CONVERSA DE BOTEQUIM
Seu
garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
Se
você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro
Seu
garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
Telefone
ao menos uma vez
Para três quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente
Seu
garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.
Noel
Rosa.
Despertou com essa música na cabeça, riu tão
alto, que a enfermeira que o cuidava entrou no seu quarto, em seguida o
levantou, fez suas necessidades, depois o sentou no seu cadeirão, na pequena
varanda da casa que dava para o Parque Recanto do Trovador, ali na rua Visconde
de Santa Isabel, claro no bairro de Vila Isabel.
Ele sempre dizia que ali era o lugar aonde
tinha nascido o bom samba, evidentemente era fervoroso da Escola de Samba de
Vila Isabel.
Algumas vezes algum compositor, corria para
ele, para o consultar, diziam que era uma enciclopédia ambulante em se tratando
de Samba.
Isso ele gostava, porque como suborno lhe
trazia uma cerveja bem gelada, que a enfermeira ficava furiosa, pois não a
deixava confiscar.
Agora com a velhice tinha isso, despertava
com músicas em sua cabeça, não se lembrava do que tinha comido no almoço, que
sempre reclamava, que faltava algo.
Queria era uma boa feijoada, alguma coisa
com muita cerveja, mas claro não lhe permitiam, quando vinha o médico, lhe
dizia na cara, estou velho, fudido, acha que isso é vida.
Quero morrer escutando algum samba, comendo
uma feijoada, algo que me faça morrer feliz.
Mas não lhe escutavam, em seguida seu
sobrinho vinha dar a bronca.
Depois, caiu no sono outra vez, se lembrou
como tinha conhecido esse pessoal, era advogado, tinha um escritório ali no
centro da cidade, perto do Amarelinho.
Antigamente era o escritório de seu pai,
ocupava o andar inteiro, o prédio pertencia ao mesmo, a parte debaixo, tinha um
restaurante, de toda a vida, portugueses.
Seu avô tinha chegado no Brasil, ninguém
sabe de aonde, trabalhou como uma besta, conseguiu ficar rico, mandar o único
filho que teve a universidade, para ser advogado.
Seu pai, aumentou a fortuna, teve a ele de
sua primeira mulher, Osório Duque Oliveira, mas todos ou o chamavam de Osório,
ou de Duque, lhe dava igual.
Do segundo casamento, seu pai teve duas
filhas, ele e a madrasta viviam se pegando, segundo seu pai, só faltavam sair
nos tapas, ele se matava de rir, não fazia nada.
Quando chegou a época de ir a universidade,
disse que estudaria direito, se o pai lhe desse um apartamento, bem longe dali,
viviam em Botafogo, numa bela casa, hoje já nem existe mais, foi derrubada para
transformar num edifício residencial.
O pai lhe deu essa casa em Vila Isabel,
longe na sua cabeça, ele só aparecia na casa do pai, nas festas, ou melhor
dizendo, aniversário do velho, natal, ano novo, nem pensar, já estava nos
preparativos do carnaval.
Ele que tinha sido sempre sozinho, com
dificuldade para fazer amizades na escola grã fina que lhe colocaram, quando
chegou a universidade, deslanchou, fez boas amizades, algumas para toda a vida.
Ia a faculdade, depois ia trabalhar no
escritório de seu pai, na época importante, claro ali perto estava a assembleia
dos deputados, tampouco existe mais.
Então os clientes eram importantes, deputados,
senadores, compadres como dizia o velho, gente de bem, isso ele tinha suas
dúvidas.
Ele odiava tudo isso, o que queria era
depois de acabar o expediente, se encontrar com seus amigos ali no Amarelinho,
diziam todos, que ia começar os serviços, uns quantos chopinhos, depois ir
dançar no Bola Preta, acabavam sempre na Estudantina Musical, na praça
Tiradentes.
Ele se esbanjava, tinha aprendido a dançar
com sua mãe, ela lhe ensinou todos os passos, desde um chá-chá-chá, fox trotter,
valsa, depois ele aprendeu o samba, a esse era sua paixão, dançar um bom samba,
arrastar o pé como ele dizia.
Em casa depois da morte de sua mãe, isso
virou pecado, a falsa da madrasta, era daquelas carolas falsas, ia missa para
depois criticar quem estava.
Tinha um salário com o pai, bem como uma
mesada, relativa à herança de sua mãe, isso lhe valeu a vida inteira.
As vezes chegava de manhã na universidade,
para cair rendido em cima da mesa de estudos, claro nessa época a ressaca ele
curava logo cedo, com um café forte.
Seu pai vivia lhe chamando a atenção, pois era
relaxado no trato com os clientes, logo conseguiu seus próprios clientes, nada
de formalidade.
Quando o velho começou a pensar em se
aposentar, os clientes também foram sumindo, lhe sobrou uma grande parte do
escritório, ele só atendia amigos, pessoas que achava que valia a pena atender,
inclusive a alguns não cobrava nada conforme o caso.
Tinha uma ajudante, secretária, pau para
toda a obra, como dizia, Adalgisa, pagou para ela, que pudesse estudar direito,
a tinha conhecido no primeiro ano da universidade, depois tinha sumido, quando
a encontrou um dia, indo atender um cliente, ficou pasmo, era uma sombra do que
era.
Disse que sua família tinha perdido tudo,
que estava trabalhando de vendedora ali na rua da Alfandega.
Nada disso, vens trabalhar comigo, odiava a
secretária que tinha, era a antiga de seu pai, se ele soltava um peido o velho
ficava sabendo. A aposentou, não
adiantou seu pai falar, encher o saco, essa velha destoa com meus clientes, é
capaz de dizer que não estou, se não gosta da cara do mesmo.
Adalgisa morava ali na Men de Sá, a outra
quando a viu, soltou, vais contratar uma mulata para secretária, foi a gota que
faltava.
Melhor que uma velha, amarga, virgem ainda
por cima.
Em um mês tudo funcionava como ele gostava,
no semestre seguinte, de tanto falar, ele tinha dinheiro para isso, fez com que
ela voltasse para a Universidade.
Aliás reconhecia que alguns casos, ela era
melhor do que ele.
Sabia que ele chegava sempre tarde, nunca
despertava muito cedo, dizia rindo que ele devia estar preso pelo tráfico ali
no Maracanã, mentira, pois ele estava mesmo sempre atrasado.
Seus amigos, eram todos da noite, adoravam
a noitada, assim conheceu muitos músicos, como o resto do andar ficou vazio,
montou com uns amigos, uma espécie de studio de música, assim conheceu muita
gente.
Um deles Noel, sempre tentando emplacar
alguma música, usava uma sala ao lado da sua para atender algum cliente, vivia
metido em confusões, sempre com mulheres casadas.
Mas tinha bons clientes, normalmente gente
com muito dinheiro, sua família como a dele, ninguém sabia de onde tinha saído,
mas viviam em Copacabana, na época era como um lugar de veraneio.
Uma, ou duas vezes por mês ia com os amigos
no Casino da Urca, se matavam de rir, pois o que ele queria era ver o show do
momento, dançar com alguma senhorita.
Jogar não era a sua, conhecia os músicos da
orquestra, os que estavam fazendo show no momento, grandes compositores.
Mas o seu confessa, era ir ao Bola Preta,
depois se acabar na Estudantina Musical.
Riam dele até, diziam que ele devia ter
sangue de negro nas veias, isso não lhe incomodava, pois tinha grandes amigos
negros, as vezes dizia que confiava mais neles que em muito branco safado.
Um dia chegou no escritório, atrasado, viu
uma grande confusão, inclusive com polícia, na hora não entendeu nada.
Que merda é essa pensou, foi pedindo
licença educadamente, a Adalgisa lhe puxou para sua sala, era alguma coisa na
sala ocupada pelo Noel. Quando cheguei levei o maior susto, a porta
estava aberta, havia muito sangue, chamei a polícia, mas nada, havia um desenho
no chão, como se alguém tivesse levado um tiro, como nos filmes de policial
americano, no meio cheio de sangue.
Chamou um policial que estava ali, que ela
conhecia, o mesmo disse que mais parecia uma ameaça, pois o sangue era de
galinha, muito escuro para ser humano.
Nisso chegava o Noel, todo fagueiro, tinha
alguma nova amante, mas isso ele era daqueles que nunca comentam nada.
Quando viu, soltou que era de alguma
despeitada.
Tinha um hábito interessante, dar um tapa
na testa, disse o nome de uma mulher, quando lhe disse que o nosso já era,
ficou uma fera, que a ela ninguém dizia que caia fora.
Me ameaçou, contou para eles, que era uma
viúva, cheia do dinheiro, portuguesa, inclusive tem bigode, mas é uma louca na
cama.
Não deu outra, um pouco depois subia uma
mulher, com uma faca na mão, uma roupa muito justa, o queria matar, disse que
ela tinha feito aquilo, para ele saber que a ela, ninguém colocava de lado.
Por sorte do Noel, a fulana foi com a
polícia.
Este se ria muito, imagina, eu lá sou homem
de ficar preso a uma mulher, se me quiser desfrute enquanto pode.
Pior que saiu nos jornais, pois ali no meio
das pessoas, estavam pelo menos dois jornalistas, no dia seguinte saiu em todos
os jornais.
Seu pai lhe telefonou furioso, que seu
escritório estava no meio de um escândalo, essas coisas.
Ele foi almoçar com o velho, foi uma coisa
cômica, pois a muito tempo, ele tinha tirado a placa do escritório, ali só
apareciam realmente quem tinha algum problema, ou era indicado por alguém.
O levou para almoçar, na Colombo, que esse
adorava, se distraiu, encontrando velhos conhecidos, lá pelas tantas já nem se
lembrava de nada.
Adalgisa soltou na sua cara, que ele não
era mais malandro porque não queria.
Noel desapareceu por alguns dias, pois seus
pais também não gostaram da situação, mas ele quando os amigos do Bola Preta,
ou da Estudantina falavam, levantava os ombros.
Foi nessa época que sem querer sua vida
mudou, sempre que ia na Estudantina, via um mulato claro, que o ficava olhando
de longe, nunca dançava, era muito mais alto do que ele.
Um dia se lembrou de aonde o tinha visto,
as vezes ia comer com os amigos no Bar Luis, ali na rua da Carioca, entendeu
que ele era um dos cozinheiros.
Sempre que ia, com os amigos, o outro de
longe ficava olhando, quando saia, o porteiro sempre chama um taxi para ele,
pois sempre lhe dava uma gorjeta.
Nesse dia, chovia a mares, o porteiro tinha
subido para apartar uma briga, sim isso acontecia no final da noite, o rapaz se
aproximou, lhe disse com um sorriso impressionante, posso te levar para casa se
queres, meu carro esta na volta da esquina.
Ele já tinha feito sexo com homens, mais
com mulheres, mas o filho da puta o atraia, tinha uma boca carnuda, olhos
verdes, se deixou levar.
Deu a direção de sua casa.
No andar de baixo, ele tinha uma
biblioteca, não só de livros de direito, mas todos os livros que vinha
comprando, desde que se entendia por gente, livros em inglês, francês, quando
saia algum dos seus escritores prediletos, os encomendava.
O outro se apresentou, Dudu Alvarenga, ao
seu dispor.
Quando iam chegando lhe perguntou aonde
vivia?
Ele riu, lá prós lado de Quintino, tenho um
bom pedaço pela frente.
Quando chegou, o convidou para entrar, não
queria perder a oportunidade.
A noite foi longa, quando viu estava
amanhecendo, nunca tinha estado mais feliz de sua vida.
Tomaram o café junto, Dudu o preparou, voltaram
para a cama.
Estava com os olhos fechados, sorrindo,
quando seu sobrinho chegou, puxa hoje de bom humor, sorrindo.
Queria que ele assinasse uns papeis,
conhecendo o outro como conhecia, disse que deixasse ali, depois ele veria.
O sobrinho insistia, ficou furioso, eres
como tua mãe, sempre querendo alguma coisa, com certeza vou encontrar no meio
dos papeis, alguma coisa que não vou gostar.
Que queres vender agora?
O escritório, ou melhor o andar inteiro.
Nem pensar, isso está sacramentado.
Estava a muito tempo, no seu testamento,
primeiro era para o Dudu, depois trocou para o filho que tiveram juntos, um
garoto que ele conheceu na rua, o tinham adotado.
Vivia em Paris, era um músico famoso, fazia
concertos de piano por todo o mundo.
Em que estás metido dessa vez?
A cara do sobrinho era ótima, furioso,
respondeu, que estava cansado de viver de migalhas.
Oras, não seja por isso, trabalhe.
Justo nesse momento tocou o telefone, o
sobrinho ia pegar, mas ele o tinha ali ao seu lado.
Riu muito ao escutar a voz, meu filho que
bom falar contigo.
Raimundo Duque, tinha uma voz poderosa,
soltou que estava louco para ver o pai.
Quando vens?
Estou chamando para avisar, que chego
amanhã, tomarei hoje a noite um voo, da Air France, chego logo cedo.
Ok, vou mandar preparar teu quarto, como
sempre está igual.
Levo teu neto, disse rindo, Raimundo Jr.
Raimundo tinha sido casado com uma francesa
metida a besta, que um dia ele pegou em fragrante com outro, mesmo assim ela
conseguiu a guarda do garoto, mas ele não desistiu.
Consegui finalmente a guarda do menino, ela
vai se casar outra vez, então abriu mão do garoto.
A cara do sobrinho era ótima, estava ali
com os papeis na frente dele, os arrancou de sua mão, fez um sinal, para que
fosse embora.
Chamou a senhora que cuidava da casa, disse
que preparasse dois quartos, o do meu filho, outro para meu neto.
Quando perguntou do sobrinho, esse tinha se
mandando, com certeza, para choramingar para a mãe.
Quem esse idiota pensa que sou, colocou os
óculos, começou a ler, o filho da puta queria que ele assinasse um documento
lhe dando plenos poderes, para vender todos os imóveis da família.
Ele tinha feito uma coisa que se
arrependia, quando o velho morreu, teve que reconhecer, que ele mesmo não tinha
nada, os imóveis eram todos da sua primeira esposa, portando tudo era dele.
Deixou a grande casa de Botafogo para a
madrasta, suas filhas.
Nunca mais se interessou por elas, volta e
meia a mãe deste aparecia, estavam sem dinheiro, as duas tentaram dar golpes do
bau, mas se deram mal, pois como aparentavam ser ricas, os candidatos sim deram
um golpe, falido e claro, logo descobriram que as mesmas não tinha nada.
Depois quando a velha morreu, foi um caso
de polícia, as duas brigaram por causa da casa, mas quase perderam tudo, não
sabiam administrar nada, nunca pagaram impostos, deviam uma verdadeira fortuna,
o jeito foi vender a mesma para uma imobiliária, para conseguirem dois
apartamentos, o resto ficou com os novos proprietários.
Só uma teve um filho, esse idiota como o
chamava.
Ele sempre tinha odiado o tipo, se fazia de
bonzinho, aparecia sempre com a ideia que o estava ajudando, achava que o mesmo
tinha alguma coisa com a enfermeira, sempre as trocava, mas o idiota as
convencia que ele era o herdeiro, que tinha que cuidar do velho.
Chamou essa nova, disse que seu filho ia
chegar, bem como seu neto.
Mas seu sobrinho disse que era o único da
sua família.
Te enganas, é um tonto, se te contou que é
meu herdeiro, errou.
De mim ele não ganha nada.
Estava furiosa, se sentou, acho melhor
chamar o médico, esse apareceu logo em seguida, o sobrinho a tinha convencido
de trocar uma medicação, assim ele batia as botas antes.
Mostrou para o médico, ia começar a dar
essa noite.
Ele chamou a velha amiga Adalgisa,
perguntou pelo filho dela, ela tinha se casado com o policial, que tinha
conhecido no caso do Noel.
Seu filho era chefe de policia ali no
Maracanã, meia hora depois ele estava lá, mostrou os papeis que o sobrinho
queria que ele assinasse, se meu filho não me chama nesse momento estaria morto
amanhã.
A enfermeira, ele despediu, o médico trouxe
um jovem, acaba de se formar em enfermaria, pode cuidar do senhor.
Olhou o mesmo, sorriu, se parecia com o
Dudu.
Tinham tido uma vida maravilhosa juntos,
nunca se importou se falavam dos dois, levavam a vida como queriam, estiveram
juntos, até o Dudu, fazer 80 anos, morreu dias depois do seu aniversário.
Raimundo, veio correndo, amava o outro pai,
ele tinha feito tudo para que Osório aceitasse que o filho deles, seria músico,
nem parece que gostas de música.
Na verdade a música clássica não era a sua,
o dele era samba, mexer o esqueleto como ele dizia.
Quando o filho e o neto chegaram foi uma
festa, se sentiu muito melhor, o garoto para ele era uma coisa maravilhosa.
Pensou, ainda bem que o Dudu me convenceu
de adotar nosso filho, Raimundo disse que estava cansado tinha acabado de fazer
um tour, por toda a Europa, mas tinha imposto uma condição, em cada lugar
tocava uma música diferente, querem que sempre repitas as mesmas, a verdade meu
pai, não existe compositores novos bons.
No andar de baixo, tinha uma sala, que
estava como ele tinha deixado antes de ir para a Europa, com um piano de cola,
presentes dos dois.
Na verdade quem tinha comprado tinha sido o
Dudu, mas entregou como se fosse dos dois.
Nunca levava a gloria de nada sozinho,
sempre dividia com ele.
Dois dias depois o filho da Adalgisa
apareceu, com todos os papeis em ordem, foi difícil tirar da mão do advogado
seu, esse se acha dono de tudo, mas quando soube que seu filho estaria aqui,
abriu as pernas.
Revisei tudo, seu sobrinho falsificou sua
assinatura, vendeu uma casa ali no Rio Comprido, mas ele gasta tudo, nunca faz
nada.
Pois isso se acabou, estudou com ele esses
papeis, era das propriedades que ainda tinha, tirou do pescoço uma chave, fez
uma procuração para o filho, lhe disse que fosse com o Juvenal ao banco,
tirasse de lá os envelopes amarelos, o de cor parda, deixa.
Assim fizeram, ali tinha mais propriedades,
estudou com o Juvenal, que se ele achava melhor passar em vida essas
propriedades, embora esteja já com 90 anos, creio que se vamos esperar, poderei
demorar.
Assim, fizeram, mas ele fez uma coisa,
separou a metade, colocou no nome do neto, o resto do Raimundo, o envelope do
banco, era para o neto.
Um dia estavam todos conversando, chegou
sua irmã, como sempre com uma cara de fazer gosto, como dizia seu neto tinha
chupado limão azedo.
Queria saber o que o filho tinha feito para
o colocar fora de seu círculo.
Estamos apurados, todos os dias aparecem
cobradores lá em casa.,
Contou para ela o que ele tinha feito, ela
só balançava a cabeça dizendo que era impossível, seu filho não era disso, um
doce de pessoa.
Pois aqui minha irmã, comigo se acabou, me
roubou uma propriedade, vendeu a mesma, aonde está esse dinheiro.
Ele me disse que o tinhas dado, pela ajuda
dele em cuidar de ti.
Uma ova, se eu fosse você ia para uma
residência, pelo visto pelas minhas informações, ele tem o apartamento de
vocês, empenhado em vários bancos, quero ver quando cobrarem, iras para a rua
da amargura.
Saiu da casa furiosa, como ousava falar
assim do seu filho.
Dias depois foi encontrado morta, sozinha
no apartamento, aparentemente tinha sido um derrame, mas quando examinaram,
tinha sido envenenada.
O filho desapareceu.
Ele por caridade, mandou enterra-la ao lado
da mãe dela.
Essa família que meu pai criou, deu nisso,
suspeitou sempre que o velho tinha sido envenenado, o tinha enterrado ao lado
de sua mãe, no Mausoléu da família, no São João Batista.
Quando elas quiseram fazer o mesmo com a
mãe, ele disse que não, era da família de sua mãe, não queria a bruxa lá. Foi justo depois que estourou um escândalo,
as irmãs, reclamavam na justiça os bens do velho, acabaram descobriram que ele
não tinha nada, só uma conta no banco, que elas já tinham gastado tudo.
Agora a ele só tocava relaxar, pois tinha
tudo resolvido.
Agora sonhava sempre com o Dudu, sabia que
ele o estaria esperando no outro lado, embora nem soubesse o que era isso.
Sonhava as vezes desperto, com as saídas
dos dois para o Bola Petra, para dançar, Jr se sentava aos seus pés, ele lhe
contava tudo, desde quando tinha conhecido o Dudu, como depois ele virou sua
sombra, era ele quem tinha o carro, iam a todas as partes, ajudava a Adalgisa com
as coisas do escritório, ia aos cartórios, ao juizado, fazia tudo que ela
mandava, ele dizia que um era o braço direito, outro o esquerdo.
Um dia ele encontrou na rua, teu pai
pedindo dinheiro, posso contar, porque sei que sabes disso. Moveu mundos e fundos, para saber se ele
tinha família, tinha escapado de um orfanato ali no centro da cidade, que caia
aos pedaços, tanto fez, que acabei o adotando.
Ele ia conosco ao samba, mas já tinha
paixão pelo piano, teu avô Dudu, comprou um, esse que está aí embaixo, disse
que tinha sido presente dos dois, sempre fazia essas coisas.
Quando o apresentei ao meu pai, como meu
filho, o velho sorriu, disse que finalmente eu tinha assentado a cabeça, ele
sabia que o Dudu era como meu marido, ou o que seja, aceitou o neto sorrindo,
morreu meses depois.
Aí começaram os problemas com essas
jararacas. O velho nunca disse para
elas, que tinha se casado com minha mãe, com separação de bens, meu avô não era
nenhum tonto, sabia que era um golpe do bau, meu pai só tinha um diploma nas
mãos, nada mais.
Foi trabalhar com o velho, o substituindo
depois, mas até nisso se deu mal, o prédio do escritório era meu por herança.
Olha que eu gastei dinheiro, com as minhas
folias de jovem.
Uma lastima que hoje já não é a mesma
coisa, senão te ia ensinar a dançar, te levar para a Estudantina musical.
Eu me acabava, adorava dançar, quem me
ensinou foi tua bisavô, isso que nunca saia de casa.
Até ela morrer no casarão, sempre tinha
música, eu depois lhe comprava tudo que ela escutava pela rádio. Adorava o programa do Ari Barroso, as
cantoras do Rádio.
Uma época diferente desta, hoje em dia ela
ia odiar, as músicas são um porre.
Raimundo conseguiu um posto na escola de
música, bem como era sempre convidado para tocar com a Orquestra do Teatro
municipal.
Não queria mais voltar para a Europa, se
especializou em tocar todos os compositores brasileiros belos desconhecidos lá
fora.
O Jr era ao contrário, era como o avô, a
primeira vez que foi com o pai, Juvenal, o levaram para ver o ensaio da Vila
Isabel, ali na rua, queriam leva-lo, mas descer as escadas, ir numa cadeira de
rodas, sem poder dançar, lhe pareceu muito.
Dias depois quando o enfermeiro o foi
despertar, estava morto.
Raimundo colocou um obituário nos Jornais,
o velório foi ali no São João Batista, nunca puderam imaginar que apareceria
tanta gente, Juvenal levou sua mãe, essa ia em cadeira de rodas, logo te
seguirei meu amigo, ficou ao lado do Jr, contando como tinha conhecido seu avô,
como a resgatou de uma vida que ela não queria, no final era como se eu fosse
uma sócia no escritório, me aposentei bem, pude educar meus dois filhos, só o
Juvenal, quis ser policial como o pai.
Agora que teu avô não está, serei tua avó.
De uma certa maneira isso era verdade, seu
pai e Juvenal, estavam juntos, se conheciam desde garotos, quando Raimundo foi
para Paris, ele entrou para a polícia, não sabia o que fazer da sua vida, era
advogado também, mas o escritório nem existia mais.
Representar bandidos, nem pensar, agora por
culpa do seu avô, tinha deixado a polícia, administrava os bens deles, além de
outros clientes que foram surgindo, vivia com seu pai, as vezes distraído o
chamava de pai Juvenal.
Ele se matava de rir, lhe beijava na
cabeça.
Quem sabe o que ele seria no futuro,
Juvenal que adorava um samba, o levava aos ensaios, ele ficava elétrico, saia
dançando pela rua, com o pessoal da escola.
Quando fez 17 anos, o pai o deixou sair na
escola de samba, mas claro com o Juvenal, cuidando dele.
Um dia seu pai contou que os dois tinha
descoberto o sexo ali mesmo nesse quarto que compartiam, estávamos estudando,
quando nos demos o primeiro beijo.
Só meu pai Dudu, sabia, mas me fez pensar,
tinha uma carreira pela frente, anos depois de concertos aqui, lá fui eu para a
Europa, me deslumbrei essa é a verdade, quando conheci tua mãe, era a mulher
mais bonita que tinha visto. Cai como um
idiota, mas depois que te pariu, queria viver em sociedade, mas isso era
impossível, eu nunca parava.
Depois os anos de litigio, pois sabia que
tendo tua guarda, tinha dinheiro, até que provei que ela usava o dinheiro que
eu pagava para tua manutenção, para coisas dela.
Por sorte encontrou um homem rico, que
odiava crianças, voltaste para mim.
Ele tinha verdadeira paixão pelo pai, mas tocar
piano, não, mas também o Raimundo nunca lhe exigiu nada.
Inclusive um dia o levou até a frente do
orfanato aonde tinha vivido, estava fechado, era uma ruina total.
A diocese espera que cai para vender o
terreno.
Mas no dia que fugi, morri de medo, por
sorte o teu avô Dudu me encontrou, cuidou de mim, me trouxe para cá, me mandou
tomar um banho, eu ria a bessa, pois o chuveiro do orfanato, caiam gotas de
agua amarela, aqui era água quente, parecia que eu estava embaixo da chuva.
Eles me adotaram, foi a época mais feliz da
minha vida.
Eu não tinha um pai, tinha dois.
Quem me adotou foi teu avô Osório Duque
Oliveira, pois tinha nome na praça, conhecia todos os juízes, era de família
importante, mas de qualquer maneira, os dois eram meus pais.
Todas essas músicas que ele falava do Noel,
me fazia escutar milhões de vezes, no carnaval, sempre vestia uma camisa
listrada, cantava a música, nos arrastava com ele, pelas ruas, com ele era
carnaval de rua, nada de clubs fechados, bem bailes no Municipal, me arrastava
a Estudantina, ao Bola Preta, ele ia entrando, todos falavam com ele, mandava
logo, servir uma boa cerveja Brahma, para a rapaziada, como ele chamava o
pessoal da orquestra, em seguida estavam tocando as músicas que ele gostava.
O mais interessante, ele tinha suas
parceiras ideais para dançar, no seu enterro tinha duas mocetonas, que na época
era jovens, com essas depois de cumprir como ele dizia com as mais velhas, ele
dançava até cair rendido.
Dizia pena que não posso dançar com o amor
da minha vida, um dia isso será uma coisa normal.
Mas em casa, ele colocava no aparelho, os
lps, dançava com meu pai Dudu, agarrado. O olhava com adoração. Entre os dois havia uma fusão, se
completavam.
Quando ele teimava com alguma coisa pai
Dudu, argumentava com ele até o convencer, era ele ou a Adalgisa, só escutava
aos dois.
Estás contente aqui, perguntava ao Jr?
Por nada do mundo trocaria viver aqui
contigo, que em Paris.
Foram duas vezes, para ele tocar com a
orquestra de lá, pois tinha gravado dois lps, com música de Camargo Guarnieri,
de São Paulo.
Juvenal foi com eles, a ideia era passear
pela Europa depois dos concertos, mas justo nessa época morreu sua avó
Adalgisa, os três pegaram o primeiro voo, para chegar justo no enterro.
Nunca mais voltou nem a passeio, foi fazer
um curso de Marketing, se embrenhou nisso, trabalhava para grandes empresas,
recuperou o edifício do seu avô, acabou montando um escritório ali na
Cinelândia.
As vezes se levantava com a música
preferida do avô na sua cabeça, “conversa de Botequim”, sabia que nesse dia,
teria que usar a cabeça para pensar, era como um aviso do velho para ele.
Comentarios
Publicar un comentario