ILÚ OBÁ DE MIN - PRECISO ME ENCONTRAR

 

 

Agora parecia que só voltava para aonde tinha saído, para enterros, desta vez era o de seu pai o verdadeiro como ele dizia.

Anos atrás tinha vindo no de sua mãe, na mesma época, tinha sido uma coisa emocionante, pois chegou dois dias antes dela morrer, passou todo o tempo ao lado dela, finalmente sabia sua história de A a Z, sem mentiras, nem subterfúgios pelo meio.

Quando ele tinha anos, um dia chegou em casa, depois de uma festa na casa de uns colegas da escola, ele vivia no Catete, os amigos todos viviam ou no Posto 6 ou em Ipanema.

O pai lhe deu uma surra de fazer gosto, disse que nessas festas só iam viados, que no ano seguinte ele teria que entrar para o exército, para se transformar em homem.

Pela primeira vez ousou desafia-lo, um homem como o senhor, que bate no seu filho, na sua mulher, mas que no quartel, é tido como o “sargento banana”, isso ele tinha escutado da boca de uns militares, uma vez quando passou disseram, esse é filho do sargento Banana, grita muito, mas na hora, caga nas calças.

O pai só apontou a porta da rua, ele colocou algumas coisas na sua mochila, sua mãe, lhe passou algo de dinheiro, foi embora sem olhar para trás, odiava seu pai, desde criança era a mesma coisa, por qualquer besteira, levava uma surra de fazer gosto.

Na esquina telefonou, para um conhecido, era dois anos mais velho que ele, com este tinha trocado seu primeiro beijo, perguntou se podia ficar na sua casa.

Osorio, disse que sim, que seu companheiro de apartamento tinha ido embora, lhe explicou como chegar, era ali na avenida Princesa Isabel, na rua Felipe de Oliveira, a primeira depois da saída do Túnel que separava Botafogo de Copacabana, seu amigo trabalhava numa loja no shopping Rio Sul, o primeiro do Rio.

Quando chegou, contou tudo ao mesmo de uma tacada só, o outro lhe disse rindo para respirar, o mesmo aconteceu comigo, o velho é da aeronáutica, quando descobriu que sou gay, me mandou embora, porque poderia corromper meu irmão pequeno.

Amanhã, vou procurar saber se tem alguma loja que precisa de alguém, sempre tem uma, o pessoal ganha pouco na carteira assinada, tudo é pela comissão.

Isso aconteceu, telefonou para a mãe, num horário que sabia que o velho não estava em casa, ela suspirou aliviada, dias depois apareceu no shopping, trouxe todas suas roupas, ele disse que estava contente, infelizmente não poderei ir a universidade, já fui a escola para buscar o resultado dos últimos exames, infelizmente não há nenhuma bolsa de estudo disponível.

Sempre são para os protegidos do diretor, mas não faz mal, o tempo dirá.

Falas como tua tia, quando soube o que aconteceu, me disse para aproveitar, deixar esse filho da puta.

Eu também acho, a próxima vez que chegue bêbado irá atrás da senhora para descarregar.

De repente ela começou a rir, sabe eu já tinha escutado o chamarem dessa maneira, mas escutando você falar, quase soltei uma gargalhada.

Dias depois ela telefonou para a casa do Osorio de noite, disse que estava na casa da irmã, pois senão ele ia aparecer por lá, mas sim na casa de tia Lindaura, uma senhora que sequer era parente dela, mas sim as tinha criado, frequentava um terreiro muito bom lá prós lados da Mangueira.

Ela disse que precisas vir um dia que esteja livre, para tomar um banho de descarrego.

Quando mãe, se trabalho todos os dias, menos domingo, vamos ver se consigo trocar um dia de folga com alguém para conseguir ir, te aviso, anotou o número do telefone de tia Lindaura.

Dias depois sua mãe apareceu, ele achou interessante, estava vestida de outra maneira, nada das roupas que usava sempre.

Consegui através da tia Lindaura, essa era diretora de uma escola, vou trabalhar com o Jardim de infância, lá em Vila Isabel.

O sem vergonha foi a casa de tua tia, aprontou um escândalo, mas sabe como ela é, chamou a polícia, essa quando viu que ele era militar, chamou a do quartel, estava bêbado como um gambá.

Depois disse chorando aos guardas, que precisava de mim em casa, quem ia cuidar dele.

Sei que anda metido em alguma coisa, no quartel, desconfiam dele, pois ele cuida com dois outros da parte de armamentos.

Ela lhe trouxe uma bolsa, não abra agora, mas só em casa, sem ninguém por perto, talvez com isso, possas conseguir ir estudar alguma coisa.

Seu sonho sempre tinha sido fazer Belas Artes, mas sabia que isso não dava dinheiro, depois como ia comprar material.

Podia pagar a metade do apartamento, se podia chamar de apartamento, um salão largo, com uma pequena cozinha dentro de um armário, um banheiro, um outro armário logo na entrada do mesmo, que dividia com o Osorio, que adorava comprar roupas, o bom era que os dois tinham a mesma altura e tipo de corpo, trocavam de roupas.

Osorio trabalhava numa das boutiques mas finas do Rio Sul, ele por enquanto, trabalhava na primeira que tinha conseguido, vendiam calças jeans, camisetas, malhas, camisas polos, ele já tinha conseguido alguns clientes, inclusive turistas americanos, franceses, assim aproveitava para treinar a língua.

Quando chegou em casa, viu que havia vários pacotes, retangulares, enrolados em jornal, pareciam ladrilhos.

Um bilhete dela, esses ladrilhos, são para começares a pensar na tua vida, esse filho da puta, me fez trabalhar a vida inteira para ele de graça, mas quem levava todas as contas dele era eu, fui ao banco, vi um saldo impressionante, creio realmente que esta metido em algo, retirei todo o dinheiro, deixei um mínimo para ele, inclusive rompi o cartão de credito que tinha, assim não pode me acusar de nada.

Isso é para ti, um dia teremos que falar de nossa vida.

Ele quanto contou o dinheiro do primeiro ladrilho, ficou de boca aberta, era muito mais que podia ganhar, tinha aberto uma conta no banco, pois o patrão depositava o pagamento lá, assim falou com o gerente, foi depositando nos meses seguintes, um ladrilho, diziam que ele trabalhava muito bem, para estar ganhando bem assim, ele disse que pintava camisetas por fora.

Escutou dois estudantes de arte que compravam calças jeans brancas para trabalharem, perguntou aonde estudavam, lhe disseram que no Parque Lage, lhe explicaram que faziam cursos livres, do que lhes interessava, a Escola de Belas Artes é muito formal.

Um deles contou que ainda fazia um curso por fora, com um professor Escocês, que pintava a natureza, pinta muito, depois levava tudo para lá, voltava cheio de dinheiro.

Isso era uma coisa que ele gostava, separou alguns desenhos que sua mãe tinha recuperado da casa, foi um dia que terminava cedo até o Parque Lage, conversou na secretária, lhe deram dois nomes de professores, foi olhar as classes deles.

Um ensinava desenho a carvão, a lápis, como uma base, o outro já ensinava pintura, a pessoa a desenvolver sua criatividade.

Se matriculou nas duas classe, pois era os dias que saia mais cedo, pegava um ônibus que passava no Rio Sul, que ia para a Gavea, o deixava justo em frente ao Parque Lage.

Comprou material, lá mesmo, começou as aulas, claro, Osório reclamava, pois agora tinha as paredes cheias de desenhos.

Pensou bem, ainda tinha dinheiro para depositar, olhou um apartamento um pouco maior que aonde estava, ali na Rua Prado Junior, o porteiro só lhe avisou que ali viviam muitas putas que trabalhavam na noite, que estava vetado dar festas.

Era um quarto e sala, a cozinha era igual a outra, não tinha armários para roupas, mas ele conseguiu uma arara numa das lojas, assim tinha como pendurar suas roupas.

Agradeceu muito ao Osório o ter socorrido, o convidou para jantar um dia num restaurante ali perto.

Para ele era fácil, se chovia, andava para a Av. Nossa Senhora de Copacabana, no Lido, tomava um ônibus para atravessar o Túnel, depois para voltar para o apartamento, tinha um que ia para a Praça Cardeal Arcoverde, se apanhava.

Falava agora todas as semanas com sua mãe, ela sempre insistindo que ele devia ir com a tia Lindaura ao pai de santo.

Falou com um colega se ele podia trocar um sábado com ele, pois era uma questão de família, se vais a uma festa que tenha bolo, me traz um pedaço.

Nada disso, tenho que atender uma tia minha.

Marcou com ela, se encontraram num ponto que ela tinha dito, perto do Maracanã, ele pensava que era na Mangueira, nada, foram parar em Padre Miguel, ela lhe explicou que ele tinha mudado de lugar, como se dizia era nos cafundó do Judas, ou aonde o mesmo perdeu as botas.

Levaram mais de uma hora para chegar.

Imediatamente uma moça, que depois ia descobrir que era a Yao, de Pai Juvenal, um homem impressionante, negro como a noite, com um olho branco total, era cego do mesmo, lhe contaria depois, que tinha sido um castigo de Exu, por desafia-lo.

Me meti numa briga de fazer gosto.

Depois de tomar o banho de descarrego, ela o levou vestido só com as calças, para uma sala, que estava virada para um morro, parecia uma floresta.

Dali vem a energia que eu preciso meu filho, disse o mesmo para ele.

Abriu o pano na frente dele, estavam ali fazendo uma roda, muitas guias de santo, no meio uma confusão de búzios, moedas, pedras, alguma outra coisa que ele nem sabia o que era.

Foi interessante, ele colocou as duas mãos imensas, na lateral dessa mesa redonda, ficou olhando para o centro, lhe disse para fechar os olhos.

Caramba, muita coisa vai mudar na sua vida, sempre estarás procurando te encontrar, mas na verdade, meu filho, como todo filho de Exu Bara, isso fará parte de ti a vida inteira.

Muita coisa na tua vida não é verdade, não sabes disso, mas deves procurar conversar com tua mãe a respeito.  

Vejo que estás estudando artes, isso ele sorriu, sabia que falava certo, pois nunca tinha comentado nem com sua mãe a respeito, pois ela diria que não lhe daria futuro.

No que pensou nisso, ela se engana redondamente, pois justamente isso te dará futuro, mas isso nunca será aqui nessa terra aonde ninguém dá valor aos daqui.

Aprenda tudo que possa, esse estrangeiro agora não está, mas quando ele volte, procure falar com ele, te dará um impulso.

De repente começou a cantar, lhe disse para fechar os olhos, falar o que via perto dele.

Ele com os olhos fechados, se virou de lado, ali estava um negro alto, que sorriu com os dentes todos de ponta, sou teu protetor lhe disse, nunca vais incorporar, mas eu seguirei te ajudando.

Falou o que estava vendo, agora podes abrir os olhos, o pai de santo estava rindo, raramente se mostram para seus filhos, na igreja católica falam de anjos da guarda, pois esse negro é o teu.

Outra coisa, sempre esteja aberto para a verdade, para saber das coisas ok.

Saiu de lá revigorado, o pai de santo lhe disse que viesse sempre que sentisse necessidade.

Dias depois sua mãe lhe telefonou, marcaram, a levou ao seu apartamento, ela ficou encantada com os desenhos que ele tinha na parede, para não sujar a mesma tinha colocado com a ajuda do porteiro, um painel de madeira que o mesmo achou por ali, abandonado de uma obra, lhe deu de presente, um retrato do mesmo.

Ela parecia uma criança, chegou a bater palmas, para um desenho que ele tinha feito quando era pequeno, agora o tinha expandido, de uma vez que tinha ido com ela ao Jardim Zoológico, eram uma série de ararás azuis, ele disse que sentia pena de estarem ali presas.

No caso as tinha feito voando como imaginava, com a parte de dentro vermelha, tudo isso a lápis.

Posso levar esse para mim, ele colocou a assinatura que tinha imaginado DS, porque Silveira era o sobrenome dela.

Não quero usar o dele, não gosto.

Ela riu, o coitado está preso no quartel, aquilo que eu imaginava, parece ser verdade, segundo soube vai ser levado a julgamento.   Ele com um grupo, vinham vendendo armas do exército ao pessoal do tráfico de drogas.

Mas quero que saiba por mim, uma coisa, ele não é teu pai verdadeiro, quando me casei com ele, já estava gravida de ti.  Mas jurei nunca falar disso.

Ele de uma certa maneira gostou, deixou de assinar tudo como Monjardim, até se informou se podia trocar de nome, deixar de usar um sobrenome.

Um dia numa das aulas, o professor, começou a ensinar a usarem tinta de serigrafia, explicou que as mesmas secavam rápido, que se tinha que ser ligeiro, que funcionavam bem para quem gostava de pintar camisetas.

Conseguiu um lote na loja que chegaram manchadas, eram todas brancas, ao parecer o caminhão ao fazer a distribuição nas lojas tinha deixado a parte de cima aberta, choveu, molhou tudo.

O professor explicou que tinham que pintar sem a camiseta ter sido lavada, as mesmas têm um preparado normalmente que ajuda a conversar a tinta, depois podem lavar.

Tinha arrumado uma mesa grande, aonde desenhava, tinha era que isolar a parte debaixo com papelão.  Começou a pintar, principalmente em cima de desenhos que tinha feito nas aulas que o professor tinha elogiado.

Quando mostrou aos conhecidos, vendeu algumas, uma colega disse que ele vendia muito barato.  Marcou com ele um domingo, foi com ele a Feira de Ipanema, mostrou o que havia por ali, o preço era quase o dobro que ele cobrava.

Está o apresentou a uma senhora, que era a coordenadora, está disse que trouxesse seu trabalho, que ia olhar, se fosse o caso, lhe conseguia uma barraca.

Um dia que tinha livre, foi até o Saara, comprou um bom estoque de camisetas, de vários tamanhos, mas de adultos, soltou tudo que tinha pensado, algumas eram pranchas de surf que tinha visto na praia, outra surfistas dentro d’água, enfim uma variedade, que como ele via na loja, atraiam aos clientes.

Quando teve tudo, levou num domingo para a senhora ver, ela ficou encantada, com algumas que ele tinha ido no domingo ao Jardim Botânico, tinha feito várias de orquídeas, mas que a flor ocupava a camisa inteira, a mesma lhe comentou se tivesse tempo procurasse algum livro de Georgia O’Keeffe, uma pintora americana, ele fazia algo por instinto que tinha a ver com o trabalho dela.

Nesse dia, ela lhe ofereceu, uma que a pessoa estava doente, lhe disse quanto devia cobrar, pois minha amiga disse que cobras barato.

Em menos de duas horas vendeu tudo, ficou super feliz, ela ficou de lhe avisar, se a pessoa voltava ou não, caso contrário, ele devia abonar o uso do local.

Voltou na hora do almoço no mesmo lugar, para comprar mais, agora saia do trabalho, se dedicava a pintar camisetas, tinha sempre uma quantidade, uma pessoa lhe disse que com a chegada do verão, ele devia fazer um tamanho único, pois as pessoas gostavam de sair da praia com alguma coisa grande, para irem de bares.

Ficou sendo conhecido como DS, era sua assinatura.

Um dia apareceu uma garota, com uma pequena, a menina pediu se ele podia pintar para ela, um papagaio, pois tinha um que adorava, o mesmo tinha morrido.

De que mais gostas, ela lhe mostrou um gato branco, que tinha, com um olho negro.

No domingo que vem, apareça aqui.

Comprou duas camisetas no tamanho da menina, o fazia por impulso, a guardou para não mostrar, no sábado de tarde sua mãe apareceu de surpresa, lhe comentou que o velho tinha sido condenado, apesar do irmão dele, vir até aqui, desde Brasília, as provas são muito fortes.

O mesmo é um coronel, se chama Dagoberto Monjardim.

Quase lhe perguntou, e eu com isso?

Mas não disse nada, contou das camisetas, que estava vendendo bem, venho guardando o dinheiro do lucro, estou esperando um professor escocês, que dá aulas de natureza, quero aprender com ele a pintar.

Não deu mais importância ao assunto, da prisão do velho, agora que sabia que não era filho dele, mais ainda.

No domingo foi a feira, como sempre, chegou cedo, armou sua barraca, tinha conseguido dois manequins estilizados, aonde colocava as menos interessantes, num cabide colocou as tamanho único, todas tinham desenhos de flores, imensas que tomavam quase todo espaço.

Já estava terminando, quando a menina apareceu puxando um senhor, teve a ideia que o conhecia de algum lugar, o mesmo ficou parado na frente dele, o olhando.

A menina disse que era seu avô, que vivia longe, abriu as camisetas para ela, caramba você desenho o gato, só com o que eu lhe falei, apesar da camiseta ser branca ele tinha feito um sombreado para destacar o gato branco, com um olho em volta negro.

O senhor comprou as duas, ele agradeceu, o mesmo lhe perguntou o que era DS, lhe disse que era Daniel Silveira. 

Só fazes isso?

Não, eu trabalho numa boutique no Rio Sul, dois dias da semana faço aulas no Parque Lage, nos outros dias pinto, para vender aqui.

Por quê?

Bom tive que sair de casa, pensei em estudar Belas Artes, mas aqui é melhor estudar por livre no Parque Lage, agora vou começar um curso com um professor especial, que ama a natureza daqui.

A menina começou a puxar o homem pela mão, o mesmo não parava de olhar para ele, até pensou esse homem está me paquerando.

Dias depois estava trabalhando, montando uma vitrine com um companheiro, o gerente tinha comprado uma camiseta, tinha mostrado para o patrão, esse lhe encomendou uma boa quantidade, se desculpou, mas tinha que trabalhar, isso era para ganhar mais.

Mas se tenho esse novidade nas lojas, as camisetas grandes, será um sucesso.

Tinha ido especialmente a loja para falar com ele.

Ficou de pensar no assunto, teria que ter um lugar para isso, tenho que dar um tempo para pensar, não fechar meus caminhos.

Quando olhou para fora, lá estava o avô da garota, vestido de militar, cheio de galões, saiu para falar com ele, este perguntou se podiam conversar.

Saio dentro de meia hora, se me espera, falamos, ficou pensando, será que esse era o irmão do velho.

Seu colega disse que o homem era muito parecido com ele.

Quando se sentaram num bar ali perto, no shopping mesmo, ele disse que era irmão de seu pai.

Ele não é meu pai, minha mãe, me contou.

Que mais te contou?

Que quando se casou, ela já estava gravida.

A cara do homem era impressionante.

Será que podia falar com ela?

Ela a essa hora está trabalhando, lhe deu o telefone da casa de tia Lindaura, assim podes falar com ela.

Me desculpe, por que tanto interesse?

Melhor eu falar com ela antes.

Nesse dia ele começava as aulas com John, foi como receber uma descarga, ele só dava aulas para alunos que ele escolhia, tinha visto seu trabalho com os outros professores, por isso o tinha aceitado.

Seu estúdio estava quase no meio da floresta, aí por uma rua que subia, perto do Parque Lage das grandes janelas, tudo que se via era floresta.

Lhe deu um papel grande, disse para ele desenhar o que imaginava com tudo que via.

Sem querer olhou para um lado, lá estava o Exu Bara, lhe disse, trouxe um amigo da floresta, para veres.

Ele tinha no ombro uma grande arara, além de um mico leão dourado.

Como numa descarga, nem desenhou, foi pintando os mesmo, com o negro no meio, com a floresta por detrás, nem viu o tempo passar.

John soltou, parecias incorporado, fantástico, misturar um negro, com os animais, além da floresta, captaste a ideia, a maioria se perde, tentando me agradar, esses eu mando plantar cocos.

Só posso te dar uma aula por semana, pois tenho que pintar, estou preparando uma exposição para Glasgow.

Lhe pagou o combinado.

John disse que sabia que ele pintava camisetas, coloque o Mico Leão dourado, numa camiseta, vou adorar ter.

Nessa noite teve um sonho estranho, o Exu Bará, o levou por toda a floresta, mostrando inclusive índios, crianças, com plumas na cabeça, os animais de plumas, outros tipos, se levantou as quatro da manhã, desenhou febrilmente, para não perder nenhum detalhe.

Nos dias seguintes, estava como elétrico, vendendo na loja, saia correndo para seu apartamento, sua mãe lhe chamou duas vezes, pediu desculpas, mas estava fazendo uma coisa que não podia parar.

Quando foi a outra aula com o professor, levou uma bolsa com as camisetas, podia ter feito numa tela, mas tinha que colocar para fora essas ideias, ao mesmo tempo ganho dinheiro.

Ele riu, lhe comprou duas, assim não precisas pagar aulas, na verdade tenho pouco para te ensinar.

No domingo vamos fazer uma coisa, iremos para o interior da floresta da Tijuca, num lugar que eu conheço, só tens que levar bloco de desenho, lápis, usar tua memória.

Nesse domingo, não foi a feira, pediu para sua amiga, vender no lugar dele.

Correu para a casa do John, na hora que ele tinha marcado, riu muito, não tinha visto ainda, o mesmo tinha um jeep velho, foram para a floresta da Tijuca, ele soltou dinheiro para uns guardas, foram subindo por um caminho sinuoso, aonde não iam os turistas.

A primeira coisa que tens que fazer, é respirar esse ar puro, depois se concentrar nos sons, imaginar o que vês.

Exu Bará, soltou uma risada, esse não sabe de nada, diga que não fale, como por arte de magia, começaram a aparecer animais, que ficavam na beira de aonde estavam, paravam olhavam para eles, que desenhavam como loucos.

De repente, saiu da mata uma onça pintada, foi até o riacho que estava ali, começou a beber água como se eles não estivessem ali.

Ele sabia que esse animal não existia na floresta da Tijuca. Os dois não pararam nem para comer.

Ele olhou para um lado, viu um garoto vestido de índio, se confundindo com a folhagem da floresta, esse guarde para ti, disse o Exu, desenhou rapidamente, virou a folha, de repente no céu, apareceu um bando de araras azuis, fazendo um ruido infernal, John, disse que o dia estava sendo magico.

Logo quando escureceu, ele disse que era melhor irem embora, pois podiam errar o caminho ficar prisioneiros ali, não vou reclamar, foi o melhor dia da minha vida, terei material para toda a exposição.

Quando chegou em casa, estava esperando na porta, sua amiga, lhe deu um bolo de dinheiro, paguei a senhora da feira, menino, não sobrou nenhuma camiseta.  Apareceu uma menina com um senhor, queriam falar contigo, depois apareceu tua mãe.

Ele a agradeceu muito, lhe mostrou o que tinha desenhado.

Ela ficou de boca aberta, menino esse John que se cuide.

Depois ligou para sua mãe, disse que estava em casa que ia tomar um banho, descansar um pouco.

Ela disse, dentro de meia hora estou aí, tenho que falar contigo.

Ia protestar, mas ela insistiu dizendo que era importante.

Tomou um banho, colocou uma bermuda velha, bem como uma camiseta suja, por ele começava a pintar imediatamente.

Mas viu o Exu Bara ali parado, este lhe disse, escute bem o que vou te dizer, nunca feches nenhuma porta, nem julgue as pessoas, pois todos cometemos erros, faz parte de nossas vidas, tu também os irá cometer, portanto, aceite as coisas como são.

Mal ele acabava de falar, a campainha da porta tocou, quando abriu, estava sua mãe com o avô da menina.

Ela foi entrando nervosa, só tinha dois bancos, ela se sentou rapidamente para respirar.

Podes me explicar o que está acontecendo?

Bom meu filho, esse senhor é teu pai verdadeiro, ele não sabia que existia, o namorei quando jovem, sem saber que ele era casado, em seguida foi para Brasília, nessa época a capital já era lá.    Perdi o contato com ele, descobri que estava gravida, me casei como que pensavas que era teu pai, o que não sabia era que o mesmo era irmão dele, por parte de pai, pois ele nunca me disse seu sobrenome.

Talvez por seres parecido com ele, teu pai te odiava, sempre falava mal desse irmão que era coronel, mas não o tinha ajudado a subir dentro da hierarquia.

Pela primeira vez Dagoberto falou, eu não sabia que existia, agora no julgamento dele, ele esperava que eu fosse tomar partido dele, mas o caso era feio, vendeu armas para traficantes, achava como eu era Coronel, ia o ajudar a escapar.

Quando disse que nem pensar, riu na minha cara, disse que tinha um segredo, o teu filho foi meu, o maltratei tudo que pude, para me vingar de ti.

Na realidade, ele era filho de uma aventura de meu pai, com uma mulher que nunca soube quem era, mas lhe deu seu sobrenome, pois não queria que ele fosse tido como bastardo.

Todos da nossa família temos essa mancha que tens na mão, ele não, foi quando desconfiou que eras meu filho, ele sabia do romance que tive com tua mãe, mas nunca falou nada, ou me avisou disso, preferiu se casar com ela, para assim roubar uma coisa que fosse minha.

Tem a cabeça um pouco confusa, no seu julgamento ficou patente isso, será analisado por uma junta psiquiatra, ele acha que não fez nada demais, já que não conseguia subir na hierarquia.

Mas vejo que realmente eres meu filho, eu tenho duas filhas do meu casamento, infelizmente minha mulher nunca gostou de Brasília, pediu o divórcio, veio com elas para cá.

Queria te conhecer direito, nada mais, mas para isso tinha que ter a autorização de tua mãe, quando te vi na General Osorio, fiquei emocionado, vi tua mancha na mão, bem como eres parecido comigo quando tinha tua idade, tirou da carteira uma fotografia, eram idênticos.

Ele se virou para sua mãe, furioso, ia dizer por que não tinha falado nada, viu atrás dela o Exu Bará, ficou quieto, com a boca aberta.

Tenho que pensar, é muita coisa na minha cabeça, ia falar alguma coisa, mas Dagoberto, estava olhando justo o desenho do menino índio.

Caramba, soltou, é perfeito.

Eu estive um ano destinado no meio dos índios da fronteira do Brasil, com Venezuela, ias amar ir até lá.

Posso olhar os outros.

Agora não, podiam me deixar sozinho, tenho que pensar.

Olhe vou amanhã para Brasília, te dou o meu telefonema particular, me chamas assim que quiseres, venho conversar contigo.

A mãe ainda tentou lhe beijar, mas disse que depois.

Eles saíram, tirou a roupa, se colocou embaixo do chuveiro com água fria, deixou a mesma correndo pela sua nuca.

Quando se atirou na cama, viu que Exu Bará, estava sentado no chão, esse fez um gesto, ele dormiu profundamente, era o sono dos justos, como passaria a chamar isso.

No dia seguinte despertou, foi trabalhar como se nada.

Tinha que tomar decisões, falou com seu chefe, posso fazer camisetas de um tamanho só como faço para os da praia, mas só para essa loja, pois mais, seria difícil.

Mas posso desenhar, o patrão, mandar imprimir, vendo os desenhos para ele, diga isso ao mesmo.

Voltou para casa, se negava a pensar no assunto, esticou uma tela na parede, resolveu pintar com tinta serigráfica, que comprava num fabricante em São Cristovão, fez o primeiro desenho que tinha no Bloco, mas em tamanho grande, primeiro desenhou o fundo, para isolar o que queria, depois o que queria na frente, mergulhou no que fazia, quando viu eram quase as quatro da manhã.   Exu Bará, estava ali sentado no chão, com as pernas cruzadas, como tinha ficado na floresta, só lhe disse amanhã desenhe o resto da floresta.

Ele foi dormir, na verdade desmaiou, no dia seguinte o gerente lhe disse que o dono preferia comprar uma série de desenhos feito por ele, para mandar imprimir.

Disse que iria saber quanto valia um desenho depois negociavam.

Quando chegou no estúdio do John, abriu a tela, começou a olhar para fora, desenhando o fundo da tela, se orientando por tudo que estava ali, ele como sempre ficou parado atrás.

Gostei desse uso de tinta serigráfica, fica genial.

Mandou ele deixar o quadro ali, amanhã vem alguém que eu quero mostrar, a que horas sai do trabalho?

Ok, digo a essa pessoa que venha nessa hora, não disse mais nada.

Tinha que falar com alguém, perguntou ao John, se ele fosse vender só desenhos para outra pessoa imprimir, como seria.

Ele lhe deu uma base, neste pais querem ganhar dinheiro, mas pagar o que vale não.

Faça o mais simples possível, mas que chame a atenção, lhe deu um valor, vá vendendo aos poucos, nada de fazer uma quantidade grande, isso vira exploração, diga que não te sobra tempo, faça cu doce, isso aprendi com os brasileiros.

Chegou em casa, atacou com um pedaço de lona de linho que tinha ali, outro dos desenhos da floresta, de novo foi até de madrugada.

Foi trabalhar, o patrão apareceu, ele negociou, um desenho, o senhor experimenta, se der certo vou fazendo mais, lhe disse um preço bem alto, como lhe tinha ensinado o John, o outro começou a argumentar o que ele esperava, o preço da tinta, da malha, etc.

Mas acabou fechando um preço, mais alto que tinha lhe dito o John.

Amanhã, vou trazer um desenho, bem de verão, creio que irá bem, na verdade tinha vendido o mesmo desenho numa camiseta, para uma americana que ia embora, era um tamanho único, um hibisco, imenso.

Nesse dia o John lhe telefonou, foi no horário combinado, lá estava um homem sentado na frente de seu quadro.

Escutou o homem falando com ele, não posso dizer que teu discípulo, pois pinta de maneira diferente da tua.

Na verdade ele veio fazer aulas comigo, mas eu só vi pintar, nada mais, nunca lhe disse o que deveria fazer.

Foi quando o viram.

O apresentou como dono da Petit Galerie de Ipanema.

Eu te conheço disse o homem, minha mulher comprou uma camiseta das que vende na feira de Ipanema, mas isso aqui, é muito melhor que tudo aquilo.

Nada mais brasileiro, isso faria um sucesso incrível, principalmente com meus contatos, quando podes preparar uma exposição.

O tinha pegado de calças curtas.

Tenho que pensar, lhe contou que trabalhava, ainda não sabia o que pensar, o senhor me deixa pensar, me dê seu telefone.

Podemos fazer o seguinte, John me conhece, levarei esse, mandarei colocar esticar a tela, num bastidor, o deixarei como quem não quer nada na galeria.  Sem colocar preço, se comparo com os que vendo do John, diria que o poderia vender por tanto, soltou uma soma, explicou, está pintando com tinta serigráfica, as pessoas gostam de óleo ou acrílica, mas só para testar ok.

Saiu de lá como barata tonta, telefonou para Tia Lindaura, disse que precisava ir até o Pai Juvenal, ia pedir o dia de amanhã, com a desculpa de preparar o desenho para o patrão.

Ela disse que não podia ir, tinha que ir trabalhar, mas sei quem vai lá, a Yao, mora aqui perto de casa, inclusive tem carro, espere que vou falar com ela, com ele.

Voltou a lhe chamar, perguntou qual era a urgência, disse que não podia falar.

De noite sonhou com o Dagoberto, lhe falando aonde tinha estado, que ele ia adorar.

Se lembrou que ele tinha sido simpático com ele, nada de dizer sou teu pai e pronto, como um coronel, parecia mais que queria que o aceitasse.

Avisou a loja que estaria preparando dois desenhos para o patrão, que não iria trabalhar.

Na verdade o que lhe ia pagar iria bem, para comprar material.

No dia seguinte, se arrumou, colocou uma calça branca, com algumas manchas de tinta, uma camiseta branca, foi se encontrar com a Yao.

O carro dela era velho, mas disse que aguentava ir sempre até lá, meu pai me avisou que eu devia ir e te levar.

Pai Juvenal, fez a maior festa para ele, mas o mesmo da vez anterior, deu a ordem, um banho para o Exu Bará desse menino.

Quando se sentou na frente dele, o mesmo começou a falar, que encruzilhada maravilhosa vejo na tua frente, muita coisa aconteceu ao mesmo tempo, tens que pensar que Exu Bará é o senhor dos caminhos, ele vem abrindo todos para ti.

Falou que necessitava de orientação, não sei tratar desse pai que me apareceu, falou que o tinha achado simpático, ele não sabia que eu existia.

De um lado, não sei como farei para encontrar um lugar para pintar, de outro, tenho medo de não dar certo, perder meu emprego.

Isso é besteira, porque ele vai te ajudar, telefone para ele, verás como vem voando, começou a rir, claro para ser rápido tem que vir de avião.

Faça só dois desenhos para teu patrão, ele vai querer comprar os dois mais baratos, mas não abra mão do preço que conseguiste.

Tomou um ônibus para ir para casa, pensando na vida.

De lá telefonou para Brasília, estou numa reunião, logo que chamo foi o que ele disse.

Meia hora depois, telefonou nervoso, lhe perguntou o que tinha passado.

Precisavam alguém que me orientasse, contou o que tinha acontecido, falou do dono da galeria, ele disse que a irmã dele, mãe da minha neta, era conhecida do mesmo, na casa dela tem um quadro imenso comprado lá.

Espere o escutou falando com alguém para lhe conseguir o primeiro voo para o Rio de Janeiro, um problema de família para resolver.

Ele disse o que tinha negociado com o dono da loja, mas vou fazer dois desenhos que já vendi para turistas que não vive aqui.

Amanhã chamo, quando chegar ok, ou passo pela loja para te buscar?

Mas nada de vir de coronel.

Ele se matou de rir. Vou tentar.

Preparou os dois desenhos, inclusive agora que sabia mais, melhorou os mesmo, para os tornar atraentes.

Os levou no dia seguinte, aconteceu como o Pai Juvenal tinha falado, queria os dois, mas pagar menos.

Nada disso, então só te vendo um como combinado.

Acabou aceitando, mas tem que ser pelo caixa dois. 

Na hora do almoço foi como cheque até o banco e depositou.

Menino, estás tendo um bom dinheiro, daqui um tempo podemos aplicar.

De tarde recebeu uma chamada do dono da Galeria, ria a bessa, mandei uma foto para Paris, um cliente meu, quer o desenho, aqui não para de perguntar o preço, mas como te disse na hora que sabem que é tinta acrílica, ficam com medo, pensam que vai desaparecer.

Nisso viu seu pai do lado de fora da loja, disse que iria até a galeria no dia seguinte, assim podemos conversar.   O homem insistiu que ele fosse nesse dia mesmo, repetiu o que tinha escutado o pai dizer, tenho que resolver um problema de família.

Dagoberto, nunca o poderia chamar de pai, estava vestido com uma calças jeans e camisa polo.

Foram andando para sua casa, não falou nada enquanto isso.

Contei para minhas filhas da tua existência, a daqui aceitou tranquilamente, mas a que vive nos Estados Unidos, essa é complicada, fez um escândalo, como sempre faz.

Minha neta, disse que agora tem um tio, rindo me disse que vai dizer as amigas que terá todas as camisetas do mundo.

Quando chegaram em casa, ele perguntou o que ele queria beber.

Não bebo, só água está bom, preciso fazer exercício, essa caminhada me cansou, além de estar nervoso.

Não sei se o chamarei de pai algum dia, foi uma surpresa para mim, mas me aconselharam a falar com o senhor o que está me acontecendo, não posso falar com minha mãe, pois não saberá me orientar.

Contou do professor John, o que tinha acontecido, que o dono da Galeria tinha levado o quadro, que tinha gente interessada, bem como ele queria fazer uma exposição.

Não tenho aonde montar um estúdio, ao mesmo tempo medo de perder meu emprego, eu guardo todo o dinheiro que recebo, para um futuro, não estou pedindo com isso, dinheiro seu, nada disso, aliás eu não gostaria disso.

Veja eu pintei o quadro aqui nessa parede, secou rápido porque é tinta serigráfica, seca rápido, mas a ele interessa que seja tinta óleo, ou acrílica, que seria melhor para trabalhar.

Meu problema é aonde, não sei o que fazer.

Vejamos, o que posso fazer, tirou do bolso da camisa, uma agenda pequena, disse que era de amigos do Rio de Janeiro, com este estive da última vez que vim aqui.

Telefonou, falou com alguém, perguntou se o lugar que ele tinha falado, se estava livre ainda.

Pediu o endereço, podemos ir agora para lá.

Falou para ele, sempre fui assim nada é para amanhã, se podes resolver agora.

Desceram pegaram um taxi, ele deu a direção da rua Maxwell, na Tijuca, quando chegaram um homem do mesmo tamanho de seu pai, o abraçou, olhou para ele, dizendo não sabia que tinhas um filho.

Depois te conto lhe respondeu.

Ele explicou, esse local era de meu pai, herdamos eu e meu irmão, mas apareceu um outro herdeiro, um filho do sem vergonha do velho.

Esse quer a sua parte, então só posso alugar, porque o processo, apenas começou o advogado diz que pode durar anos.

Subiu uma porta de metal, assim temos luz, aqui foi uma oficina mecânica, mas mandei limpar tudo, inclusive pintei as paredes de branco para melhorar.

Acendeu uma luz, ele ficou de boca aberta, era o lugar perfeito, lhe perguntou quanto cobrava.

Por seres filho de Dagoberto, barato.

Disse um preço, era um pouco mais do que pagava no apartamento, viu que tinha um banheiro com chuveiro, posso viver aqui ao mesmo tempo.

Disse que teria que forrar as paredes de painéis para poder pintar.

Perguntou como fariam, se ele precisava de fiador para alugar?

Nada disso, basta como te disse ser filho do Dagoberto, mas se daqui a um ano ou dois, isso for vendido tens que sair.

Se eu nem sei aonde estou hoje, quando mais daqui um ano ou dois.

Negocio fechado, eu só virei cobrar o que gaste de luz e água por fora.

Saiu dali rindo, foi fácil, verdade Dagoberto.

Nada como ter amigos, infelizmente meu irmão nunca foi meu amigo.

Meu velho ainda é vivo, ficou horrorizado, ele foi militar a vida inteira, aposentado com louvor, apesar que não o ligaram com o Sargento Banana, está chateado.

Ele vive aqui perto, quer conhece-lo.

Ficou em dúvida, ele não sabes que existes, não falei nada para ele.

Tomaram outro Taxi, ele deu a direção, foram dez minutos, desceram num edifício imenso, cercado de um jardim.

Era um primeiro andar, o porteiro, cumprimentou Dagoberto, a o senhor veio com seu filho, o velho vai ficar contente, ninguém vem visita-lo mais.

No elevador ele disse, tem birra com minha filha dos Estados Unidos.

Tocou a campainha, abriu a porta um homem igual ao Dagoberto, mas mais velho, com os cabelos todos brancos.

Outra vez no Rio de Janeiro, ele saiu da frente, trouxe uma pessoa para o senhor conhecer.

O velho ficou olhando para ele, pegou sua mão, quando viu sua marca, riu, meu neto então.

O abraçou apertado, finalmente um neto para alegrar meu coração, venha entre, era um apartamento imenso.

Vivo aqui sozinho, minha velha morreu, ela gostava de pintar, venha, o levou a um pequeno estúdio, cheio de pequenos cavaletes.

Pois esse tem a quem puxar, disse de aonde vinham, o senhor se lembra quando vim aqui com minha neta, o senhor perguntou quem tinha desenhado a camiseta, foi ele.

O velho pegou seu rosto, com as duas mãos, ela ia adorar te conhecer, menos mal que me perdoou antes morrer das minhas burradas.

Não falou nada, se sentaram na sala, saiu uma senhora negra, daquelas mocetonas de escola de samba, abraçou o Dagoberto, estava escutando tua voz, já coloquei café para fazer, quando o viu, abriu a boca, mais um Monjardim.

Ele ia dizer Silveira, mas ficou quieto, o velho repetiu, imagine ela ia ficar alegre, alguém herdou seu gosto pela pintura.

Ai contou que ele tinha acabado de alugar a velha oficina, lhe surgiu uma oportunidade, de fazer uma exposição na Petit Galeria de Ipanema, a melhor da cidade, ele vive num quarto e sala, ali em Copacabana, estava agoniado com isso, como ia fazer, além e que trabalha numa loja no Shopping.

A meu neto, as oportunidades não se podem deixar passar, tens que arriscar, podes vir viver aqui com esse velho, verdade Mada, como é seu nome?

Daniel, respondeu.

O velho começou a rir, como eu.

Mada, começou a rir, não vá dizer seus títulos todos, General Daniel Monjardim, não aguento mais ouvir isso, nem falar do Juscelino, seu velho amigo.

Vê como sou tratado, meu neto, mas falou isso rindo.

Ela disse que ia buscar o café.

Ele se levantou para a ajudar, na cozinha ela soltou na cara dele, vejo que eres boa pessoa, principalmente com esse que tens ao lado, um grande Exu, verdade.

Sou do santo também meu filho.

Saiu da cozinha rindo, dizendo se o velho descobre, ele que é católico apostólico romano, vai ter um enfarte.

De que os dois estão rindo, queria saber.

Nada, me mandaram fazer uma coisa, deixou o café para eles irem se servindo, foi buscar um bloco que estava em cima da mesa, uns quantos lápis, ele agradeceu,

Estava vazio, começou a desenhar o velho, esse ficou primeiro feliz, depois chorou um pouco, a se tua mãe, visse isso ia ficar feliz.

Depois fez outro da Mada.

Esse eu quero para meu quarto.

Entendeu que seu pai tinha contado ao velho, quando esse lhe perguntou se conhecia a sua irmã grã-fina de Ipanema, nunca tem tempo para o velho.

Mas tu estarás aqui perto, posso ir te ver.

Sim, assim que estiver instalado o aviso.

Ufa, vai me arrastar por aí todo o tempo.

Tens que vir almoçar algum dia, a coitada da Mada, cozinha de maravilha, mas comida de velho já viu como é, assim posso escapar um pouco da rotina.

O velho ao irem embora, ficou abraçado com ele, dizendo não desapareça.

Quando desciam, Dagoberto disse que era melhor ele não saber nada do meu irmão.

Queres ir conhecer tua irmã?

Hoje não, é muito para minha cabeça, amanhã tenho que pedir demissão, providenciar minha mudança para o armazém.

Vais viver lá?

Sim será mais prático, vi que tem um banheiro, dou uma limpeza no mesmo, me apanho.

Eu te ajudo a fazer isso.

Foram jantar juntos, ele pediu que lhe contasse como era esse lugar que ele tinha falado.

Bom lá tem uma guarnição de fronteira com a Venezuela, tudo que existe é um campo de pouso, um quartel, com uma muralha antiga, isso deve ter existido nem se sabe a quanto tempo.

Mas foi construído pelos espanhóis.

Adoraria ir, para buscar coisas para esse trabalho.

Oras eu posso pedir para te levar, tenho amizade com o Coronel que me substituiu lá.

Bom vou primeiro resolver tudo, depois quando já tiver o trabalho andando falo com o senhor.

Pode me chamar de Dagoberto.

No dia seguinte foi uma roda viva, pediu as contas, foi ao banco, perguntou se tinha uma agência perto de aonde ia estar, o gerente telefonou para lá, dizendo que iam transferir a conta de um bom cliente.

No dia seguinte foi com seu pai a Petit Galerie, o apresentou ao senhor, ele disse que tinha arrumado um estúdio, mas que pintaria a maioria em Acrílica, que era o melhor.

Bom tive que esconder teu quadro, todos querem comprar, inclusive uma senhora minha cliente, madame Monjardim, adorou.

Dagoberto falou baixinho, tua irmã.

Ficaram os dois rindo.

Este disse, peça tantos milhões, como aquele horroroso que ela comprou do senhor.

Este ria a bessa, foi o marido dela, achado que a ia agradar.

Ela vive reclamando que odeia o mesmo, mas não pode fazer nada por causa do marido.

Adalberto quando viu o quadro, ficou parado, com a boca aberta.

Caramba, tua avô ia ficar louca, sempre sonhou com isso, reclamava de ter que pintar em pequeno, dar de presente para as amigas, sonhavam em pintar quadros grandes, uma vez viu o Guernica de Picasso, ficou louca, queria fazer assim, mas claro em casa não tinha espaço, o velho reclamava.

Acho que por ela tinha transformado o salão em seu estúdio.

Imagina que o velho depois de aposentado passa o dia inteiro vendo noticiário, reclamando dos políticos, nenhum é como seu amigo Juscelino.

Dagoberto, o ajudou a se mudar, a preparar a iluminação, depois avisou que tinha que voltar para Brasília.   Ia montar a viagem deles, mas antes apareceu com uma câmera fotográfica, deu de presente para ele, acho que deves ir registrando cada trabalho, evidentemente que a galeria ira mandar um profissional para fotografar, para fazer o catalogo, mas é sempre bom ter uma coisa tua.

Só avisou sua mãe e tia Lindaura, quando este tudo pronto, quando apareceram, ele já estava trabalhando, as duas ficaram como barata tontas, contou que tinha pedido demissão do emprego, que agora ia por livre.

Em breve irei com o Dagoberto a Amazonas, para fazer mais desenhos.

Ele esteve aqui?, perguntou sua mãe.

Sim foi ele quem conseguiu esse lugar para mim, mas pago eu com minha economias, além do que ganhei com meu trabalho.

Foi até a feira agradecer a senhora, levou uma foto do que estava fazendo.

Ela sorriu, eu imaginei que ias durar pouco tempo, serás um grande artista.

Convidou o John, para ir ver o local, este disse que quando tivesse tudo pronto, viria ajudar para montar a exposição.

Falou da viagem com o Dagoberto.

Caramba eu adoraria ir junto, se consegues, te agradeço.

Ele sabia que tinham maneiras distintas de olhar e fazer um trabalho, por isso, telefonou para saber se o podia levar.

Mande os documentos dele, assim providencio tudo.

John ficou como louco, saíram os dois para comprar material para levar, muitos lapises, blocos imensos que ele mostrou como encomendar, um papel especial que usava.

Ele já tinha metade dos quadros prontos, um dia convidou ao seu avô como a Mada, para virem ver, o velho ficou impressionado, como sempre olhou tudo abraçado a ele.

Seu pai me telefona agora quase todos os dias, diz que vai contigo aonde esteve no Amazonas, eu fui a muitos anos atrás, mas claro não tinha interesse como tu.

Antes de ir, foi almoçar um dia com eles, de lá chamou seu pai.

Foram os dois até Brasília, Dagoberto fez questão de que ficassem em sua casa, vivia no quartel, imagina, eu tinha um desses apartamentos funcionais, mas odiava, me sentia sozinho.

Todo mundo vinha falar com ele, tinha contado para o John que era seu pai, mas não comentou mais nada.

A viagem foi num desses aviões da FAB, um ruido infernal, mas levaram todo o material que tinham, tomaram vacinas no quartel, riu muito, John tinha horror a agulhas, olhava para o outro lado.

Quando chegaram, riram muito, havia um caminhão os esperando na pista, a mesma era cercada de cada lado pela floresta.

No dia seguinte começaram, foram até uma aldeia perto, iam com eles dois soldados armados, mas um deles conhecia o chefe.

Desenharam todos os garotos, as pessoas que deixaram, depois de canoa, foram entrando selva adentro, John dizia aos soldados que não falassem para não espantarem os animais.

Mal via ele que o Exu Bará estava ali, mostrava o que podia.

Dagoberto ia fazendo fotografias, para documentar segundo ele, nunca tinha feito isso, pegou o gosto.

Foram em várias direções, inclusive do lado da Venezuela, acompanhado dos soldados de lá.

Depois de 15 dias tinham gastado todos os blocos, voltaram.

John só faltou beijar o Dagoberto, este em particular, lhe perguntou se no futuro queria ir ao Xingu, vou me informar da festa do Kuarup, assim te levo.

Breve irei ao Rio, vou visitar meu pai, outro dia ele soltou a tua irmã, que tu aparecias, ela não, nem para levar a bisneta que ele gosta muito.

Ele já estava com a exposição bem adiantada, não ia usar tudo que tinha conseguido, sentia que ainda não era o momento.

Os quadros eram imensos, John veio ver um dia, ficou parado na porta, depois se sentou como fazia, com a mão no queixo, depois foi olhar todos que já estavam esticados em bastidores.

Nisso chegou Dagoberto, com a neta que correu para ele o chamando de tio Daniel.

Vinham busca-lo para almoçar na casa do avô, eles arrastaram o John junto, o velho gostou dele, falando com o mesmo em inglês.

Dada tinha esmerado no almoço. Quando estavam na sobremesa, entrou sua irmã, a tinha visto na feira de Ipanema, ela lhe tinha comprado uma camiseta.

No fundo era parecida com ele.

Foi agradável, se notava que era um pouco snob, quando soube quem era o John, disse que adoraria ter um quadro dele.

Esse riu dizendo que o dele, eram melhores.

Sim agora sei que o que gostei na galeria era teu.

O John estava me ajudando a separar, para mostrar para o dono da galeria.

Ele foi ao quarto de sua avó, buscou o bloco, começou a desenhar a menina, esta estava quieta, deslumbrada, ser desenhada por ele.

A fez com o papagaio que sempre falava no ombro, bem como o gato deitado nas suas pernas.

Ficou como louca quando viu, quase arrancou da mão dele, para mostrar ao bisavô, esse ria muito.

Sua irmã agradeceu, só na saída foi que disse seu nome, Isabel.

Nos vemos na inauguração.

Mal ela saiu, o velho soltou, nem nos convidou para comer em sua casa.

Dada se matava de rir.

John o ajudou em tudo, quando o dono da galeria veio, com o fotografo, ficou louco, tinham que ir com cuidado, pois não havia espaço para tudo.

Fez uma outra seleção, mas vamos fotografar tudo, para o catalogo, assim se alguém quiser ou se vender tudo, vou vendendo por catalogo.

Ele foi com sua mãe, sua tia e tia Lindaura para comprar alguma roupa, a pergunta de sua mãe era se o Dagoberto ia.

Sim, acho que sua filha daqui também, já a conheci, é rica, meio snob, mas a menina é fantástica.

Tinha saído dos jornais, na televisão, aquilo estava abarrotado.

Sua tia que nunca tinha ido a uma galeria perguntou se o que colocavam uma bola vermelha era uma crítica.

O dono da Galeria, apareceu com um homem super bem vestido, o apresentou como um cliente de Paris, veio especialmente, porque adorou a foto que lhe mandei do primeiro quadro.

Pelo visto vou ter que comprar pelo catalogo, tinha um nas mãos.

Pena minha mãe não poder vir, mas está doente, teve uma caída, está em casa.

Adora esse tipo de pintura.

Isso tudo falando em francês com ele o tempo todo.

Dagoberto chegou acompanhado da filha, do genro, da menina que correu para ele, pulando no seus braços, reclamou que não a queriam trazer, se não fosse o vovô, este explicou que tinha ido buscar seu pai, além da Dada.

Essa ria muito abraçada a tia Lindaura, era filha de santo do Pai Juvenal, este chegou, quem o trouxe foi a Yao, que vinha vestida como devia, o abraçou, viu te disse, agora toca ir em frente.

No final da noite chegou um amigo do francês, dono de uma galeria, não pude vir no mesmo avião, mas gostei demais, quando queira minha galeria está aberta para ti.

Seu Exu, lhe disse ao ouvido, esse não, não confio nele, não diga nem sim, nem não.

Seu pai, apresentou seu genro, não gostou do mesmo em seguida, claro sentiu que era o Exu, lhe dizendo, esse é outro sem vergonha.

Sua irmã, não quis conhecer sua mãe, esta tampouco fez força.

Mas de qualquer maneira a noite foi ótima.

Depois que sua irmã foi embora, ele levou seu pai e Dada para casa, ele foi junto, pois estava louco para cair na cama.

Um mês depois ia para o Xingu com seu pai, John não podia ir, pois tinha já embarcado seus quadros, para a exposição em Glasgow, levou seu catalogo para lá.

Dias depois da exposição, o francês apareceu, acompanhado do outro, esse queria comprar vários quadros para levar, mas sem negociar com o dono da galeria.

Ele disse que não, era seu agente.

O mesmo foi embora de cara feia, depois o dono da galeria falou, esse é sempre assim, não o convidei, o outro mostrou a foto, ele apareceu sem avisar.

Não confio nele.

Eu tampouco.

Não se preocupe, mandei o catalogo para vários de Paris,

Veio depois buscar uns quantos mais, pois dois o dono o queria retirar da galeria, pois ia viajar.

Um ia para São Paulo.

Vou negociar o restante com uma galeria de São Paulo, assim que voltes do Xingu, se podes acrescentar alguns novos, faremos uma exposição lá.

Ele tinha visto sua conta no banco, estava gorda como dizia.

Seu pai o esperou em Brasília, levou mais blocos desta vez, foi uma loucura, tinha chegado dias antes, assim pode ver todo mundo, como viviam, as crianças andavam atrás dele o tempo todo.

Um rapaz muito bonito, uma noite se ofereceu para ele, não sabia aonde se enfiar, seu pai, disse que o mesmo futuramente seria um chamã.

Este se sentou ao seu lado, em frente uma fogueira, lhe disse que esse homem te vigia o tempo todo, é teu espirito, eu tenho os meus.

Venha vamos tomar banho de rio, ali fizeram sexo.

Dias depois quando acabou a festa, no avião, contou para Dagoberto a aventura no rio, eu vi os dois indo para lá, eu não me importo, quero que sejas feliz, eu não soube viver minha vida, espero que tu sim possas.

Caiu no trabalho, usando desenhos que tinham sobrado, preparando para a de São Paulo, um dia o da galeria apareceu, disse que o marido de sua irmã tinha comprado um quadro, mas o cheque era sem fundos, acho melhor avisares o Dagoberto.

Ele falou com o mesmo, de noite.

Este disse que estava desconfiado, mas vou tirar informações.

Nem foi o caso, dias depois estourou o escândalo.

Ela só ficou com o apartamento, ele desapareceu no mapa de uma hora para a outra.

Dagoberto tirou férias, ia sempre ao estúdio com a neta, ela estava agarrada a ele, dizia que o tio era melhor que o pai dela.

Depois sempre iam comer na casa do bisavô, este um dia perguntou como estava a Isabel?

Como uma barata tonta, nisso saiu a mãe, agora quer vender o apartamento, mas está no nome dos dois, pode ser que o processo engula ele também.

Caçaram o marido dela em Miami, com outra mulher.

Aí o escândalo foi feio, pensou no Exu, mas ele disse, que ficasse de fora, ele ia ajudar, mas desde que ele não se metesse.

Dagoberto tinha um apartamento no edifício ao lado, levou a filha e a neta para lá, foi quando a dos Estados Unidos apareceu, já imaginando que o pai ia deixar de herança o mesmo para a irmã.

O velho Daniel dizia, saíram a mãe delas, só pensava em dinheiro em subir na vida, mas era daqui mesmo de vila Isabel, escondia isso de todo mundo.

O velho estava cada vez mais agarrado a ele, o convenceu de ir a São Paulo, levava a Dada também, seu pai arrumou um Apart Hotel, perto da Galeria, o dono da de Ipanema, foi para lá montar a Exposição, quando soube que iam tirar a menina da escola que estudava, mandou vender o primeiro, deu o dinheiro ao pai, dizendo, pague a escola da garota, ela vai estranhar muito mudar da mesma.

Estava crescendo, muito bonita, num primeiro quadro com os garotos do Xingu, a pintou no meio deles, ficou como louca.

Tirou uma foto dela, no quadro, a irmã, não gostou.

Ele levou um ano preparado tudo do Xingu, desta vez o dono da galeria, convidou um grande de Paris.

Como sempre tinha quadro demais, ele nem tinha usado todos os desenhos ainda, o convidou para terminar essa parte em Paris.

Dagoberto chamou a adido cultural, mesmo um amigo que tinha lá, tinha trabalhado na embaixada, pediu que lhe conseguissem um estúdio para trabalhar.

Lá foi ele, antes foi fazer uma firmeza em Pai Juvenal, esse dizia, agora começa tua nova vida.

Pensou em ir, por um tempo, nunca imaginou que ficaria tanto tempo por lá.

Claro o dinheiro que tinha, transformado em Euros valia menos, mas apesar do dono da galeria insistir, comprou tudo com seu dinheiro, bem como pagava o Estudio.

Levou meio ano, preparando a coleção, um em especial ele gostava, era o futuro xama, na beira do rio, contando histórias para os garotos.

Seu pai veio, ele mandou bilhetes para sua mãe e suas duas tias, sentia não poder trazer o Pai Juvenal, mas esse estava também doente.

Foi um sucesso, quem era esse novo enfant Terrible das artes francesas, perguntavam.

No dia da inauguração, conheceu o homem com quem viveriam muitos anos, era um dos costureiros mais famosos de Paris.

O viu parado na frente de um quadro, ele tinha se incluído no mesmo, estava juntos com os jovens guerreiros, lhe perguntou se gostava, ele disse que sim, principalmente desse daí, apontou para ele no quadro.

Agora tinha os cabelos imensos, como estava no quadro, parecia mais um deles.

Tinha feito outro do chamã, um desenho que gostava muito, que era ele refletido nas águas do rio.

Uau, soltou o costureiro, isso foi feito com amor, lhe perguntou baixinho se tinha feito sexo com ele, sem querer começou a rir, concordando.

Serias capaz de desenhar esses padrões geométricos dos desenhos do corpo, para uma coleção, assim começou o relacionamento dos dois.

Disse que se ele quisesse, podia pintar ele mesmo os tecidos.

Foi o que ele fez, mas desenhou para ele os padrões como queria, que o mesmo enriqueceu com pedrarias, lantejoulas, o diabo a quatro, durante o desfile, ele tinha desenhado dois quadros imensos, que não tinha ido para a galeria, cada um ficava nas laterais por aonde saiam os manequins.

A principio não se entenderam, Jean fumava demais, bem como bebia muito, ele só tomava água, disse que não queria viver com uma pessoa assim, o outro estava apaixonado, largou todos seus vícios, para viver com ele.

Tampouco queria viver no apartamento luxuoso que este vivia, adorava seu estúdio, o comprou com o dinheiro da exposição.

Um dia sonhou com o Exu Bará o levando a Africa, tinha ido dias antes ver uma exposição sobre o Egito, tinha adorado certas coisas.

Mas foram para o Benin, o mesmo o foi guiando por aonde devia ir, a se sentar nas feiras das vilas, desenhando como um louco, comprando tecidos e mais tecidos para depois incluir nos quadros, quando falou com o Jean, esse foi como um louco.

Foram depois a Nigeria a uma fábrica de tecido, ele desenhou todos que o Jean lhe pediu, sempre teriam essa cumplicidade.

Levou outro ano e meio preparando uma exposição, Jean que adorava o luxo, chegava no estúdio, tirava toda a roupa, colocava uma camiseta velha dele, bem como uma bermuda, se sentava numa mesa imensa que ele tinha, ficava lá desenhando sua próxima coleção, inspirada no quadros dele.

A galeria se preparou para a exposição, ia agora para outro lado.  Seu pai veio novamente, sua mãe não, tia Lindaura estava mal, morreu no dia da inauguração, sua mãe telefonou ao Dagoberto que só lhe contou depois, meses antes tinha morrido Pai Juvenal, soube sonhando com ele.

Ele preparou o cenário todo para o Jean apresentar sua coleção que por si só foi uma festa, ele trouxe uma mulher que tinham conhecido numa feira, que fazia uns turbantes incríveis com os tecidos, acabou ficando, trabalhando com o Jean.

Quando sua mãe ficou doente, sua tia o avisou, disse ao Jean, que iria, queria pegar sua mãe ainda viva, ele foi junto, não podia se imaginar, vivendo sem seu homem como dizia.

Ele passou os dias todos ao lado da mãe, Dagoberto que agora era General, veio de Brasília, para ficar com eles.

Tinham se tornado amigos novamente.

No enterro ele foi com sua neta, agora uma adolescente linda, sua mãe tinha se divorciado, se casado novamente com outro homem rico.   Ela vivia com o bisavô Daniel e Dada, fazia universidade.

Quando terminou tudo, voltaram para Paris, seu pai foi junto, levando a Neta, teve que voltar correndo, pois seu pai tinha morrido.

Ele chegou em cima da hora do enterro.

Um advogado se aproximou, lhe deixou um cartão, outro para seu pai.

Foram falar com o mesmo, era seu testamento, deixava o apartamento ao filho, mas ele não podia vender, porque queria que fosse o pouso de seu neto no Brasil.  Para a bisneta deixava dinheiro terminar seus estudos.

Ela voltou com ele para Paris, ia desfilar para o Jean.

Foi ela quem lhe deu um toque, ele está diferente, creio que não está muito bem. Jean era quase quinze anos mais velho do que ele.

Um dia não se levantou da cama, se sentia mal, na ambulância ia repetindo, tudo isso outra vez.

Soube então que ele tinha essa doença do coração a anos.

Mesmo assim ainda terminou sua coleção a apresentou, dias depois morreu dormindo.

Deixava tudo para sua família, que ele nunca tinha conhecido, realmente não precisava disso, estava acabando uma série de quadros sobre o que tinha ido fazer o Egito, nada de pirâmides, ou faraós, tudo girava em torno a Anúbis, que ele ajudado por Exu Bará, tinha visto em vários lugares, pela primeira vez tinha feito duas esculturas, de como ele via esse Deus.

Depois tinha contratado vários homens negros, pintado os mesmo como esse Deus.

Pela primeira vez se atrevia a usar coisas diferentes, laminas de ouro para as roupas, esculturas que aprendeu a fazer, foi a escola de Belas Artes, como qualquer aluno para aprender.

Foi justamente quando morreu o Jean, ele esperou ainda um tempo para fazer a exposição.

Foi outro sucesso, nele falava do poder da vida.

Dois anos depois, estava preparando uma coisa diferente, tinha andado pelos subúrbios da cidade, retratando as pessoas, o da galeria não entendia, o que ele queria, mas tampouco deixava ver os quadros já pronto.

O mesmo esperava um fracasso rotundo, aonde já se viu retratar pessoas do subúrbio.

Foi quando soube por sua sobrinha, que seu pai estava mal, largou tudo, tomou um voo noturno, de manhã estava no Rio.

O pai ficou surpreso, agora o chamava de meu filho, ele retribuía, o chamando de pai, eram amigos acima de tudo, tinha ido a Paris, para o enterro do Jean.

O ajudou depois, pois a família deste começou a brigar pelos bens, só ficou com poucas coisas dele, nada de valor, que tinha no apartamento do estúdio, ao lado da cama.

Mesmo assim queriam ir até lá para saber se ele tinha algo de valor.

Ele disse ao advogado, Jean falava muito mal da família, que o tinha colocado fora de casa, mas quando ficou famoso, rico, todos queriam ser seu amigo, agora isso, tudo porque não tinha deixado um testamento, seu legado era só o arquivo de suas coleções.

Que pertenciam na verdade ao que financiava tudo para ele.

Por isso só tinham seu apartamento para brigarem, mas ao vender o mesmo, restava pouco para cada um.

Contou isso para distrair o pai, passou os últimos momentos, ao lado dele.  Sua sobrinha, tinha avisado sua mãe e sua tia, Dagoberto como tinha deixado o apartamento de Ipanema para as duas, vivia na casa dos pais, Dada ainda velha é que cuidava de tudo.

Ela morreu dez dias antes de seu pai, quando esse a resolveu enterrar no mausoléu da família, suas filhas reclamaram, pois ela foi mais minha família, que vocês duas.

Acabou de criar tua filha Isabel, porque achavas que sofrias muito, a merda as duas.

Quando finalmente morreu, o enterro foi impressionante, ele afinal era um General, veio muitos militares, foi embaixo de toda essa honra, que ele no fundo odiava.

As duas não apareceram, mas dias depois apareceram na leitura de testamento.

Ele deixava tudo que tinha no banco para sua neta, o apartamento era de seu filho, por vontade do avô, ficaram uma fera, mas estava no testamento do avô, não podiam fazer nada.

Sua sobrinha ficou de seu lado, essa minha mãe, sempre pelas aparências.

Quando acabou tudo, levou a sobrinha com ele para Paris, ia sentir falta do pai.

Ela fez uma pós graduação na Sorbonne, ele finalmente acabou o que estava fazendo, o dono da galeria foi esperando uma coisa, levou um susto.

A coleção se chamava sonhos, ele tinha transformado nos quadros os sonhos das pessoas que tinha contado para ele, quando emigraram o que tinha sonhado.

Alguns eram como viviam ao lado como num díptico, o que tinha sonhado, alguns quadros foram comprados por museus.

Quando acabou tudo, estava cansado, a sobrinha queria voltar para o Brasil para trabalhar.

Ele foi junto, o local do antigo estúdio agora era um edifício grande.

Sua sobrinha se casou, ele passou a viver no apartamento, usava o salão para pintar, agora como sua avô fazia pequenos quadros, para se distrair, tinha dinheiro por muito tempo.

O filho da Yao, o levava ao terreiro quando queria, mas ia mais para fazer obrigações para seu Exu, depois cuidava de tudo para ele.

Sua única herdeira seria sua sobrinha, um dia estranhou que as irmãs o viessem visitar, rindo perguntou a elas, se vinham ver quando ele morria.

Nada ira para as duas, além de que vocês são mais velhas, apesar de esticadas, velhas, fendem a urina seca, bem como naftalina, nisso entrava sua sobrinha com os dois filhos, os dois tinham a mancha na mão.

Expulsou as duas, parecem aves agourentas, mas escutei o que o senhor disse, mas a verdade que gente ruim demora para morrer.

Ele ainda viveu tanto tempo como seu avô, chego a ver os sobrinhos netos irem a universidade.

Delas nunca mais soube, pois morreram numa casa para pessoa maiores.

Seu último pensamento, foi que via seu Exu Bará, lhe estendendo a mão para sair daquele saco humano velho, saiu como um jovem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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