H. SCHUABER
Voltava do
enterro do homem que tinha sido tudo na sua vida, pai, avô, pois tinha idade
para isso, além de seu melhor amigo, orientador.
Na verdade nunca
tinham sido parentes, tudo começava com sua mãe Beatrice, quando caiu o murro,
ela tinha sido uma das primeiras a escapar, foi parar em Hamburgo, nunca falava
de aonde tinha saído, nem como tinha chegado à cidade.
Mas com a caída
do muro, a cidade estava cheia de gente atrás de trabalho, então os homens
tinham prioridade, pois a maioria trazia a família com eles.
Ela acabou no
porto, logo Franck ou Franciskus, olhou para ela, disse que passasse no seu
local, um puteiro famoso na época.
Nesse dia ela
conseguiu tomar um banho, num lugar para refugiados, colocou uma roupa que lhe
deram, foi falar com ele.
O local não
estava funcionando, mas ele estava lá no seu escritório, furioso, as contas não
fechavam, fez um sinal para ela se sentar na frente dele. Ela ficou prestando atenção, ele contou o
dinheiro outra vez, comparou com o que tinha anotado. Não fechava, soltou todos os palavrões que
conhecia, diga-se de passagem, eram muitos.
Ela pediu
licença, lhe disse que tinha algumas notas coladas a outras, talvez pela
cerveja, ou alguma outra bebida.
Separou as notas
que tinha visto, as contou para ele, que tornou a recontar, agora sim fechava,
eres esperta disse ele.
Nada, sou boa
observadora, sempre dependi disso para sobreviver, fui boa aluna de matemática,
trabalhei numa loja, fazia o caixa, registrava o mesmo.
Ele ficou olhando
para ela, não lhe dava muita idade, mas depois descobriria, que tinha um gene
incrível, pois quando morreu, tinha a cara lisa, sem arrugas nenhuma, quando
lhe perguntavam o produto que passava, dizia que lavava a cara com água e
sabão, não tinha dinheiro para um sabonete fino.
Ele a contratou
para ficar no caixa do local, mas que tinha que se vestir bem, disse o salário,
ela poderia morar no último andar do lugar, mas avisou, não gosto de homens
dormindo aqui com as garotas, ele fazia ao fechar uma ronda, expulsando dos
quartos, os homens, a maioria marinheiros que queria ficar dormindo numa cama
confortável, bem como agarrado a alguma garota.
A levou até o
último andar, um quarto pequeno, o banheiro era coletivo no corredor.
O armário tinha
roupas, separe as que te servem, podes usar, deve ter sido de alguma garota que
trabalhou aqui, que encontrou algum trouxa para se casar.
Chamou uma
mulher, Diane, que era americana, na época era quem cuidava das garotas, que
lhe cortassem os cabelos, fizessem as unhas, a partir desse dia, ela ficaria no
caixa, controlaria as contas, bem como pagamentos dos fornecedores.
Quando ficou
sozinha, deu um suspiro imenso, tinha se livrado de ter que ser uma prostituta,
embora depois todo mundo pensava que era.
Ele me explicou
um dia, que foi me buscar na escola, tinham me chamado de filho da puta, tua
mãe, trabalha comigo, meu negocio são as putas, a profissão mais antiga do
mundo, mas é uma mulher honesta.
Ele tinha sido o
único deslize de sua mãe com um marinheiro, talvez por isso fosse diferente dos
outros garotos, era loiro como todos, olhos negros, cabelos muito crespos, o
nariz achatado.
Segundo sua mãe,
seu pai era um negro dos Estados Unidos.
Jackson Smith.
Mas quando ela
procurou por ele para dizer que estava gravida, ele já tinha ido embora no seu
barco, além de que descobriu que com esse nome, existiam muitos na América.
Mas voltando, no
seu primeiro dia de trabalho, Franck disse que tinha que impor respeito, nada
de fazer agrado a ninguém, que Diane, lhe prestaria contas das garotas, mas que
ela prestasse atenção como ele fazia.
Nesse primeiro
dia, ele se encostou na lateral do caixa, para ver como ela se saia.
Reparou que tinha
um pano, quando a nota vinha molhada, ela passava por esse pano, para que não
se grudasse umas nas outras.
Ele já gostou,
depois era educada com os clientes, alguns bêbados, a achavam bonita, queriam
ir com ela para a cama, primeiro educadamente dizia que não, que tinha
trabalho, se insistiam, ela chamava dois gorilas que cuidavam da segurança do
bar, apertando um botão que aonde eles ficavam na porta, acendia uma luz
vermelha.
Fazia isso também
por conta de alguma briga de marinheiros, ou qualquer outra emergência.
Franck a tomou
embaixo de suas asas, lhe disse que não cobrava o quarto que estava vivendo,
mas que ela aproveitasse, guardasse uma parte do dinheiro. A levou a tirar seus documentos, dizendo que
ela era quem fazia a contabilidade do local.
Evidentemente ele conhecia todos os policiais da cidade, principalmente
os que patrulhavam a zona do cais.
Ao contrário de
muitos lupanares, ele tinha contratado uma enfermeira, bem como um médico que a
cada 15 dias, faziam exames nas garotas, estes ensinavam como tinham que se
cuidar.
Claro nessa época
os homens não queriam usar camisinha.
Minha mãe já
estava a mais de 5 anos trabalhando para ele, quando conheceu meu pai, estava
ali com amigos do barco, quando saiu uma briga, justamente atrás de aonde ele
estava sentado, levou uma garrafada na cabeça.
Ela quando tudo
se acalmou, lhe fez os curativos, inclusive lhe deu pontos.
Quando perguntou
como ela sabia fazer isso, disse que tinha aprendido com a enfermeira que
atendia as garotas, pois algumas vezes, algum louco ou bêbado, cortava as
mesmas.
Uma delas, tinha
a cara toda cortada, porque sem querer tinha rido do piru de um dos clientes,
era muito pequeno, o sujeito tirou uma navalha do bolso, lhe cortou a cara, os
peitos.
Dois dias depois
ela estava trabalhando, ele tinha conseguido fazer isso, pois a pegou de
surpresa, era uma mulher grande, como minha mãe, vinda do lado oriental, quando
o marinheiro apareceu novamente, ela fez uma coisa incrível, na frente de todo
mundo, disse que o piru dele, era pequeno, que ele devia sim dar o cu, no
barco.
Quando ele
avançou para ela, desta vez não a pegou desprevenida, ela mesma deu uma surra
no homem, que foi dormir na cadeia.
Depois se ficou
sabendo por um companheiro dele, que o mesmo era complicado a bordo, sempre
estava metido em brigas, tirava logo a navalha para provar que era homem.
Minha mãe cuidou
do Jackson, até ele embarcar, ficou num quarto no lupanar, Franck nunca chamava
seu lugar de puteiro.
Dizia ele Lupanar,
dava mais classe.
Depois que minha
mãe morreu de um câncer fulminante, tudo parece que perdeu a graça para ele, a
tinha amado a vida inteira, mas não tinha movido nada para ter um
relacionamento, ela era a única pessoa que ele confiava tudo.
Depois começou a
aparecer, garotas trazidas pela máfia russa, albanesa, ele cortou pela raiz,
passou o negocio para frente, ficou com o aluguel do edifício, que agora pelo
visto seria meu.
Uma dia a uns 15
anos atrás, nos chamou para nos levar a um lugar especial, tinha estado ocupado
durante muito tempo, uma casa a beira do
rio Elba, na parte que esse era mais largo, mas se via o transito de
barcos dia e noite se movendo por ele.
Mandou restaurar
a casa, a colocou em meu nome, de qualquer maneira serás meu herdeiro, ele
nunca tinha tido filhos, eu era para ele isso.
Quando fui fazer
universidade, tinha escolhido ser advogado, ele só falou, vais te decepcionar, nas
primeiras praticas, tive essa decepção, fui trabalhar num escritório com uma
aparência impecável, mas se dedicava a atender mafiosos, gente rica, os pobres
nem passavam da porta, dois seguranças, que mais pareciam dois elefantes, não
permitiam.
Ele me deu uma
sugestão, vá para o extremo oposto, embora desse lado, também tenha seus
podres, ele sabia do que falava, a maioria de donos de bares, lupanares, casino
de jogos clandestinos, no porto, davam dinheiro para os policiais. Agora com a máfia, isso era uma coisa
normal, tudo para que olhassem para o outro lado.
Mas eu fui bem no
curso para polícia, um dos amigos dele, me tomou sobre sua proteção, mal acabei
o curso, fui trabalhar numa delegacia do centro da cidade, longe dos Lupanares,
como ele gostava de frisar.
Fui subindo, de
trabalhar nas ruas, acabei como inspetor, estava contente, foi justamente
quando minha mãe morreu.
Passei a viver na
casa que ele tinha comprado em meu nome, era longe do centro, mas eu tinha com
minhas economias comprado um carro de segunda mão, que era minha paixão, era um
Mercedes esportivo, ia ser prensado num ferro velho, mas por um acaso, eu tinha
ordem de encontrar esse carro, tinham cometido um crime nele, o encontrei, pois
o proprietário também acabou sendo assassinado, no seu bolso tinha um recibo do
carro.
O muito idiota,
tinha deixado no carro, tudo que o podia incriminar, fechamos o caso do
assassinato, o dele levou mais tempo, até descobrirmos que tinha sido o irmão
da vítima, uma jovem que vivia nas drogas, que se prostituia para se manter,
sem querer tinha passado para o sujeito aids, que não sabia que tinha, tudo por
culpa de uma seringa infectada.
Por isso ao
princípio, pensávamos que o sujeito tinha se suicidado, a arma estava perto de
sua mão direita, aonde tinha sido dado o tiro na sua cabeça, até descobrir
através da secretária, que ele era canhoto, não sabia fazer nada com a direita.
A partir disso a
investigação tomou novo rumo.
Eu mandei arrumar
o carro, comprei o mesmo do dono do ferro velho, que iria tirar o motor, que
estava bom, prensar a carroceria.
Nunca me
arrependi, no mercado um novo, valia uma fortuna, claro houve gente que falou
que era um suborno do Franck, mas esse já não tinha mais nada do lupanar. Vivia
sim a maior parte do tempo na minha casa.
Ao chefe quando
me perguntou, lhe disse claramente que Franck era para mim, como um pai,
inclusive eu usava seu sobrenome, pois ele me adotou, não queria que eu ficasse
conhecido como um bastardo.
Poucos fariam
isso hoje em dia, principalmente um dono de um lupanar.
Mas minha mãe,
levava todos os negócios dele, de manhã ela não trabalhava, cuidava da casa,
como todas as outras mulheres que viviam nas casas ao largo do rio.
Depois quando eu
chegava da escola, nos sentávamos para comer os três juntos, normalmente quem
cozinhava era ele, se alguém olhasse pela janela, seriamos uma família comum.
Depois os dois,
iam para o Lupanar, ela para colocar as contas em dia, fazer pagamentos, ir a
bancos, ele para controlar o recebimento de bebidas, conversar com a Diane,
sobre as meninas, ela foi a primeira a ficar furiosa, quando um russo, trouxe
uma garota, que não tinha mais que 14 anos.
Para valorizar
ainda dizia que a mesma era virgem que podia ser vendida como tal.
Diane, chamou os
dois gorilas da porta, mandou o homem ir cantar em outra freguesia.
Ali, as mulheres
eram controladas pela sua mão de ferro, os exames, inclusive tinham que mijar
na frente dela, nos tubos para exame.
Nada de enganar,
o cliente.
Por isso a
maioria dos comandantes de navio, vinham ao lupanar, sabia que ali o controle
era rigoroso, mas claro não podiam controlar em terra seus homens, cada um ia
para um lado.
Na faculdade me
apaixonei por um companheiro, fui falar com o Franck, ele sorriu, colocou suas
mãos nos meus ombros, me olhou nos olhos, soltou, filho a vida é tua, se tomas
essa direção, eu jamais farei nada para te condenar, te respeitarei isso sim,
pois é dura.
Anos depois antes
dele morrer, me contou que tinha tido uma relação na sua vida com um policial,
que o mesmo, depois queria chantageá-lo.
Mas ele era
macaco velho, tinha umas fotos que nunca disse como fazia, ele comendo a bunda
do sujeito.
Nunca mais, me
disse, comigo só aventuras de uma noite, algum comandante que aparece, sabe que
posso estar com eles, no meu lupanar, sem nunca comentar nada.
Por isso não
podia te condenar, mas realmente comigo não aconteceu nada nessa época, pois
quando tomei coragem de falar com o sujeito, estávamos num bar com outros
companheiros, o escutei comentando de um rapaz que acabava de entrar, falou
horrores do mesmo, que era gay, além de ser bastardo de um empresário
importante.
Cai do cavalo, vi
que para se ter um relacionamento, primeiro havia que conhecer bem a pessoa,
porque senão iria me dar mal.
Quando já estava
na polícia, encontrei esse sujeito de novo, ele se lembrava de mim da
universidade, embora não estivéssemos na mesma turma.
Começamos a tomar
uma cerveja, ele trabalhava no escritório de seu pai, odiava ser advogado, lhe
contei o que tinha acontecido comigo.
É tudo muito
hipócrita me soltou, uma fachada, a maioria dos clientes de meu pai, escondem
dinheiro em paraísos fiscais, são filhos da puta.
Lhe perguntei o
que gostaria de ser, me soltou em plena cara, que ou jornalista, ou escritor,
mas claro tinha feito a universidade, porque seu pai queria, de seu casamento,
ele tinha duas filhas.
Lhe contei o que
tinha acontecido na época da universidade, quando me fechei em copas, com
relação a ter amigos ali.
Ah, esse sujeito,
devia estar falando, pois um dia fizemos sexo nos banheiros da piscina da
universidade, é um filho da puta, depois contava para todo mundo, como se
tivesse visto, mas não se colocava na pele, que era ele que se abaixava para
chupar os caralhos dos amigos.
Rimos muito, sem
querer me salvei, pois ia me declarar a ele.
Ele agora dirige
os negócios do pai em Berlin, dizem eu parece uma louca, que vai pela noite da
capital, cheio de drogas.
Um dia levei
Gaspar, aonde vivia com o Jack, ele adorou, acabou sendo mais um da casa, meu
melhor amigo.
Agora que o Jack
morreu, ele estava na Indonésia, numa vila se documentando para escrever um
romance, o avisei, me pediu se podia atrasar em um dia o enterro, pois queria
estar presente, conseguiu um voo, veio.
Esteve sempre ao
meu lado na cerimônia, fiquei surpreso, com a quantidade de gente no enterro,
mulheres que tinham trabalhado para ele, que de alguma maneira ele tinha
ajudado, a Diane, que hoje era casada com um homem rico, os velhos sempre se
encantavam com ela, pois estava sempre bem arrumada, sem um fio de cabelo fora de lugar no seu coque
tradicional.
Nunca lhe
incomodou que as pessoas falassem que tinha sido uma puta, uma vez, com o
marido lá em casa, tinham vindo visitar o Jack, quando falam isso, não nego,
fui puta, pois era uma idiota que não tinha estudos, só era uma loira burra.
Mas Jack
acreditou em mim, bem como tua mãe me ensinou boas maneiras.
Nunca falava, mas
devia ser de alguma família importante do outro lado, pois sabia se comportar
numa mesa de um restaurante fino.
Quando comecei a
sair com meu marido, ela me levou a bons restaurantes, me ensinou como me
comportar, inclusive como falar baixo, isso que meu marido reclama que falo
alto demais.
Que meu alemão é
de baixa categoria.
Ela me refinou,
vamos dizer assim.
Quando ele ficou
viúvo, nos casamos, porque ele quis, eu seguiria sendo sua amante, sem me
importar.
Gaspar chegava,
ela o adorava, pois ele depois que deixou o escritório do pai, porque Jack
insistiu que fosse atrás de seus sonhos, até o ajudou nisso.
Ele já tinha
escrito um livro, o apresentou a um editor de Berlin, ajudou a bancar a
primeira edição, o livro fez sucesso, até hoje é editado.
Ele fez questão
de devolver todo o dinheiro ao Jack, que se matava de rir, eu já ganhei o
suficiente, pois fui como um coprodutor do mesmo.
Hoje no enterro,
na cerimônia, ele falou, primeiro foi a Diane, que falou da amizade dela com
minha mãe, com o Jack.
Depois falou ele,
dizendo que sem minha amizade, sem querer eu tinha lhe dado outra família, com
o incentivo dos dois tomei coragem para me jogar no mundo da literatura.
Senão seguiria
sendo um advogado de merda, a única coisa boa da minha vida anterior, foi que
aprendi a ler um contrato, inclusive nas entrelinhas, assim me saio bem.
Nos abraçamos
depois que falei do meu pai, mais avô, pois tinha idade para isso, meu amigo,
que esteve presente na minha vida, desde que eu me lembrava, que me incentivava
na minha vida. Perdia não só tudo isso, mas o porto seguro, aonde eu podia
falar abertamente de tudo.
Depois as pessoas
que estavam ali, vinham falar comigo, justamente disso, que com o Jack, se
podia falar de tudo. Nunca soubemos, o
que ele foi durante a guerra, mas ele sempre foi uma grande pessoa.
Me surpreendi de
encontrar um colega de escola, hoje deputado em Berlin, que nem sabia que ele
pudesse conhecer o Jack, estava acompanhado de sua mãe, ainda uma mulher
bonita, ele me contou que Jack era para ele como seu avô. Minha mãe trabalhou para ele, depois se
casou com um homem de negócios holandês, posteriormente com meu pai, um velho
coronel que tinha cumprido pena em Nuremberg.
Ficou sem amigos,
apesar de ser de uma família importante, ele nunca foi nada demais no governo
de Hitler, apenas ocupava um cargo, para proteger sua família, pois mesmo a mãe
dele era judia.
Comigo ele
encontrou de novo razão para viver, voltou a frequentar a sinagoga.
Jack quando ia a
Berlin, sempre ficava lá em casa.
Agora entendia,
quando ia comigo, ficávamos num hotel, mas sempre tirava um dia, me dizia que
eu fosse fazer programa de gente jovem, que ele ia visitar amigos.
Fiquei
conversando com Abraham, o convidei para ir até lá em casa, aonde estaríamos só
um grupo pequeno de amigos, ele foi levando sua mãe.
Aproveitei para
conversar mais com ele, me sentia atraído pelo mesmo. Comentei isso com o
Gaspar, esse se matou de rir, dizendo que se eu não avançasse, ele o faria, mas
era gozação, pois ele vivia, além de ser apaixonado por um professor da
universidade.
Eu depois sentado
no ancoradouro de madeira que tínhamos a beira do rio, comentei com ele, que
achava interessante isso dele ter uma religião, minha mãe, odiava qualquer
coisa a respeito disso, mas Jack agora no final da vida, vinha sempre um senhor
conversar com ele, até que descobri que o mesmo era rabino numa sinagoga aqui
perto.
Ele nunca falou
que era judeu, nas vésperas de morrer, me contou que sua avó materna sim era.
Que estava na
frente de batalha, com seus 16 anos, quando soube que iam levar para um campo
de concentração, se suicidou.
Passou a odiar as
religiões por isso, como minha mãe, nunca me levou a nenhuma.
Mas no final,
hoje viste, rezei o Kadish por ele, me pediu para aprender, só hoje descobri
que ela esta enterrada justamente na parte judia do cemitério.
Foi quando me
surpreendi com a mãe de Abraham, me contou que ia sempre a Berlin, durante
anos, para ver seu irmão que estava internado num hospital psiquiátrico, tinha
esquizofrenia, imagina, quando Franck foi para a guerra, ele era muito mais
jovem, queria ir também para provar para os amigos que era raça pura. Entrou para a juventude do partido, passavam
o tempo todo buscando, denunciando qualquer pessoa, sem fundamento nenhum, o
pior foi que via sempre sua avó com um cordão de ouro muito trabalhado, bem
como no centro uma estrela de David.
Não teve conversa a denunciou, não adiantou ela lhe contar que se ela
era judia, ele também tinha sangue judeu, mas na verdade ela era descendente de
árabes.
O rapaz se
desequilibrou, pois pensava que denunciando sua avó, seria como um herói, os
amigos se afastaram dele, pois como ela dizia, se ela era, ele também.
Quando acabou a
guerra, ele foi feito prisioneiro, pois passou a fazer mil merdas, o pegaram vendendo
drogas aos soldados americanos, depois aos soviéticos, quando foi feito
prisioneiro dos americanos, achavam que ele vendia informações aos Russos,
esteve anos em prisão, tinha denunciado o Jack quem já nem vivia em Berlin,
como chefe do tráfico de drogas.
Quando os
advogados, exigiram uma prova de sintomas de doença, viram que ele tinha
esquizofrenia, contava mentiras que inventava, uma era que tinha sido braço
direito de Hitler, quando confrontado que não tinha idade para isso, avançava
em cima da pessoa, querendo agredir, com os anos se tornou cada vez mais
agressivo.
Não suportava a
presença do Jack, esse o via através de um espelho, as vezes juntos com outros
se comportava bem, mas se via o irmão, se tornava violento, dizendo que ele
tinha roubado a gloria que ele merecia como soldado de Hitler.
Mal sabia que
Jack odiava tudo isso, que tinha ido muito jovem, que tinha visto muita merda,
meu marido que o conheceu bem, disse que ele nunca escondia, que por culpa
dessas coisas, ele acabou como dono de um bordel.
Eu trabalhei para
ele, tinha que sustentar minha família, não tinha formação, mas por ser um
lugar como era, limpo, discreto, lá conheci meu primeiro marido, um holandês,
vivi muitos anos em Amsterdam, mas quando acabou voltei, ele me apresentou por
um acaso seu amigo que acabava de ser solto de Nuremberg, nos apaixonamos, ele
foi nosso padrinho de casamento, bem como padrinho de nosso filho.
Durante anos,
pesquisou sua própria família, acabou descobrindo que a história de sua avó,
tinha um ponto certo, ela apesar de descender de árabes, também era de judeus,
que tinham fugido de Portugal, muitos foram para a Holanda, mas sua família
veio para cá, mudou de certa maneira o nome, eram judeus conversos, iam a
igreja, mas em casa faziam todas as coisas judias.
O desequilíbrio
do irmão para ele foi o fim, achava que se tivesse um filho, corria esse risco,
de ter o mesmo problema, por isso, eras o filho que ele queria ter.
Na leitura do
testamento, como ele pensava deixava tudo para ele, o velho edifício do bordel,
que colocou a venda em seguida, a casa que viviam, bem como uma casa em Berlin,
estava alugada, era a casa da família.
Tudo isso era
muito para ele, mandou a colocar à venda também.
Com isso foi
várias vezes a Berlin, claro, aproveitava para ver o Abraham, mas não avançava
nunca, pois este era muito fechado.
Um dia bebendo,
este se abriu, tinha tido péssimas experiencias, depois viviam em cidades
diferentes, trabalhavam em coisas também diferentes.
Abraham tinha uma
agência imobiliária, apesar de se poder ir de trem, tentaram, apesar da
atração, na cama a coisa não funcionava.
Gaspar dizia que
o dele, eram os malfeitores, bandidos.
O tempo ia
passando, apesar do dinheiro que tinha, ficava sem saber o que fazer, nunca
conseguia encaixar suas férias com a dos amigos.
Pela primeira
vez, resolveu se arriscar, tinha escutado um companheiro que tinha alugado um
trailer, tinha entrado na Itália por cima, indo até o final da bota como dizia.
Conversou com
ele, esse disse que tinha ido assim, porque levava seus dois filhos, mas que
ele podia fazer com seu carro, mas cuidado, Itália tem muito ladrão.
Foi o que fez, as
vezes dormia dentro da cidade, outras, dormia nos motéis, junto aos postos de
gasolina, em Florência, tentaram lhe roubar o carro uma noite, mas foi salvo
por um policial.
Se identificou
como sendo também, ficaram conversando, este o levou para comer na taberna de
sua mãe, quando viu, estava mais dias na cidade por causa do sujeito.
Aproveitou sim
para conhecer tudo em volta, de uma certa maneira, se deslumbrava com ver
tantas coisas de arte.
Só no último dia,
foi que fizeram sexo, para ele foi uma revolução, pois Sandro era diferente
dele totalmente, mais moreno, com uma pele que o levava a loucura.
Acabou que tirou
férias, antes lhe perguntou se queria que ele fosse junto, desceram pelo lado
do mar Adriático, até Lecce, depois voltaram pelo outro lado.
Na volta vinha
pensando, com o dinheiro que tinha podia pedir uma aposentadoria antecipada,
tinha começado jovem na polícia.
Sandro era de uma
família judia, sem querer isso os uniu, pois iam as sinagogas juntos, ele
gostava mais de ir quando estavam vazias.
O convidou para
conhecer sua casa, ele foi para aproveitar os últimos dias de férias.
Claro quando
chegaram, o inverno também, depois de dois dias, Sandro disse que jamais
poderia viver ali, ele amava o sol, o verão, tinha inclusive pensado em ir
viver na Sicília, aonde o inverno era mais suave.
Isso azedou a
relação, pois chegou a um momento que viu, que ele estava apaixonado, mas que
para o outro era uma aventura que tinha dado certo.
Cinco dias
bastaram para acabar todo o romance do verão.
Gaspar ria com
ele, quando dizia que não tinha sorte com os homens.
O relacionamento
do Gaspar era uma coisa segura, isso achava ele, mas quando seu namorado o
professor, começou a sugerir sexo a três, ele entendeu que tinha chegado aquele
ponto que os relacionamentos ficam chatos.
Viveu um tempo
com o Hans, saiam juntos, muita gente pensava que tinham alguma coisa, mas para
os dois, eram como irmãos.
Um dia trouxeram
preso, um negro de dois metros de altura, que só falava inglês, era um
marinheiro, disse o nome do barco, disse que estava num bar com uns amigos, que
tinha roubado seus documentos, por isso não lhe deixaram entrar na área de embarque,
seu navio tinha ido embora, ele ficado para trás.
Como Hamburgo era
uma cidade importante, fizeram contato com o consulado, logo alguém tomou conta
do caso, conseguindo uma nova documentação para ele.
Ele ria, pois
achava que o sujeito podia ser seu irmão, Louis Smith, mas não ele não conhecia
nenhum Jackson Smith, quando viu os documentos, era certo, seu pai, tinha outro
nome.
Tinha conversado
muito, esse riu, quando soube que ele tinha sangue negro.
Contou que estava
fazendo essa viagem como marinheiro, para conhecer o mundo, escrevia, conseguiu
que o comandante do navio mandasse para ele, seu material de trabalho.
Foi ficando, os
dois na cama era impressionante, pois tinha a pele diferente, pela primeira vez
ele não se incomodou realmente que as outras pessoas soubessem.
Quando o texto
que escrevia ficou pronto, disse que tinha que ir a NYC, lhe perguntou por que
não vinha com ele.
Acabou indo, não
queria se separar dele. Foi super bem
recebido pela mãe dele.
Essa com a
história do Jackson Smith, disse que tinha um irmão que era o mais jovem, esse
desapareceu no mapa, tinha sido da marinha durante a guerra, depois entrou para
a mercante nunca mais soubemos dele.
Era como ter
encontrado uma família.
Um dia se
surpreendeu que Louis dissesse que sentia falta da casa dele, lá eu tenho paz
para escrever, o livro estava para ser lançado, voltaria para o lançamento, mas
foram para Hamburgo, tinha finalmente encontrado alguém com quem compartir.
Se davam bem,
pois durante o dia, quando ele estava trabalhando, o mesmo fazia o Louis em
casa, logo estava escrevendo artigos para revistas de arte alemãs, não dependia
dele para nada, quando chegava em casa de noite, o estava esperando com um
forte abraço.
De uma certa
maneira, ele sumia nos braços dele.
Foram levando a
vida, houve uma temporada, que tiveram que aumentar a casa, pois Gaspar veio
outra vez a viver com eles.
Dizia que tinha
inveja, tu dizias isso antes de mim, mas agora sou eu quem tem inveja.
Na seguinte ida a
NYC, para lançamento de um segundo livro, conheceu um primo do Louis, se
apaixonou, ficou por lá.
Ele seguiu a
vida, agora falava com Gaspar por celular, conversas loucas como ele dizia,
pois o outro que tinha tudo muito certo, estava vivendo com o namorado em New
Orleans, nas férias seguintes foram até lá.
O primo do Louis,
tinha comprando umas terras as margens do Mississipi, entre New Orleans e Baton
Rouge, pela primeira vez ele adorou um lugar.
Primeiro que o
inverno era mais suave. Pensou muito,
lhe faltava um ano para se aposentar, deixou a casa alugada com um amigo,
compraram uma perto de aonde vivia o Gaspar, a sua tinha a vantagem de estar no
alto, talvez tenha sido construída assim por causa das cheias do Mississippi, descobriu
sem querer, gostar de plantar uma horta, logo a mãe do Louis, veio passar um
tempo com eles, foi ficando.
Sentia que tinha
uma família, tinha perdido sua mãe muito cedo, sua referência de família era o
Franck.
Estava sempre
falando dele, um dia, Louis lhe perguntou, porque não aproveitava, escrevia a
história, pois tinha fuçado tanto a vida dele, depois de morto, além de um
caderno que tinha lhe deixado, aonde escrevia já velho as coisas que se
lembrava de sua juventude em Berlin.
Fez um curso de
escritura, se atreveu, de duas maneiras, primeiro escreveu em alemão, sua
língua original, depois em inglês, Louis fez a correção do texto.
Quando o editor
viu o texto, gostou, ele mesmo mandou o em alemão para um amigo editor em
Berlin, que comprou a ideia.
Quando viu,
escrevia nos mesmos horários do Louis, mas cada um num ponto diferente da casa,
ele primeiro escrevia a lápis, depois colocava no Laptop, já fazendo a
correção, escreveu sobre alguns casos que tinha seguido.
Coisas que se
lembrava das conversas de sua mãe com o Franck sobre o lupanar, inclusive
escreveu sobre isso o Lupanar do Franck, como ele tinha chegado a isso.
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