua vida.
Ele caiu na gargalhada, eu já me acostumei,
mas fazes melhor do que eles, devias preparar tu um como fazes.
Esta noite preparo, pode deixar.
Tom só o abraçou, eres realmente o filho
que não tive.
Dois dias depois, depois dos papeis
prontos, sua tia morreu, fizeram o enterro como ela queria com uma cerimônia na
igreja Luterana, quem oficializava era uma senhora.
A igreja estava cheia, muita gente curiosa
para o conhecer.
Não havia leitura de testamento, pois já
tinham tudo resolvido, ele ainda assinou um documento abrindo mão do título.
Se despediu do Franz, seu advogado de São
Paulo, iria mandar o dinheiro de lá, uma grande parte, para uma conta em nome
do rapaz.
Este estava feliz.
Foi com eles até Berlin, conseguiram um
lugar para ele viver, enquanto estivesse na universidade, era o que ele
necessitava, teria uma bolsa de estudo, mas necessitava de dinheiro para sua
manutenção.
O advogado o avisou que o filho tinha
vindo, que tinha ficado furioso, queria embargar o documento que ele tinha
deixado, mas não entendia que tudo ficava em usufruto do Franz e sua mulher,
que não podiam vender nada.
Antes de irem embora apareceu no hotel que
estavam, seu filho por sorte estava já aonde ia viver, fez o maior escândalo, dizendo
que o direito as terras eram dele.
Tom avisou a polícia, que rapidamente
apareceu.
Ele tinha feito de tal maneira, se ele
fizesse alguma coisa contra o filho, as terras iriam para algum orfanato.
O homem ainda disse que ele era tão
degenerado como o filho, queria saber aonde estava o mesmo?
Menor ideia, avisou ao Franz, que nunca
desse o endereço do neto.
Foram embora para casa, quando chegaram,
mal pisou Fire Island, disse que sentia vontade de fazer como o Papa, se
ajoelhar beijar a areia.
Falou com seu advogado que veio passar o
final de semana, trazia as chaves da casa, que estava à venda.
Foi sozinho com ele, a conhecia bem, pois
tinha cuidado dela, quando abriram a porta do studio ele só tinha entrado duas
vezes, era perfeito para ele.
Fez uma coisa, depois voltou com o Frank,
pediu para o Tom ir junto.
Mostrou a casa, vou fechar negócio, o que
acham. Convidou o Tom para vir viver com
eles.
Esse riu, meu filho, adoro minha casa,
embora sinta falta da minha mulher, mas quem sabe no futuro.
Quando Frank viu o studio, entendeu, acho
perfeito.
Só vou fazer um gasto extra, soltou para os
dois.
O que?
Vou construir um pequeno ancoradouro, vou
comprar o barco do velho, que está louco para deixar de ir pescar, foi meu
amigo todos esses anos.
Assim poderei sair para pescar sempre.
Se mantinha em contato com o Mathias, o neto
do Franz, ele ia lhe contando as coisas.
Mandou primeiro a foto do quadro que tinha
pintado dele, como se fosse um antepassado, mas como o tinha visto um dia, com
seus cabelos presos num rabo de cavalo.
O convidou para vir nas férias de verão. Disse que trouxesse seus desenhos para o
apresentar ao galerista.
Frank sempre ficava com ciúmes.
Ele já tinha se acostumado, agora ia pescar
com ele, respeitava seus silêncios, mesmo no momento que estava no studio,
trabalhando.
Pela primeira vez, pela possibilidades,
fazia grandes quadros, fez um retrato, usando as fotos que sua tia tinha lhe
dado, da família ao completo, outro de seu pai, da foto que ele estava de
uniforme, mas fez, como o tinha na memória de criança na fazenda, com botas de
montar, mas simples.
Das fotos, que tinha da caixa, tinha uma do
casamento dos dois, fez essa também, mas quando foram para a exposição, já iam
com marca de vendidas.
Mathias veio, para a inauguração, disse que
tinha arrumado o grande quarto de sua tia, para fazer dele seu studio, que seus
avôs estavam felizes.
Seu pai tinha se metido em muitas
confusões, ele achava que andava nas drogas, não sabemos dele a muito tempo.
Quando o da galeria viu seus trabalhos,
pediu para fazer uma exposição.
Ele ficou dividindo o espaço com o Sharpe,
ou Claudio.
A ruptura definitiva com o Frank, foi
quando ele resolveu, adotar o Mathias, agora eu ele tinha mais de 18 anos, era
independente, conversou com o Franz por telefone, falou com o advogado de lá,
bem como o seu.
O adotou, ele passava a ter o sobrenome que
ele nunca tinha usado, Von Blinger.
Franz ficou furioso, como podia fazer isso
com ele.
Fazer o que Franz, aprendi a gostar desse
rapaz como meu filho.
A coisa como sempre era por causa de seu
dinheiro.
No verão como sempre foram convidados para
festas, mas ficou surpreso que o Mathias, podia ter se juntado com os da sua
idade, mas nem se interessou.
Estava trabalhando, quando Frank lhe
sugeriu ir a uma festa, disse que não lhe interessava, que sabia como acabavam,
que ele tinha que aproveitar a oportunidade de fazer a exposição.
Ele escutou em silencio tudo, depois
perguntou ao Frank se ele fazia isso, para ver como o rapaz faria.
Ele sabia que o Mathias tinha tido uma
grande decepção com um amigo de infância, por quem tinha sido apaixonado, o
mesmo contou para todo mundo que ele era gay.
Por isso o pai o tinha expulsado de casa.
Ele mesmo tinha ido reformando a casa que
tinha comprado, o Frank não gostava de ter que trabalhar assim, reclamava se
pedia ajuda, ao contrário Tom e Mathias, se divertiam.
Quando ele fez sua exposição, já o fez com
seu novo sobrenome, Mathias Von Blinger, trouxe seus avós, que nunca tinham
saído do campo, para verem seu trabalho.
O velho conversou com ele, disse que nunca
tinha visto o neto tão feliz, disse que tinham uma oferta para comprar o campo,
tudo que respondeu, era que depois se sentariam para resolver.
Quando saiu numa revista do Times, falando
do sucesso da exposição, tinham reconhecido o Sharpe, pelo quadro exposto. Apareceu numa foto, pai e filho agora vivem
da arte, ele não falou nada, mas Frank como sempre não gostou.
Quando se sentaram para falar, no hotel que
estavam hospedados, Frank foi resolver alguma coisa, mas Tom como sempre estava
presente.
Estamos cansado, meu neto está aqui, creio
que tem direito a uma vida que não tivemos, a oferta é boa, assim poderíamos
ter uma casa pequena perto da cidade, viver nossa velhice.
Se querem assim, por mim tudo bem. Mas fazemos uma coisa, a casa fica no nome
do teu neto.
Ele teria que ir junto, para oficializarem
a adoção do Mathias.
Tom disse que ficava, quando falou com o
Frank, esse soltou, mais uma coisa para teu filho.
Desta vez ficou furioso, perguntou por que
sempre era tão amargo.
Porque imaginei que com esse dinheiro,
poderíamos ter uma vida melhor em NYC, ou outro lugar.
Aí fez uma maldade, lhe perguntou se ele
era gigolo, pois pensaste isso com meu dinheiro.
Sabia que estava sendo mal, mas as coisas
não iam bem entre eles, descobria cada dia, que o Frank nunca o entendia, parou
para analisar, desde que se tinham reencontrado.
Quando tinha visto como ele vivia, a
simplicidade, trabalhar limpando as casas dos demais, como se fosse a coisa
mais normal do mundo, principalmente ao descobrir que ele fazia para se ocupar.
Que quando tinham ido ao Brasil,
principalmente Parati, disse que sonhava com viver assim, no futuro.
Estava furioso também, mas com ele mesmo,
nunca tinha sido um tipo lindo, como o Sharpe, estava ficando careca, ia pescar
com ele, para não se sentir sozinho.
Meu tempo está passando, vivo a tua sombra.
Espera, nunca te pedi isso, deixaste a
polícia, porque queria, não por mim.
Acabou confessando que tinha se sentido
marginado, pois sabiam que ele era gay.
Que coisa mais antiga, Frank, hoje todo
mundo está mais livre.
Ele na verdade cada vez ia menos a NYC, só
o necessário, para falar com Gilbert, aproveitava para comprar material, quando
o chamava para ir, tirava o corpo fora, se acompanhava desaparecia, os dois iam
comprar material, depois iam até o ferry com tudo, ele ainda reclamava que
tinha que ajudar. Acabou comprando um veículo
de andar na areia como tinha a polícia, assim iam de compras na vila, quando
precisavam alguma coisa, mas quem usava mais era ele.
Algo ia mal com ele, conversou muito com o
Tom.
Esse soltou, o problema dele, é que não se
ocupa, se sente aqui, como numa jaula de ouro, o chamo para alguma coisa, nunca
está interessado, sei que agora se encontra com um advogado que veio viver
aqui, ficam os dois horas conversando, tua amiga a fofoqueira diz que tem uma
aventura.
Realmente não o procurava mais para sexo,
até que um dia, arrumou suas coisas, foi viver na casa do outro.
Ele não sabia se ele esperava que fosse
parar seus pés, mas não se moveu. Meses
depois o tal advogado, voltou para NYC, com ele junto, nunca mais soube dele.
Disse sinceramente ao Tom, estava se
tornando pesado, acredito que tinha imaginado que o transformaria em meu
herdeiro.
Alugava sua antiga casa no verão, para
algum conhecido de antes. Tom finalmente acabou vindo morar com eles,
Mathias era como um neto, que ele tinha.
Achava interessante as horas que passavam conversando.
Ia pescar com eles, respeitando a regra
básica, não falar.
Quando os avôs do Mathias morreram,
venderam a casa, que tinham comprado, foi tudo para uma conta dele, nessa época
o pai apareceu novamente, mas quando os viu junto, desapareceu.
Quando Mathias fez sua primeira exposição
na Europa, foi um sucesso, mas antes tinha feito em Los Angeles, San Francisco.
O que achava raro era ele nunca ter
namorados, quando lhe perguntou, ele disse que amava muito uma pessoa, mas que
não o via.
Mas se posso ser teu pai, pois entendeu que
era ele.
Eu te amo desde que te vi, na casa de tua
tia. Depois pensaste em mim, sempre te
quis.
Meus avôs entenderam que eu aqui ao teu
lado estava feliz.
Na verdade Mathias te tenho como um filho,
nunca pensei de outra maneira.
Levaria mais de dois anos para conhecer
alguém, passou a viver na velha casa dele, mas vinha todo os dias pintar. O rapaz com quem ele estava, trabalhava com
desenho gráfico, podia trabalhar em qualquer lugar.
Se davam bem, mas claro quando chegou o
verão as festas, o sujeito se deslumbrou, com tanto viado.
Mathias foi a uma, disse que não gostava,
tudo acabou, ele voltou a viver em casa com eles.
Era a mesma coisa, ele tinha um
relacionamento com o Tom, com quem se abria, esse se matava de rir, pois era
como sempre, ainda tinha uma bela estampa, mas vivia como sempre, as pessoas
queriam uma foda de uma noite, nada mais.
Tom nessa época já estava com quase 85
anos, mas sempre estava fazendo alguma coisa.
A casa mais próxima foi alugada por um
médico que tinha se aposentado, foi se aproximando, conversavam muito,
sentava-se na varanda com eles, para largos papos.
Dizia que tinha dedicado sua vida, primeiro
como médico de urgências, depois na sua especialidade, que nunca tinha vivido
um romance como devia ser, um dia os dois acabaram na cama, eram completamente
diferentes, pois o outro era mulato escuro, cada um sabia da vida do outro.
Na última exposição, sua, apareceram na
inauguração o Frank com seu namorado, quando o viu com o Bob, foi embora em
seguida.
Tom ria muito, pois tinha perguntado quem
era o outro, quando soube que eram namorados, que estavam vivendo juntos, ficou
de cara fechada como sempre.
Mas sabia que agora tinha a vida como
queria, uma boa vida com o outro.
Eles foram a Berlin na inauguração de uma
exposição do Mathias, depois foram para Paris, os dois sozinhos, Tom dizia que
estava velho demais para aventuras, ficou cuidando da casa.
Fizeram uma coisa, realizaram um sonho do
Bob, viajaram pelo sul num carro alugado.
Voltaram pois Gilbert avisou que Tom, não
andava bem.
Avisaram Mathias que tinha um studio
alugado em Berlin, tinha que fazer outra exposição, mas foi assim mesmo.
Uma semana depois faleceu, o mais
interessante foi seu testamento, deixava tudo para ele, que era seu filho de
alma, dinheiro para o Mathias.
No enterro o Frank apareceu, se aproximou,
apertou sua mão, a do Mathias, foi embora.
Ele seguiu sua vida com o Bob, agora iam os
dois pescar, felizes da vida, a surpresa era que o mesmo adorava os sanduiches
de peixe que ele fazia.
Anos depois o Mathias se casou com um
rapaz, que era descendente de alemães, com negro, era um tipo interessante,
quando foi visita-los, adorou ficar lá.
Mathias hoje tinha uma agenda cheia na
Europa, ele nunca o criticava.
Ele agora só fazia alguma exposição a cada
dois anos, já ninguém lhe enchia o saco com a história do Sharpe.
Pela primeira vez, tinha um parceiro que gostava
de curtir a vida ao seu lado, nunca reclamava, tudo sempre estava bom.
Brincando o chamava de meu monumento, pois
quanto mais velho ficava, segundo todo mundo, mais interessante fisicamente,
agora tinha os cabelos brancos, misturados com os outros, a pele morena do
verão.
Na temporada, iam só a vila para comprar o
necessário, limpavam os dois a velha casa dele, bem como a do Tom, para alugar.
Pensava o que fazer com suas coisas, seu
dinheiro, como o Bob ajudava orfanatos, pois tinha saído de um, ele passou a
fazer igual, quando os dois se casaram, fizeram juntos uma doação a agrupação
LGBT.
Ai alguém comentou que Frank quando soube
ficou furioso, pois uma vez tinha pedido que eles se casassem, mas ele nem
pensava nisso.
Mathias, veio com seu companheiro, agora
tinham dois garotos adotados, ninguém os queria, segundo eles, duas crianças
negras num orfanato na Alemanha, não devia ser fácil.
Viraram seus netos, pois desta vez vieram e
ficaram, Mathias estava farto da Europa, venci, mas me encheu o saco, agora
falava abertamente das coisas.
Os dois se sentiam avôs, já tinha netos
para quem deixar seus bens.
Ele que adorava o silencio, se matava de
rir, do barulho dos garotos, segundo Mathias os estragava.
Ele sempre dizia que Franz, ia adorar ter
bisnetos assim.
Foi deixando de pintar, passava mais tempo
no verão na praia com os garotos, os dois os levavam para pescar, riam muito
quando o avô fazia sanduiche de peixe, mas gostavam.
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