BUOOOM

 

                                       

 

Esse era o som que ele fazia normalmente com os alunos, quando algum acertava alguma coisa que dizia, ou mesmo quando recebia uma notícia que sabia que ia transtrocar sua vida.

Ia a caminho do Fundão a universidade Nacional ali na Ilha do Governador, quando seu celular chamou, seu velho carro, não tinha como ter conectado o mesmo, como os modernos, era um Aero Willys 2600, do ano 1965, tinha sido do seu avô, esse lhe deu quando ele entrou para a universidade, foi a gozação de todo mundo, mas ele não se incomodou, afinal, para o que era, servia, esse ano antes de começar o ano letivo, tinha levado o mesmo a uma oficina ali em Jacarepaguá, aonde vivia, com a velha Babá, ela tinha sido sua mãe desde bebê, a chamava de avô Maria, na verdade se chamava Maria das Dores Fernandes, uns a chamavam de Maria, outros de das Dores, mas ela nem se imutava, outros também a chamavam de Mãe das Dores, pois ela era mãe de Santo.

Seu avô tinha duas filhas, as duas da pá virada como ele dizia, a mais velha ele tinha conseguido casar com um banana como dizia ele, pois fazia tudo que a mesma dizia, já sua mãe, o teve com um namorado da praia, um americano que ela só sabia que se chamava Billy, nada mais, que tinha vindo para um campeonato de surf na Barra da Tijuca.

Foi quando ela pariu, avô Maria, foi ser sua babá, o velho, tinha muitos negócios, sua mãe se casou com um francês, se mandou, o deixando para trás.

Sua tia disse que nem pensar em tomar conta de um Bastardo, o velho pensou muito, achou que era melhor ele ter uma vida comum, sem tantas besteiras como ele via em Ipanema.

Muitos anos depois, ele comprou uma casa no Alto da Boa Vista, dali ele se movia para as fabricas que tinha no subúrbio, era uma dessas casas antigas, meio metidas na floresta, tinha um quintal imenso.

Uma vez por mês avô Maria pedia para um filho de santo o levar para passar o final de semana com o velho.

Esse adorava, pois ele o ajudava na horta que tinha inventado atrás, com a idade, tinha ido vendendo seus negócios, quando ele entrou para a universidade, com 16 anos, foi necessário o velho o emancipar, lhe deu o carro, bem como foi com ele a um banco do Brasil, abriu uma conta, mas lhe dava uma mesada todos os meses, quando o ia visitar, agora que tinha carro, era fácil, mal se formou, fez sua pós-graduação ali mesmo, juntava sim dinheiro para posteriormente fazer uma fora, era professor de Francês, Italiano, Grego, além atualmente ser chefe de departamento de linguística, coisa que não gostava muito, o seu era estar numa sala de aulas.

Mas agora ia duas vezes por semana, ver o velho, esse dizia que os outros netos, filho do banana nunca vinham, ele vivia com o Jerônimo, um homem que tinha trabalhado a vida inteira como seu chofer.  Mas nesses finais de semana que ele ia, se metiam no fundos da casa, na horta do velho, depois o ajudava preparar uma cesta, para levar para a casa de avô Maria.

Essa já não tinha idade, nem para ter casa de santo, mas sempre tinha gente batendo na sua porta atrás de conselhos.

Arrumou um lugar para encostar o carro, atendeu o celular, era o Jerônimo, seu avô tinha morrido durante a noite, já acionei o advogado, pois este tem as ordens para seu enterro, sabe como é tua tia hoje em dia é católica, mas ele era judeu.

Isso ele sabia, seu nome era motivo de gozação Josuwaldo Klein, mas sempre usava o de Waldo Klein, assim não lhe enchiam o saco, a escolha desse nome, parecia uma vingança de sua mãe.

Dizia que ele tinha cara de bebê nordestino, mas depois foi embora.

Jerônimo, disse que ia avisar o advogado para avisar sua mãe e sua tia, imagina a confusão, as ordens era que o corpo fosse levado para uma funerária, que estava acostumada a fazer enterro de judeus.

Ficou mais tranquilo, depois me avisa qualquer coisa, pois hoje tenho que dar vários exames de final de curso.

Sabia que de qualquer jeito, até sua mãe chegar, não seria realizado o enterro.

Imaginou o escândalo de sua tia, a tinha visto duas vezes nesses últimos anos, um dia o pegou na casa do velho, o queria levar para uma residência de velhos lá pros lados de Jacarepaguá, mas ele disse que só saia de sua casa com os dois pés juntos.

Tentou convencer a ele, a ti ele escuta, foi a conversa, foi quando nessa época, passou a ir nas sextas-feiras para lá, passava todo o final de semana com o velho.

Esse lhe tinha entregue a tempos atrás um livro, aqui está toda minha história, mas só leia quando eu morrer, ele tinha guardado o mesmo, estava ali no seu escritório da universidade, pois era aonde ficava depois do expediente, lendo algum livro novo, ou mesmo fazendo alguma consulta, o Hi-Fi lá pros lados aonde morava não era bom.

Deu as provas, enquanto os alunos fazia, ficou pensando no avô, quando era pequeno achava que ele não o queria, mas ele lhe explicou, o que eu não queria era que fosses como teus primos, só vem aqui, por causa de dinheiro, vivem na Barra da Tijuca, num belo duplex, que dei para a mãe deles, quando vendi o apartamento de Ipanema.

O banana seguia levando a última fábrica que ele não tinha vendido, nem sabe administrar direito, não se pode esperar que esses garotos saibam fazer algo, pois os mesmo nunca vão bem na universidade, eles não são os culpados, os professores é que não são bons, segundo tua tia, outra perfeita idiota, quem sai aos seus não degenera, uma mãe idiota, um pai banana, não se pode esperar muito.

Ele se matava de rir, quando começou a trabalhar, disse ao velho que não necessitava mais do dinheiro que lhe dava, agora tenho um salário, vou aprender a me virar com ele.

Dito e feito, o velho nunca mais lhe deu dinheiro, vivia reclamando que os primos que eram mais velhos do que ele, só apareciam logo de manhã no dia que lhes tocava ir visitar o avô, depois em seguida iam embora, mas não trabalhavam.

Depois soltava o famoso “foda-se”, quero ver como vão se apanhar no futuro.

Jerônimo na ultima vez tinha lhe contado que sua tia tinha aparecido, a fábrica não ia bem, queria dinheiro para a manter o argumento que ela não ia aguentar o marido em casa, como ia receber as amigas para jogar o bridge, com ele lá.

O velho lhe deu dinheiro, mas a fez assinar uma série de papeis, que ela nem olhou, deve ter pensado, isso rasgo depois que ele morrer.  Mal sabe que levei tudo, para o novo advogado dele, o velho que tinha morreu, ele resolveu mudar de escritório, esse tem um aqui na praça Saenz Peña, tinha se cruzado um par de vezes com ele.

Era um belo tipo, com os cabelos brancos prematuramente, sabia que o mesmo se chamava Rodrigo Cunha, nada mais.

Quando acabou as aulas, foi para seu escritório, disse para sua secretária que seu avô tinha morrido, que ele ficaria no velório, bem como ia cuidar de seu enterro.

Avisou ao Jerônimo que já estava livre, ele disse aonde seria o velório, segundo o velho ali no cemitério do caju, aonde estava enterrada sua avó.

Tua tia já aprontou um escândalo, dizendo que ela não ia ficar num velório, ali eram capaz de a assaltar, pois era um bairro de marginais.

Não se preocupe, vou ver minha avô Maria, com certeza ela vai querer descer, eu fico com ele a noite inteira.

Dito e feito, ela se arrumou toda, colocou um turbante, de Exu, como ela dizia, amarrado em nome do mesmo, assim nos protegemos.

Sabia que o advogado tinha avisado sua mãe, que disse que estava fora de Paris, mas que ia pegar o primeiro avião, para lá.

Ele ainda pensou, deve estar pensando, que a irmã vai querer tomar tudo.

Nem se preocupou, ficou ali no velório, chegava uma hora que fechavam, Jerônimo foi levar avô Maria para casa, depois voltou, ficaram os dois ali.

Jerônimo, foi lhe contando coisas que sabia do velho, que tinha chegado no Brasil, no meio da guerra, fugido da França, chegou aqui com pouco dinheiro, mas me disse que tinha trazido diamantes que seus pais tinham, os dois ficaram para trás, morreram num campo de concentração como ele me contava, o que era.

Depois de ter sua primeira loja no Saara, afinal se casou com sua avó, era judia também solteirona, filha de um homem que tinha essa fabrica lá nos subúrbios, ele por causa deste foi comprando outras perto, era um homem duro, suas tias saíram a mãe delas, uma mulher fútil, eu comecei a trabalhar com ele, justamente levando esse carro que tens, o levava para cima, para baixo, as lojas do Saara vendiam o que ele fabricava, camisas, calças jeans, roupas de mulheres, tudo que ele tinha.

No final só ficou a velha fabrica do seu sogro, essa ele não vendeu, pois pertence as filhas, o resto vendeu tudo, tu era a alegria dele, quando te apresentava, ia cuidar da horta com ele.

Seus primos não tinham aparecido, só sua tia com o banana, esse parecia perdido.

No dia seguinte pela manhã, Jerônimo foi buscar sua mãe, a levou a um hotel que o advogado tinha arrumado em Ipanema, depois a esperou para levar para o cemitério.

Chegou vestida de luto fechado, inclusive com um véu na cabeça, ele teve vontade de rir, abraçou a irmã que tinha acabado de chegar, mas nem perguntou por ele.

Só quando viu que os velhos amigos de seu avô o abraçavam, foi que entendeu que ele era seu filho, ficou olhando para ele.

Esse velhos amigos, eram os senhores ali do Largo perto de casa, aonde seu avô acostumava tomar uma cerveja, ultimamente era ele que ia até lá, leva-lo, por isso o conheciam.

Sua mãe se aproximou, estendeu a mão para ele, sou tua mãe, ele quase soltou uma gargalhada, pois se a encontrasse por aí, diria, quem é essa mulher.

Ela se assustou de estar sentada atrás dele, avó Maria, que só disse, olá minha filha.

A cerimônia foi simples, ele tinha aprendido a rezar o Kadish a pedido do velho, com um rabino velho que encontrava sempre na casa dele, vivia numa residência ali perto.

Tudo foi muito simples, ele estava num caixão de pinho como tinha pedido, vestido com um terno cinzento que tinha, sem gravata que ele odiava.

Sua mãe já tinha perguntado ao advogado quando seria a leitura de testamento, pois tinha que voltar a Paris, seu marido não andava muito bem.

Não tinha falado mais nada com ele.

Ele tinha as vezes vontade de rir, ela ao lado da irmã, eram totalmente diferentes, uma muito maquilada, nesse caso sua tia, com uma roupa feia, a outra sem muita maquilagem, mas se via retoques estéticos, mas bem vestida.

Os primos chegaram justamente quando ele rezava o Kadish, olharam assustados, não deviam saber que o avô era judeu, pois desde criança iam a igreja católica com o pai.

O advogado disse que já tinha falado com um juiz, que era que tinha o testamento, as duas estranharam, mas o marido lembrou-se que esse era amigo do velho.

Ele ainda ficou um bom tempo, ali ao pé do tumulo, ia sentir falta do velho, sua mãe lhe perguntou se ia para Ipanema na casa do velho.

Olhou espantado para ela, disse que essa apartamento não existia mais, que ele vivia numa velha casa no meio da Floresta da Tijuca, vou para casa levar minha mãe, Maria se despediu das duas, que a tinha olhado de maneira diferente, pois estava vestida de mãe de Santo, com um turbante lindo que ele tinha comprado para ela, bem como um pano da costa que usava para ir aos enterros.

Depois Jerônimo me avisa sobre a leitura de testamento.

Na segunda-feira, ia ser, Jerônimo disse que sua mãe tinha reclamado, queria saber ao que tinha direito, pois tinha que voltar para Paris.

Mas ele não se mexeu para ir vê-la, era uma bela desconhecida para ele.

Foi relaxado a leitura de testamento, na verdade não precisava de nada, imaginava que as duas iriam brigar pela casa velha, não sabia que o velho tivesse mais coisas.

Ia com seu uniforme preferido de ir dar aulas na universidade.

Sua mãe tentou puxar conversa antes de começarem a leitura, era nos julgados do centro da cidade.

Perguntou o que ele fazia, ele lhe explicou educadamente, que era professor na universidade, que tinha estudado graças ao seu avô.

Ela o tinha visto chegar no velho Aero Willys, nem sabia que existiam ainda, ele disse que era um presente do velho.

Podia ter te dado um do ano, com o dinheiro que tinha.

Mas se eu adoro esse, eu poderia ter comprado um novo, mas gosto desse, foi dele muitos anos.

Agora tinha esse que o Jerônimo foi busca-la, creio que comprou de segunda mão de um amigo dele.

Sempre tudo de segunda, foi o que ela disse.

O juiz entrou, ele se afastou se sentou mais atrás.

O juiz o chamou primeiro, lhe entregou um envelope pardo, grande, só abra depois da leitura foi tudo que disse.

O testamento é simples, antes de fazer o mesmo, retirou o que tinha com seu antigo advogado, já esse novo fez na minha frente, bem como de um médico, um psicólogo, para atestarem que tinha plena consciência de tudo.

Começou pelo mais simples, seu carro novo, bem como um envelope com os documentos do mesmo, mais alguma coisa, era para o Jerônimo, que tinha sido seu fiel escudeiro, assim estava escrito.

Para minha filhas, ficam a fábrica que pertencia ao avô das mesmas, atualmente sei que está em situação delicada, eu inclusive investi na mesma para não fechar, portanto, a divisão é a seguinte, a mais velha, casada com o banana, o juiz levantou a cabeça, perdão, mas está escrito assim, ele estava com vontade de rir, mas ficou com a cara impenetrável, tem 45 %, o resto é de minha filha que vive na França, a decisão depois é das duas.

Para os filhos do banana, dois envelopes com dinheiro, para estudarem, devem ficar com o advogado, os mesmo devem estar na universidade para receberem mesada, só receberão o total quando terminarem a mesma, a cara dos dois era cômica, um olhou para o outro, como dizendo estamos fudidos.

Uma conta no banco, o dinheiro é para ser dividido entre minha duas filhas.

Para meu neto Waldo Klein, a casa do Alto da Boa Vista, quero que ele continue cuidando do meu horto.

Nada mais disse o juiz.

As duas perguntaram ao mesmo sobre o dinheiro da venda das outras fabricas, bem como das lojas do Saara, creio que está nessa conta no banco, depois o advogado as levarão lá para dividirem.

Ele ficou quieto, o juiz avisou que a escritura da casa que tocava a ele, estava no envelope.

As duas queriam saber o que continha o envelope, mas ele não disse nada, foi embora com seu Jerônimo, foram para a casa de Mãe Maria, ele queria convence-la de ir viver com ele lá.

Mas ela foi taxativa, não podia deixar sua gente.

No que ia abrir o envelope, um vizinho chamou o seu Jerônimo, duas mulheres tentavam entrar na casa, sabiam que esse vizinho tinham uns cachorros bravos, disse para chamar a polícia, pois a propriedade não era dessas senhoras, quando a polícia chegou, disseram que eram as herdeiras da casa, o chamaram, ele disse que estava a caminho, que elas apresentassem os documentos, foram parar na delegacia.

Sua mãe ofendida, dizia, aonde já se viu um filho fazer isso.

Só se for filho da puta, a senhora não me cuidou nem um dia, não venha com essa conversa agora.   O que queriam lá.

O dinheiro do banco é pouco para as duas, então na casa deve ter mais.

Se tem, é meu, pois a casa é minha, elas dormiram na cadeia, pois ele se recusou tirar a denuncia de invasão de propriedade.

Entraram na justiça contra ele, tinha deixado de proposito os documentos na casa de avó Maria, assim não tinha problemas.

Diante do juiz, com o advogado de seu pai, disse que tinha recebido essa casa de herança, pois seu avô sabia que ele ia cuidar da horta que adorava.

Vais viver naquela casa caindo aos pedaços disse sua mãe horrorizada?

Sim, porque, eu sempre cuidei dessa horta com meu avô, bem como com o Jerônimo, este vivia lá com o meu velho.

O juiz disse que elas perturbavam muito, tinha herdado a fábrica, que mais queriam.

Foi sua mãe que soltou, a fabrica está arruinada, meu cunhado nunca a soube administrar, antes tinha as lojas que vendiam o que se fabricava, mas o velho vendeu tudo isso, aonde está esse dinheiro.

Na conta do banco das senhoras.

Mas se transformo tudo isso em Euros, não significa nada.

Ele o que fez, foi mandar trocar a fechadura da casa, de noite faziam uma coisa, pediram para o vizinho um dos cachorros, este vigiava a casa.

Levou um bom tempo, sem tomar providencia nenhuma do que continha o envelope, tampouco, leu o que tinha dentro.

Sua tia comprou a parte de sua mãe da fábrica, assim ela foi embora, em breve saia no jornal que tinha vendido a mesma para um grupo de fora.

Ficou imaginando quanto tempo poderia viver como estava acostumada na Barra da Tijuca.

Ainda tinha o problema dos filhos, pois os dois estavam atrasados nos estudos, tinham repetido vários anos, acabaram perdendo a parte que lhes correspondia para irem à universidade.

Se isso acontecesse, esse dinheiro era para dar bolsa de estudos a garotos de um orfanato.

Sua tia queria o dinheiro, mas o juiz lhe denegou, estava ali no testamento.

Finalmente ele leu o que o velho tinha deixado, dentro do envelope, tinha um menor com chaves de duas caixas fortes do banco.

Foi com o advogado até lá, numa, estava cheia de ações do governo, era um tipo de investimento impressionante, valiam muitos milhões, nunca desvalorizavam.

Na outra era uma escritura do antigo apartamento de Ipanema, caso ele resolvesse vender a casa.   Além de um hábito muito judeu, explicava na carta, eu herdei de meu pai, duas bolsas, foi como comecei minha vida aqui, recuperei tudo que tinha vendido, estão para ti, fazeres o que quiseres.

Foi quando ele viu, as duas contas que tinha no banco, numa desde a época que ele estava estudando, era dinheiro para ele fazer a universidade, mas ele tinha feito com bolsa de estudos, agora podia usar para sua pós-graduação, a outra era sua parte na venda das outras fabricas, era a mesma quantidade de dinheiro que tinha dado as filhas.

Nessa época avó Maria morreu, foi um enterro para ninguém botar defeito, cheio de filhos de santos que ela tinha ajudado.

Foi quando descobriu que Jerônimo era seu irmão, pois deixou para ele, o que tinha recebido do velho.

Ele resolveu ficar vivendo lá.

Apareceu um comprador para a casa, ele vendeu, mandou reformar o apartamento de Ipanema, enquanto isso foi dar uma olhada como poderia fazer sua pós-graduação, aproveitou que as aulas não tinham começado ainda.

Voltou, terminou a ano letivo, só depois então tirou uma licença que se concedia aos que iam fazer pós-graduação, inclusive nesse ano tinha feito uma coisa que sempre tinha tido vontade de fazer, aulas de hebreu, o fazia com um colega da universidade, se sentava com os outros alunos, como se nada.

Podia ter trocado de carro, mas o mecânico lhe disse que o seu estava muito bem, seguia usando o mesmo, ia sempre visitar seu Jerônimo, ele aproveitou o dinheiro que tinha recebido, ajudava num orfanato, para aonde tinha ido o dinheiro dos primos.

Procurava ignorar tudo relativo à sua mãe, bem como sua tia.

Essa lhe foi procurar na universidade, basicamente tinham perdido tudo, tinham vendido o apartamento na barra da tijuca, queria saber se podiam viver na casa.

Quando ele disse que tinha vendido a mesma para o vizinho, que cultivava a horta, ficou uma fera.

Queria era dinheiro, ele foi obrigado a chamar um segurança da universidade para tira-la de lá.

Quando saiu seu carro estava todo riscado.

Tinham gravado, como era moda, logo estava na internet, podia a denunciar, mas como ia viajar em seguida, guardou o carro na garagem, logo quando voltasse resolvia.

O velho tinha uma ladainha, essas nunca trabalharam, viviam de gastar dinheiro, achavam que caia do céu, um dia vão dar de cara com a dura realidade.

O banana, estava fudido, ninguém lhe dava emprego, pois sabiam que era um mal administrador, dois filhos que não tinha estudado nada, viviam na farra, surf, nada mais.

Eles não sabiam do apartamento de Ipanema, ele tampouco mencionou, só disse que vivia em outro lugar.

Só deixou avisado que qualquer coisa falassem com seu advogado.

Só levou com ele, o diário do seu avô para ler com calma, o mesmo estava escrito em francês.

Nele ia contando toda sua história, que quando os pais viram que a coisa ia ficar feia, estavam velhos, lhe disseram para ir embora, lhe deram dinheiro, conseguiu que um conhecido o levasse até Marseille, embarcou num barco que ia para Buenos Aires, mas resolveu descer no Rio de Janeiro, quando viu o panorama.

Podia ter vendido a fábrica, mas tinha se casado com separações de bens, então a fábrica pertencia a suas filhas.

Na Sorbone, aproveitou para aprimorar seu hebreu, fez a pós-graduação que queria, tinha alugado um pequeno apartamento ali perto, de um professor que fazia justamente isso, tinha o mesmo para estudantes de pós-graduação.

Estava bem, uma dia fazendo um passeio de final de semana, nunca tinha ido para os lados da Madeleine, deu de cara com sua mãe que saia da missa com seu marido.   Ela lhe fez um sinal, mas se aproximou, falou com ela em português, como ia, o marido lhe perguntou quem era ele.

Ela respondeu que seu sobrinho.

Ficou de boca aberta, passou a falar em francês, o homem lhe perguntou que fazia em Paris, ele disse que pós-graduação, bem como estava estudando mais a fundo a língua original de seu avô que era o hebreu, ele era daqui.

Dias depois encontrou o mesmo conversando com seu professor.

Ela tinha acabado confessando que ele era seu filho.  Os dois não tinham filhos, o convidou para tomar um café ali perto.

O homem como era educado, nunca soube que ela tivesse um filho de antes do casamento, mas depois nunca mais, tinha sim abortos, ao mesmo tempo nunca escondeu que não gostava da ideia de ter filhos.

Eu tampouco tive, tudo que é meu, irá para a família de meu irmão menor, nada vai ficar para ela, me contou a história da morte de seu avô, bem como o testamento.

Ele contou para o outro, que sua tia estava arruinada, pois sempre viveram as duas gastando mais do que tinham, enfim não posso fazer nada, estou cuidando da minha vida.

Entendeu quando o homem falou, que se ele tivesse um filho, mesmo que fosse de sua mulher, não teria que dar nada para o irmão.

Ficou quieto olhando para o homem, lhe perguntou diretamente se isso era ideia dele, ou dela.

Ele lhe deu um sorriso murcho, disse que dela.

Então nada feito, me abandonou para trás, sem olhar, fui criado por uma mulher espetacular, me educou, fui um bom aluno, podia ter pedido dinheiro ao meu avô para fazer universidade, mas fiz com bolsas de estudos, nada de gastar dinheiro, ainda se mofaram de mim, contou para ele de seu carro, eu o adoro, depois o que sua tia tinha feito, lhe mostrou o vídeo.

Elas nunca se preocuparam com ele, tua mulher, não disse minha mãe, nunca foi visita-lo, tampouco lhe chamava para saber como estava, se precisava de alguma coisa.

Nunca se interessou por mim, portanto, obrigado, não necessito do seu dinheiro, tenho o meu, trabalho, tenho como ganhar dinheiro, mas nada vindo dela.

O homem foi embora murcho, não se incomodou, dias depois foi com um companheiros para o sul, fazia um calor infernal em Paris, soube que ela tinha batido na sua porta.   Mas quando voltou a seguiu ignorando.

Ainda pensou numa coisa que o velho sempre dizia, as pessoas se esquecem que o mundo dá muitas voltas.

O velho, contava que quando chegou ao Brasil, tinha se apaixonado por uma mulata, dizia que tinham sido amantes a vida inteira, essa era a avó Maria das Dores Fernandez, por isso se davam bem, confiava nela.

Se arrependia ter-se casado por interesse com a mãe de suas filhas, pois se conseguia que a fábrica vendesse algumas coisas exclusiva para ele, ganharia mais.

Jerônimo como era irmão de Maria das Dores, era seu motorista, seu faz tudo, assim foi comprando as outras fabricas.

As filhas nunca foram a universidade, adoravam festas, ir ao arpoador, conviver com os surfistas, daí seu pai ser algum que apareceu por lá.   Falava que a outra também tinha se casado com o banana, pois estava gravida de um surfista.

Essas nunca vão fazer nada direito na vida, dizia no diário, ele soube que sua mãe estava gravida dele, a levou para ficar com Maria das Dores, nunca tinham deixado de se ver, por isso, ela foi cuidar dele.

Pensou, foi uma mãe maravilhosa, contava também que na mesma época ela tinha ficado gravida dele, mas a criança tinha nascido morta, por isso, ela tinha lhe amamentado.

Quando sua filha se casou com o francês, indo embora, ele achou por bem que ele fosse viver com Maria das Dores, assim não se corrompia com o ambiente em Ipanema, seria alguém forte, educado por uma mulher forte.

Depois comparava essa decisão dele, como ele via a filha criando os filhos na Barra da Tijuca, mal alunos, enquanto ele que estudava em colégio público, tirava boas notas.

Falava dos finais de semana que passava com ele, lá na horta, as conversas que tinha, tive sorte de ter esse neto, por isso, procuro que tudo seja melhor para ele.

Se lamentava de ter-se afastado da religião, mas que tinha retornado, deveria ter ensinado meu neto a falar hebreu, já que ele tem facilidade, quero que reze o Kadish no meu enterro.

Ele quando acabou a sua pós-graduação, voltou para a universidade, dois anos depois foi para Israel, estudar na universidade hebreu, como outra língua.

Quando voltou, soube pelo advogado que sua mãe tinha aparecido, estava viúva, só tinha direito a uma pensão do marido, teve que abandonar o apartamento que vivia, por ser da família, contou para ele a conversa com o marido.

Ele nem sabia que ela tinha um filho, imagine.

Mas não lhe dei seu endereço, quando reassumiu seu cargo, soube que tinha ido procurar por ele lá.

Nesse meio tempo, tinha mandado pintar o carro, na cor original, negro.

A recebeu, depois de dar aulas, a escutou falando, sei que vives bem, me informei a respeito, inclusive creio que vives no antigo apartamento da família.

Não era totalmente verdade, ele o tinha vendido, comprado de um companheiro que se aposentava, pois o dele tinha uma biblioteca imensa, que lhe deixava, era quase no mesmo quarteirão.

Só lhe disse que não, que não vivia nesse apartamento, vivo em outro que comprei de um colega.

Ela lhe pediu dinheiro, pois viver com a pensão que tinha do marido em Paris, era quase impossível.

Ficou olhando para a cara dela, teu marido me procurou, me neguei, sigo me negando a entrar no seu jogo, case-se com outro velho rico, quem sabe, possas levar a vida de antes.

Ela ainda teve a coragem de reclamar que não tinha ajudado sua tia, que a coisa estava feia, que tinha se divorciado do banana, que este tinha ido embora para São Paulo, que um dos filhos estava envolvido com tráfico de drogas, o outro foi com o pai.

Vê nem sabia de nada disso, eles nunca foram minha família, ao contrario antes que a senhora diga que me cuidou, me evitava, ainda por cima me chamava de bastardo, agora sei que se casou, o filho que a senhora diz que está nas drogas, não era filho do banana.

A cara da mãe, desmoronou, disse que sua tia, vivia num studio em Copacabana, com o pouco dinheiro que tinha.

Bom, sinto muito mas tenho que trabalhar, perdes teu tempo me cercando, não vou ajudar em nada.  Ela quando saiu, estava fazendo o mesmo que a tia tinha feito, arranhar seu carro, mas a policia da universidade a pegou.

Quando lhe chamaram dizendo que a mesma tinha falado que era sua mãe, ele soltou, não tenho mãe, sou órfão, pode prender esse mulher.

Por sorte ia para um congresso, em São Paulo, falou com seu advogado antes, não retire a queixa, diz que não sabes aonde estou, assim elas aprendem.

Soube depois que tinham voltado as duas para Paris, se apoiavam.

Anos depois soube que tinha se casado com um amigo do marido, sua tia também, enfim tinham se virado como sabiam fazer, manejando as pessoas.

Ele seguiu em frente, sua primeira experiencia em escrever, contou a história de seu avô, como tinha sido sua infância e juventude, até escapar para o Brasil.

A escreveu em francês, assim tinha possibilidade de publicar lá.

As duas apareceram numa tarde de autógrafos, queriam um livro de presente, mas ele se negou, se querem ler a história de vosso pai, comprem.

Depois diriam que tudo era mentira, que o pai era de uma família milionária.

Por sorte, como vinha sempre a Paris, nunca mais se cruzou com nenhuma das duas, ficava admirado da tia, ter-se esquecido completamente dos filhos, o que tinha virado traficante, morreria na prisão, nem se moveu de sua nova vida para vir.

Quem lhe avisou do enterro, foi o banana, o tinha considerado seu filho a vida inteira, lhe contou que o outro tinha endereçado, talvez porque São Paulo, não tem praia, nem surf.

O ajudou com o enterro, disse que tinha voltado a dar aulas, que se sentia realizado.

Nunca gostei de administrar aquela fábrica, estava obsoleta, mas teu avô dizia que era delas, que se apanhassem.

Ele seguiria sua vida por muitos anos sozinho, nunca tinha se apaixonado por ninguém, homem ou mulher, até que conheceu um professor novo, que veio trabalhar no departamento, esse vinha da universidade de Brasília, era professor justamente de hebreu, quando começaram a falar, disse que lá os jovens não se interessavam.

Não espere muito daqui, é igual, os jovens de hoje, são cada vez mais chatos, se interessam pelas redes sociais como dizem, internet, nada mais.

Quando viram eram companheiros, fizeram várias viagens a Tel Aviv, depois ele pensou muito, tinha dinheiro por muito tempo, quando Jerônimo um dia lhe chamou, foi visita-lo no orfanato, agora vivia lá ajudando.  Lhe falou de um garoto, lhe mostrou, era até parecido com ele, a mãe é judia, mas a família a obrigou a deixar o garoto aqui, está como perdido.

Saiu no pátio, o garoto ficou olhando para ele, era como se o conhecesse.

Acabou o adotando, seu companheiro não gostou, disse que criança com ele, nada feito, não se importou, não podia dizer que o amava com loucura, apenas se davam bem.

Anos depois nem se lembraria mais dele.

Apesar da idade, o criou como sempre tinha querido ao ter um filho, o colocava na cama, conversava com ele, foi morar numa casa lá em cima, perto aonde vivia o Jerônimo, esse era como o avô da garotada toda.

Cada vez que lhe dizia que algum poderia ir em frente, estudando, ele ajudava, ainda tinha muito dinheiro no banco.

Já estava beirando os 85 anos, quando seu filho se casou com uma garota que tinha estado no orfanato, hoje trabalhava lá ajudando.

Logo teve netos, mas seguiu ajudando sempre ao Jerônimo, esse morreu já com quase 100 anos, dizia sempre, sou duro na queda, tinha a cabeça completamente branca.

Ele sempre tinha desconfiado que o mesmo era o filho do seu avô com Maria das Dores, mas ele dizia que não.

Com jeito ficou no lugar dele, no orfanato, ajudando no que podia, depois ia para casa da sua pequena família.

Os netos adoravam que ele os colocasse na cama, contando histórias.

Se lastimava disso, o avô poderia ter feito isso com ele, teria adorado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentarios

Entradas populares de este blog

PRECISO ANDAR

DR. CASTELLO

CORPUS CHRISTI