PAI DAMASCENO

 

                                                

 

Os vizinhos poderiam dizer a hora, pois ele saia todos os dias que faziam sol, ou nublado a mesma hora, ia dizendo bom dia a todo mundo com quem cruzava, algumas pessoas que ele conhecia mais, perguntava como iam, se precisar de alguma coisa, sabe aonde me encontrar.

Algumas o paravam para beijar sua mão, fazer algum cumprimento do candomblé, se era uma criança ele passa a mão pela sua cabeça.

Ia todo vestido de branco, com um terno de linho impecável, de tênis branco ou mesmo de sandálias, camiseta impecável branca, com uma guia atravessada no peito, acabava com um dente de javali, imenso, no outro lado uma pedra que representava seu Exu.

Vivia ali na Rua Gonçalves Fontes, em Santa Teresa, no final da rua, um edifício cinzento, que pertencia a sua mãe, no último andar, que tinha uma vista panorâmica da Bahia da Guanabara, seu homem ainda ficava mais um pouco na cama, mas ele já tinha deixado seu terno ali num cabide para o dia seguinte, não era de perder tempo, fazia a barba, tomava um belo banho, se vestia, beijava o Rubens, ele entrava mais tarde no serviço, ali na Aeronáutica no Santos Dumont, seus pais viviam num casarão imenso com direito a horta e um belo jardim, quase ao lado.

Ia até o começo da rua, começava a descer a Ladeira de Santa Teresa, antes de chegar ao Convento das Carmelitas de Santa Teresa, normalmente descia pela Escadaria do Selarón, ia andando calmamente, parava um pouco antes de entrar na Cinelândia, para tomar um café, nem precisava dizer o que queria, os garçons já o conheciam, o chamavam de Doutor Cury, mas na verdade se escrevia Khoury, seu pai era originário de Israel.

De lá atravessava a avenida Rio Branco, entrava no edifício aonde a família tinha um escritório de advogado, era o primeiro a chegar, pois só abriam a partir das 9:00 da manhã, a estás horas só estava a velha secretária de seu pai, Maria do Rosário, estava ali desde sempre, controlava a entrada de todas as secretárias que comiam um dobrado com ela.

A beija sempre no rosto, ela sorrindo lhe dizia “bom dia, meu menino”, sempre o tinha chamado assim.

As más línguas diziam que tinha sido amante de seu pai, mas era interessante, ela sabia nada mais olhar a cara dele, como ia ser o dia, o atendia ao menor sinal, a sua secretária uma sobrinha dela, tinha aprendido tudo com a tia.

Está chegava em seguida, sempre bufando como dizia a tia, vinha de metro desde a Tijuca.

Em seguida entrava na sala com uma garrafa térmica, com água gelada como ele gostava.

Se vestia como a tia, com o cabelos esticados num coque perfeito, sem um fio de cabelo fora de lugar.

Depois entrava seu velho, Doutor Isaak Khoury, este sempre parava na porta para dizer, porque não me esperaste, queria que viesse no carro com ele, já falando de problemas de clientes, isso não era com ele.

Lhe respondia sorrindo, bom dia meu pai.

Esse abanava a cabeça, pois sabia que ele nunca iria responder, porque teria que o contrariar.

O último a chegar como sempre era seu irmão mais velho, sempre de mal humor, pois claro pegava um trafego infernal, pois vinha desde Ipanema, deixava os filhos na escola Israelita ali em Botafogo, mas isso já tinha feito seu pai, com os dois filhos dele fora do casamento, mas que o velho o tinha obrigado a reconhecer, dar o sobrenome, viviam na casa dele.

Entrava como um furacão, sem falar bom dia a ninguém, sua secretária era a mais feia do escritório, escolhida e claro por Maria do Rosário, nada de moça bonita, para ele ter uma aventura.   Era casado com uma judia, feia para caralho, mas de família milionária, vivia no bem bom numa boa cobertura em Ipanema, presente da família dela.

Essa nunca aparecia em Santa Tereza, por conta de ter que encontrar com os outros filhos do marido, bem como com a sogra, que quando ela começava a comentar coisas de sociedade, minha mãe cortava logo, deixa de besteira, que teu pai, fez fortuna, no Saara, um judeu que chegou aqui com uma mão na frente outra atrás que se casou com uma solteirona, só tinham tido essa filha.

O mais interessante, que na verdade o escritório tinha sido sempre de seu avô, seu pai quando tinha escapado de Israel, por não gostar de lá, foi trabalhar com ele, começou de baixo, se casou teve um filho, ficou viúvo, foi quando conheceu, pois ela não vivia lá, mas sim em São Paulo, a filha do patrão, que também tinha ficado viúva, foi um amor à primeira vista.

Se casaram na Sinagoga ali da General Severiano, em Botafogo, um ano e meio depois nasceu ele, foi a paixão do pai, desde o início, seu irmão mais velho, foi criado pelos seus avôs, que lhe faziam todas as vontades, mas acabou indo trabalhar para o pai, como esse dizia era um “negado”, só sabia defender bandidos.

Ele ao contrário, o cliente parava na frente da secretária, ele de longe sabia a que vinha, se não gostava apertava o interfone, dizia agora não posso atender, passava para o irmão, bandido não era com ele.

Mas em compensação, atendia muita gente que vinha com um cartão dele, que algum conhecido dava, procure o Doutor Damasceno Cury, ele vai te atender bem.

Algumas vezes, para bronca de seu pai, nem cobrava, pois sabia que a pessoa não tinha dinheiro.

Tinha como ajudante, um mulato alto, sarará, que muitos diziam que era seu filho, na verdade era filho de uma filha sua de santo.

Se vocês ainda não perceberam Pai Damasceno, era pai de Santo, tinha uma casa de santo que tinha herdado na frente da entrada principal do Morro do Alemão, que hoje em dia mais moderno chamavam de Complexo do Alemão, ali em Olaria.

Ele trabalhava sem parar, ia ao fórum, ou o que seja, mas numa determinada hora, as 3 da tarde, sua secretária avisava, ele ainda levava alguma coisa com ele, para trabalhar enquanto ia para Olaria, descia, lá estava seu fiel guarda-costas Dagoberto da Silva, com seu velho jeep, comprado a muitos anos, num leilão da aeronáutica, ele ria sempre quando diziam para trocar de carro, mas se esse funciona de maravilha, se virava e dizia, não é verdade Dagoberto, não me deixe mentir sozinho.

Realmente esse cuidava do jeep, que tinha sido seu, na juventude, com muito carinho, o menor ruido, levava numa oficina de um filho dele de santo.

Ele ia lendo algum processo, fazendo anotações ao lado, se não ia fazendo nada, ficava sabendo de tudo que acontecia pelo morro do Alemão.

A casa de santo, ficava numa parte mais alta, tinha sido de Pai Orestes Assunção, quem o tinha iniciado, embora ele tivesse sido feito na Bahia, na casa de mãe Menininha do Gantois, pois ele tinha Exu de frente, bem como Nanã Baruque junto.

Depois gradativamente foi assumindo a casa de santo, para agrado de Pai Orestes, era seu filho desde garoto.

Seu pai quando descobriu ficou uma fera, mas o convenceu de ir até lá, foi resmungando.

Em casa de seus pais, vivia a Ernestina da Silva, avó de Dagoberto, ela era filha de Santo de Pai Orestes, um sábado que tinha que ir, sua mãe tinha compromisso na Sinagoga, ele ficou com ela, era seu dia de folga, foi com ela até Olaria, jurando guardar segredo, quando chegaram, para ele uma aventura, andar de ônibus, até o subúrbio do Rio de Janeiro, ia observando tudo.

Ela o deixou numa varada, que ficava junto ao grande salão, aonde se faziam os trabalhos.

Ele estava rindo, conversando com o negro que sempre aparecia para ele, quando pai Orestes saiu, o viu fazendo isso, lhe perguntou com quem falava?

Ora com meu amigo, sinalizou o nada, ele disse que gosta daqui, tem outros iguais a ele, o velho Orestes se concentrou, viu ao lado do Garoto, um Exu imenso, que ria para ele, achou interessante, aquele Exu, com os dentes todos lixados em ponta, além de não sentir medo nenhum do garoto.   A quanto tempo o vês.

Sei lá, ele sempre esteve aí, desde que eu me lembre, inclusive quando vamos a sinagoga, ele vai também, diz que tenho que respeitar que ali, é tudo tão antigo, como ele.

Quando Ernestina saiu, viu o bate papo, seu pai de santo, lhe perguntou se via o Exu, ela muito inocente, de quem o senhor está falando?

Desse que acompanha esse menino, uai.

Meu pai, é um garoto, como vai ter um Exu do lado?

Ai meus sais, tantos anos no terreiro ainda não aprendeu nada.

Venha, pegou a mão do Damasceno, o levou para a varanda de sua casa, que ficava justo ali ao lado, era um lugar pequeno, só para ele, ali tinha uma mesa, aonde jogava, abriu os panos todos, riu muito, tinha ali todas suas guias, com as pedras de seu jogo, arrumadas num canto, ele sequer tocou nenhuma, começaram a correr como ele dizia, como baratas tontas, até tomarem posição.

Aí leu a história do Exu.

Era ligado a Nanã, que apareceu de imediato, uma velha negra com seus balangandãs, riu para ele.

Caramba, garoto, um dia serás grandes.

Ele inocente, se for alto como meu pai, estarei contente.

A partir daí, todos os sábados, se vestia de branco, calças curtas brancas, tênis branco e camiseta, ia com Ernestina ao Santo.

Nessa época conheceu seu homem, como ele chamava o Rubens, ele vivia na casa ao lado do terreiro, seu pai ela sargento da polícia, como o via entrando com a Ernestina, um dia escapou de casa, para falar com ele, ficaram amigos, o levou para ajudar a colocar aguas nas quartinhas todas que estavam ali, pai Orestes riu muito, pois a mãe do Rubens, era daquelas mulheres chatas, católica, apostólica, romana, enchia o saco do marido para ele fechar a casa de santo.

A partir desse dia, Rubens ficava espreitando, para o ver chegar, corria agachado, para entrar com ele a casa de santo.

Acabou como o Dagoberto, virando seu Ogan, os dois se rivalizavam para tocar atabaque para Exu, quando sua mãe descobriu, ficou uma fera, fez um escândalo imenso, o pai dele, soltou deixa o menino em paz, prefiro que esteja ali, que andando com os malandros da favela.

O dia que seu pai descobriu, o convenceu de ir ao terreiro, tinha ido de manhã com ele a sinagoga, ia sem reclamar, se sentava muito sério, acompanhava tudo.

Tinha feito todas as obrigações lá, um dia o que comandava tudo, reclamou que ele não pertencia a juventude dali, que se encontrava aos sábados de tarde, ele muito sério disse que já tinha compromissos, que nos sábados a tarde ia a casa de seu pai de Santo.

A cara do homem foi ótima, ficou com a boca aberta.

Nesse dia seu pai, foi com os dois no seu carro, levou um susto de ser aonde era, mais espantado ficou, de ver todo mundo falando com seu filho, mais ainda quando saiu Pai Orestes, ele o saudou a moda do candomblé, apresentou seu pai, o velho não sabia que fazer, o pai de santo o abraçou, dizendo seu filho é um rapaz impressionante.

Venha, o fez acompanhar até a sua varanda para conversar enquanto, o pessoal ia chegando, ele fazia sinal de que não se aproximassem, começou a jogar para seu pai, que estava preocupado com seu filho mais velho, foi falando com ele, tinha sido criado distante, pelos velhos, que eram cheios de preconceitos contra os brasileiros.

Isso o tornou cativo do pai Orestes, depois o levou, pediu a uma Yao, que lhe desse agua, que sentasse entre as pessoas que estavam ali, nisso entraram as mulheres dançando, saudando o santo do dia, depois viu seu filho querido, muito concentrado, comandando os homens, com um sinal, aos Ogans, ali estavam sentados no meio dos maiores, seus dois melhores amigos, Dagoberto, Rubens, começara a tocar o ponto de seu pai de Cabeça, o velho confessava que quase teve um enfarte, de ver o salto que seu filho dava, incorporando o Exu, esse veio falar com ele, acompanhado de sua Yao, que era a mãe do Dagoberto, a tinha colocado na linha como dizia Ernestina, ela foi esclarecendo o que o Exu falou com seu pai.

O mais interessante, foi que começou a falar em hebreu com ele, sobre a família da qual tinha fugido de Israel, ninguém sabia disso, nunca falava no assunto.

A voz não era de seu filho, mas sim de um homem maduro.

A partir de então nunca falou nada, quando houve a primeira festa no terreiro, ele veio com sua mulher, sua mãe ao contrário adorava ir.

Melhor que ir a sinagoga, aqui tem mais vida, lá tenho que aguentar essas mulheres todas de negro, querendo casar suas filhas.

Quando ele foi a universidade, Rubens ia busca-lo todos os dias, depois da aeronáutica, iam primeiro num hotel ali no centro da cidade, até que os dois pegaram um bichinho no saco, tiveram que raspar tudo.

Ele como já ganhava algum, alugou um pequeno apartamento na centro, um micro estúdio na subida de Santa Teresa, ali, se encontravam, o mais interessante, é que os dois nunca tiveram outras aventuras, estavam feitos um para o outro.

Um dia sua mãe descobriu, o apartamento ao lado da casa ficou vazio, mandou arrumar o mesmo totalmente, reformou tudo, ofereceu para o filho, essa será a casa de vocês, Rubens passou a ser um mais na família.

Seu pai, inclusive dizia na cara, que gostava mais dele que seu filho mais velho, era respeitoso com ele, inclusive nos sábados, ia com eles a sinagoga.  O rabino, elogiava os dois, seus filhos dizia ao velho Isaak, são impressionante, pois os daqui, acabam as festas de jovens, sequer aparecem.

Depois do almoço os dois se preparavam iam para Olaria.

Seus pais, foram até a Bahia, levando Ernestina, Rubens e Dagoberto, para sua saída de Santo, foi uma coisa impressionante, ele era o único filho de mãe Menininha do Gantois, entregado ao Exu, além de Nanã.    Esta convidou a única mãe de Santo da Bahia, dedicada aos Exus, depois ele foi passar uns dias lá com ela, em Itamaracá, aonde realizou uma série de preceitos.

A partir desse tempo, passou a ser os braços e as pernas, como dizia Pai Orestes, no terreiro.

Passou a sair do trabalho, chegava, na varanda da casa de seu pai, tinha uma mesa para ele, este dizia estou velho demais para ficar atendendo problemas dessa gente, mas adorava se sentar ao lado, o vendo ler o que dizia os búzios, bem como lidava com as pessoas, algumas ele bastava olhar na cara, soltar, meu filho se vens aqui, buscando ficar rico sem fazer força, vá cantar em outra freguesia.

Um belo dia, apareceu o chefe do tráfico do Morro do Alemão, ficou parado na porta da casa, ele se levantou foi até lá, disse que se ele quisesse entrar bem, mas que deixasse suas armas, seus capangas fora.

O negro riu, imaginei isso, entrou, ele chamou a Yao, mandou lhe preparar um banho para Exu, que depois enrolasse o homem num pano branco para ele ir a varanda que o estaria esperando.

Quando esse se sentou, foi lhe dizendo, meu filho que merda te meteste, tinha se metido com uma menor de idade da favela, era apaixonado por ela, estava gravida.

Ficou muito sério, fechou os olhos, deixou Exu, falar por ele, trás essa menina para cá, pois os irmãos dela, vão acabar a matando, esse menino estará sobre minha proteção.

O mais interessante, o menino acabou sendo a paixão do Dagoberto, era seu braço direito no terreiro.   Todos os anos, seu pai vinha olhar um dia por ele, não se aproximava muito, porque não queria que soubessem que era seu filho, ia como fazer uma obrigação para seu santo, mas nada era o aniversário do filho, a mãe tinha morrido de parto.

O registrou com seu nome verdadeiro, José Ribeiro, mal nasceu Ernestina o levou para viver em Santa Tereza, foi mais um a estudar na escola Israelita, depois quando ficou mais velho, passou a viver com ela no terreiro, no fundo da propriedade, tinha uma casa pequena, Ernestina se aposentou passou a viver lá, como a Yao mais antiga, pai Orestes já tinha morrido, tinha deixado a propriedade para o Damasceno, foi quando ele descobriu que na verdade, ali era uma casa antiga de fazenda, que a parte principal era uma senzala, tinham e claro modificado tudo, ele voltou a arrumar como era antigamente, orientado pelo seu Exu.

Um belo dia, Dagoberto veio falar com ele, estava apaixonado pelo José, como devia fazer.

O aconselhou, nessas alturas, o pai dele tinha morrido numa guerra por causa do controle do tráfico, ninguém ficou sabendo dele.

O mais interessante, foi que Damasceno, liberou o corpo, o levou para ser enterrado, no cemitério do Caju, na parte dos judeus, ninguém ficou sabendo, ele tinha seus contatos, quando os seus procuraram, já tinha desaparecido, rezou um Kadish para ele, bem como rezaram uma reza do candomblé, para sua alma descansar em paz.

Quando o novo, chefe do tráfico, apareceu no terreiro, queria fechar seu corpo, no portão mesmo Damasceno, disse que isso era besteira, tal coisa não existia, que ele tinha escolhido uma vida, que era sempre curta, tome cuidado, tenha olhos nas costas, porque teus capangas não são de fiar, dito e feito, morreu nas mãos de seus homens.

Um belo dia, Dagoberto o foi buscar no escritório, sua cara era um sorriso imenso, disse que finalmente o José o tinha aceitado, o queria como ele.

Ernestina não disse um pio, como ia se meter na vida desses dois que ela tinha criado com amor e carinho, achava até natural, pois eram os dois que cuidavam dela agora na sua velhice.

Agora, aos sábados, ela era a Yao mais antiga, se sentava ao lado dele, para ver tudo, chamava atenção das Yaos mais jovens, pelos erros que cometiam, ensinava, obrigava a fazerem tudo de novo.

Tinha feito com a ajuda do José, uma horta no fundo da casa, com as ervas necessárias para os banhos, ele cuidava com amor e carinho de tudo.

Quando chegava o Carnaval, eles iam os quatro para o retiro do Damasceno, na casa de santo só ficava a Ernestina, mas ele falava com o pai do Rubens que o adorava, pedia para dar uma olhada em tudo.

A jararaca da sua sogra como ele dizia, ficava uma fera, agora essa, depois de velho ficar cuidando de uma casa de santo.

Nunca tinha aceitado que o filho vivesse com ele.

Iam passar as férias como ele dizia, numa terras que tinha comprado lá prós lado de Mangaratiba, que aonde ele fazia a feitura de cabeça de seus filhos, tinha recebido as mesmas como forma de pagamento de uma partilha de uma heranças, os herdeiros não tinha dinheiro, ele resolveu tudo para os mesmo, lhe pagaram com as terras de lá, que ninguém queria.

Tinha construído ali, uma casinha confortável, adorava estar lá com os amigos, iam tomar banho de cachoeira, ele se descarregava como costumava dizer, ali não sabiam de nada, era com desconectar de tudo.

Um dia seus dois meninos como chamava os filhos de seus irmãos, disse que o filho pequeno do mesmo, andava desmaiando na escola, que o tinham levado a vários médicos mas ninguém sabia o que era.

Um dos dois, o mais malandro, soltou rindo, ele está e rolando para o santo.

Falou com seu irmão, que ficou horrorizado.

Mas deixou que ele falasse com o garoto na casa de seus pais.

O garoto mal o viu, correu para ele, o abraçou pela cintura, começou a falar com ele em Yoruba, para surpresa geral.

Nesse sábado depois de irem a Sinagoga, o rabino ainda disse, finalmente teu neto aparece, falta muitos preceitos para realizar, mas a mãe dele não quer.

Depois levou com ele e o Rubens o garoto a sua casa de santo.   Este do portão abriu um sorriso imenso, sonhei mil vezes vir aqui.

Entrou correndo, foi andando cada casa de santo, parecia que estava de mãos dadas com alguém, ele riu, era seu Exu mostrando ao garoto tudo.

Mandou dar um banho no garoto, disse as ervas, a Yao, disse que  a mãe Ernestina já tinha preparado, se aproximou, seu Exu disse no meu ouvido o que eu tinha que fazer, fez questão dela mesma dar banho no garoto, ele disse ao José, que fosse ao galinheiro, trouxesse um galo que estava lá, que era o mais brigão, uma coisa rara, era todo branco, com uma juba vermelha.

Quando passou o mesmo pelo corpo do garoto, ele incorporou.

O seu pai de cabeça, um Xangô, lhe agradeceu, mas ele só voltaria a incorporar, quando o garoto estivesse preparado, ao lado dele, estava o Exu que o tinha cuidado esse tempo todo.

A mãe do menino quando soube, ficou uma fera, foi até lá, na casa dos sogros para tomar satisfação.   Deu de cara com os dois outros filhos do seu marido.

Muito mal educada, foi gritando da porta.

Sua mãe apesar de velha a pegou pelo braço, a levou até a porta, a colocou do lado de fora, disse, chame outra vez, respire fundo, entre dizendo bom dia para todo mundo, apesar de ser a casa da sogra, aqui a educação primeiro.

Mandou uma empregada avisar o Damasceno.

Ele desceu tranquilamente, quando ela começou a levantar a voz, ele só fez um gesto, ela ficou muda.

Seu filho não tem nada, só seus santos para desenvolverem, não se esqueça que tua mãe, é uma mulata, se casou com teu pai, mas é mulata, portanto tem uma parte negra, que acabou saindo em teu filho.

Os olhos dela ficaram esbugalhados, pois não podia falar.

Eu sei, você como todos os brasileiros, escondem no fundo dos armários, seus antepassados negros, dá nisso, esse menino desmaia, porque os santos se aproximam.  Um dia poderá ficar louco, é isso que quer para seu filho.

Ela suava horrores, estava louca para gritar, falar alto, mas não conseguia.

Ele fez um sinal, Rubens que tinha entrado, trouxe agua com açúcar para ela.

Ele tornou a lhe repetir, respire fundo, me escute.

Se não queres teu filho assim perto de ti, ele pode viver comigo, assim não passas vergonha de um dia ele se incorporar na frente de tuas amigas.

Ela de imaginar isso, colocou a mão na testa, tal como Desdémona arrependida, desmaiou, sua sogra ria, é muito dramática.

Quando se reincorporou, se sentou muito erguida, viu que seu marido estava ali, olhou para ele, perguntou o que pensava fazer a respeito.

Eu não entendo nada disso, mas acho que meu irmão tem razão, prefiro meu filho aqui, que lá em casa, sempre fechado no seu quarto.

Ela arrastou seu marido, no mesmo dia ele voltou com as roupas do mesmo, mas no dia seguinte ele foi as aulas com os irmãos, esse lhe emprestaram roupas, deixava de ser um desse garotos, que vão a escola, embonecados, passou a dividir o quarto com os outros dois, virou-se para o Damasceno, dizendo, agora sou feliz.

Os outros dois, passaram a ir a Casa de Santo com eles, foram aprendendo, um deles adorava o Rubens que ia lhe ensinando as batidas dos santos.  Sem querer eles estavam formando uma família.

Ele sabia que tinha que preparar o sobrinho para um dia o substituir, uma dia sua mãe o chamou para conversar.

Meu filho sei que vais ao escritório porque teu pai, sempre quis isso, mas lembre-se no fundo tudo é meu.

Me pagam uma parte todos os meses dos lucros de lá, eu nunca usarei nada disso na minha vida, venho comprando como todas as velhas judias, diamantes, pedras preciosas, para teu futuro, mas cada vez mais entendo que teu futuro não é lá, sim na tua casa de Santo.

Quero que penses que fazer quando teu pai morrer, seguir agoniado, com os problemas do escritório.

Ele tinha notado que o pai de vez em quando colocava a mão no peito, sabia que tinha problemas de coração, já tinha conversado com ele, para se retirar, afinal tinha mais de oitenta anos, embora atendesse poucos casos, não valia a pena.

Ele soltava, o que queres, que eu me sente no sofá de pijama, vendo telenovelas com tua mãe, ou jogar bridge com as velhas amigas dela, de repente começou a rir, tu sabes que ela engana as amigas, rouba no jogo, limpa a mesa, ria muito, é isso que queres para mim.

Enfiou sua viola no saco, agora ele levava os casos de seu pai, seu irmão sonhava em ter o escritório só para ele, começou a falar com ele a respeito, quando o pai morreu, dormindo, foi um enterro impressionante, o rabino acompanhando de outros, estavam lá, ele rezou o Kadish, vestido de branco com sua guia atravessada no peito, de mãos com seus netos todos, tinha ensinado a cada um a rezar isso, depois fez uma reza em Yoruba, para surpresa dos que estavam ali.

O pior veio na leitura de testamento, ele deixava para ele, sua parte do escritório, foi quando seu irmão descobriu, que na verdade o escritório era da mãe dele, ele só tinha direito a dez por cento das ações.    Ficou uma fera.

Arrumou emprego num escritório que atendia ao mesmo tipo de cliente dele, bandidos de colarinho branco, se mandou.

Ele comprou os dez por cento do irmão, assim ele podia entrar em algum outro escritório com dinheiro.

Sua mulher que já pensava ir morar na Barra da Tijuca, descobriu que o marido na verdade era um pé rapado, pediu divórcio, os dois eram casado com separações de bens, foi viver na Barra com o filho mais velho.

Seu irmão finalmente pode assumir a mulher com quem vivia a muito tempo, uma mulata de fazer gosto.

Aceitou lhe dar a guarda do filho, que cada dia mais era para ele um estranho, sua ex-mulher concordou, pois era a mesma coisa.

Ele passou a viver na casa grande dos pais, fez uma reunião, com os outros empregados do escritório, tinha preparado seu ajudante bem, entre todos compraram sua parte, ele deu uma porcentagem a esse, assim ele também podia ir em frente.

Aplicou todo esse dinheiro em ações do governo, que nunca perdiam seu valor.

Era para o futuro de seus filhos postiços.

Sua mãe morreu nem um ano depois, deixava a casa que era sua para ele, bem como dinheiro no banco, ações como ele tinha, além de duas caixas cheias de diamantes, pedras, coisas que ela comprava.   Se matou de rir, ao descobrir numa das caixas várias barras de ouro.

Dizia num bilhete que eram de seu pai ainda.

Pensou muito em ir viver na casa de Santo, mas só faria isso quando ficasse mais velho.

Foi educando os meninos, os levava a sinagoga, o rabino finalmente tinha entendido, ele fez com eles todos os preceitos, em honra ao seu pai, esse até as vezes se consultava com ele, um dia o levou ao terreiro, ficou impressionado, sempre foste um homem sério, aqui mais ainda.

Quando não podia ajudar alguém o mandava para lá, as pessoas estranhavam, um rabino o mandar para a casa de um pai de santo, mas quando chegavam lá, davam de cara com um sujeito loiro, com olhos azuis, muito alto e branco.

Entendiam que ele era judeu também.

Quando os pais do Rubens morreram, reformaram a casa toda, os meninos estavam já na universidade, cada um fazendo uma coisa diferente, um medicina, o outro literatura, e seu pequeno que no futuro o substituiria, estava estudando línguas, se aperfeiçoando em Yoruba.

Umas férias fizeram diferente, foram todos a Nigeria, guiados pelo seu Exu, muitos dali achavam interessante, aquele homem branco demais, os olhos azuis quase brancos, com um cabelo que mais parecia uma carapinha já começando a ficar branco, mas que falava um Yoruba perfeito.

Lá foi feita a iniciação de seu sobrinho, era uma outra maneira de pensar e agir, mas não interferiu.

Os meninos seguiam vivendo na casa familiar, mas ele passava mais tempo no terreiro, os tempos eram difíceis como ele dizia, muitos jovens se perdendo.

Ernestina, viveu até mais de 100 anos, ria muito, por minha culpa eres pai de santo.

A enterrou ao lado de seus pais, foi interessante, ali na parte dos judeus, aquele mundaréu de filhos de santo, rezando o Kadish, depois rezas em Yoruba.

Quando lhe perguntaram, ele disse que ela sempre tinha sido da sua família, inclusive acompanhava sempre sua mãe a sinagoga.

Um dia recebeu uma chamada do rabino, perguntou se podia levar uma moça lá.

Essa trabalhava na casa de sua filha, era uma negra, emigrante de Angola, ela quando o viu, riu muito, acabou virando sua Yao preferida, entendia os santos como nada.

Como ele dizia sua família nunca parava de crescer, volta e meia, algum filho o procurava atrás de orientação, ele sempre estava ali para isso.

Já tinha quase 75 anos, quando um dia, Rubens, sentado no mesmo banco que tinha se conhecido, começou a rir.

Te lembras quando um dia eu entrei aqui, curioso, o que vinha fazer esse menino branquelo, na casa de santo de Pai Orestes.

Pois é, nunca mais nos largamos, nunca tinha imaginado isso, o relacionamento dos dois durar tanto.

Rubens depois de aposentado pensou que ia se aborrecer, mas que nada, cuidava de mil coisas no terreiro.

Os meninos, quando se tratava de vida sexual, ou coisas de rapazes, eram com ele que falavam, diziam nosso tio é muito espiritual.

Dizia depois para ele, mal sabem que eres um sem vergonha até hoje na cama.

Os dois adoravam ficar sentados no fundo da casa, olhando para a horta, as coisas que ele cuidava, de mãos dadas, tinham levado o banco que os dois tinham se conhecido para lá.

Achavam incrível o mesmo ter aguentado tanto tempo.

Tinha feito as cabeças de seus sobrinhos, lá na mata em Mangaratiba, foi passando com os anos as consultas para ele, agora ele se sentava como fazia Pai Orestes do lado, escutando tudo, raramente interferia, mas quando o fazia, falava com o sobrinho em Yoruba.

Apenas o orientava, mas sabia que podia confiar nele.

Os outros dois, foi interessante, um se casou com uma das filhas de santo dali, logo tinha vários filhos, o que era médico, foi fazer uma especialidade na França, quando voltou, trazia uma loira linda com ele, ela adorou o terreiro, foi ficando, já tinha dois meninos, um deles ele ria, ia substituir seu sobrinho.

Entrava na casa de santo, ia correndo ajudar as Yaos, a colocar agua nas quartinhas, sabia tudo como devia fazer, um dia tinha uns 8 anos, disse que seu Exu, queria uma também se podia.

Claro que sim meu filho.

O orientou como devia fazer, esse o fazia com um respeito imenso, o novo rabino da sinagoga, não entendia nada, nos sábados, apareciam essa família, todos vestidos de branco, mas o velho rabino um dia o arrastou a casa de santo, quando tiveres problemas, que não sabia resolver, venha aqui conversar com Damasceno.

A policia achava interessante, nenhum traficante, ou chefe do tráfico, incomodava jamais a casa de santo.

Um dia comentou com um dos policiais do posto dali.

Mas o senhor já viu o Exu, que guarda a entrada, aliás é a única casa de candomblé do Rio de Janeiro, que o pai de Santo, bem como seus iniciados, a maioria é filho de Exu.

Acabou que o delegado acabou sendo seu filho de santo.

O melhor era que ele conhecia o Rubens, pois tinha sido o pai dele que o tinha ajudado a entrar para a polícia, quando descobriu que ele sempre tinha vivido com o Damasceno, foi um gozo, teu pai sempre dizia que eras bem casado, mas nunca tinha te visto com nenhuma mulher.

Tenho meu homem desde garoto, os dois sempre se referiam ao outro assim “meu homem”.

Um dia o delegado, trouxe um rapaz, com ele, pai Damasceno, disse que ele tirasse o cavalo da chuva, ele quer se encostar, pule fora disso, ainda vais encontrar um homem para ti.

Dito e feito, um dia no terreiro, ele conheceu um rapaz que vinha do Senegal, os dois viviam juntos, sem escândalos.

Assim os traficantes, diziam, um delegado como esse, que é protegido de Exu, é melhor andar na linha.

 

 

 

 

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