GRIOT
Ernest Hirst, tinha ido até Los Angeles,
para fazer uma entrevista com a figura de um ator francês, que era o grande
sucesso do momento.
Era raro isso, um ator negro, oriundo do
Senegal, que tinha se destacado ao longo de 15 filmes, ser chamado para fazer o
papel de um negro, num filme americano.
Ernest, além de no fundo ser proprietário
de um canal de televisão, não era o diretor principal do mesmo, tinha herdado
de seu pai, mas ele o que gostava era estar pelo mundo fazendo entrevista, que
depois passava uma vez por mês no canal.
A tempos esperava essa entrevista com Sam Diop,
finalmente tinha conseguido, não ia como todos os outros, com uma equipe
inteira, para filmar, tudo que levava era um pequena gravadora de vídeo, de
última geração, que alternava com o celular.
Chegou a Los Angeles, avisou que estava num
hotel cinco estrelas, o outro lhe disse que o esperava para jantar na casa que
o estúdio tinha arrumado para ele.
Pensou na típica mansão de artistas de
cinema, deu com os burros n’água, era uma casa simples num bairro residencial,
de classe média.
Ainda perguntou ao taxista, se tinha
certeza do endereço, desceu do carro, foi até a porta, tinha mandado o mesmo
esperar, realmente era ali, o próprio abriu a porta.
Um negro de dois metros de altura, mas com
um sorriso impressionante na cara.
Ele explicou que quando tinha chegado,
tinham realmente lhe arrumado um hotel cinco estrelas, mas isso não ia com ele,
precisava de um lugar tranquilo para ensaiar os textos, nada que lhe distraísse
de seu trabalho.
Começou com isso, ele lhe mostrando a casa,
que era como todas as outras de família, ali por perto.
Comentou que tinha preparado uma salada,
aqui é tudo diferente, mas as senhoras do bairro, me ensinaram aonde comprar.
Ele ia filmando tudo isso, desde a porta de
entrada, sua intenção era captar como vivia um ator francês que tinha feito
primeiro sucesso no seu pais, o que Diop corrigiu, eu sou senegalês, nunca me
naturalizei.
Embora fale francês desde criança, tive
somente que perder a maneira que tem os da minha terra de pronunciar certas
palavras.
A conversa era franca, ele ia tirando todos
os estereótipos que se tinha de atores famosos.
Eu também estranhei quando me chamaram para
esse filme, aceitei somente porque o roteirista escreveu um dos meus primeiros
filmes franceses, foi ele que exigiu que eu fosse o ator principal, ele também
é negro, oriundo do Senegal, como eu.
Ele volta e meia frisava isso, seu lugar de
origem.
Depois de jantarem, conversando, se
despediu, pediram um taxi para o levar para o hotel, se veriam no dia seguinte
no studio, no último dia de filmagem, ele aproveitaria para entrevistar o
diretor do filme, o roteirista, inclusive alguns atores americanos.
Quando chegou ao hotel, pensou ele tem
razão, para que se hospedar num hotel como esse, de alto luxo, quando só venho
para dormir.
No dia seguinte, o estúdio tinha mandado
uma limousine para o recolher, se negou sentar-se atrás, foi conversando com o
motorista, tinha pedido licença ao mesmo, para o ir filmando ao mesmo tempo.
Lhe perguntou se alguma vez tinha levado o
Diop?
Só no primeiro dia, ele vai para o estúdio
de ônibus, como todo mundo faz, do lugar em que vive.
Quando o levaram para o estúdio, estava
começando a gravar uma cena.
O ator americano com quem ele contracenava,
errou duas vezes o texto, na terceira acertou, ele estava sentado ao lado do
diretor, o mesmo mencionou, que sonhava com isso, os atores que sabiam o texto
na ponta da língua, ele não errou nenhuma vez.
Todos, inclusive eu, tínhamos sido
contrários a sua contratação, imagina um francês fazer esse papel, teríamos que
dublar o mesmo.
Mas nada, no primeiro dia, ele já falava
inglês, perfeitamente, quando não sabe se a pronuncia é certa, pergunta.
Quando filmaram a última cena do filme, a
não ser que fosse necessário, ele estava livre, o viu agradecendo todo o
pessoal técnico, um a um, apertando a mão da pessoa, dando abraço e beijos ao
pessoal que cuidava dele.
Estava entrevistando a todos que tinham
trabalhado com ele, quando se aproximou, disse que tinha que ir rapidamente
para o Senegal, recebi um pedido de socorro.
Passou pelo seu hotel, pegou a bagagem,
quando um simples taxi, apareceu, ele ainda pensou que viria a limousine.
Quando chegaram no aeroporto, o próximo
avião que saia, só tinha lugar em primeira classe, o viu pensar a respeito, lhe
disse que não se preocupasse, pagava ele.
Comprou os dois bilhetes para Paris.
No avião foi conversando com ele, explicou
que o grito de socorro, era da Irmã Marie, do orfanato aonde ele tinha sido
criado, lá só estão agora meu irmão Dado, ou 1.2.1.2, como está em seu
registro.
Lhe contou que ele estava lá, pois seu pai
era um Griot, lhe explicou o que era isso, um contador de histórias, a
verdadeira tradição oral da historia dos Orixás, que o mesmo ia de vila em
vila, fazendo isso, como sua mãe tinha morrido, o deixava com Irmã Marie.
O lugar recebe poucas ajudas, a tempo a
diocese, foi transferindo as crianças para outros lugares, só ficou ela, esta
tudo caindo aos pedaços, não posso deixar meu irmão lá.
Mas é teu irmão de verdade?
Nada, eu estava lá pela primeira vez,
quando o deixaram, era um bebê, que tinha nascido antes do tempo, tem algum
problema, nunca cresceu, tem agora quase 20 anos, mas tem o corpo proporcional
de uma criança de uns 8 anos, nada mais.
Segundo me disse ele, tem agora com eles,
uma criança com problemas, a diocese disse que tem que sair do lugar, pois
venderam o mesmo, o último a cair, foi a pequena capela de lá.
Eu devo tudo que sou a ela, foi quem me
ensinou a ler, escrever, depois arrumou uma escola para que eu fosse estudar,
aprendi inglês lá.
Quando chegaram a Paris, foram ao balcão da
companhia, viram o voo seguinte, nessa parte eles foram dormindo, estavam exausto.
Quando chegaram a Dakar, procurou um hotel,
era muito tarde da noite, ficaram quarto com quarto.
Despertou de manhã, com alguém batendo na
porta, olhou para o relógio, eram as seis da manhã.
Tomou um banho rápido, lavou os dentes,
comeram na rua, numa padaria que ele parou para comprar coisas para levar.
Quando bateram na porta, abriu a mesma um
garoto que se jogou nos braços dele, ele mal teve tempo de gravar isso, pediu
que repetisse outra vez, o garoto, olhou para ele, soltou, mais um louco do
cinema.
Repetiu a cena, assim abraço meu irmão,
estendeu a mão para ele Dado, lhe disse.
Entrem, era um lugar imenso, como um grande
salão, irmã Marie, esta rezando no que sobrou da capela.
Sam o corrigiu, rezando não, falando com
ele, reclamando que não a atende.
Ali nesse grande salão, se via várias camas
encostadas a parede, numa estava um garoto, que quando viu o Diop, sua cara se
iluminou.
Tinha a perna um pouco torcida, Diop se
debruçou sobre a cama o beijando, nisso entrou uma mulher de quando muito 1,65
metros de altura, com um sorriso imenso na cara.
Diop a levantou do chão, ela rindo lhe
disse que isso era uma falta de respeito, o que ia pensar esse homem dela.
A idade da mesma era indefinida, depois
veio até ele, lhe deu dois beijos estalados na cara.
Tenho café pronto, Diop lhe entregou a
bolsas com croissant, pão, coisas para os garotos.
Dado, foi até a cama, encaixou o outro
garoto na sua lateral, o trouxe até a mesa.
Esse como sempre não para, o que tem de
pequeno, tem uma bateria, muito forte.
Bateria, perguntou?
Ela respondeu, pilha.
Qual a situação, perguntou o Diop, com a
boca cheia, dando um trago no café.
Bom temos dois dias para sair daqui, o
pequeno, não consegui que o operassem, dizem que necessita de uma prótese, mas
isso não tem aqui.
Dado se negou a ser remanejado, pois me
deixaria sozinha, passou a mão pela cabeça do mesmo que parecia um gato.
A mim, me mandam outra vez para a França, a
diocese diz que só dou problemas, que nunca obedeço a ninguém, com certeza de
castigo me mandam para um convento de voto de silencio.
Soltou uma gargalhada imensa.
Diop explicou, que isso era a morte, pois
ela falava sem parar.
Ele escutou tudo, perguntou se a embaixada
francesa não tinha ajudado em nada?
Ajudar, todo o dinheiro que consigo a
arquidiocese passa a mão, por isso, veio tudo abaixo.
Diop, perguntou ao meninos se a perna doía
muito.
Mas sou homem como diz meu amigo Dado,
aguento.
Ele resolveu tomar conta da situação, por
isso o odiavam em Paris, disse ao Dado, para conseguir um taxi, foram todos ao
hospital.
Demoraram para ser atendidos, até que ele
se esquentou como sempre, finalmente um médico atendeu, explicou que o problema
do garoto, era difícil de curar ali, o máximo que poderiam fazer, seria amputar
a perna, dar-lhe uma muletas para ele ir vivendo.
Ele telefonou dali mesmo ao advogado da
empresa, um grande amigo seu, explicou a situação, vou agora para a embaixada,
fale com o puto embaixador, depois me mande o avião da empresa, tenho que levar
duas pessoas que não tem documentação.
A irmã Marie, disse, como gosta de dar
ordens.
Diop lhe explicou, que ele parecia um
simples jornalista, mas era dono de um dos maiores canais de televisão da
França.
Tomaram um taxi, o médico só tinha
receitado um remédio para a dor do garoto.
Foram para a embaixada, o mesmo já tinha
sido avisado, ele disse que precisava de hospedar ali, o pessoal, quando falou
que os ia retirar sem documentos, o homem levou as mãos a cabeça.
Os deixou ali, foi ao hotel buscar suas
coisas, bem como a do Diop, fechar a conta, ao mesmo tempo, irmã Marie, ia com
esse até o que restava do orfanato, para buscar os documentos que tinha dos
garotos.
Ou seja somente o registro de entrada deles,
já tinha explicado, que só davam um nome, um número, como tinha irmão do Diop.
Ela trouxe a pouca roupa que tinham, bem
como um hábito mais limpo do que estava.
De noite, se sentaram num salão que tinham
oferecido para esperarem.
Ela começou a contar, que o pai do Diop,
como era um Griot, oferecia sempre uma apresentação no orfanato, daí sua
amizade com ele, quando ficou viúvo, cada vez que saia pelas aldeias, deixava o
Sam por lá.
Quando o mesmo foi assassinado por
mulçumanos, pois diziam que o que ele contava eram mentiras, ele ficou conosco,
mas era o único que saia com o Dado para conseguir dinheiro, foi assim que o
diretor de um filme o viu numa praça, o incluiu na filmagem, acabou o
arrastando para Paris.
Foi uma coisa interessante, eu estava com o
Dado, numa praça, no meio de uma feira, contando histórias, esse homem chegou
cheio de carros, iam filmar ali, me viu eu contando uma história, ele fazendo o
som.
Inocente perguntou, tinham uma trilha
sonora.
Diop se matou de rir, disse para o Dado,
que ele fizesse da história da baleia.
Ele começou a emitir com a boca, sons que
imaginavam que eram de uma baleia.
O pequeno se matava de rir, o melhor era
quando não tínhamos luz, fazíamos isso a luz de velas, usando as sombras.
Uma mulher que tinha parado para escutar,
trouxe uma, apagaram as luzes, Diop, soltou um pigarro, colocou uma voz
fantásticas, começou a contar a historia da Baleia, era parecida com a
católica, mas no caso era um pescador.
Ele teve que conter a risada, pois Dado, ia
fazendo o som, bem como fazia sombras na parede, contando o resto da história.
Quando acabou, ela disse, assim traziam
dinheiro para nos ajudar.
O diretor o viu fazendo isso.
Se lembrou do filme, realmente era isso, o
Diop, com cara de adolescente.
Por que dizes que Dado é seu irmão?
Quem contou a história foi irmã Marie,
quando Dado chegou ao orfanato, estava numa caixa de sapato, a marca tinha esse
nome, Dado.
Só ficava quieto se estivesse nos braços do
Diop, se ele se descuidava, como era gordinho nessa época, queria mamar nele,
inventei uma maneira, fiz uma mamadeira, com um saco desse de decorar bolos,
pendurava no ombro do dele, o menino pensava que estava mamando num peito.
Mas vim com defeito de fábrica disse rindo
o Dado, nunca cresci, fiquei com esse tamanho.
Nunca tivemos dinheiro para leva-lo a um
médico, deve ser algum problema hormonal, inclusive o levei a um babalorixá,
para consultar.
Ele ficou de boca aberta, ao escutar isso,
uma Freira, indo a um pai de santo, era o máximo.
O homem sempre nos ajudou, jogou seus
búzios, lhe disse que um dia no futuro, um homem branco ia aparecer, o levaria
para longe, ia ser seu filho, ia crescer, mas não muito.
O outro menino, nem nome tem, estava
abandonado na rua, com a perna desse jeito, o levei mil vezes ao hospital, mas
dizem que nada podem fazer.
Um médico ainda me disse, que se fossemos
ricos, nos mandaria para Paris, lá sim isso seria possível.
No dia seguinte recebeu uma mensagem, que o
avião já estava num hangar no aeroporto, que fossem para lá, os três tinham
passaporte, Irmã Marie, tinha o seu caducado a mais de 15 anos.
O embaixador, mandou um carro negro o levar
ao aeroporto.
No carro foi dizendo, filho da puta, deve
estar dando graças a deus, nos ver pelas costas.
Quando chegaram, viram que tinha um
policial, junto a escada, ele e Diop, juntaram todas as notas grandes de euros
que tinham, mandaram os meninos ficarem deitados no chão.
Saíram os três, falaram com o policial, o
piloto fez um gesto que ele conhecia, queria dinheiro, o foi afastando do
avião, enquanto Diop, colocava a freira para dentro do mesmo, depois levava os
meninos nos braços.
Ele deu uma bolada de dinheiro para o homem,
só as primeiras notas tinham valor, ali estavam misturadas, notas de euro e
dólares.
O homem estava contente, entrou rapidamente
no avião seguido do Diop, disse ao piloto, para sair o mais rápido possível.
Quando estavam a cabeceira da pista,
disseram que alguém da embaixada tinha telefonado, que não deviam partir, ele
soltou ao piloto, cebo nas canelas.
Já era tarde o avião estava no ar.
Pela rádio fez contado com o seu advogado,
iriam aterrissar em Beauvais, de lá, esperava um carro, como o anterior, os
levaram para o apartamento do Ernest.
Ele foi explicando que não estranhassem,
pois ali vivia seus pais, eu herdei o mesmo, mas nunca vivi aqui, passei anos
no internato, depois, na universidade estudando jornalismo, em seguida fui pelo
mundo trabalhando.
Eu disse a minhas irmãs, que reclamavam que
tinha recebido pouco de herança, são milionárias, casadas com homens ricos, que
levassem daqui, tudo que quisessem, só não deixe levar nada da biblioteca, que
é meu lugar preferido.
As paredes estavam vazia, se viam marcas de
quadros, mas não havia nenhum.
Tinha um senhor com uma certa idade, era o
mordomo, o apresentou como Jonas.
Ele junto com a irmã, foram providenciar
quarto para os meninos, ele tomava o dado como um garoto, queria colocar cada
um num quarto, mas ele disse que o amigo precisava dele.
Ao mesmo tempo dali, ele já estava falando
com o hospital, com seu médico de família, quem ele aconselhava para atender o
garoto.
Resolveu chama-lo, como ele, Ernest, disse
que era seu filho.
Este lhe deu um nome, telefonou em seguida,
se identificou, como dono do canal de televisão, o atenderiam no dia seguinte
pela manhã.
Jonas perguntou o que queriam comer, ele
disse que coisas ligeiras.
Irmã Marie, disse que precisava ir à
Igreja, ele foi mostrar aonde tinha uma ali ao lado de seu apartamento.
Os meninos tinha adorado tomar um banho de
chuveiro, nunca tinham visto.
Deu dinheiro ao Jonas para ir comprar
roupas para eles.
Em seguida se fechou a biblioteca,
conversando com seu advogado, tinha resolvido adotar os dois, embora Dado já
tivesse idade, podia passar por seu filho.
Lhe importava uma merda, se os dois eram
negros.
Diop ria muito, concordei em te dar essa
entrevista, por isso, sempre ouvi falar bem de ti.
Agora poderei assentar minha vida, pois até
agora nada me prendia aqui.
Nunca te casaste?
Bem que as casamenteiras judias, tentaram,
mas eram com mulheres feias, eu queria ir pelo mundo, vi de tudo, miséria,
mortes, estou farto.
Vou arrumar esse apartamento, se eles
quiserem viveram aqui comigo.
Mais tarde o Dado, que tinha ficado olhando
os livros maravilhado, ele lhe perguntou se queria ser seu filho.
Mas você é branco, alto e forte.
Não importa meu filho, posso ser teu pai,
vamos ver que tratamento podemos te fazer, para cresceres nem que seja um
centímetros, isso nunca vai me importar.
E meu amigo?
Vou perguntar também se quer ser meu filho,
lhe darei meu nome, Ernest Hirst.
Irmã Marie, chorava de felicidade, bendita
hora que te chamei Diop, sem querer arrumamos tudo.
Agora com certeza, irão querer me enfiar
num convento na terra de aonde sai, que faz um frio infernal.
Nada disso, a senhora pode ficar aqui, junto
a igreja, tem um pequeno convento, conheço muito a madre superiora, era amiga
de minha mãe, apesar que essa era judia.
Mas ajudava elas sempre. Se fica aqui, poderá me ajudar a cuidar
desses meninos.
Diop avisou aonde estava, para o estúdio de
Hollywood, pois talvez fosse necessário refazer algumas cenas.
Ele nem perguntou ao Henry, seu advogado,
amigo de infância, companheiro de internato, como tinha conseguido, logo os
dois tinham seu nome.
O pequeno que já estava sendo operado,
colocando uma prótese na perna, se chamaria Ernest, como ele, o Dado passaria
se chamar como seu avô materno, Joseph, mas antes lhe perguntou se gostava,
mostrou a foto do velho, era o mais baixinho da família, contou que tinha
morrido na guerra, num campo de concentração.
Explicou aos meninos que ele era judeu, mas
não praticante, nunca vou a sinagoga, para mim qualquer igreja é válida.
Estavam sentados na biblioteca, Josep/Dado,
soltou, não diga que o senhor briga com esse da cruz, como faz irmã Marie.
Ela caiu na gargalhada.
É verdade, as vezes fico furiosa, brigo com
ele, por me deixar nessa situação, mas veja meu filho, ele acabou me ajudando,
talvez de tanto eu reclamar.
A reportagem do Diop ficou pronta, ele
arrastava o Joseph com ele para todos os lados, no ano seguinte iria à escola,
para recuperar o tempo perdido.
O apresentava para todo mundo como seu
filho.
Fazia um serio tratamento, quando um dia o
viu gritando, correu, ele gritava e ria ao mesmo tempo, tinha no banheiro uma
balança, aonde se media a altura, tinha crescido um centímetro, estava feliz
como um louco.
Chegaria a ter a altura de 1,60, deixaria a
barba crescer, para não o confundirem com um garoto, anos depois.
Ernest, fazia fisioterapia todos os dias,
já andava.
Irmã Marie como imaginava, a queriam mandar
para a Bretanha, para um convento, ela mandou tudo a merda, deixou de usar o
hábito, ia todos os dias a missa na igreja ao lado, passou a usar um traje
negro, com camisas brancas.
Com o tempo começou a se aborrecer, um dia
vendo televisão com os meninos, um programa cultural, Joseph soltou, porque a
entrevistadora, ao invés de falar do livro do entrevistado, fala de sua vida
amorosa.
Marie, disse o mesmo, li o livro é
interessante, mas a dita cuja só faz perguntas não interessantes, como era no
seu canal, ele chamou o diretor do programa pelo celular, se identificou, pediu
para fazer perguntas ao entrevistado.
Ele passou o celular ao Joseph, este
perguntou ao mesmo, se ele não estava de saco cheio dessa mulher lhe fazer
perguntas idiotas, porque tinha lido seu livro, tinha coisas interessantes, lhe
fez uma pergunta sobre um personagem, o senhor me desculpe, esse personagem
apareceu, fez um comentário muito interessante, depois desapareceu.
O senhor retifique se estou enganado, mas o
próprio era o senhor, que estava num beco sem saída, com o personagem
principal, era como cutucar o mesmo, para ele deslanchar.
O escritor começou a rir, tai uma pergunta
interessante, nunca ninguém pergunta, como desenvolvemos os livros, o grau de
complicação, que as vezes surgem no momento que os personagens vão
surgindo. Vejo que o senhor leu o livro
realmente.
Outra pergunta, agora para a apresentadora,
a senhora leu o livro, ou está seguindo o roteiro idiota do diretor do
programa.
Ela ficou de boca aberta, ele tornou a
fazer a pergunta, alguém deve ter falado que o dono do canal, estava no
celular, ela respondeu que realmente não tinha lido o livro.
Então pare a entrevista, porque só falas
burradas.
No dia seguinte, Ernest, foi com seu filho
ao canal de televisão, foram entrando na sala do diretor de conteúdo, esse já
sabia da história.
Sentado na frente dele, estava a
apresentadora. Furiosa, por ter ficado
em ridículo, pois tinham tirado o programa do ar.
Os dois estão despedidos, disse
simplesmente o Ernest, isso é ridículo, uma entrevistadora que fala besteira,
que não lê os livros, nem se informa a respeito.
Ela era uma mulher bonita, ele olhou bem
para ela, dizendo me lembro do curso de jornalismo, que estavas ali, para
arrumar um marido, fazias já o papel de loira burra.
Ela saiu batendo a porta.
O diretor do programa soltou, que ela era a
amante do diretor do canal.
Diga ao mesmo que venha até aqui.
O outro apareceu com a mesma a tiracolo,
ele foi direto, perguntou se queria ir para a rua com ela, pois colocar uma
amante para apresentar um programa, era gastar o dinheiro dele.
Foda, mas longe do meu canal de televisão.
O outro não sabia o que fazer, de um lado a
amante, do outro o dono da empresa, ratificou imediatamente que estava
despedida.
Os empregados em volta aplaudiram.
Pois eu mesmo vou apresentar o programa,
aqui com meu filho, vamos mudar tudo, a partir de hoje, participarei da junta
da empresa, todos os programas merdas, acabam.
O diretor disse, se o senhor me permite,
tenho uma série de ideias, que nunca me deixaram executar.
Ele o escutou, fez o diretor se sentar, a
loira não sabia que fazer, até que o diretor do programa, disse, pode passar no
departamento pessoal, estás realmente despedida.
No dia seguinte, saia em todos os jornais,
que falavam de televisão, que ela tinha sido despedida pelo filho do dono da
empresa.
Eles começaram a elaborar o programa,
incluíram o Joseph no mesmo, acho que devíamos convidar Irmã Marie também, ela
lê muito, nunca teve tempo para isso.
Quando apresentaram a primeira vez, ele
apresentou primeiro a ela, dizendo que era uma mulher que tinha vivido mil
vidas, que agora se dedicava a ler, todos os livros novos que saiam, temos em
casa um círculo, um vai passando para o outro o que já leu, com comentários,
acaba no meu filho menor, que tem apenas dez anos de idade, mas uma mente
brilhante, o outro apresentador, é meu filho mais velho, tem o corpo pequeno,
mas uma inteligência superior, conseguiu em poucos anos, terminar seus estudos
iniciados no Senegal, agora estuda na Sorbonne, justamente literatura e
jornalismo.
Falou do primeiro entrevistado, justamente
o escritor que tinham interrompido o programa, falaram de todos os livros
escritos por ele.
Depois que interrompemos o programa, dizia
o Joseph, eu procurei ler tudo que o senhor escreveu. Dois eu destaco que as pessoas deviam ler, os
encontrei numa velha livraria, pois estão fora de catálogo. Neles o senhor fala de um período de sua
vida, é como ver desfilar ante nossos olhos, uma época que o senhor não viveu,
mas sente como se tivesse perdido.
A cara do homem era ótima, ele podia dizer,
o que faz esse menino aqui, mas olhou viu que ele tinha barba, nunca seria o
típico galã, nem tampouco alto.
Sim realmente aconteceu isso comigo, passei
esses anos de minha vida, num seminário, em que basicamente o que lia era a
bíblia. Então era como se tivesse
perdido esse período.
Eu entendo, li os dois depois dele, foi
isso que senti, quando deixei o hábito, levei anos trabalhando, ignorando a
literatura, não me sobrava tempo, sinto o mesmo do que o senhor fala, é como se
tivesse que ler tudo, ver todas as exposições, que perdi, saber de tudo, não me
faltam muitos anos de vida, mas pretendo recuperar.
Não me arrependo de nada dessa vida
anterior, pois cuidava de um orfanato, ajudei muitos irem em frente.
Agora falemos desse personagem que o senhor
deixou de lado, acho que para a próxima edição o senhor devia, fazer com que
ele participasse, até o final do livro, analisando esse personagem canalha que
o senhor retrata.
O escritor, falou vejo que realmente sabem
do que falam.
Falou de como tinha partido desses dois
livros, para realmente construir uma carreira, absorvendo tudo que a vida tinha
para lhe oferecer, esse personagem canalha, se a entrevistadora anterior fosse
inteligente, queria saber da minha vida pessoal, tai, era uma pessoa que passou
pela minha vida, quase a destruindo.
Muito obrigado por falarem realmente de
meus livros, vou seguir o conselho da senhora, irei buscar de novo o texto
original, pois no mesmo, acontece justamente isso, esse personagem se vai
desenvolvendo ao mesmo tempo que o outro.
Ele mesmo tinha sido só o mediador.
Depois entrevistaram uma vedete do Moulin
Rouge que se aposentava, tinha ido assistir o espetáculo, visitado sua casa,
conversado com sua família, visto como vivia, uma senhora de casa, mas com um
corpo e voz fantásticas.
Ela estava muito bem vestida e maquilada.
Adorei essa entrevista anterior, penso em
escrever minhas memorias, desde que sai da Polonia, aonde um homem me
descobriu, dançando num baile desses de bairro.
Admirou que eu tivesse umas pernas imensas,
me trouxe para fazer uma prova do Moulin Rouge, comecei como mais uma, mas como
era alta, logo destaquei.
Aprendi a cantar, dançar, falar, o que era
muito importante, para o espetáculo que me lançou.
Marie lhe perguntou, estivemos vendo dois
filmes que a senhora participou, se poderia dizer, que o diretor tentou fazer
da senhora, uma figura elegante, bonita, mas nas poucas cenas que aparece, se
destaca, engole a cena.
Não pensou em seguir essa carreira?
Sim até pensei, como uma forma de abandonar
o que fazia, assim tratar melhor minha família.
Tive três filhos, agora adultos, queria dar
uma vida que não tive para eles.
Nos poucos momentos que a senhora aparece,
engole a tela, virou-se para o que filmava o programa, lhe pediu que fizesse um
close total da cara da senhora.
Era impressionante, apesar da idade estar
chegando, tinha uma coisa perfeita na tela.
Falaram de música, o que ela impressionava,
pelo tom cálido de sua voz.
Isso aprendi com uma professora, nunca quis
fazer papel de ridícula, uma loira a mais no panorama, talvez por isso aquentei
tantos anos.
Tiveram uma chamada nesse momento, era o
diretor de uma série de televisão, a estava vendo, agradeceu a Marie, pedir
esse close, a queria para a série que iria fazer em seguida.
Marie disse, acho ótimo, vais se aborrecer
em casa, teus filhos estão criados.
A mulher se virou para o Joseph, perguntou
o que ele achava, se devia aceitar?
A senhora me deslumbrou no palco, nunca
imaginei um espetáculo assim, vi os dois filmes com minha tia Marie, achei
fantástico, lhe aproveitaram mal, quem sabe agora, aproveitam o potencial que
tem.
Conversei com seus filhos, todos tem
orgulho de como a senhora os criou, acho perfeito.
Meu irmão pequeno o Ernest, não o queriam
deixar para assistir ao show, mas meu pai insistiu, disse que se a perna dele
ficasse boa, um dia ia querer dançar como a senhora fazia.
Aonde está esse menino, aí o focalizaram na
plateia, tinha um aparelho na perna para a deixar perfeita.
O programa acabou, com uma parte do
espetáculo que era a despedida da senhora, Ernest convidava todo mundo para
assistir.
O filme do Sam Diop, ia ser lançado,
fizeram uma entrevista com ele, este chegou como sempre, disse que isso era
covardia, que o conheciam demasiado para participar do programa.
Mas Ernest falou do filme, o que tinha
visto, mostrou novamente partes do que tinha gravado, mas o melhor, foi
descobrir uma parte desse ator, que descende de Griots, explicou o que era para
quem não sabia.
Vou pedir que ele faça, o que fazia em
Dakar, para ganhar algum, foi assim que o descobriram.
Ele pediu para seu irmão Joseph, lhe
acompanhar.
Os dois deram um show, fizeram a história
de Jonas e a baleia.
Agora tinham publico no programa, pessoas
que se inscreviam para assistir ao vivo.
Assim sabiam que não era gravado, que se
podia cortar.
Pelo que sabemos, soltou a Marie, vais
fazer um novo filme, podes me contar do que vai, ou ainda é segredo.
A sete chaves minha querida Marie.
Mas falou de um trabalho que estava
pensando em fazer, um filme dirigido por ele mesmo, em homenagem ao seu pai,
falando dos Griots, quero que o mundo saiba que são esses derradeiros homens
que ainda fazem isso, contando a historia dos Orixás, ou mesmo do cotidiano do
nosso povo africano.
Nesse dia entrevistaram também uma colega
do Joseph, da universidade, que lançava seu primeiro livro, os três tinham lido
o mesmo, falava de sua infância na China, o choque que tinha sido chegar a
Paris, em plena adolescência, aonde não sabia como se comportar, como se
relacionar com os outros jovens da idade,
Joseph, lhe foi fazendo perguntas, num
momento disse que o seu irmão pequeno Ernest, tinha lido o livro, que a
entendia, ele passava o mesmo, tinha chegado a Paris pequeno, embora estivesse
protegido, em casa, mas na escola, ele era o diferente, usava um aparelho na
perna, primeiro tinha pensado que devia mostrar sua inteligência para assim
fazer amigos, disse que teu livro o incentivou a seguir estudando em ser o
melhor.
Acredito minha filha, disse Marie, imagine,
eu uma freira sem muitos estudos, sair da Bretanha, aonde só tinha visto gente
branca, chegar ao Senegal, sem saber como viviam, o que comia, ou melhor
dizendo como sobreviviam.
Entendo, li seu livro de uma tacada só, fiquei
deslumbrada pela sua linguagem tão simples, os jovens têm esse valor, falar
simplesmente do que sente. Espero que
sigas escrevendo.
Creio que devemos ter no programa, sempre
jovens escritores, para assim divulgarmos, incentivando os mesmo a seguir em
frente, a velhas glorias da literatura, não precisam de muita publicidade.
Foram interrompidos por uma chamada, um
escritor famoso, disse que queria ir ao programa, quero ver se eles leram meus
livros, a atual geração, me chama de um escritor chato, pois tenho um
personagem fixo.
Claro será um prazer, tê-lo aqui, li todos
seus livros na minha juventude, soltou o Ernest, agora quem os lê é meu filho
pequeno.
Vejam este é um programa como que familiar,
meu filho Joseph, Marie, que é uma amiga muito próxima, um dia deste terei meu
filho Ernest aqui, pois ele adora ler também, com ele vou as exposições
modernas, ele me explica o que não consigo as vezes entender.
Gostarei muito de ter no programa, se as
galerias me permitisse, pintores modernos, nos convide para ir conhecer seus
pintores, íamos gostar.
O programa acabou no final do ano,
recebendo um prêmio, por ser um programa simples, mas que se falava realmente
do que a pessoa tinha para divulgar.
As vezes se era um filme novo, o Diop
participava.
Uma das irmãs do Ernest, que basicamente
tinha gastado tudo que tinha herdado, ficou furiosa, quando constatou que
realmente ele tinha adotado o que ele apresentava como seus filhos, ela pensava
que seus herdeiros seriam os seus.
Todos os dois péssimos estudantes, nenhum
deles tinha feito universidade, frequentavam sim a sociedade da cidade.
Ele foi franco com ela, a eles nunca
deixarei nada. Vocês receberam em dinheiro o mesmo valor que eu recebi do canal
de televisão, se não souberam administrar, o problema não é meu.
Essa tinha inclusive ido a um juiz, para
saber se os filhos adotados tinha direitos iguais.
Ele deu uma entrevista para um jornal,
dizendo que sempre tinha pensado nisso, que a família a construía, ou com
amigos, ou mesmo com pessoas que querias perto de ti.
Os anos foram passando, ele como estava
escrevendo um livro sobre seus anos pelo mundo como jornalista, deixou ao cargo
do programa o Diop, Joseph e agora o Ernest seu filho, esse se tinha
transformado, era mais alto que o Joseph, mas sempre com um sorriso na cara,
tinha uma perna mais curta que a outra, mas não se importava, finalmente
andava.
Ele os assistia de casa com Marie, que
alegava estar velha, as vezes convidavam sua velha companheira de universidade,
se a entrevistada era alguma escritora mulher.
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