ALTO E CLARO
Tinha sido sempre uma pessoa diferente,
agora o era fisicamente também, ia assumir seu novo posto como inspector chefe
numa delegacia em Berlin, em Mitte, era como voltar ao passado, tinha saído da
cidade a quinze anos, voltava por cima como se diz.
Sua família sempre tinha sido todos da
polícia, inclusive seu pai, policia de rua, na época que essa parte estava do
lado oriental, mas nunca fez parte da Stasi.
Era um homem honrado, duro na queda, em
casa como sempre como éramos muitos as coisas eram controladas.
Filho do segundo casamento de seu pai, do
primeiro ele tinha três irmãos totalmente diferentes dele, altos, grandes
fortes, loiros de olhos azuis.
Ele ao contrário, era mais baixo, quando
muito, isso cruzando os dedos atrás, tinha 1,75 de altura, o que não era
totalmente verdade, usava um sapato que lhe aumentava um pouco a altura, mas
confessar isso, nem pensar. Sua outra
característica, tinha os cabelos vermelhos crespos, olhos verdes, a pele
extremamente branca, cheia de sardas.
Até sua irmã mais nova era mais alta do que
ele, diziam que era por causa de sua mãe, ela era diferente da primeira mulher
de Fritz, seu pai, que era um homem imenso, ela era um doce de pessoa, por isso
os filhos dele a adoravam. Anne era uma
mistura de raças, nem ela sabia na verdade, tinha sido deixada num orfanato,
depois adotada por uma família de um médico.
Estudou, deu um duro desgraçado, faziam
gozação com ela, pois só tinha 1,65 metros de altura, alguns diziam que tinha o
tempo do orfanato, subnutrição, outros de gozação diziam que mais um pouco era
seria uma anã.
Mas na verdade ela cagava para isso, era um
doce de pessoa, mas dura de roer, pois quando queria uma coisa, havia que sair
da frente. Conseguiu a duras penas fazer
universidade, fez administração de empresas, tinha conhecido o Fritz, porque ela
tinha sido testemunha de um processo, contra o seu patrão na época, diga-se de
passagem como ela contava, um bom filho da puta.
Os dois se conheceram, ele se apaixonou,
ela era totalmente ao contrário de sua primeira esposa, uma mulher grande, mas
eternamente mal humorada.
Quando se casaram ela impôs suas condições,
não seria a típica dona de casa, seguiria trabalhando, disse que seu único
sonho era ter um filho, não mais do que um, para que fosse a universidade.
Quando estava em casa, todo o tempo tinha
música, o velho Fritz se lascava, pois adorava ficar escutando noticiários.
Mas se só falam desgraças, isso já vês o
dia inteiro no teu trabalho, o fazia se levantar, para dançar com ela, alguma
música do momento.
Quando ficou gravida, todos a tratavam como
um bibelô, mas não deixou nenhum dia de ir ao trabalho.
Nasci num belo dia de muita neve, mal se
podia andar, ela teimou de ir trabalhar, ele a levou de carro, quando desceu,
resvalou na calçada, cheia de gelo, caiu de costas.
Dali para o hospital, o jeito foi fazerem
uma cesárea, pois tinha um parto que não se resolvia, nasci assim de 7 meses,
por isso diziam que era um pequeno palito de fosforo, pois meus cabelos eram
vermelhos.
Todos se apaixonaram pelo garoto, apesar de
tudo, tive que ficar mais de uma semana na incubadora.
Meu pai, ficou louco quando me viu, tinha o
mesmo tipo dele em se tratando de pele, muito branca. Os meninos vinham depois das aulas, para
ficarem nem que fosse um minuto comigo nos braços.
Depois com o tempo, tive que aprender a me
defender deles, pois eram mais altos e fortes, o jeito que me pai achou, foi me
colocar numa academia de box, aprendi a me defender.
O médico avisou minha mãe, que ela não
devia ficar mais gravida, que devia retirar o útero, isso não entrava na cabeça
dela. Anos mais tarde, teve câncer por
causa disso, acabou morrendo pois demorou a tratar.
Quem acabou de me criar, foi minha irmã
mais velha do que eu uns 8 anos. Como
ela dizia, esses imprestáveis nunca fazem nada, se referindo aos dois irmãos
maiores.
Me levava a escola, ela estudava numa em
frente, depois esperava que ela saísse, os seus companheiros faziam gozação com
ela, pois no verão iam tomar algo, ela não, me levava para casa, ia para a
cozinha fazer comida, as deixava preparada da noite anterior.
Me ensinou a arrumar minha cama, coisa que
os outros dois não faziam, ela se negava a entrar no quarto deles, dizia que
fediam chucrutes, meu pai era que tinha que colocar ordem no pedaço.
Ela cuidava das coisas dele, das minhas, de
ninguém mais. Os dois disseram que
acabaram casando cedo por culpa dela, assim arrumavam alguém cuidasse deles.
Eu não podia falar nada, pois ainda tinha
paciência de se sentar comigo, para me ensinar matemática, que não era meu
forte, mas o fazia de uma maneira que eu entendia.
Assim pelo menos tinha boas notas, nas
nunca suficiente para uma bolsa de estudos.
Ela acabou a escola, foi trabalhar numa
loja, fazia a contabilidade da mesma, tinha aprendido com a minha mãe, a fazer
a da família.
Ainda cozinhava, cuidava da casa. Hans e Franz, foram logo para a academia de
polícia, assim tinham emprego, se casaram foram embora de casa.
Só ficamos os três, ainda me perguntou se
eu queria mudar de quarto, pois o meu era o menor da casa, riu quando eu disse,
que o quarto estaria eternamente impregnado do cheiro de chucrutes, pelo peidos
dos dois.
Estava era acostumado com meu quarto, era
perfeito para mim, como não era grande como eles, tudo estava a minha medida.
Houve uma época que comecei a crescer, mas
foi como uma balela, não fui muito além.
Mas tampouco levava nenhum desaforo para
casa, tinha um na escola, que estava sempre me provocando, era alto como meus
irmãos, branco como eu, loiro, tinha uma cara bonita, um dia começou a me
encher o saco, me roubou a merenda, lhe dei um soco no nariz, que acabou com
sua beleza, ficou ali sentado no chão, sangrando, ao mesmo tempo assustado, sem
entender o que tinha passado. Era
sobrinho do diretor da escola, que viu tudo pela janela, esse vivia lhe dizendo
que não se aproveitasse dos outros por ser grande.
Ficou mais supresso ainda, quando tirei do
meu bolso um lenço, limpíssimo, coisas da minha irmã Marie, depois ia querer
saber por que o mesmo estava sujo de sangue.
Arno, foi o primeiro amigo que tive, passou
a se sentar na carteira ao meu lado, pois eu lhe ensinava a entender o que não
sabia.
Disse a minha irmã, ele vivia perto, que
ela podia deixar, ele ia comigo, depois vinha me trazer.
Apesar do tamanho dele, odiava os esportes,
nunca lhe interessavam, o que gostava mesmo era de desenhar, tenho até hoje um
retrato meu, feito por ele.
Seu pai, era um homem duro, volta e meia,
ele vinha as aulas de camisa de manga comprida, sinal de que o pai o tinha lhe
dado uma surra.
Eu tampouco gostava de esportes como os
outros, descobri as barras paralelas, na aula de ginastica, o professor, só
tinha alunas nessa classe, eu me inscrevi, ele me dava aulas a parte, o Arno se
apontou, acabou emagrecendo por causa disso, tendo uma bela musculatura.
O professor, nos levou ao seu club, aonde
podíamos fazer natação, aí o Arno encontrou seu elemento.
Um dia tomando banho, o vi me olhando, riu
dizendo para quem era pequeno como eu, tinha um piru maior que o dele. Veio até mim, colocou o meu ao lado do seu,
fiquei de piru duro na hora.
Ele se matava de rir, dizia não seja sem
vergonha.
Um dia seu pai lhe deu uma surra
monumental, foi parar no hospital, ele não tinha mãe, o serviço social, tomou
conta dele.
O professor de ginastica, era casado sem
filhos, o adotou, para ele, foi como estar no paraíso, pois finalmente tinha
uma família.
No último ano, deixamos de estar juntos,
pois o professor foi para Munich, transferido, perdi meu amigo.
O problema era, não tinha notas para me
candidatar a uma bolsa de estudos, tampouco dinheiro para ir à universidade,
parei para pensar, minha irmã Marie, chegou em casa me viu sentando na poltrona
de meu pai, com o olhar perdido.
Me perguntou o que se passava, mostrei para
ela meu boletim, minhas notas eram boas, mas segundo os professores, não podiam
me indicar para uma bolsa de estudos.
Eu argumentei com ela, que na verdade, não
saberia dizer o que gostaria de estudar, o máximo seria estudar direito, mas
escutava meu pai sempre falando dos advogados, os chamava de praga, pois
estavam sempre defendendo os bandidos, isso eu não queria para mim.
Mas pode seguir outra coisa, me soltou,
fazer direito, entrar na carreira para ser um juiz.
Se sentou com o resto da família, para ver
como fazíamos.
Claro os dois mais velhos, tinham família,
nunca tinha colaborado em nada na casa, não ia ser agora.
Chegamos à conclusão que não havia jeito,
meu pai ainda tentou com seus conhecidos, mas foi Hans meu irmão mais velho que
disse que eu devia era entrar para a academia de polícia, ou para o
exército. Nunca vamos para uma guerra
mesmo, assim que entras tem direito a um salário, depois se fores bem, pode
fazer um curso para entrar para a polícia, entras por cima.
Fui me inscrever, pois meu pai não
queria. Estava esperando que abrisse o
escritório, dois tipos começaram a brigar por qualquer motivo, me deram um
empurrão, eu os coloquei em ordem, era magro, mas tinha uma força
impressionante.
Não vi que um homem me olhava de longe,
quando o que fazia as inscrições, chegou, esse homem falou com ele, que ficou
rindo, me olhou, mas fez caso a este, pegou meu papel, preenchido, me levou a
falar com esse homem.
Leu o que eu tinha escrito, me perguntou
aonde eu tinha aprendido a colocar ordem, a lutar.
Ri, dizendo que por causa dos meus irmãos,
o bullying na escola, por ser mais baixo que a maioria, aprendi a me defender.
Ele me colocou para servir com a policia
militar, era interessante, pois todos eram altos, fortes, o único baixinho era
eu. Dois tentaram se fazer de
engraçadinhos, numa aula de luta livre, quando o professor, me mandou lutar com
um deles, que era enorme, esse riu, dizendo que se ele o que queria era que
matasse o franguinho.
Acabou que o derrotei, lhe disse baixinho,
agora esse galinho vai comer teu cu.
Ficou me olhando sério, pois estava
sentindo o meu volume na sua bunda.
Dias depois, depois de ter me visto no
banho, num final de semana que tínhamos livres, eu fiquei para estudar para
fazer uma prova, ele também, com a desculpa que não entendia as leis que tínhamos
que saber para a prova, acabamos na cama, ele gemia baixinho no meu ouvido,
eres o homem da minha vida, me disse.
Ele apesar de ser imenso, tinha um piru
normal, o que lhe incomodava.
Depois quando começamos a trabalhar em
dupla, ele sempre se encaixava comigo, nem sei como conseguia isso, mas ao
menor descuido, estava com sua mão em cima da preciosidade como ele chamava o
meu piru.
Estar ali, me permitiu fazer um curso
complementar, nem sei se existe hoje, estudar as leis, saber funcionar dentro
delas, nos controles, tudo isso.
Eu tirava a nota máxima, o mesmo homem que
tinha me observado, um dia me chamou, perguntou se eu queria estudar direito,
podiam me dar uma bolsa de estudos.
Eu lhe disse que tinha pensado no assunto,
mas não pensava em ser um advogado para defender bandidos, depois sabia que a
carreira, para ser fiscal, depois juiz, era muito longa, eu tinha que me
manter.
Isso lá é verdade, mas siga com o que
fazes, pois depois podes ir para a academia de polícia, para ser inspector.
Eu seguia andando com Axel, as vezes nos
dias livres, íamos dormir num hotel, mas foi perdendo a graça, pois apesar do
tamanho, o que ele queria era o meu.
Nessa época seu pai morreu, ele deixou tudo
para ir cuidar das terras que o mesmo tinha, quase na fronteira com Holanda.
Eu fiquei para trás, vamos dizer assim,
acabei de cumprir o serviço militar, como tenente, o chefe mandou me chamar,
tinha com ele, um oficial da polícia, fardado, cheio de condecorações.
Soltou que o tinha encontrado, numa coisa
do governo, falou de mim, esse acabou me dando um cartão, que eu fosse a
academia de polícia, me apresentasse a um homem chamado Dolf.
Foi o que fiz, antes de ir para casa.
Ele me deu um prazo, lhe disse que fazia
tempo que não estava com meu pai, ele o conhecia.
Fiquei em casa quinze dias, com o velho,
tinha se aposentado, mas não estava bem, bebia demais, eu nunca passava da
primeira cerveja, odiava ficar bêbado, ou a famosa ressaca.
Tinha tido uma experiencia com Arno, que
quando bebia muito, me dava uns beijos cheio de baba, cheirava mal, no dia
seguinte mal podia se mover.
Passei a detestar isso.
Fui com ele ao médico, pois o achava
descaído, entendia também, que ele nunca tinha pensado em se aposentar, pensava
que morreria em serviço, que teria um enterro, cheio de gloria, que seria
honrado, essas coisas que nos metem na cabeça.
Falei com os meus irmãos, mas a não ser
Marie que aguentava o velho, eles estavam mais preocupados com suas família, um
salario que não era uma maravilha para sustentar tantos filhos.
Agora estava mais perto de casa, vinha
sempre que podia, o tirava de casa para irmos a algum parque, ele logo
perguntava se não podíamos tomar uma cerveja, pois a Marie não o permitia em
casa.
O fazia caminhar, pois estava ficando cada
vez mais gordo.
Um dia saindo escondido para ir ao bar da
esquina, escorregou na escada, acabou tendo um enfarte, morreu, sem pena, nem
gloria como ele sonhava.
Foi um enterro familiar, o enterramos ao
lado das suas duas mulheres.
Os putos dos meus irmãos, nem sabiam aonde
estavam enterradas, Marie dizia, com eles não se podem contar, vivem num mundo
à parte.
Eu me saia bem no curso, tinha aproveitado
bem o que o exercito tinha me dado, a atirar, tinha estudado as leis com
profundidade, então me saia bem.
Fui logo que sai para uma delegacia
conflitiva, aonde trabalhava meu irmão mais velho, sem querer era inspector,
ele um simples policial, isso lhe caiu muito mal.
Um dia me jogou na cara isso, lhe disse que
tinha sido ele mesmo que tinha me dito para fazer o que tinha feito, esse
caminho.
Mas não que viesses aqui me dar ordens, ser
meu superior.
Falava mal de mim para todo mundo.
Um dia descobri que protegia um traficante,
antes de mais nada fui falar com ele, mas fora de serviço, fui a sua casa, era
como a Marie dizia, cheirava a chucrutes, prato preferido dele.
Tinha cinco filhos, sua mulher trabalhava
para fora, fazendo limpeza, pois sustentar cinco era difícil.
Me sentei com ele numa praça, comentei com
ele o que tinha descoberto. Ficou uma
fera, lhe disse que tinha que se livrar disso, porque se alguém mais sabe,
estas ferrado, nunca deixaras de ser um guarda de rua, como acha que tua mulher
poderá criar teus filhos se perdes o emprego.
Creio que devia ter deixado que desse com
os burros n’água, pois ao invés de me escutar, tomou isso muito mal.
Comentei com a Marie, essa depois de uma
certa idade, tinha se casado com um dos chefes de aonde trabalhava, mas não
ficava gravida de maneira nenhuma.
Um belo dia a bomba estourou, eu nem estava
de serviço, o pegaram em fragrante, ou melhor com a mão na massa, recebendo
dinheiro de um traficante.
O colocaram na rua, sem direito a nada, foi
um deus nos acudam, ele pensava que tinha sido eu, mas justo estava gozando uns
quantos dias livres que tinha, tinha ido conhecer um lugar mítico para mim,
Paris.
Quando voltei, a coisa já tinha acontecido,
tive que aguentar suas acusações. Com
raiva me pegou pelo colarinho, o fiz tirar as mãos de cima de mim.
Eu te avisei, mas achastes que nada ia
acontecer, posso até descobrir quem te denunciou, mas a culpa é toda tua.
Ele teve que ir trabalhar em obras, o
traficante lhe ajudou nisso.
Mas claro com tantos filhos era duro
demais, a Marie fez uma coisa, como ele tinha duas garotas, as duas últimas, se
propôs ficar com elas, mas exigiu uma coisa, adoção plena, nada de cuidar, que
amanhã ele viesse recuperar, com ele nunca se sabia.
Soltou na cara dela, que dava graças a
deus, pois as mulheres só serviam para atrapalhar.
O dura foi convencer sua mulher, mas afinal
viu que era o melhor para as meninas, já davam trabalho os três maiores.
Nessa época, o marido da Marie, foi
transferido, sua empresa mudava-se para Frankfurt, foi o melhor, assim estava
longe do resto da família.
Eu por culpa dele, passei a ser observado, o
chefe veio falar comigo, pois de alguma maneira sabia que eu o tinha avisado.
Fui honesto, pedi pelo amor de deus que ele
pensasse em seus filhos, mas como em seguida fui de férias, afinal ele tinha
que pensar.
Me soltou outra bomba, desconfiavam do meu
outro irmão.
Eu no fundo, fiquei preocupado, falei com
Marie, ela disse que falaria ela mesma com ele, assim se tem o exemplo do outro,
pode ser que atenda.
Mas esse saiu rápido da polícia, foi para
Hanover, trabalhar lá, nunca mais soube dele.
Eu escutei falar de uma vaga na policia de
Munich, resolvi tentar, saia assim dos focos, pois imaginava que lá estariam
agora me observando, pois afinal os dois eram meus irmãos.
Foram os melhores 15 anos de minha vida, de
uma certa maneira, fui fazendo um trabalho sério, logo era inspector chefe,
levava um grupo muito bom.
Erámos considerados, por duas vezes me
chamaram para ir para outro lugar, um seria Frankfurt, até fui para a
entrevista, estive com minha irmã, as filhas do Hans foi que não gostaram muito
de me ver, me consideravam culpado do que tinha acontecido com o pai, pois meu
irmão acabou sozinho, sua mulher pediu o divórcio, foi para outro lugar, com os
filhos, ele ficou sozinho, como sempre bebendo muito.
Pensei bem, era para um cargo muito
conflitivo, resolvi não aceitar.
O outro nem fui a entrevista, conversei com
meu grupo, pedi que fizessem uma avaliação ao meu respeito, se queria que eu
ficasse.
Nos dois últimos anos, estavam ao meu lado
sempre, pois tinha que trabalhar na delegacia, descobri sem querer fazendo um
exame anual, que tinha câncer, foi uma paulada, me operaram em seguida, comecei
com rádio e quimioterapia, todos me apoiaram, nos dias de recuperação do
hospital, estavam sempre algum deles presente.
Perdi todos os cabelos vermelhos, diziam
que já não podiam fazer gozação comigo.
Quando voltei a trabalhar antes do tempo, o
jeito foi ficar na minha sala, os ajudando com os relatórios, analisar casos
complicados.
Ao mando deles, coloquei o que era meu
braço direito.
Era um grande amigo, sempre me perguntava por
que estava sozinho, era uma verdade, não podia contar que tinha reencontrado o
Arno, ele tinha seguido a carreira de seu pai adotivo.
Era professor numa das melhores escolas de
lá, o encontrei na rua por um acaso, quem me reconheceu foi ele.
Estava diferente, muito musculoso, dizia
que era pelos exercícios, era professor de educação física, tinha se casado,
tinha duas crianças.
Meses depois apareceu no pequeno
apartamento que eu vivia, disse que não podia me tirar da cabeça, começamos
outra vez, mas eu ficava nervoso, pois sabia que ele era casado, estava sozinho
de qualquer jeito, de um ponto de vista era bom, pois não tinha compromisso.
Se ele tinha tempo livre, aparecia, me
chamava antes, se eu estava no meio de um trabalho lhe dizia que não podia.
Já estávamos juntos a uns cinco anos,
quando descobri indo atender um caso, que ele quando lhe dizia que não podia,
tinha outro amante, levei uma porrada.
Disse na minha cara que precisava muito de
sexo, para se desafogar, por uma vida que não gostava, tinha se tornado
professor de educação física, por causa do pai.
Queria fazer outra coisa, belas artes, me
contou que seguia desenhando como sempre.
Nem sei como foi, a bomba estourou por
causa de seu outro amante, um professor, se descobriu que o mesmo estava no
meio de grupo Neonazi, a merda fedeu.
Sua mulher o deixou, seu pai adotivo, ficou
super ofendido. Ele largou tudo, voltou
para Berlin, queria ser artista. A única
coisa que me falou, foi que eu sempre tinha sido o melhor em sua vida.
A partir desse momento, tinha alguns
encontros tipo uma noite, quanto muito uma semana, mas nunca com companheiros,
não queria misturar as estações.
Quando terminei o tratamento, depois de
exaustivos exames, agora todos os anos os teria que fazer. Quando meu cabelo começou a crescer
novamente, só acontecia na parte detrás da cabeça, segui levando a cabeça
raspada.
Nunca mais poderia ir tomar sol, teria que
fazer sempre exames das minhas sardas, para saber se nenhuma delas crescia
demais, pois podia ter câncer de pele.
Foi quando me chamaram para ir outra vez
para Berlin.
Mas ia como chefe de uma delegacia era uma
promoção, pelos meus anos de serviço, antes fui visitar minha irmã, as meninas
não estavam mais com ela, as duas tinham feito universidade, não voltaram, de
uma certa maneira, nunca perdoaram por a ter afastado de sua mãe e seus irmãos,
seguiam idolatrando o pai, mal sabia que não as queria.
Marie agora viúva, dizia que seguia
trabalhando, porque gostava disso, acho que os dois saímos diferentes do resto
da família.
Eu fiz por elas o que achei melhor, mas
talvez por serem complicadas, muitas vezes tive que ter mãos dura com as duas,
ria muito dizendo que tinha no sangue os genes do pai, queriam a coisa fácil,
isso nós dois nunca tivemos, verdade?
Eu tinha que concordar, pois os dois sempre
foram egoístas, em casa tudo primeiro era para eles.
Além é claro das brincadeiras brutas que
tinham conosco, enquanto minha mãe foi viva, os colocava na ordem, mas depois, mal
obedeciam o velho, quando começaram a trabalhar, caíram fora de casa, para
serem livres.
Quem os escutavam falando, era como se
fossem ser os reis do mambo da Alemanha.
Segundo Marie, Hans seguia trabalhando em
Berlin, mas o que fazia, nem tinha ideia.
Elas quando foram estudar lá, imaginaram
que as receberia em sua casa, mas deram com os burros n’água, quem as acolheu
foi a mãe delas.
Marie quando tinha colocado a casa dos
nossos pais a venda, para repartir o dinheiro, foi um deus nos acudam, os dois
achavam como tinham filhos, que deviam ser para eles.
Ela acabou concordando, eu também abri mão
da venda da casas, assinamos papeis, ficou por isso mesmo.
Nesse primeiro dia, fiquei parado diante da
casa, caia aos pedaços, estava mal cuidada, uma vizinha da frente ficou ali me
olhando.
Disse que se lembrava de mim, me contou
quem vivia lá era o Hans, volta e meia a polícia aparece por aqui.
No dia seguinte fui para minha nova
delegacia, era do outro lado da cidade, com relação aonde vivíamos antes. Tinha conseguido um apartamento pequeno, para
os primeiros meses, depois procuraria algum outro.
Fui trabalhar, com meu uniforme como diziam
meus homens, eu tinha uma série de ternos, todos formais, cinzas, negros e azul,
mas o que completava meu uniforme, era que sempre tinha comigo um impermeável, que
no inverno me servia que casaco, o de verão era mais claro, o de inverno era um
negro, que tinha comprado nas minhas férias em Paris, faziam gozação comigo,
pois todos os anos nas férias ia para Paris, adorava, já não ia aos lugares
turísticos, mas sim ao desconhecido da cidade.
Mitte era uma das partes modernas da
cidade, uma mistura, edifícios novos, misturados com velhos, alguns
restaurados, outros caindo aos pedaços.
A delegacia, estava justamente nessa parte, aonde o moderno não tinha
chegado ainda. Precisava de melhorar
tudo.
Começou a minha batalha, os policiais era
um pouco relapsos, quando me viram devem ter pensado, com esse vai ser fácil,
olha como é baixinho.
Mas, com jeito, ou até mesmo com broncas
imensas, fui colocando ordem no lugar, eu tinha aceitado, desde que me dessem
carta branca para trabalhar, então o chefe de policia sabia o que estava fazendo,
ele queria que a delegacia fosse como a que eu tinha em Munich.
Levei dois anos só nisso, mandando para
outro lugar os relapsos, ou mesmo para a rua, o que pegava fazendo coisas
erradas.
Ficavam furiosos, mesmo os inspectores,
pois eu fazia passar pela minha mesa, todos os casos, para analisar, sem querer
os comecei a ajudar a ter outro ponto de vista.
Alguns ao principio não gostaram, mas
depois viram que eu estudava o caso com eles, lado a lado, nada de impor minha ideia,
simplesmente argumentava.
Nesse dois anos, tive férias mais curtas.
Um dia me avisaram que Hans estava preso,
vendia drogas na esquina de uma escola, foi logo dizendo que se sabiam quem ele
era, eu sou irmão do chefe de vocês.
Só por isso, o mantive mais de uma semana
preso.
Não fui nenhum dia olhar, ou falar com ele.
Quando foi a julgamento, já sabia que o
truque de dizer que era meu irmão não valia, teria que fazer meses de trabalho
comunitário.
A única coisa que aconteceu, foi suas
filhas virem falar comigo, as recebi na minha sala, estranharam, imaginaram que
era uma super sala, ali tudo era velho, simples.
A não ser um desenho do Arno que eu tinha
na parede.
Eu não dizia a ninguém, mas era para mim
como um aviso, nunca se meter com quem não devia.
Queriam que eu usasse minha influência para
tirar essa pena do pai delas.
Só
fiz uma pergunta, vocês já olharam o pai de vocês como é na realidade, ele
estava vendendo drogas na porta de uma escola, perguntei se tinham filhos.
Imaginem que o filhos de vocês estudem lá,
como ia, ser, iam agradecer dele dar um desconto nas drogas que ia vender para
eles.
Ora não me façam perder o tempo, eu por
mim, ele iria preso por um bom tempo, embora saiba que se um cai, logo tem
outro vendendo drogas por lá, mas estamos vigiando.
Mais alguma coisa?
Se levantaram foram embora, como prima
donas, infelizmente creio que nem são casadas, pois são feias.
Depois conversando com a Marie, nos papos
semanais que tínhamos por telefone, uma delas trabalhava nessa escola.
Nessa nova leva de policiais que fui
trocando, apareceu um inspector que vinha de Hamburgo, era descendente de
turcos, tinha ido para lá, me contou na nossa conversa, porque era dali de
Berlin, para se afastar de seus parentes turcos, pois os mesmos achavam que ele
ia resolver tudo para eles.
Família sabes como é?
Lhe respondi que sim, entendia seu
problema, também tinha passado 15 anos fora por isso, mas nem assim me livrei.
Contei do meu irmão, das sobrinhas, que
nunca aceitavam qualquer coisa contra o pai, uma delas inclusive trabalha nessa
escola.
Ele acabou sendo um dos melhores inspetores
dali, Ben Kalji, na verdade se chamava Benjamin, mas preferia ser chamado Ben.
Um dia me convidou para tomar uma cerveja,
depois de termos revisado um caso, descobrimos que vivíamos perto um do outro.
Acabamos na cama, ele era o extremo oposto
de mim, eu tinha pouco pelo no corpo, ele ao contrário era peludo, o chamava de
urso. Mas nos demos bem, agora já
vivemos juntos, ele diz que eu sei realmente dirigir uma delegacia, ali ninguém
faz corpo mole.
Ninguém desconfia que temos um romance,
embora ele viva na sua casa, dorme na minha.
Espero que ele nunca me decepcione, como
meus irmãos, alguns antigos companheiros. A pouco tempo reencontrei o Arno, sua
carreira não deu certo, como ele me disse, igual a ele, existem muitos, ele
tinha perdido toda sua juventude.
Vivia com um velho, que o sustentava, o
reencontrei justamente porque os parentes do velho o denunciaram que estava com
seu tio pelo dinheiro.
Isso ele não negava, o homem até era muito
bem humorado. Esses meus sobrinhos, um
velho como eu, nunca poderia ter uma homem que me amasse, com todas essas
arrugas.
Mas vi uma coisa, Arno, realmente cuidava
dele, o tratava bem, todo o tempo que nos atenderam, estavam os dois de mãos
dadas.
O homem me disse que não se preocupasse,
chamou seu advogado, na nossa frente, disse ao mesmo que cortasse a mesada dos
seus sobrinhos, eles que fossem trabalhar.
Dois dias depois Arno me chamou, disse que
passariam uma temporada fora, pois os sobrinhos tinham recebido a ordem do tio,
muito mal.
Dois anos depois recebi um convite, os dois
se casavam, claro que não fui, mas me encontrei com os dois num restaurante,
Arno foi honesto, aprendi a amar esse homem, ele me aceita como sou, sabe que
nunca serei um grande artista, mas isso não lhe importa.
Quando o velho morreu, ele chamou a
polícia, bem como os médicos. Tinha medo
de que os sobrinhos, o ameaçassem de ter envenenado o marido.
Foi inocentado de tudo, o velho era
esperto, deixou uma parte para os sobrinhos, mas o grosso, principalmente fora
do País, deixou para o Arno.
Ele vendeu tudo que lhe tocou em Berlin,
foi viver na Grécia, aonde os dois passavam férias.
Se despediu de mim, nesse dia estava com
Ben, ele diretamente disse, cuide desse homem, pois ele vale a pena.
Tinha contado para o Ben, desde a primeira
vez, como conhecia o Arno, ele ria, o que ele gostava agora é meu.
Estou pensando em me aposentar, conversamos
muito a respeito, eu por mim iria viver em Paris, ou no sul da França, que
acabei descobrindo por causa dele, adora uma praia.
Eu fico na sombra, ou então descobrimos um
lugar seguro para tomar banho no final do dia, sem muito sol.
Sigo me cuidando, com meus exames anuais,
embora o médico diga que não necessito.
Se eu tivesse cor, bem podia passar por um
turco.
O sigo amando como no primeiro dia, acho
que ele também, algumas vezes quando estamos na praia, recebemos cantadas, pois
estamos em formas.
Ele solta na maior, nenhum de vocês, tem o
que ele tem no meio das penas, nem na cabeça, caiam fora.
Diz isso as gargalhadas.
Desta vez, estamos procurando um pequeno
apartamento, ou uma casa, perto da praia, nada de coisas grandes como gostam os
aposentados, queremos seguir sendo simples.
Quanto menos trabalho para cuidar melhor
segundo ele.
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