DINORAH
Assim se chamava minha mãe, Dinorah Canto
Melo, era uma mulher lindíssima, feita a si mesma, saiu de Belford Roxo, na
baixada fluminense como se dizia. Era
filha de uma mãe de santo, que todo mundo estranhava, pois era loira de olhos
azuis, ninguém sabia como tinha ido parar lá.
Minha avó, Basílica, ela odiava o nome, era
conhecida como Mãe Zica de Oxumaré, seu centro de candomblé ou tenda de
candomblé, era conhecidíssimo na baixada.
Na verdade minha mãe era filha de uma irmã
sua com um estrangeiro, um dia apareceu por lá gravida, com uma barriga imensa,
ficou até parir, Mãe Zica já tinha visto no jogo de búzios que ela ia dar no
pé.
A encostou na parede, se vais embora, me dê
sua filha em adoção, mas tem uma coisa, nunca mais apareça por aqui.
Tinha uma auxiliar do juiz, que devia
milhões de favores a Mãe Zica, a registraram como sua filha direto, coisas do
Brasil como ela dizia.
A cuidou como sua filha, embora soubesse
que nunca seria filha de santo, Dinorah, não gostava, nos dias de festa
aparecia, era o centro das atenções como ela gostava, pois era linda.
Mas Mãe Zica colocava em ordem o pedaço,
quando ficou mais velha para ir a escola, antes da universidade, Mãe Zica um
dia se arrumou toda, chamou seu Zé, que era filho de santo dela, mais bem Ogan
de Oxumaré, tinha um carro, ele era taxista.
Levou Mãe Zica, numa escola, achou estranho
porque era de freiras, a fina flor da sociedade, as filhas ou ficavam internas,
ou ficavam o dia inteiro por lá.
Mais susto levou, quando uma freira, veio
abraçar e beija-la, soltando que saudade minha filha.
Depois, ela apresentou Dinorah. Levava poucas roupas, mas ali todas andavam
de uniforme o dia inteiro.
Voltaram só os dois no carro, Zé morria de
curiosidade, ia soltar uma pergunta, ela avisou, olha garoto, de curioso o gato
perdeu o rabo, melhor não saber de nada, assim não tens fofocas para contar.
Ele a conhecia bem, era dura na queda,
quando alguém se metia a besta com ela, colocava a pessoa direitinho no seu
lugar. Dizia sempre, as águas sempre
correm embaixo da ponte, sempre tem alguém para falar, esquecendo que a língua
é o chicote do rabo.
Dito e feito, falavam, mas depois corriam
para ela ajeitar a situação.
Minha mãe ia a cada 15 dias passar o final
de semana com sua tia, não sabia que não era filha dela verdadeira.
Seu Zé a ia buscar, depois no domingo a
tarde ia com as duas outras vez ao colégio.
Ele se matava de rir, pois Mãe Zica ia
conversando com ela em francês, depois dizia eu sempre desconfiei que a senhora
era estrangeira.
Ela ia era escutando a mesma cantilena, que
devia estudar para ser alguém na vida, não te quero vivendo na baixada como eu,
não tive opção, os santos me escolheram para essa vida, mas teus santos são só
para te protegerem.
Dinorah quando entrou para a Puc, aonde iam
os filhos de grã finos, claro que tinha a mão da madre superiora, bem como de
Mãe Zica na história.
Mas foi avisada, nada de dar sopa para
esses garotos burros, filhinhos de papai, mas idiotas.
Isso Dinorah tirou de letra, era isso sim
muito bonita, sabia se vestir, se comportar numa mesa fina, já falava
corretamente pelo menos duas línguas, além do latim e claro.
Talvez por causa de Mãe Zica, tinha
aprendido o que era certo ou errado.
Justo antes de entrar, sua mãe verdadeira
apareceu, foi quando descobriu a história, vinha cheia de trinques, tinha se
casado com um estrangeiro rico, vinha buscar a filha.
Levou um balde de água fria na cara.
Mãe Zica, lhe soltou na cara, para quem foi
puta, até que conseguiste um idiota para viver.
Estava casada com um italiano que tinha
conhecido na praia em Copacabana.
O coitado fazia qualquer coisa por ela.
Ela se sentou com minha mãe, contou a
verdade, ela apareceu aqui com uma barriga imensa, primeiro queria que eu te
tirasse, ou seja provocar um aborto, mas meu pai ficou furioso, o meu pai era
Oxumaré, acabou te parindo aqui, sabia que ia desaparecer, a obriguei a te dar
em adoção, por isso eres minha filha, sempre te quis assim.
Dinorah não era tonta, via aquela mulher
ainda com certa beleza, mas com uma maquilagem pesada, as roupas apesar de
caras, vulgares, quando falava era um tanto grossa.
Disse simplesmente que agora era tarde, sua
mãe sempre seria Mãe Zica, nada de sentimento de culpas, pedir perdão, que ela
não tinha tempo para isso.
Mãe Zica claro, via quem estava do lado
dela, era um exu dos bravos, pois colocou a mesma para correr, entendeu o que
queria a filha bonita para explorar.
Minha mãe ficou mais um tempo no terreiro,
precisava ajeitar sua cabeça, de um lado pesava que Mãe Zica tinha sido uma mãe
perfeita para ela, de outro, lhe chocava a vulgaridade da outra.
Mãe Zica lhe explicou que elas só eram
irmãs por parte de pai, a mãe dela verdadeira, tinha morrido, quando seu pai se
ajuntou com outra, já era sua amante antes.
Eu vim aqui, falar com o Pai de Santo desse
terreiro, acabei ficando, encontrei meu lugar, não queria acabar como ela.
Quem a levou para esse tipo de vida, foi
sua própria mãe, eu não queria para mim, tampouco quero para ti, pois o que ela
quer no fundo é isso, te explorar.
Minha mãe, foi para a faculdade, mas logo
chegou em casa, soltou, que o curso não lhe interessava, queria alguma coisa a
mais, que vou fazer com um curso de línguas, ser professora desses idiotas que
são meus companheiros.
Mudou de curso, foi estudar direito, mas
não com o intuito de ser advogada, mas sim seguir uma carreira.
Mãe Zica se espantou, pois ela, passou a
estudar no centro da cidade, ia todo os dias de ônibus desde Belford Roxo, ninguém
se atrevia a mexer com ela, logo algum soltava, é a filha de Mãe Zica.
Sabia se arrumar, no primeiro estágio, por
suas notas, foi fazer práticas num escritório muito importante, mas sabia que
por detrás de toda a aparência, as coisas não eram nada do que pareciam. Defendiam muito bandido do colarinho branco,
como se dizia, políticos, homens de negócios com muito dinheiro, essas coisas.
Esses homens quando a viam, ficavam
babando, a convidavam para almoçar, jantar, mas aí aprendeu a usar o que tinha
aprendido a ser na escola das freiras, educada, sempre escapava, ia até a
Primeiro de Março, pegava seu ônibus para Belford Roxo.
Quando acabou o curso, foi trabalhar no
fórum, era discreta, eficiente, falavam dela, por ser educada, algumas diziam
por detrás que ela tinha rabo preso, que devia ser amante de algum juiz.
Talvez por isso, seus trabalhos eram
perfeitos, não havia reclamação, fazia curso para ser fiscal, dava um duro
desgraçado, tinha pensado em conseguir um apartamento ali no centro mesmo,
talvez na Men de Sá.
Mãe Zica veio com ela, levadas pelo seu Zé
é claro. Encontrou um bom, num edifício
novo, construído claro em cima de algum muito antigo. No que olhava o apartamento, deram de cara
com uma senhora, bem arrumada, maquilada, era cliente, do terreiro.
Nem olhe esse minha filha, aqui nesse
edifício só vivem putas, garotas de programas.
Perguntou a Mãe Zica se tinha tempo, seu Zé
conhecia a mulher, os levou até Botafogo, ela lhe mostrou um apartamento, um
studio na verdade, disse que ali tinha vivido até pouco tempo, sua filha, a
senhora se lembra dela Mãe Zica, fui lá por causa dela, pois ao descobrir que
eu cuidava de putas, a mesma se meteu em muitas merdas.
Mandei reformar o mesmo, pois morreu aqui,
tomando drogas.
O lugar era perfeito, por perto tinha de
tudo, inclusive, ela podia ir de Metro, para o trabalho.
Passou a viver sozinha, mas falava todos os
dias com sua mãe, acabou sendo aprovada no curso que fazia para Fiscal, com
boas notas, logo passou a ser auxiliar, de um que faltava pouco para se
aposentar. Ela ia trabalhar, bem
vestida, aprendeu a usar os cabelos num coque, usar roupas simples, nada de
chegar à sala de um julgamento, chamando atenção, inclusive usava um óculos
para parecer mais séria.
Ele dizia rindo, teu disfarce não esconde a
mulher linda que es, se eu fosse jovem, solteiro, me casava contigo.
Ela as vezes ficava cansada das cantadas
que levava dos advogados, os chamava todos de mequetrefe.
Apresentava os trabalhos para seu chefe,
nunca perder o julgamento.
As vezes ficava furiosa, pois lhe ofereciam
dinheiro para facilitar as coisas, primeiro se fazia de ofendida, se insistiam,
parava os pés do advogado, posso sugerir ao fiscal, que peça uma pena maior
para seu cliente.
Quando esse fiscal se aposentou, disse que
ia sentir falta dela, tinha alegrado seus dias ali, agora teria que aguentar a
jararaca da sua mulher, que passava o dia sem fazer nada.
Ele pensava em abrir um pequeno escritório
ali na cidade.
Um dia a convidou para almoçar, estranhou,
pois ele era sempre muito reservado, apresentou para ela, os papeis de seu divórcio,
o duro foi descobrir que todos esses anos eu dando um duro desgraçado, a
sirigaita tinha amantes, foi fácil, assim nem pagar pensão tenho que pagar.
Apesar de nossa diferença de idade,
gostaria de sair contigo, se quiseres casar comigo, tudo bem.
Ela o convidou para conhecer sua família, ele
levou o maior susto, agora ela tinha um carro, um Volkswagen de segunda mão,
quem conseguiu para ela foi o seu Zé.
Quando ela chegou lá, com aquele senhor bem
vestido, ele tinha a boca aberta, o apresentou a mãe Zica, minha mãe,
apresentou o seu Zé, que ela tinha como se fosse seu tio.
Se eles te aprovam tudo bem, mas claro
antes tens que passar pelo crivo do Oxumaré.
Ele se matava de rir, eu que por culpa de
minha família sempre fui Católico, apostólico Romano, agora estou aqui numa
casa de santo.
Ele foi claro com Mãe Zica, olha sua
menina, todo esse tempo trabalhando para mim, eu podia ter tentado alguma
coisa, mas era casado, é uma moça de bem, sei que estudou duro para chegar
aonde está, claro como é bonita todos falam dela, mas não sabem como é
inteligente.
Ele na verdade tinha uma estampa
impressionante, Mãe Zica, se sentou para jogar búzios para ele, ficou com a
boca aberta, quando ela começou a falar de sua família, da mulher com quem
tinha se casado, mais por pressão da mãe dele.
Cuidado as duas são coniventes, ela sabe
segredos de sua mãe, ainda pode causar problemas.
Pode dizer ou apresentar alguma coisa,
dizendo que minha filha, já era sua amante nessa época.
Se estás disposto a tudo isso, eu ajudo.
Os dois começaram a sair discretamente,
para jantar, um almoço no final de semana, Dinorah contou para ele sua
história, não queria que ele fosse enganado.
Ele achou isso dela, o máximo.
O melhor foi quando a apresentou a sua
família, a sogra não gostou dela imediatamente, mas se deu mal, pois ele
convidou seus pais, para um almoço, queria que conhecessem Mãe Zica.
Ela foi, se apresentou com um tailleur
estilo Chanel, que uma de suas filhas de santo, costureira fez a partir de uma
fotografia de revista, se arrumou toda, o mais interessante foi que seu Zé,
arrumou um carro impressionante, ia como se fosse o chofer.
Mas levou um susto, aquele mulato sarará,
foi arrastado pela Dinorah, bem com seu noivo, o doutor Jarbas Alvarenga, sendo
apresentado como tio da noiva.
Os pais dele olhavam a noiva, muito mais
jovem do que ele, quando perguntou a Mãe Zica seu nome, ela respondeu Basílica
Canto Melo, disse o nome de seu pai e de seu avô.
Eles tinham na cidade negócios, lojas, mas
foram todas perdidas pela sua segunda mulher.
Eu para que o senhor saiba aonde pisa, sou
conhecida como Mãe Zica, são mãe de santo, sou filha de Oxumaré.
A cara da sogra era ótima, de boca aberta, aliás
os dois.
Dinorah como era, depois me contaria essa
história mil vezes, esse é meu tio Zé, Ogan de Oxumaré, pau para toda obra no
terreiro de minha mãe.
Mas levaram um chasco, pois o restaurante
era fino, as duas se comportavam melhor que a mãe dele, o velho se espantou que
Mãe Zica, falasse de vinhos franceses, soltou logo que tinha sido educada no
colégio Sacre Couer, bem como minha filha.
A cara do homem era ótima, sua mãe parecia
ter chupado um limão azedo.
O senhor conhece Dinorah muito bem, verdade
senhor José?
Conheço essa menina desde que nasceu,
sempre foi inteligente, vai longe, podia andar num carro zero quilômetros,
quando precisou, explicou o que precisava, um para ir de sua casa em Botafogo a
Belford Roxo, aonde vivemos.
Foi a gota d’água, a velha soltou alto
Belford Roxo, arrumou uma desculpa para ir a toilette, Mãe Zica foi atrás, a
pegou falando do telefone com a ex-mulher de seu filho. Tirou da mão dela, a
senhora se comporte, pois posso contar ao seu marido do seu romance com o
chofer da casa.
A velha ficou branca, deu um sorriso
amarelo.
Além desse sei de todos com quem a senhora
colocou chifre no seu marido.
O meu avô, só ficou sabendo dessa história
muito depois.
Disse que tinha curiosidade para ir ao
terreiro.
O senhor com certeza será bem recebido,
soltou rapidamente seu Zé.
Meu pai, Jarbas, avisou que só se casariam
no civil, depois haveria uma cerimônia no terreiro.
A cara da velha era de asco.
Minha avô Zica diria depois, que tanto
asco, mas na hora aga, ela bem que gostava de um negão.
Meses depois se casaram, foram morar em
Ipanema, num belo apartamento, meu pai, quando soube que eu estava a caminho,
ficou como um louco, sempre tinha sonhado em ter filhos.
Anos depois me contariam a cerimônia no
terreiro, o velho foi, a sogra nem pensar, soltou na cara do filho, ela pisar
Belford Roxo, isso não ia com ela, tinha medo sim da minha avó.
O velho ao contrário adorou.
Era guiado por tudo, por seu Zé.
Minha mãe me contaria anos depois da morte
de Jarbas, que nunca tinha imaginado amar alguém como o tinha amado.
Seguiu com sua carreira, incentivado por
ele, ele dizia que ela tinha madeira para Juíza.
Quando eu nasci, minha mãe dizia que devia
usar babador, pois ficou como um louco, comparava as fotos que tinha quando era
garoto, eu era igual.
Apesar de tudo, tinha sido uma gravidez
complicada, os últimos dois meses, minha mãe ficou de repouso, tiveram que
fazer uma cesariana, para me tirar, pois era muito grande.
Minha avó Zica, não arredou pé, todo o
tempo livre que podia, seu Zé a levava a Ipanema, brincava dizendo que gostaria
de morar lá.
Ela me pegou no colo assim que nasci,
cantou uma música, que ele entendeu no ato, eu era filho de Xangô, com Iansã,
ia dar muita briga pela frente, mas ela lhe disse baixinho, mas quem vai lhe
guiar será um Exu poderoso, africano do Bara.
Mas não disse nada para os dois, isso seria
um segredo dela, com seu Zé.
Esse disputava com meu avô, quem ficava
mais tempo comigo no colo.
Mas com seu Zé que era altíssimo, esse me
levantava nos braços, bem alto, como se eu fosse um avião.
Na época que meu pai, ficou doente, eu
tinha uns dez anos, ele veio ficar lá em casa, se arrumou nas dependências de
empregados, levava meu pai ao médico, ao hospital para quimioterapia, ia me
levar a escola, me buscar.
Nessa época minha mãe assumia como juíza,
na vara da família, diziam que era dura na queda, olhava sempre pelas crianças.
Chegava em casa correndo, preocupada com
meu pai, mas esse sempre tinha um sorriso quando ela entrava.
A partir dessa época, ele se recuperava,
depois voltava a acontecer, isso foram uns quatro anos assim. Eu tinha quatorze
anos, quando ele morreu, foi um enterro impressionante.
A velha queria que a herança dele fosse
repartida com sua ex-mulher, se fudeu, teve que enfrentar-se com minha avó.
Nessa época o velho a encontrou, fazendo
sexo com o novo chofer, foi um escândalo, ele pediu o divórcio, não lhe deu um
puto quando soube de todos os escândalos dela.
Fez uma coisa que ninguém esperava,
perguntou para seu Zé, se lá no terreiro tinha um canto para ele.
Passou a ter largas conversas com o pessoal
dali, que o vinha consultar como advogado, fazia tudo de graça, os defendia dos
espertos.
Seu Zé, agora vivia lá em casa, era os
braços e pernas de minha mãe, se preocupava por mim, chegou a aprender a fazer
surf para me acompanhar.
Quando via as turminhas fumando maconha,
dizia, cuidado, isso engancha.
Era o melhor aluno na escola, estudava no
Liceu Francês na praia de Botafogo.
Mas realmente não sabia o que queria ser,
verdade seja dita, eu adorava ir para Belford Roxo, ali me sentia em casa, ia
pela casa dos santos, colocando água nas quartinhas, quanto tinha alguma saída
de santo, me sentava ao lado do seu Zé, cantando todos os pontos que ele me
ensinava, o meu avô, agora ajudava, se vestia de branco, algumas crianças
diziam que parecia o papai Noel, pois tinha os cabelos brancos grandes, além de
uma barba de fazer gosto.
Se sentava comigo, nos final da noite,
conversando em francês, que ele dominava bem, tinha estudado no Liceu também,
lhe contava tudo que fazia.
Quando tinha uns 15 anos, um dia sentado
com ele, sem saber por que, em frente a mesa redonda que minha avô jogava
búzios, ele ali pensando na vida como dizia, mas nada estava pensando num
traficante de drogas, que tinha aparecido pedindo ajuda.
Quando me sentei, coloquei as mãos na mesa,
as pedras, os búzios, tudo que estava ali, começaram a girar como loucos, senti
que era meu protetor falando através da minha boca.
A ajuda era para a mulher que o sujeito
tinha, não sabia como agir, com medo de que matassem seus filhos.
Exu, foi orientando o velho como fazer, ele
me olhava espantado, até que Exu Bara, lhe explicou que estava falando através
de mim.
Minha avó, de pé na porta, olhava sorrindo,
sabia que um dia isso ia acontecer mas nada de ser tão pronto.
Dias depois, inclusive minha mãe estava
presente, havia uma gira, meu avô tinha conseguido resolver o problema, levando
a família do dito cujo para longe, mas lhe avisou, nem se aproxime do terreiro,
pois Exu Bará vai te escorraçar.
Nesse dia, eu estava sentado ao lado de seu
Zé, que tocava os pontos, quando tocou do de Xangô, dizem que dei um salto
imenso, rodando pelo ar, até estar no meio do terreiro, em seguida ele fez uma
revência a Mãe Zica, pedindo licença para mostrar seu filho.
Em seguida chegou Iansã, a mesma coisa, foram
desfilando os guias um por um, no final, de um salto lá estava o Exu Bara, que
foi direto a minha mãe, lhe dizendo que não se preocupasse, que seu filho seria
um grande pai de santo.
Pode estudar o que queria, mas será do
santo, isso está escrito em sua vida.
Ela estava de boca aberta, primeiro pensou
que era uma coisa de sua mãe, mas viu que não.
Meu Yao, acabou sendo meu avô, que sabia de
tudo, entendia inclusive quando falavam com ele em Yoruba.
Seu Zé era outro que sempre estava ao meu
lado, só fizeram uma coisa, uma gira com Exu.
Nessa noite, por escolha minha, fui dormir
na casa de Exu, levei uma esteira, me deitei, sonhei a noite inteira com meu
pai, me explicando o caminho que devia seguir.
Fui estudar medicina, me especializei me atender
as crianças, as famílias, ali isso seria de grande ajuda.
Numa parte do terreiro, na frente construí
com ajuda do meu avô, um consultório, sempre atendia aos que me procuravam, nem
tinha acabado ainda a universidade, mas as pessoas tinham necessidade.
Se precisavam de ir para um hospital, para
uma operação, o velho mexia seus pauzinhos, sempre conseguia, ficou conhecido
em toda baixada por isso.
Os médicos diziam, la vem o velho, não há
como escapar dele, se a operação fosse cara, ele bancava a mesma, dizia que o
dinheiro era para isso.
Ele ainda tinha seu apartamento imenso no
Leblon, alugado, bem como em Ipanema, um andar inteiro, aonde era seu antigo
escritório.
Vendeu tudo, colocou aplicado, assim quando
precisava para atender alguém, ele tinha de aonde tirar, desse lucro.
Dizia a Mãe Zica, eu que nunca fiz nada por
ninguém a vida inteira, encontrei finalmente o meu lugar.
Morreu com quase 99 anos, seu enterro foi
impressionante, primeiro o velaram ali mesmo em Belford Roxo, depois a pedido
dele tinha sido cremado, foi para o mausoléu familiar no cemitério São João
Batista, ao lado do meu pai.
Eu sempre que podia ia com o seu Zé, até
lá, limpávamos tudo, acendia velas, rezava, agora tinha dois do outro lado para
me ajudarem.
Minha mãe agora Juíza, reclamava que estava
sozinha naquele apartamento imenso que vivia, tinha sido ameaçada por uma
gang. Seu Zé, disse que ele de
guarda-costas era uma merda, arrumou um sobrinho dele, um negro de dois metros
de altura, que usava um aparelho nos dentes, que parecia que ia morder, esse se
tornou a sombra de minha mãe, ela ainda usava seu velho carro Volkswagen, nada
de carro oficial, era de rir o Jorge entrando no mesmo.
Ele dizia que tinha uma coisa a favor, era
fácil de estacionar em qualquer lugar.
Mas chegava sexta-feira, ela largava tudo,
vinha para Belford Roxo, agora as pessoas a procuravam, como faziam com meu
avô, para serem orientados.
Ela como conhecia uma série de advogados
que lhe deviam favores, mandava com um bilhete.
Era inflexível no que fazia, ninguém
escapava.
Antes de um julgamento, pedia para o
fiscal, mostrar o que tinha, se não estava bem, ela conhecia como funcionava a
coisa, o mandava trabalhar direito, adiava o julgamento, até que o processo
estivesse como devia.
A chamaram para ir para o Supremo em Brasília,
declinou o convite, não queria sair do Rio de Janeiro.
Minha avó Mãe Zica, foi me passando
gradativamente as coisas do terreiro, se sentava ao meu lado, para atender as
pessoas que vinham pedir ajuda.
Se matava de rir, pois Exu Bara, fazia como
que uma limpa antes, se vinham por besteira, era como ele colocasse a pessoa
para correr.
Os bandidos sabiam que por ali, não deviam
aparecer, isso era uma verdade.
Com os anos, as pessoas riam, diziam que eu
parecia com meu avô, pois com trinta anos tinha os cabelos brancos como ele,
mas muito crespos, parecia uma juba de leão.
Realizei um dos sonhos da minha avó, fomos
ao Benin, que ela queria conhecer, tinha um filho de santo seu que era de lá.
Nos orientou, seu Zé como sempre foi junto,
agora com os cabelos todos brancos, era uma figura.
Foi uma viagem impressionante, pois eu
andava nas ruas, as pessoas se aproximavam, não sei como sabiam que eu era um
pai de santo.
Fomos parar bem para o interior, aonde nos
levou o Exu Bará, apontou, uma vila caindo de podre, disse que era dali.
Voltei revigorado, sabia que minha velha
partiria em pouco tempo, meio ano depois, morreu dormindo, com um sorriso nos
lábios.
Para minha mãe, foi uma paulada, pois nessa
época tinha muita pressão, com sua mãe ela falava tudo, agora teria que falar
com seu filho.
Fiquei conhecido como Seu Menino, tudo por
culpa do seu Zé, que se referia a mim assim, foi “seu menino” que mandou fazer
assim ou asado.
Eu nunca contradizia, acabei conhecido como
Pai Menino de Belford Roxo, minha mãe quando se aposentou, estava louca para se
ver livre do seu cargo, tinha chegado ao mais alto que tinha sonhado, uma
garota saída dali do subúrbio, chegar aonde tinha chegado.
Se falou muito nisso na sua
aposentadoria.
Quando lhe perguntaram o que iria fazer
agora, sorriu, terei muito trabalho, minha gente precisa de mim.
Seguia o exemplo do meu avô, atendia a todo
mundo, não cobrava nada de ninguém.
Se sentou um dia comigo, falando do
apartamento de Ipanema, que era do meu pai, queria vender, comprar um menor,
para que eu fosse de vez em quando fazer surf.
As pessoas riam quando eu chegava na praia
com seu Zé, tinha um velho jeep que ele encontrou não sei aonde, colocávamos as
pranchas, imagine sair de Belford Roxo, para fazer surf em Ipanema, mas nem
parava para pensar.
Os anos foram passando, claro se
perguntavam sempre, porque eu nunca tinha ninguém, a resposta era que não dava
certo, homens e mulheres me procuravam para isso, mas sempre havia alguma coisa
que me incomodava.
Gostava da minha liberdade, bom crianças no
terreiro não faltavam, pois minha mãe para se ocupar, abriu um creche, assim as
mães iam trabalhar tranquilas, ela mesma pagava as professoras, iam ensinando
as crianças a ler e escrever.
Muitos acabavam ficando até mais tarde,
algumas hoje em dia são meus filhos de santo, dentre eles alguém irá me
substituir.
Não esperava essa vida, poderia reclamar,
dizer que não fui eu que escolhi, mas nem pensar, o caminho já vem traçado.
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