MY BOY

 

                                             

 

Sua história não era muito diferente de muitos outros garotos, agora um adulto, estava ao mesmo tempo puto da vida, como se sentindo perdido.

A poucos meses tinha morrido seu pai adotivo, lhe deixando bem financeiramente, embora ele mesmo tivesse seu dinheiro próprio.

Foi quando recebeu a chamada para ir ao presidio, para ver seu pai verdadeiro, coagido por um advogado, até mesmo pelo fiscal, pois havia que revisar sua pena de cadeia perpetua, este queria que ele depusesse a favor dele.

Tinha sido desde o primeiro momento como uma bofetada na sua cara.

Se lembrou que quando a assistente social, o deixou com 10 anos no orfanato, aonde ia passar a viver.

De uma certa maneira gostou, ali pelo menos tinha cama, comida, roupa limpa, podia estudar, até então, tinham vivido de okupas em muitos lugares.

Seu pai tinha não só assassinado sua mãe, bem como outras quatro pessoas que tinham juntado dinheiro para comprar drogas, queria só para ele.

Ele tinha escapado por pouco de morrer também, pois estava pelas ruas, rebuscando no lixo, em busca de comida, teria sempre essa fome horrorosa, quando ficava nervoso, tinha que tomar cuidado pois era compulsivo.    Quando ficava assim, tomava um remédio que lhe tirava o apetite.

Tinha era que tomar cuidado com as unhas, pois era capaz de comer as mesmas.

Sentia falta imensa nesse momento de seu pai adotivo James Gálico, tinha sido um processo imenso, pois seu pai verdadeiro se negava a assinar essa adoção.

Na época que James o adotou, ele já tinha 15 anos, tinha passado cinco anos no orfanato, só tinham tentado sua guarda uma vez um casal, mas a coisa saiu mal, pois tentaram abusar dele de duas maneiras, o queriam para sexo, bem como para trabalhar grátis para os mesmos.

Os denunciou a polícia, como lhe tinham ensinado no orfanato.

Ele ao contrário dos outros garotos que estava lá a muito tempo, ainda tinha um pai, embora o mesmo estivesse condenado a perpetua.

Sabia que tinha que aproveitar o máximo, então se esforçava, ajudava as freiras no que era possível, a limpar, esfregar o chão, os outros caçoavam dele, mas não se incomodava, tinha que pagar pelo que recebia em troca, comida, cama, escola.

Uma das freiras que dava aulas, conseguiu que ele fosse a uma escola perto, foi como ganhar o grande prêmio, tranquilizou a irmã, não queria fugir, tinha sim de estudar para ter um futuro quando saísse dali.

Foi o que fez, devorou os livros da biblioteca da escola, adorava certos personagens dos livros, aqueles que se suplantavam, ou que lutavam para seguir adiante, tinha os mesmos como exemplo, na escola, o chamavam de Thor, pois sem querer se parecia com o personagem dos desenhos da televisão.

Era alto para sua idade, forte porque desde que tinha entrado na escola, fazia todos os esportes possíveis, embora isso aumentasse sua fome, depois quando chegava, ajudava as freiras da cozinha a limpar tudo, não se incomodava de esfregar as panelas, o chão, o que fosse preciso.

Por isso, elas gostavam dele.

A desculpa que as freiras davam, quando o queria adotar, era que ele tinha família, uma meia verdade, mas claro ele era branco, olhos azuis, cabelos loiros, isso encantava as famílias.

Depois da tentativa errada, disse as freiras muito sério que preferia trabalhar lá, para pagar viver ali, do que ser adotado.

Uma das freiras, era amiga do James Gálico, quando viu como ele se saia nos estudos, chamou seu amigo, por um acaso ele tinha lido todos os livros do James.

Foi uma paixão à primeira vista, seria sempre o homem que o tinha salvado de uma vida medíocre, bem como o amor de sua vida, embora nunca tivessem feito sexo.

Sem querer também foi a tabua de salvação para o James, pois ele tinha perdido recentemente o homem que tinha sido o amor de sua vida, se sentia solitário.

Nessa época, ele escrevia roteiros de séries, em cima dos livros que tinha escrito, quando viu as notas, bem como os textos que Bob escrevia, além da grande amizade que tinha com o freira, eram amigos de infância.

Concordou em o ter sobre sua guarda, para que ele pudesse ir a uma escola melhor, posteriormente ir à universidade.

Foi morar com ele em Malibu, em frente ao mar, numa casa simples, ali não existia nada de luxo, para James isso, era ter essa varanda, que se fechava nos dias de chuva ou frio, aonde se podia ver o mar.

James fez tudo para ele se entrosar com os rapazes da mesma idade que ele, mas claro ele tinha mais vivencias que os outros, protegidos por suas famílias.

Foi para uma escola melhor, ali poderia se preparar para o futuro, tinha um quarto só para ele, bem como James lhe comprou roupas, como usavam os outros da sua idade.

No orfanato era um problema, pois ele era grande em todos os sentidos, alto demais, forte pelos exercícios, então as roupas eram pequenas para ele.

Usava roupas de um homem adulto já com 16 anos, seguiu fazendo todos os esportes que podia na escola.

Os professores o elogiavam, pois a maioria que fazia esportes, não eram bons alunos, ele ao contrário, tirava as notas mais altas, não descuidava, segundo sua professora preferida, ele tinha a cabeça bem colocada em cima dos ombros.

Encontrou no James, não só um pai, mas um amigo, podia falar de tudo com ele, se abriu com ele, dizendo que era apaixonado.

James o fez ver que a diferença de idade era imensa, que isso seria atrapalhar sua futura adoção, contou a história do amor de sua vida, nunca poderei amar mais ninguém, tu eres o filho que sempre quis ter.

Ele aceitou, contava suas dúvidas com relação aos rapazes da escola, bem como da praia, por alguns se sentia atraído, mas claro, isso implicava, que a maioria eram tontos, filhos de famílias de bem.

Ele sem querer achava interessante, como era olhado no banheiro da escola, depois dos treinos, dos exercícios, todos olhavam seu corpo, achando que com isso ele teria um piru imenso, mas o tinha como todos, normal.

Não aceitava bem as brincadeiras que se faziam com conotação sexual, inclusive um treinador falou com ele, que devia levar mais na esportiva essas coisas.

O senhor me desculpe, mas eu estou aqui para estudar, faço esporte, porque necessito, extravasar o que sinto, mas se tenho que aguentar essas brincadeiras bobas, como o senhor está me pedindo, deixo de fazer esportes.

O outro ficou de boca aberta, pois ele era o único aluno que tinha boas notas, bem como era excelente em basquete, bem como correr.

Nos finais de dia, principalmente no verão, arrastava o James com ele, para percorrerem toda a praia, seja caminhando ou correndo.

Me obrigas a fazer exercício, na verdade lhe vinha bem, pois passava o dia inteiro, sentado atrás de um laptop.

Uma senhora que trabalhava com ele a muitos anos, era quem cuidava das compras, limpar, fazer comida.

Se espantava que o quarto dele, estivesse sempre limpo, nada fora de lugar, bem como o banheiro que ele usava, ele mesmo fazia questão de limpar.

As vezes chegava da escola, ela estava limpando a cozinha, ele ajudava, dizia que fazia isso no orfanato.

Era sua maneira de colaborar.

Nunca soube como o James conseguiu que seu pai na prisão assinasse a autorização para que fosse adotado, ou como era um filho da puta, já imaginava algum dia tirar proveito.

James, corrigia os textos que ele escrevia, explicava como devia abordar alguns assuntos.

Um dia juntou todos seus contos, o levou para um editor, ele tinha 19 anos, a maioria dos contos, ele falava como era viver num orfanato, o mais divertido tinha sido de sua quase adoção por parte do casal, a contava com detalhes, como os tinha prendido no quarto que lhe tocava na casa, quando entraram nus, para fazerem sexo com ele.

Tinha fechado a porta por fora, chamado a polícia, de uma certa maneira foi um escândalo, pois eram considerados um pilar da sociedade, daqueles que vão sempre a missa, confessam, comungam, essas coisas.

Quando o levou a editora, James tinha feito com ele, o trabalho que faria um editor, corrigido tudo, foi o primeiro dinheiro que ganhou, não assinou nenhum contrato, iria sempre por livre.

Quando foi para a universidade, foi fazer literatura, seguia devorando todos os livros que caiam em sua mão, mesmo dos escritores que James considerava um porre, mas ele lia a todos, de cabo a rabo, podia não gostar, mas o fazia, procurava encontrar alguma coisa de substância nisso.    Por insistência do James, se inscreveu num curso de escrita criativa, mais tarde num para escrever roteiros de cinema e televisão.

Quando James morreu, ele já tinha 29 para 30 anos, foi como se seu mundo tivesse vindo abaixo.

Nunca se esqueceria do James, quando lhe explicou que tinha que saber o que queria quando fazia sexo, se procurava carinho, ou simplesmente sexo por sexo.

Lhe contou como tinha sido sua vida quando jovem, que confundia tudo isso.  Era o grande despertar da vida gay depois do advento dos hippie, da liberdade sexual.

Levei muito tempo para entender que eu as vezes só queria carinho, saia da cama de uma pessoa, da mesma maneira que tinha entrado, sem encontrar o que queria.

Quando comentou sua primeira relação com ele, com um colega da universidade, que tinha se espantado que o mesmo no outro dia, fingiu não o conhecer.

Ficou furioso, contou para o James, ele o fez parar para pensar, o que buscava ele, nisso, sexo, carinho ou uma relação.

São coisas diferentes, repetia outra vez, o fazia analisar.

Mas nunca dava certo, nunca era como ele imaginava.

Uma vez James argumentou que ele esperava encontrar uma pessoa como ele, mas tens que pensar que sou muito mais velho, vivi mais que tu, demorei para encontrar a pessoa da minha vida, quando o perdi, ficou um vazio muito grande, impossível encontrar alguém.

Hoje tinha ido ao presidio, ver seu pai, que ele já nem se lembrava da cara, foi um horror, pois o que ele queria, não podia fazer, disse diante dos que analisavam seu pedido, que nunca poderia perdoar ele ter matado sua mãe, não acreditava em reabilitação, olhem esse homem, é uma caricatura do que foi, não me lembrava mais da cara dele, agora com certeza terei pesadelos a respeito.

O que ele imaginava, o mesmo saltou de sua cadeira, mas estás rico, pode me acomodar em tua casa.

Nem pensar, nunca faria isso, teria que estar vigilante para teu próximo golpe, sinto muito mas sou contra.

Saiu da sala, o advogado ainda foi atrás dele.

O fiscal em seguida saiu, dizendo que tinha sido negada a condicional, ele teria que cumprir o resto da pena.

Respirou aliviado, foi embora.

Parou quando chegou a Los Angeles, entrou num bar que ia sempre com o James, pediu uma coca cola, como sempre, nunca bebia, tinha verdadeiro horror a qualquer droga, o medo que tinha de se viciar em seguida.

Estava com a cabeça entre as mãos, as lagrimas caiam no seu copo, misturando a coca cola com as mesmas.

Estas bem, escutou uma voz a frente dele, ainda repetiu precisas de ajuda.

Era um homem com um sorriso nos lábios, mas preocupado, não devia ter mais de 1,60 metros de altura, mas um corpo proporcional, sem querer gostou do mesmo.

O outro continuou, entraste como um furacão, isso se deve a um dia difícil com certeza, entendo por que também tive, te vi hoje no presidio, fui visitar meu irmão, que está lá.

Imagina somos gêmeos, mas completamente diferentes em tudo, enquanto eu tenho esta estatura, ele tem 1,85 metros, além de ser muito bonito, se aproveitou disso a vida inteira para abusar das pessoas em todos os sentidos, nunca quis estudar, tampouco trabalhar, claro por ser bonito, era o querido de minha mãe, que o protegia de meu pai.

Se sentou na frente de, estou aqui falando da minha vida, mas pelo visto a tua não foi diferente.

Contou para ele, o que tinha acontecido.

Pois é eu também fui por causa disso, dei um duro desgraçado na vida, fui criado pelo meu pai, minha mãe, se divorciou, foi cuidar de seu filho predileto, agora queria que eu me responsabilizasse por ele, nem pensar.

O filho da puta, ainda riu quando me viu, dizendo que eu seguia sem crescer.

Nunca me importei muito com respeito a isso, embora tenha sofrido muito bullying, mas a vida é assim.

Estendeu a mão, Albert Duran, sou professor de literatura numa escola aqui perto.

Ele sentia um cansaço imenso, estava um pouco tonto, ia se levantar, quase caiu.

Albert se ofereceu para leva-lo a casa, vejo que não estas em condição de conduzir.  Teve que ajeitar o banco do condutor, para poder dirigir, quem manda tu seres tão grande.

Lhe disse aonde vivia, ele assobiou, eu vivo perto da escola que trabalho.

Sem querer ele se relaxou, acabou dormindo.

Quando chegaram em sua casa, o convidou para entrar, ele ria muito, desculpe, meu sentido de humor apesar do dia ter sido uma merda, aprendi com meu pai, se te dão um limão faça uma limonada com muito açúcar.

Ficaram sentado na varanda, sem querer começou a falar do James, o pai que tinha sido.

Albert, olhou o relógio, ficava tarde, vou pedir um taxi.

Com naturalidade, o Bob, perguntou se podia dormir lá com ele, hoje não tenho vontade de ficar sozinho.

Eu tampouco, quando foram para a cama, ficaram abraçados, mas sem fazer sexo, quando muito um beijo, a diferença de altura dos dois, não interferia em nada.

No dia seguinte um sábado, foram nadar, lhe emprestou uma bermuda do James, que ficava imensa para ele.

Albert perguntou se tinha aprendido a fazer surf, eu sempre quis, mas não sobrava tempo, tinha que estudar, esse era o sonho de meu pai, que eu fosse alguém, a universidade, ter um bom emprego.

Já meu irmão foi tudo ao contrário, fazia o que queria, se metia em todas as confusões possíveis.

Começou a se prostituir cedo, segundo me contou adorava isso, ser puta de muitos homens.

Agora o vês na prisão, é puta como ele sonhou, de todos os bandidos de lá, cheio de tatuagens pelo corpo inteiro, as drogas, a vida que ele escolheu lhe passaram fatura, parece um velho.

Interessante isso, meu pai e teu irmão no mesmo presidio.

Pois é, nos últimos anos, ainda tive que me fazer cargo de minha mãe, pois quando ele foi preso, queria que eu assumisse a culpa no lugar dele, meu pai quando soube ficou uma fera, a denunciou por acosso.

Lhe tranquilizei, nunca faria isso, ele era um perfeito desconhecido para mim.

O mesmo digo de meu pai, ver aquele homem hoje, nem me lembrava da cara dele, ainda dizer que sabia que eu tinha herdado a casa e algumas coisas do James, que o devia ajudar, lhe dar boa vida, ficou furioso mostrando sua verdadeira cara, diante dos que tinham que julgar o que pedia, eu na verdade, só me neguei em recebe-lo, o resto foi ele quem cagou.

Mas sou honesto, tive no James o melhor pai do mundo, me tornei escritor por ele, muito cedo inclusive, depois da universidade, segui adiante.

Ah, agora sei quem eres, teu sobrenome não me era estranho, tenho teu último livro, começaram a falar sobre o mesmo.

Ao final, o dia tinha passado, disse ao Albert, que o mesmo tinha sido perfeito, sempre me sinto só, mas contigo, foi super bem.

Levou o Albert a sua casa, este o convidou para conhece-la, era espartana, vivo de aluguel, pois meu pai nunca teve nenhuma casa, trabalhava como um louco para pagar a pensão da minha mãe, hoje ela vive numa residência, criando problemas, falando desse filho maravilhoso, imaginário.

Se fosse por ela, ele sairia para viver com ela, mas como não pode se sustentar, iria outra vez colocar tudo a perder.

Quantos anos tem ainda teu irmão para cumprir?

Mais 10 anos, saíra de lá com uma boa idade, mas duvido que crie juízo, adora manipular as pessoas.   Está na prisão pois estafou muita gente, é acusado do assassinato de um homem, com quem vivia, para herdar toda sua herança, mas o tiro saiu pela culatra, o mesmo estava falido, por dar o tipo de vida que ele achava que merecia.

Porque não passas o final de semana comigo, assim podemos ir conversando.

Albert pegou roupa de banho, muda para trocar, foi um final de semana maravilhoso, os dois estavam sempre procurando a mão do outro.

Quando andavam na praia, as pessoas de uma certa maneira, riam, um tão grande o outro tão pequeno, mal sabiam que nos dávamos bem, ou isso pensava.

Nosso relacionamento durou uns bons cinco anos, depois foi se degradando, no principio não entendi, meus dois últimos livros, tinham feito sucesso, eu mesmo transformei os mesmo em roteiro para cinema, ganhei um bom dinheiro, tive que fazer uma turnê promocional a cada livro, as perguntas ao voltar sempre eram as mesmas, se tinha conhecido alguém.

Ria dizendo, se eu tinha um perfeito em casa, para que procurar.

Foi quando me contou que tinha uma história encalhada, era ele contando a história de seu irmão gêmeo.

Lhe perguntei se tinha ido falar com ele, para saber detalhes?

Me olhou horrorizado, como se eu tivesse falado uma blasfêmia.

Se escreves sobre alguém vivo, isso pode de dar problemas, pois ele pode pedir parte do dinheiro que ganhe com isso, terias que transformar na história de outra pessoa, usando como referência a ele.

Percebi que não tinha gostado, tempo depois me deu o texto, ia escrever na sua casa, nunca se tinha desfeito da mesma.

Li o texto, a primeira parte era muito confusa, as famosas dez paginas que se não são claras o leitor deixa de ler o livro, mas fiz um esforço, li até o final.

Fui anotando como ele poderia melhorar essa parte, quando lhe devolvi o texto, incluindo as paginas que eu ia citando o que sugeria.

Ficou como uma fera, ou melhor como uma prima dona, arrancou o texto de minha mão, foi embora sem me dar tempo de falar nada, ficou uma semana desaparecido, fui a sua casa duas vezes, mas estava tudo apagado.  Lhe chamei pelo celular, nada.

Um belo dia, apareceu lá em casa, dizendo que tinha vindo buscar suas coisas, nem sequer me deu a mão, eu o deixei fazer tudo como queria. Na saída me disse que tinha conhecido outra pessoa, que essa sim o fazia ir em frente, que todos esses anos comigo, ele tinha ficado a margem de seus sonhos de escrever.

Não entendi merda nenhuma, nunca me tinha dito que sonhava em escrever, era professor de literatura, mas nem todos os professores escrevem.

Um belo dia, meu editor me chamou, ele tinha usado meu nome, para apresentar seu livro, o mesmo reclamou dizendo se eu tinha lido.  Fui honesto disse que sim, que lhe tinha passado uma série de correções para melhorar o mesmo.

Olha serei sincero, o livro é uma merda, se edito como está, andei me informando, o tipo sobre qual ele escreve, é o pior que há, vai nos criar problemas.

Lhe deixei bem claro, que não estava mais com Albert, que justamente por ter feito correções, ele tinha ido embora.

Eu estava super aborrecido, nunca tinha esperado um desfecho deste, poderia me sentir ofendido, mas resolvi fazer uma viagem, meus três primeiros livros seriam editado na França, fui até lá com meu editor, depois aproveitei para fazer turismo.

Todo mundo dizia que eu não podia ser mais americano, pelo meu corpo imenso, pela minha maneira de ser.

Um dos livros, nunca tinha sido transformado em filme, um diretor de lá se interessou, marcamos para conversar.  Foi interessante, ao contrário dos cineastas americanos, ele tinha uma outra ideia, que casava como eu pensava sobre o personagem.

Fui honesto com ele, se escrevesse hoje esse livro, o faria de outra maneira, me propôs fazer o roteiro do mesmo, um dos personagens ficava numa posição de observador, hoje em dia me incomodava isso, pois era o James.   Ele como observador, tinha me ajudado a resolver meus problemas, inclusive, coloquei no roteiro essa espécie de amor platônico que tinha por ele.

Ele gostou, acabei alugando um pequeno apartamento, para acompanhar as filmagens, coisas que nem sempre fazia.

Conheci muita, gente, os atores faziam questão de me apresentarem aos seus amigos, acabei dando uma entrevista para uma revista de arte.

Falei justamente nisso, pois o jornalista tinha lido o livro, esse personagem podia passar desapercebido, porque eu tinha mudado o mesmo.

Eu lhe respondi com outra pergunta, se ficava melhor ou não.

Sim, no livro isso fica subentendido, mas no filme tem força.

Ai lhe contei, esse livro foi o primeiro que escrevi, esse personagem é meu pai adotivo, sempre o amei, as vezes por ser um adolescente, confundia isso com um amor mais profundo, ele vinha de perder a pessoa mais importante de sua vida.

Essas cenas das conversas, realmente aconteceram, entre nós isso sempre foi possível, ele me esclarecia as coisas.   Me fazia pensar, no que eu queria realmente, dizia que havia que separar quando queríamos estar com uma pessoa em busca de carinho, ou quando queríamos somente sexo.

Foi um pai como deviam ter ser todos, quando morreu, eu fiquei arrasado.

Depois fui convidado pelo mesmo a um jantar, era uma roda de jornalistas, me encheram de perguntas, mas a maioria pensava que esse personagem era muito idealizado.

Cortei dizendo, que eu tinha tido sorte, de ter esse pai adotivo assim, ele era escritor, mencionei os livros dele.    Talvez por isso refletisse muito, me corrigia os textos, mas nunca pensando nele.

Um jornalista um tanto nariz empinado, fez um comentário maldoso, me perguntou sobre meu outro pai, que era mencionado no filme, bem como no livro.

Ah, esse cumpre prisão perpetua, quando tentou sair, queria minha ajuda, me neguei, pois tinha matado minha mãe, bem como outras pessoas, por drogas.

A cara do sujeito veio abaixo, no dia seguinte, escrevia sobre isso, num jornal sem muita importância, o tipo de pessoa que eu era, que me tinha negado ajudar meu verdadeiro pai.

Sem querer ele fez com quem me convidassem para mais entrevistas, mas me neguei a falar do assunto.

Era hora de voltar para casa, tinha pagado durante esse tempo para que a empregada da casa vizinha limpasse a minha, bem como abrisse as janelas.

Me contou que Albert, tinha me procurado várias vezes.

Pensei muito em procurar por ele, mas achei que não valia a pena, de uma certa maneira o tempo fora, bem como a distância, me tinham feito reflexionar sobre o assunto.

De como o sucesso de uma das pessoas de um casal, pode afetar ao outro.

Foi quando meu editor me telefonou, me perguntou se eu sabia do Albert.

Falei o que a senhora tinha me dito.

Marcamos de almoçar, pois ele não queria comentar por celular.

Fiquei de boca aberta com o que me contou, ele tinha modificado o livro, tinha ido conversar como irmão, esse lhe contou todas as barbaridades que tinha feito desde jovem, bem como levava a vida na prisão.

Mas como eu tinha avisado, soube que tu também, o irmão moveu uma ação contra ele, pois não tinha autorizado ele transformar nada da sua vida em livro.  Justo nesse momento ele negociava a venda para um filme.

Ele perdeu a causa, teve que dar ao irmão, que sai dentro de pouco tempo da prisão, metade dos lucros.

Com a saída iminente do mesmo da prisão, conseguiu uma licença na escola que trabalha, não depositou nada do dinheiro, foi embora, ninguém sabe aonde foi parar.

Me esqueci disso, pois estava escrevendo um livro, revisando os escritos do James, encontrei um texto, que falava como me tinha conhecido, o que pensava, bem como para ele era interessante eu ter o tamanho que tinha, ao mesmo tempo ser totalmente diferente de que qualquer pessoa podia me imaginar. 

Esse texto depois tinha várias anotações a mão, das nossas conversas, de como para ele era liberador, poder falar de qualquer assunto comigo.

Realmente com o tempo eu era o dobro dele em tamanho, não em altura, mas pelo meu corpo imenso.

Fiquei revendo isso, os dois sentados na varanda, ou mesmo no final da praia em cima de alguma pedra conversando.

Fui rebuscar nas minhas coisas, o que tinha escrito na mesma época, sem querer estava escrevendo uma coisa para o teatro, primeiro o fazia em forma de livro.

Foi muito interessante, pois eu conseguia reviver cada momento disso.  O que achei interessante, havia uma conversa sobre meu pai, ele analisando como eu o via, me lembrei da mesma.

Então escrever de novo sobre esse assunto, foi muito interessante, pois o tempo tinha criado uma distância imensa, podia reflexionar.

Minha mãe eu tinha descoberto, pois fui a polícia, me identifiquei, queria saber de aonde tinha saído, como tinha chegado a isso.  Tudo que sabia que ela não era de Los Angeles.

Com muito custo, consegui essa parte da investigação, por sorte o inspetor do caso, era conhecido do meu agente.

Minha mãe, tinha fugido do interior do pais, a procura da famosa fama, Los Angeles a Meca do cinema.   A família quando soube de mim, se recusou a me receber.

Quanto a de meu pai, a coisa já era torcida, ele tinha saído de um orfanato, vivia de explorar as pessoas, quando a conheceu, primeiro a conquistou, quando viu que estava gravida, ficou furioso, segundo as anotações da assistente social, reclamava de ter que me manter, que eu comia muito.

Quando li sobre isso, tive que rir, eu tinha uma fome impressionante, eu mesmo as vezes me assustava, por isso sem querer me salvei no dia que a matou, estava buscando comida no lixo, dos restaurantes.

Pensei em ir conversar com ele, mas depois pensei, o que ele vai dizer não me interessa em absoluto, criei um personagem mal caráter, como o via sempre.

Mas por curiosidade, fui dar uma espiada na família dela, fiquei surpreso, era uma dessas famílias super religiosas, pareciam estar todos de luto o tempo todo.

Tinham terras, os outros filhos estavam ali todos trabalhando, dividindo o campo.

Resolvi fazer uma coisa, me apresentei como filho dela, disse o que fazia, aonde vivia.

As caras eram imutáveis, só um dos garotos de uns 16 anos, me olhava com curiosidade, era alto como eu, podia ser meu filho.

Não poderia dizer que tinha sido mal recebido, tampouco, sequer procuraram ter meu endereço.

No dia seguinte quando estava saindo do Motel que tinha me hospedado, dei de cara como garoto, sentado do lado de fora do quarto, perguntou se podia falar comigo ali mesmo, pois não queria que o vissem comigo.

Me contou que sonhava em estudar, quando falaste que tiveste sorte com teu pai adotivo, por isso, ter incentivado a estudar.  Aqui nos deixam aprender a ler e escrever, depois temos que trabalhar no campo, os casamentos são combinados, para trazerem mais terras para a família.

Me disse que já tinha tirado seus documentos, tenho 18 anos, quero ir embora daqui, recuperar esse tempo que perdi, quero ser alguém, estudar.

De uma certa maneira éramos primos, lhe perguntei se tinha falado isso com seus pais.

Disse que sim, eles concordam, mas nosso avô é quem decide tudo.

Eu fico mais um dia, se consegue que teus pais venham falar comigo, tudo bem, te levo comigo.

Horas depois eu estava acabando de almoçar na lanchonete, ao mesmo tempo escrevendo sobre essa parte da vida de minha mãe, quando ele apareceu com os pais.

Seu pai era irmão de minha mãe, não tinha falado muito sobre ela, eles já sabia, ou pelo menos eu supunha que sim.

Ele foi direto ao assunto, o filho não encaixava no modo de vida deles, tinha ambições, queria estudar, mas nosso dinheiro é todo controlado pelo patriarca da família, ou seja meu pai.

Se vocês autorizarem, eu o levo comigo, vou lhe ajudar a estudar, a seguir em frente.

Fomos falar com o xerife, ele estranhou, eu me apresentei, ele tinha visto dois filmes feito em cima dos meus livros.

Tinha os papeis, dizendo de aonde tinha saído minha mãe, eu vi conhecer sua família, pois queria saber como ela tinha ido parar em Los Angeles, ela foi assassinada pelo meu pai, eu fui criado por um escritor, lhe disse o nome do James.

Tenho todos os livros dele, me disse o homem rindo, foi recitando cada um deles.

Deixei meu endereço com ele, meu número de celular aos pais do garoto, assim ganhei um filho, Fred Dexter, que descobri que era o sobrenome de minha mãe.

Saímos da cidade, eu tinha a autorização, ele também era considerado maior de idade.

Paramos na primeira cidade grande, lhe dei dinheiro, queria ver como ele ia administrar o mesmo, James tinha feito o mesmo comigo, para ele comprar roupas diferentes, só lhe disse que camisas de quadros, ninguém usava em Los Angeles.

Me matei de rir, pois ele me fazia milhões de perguntas, sobre a cidade, como eu vivia, como era o mar, essas coisas.

Fui lhe falando também dos perigos que se enfrenta numa cidade grande, as drogas, as pessoas que manipulam a outras.

Ele se deslumbrou quando viu o mar, viemos pela estrada costeira, desde San Francisco.

Quando falei que era a meca gay do pais, dos direitos gays essas coisas.

Se abriu comigo, que tinha descoberto o sexo com outro primo dele, mas isso chegou ao ouvido do nosso avô, que nos deixou a pão e água vários dias, pois isso era pecado.

Falamos muitos sobre isso, o conceito de pecado.

Quando chegamos a minha casa, ele adorou, lhe arrumei uma bermuda, teríamos que comprar roupas como os rapazes dali, para ele, saiu do mar, o sorriso que tinha na cara era fantástico.

Mas na semana seguinte, começamos a procurar uma escola para ele, teria que recuperar o tempo perdido, quem me ajudou nesse ponto, foi meu editor, ele tinha filhos da mesma idade, me indicou uma professora, que tinha ajudado seus filhos, eles são maus estudantes.

Ela aceitou o desafio, depois me diria rindo, que pelo menos quando eu deixe de fazer isso, posso dizer que passaram pelas minhas mãos um rapaz com ânsia de aprender.

Estabeleci com ele horários, como o James tinha feito comigo, lhe disse que comigo podia falar o que quisesse.

Falei das imensas conversas que tinha com o James, que estava escrevendo sobre isso, lhe passei uma das primeiras conversas a que começava o livro.

O vi ler completamente concentrado, depois soltou, sinto inveja de ti, meu pai coitado, como todos meus tios obedecendo nosso avô, que nem inglês fala direito.

Dois anos depois com muita luta, entrou para a universidade.

Nesse meio tempo, quase tinha terminado meu livro, quando uma advogada apareceu, a pedido do meu pai, que precisava de uma doação de medula óssea.

Lhe disse que fazia o teste, desde que fosse também um teste de ADN, acabou concordando, tinha seguido meu instinto, queria saber se realmente era filho desse filho da puta.

Quando recebi o resultado, antes de chama-la, fiquei sozinho na varanda rindo, eu não era filho dele, tampouco era compatível para uma doação, mas resolvi tirar em pratos limpos.

Ele estava numa enfermaria, era pele e osso, tinha junto um guarda, lhe perguntei se tinha certeza de que era filho dele, me soltou uma ladainha, mas cortei, só te fiz uma pergunta.

Não sei, pois mal ficamos juntos ela estava gravida, aí soltou que se eu o recebesse em minha casa, podia fazer o tratamento fora.

Lhe mostrei os resultados, além de não ser filho dele, tampouco era compatível, mataste minha mãe, achavas que ia te receber em minha casa.

Sai dali aliviado, assim pude terminar o livro, contando esse detalhe.

Justo quando o livro saiu, fui avisado que tinha morrido, se eu queria fazer o enterro dele, disse ao diretor do presidio que tinha descoberto que ele não era meu pai, pelo teste de ADN, só lhe fiz uma pergunta, aonde enterravam os prisioneiros, merece ficar, com os outros de sua laia.

Fred passou a viver na universidade, queria sentir-se livre, tinha uma bolsa de estudos que a professora tinha arrumado para ele, vinha nos finais de semana.

Tinha amigos ali na praia, me falava do curso.

Um dia estava em casa, quando apareceu meu editor, com um diretor de cinema, tinha visto o livro, queria fazer uma série, só concordei, se eu mesmo fizesse o roteiro.

Ele já tinha lido o texto, olhou ao Fred, disse que ele encaixava no personagem, quando adulto, querendo saber quem era na realidade, a partir do James.

Fred fez um casting, lhe disse que não abandonasse a universidade, que ia tão bem, nunca se sabe do dia de amanhã, lhe disse que fiz a mesma, já tendo um livro editado, atrasado pelos anos que tinha ficado sem estudar, tive que recuperar meu tempo, como tu estas fazendo com o teu.

Ele fez o casting, estava completamente diferente do que era, quando o trouxe comigo, agora usava uns cabelos compridos, não era moda, mas ele gostava, a única coisa que teria que fazer era usar uma peruca, para ficar com os cabelos iguais aos meus.

Fez um acordo, filmaria depois das aulas, iria diminuir o tempo, faria somente as que lhe interessavam, mas seguiria estudando.

Quando vi o primeiro capitulo, as cenas ainda não eram com o Fred, era eu conversando com o James, me emocionei, o ator que fazia o papel do James era muito parecido fisicamente com ele.

Tinha que tomar cuidado, pois podia me apaixonar outra vez, acabei sim fazendo amizade com o ator, que dizia que lhe tinha dado um personagem fantástico.

Lhe disse que James era realmente assim, tinha me baseado no texto a partir de nossas conversas, não pretendia endeusa-lo.

As vezes vinha estudar o texto comigo, foi ele quem me disse que tinha se apaixonado por mim.

Eu continuei com um pé atrás, pois era um ator, com um passado complicado.

Ele me fez questão de contar toda sua vida, para saber aonde eu estava pisando.

Mesmo assim, consegui separar as emoções como eu dizia, seu passado estava cheio de internamentos por causa de drogas, não queria me meter.

Na segunda temporada, começava, justamente com a morte do personagem do James, como diria o diretor, foi num momento oportuno, tive que mudar alguma coisa, pois ele morreu de sobredose.

Dei graças a deus não ter caído no conto do vigário outra vez, tinha ficado desconfiado desde o começo, pois suas entradas e saídas de clínicas eram famosas.

Fred, que gostava de contracenar com ele, tinha conversado muito a respeito, me disse que ele me via como uma tabua de salvação, o que foi bom, foi que ele viu que o sucesso também traz problemas.

No intervalo de uma temporada para outra, lhe chamaram para fazer um filme, me trouxe o roteiro, era uma besteira, fui franco, se vais fazer por dinheiro, tudo bem, mas isso não te vai fazer crescer como ator, pois é uma besteira.

Ele preferiu fazer uma obra de teatro que tinha aprendido a amar, com alguns alunos da universidade.   Foi um sucesso.

A serie durou cinco temporadas, acabava justamente com o enfrentamento do suposto pai, com o filho, para ele foi um tour de força, pois sabia o que eu tinha passado.

Em seguida lhe apareceram ofertas, mas declinou todas, para terminar seu curso.

Um dia me trouxe um namorado para conhecer, minha intuição foi forte demais, havia algo escondido na personalidade do outro.

A sos com ele lhe disse que tivesse cuidado, alguma coisa não encaixava.

O mesmo se deslumbrou com minha casa, meu canto de escrever, sabia que alguns textos meus tinham virado filme.

Um dia apareceu sozinho, vinha atrás de mim, o que queria era isso, viver às custas de alguém.

Avisei ao Fred, que tinha uma chave da casa, ele escutou toda a conversa do outro comigo, acabei perdendo a paciência, quando me disse que meu primo não tinha a maturidade que ele queria num relacionamento.

Abri a porta de casa, o coloquei na rua, Fred ficou abalado, lhe expliquei, esse é o preço da fama.

Nas férias fomos os dois fazer uma viagem, eu ia ao lançamento do último livro na França e Alemanha, nos divertimos muito.

Ele voltou a viver comigo, estava escrevendo um texto a partir de sua infância, no seio de uma comunidade Amish, o texto ia até a seu descobrimento sexual, o castigo que lhe tinha impostos, comer pão e água salgada.

Lhe sugeri, fazer um curso de escritura, bem como um para escrever os roteiros.

Meu editor adorou a frescura do texto, pois ele falava descaradamente de tudo.

Fui com ele a um encontro com os pais e suas duas irmãs menores, ele deu o texto para o pai ler.

Esse soltou que depois que tinha autorizado a ida dele comigo, tinham sido marginados, lhes ofereci ajuda.  Ele foi franco, nunca tinha vivido fora, só sabia trabalhar na lavoura, as filhas como o Fred, queriam estudar.

A tempos tinham me oferecido, cerca de San Bernardino, umas terras, não era muita, mas dava para manter uma família, falei com o proprietário, um dos diretores que tinha feito um dos filmes baseado em um dos meus livros.

Me disse que podia ir até ver, não consegui vender, mas se me promete um texto novo para filmar, fazemos negócios.

Os trouxemos conosco, meu primo Gabriel, vinha assustado, já sua mulher realizava um sonho escapar da vida controlada que levavam, sequer avisaram ao patriarca.

Fomos diretos até as terras, ele se maravilhou rapidamente com elas, a casa era boa, muito melhor do que a que viviam, com todos os confortos modernos.

Foi como ver desabrochar duas pessoas, passaram a usar roupas como os vizinhos, logo estavam produzindo, as meninas, iam a escola, recuperando como o Fred o tempo perdido.

Agora ia sempre passar os finais de semanas lá com eles.

Conversava longamente com o Gabriel, fui doutrinado a sempre obedecer o patriarca, eu fui o filho menor de todos, éramos muitos, sempre nos teve como escravos.

Tua mãe era a mais velhas de todos, se escapava para estudar, segundo o velho, esse contato com os outros, como ele chama os que não são Amish, são prejudiciais.

Por sorte minha mulher, sempre sonhou em ter uma vida diferente, agora não somos obrigados, nem queremos religião nenhuma, pois estamos fartos de escutar que tudo é pecado.

Tinha agora mais idade, Fred seguia escrevendo, vinha me trazer os textos, tinha finalmente uma família, dizia brincando que eu tinha sido a família dele emprestada, agora ele emprestava a sua.

Como a casa, tinha um quarto imenso no sótão, transformei o mesmo no meu canto, embora tenha comprado em nome de Gabriel, ele me considerava um proprietário, queria me prestar contas, eu dizia que nem pensar, gostava de estar ali, da paz, quando não estava fazendo nada ajudava numa horta imensa que tinham feito, com produtos que vendiam em San Bernardino.

O mais divertido, foram quando viram a série, com o filho fazendo meu personagem.

Agora sabiam realmente o que eu tinha passado, tinha contado para o Gabriel, que me sentia liberado, ao descobrir que não era meu pai, o que cumpria prisão perpetua.

Não o podia perdoar por ter matado minha mãe.

Ele desde seu ponto de vista me entendia.

Fred seguiu escrevendo, era chamado para fazer algum filme, ou serie, me trazia o texto para analisar com ele, as irmãs achavam isso o máximo, mas um dia o escutei dizer a elas, que isso era fantasia, que filmar horas e horas seguidas, era pior que trabalhar no campo.

Que ele preferia escrever, seu livro tinha feito sucesso, enquanto eu ficava no campo, ele usava minha casa.

Os anos foram passando, eu escrevi um livro que segundo o editor, não faria sucesso, mas mesmo assim, publicou, era sobre essa fase do repouso de guerreiro, que eu tinha alcançado, tinha uma amizade boa com meu primo, bem como com um senhor que já trabalhava lá, era um emigrante mexicano, que tinha perdido toda sua família, ele tinha iniciado a horta, cuidava da casa para o antigo proprietário, esse lhe deixava fazer a horta, quando chegou a família do Gabriel, ele foi bem aceito.    As conversas com ele, eram impressionantes, pois tinha uma vivência sofrida, mas atualmente era como mais um da família.

Um dia se declarou, gostava de mim, sem querer eu também dele, fomos nos aproximando devagar, mas falei antes com o Gabriel, que disse que me aceitava como era.

Fui viver com ele na cabana que tinha a muitos anos, no meio das arvores, ali encontrei meu paraíso.

Com a idade, me preparei bem, deixava a casa de Los Angeles para o Fred, o resto ia para minha nova família.

As meninas realizaram o sonho da mãe, ir a universidade, uma foi ser professora, a outra mais complicado, foi estudar medicina.

Numa única tentativa, de manter contato com a família, souberam que o velho os tinha banido, que eu era o culpado, pois como sua filha corrompia a família.

Mas isso não me importava.

Ramiro me chamava de meu garoto, ou My Boy, eu me matava de rir, pois os dois tínhamos a mesma idade, fazia gozação de ele me chamar assim, pois acabava de completar 75 anos.

Ele sabia toda minha história, não lhe escondi nada, bem como ele tampouco escondeu a sua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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