PAIX

 

                   

 

Abraham só encontrava a paz, quando estava voando, sua grande paixão, eram a asa Delta, Parapente, aonde desfrutava quando estava tenso.

Atualmente se dividia entre dois lugares Annecy e Genebra, dava aulas nesses dois lugares, depois de ter tentado se encontrar em vários empregos.

Originalmente nasceu em Paris, filhos de pais judeus, casamento combinado, que não podia dar certo, pois eram completamente diferentes em tudo.

Seu pai, Joseph Klein, trabalhava na bolsa de valores, sua mãe era uma doméstica.

Enquanto ele só ia a sinagoga se fosse alguma coisa importante, ou um enterro, ela não saia de lá se metendo na vida de todo mundo.

Ele tinha verdadeiro horror a ela, por isso ficava esperando no seu quarto, seu pai chegar em casa, corria para os braços dele, quando era pequeno para reclamar de alguma coisa que ela tinha falado ou feito.

Ele era esperto, já chegava em casa para dormir, em quartos separados diga-se de passagem, pois dizia que ela roncava.

A casa sempre estava de qualquer jeito, era relapsa, a comida dela era um horror, graças a deus ele comia comida kasher na escola, a qual odiava.

Quando tinha uns treze anos, passou a notar que seus livros, cadernos nunca estava como os deixava, cada vez os deixava de uma maneira, ela colocava de outra.    Não que entrasse em seu quarto para arrumar, seu pai lhe tinha ensinado a arrumar sua própria cama, bem como não deixar nada jogado, assim ela não entra.

Falou com ela, o que estava buscando no seu quarto, ficou vermelha, como ele sabia, nunca a chamava de mãe, como via os amigos fazendo, simplesmente Anne, que sabia que ela detestava, pois dizia que não era um nome judeu.

Era daquelas famosas sofredoras, mas a culpa era dela mesma, pois enchia o saco de todo mundo, os vizinhos a detestavam, mal educada.  Ela bisbilhotava a vida de todos, para falar mal depois.

Sua alegria era quando seu pai aparecia com tio Paul, um amigo dele desde criança.  Os dois tinham se conhecido na Suiça, aonde viveram na época da guerra.  Os pais dos dois escaparam com todo dinheiro que tinham para lá.

Seu avô tinha negócios no bairro judeu por excelência em Paris, Marais, o apartamento, bem como seu negócio, deixou com um francês, seu homem de confiança, quando acabou a guerra voltaram, ele seguiu seu negócio, bem como recuperou o apartamento.

Os pais do Paul, já não tiveram essa sorte, começaram tudo outra vez da estaca zero.

Já a família da minha mãe, tinha se escondido em Barcelona, com outro nome.

Quando meu pai, saiu da universidade, tinha estudado administração, foi trabalhar num banco, aonde aprendeu a investir dinheiro, daí foi um passo, quando surgiram grandes empresas que trabalhavam com a bolsa de valores.

Tio Paul, ao contrário era professor da Sorbonne de matemática pura, sua grande paixão.

Os dois de uma certa maneira eram parecidos.

Ao meu pai, chegou uma certa idade, sua mãe o pressionava para casar-se, ter uma família, ele escapava.   Mas acabou casando com minha mãe, que no fundo era uma prima distante, tinha dinheiro pelo meio.

Depois que me pariu, quem me cuidava era minha avô, pois ainda era viva, pois ela dizia não ter jeito com crianças.    Eu morria de inveja dos companheiros da escola, pois as mães ao os deixarem na porta imensa da escola, em frente a uma sinagoga Hakehilos, que era famosa por ter sido construída por um dos grandes do art nouveau, Hector Guimard, ficava na rua Pavée, as senhoras beijavam seus filhos na cabeça, ou mesmo os abraçavam, ela ao contrário me despachava depressa, tinha que tomar café com alguém.

Ia sim fazer fofocas, se metia com todas que estavam em idade de casar-se que andassem depressa, pois faltavam homens no mercado.

Eu adorava quando saímos com tio Paul, sempre era para ir a algum lugar que eu quisesse, eu pedia sempre o Museu de História natural, assim depois íamos passear ao lado no Jardim de Plantes.   Pedi ao meu pai, que no ano seguinte não queria mais ir a essa escola, estava farto do que se ensinava ali.

Tinha feito desde criança todos os procedimentos judeus, depois me contaria, que alguns o tinha feito por insistência do Paul, pois se fosse cortar o prepúcio quando adulto, era um horror.

Mas o resto não fiz, o que causava uma briga imensa entre os dois.

Ela me chantageava para dizer ao meu pai, que eu queria, me prometia mil coisas, mas eu na hora de falar com ele, dizia que não queria nada disso.

Só faltava me bater, não fazia porque meu pai me defendia.

Finalmente mudei de escola, ele mesmo me levava no caminho ao trabalho, parávamos na esquina num bistrô para tomar café, eu podia pedir o que quisesse, ele odiava comida kasher.

Na hora de entrar, ele fazia uma coisa, que meus amigos detestavam, mas eu adorava, mexia nos meus cabelos crespos, me dizendo que tenhas um bom dia filho.

Porque eu pedi, eu basicamente ficava o dia inteiro lá, ia para casa no final do dia, meu avô vinha me buscar.    Minha mãe tinha esperado que ele ficasse de seu lado, mas nada, ele cada vez ia menos na sinagoga, depois da morte de minha avô, quase nunca.

Ia sempre conversando comigo coisas sérias.

Quando eu tinha quinze anos, um dia foi me buscar mais cedo, fui com ele a um banco, ele abriu uma conta para mim, me disse, é um segredo entre os dois, depositou uma soma em dinheiro, que eu não tinha noção do que era, depois pediu uma caixa forte em meu nome, descemos, ele abriu uma que tinha, começou a transferir coisas para a minha, na hora não entendi, principalmente uns saquinhos.

Um dos documentos, era a escritura da casa dos meus pais, ele já tinha feito a mudança para meu nome.

Me deu a chave da minha caixa forte, me disse, você só volte aqui, quando teu pai te emancipar.

Eu lá sabia o que era isso, fui buscar no dicionário.

Nesse dia de novo meu quarto estava revirado, ele tinha me dado um bom dinheiro, como sempre fazia, eu guardava numa caixa escondida, meu monte em vez de crescer diminuía.

Não ficava bem culpar minha mãe do roubo, então ficava quieto.

Nesse dia, vi que tinha mexido na cama, pois estava tudo fora de lugar.

Quando comentei com um amigo, que era árabe, Ahmed, me disse que sua mãe fazia igual, mas para ver se encontrava revistas pornográficas.

Disse que seu irmão mais velho tinha muitas, pensei muito, podia comprar, mas não tinha idade, lhe pedi algumas emprestadas, disse o que ia fazer.

No dia seguinte fechei o meu quarto, deixei as revistas todas abertas em cima da cama, na minha secretária.

Meu pai foi me buscar na escola, pois ela tinha telefonado para ele, fazendo o maior escândalo, que eu era um depravado, essas coisas.

Eu contei para ele finalmente o que ela fazia, que me faltava sempre dinheiro na caixa que guardava o que meu avô me dava a cada quinzena.

Ele subiu uma fera, mas antes passou por uma loja perto de casa, comprou outra fechadura, com chave, entrou sem dizer uma palavra, ela falando sem parar, que eu ia acabar como o tio Paul.

Não era com ele, trocou a fechadura, me deu a chave, a outra colocou em seu chaveiro, me disse quando eu quiser, posso olhar tuas revistas.

Eu quase me matei de rir com a cara dela, virou as costas, me chamou para tomar um café.

Quando voltamos tinha um carro da policia parado em frente do edifício, ela tinha chamado a polícia, porque naquela casa vivia um depravado.

Meu pai explicou ao policial o que tinha acontecido, ele se matou de rir, tinha gostado da ideia, disse que sua mãe quando tinha essa idade era igual.

Virou-se para ela, dizendo que a única pelo visto que era depravada ali era ela, que via sujeira aonde não tinha.

Ao sair, me disse, boas punhetas garoto.

A partir desse dia, cada vez que saia do quarto, fechava a chave, que levava presa nas minhas calças num belo chaveiro presente do tio Paul.

Meu pai estava cada vez mais fechado em si mesmo.

Um dia teve um principio de derrame, fez uma série de exames médicos, descobriu que tinha um problema, um dia seu coração iria parar.

Eu já tinha 16 anos, me levou a um apartamento, que gostei logo de cara, tinha uma espécie de como dizer, lar meu doce lar.

Me fez sentar numa poltrona, no sofá se sentou com tio Paul.

Me contou que esse principio de derrame me fez pensar muito na minha vida, eu amo o Paul desde garoto, eu cedi a chantagem da minha família para me casar, mas ele não, soltou na cara da família que era gay.

Quero passar o resto do meu tempo com ele.  Este apartamento, era aonde eu vinha me encontrar com ele, antes de ir para casa.

Não quero que descubras nossa história por ninguém.

Eu simplesmente me levantei, os abracei, beijei cada um.  Claro eu não era tonto, quando saiamos os três, notava gestos de carinho entre os dois, os olhares que se davam.

Eu tampouco seria feliz em viver com minha mãe, tentaria escapar, isso pensava eu fazer assim que pudesse.

Meu pai aproveitou, para dizer que quando eu fizesse 17 anos me emanciparia, assim eu poderia gerir o que meu avô tinha me deixado, sei que o que está no banco, pois ele me mostrou e autorizou que aplicasse para ti, o faço desde essa época.

Outra coisa, queremos que esse apartamento seja para ti, em breve terás que decidir o que queres estudar, para ir à universidade.

Eu já sabia, meus únicos gastos eram em aviões, tinha o teto do meu quarto cheio deles, meu avô sempre me dava um, me dizia que era um sonho dele.  Voar é para os pássaros, mas para os homens tenho a sensação de que se sentem livre quando estão pelo céu.

Eu já tinha conversado com tio Paul sobre isso, queria estudar, física, aerodinâmica, essas coisas, assim que fizesse 18 iria entrar num curso de piloto.

Claro ele já tinha contado ao meu pai.

Esse riu dizendo que imaginava minha mãe sabendo disso.

Ela vive me perguntando o que é essa chave que levas presa ao pescoço, ao invés de usar uma estrela de David que te deu.

Era a mais feia que eu já tinha visto, verdade seja dito, ela se vestia mal, eu quando meu avô passou a me dar dinheiro, tirava uma parte, me comprava camisetas, calças jeans, tênis, não tinha que usar uniforme na escola nova.

Tinha sido uma briga imensa quando meu pai me trocou de escola.

Na semana seguinte ele pediu o divórcio, o escândalo foi monstruoso, mas ele já tinha arrumado sua bagagem, foi embora, só me disse paciência.

Um dia cheguei, a encontrei tentando arrombar a porta de meu quarto, avisei que iria chamar a polícia, pois sabia que ela roubava dinheiro da minha caixa.   Na verdade a caixa estava vazia, pois tinha ido ao banco depositado na minha conta.

Justo antes de meu pai, ter o principio de derrame, meu avô morreu, foi a primeira vez, que rezei o Kadish, junto ao meu pai e tio Paul.   Ela resmungou até, porque o Paul tinha que rezar junto.

Na leitura de testamento, acho que só meu pai não ficou surpreso, mas ela sim, o apartamento era meu, bem como a loja, o aluguel iria todo para a conta que ele tinha aberto para mim no banco.   Assim que meu pai me emancipasse, eu poderia usar esse dinheiro.

Ela queria em seguida saber quanto eu tinha no banco, não respondi.

Para meu pai deixava dinheiro, um outro apartamento, num edifício perto.

Mas ele foi morar no do tio Paul, perto do Panthéon, era imenso, me disse que se eu quisesse podia ir morar com eles.

Na verdade passava mais tempo lá com tio Paul, estudando matemática, me preparando para a universidade.

Quando chegava em casa, me fazia milhões de perguntas, nunca respondi.

Era na verdade uma pessoa desconhecida para mim.

As vizinhas cada vez mais reclamavam dela, se metia na vida de todo mundo.

O rabino chamou meu pai, querendo consertar a vida deles, meu pai soltou na cara dele, que tinha poucos anos de vida, era gay, queria viver seus últimos anos junto ao homem que ele amava.

O homem não disse nada mais.

Com 17 anos, meu pai me levou a um juiz, que era cliente dele, fizeram os papeis, nesse dia, reuni tudo que era meu, em caixas, sabia o horário que ela não estava em casa, Tio Paul e Ahmed me ajudaram a descer colocar no carro dele.   Levei só dois aviões que eram meus preferidos, mas fechei a porta do quarto, mas como sabia que ela faria de tudo para entrar, consegui um poster imenso de um homem com o piru duro, o coloquei de frente para a porta.

Sabia que era uma maldade, mas ela tinha sido pesada comigo desde garoto, não podia dizer que tenha sido uma má mãe, porque nunca me pegou, isso só uma vez, meu pai lhe disse que nunca ousasse fazer isso.

Fui para o apartamento que era deles, ficava perto da universidade.

Deixei uma carta para ela, chamaria cada semana para saber como estava, iria almoçar com ela num restaurante Kasher, a cada 15 dias.

Me matava de rir, pois cada vez ela aparecia com uma garota diferente, a maioria delas feias.

Só uma depois ficou minha amiga, isso eu já tinha 20 anos, ela se virou para mim, me disse, sou lesbiana, mas minha mãe insiste que tenho que me casar, ter filhos, ser boa judia.

Eu ri, lhe disse, eu sou gay, nesse dia venho almoçar com ela, sempre me apresenta alguém, mas são muito feias.

Os dois nos matamos de rir, ela tinha se levantado para ir ao banheiro, era um truque que fazia para que eu falasse com a garota que convidava, a maioria quando ela voltava, já não estava ali.

Queria saber o que eu dizia a mesma.

Respondia, que não pensava em me casar.

No ano seguinte fui para Toulouse, fazer umas práticas na AIRBUS, tio Paul me deu um carro de presente, eu já fazia aulas de voos em Bauvais-Tille, ele me emprestava seu carro.

Não sei como soube, mas fez um escândalo em pleno restaurante, na frente da moça que tinha levado, dizia que eu queria me suicidar.

O dono do restaurante que a conhecia, veio lhe chamar a atenção, pois estava incomodando os clientes, ela o mandou tomar no cu, que a deixassem em paz.

Ele simplesmente chamou a polícia, eu paguei a conta, sai de fininho pela cozinha, ela que aguentasse o que tinha feito.

Como sempre a policia chamava meu pai, ele agora dizia que a deixasse dormir na cadeia que ficava calma.

Na véspera de ir embora, lhe telefonei, dizendo quanto tempo estaria fora.

Iria sentir falta sim de Tio Paul, do meu pai, mas dela nenhuma.

Me telefonava sempre quando era impossível atender, eu colocava o celular em silencio, assim olhava quem era, apagava.

Depois tinha que aguentar o famoso chantagem, se ela estivesse morrendo, esse tipo.

Eu lhe respondia que se ela tivesse morrendo, não teria forças para me chamar por telefone, morreria e pronto.

Ela vivia no apartamento que era meu, recebeu pelo divorcio um bom dinheiro, meu pai lhe pagava uma pensão, mas depois disso ele nunca voltou a vê-la.

Esse tempo que passei em Toulouse, foi uma maravilha, me sentia livre de amarras, não tinha que me preparar psicologicamente para ir comer com ela.

Lhe dizia para me chamar de noite quando estava livre, mas insistia em chamar enquanto estava trabalhando.

Acabei ficando, fui a Paris, fazer as provas finais, eles me contrataram.

Conversei muito com meu pai, com tio Paul, me sentia prisioneiro no escritório, queria voar, tinha duas possibilidades, arrumar um emprego numa empresa aérea, ou fazer um tempo a aeronáutica.   Paul disse, aproveita que agora não tem nenhuma guerra.

No fundo eu queria voar, nesses aviões a jato.

Fui para a aeronáutica, o bom que tinha experiencia, logo fui promovido.  Tive sim que aguentar outro escândalo, pois dizia que eu queria voar para me suicidar.

Desta vez lhe respondi que claro, com uma mãe como ela, era o melhor.

Eu adorei, fui para outro lugar, nessa época, fui para o Mali, pelo menos havia paz, mas fiz camaradagem com vários militares.

Com um em especial, depois ele entraria para a polícia, perderia contato com ele.

Quando voltei, fui me especializar ou melhor fazer uma pós graduação em aerodinâmica, depois fiz uma continuidade nos Estados Unidos.

Justo quando estava para ir, meu pai morreu, estava trabalhando, caiu para frente com a cabeça na mesa, deu um susto de morte na sua secretária, mas não tinha nada mais a fazer.

Chamou tio Paul, esse tinha ordens para não avisar minha mãe.

Tio Paul me chamou, a coisa era complicada, ou teríamos escândalo no enterro, ou depois.

Creio que é melhor depois.   Ele estava abalado, nunca tinha amado ninguém que não fosse meu pai, tinha aguentado todos esses anos que ele tinha estado casado, dizia que a única coisa boa era eu.

A empresa queria colocar uma nota no jornal, eu disse que não, assim era melhor.

A cerimonia foi simples, nada de sinagoga, só no cemitério, que ele foi enterrado ao lado de seus pais, eu estava rezando o Kadish, ela apareceu, pelo menos havia poucas pessoas ali, um rabino aguentou o escândalo, lhe disse na cara que se não ficasse quieta chamava a polícia.

Ela não parou, eu simplesmente fiz uma coisa que sempre tinha querido fazer, quando fazia escândalo, fui até ela lhe dei um belo tabefe na cara, parou no ato.

Recomecei a rezar, junto com tio Paul, ela fervia de raiva.   O advogado de meu pai, apenas lhe comunicou como estavam divorciado não tinha direito a nada, a não ser uma pensão, pois meu pai tinha morrido no seu trabalho.

Ele deixava tudo basicamente para mim, Paul realmente não precisava de nada.

Acumulei mais dinheiro, ele ainda me indicava um dos seus companheiros, para seguir aplicando meu dinheiro.

Fui para Washington, ia fazer um trabalho específico na Boeing, em Everett, levei o tio Paul comigo, pois ele estava de férias.

Ela seguia fazendo a mesma coisa, me telefonava durante o dia, me pegava de madrugada, por mais que eu falasse do fuso horário, não adiantava.

Te juro, que não sei como teu pai aguentava, esse eterno mau humor dela.  No fundo era como se ela não tivesse família, minha avó a tinha ido buscar em Barcelona, nunca a vi falar em ninguém da família.

Ela tinha uma bela pensão da empresa do meu pai, mas de resto nem o apartamento era dela, como ela gastava esse dinheiro não sei, pois começou a me pedir dinheiro.

Se eu perguntava para que, dizia que passava fome, miséria, como na guerra.

A principio pensei em mandar, mas tio Paul, disse que não, pediu para a mulher do rabino que a aguentava, por caridade.

Essa foi a casa dela, disse que a geladeira estava abarrotada de comida, que estava muito gorda, que as vezes gritava para incomodar os vizinhos.

Que o melhor seria ela ir para uma residência para pessoas com problemas.

Acabei meu trabalho, voltei, levei como se fosse uma namorada, a mesma garota que ela tinha me apresentado, era psicóloga.   Me acabou soltando que ela tinha principio de Alzheimer, pois não me reconheceu.   Pensou que a psicóloga era uma irmã dela de quem nunca tinha falado.

Contou barbaridades, coisas sem pé nem cabeça.

O duro foi conseguir um lugar para leva-la.  Eu rebusquei em suas coisas, documentos dela quando solteira.  Consegui descobrir.

Telefonei, uma mulher me atendeu, quando falei o nome dela, a outra perguntou se ainda era viva.

Sim, sou seu filho, nunca falou da família.

Venha me visitar, me deu o endereço, eu tinha que ir a Toulouse para uma entrevista na universidade, que queriam me contratar, de lá dei um esticada a Barcelona, me hospedei num hotel.

Foi visitar sua irmã, era parecida fisicamente com ela, mas de resto nada, roupas coloridas, com um batom na cara, ri muito com seu humor.

Disse que no dia que minha avó a levou para casar com meu pai, quase fizemos uma festa, nos livrávamos dela.

Ela nunca tinha aceitado o fato da família viver em Barcelona, de ter trocado de sobrenome, nada disso.

Enchia o saco dos meus pais, pois eles nunca iam a sinagoga, não praticavam religião nenhuma, parecia uma velha sempre com esses cabelos presos, mania de vestir-se com roupas escuras, dizia que ela era a única na família que era judia.

Meu pai a levou uma vez a uma psicóloga, essa disse que futuramente teria problemas.  Então para meu pai, se livrar dela foi o melhor.

Foi boa mãe pelo menos?

Tive que rir, nunca chegou perto de mim, a não ser com a eterna mania que eu tinha que me casar, ir sempre a sinagoga, coisas assim.

Quando fui para a universidade, escapei de casa, tinha sido independizado pelo meu pai, para poder usar uma parte da herança do meu avô, trabalhei em Toulouse, na universidade em Paris, acabo de voltar dos Estados Unidos.

Achei interessante, essa tia, me disse que tinha horror a convivência justamente com os piedosos judeus, que eram complicados a maioria, me casei com um catalã, tive dois filhos, um vive no Brasil, outro em NYC, cada um faz uma coisa diferente.

Eu adoro aqui aonde vivo.   Realmente eu também gostei do lugar, Barceloneta, perto da praia.

Sempre gostei de ir à praia, tua mãe, colocar maio ou bikini era imoral.

Pensei comigo mesmo, ainda se casou com um gay, imaginei isso na sua cabeça.

Lhe perguntei se queria ir visita-la.

Riu comigo, já basta tu, que é obrigado.

Era uma verdade, agora era pior, pois nem sabia quem eu era, as vezes Paul ia comigo, conversava com ele, dizendo tipo, que ele continuava bonito, que se soubesse tinha casado com ele, pois tinha cara de gostar de sexo.

Um dia soltou que como não tinha marido, tinha feito sexo com muitos homens que encontrava pela rua.

Nunca soube se era verdade ou não.

Um dia houve um vazamento, no apartamento tive que arrumar o mesmo.

Para minha surpresa, uma vizinha de toda vida, disse que graças a deus, ela estava fora dali.

Imagina fazia sempre escândalo com a vida alheia, mas volta e meia trazia um homem para casa, a maioria velhos, que não sei aonde ela encontrava.

Fiquei pasmo.

Conversei com Paul a respeito, pode até ser, porque seu pai tinha horror a fazer sexo com ela.

Tinha sido forçado a se casar.   Ele dizia que eu tinha coragem, minha mãe quando começou a fazer essa chantagem comigo, lhe soltei na cara que gostava de homens, a primeira que ela me apresentou, lhe perguntei na frente da garota e da mãe da mesma, se ela sabia que eu era gay.

As duas saíram correndo, nunca mais me encheram o saco.

Assim que pude me fui de casa, meu irmão menor não teve a mesma sorte, se mandou para Israel, se casou por lá, mas morreu numa das muitas guerras, era militar.

Os velhos ficaram sozinhos, acabaram indo viver com a nora em Israel, sei que tenho sobrinhos, mas nunca fui lá.

Ainda me perguntou se iria com ele?

Vou, mas vou dizer na cara deles, que o tio é meu, que ninguém pode me roubar.

Ele me abraçava, tu eres o filho que sempre quis ter.

Teu pai as vezes tinha ciúmes, pois eu ficava procurando coisas para te dar de presente, adorava sairmos os três para algum museu.

Eu estive algum tempo em Annecy, fazendo uma entrevista para dar aulas, ao mesmo tempo me chamaram para Genebra, para aulas na universidade.

Tinha adorado o lugar, tinha experimentado fazer Parapente, tinha sido uma sensação única, era como voar como os pássaros.

Telefonei ao Paul, o vi preocupado, perguntou se realmente eu iria me mudar para lá.

Já falamos lhe disse, não podia dizer que tinha inclusive olhado uma casa.

Quando cheguei a Paris, o vi mais animado.

Reencontrei um amigo de muitos anos, estamos os dois na mesma idade, ele sempre soube do meu romance com teu pai, viveu na Alemanha esses anos todos, agora voltou, temos saído várias vezes, queremos tentar, o que achas.

Lhe dei um beijo com todas as forças, quero que sejas feliz, lhe faltava pouco para se aposentar da universidade, tinha seguido mais anos para se ocupar.

Conheci o sujeito, olhava com um carinho o meu querido Paul, que não pude fazer outra que apoiar.

Fui para Annecy, me juntei a um grupo que fazia asa delta e Parapente, adorava, meu tempo eu dividia entre as duas cidades, mas adorava viver ali, a casa que comprei com o dinheiro do apartamento que vivia minha mãe, que tive que vender por baixo do preço, pois era necessário uma grande reforma, um dia me chamaram, quando tiraram um armário, que ela devia ter um jeito para mover, encontraram várias latas cheias de notas, prensadas.

As entreguei na sinagoga em nome dela, não precisava de dinheiro, que eles usasse como quisessem.

Convidei Paul e Rafael, esse ainda se arriscou um dia vir comigo na asa delta, mas meu tio, nem pensar.

Gostaram imensamente de aonde vivia, tinha uma vista espetacular, um fator importante era que podia ir facilmente a Genebra, a estrada passava perto.

Um dia estava fazendo asa delta, me distrai completamente, passei do lugar em que vivia, o vento me levava para cima, vi algo que me chamou a atenção, lá do alto, de um lado um lugar cheio de ovelhas, de outro uma casa grande, moderna, algo brilhava muito no chão, quando comecei a voltear para abaixar, vi que era uma pessoa atirada no chão.

No capacete levava telefone incorporado, chamei a polícia, lhe expliquei que estava fazendo força para descer, mas que o vento era forte, expliquei que de um lado tinha ovelhas no pasto, do outro o homem atirado no chão, falei de estrada perto, não podia abaixar muito pois cairia em cima de arvores.

Desci no pasto, as ovelhas correram como loucas.

Nisso chegaram os carros de polícia.   Realmente tinha um homem morto ali, o que brilhava era uma escopeta, pois o sol batia em cima dela.

Na casa encontraram um casal morto.

O polícia me explicou que quando falei ovelhas, casa moderna, sabiam aonde eram, pois os dois vizinhos viviam brigando.  O das ovelhas era o que estava fora, a posição era como se estivesse indo embora, havia um homem atravessado na porta, que era o que devia ter atirado.

Os da casa moderna, segundo a polícia, eram ricos, davam festas impressionantes, o outro reclamava pois assustava suas ovelhas.

Falando com o policial, havia nele alguma coisa que me lembrava alguém.

Quando disse seu nome, ri muito, era meu companheiro da época de Mali.

Rimos muito, ainda soltei, grande diferença, Mali, deserto, aqui tudo verde.

Trocamos número de celulares, eu disse que morava mais abaixo, uns quinze minutos, ele vivia na cidade.

Lhe disse aonde dava aulas, na hora que nos despedimos, me perguntou se tinha me casado.

Os dois tínhamos tido uma aventura, lhe disse que não, tinha andado muito por aí, mas casar nem pensar.

Ele disse que sim, mas que não tinha durado.

Um dia saia da escola, o carro dele, parou ao lado, me convidou para um café.

Disse que tinha sido a melhor época de sua vida, mas que tinha tido medo, eu era um cagão vamos dizer assim, na aeronáutica, no meio do nada, era fácil as pessoas saberem de ti.

Por isso quando voltei, entrei para a polícia, me mandaram para o sul.

Sem querer começamos a nos ver.  Um dia veio a minha casa, ficou alucinado, eu tinha recuperado todos os aviões que tinha, estavam todos numa lateral do salão, presos no teto, parecia uma cena de um filme.

Riu muito, lhe contei que hoje em dia fazia Asa Delta e Parapente, me sentia livre.

Tenho que ir um dia contigo.

Realmente depois nunca nos separamos, quando Paul apareceu sozinho, veio passar uns dias, ficaram amigos.  

Paul estava fugindo do outro, disse que era super controlador, as vezes me faz lembrar da tua mãe.   Estou velho demais para que alguém me controle, que eu tenha dizer aonde vou, se vou soltar um peido, coisas assim.

Foi ficando, se passou um ano, perguntou se podia construir uma cabana ao lado, pois também gostava de seus momentos de solidão.

Meu amante, ria muito, um dia vão dizer que vivemos com ele para explora-lo.

Mas já fazem mais de dez anos isso, Paul tem uma força de vontade impressionante, conseguiu um lugar aonde vivem jovens com problemas, dá aulas lá.

No fundo eu era mais filho dele que de meu pai, que era acomodado.

As vezes nos pergunta porque não adotamos um desses garotos, eu respondo só se for para ele dar as tetas.

Tenho sempre medo de não ser bom pai.

 

 

 

 

 

 

 

Comentarios

Entradas populares de este blog

PRECISO ANDAR

DR. CASTELLO

CORPUS CHRISTI