MARIALVA
As vezes as coisas saem pelas linhas
cruzadas da vida, isso dizia Pai Jeronimo de Xangô, não havia dúvida.
Minha história começa como por um acaso,
minha mãe verdadeira, uma mulata alta, com as pernas larguíssimas, um dia
telefonou para ele desde Paris, era filha de sua antiga Yao, que tinha morrido
justo naquele ano.
Disse que estava gravida, que não sabia que
fazer, pois tinha um casamento marcado com um alemão, com título, era um conde
ou coisa parecida. Ela tinha sido
educada que aborto, jamais.
La veio ela desde Paris, a barriga ainda
não se notava porque era muito alta, mas claro já começava a aparecer, chegou
usando uma roupa larga, para não chamar a atenção, correu para o terreiro, que
ficava perto de Colônia, era a única casa de Santo no Parque Estadual da Pedra
Branca, se dizia que Pai Jeronimo, tinha recebido de herança, uma casa imensa
caindo aos pedaços, mas ele com o tempo arrumou, era na verdade uma antiga
fazenda que ficou esquecida dentro do parque, por isso ninguém enchia o saco
dele, ao lado da casa principal, tinha uma antiga senzala, que estava no chão
quando ele chegou, com o tempo levantou as paredes, ali era o terreiro. Com ele nada de santos, altares, dizia que
se quisessem isso, fossem a igreja católica.
Para muitos ele era um estranho, pois tinha
dois metros de altura, um mulato muito claro, de olhos azuis quase brancos, tinha
Xangô de frente, com seu Exu Bará, além de Nanã Baruque de acompanhante.
No dia que disse para ela vir, foi porque
seu Exu, lhe disse ao ouvido, esse menino é meu filho.
Atualmente ele cuidava de tudo, ajudado por
uma mãe pequena, que muitos achavam graça, pois era uma mulher que um dia
apareceu por lá, vivia imagine em Ipanema, professora no Fundão, vinha
perturbada, não sabia por quê.
Tinha sido educada num colégio de freiras,
daqueles de missas todos os dias, o que ela não entendia era que a família era
de judeus, a enfiaram lá, pois seus pais só davam atenção aos filhos
homens.
Mesmo assim, quando saiu, foi fazer
universidade, depois convidada pelo professor que a orientou na pós-graduação,
fez concurso, passou, ficou como sua auxiliar, até que ele se aposentou.
Era considerada uma sumidade, tinha alunos
de arqueologia, bem como de história antiga da Grécia, Antigo Egito, e outras
milongas mais.
Ficava trabalhando até quinta-feira, depois
ia para o terreiro, aonde dizia que tudo era perfeito para ela, ia no seu carro
velho, para não chamar muita atenção.
No dia que chegou lá, se incorporou
imediatamente em uma Iansã, que explicou ao Pai Jerônimo, que ela tinha todos
os santos, mas como tinha sido educada como católica, sendo judia, tinha uma
bela confusão na cabeça.
Em menos de meses, tudo bem, tinha raspado
a cabeça, seguindo a orientação dele, era intuitiva, logo quando apertava
jogava os búzios com ele, aprendeu a falar Yoruba para entender os espíritos,
enfim.
O mais interessante, ainda não tinha 45
anos, mas tampouco tinha se apaixonado na vida.
Quando Maria Janete chegou, se fazia chamar
por Jeanette, ele mandou preparar um banho de descarrego fortíssimo.
Ela vinha reclamando, que essa criança
estava dando patadas sem parar no seu ventre, ia contar uma mentira para ele,
na hora que foi jogar os búzios, mas ele lhe parou os pés.
Tinha conhecido um francês, que tinha um
título, achou que o mesmo era rico, se enrolou com ele, ao mesmo tempo que o
alemão. Mas quando foi ver sua casa,
este vivia perto da Sorbonne, aonde dava aulas de arqueologia. Ficou furiosa, como tinha podido ser idiota,
tinha preparado o famoso golpe do bau, ficar gravida.
Ao mesmo tempo finalmente o alemão,
conseguiu que sua família a aceitasse, depois que foi com ele até lá, na
Baviera, com uma roupa emprestada de uma amiga, um Dior, tinha aprendido a se
comportar numa mesa fina, inclusive falava alguma coisa em alemão.
Agora queria se casar com o mesmo que
estava louco por ela, esse tinha 50 anos, sempre tinha vivido à custa da
família.
A Coisa era complicada, ela achava que
casado com um rico, ia poder ajudar os irmãos menores, que disso não tinham
nada, eram sim bons sem vergonhas.
Resultado, ele acabou nascendo de sete
meses, mal pariu ela deu no pé, quem ficou ajudando pai Jeronimo a cuidar do
garoto, foi justamente Marialva, que se apaixonou pelo pequeno, dizia esse
menino é de Exu sem dúvida nenhuma, olha como briga pela vida.
Pai Jeronimo, deu um jeito, lhe deviam
favores, o conseguiu registrar como seu filho e dela, mas todos sabiam que eles
não tinham nada.
Quando ele conseguiu sair do hospital, ela
o levou para seu apartamento em Ipanema, contratou uma baba, uma das muitas
Yaos do terreiro, que passou a viver com ela, mas a avisou antes nada de ficar
falando de como vivo, da minha casa, nada disso.
Vivia num apartamento que a mãe dela lhe
deu de presente ao se formar na universidade, sabia que nunca faria parte da
herança dos pais, por isso lhe deram esse apartamento. O mesmo ficava mais para a Lagoa Rodrigo de
Freitas, nuns edifícios antigo, que tinha sido construído, para albergar
famílias que vinha passar férias, não estava na primeira linha de praia, mas
sim na parte mais segura de Ipanema.
Ninguém sabe como a bomba estourou, um dos
irmãos da Jeanette, um malandro para ninguém botar defeito, quando soube do
francês, contou para ele, que tinha um filho no Brasil, o colocou frente a
frente com ela.
Ficou furioso, apareceu um dia no terreiro,
isso já se tinham passado uns 3 para 4 anos, Jean Claude Klein, era até
parecido com sua mãe.
Ela se matava de rir, ele chegava no
terreiro, ia correndo com suas pernas tortas, a casa de Exu, ficava lá falando
com os mesmos, aprendeu a falar Yoruba, antes que português.
Com um ano, apesar de ter nascido de 7
meses, já andava, tinha ficado pouco tempo no berçário.
Ele adorava, ficar olhando Pai Jerônimo,
jogar os Búzios, as vezes o corrigia em Yoruba, que tinha entendido errado o
que seu Exu tinha falado.
Esse ficava as gargalhadas.
Pai Jerônimo, dizia, estou ficando velho,
um fedelho de 4 anos, me corrige, ainda bem que faz em Yoruba, assim ninguém
percebe.
Um belo dia entrou esse homem imenso, pelo
portão do terreiro, tinha pegado um taxi, quando soube para aonde ia o mesmo,
não o enganou, pois conhecia a fama de pai Jerônimo.
Os dois estavam sentados na varanda, da
parte de baixo da casa, quando ele entrou pelo portão, o menino disse a ele,
esse homem, foi quem me fez, como vamos fazer agora, isso era de uma maturidade
impressionante.
Pai Jerônimo, como sempre, para ganhar
tempo, chamou um Ogan, bem como uma Yao, mandou preparar para o homem um banho
de Exu.
Marialva, estava fazendo uma série de
obrigações na cachoeira mais acima na montanha, com uma filha de santo, a
mandou chamar.
O homem quando sentou-se na frente dele,
olhou aquele garoto, ficou impressionado, era parecidíssimo com ele, o mesmo
lhe sorriu, falou com ele em Yoruba, seja bem vindo meu pai.
Por incrível, o homem respondeu, explicou,
que tinha andado muitos anos por Nigeria, atrás de uma civilização antiga
africana, a que fazia belíssimas esculturas, que ele amava.
Nisso chegou Marialva, o homem a olhou
impressionado, soltou para pai Jerônimo, venho sonhando com essa mulher a muito
tempo.
Ele explicou para ela que esse homem era o
Pai de Jean Claude.
Jean Claude era o nome de meu pai, disse
ele.
Resolveram ser sincero com ele, os dois
tinham como que o adotado ao nascer, já que a mãe tinha desaparecido.
Ele contou do irmão dela que queria
dinheiro, por isso tinha contado tudo.
Lhe dei dinheiro, ele soltou aonde estava
meu filho. Mas falava tudo isso, olhando
para ela, que conversava com ele em francês.
Ele tinha acabado de voltar a Paris, depois
de ter passado meses numa escavação no Egito, não deu em nada disse para ela,
eu disse ao responsável que lhe tinham vendido uma informação errônea, mas ele
acha que por ser um professor da Sorbonne ninguém o vai enganar.
Jean Claude soltou, vocês procuraram do
lado errado, o mapa está invertido de proposito.
Esse menino é assim disse ela, muito maduro
para a idade que tem.
O coloquei num jardim de infância, explicou
o que era, mas ele se aborrece, diz que esse meninos são tontos, insiste em
falar com eles em Yoruba.
Não aconteceu nada do que esperavam, Marcel
Cluny, gostou do lugar, pai Jerônimo, lhe contou que ali era uma antiga
fazenda, mas que a floresta tinha recuperado para si, quando a herdei a casa
caia aos pedaços, a senzala estava no chão, a reergui.
Ele entendeu, tinha andado por todos os
lados na Nigeria, sabia muito sobre candomblé.
Imaginem fui criado como Judeu, meus pais
sobreviveram ao holocausto, porque escaparam para Suiça, aonde a família tinha
negócios, apesar que minha mãe é de família nobre francesa, acho que a
Jeanette, escutou falar isso, pensou que eu era milionário.
Mas não tenho direito a título nenhum, pois
eles perderam tudo depois da guerra.
Por sorte sempre estudei com bolsas de
estudos, minha grande paixão sempre foi a arqueologia, as antigas civilizações,
quando Marialva lhe contou que era professora na universidade, isso era uma das
grandes paixões dela, se entenderam.
Ela levou o homem para descansar, aconteceu
a coisa mais natural do mundo, Jean Claude se levantou do lado do Pai Jerônimo,
pegou a mão dele o foi levando para aonde era para ficar.
Subiu na cama, ficou do lado dele, para
espanto dos outros, disse que ele necessitava dormir, que Exu ia explicar tudo
para ele nos sonhos.
Esse menino, tem cada uma, soltou o pai
Jerônimo.
Estava preocupado, como iam fazer, para
todos os efeitos, o menino nos documentos era filho dos dois.
Preocupado, começou a jogar ali sozinho, já
estava pensando no futuro, verdade meu filho, lhe disse o Exu, esse menino irá
embora, mas voltara no futuro, pois sabe que seu lugar é aqui, mas Marialva vai
com ele, afinal esse homem vai se apaixonar por ela, ao mesmo tempo que poderá
assim realizar velhos sonhos.
Aquilo parecia uma reunião de espíritos,
estava os guias dela, Xangô de Pai Jeronimo, nisso este fez um sinal, se abriu
caminho, era um Exu jovem, um negro magro, com uma cicatriz impressionante na
cara, eu sou o Exu de cabeça desse garoto, cheguei nessa senzala em criança, o
feitor tinha ódio de mim, talvez por vidas passadas, me deixou desse jeito, um
dia me matou, levou para a cachoeira de cima, meus ossos ainda estão lá, venha
comigo meu pai.
Todo mundo só via pai Jerônimo caminhar,
mas na verdade, ele ia seguido de todos os espíritos dali.
Quando chegaram lá em cima, Exu Barabo, lhe
disse, contorne a cachoeira, atrás tem um oco na parede, aí estou enterrado.
Pai Jerônimo, mandou um Ogan, que o tinha
seguido, ir buscar Marialva, que trouxesse, umas brochas velhas que estavam na
dispensa, tinham sobrada da última pintura da casa.
Ela subiu dando a mão para o Jean Claude,
esse tinha um sorriso na cara, quando viu seu Exu, começou a conversar com ele,
como se tivesse falando com um amigo.
Eu falo sempre com ele, que a hora dele,
chegaria, que estaria sempre comigo.
Marialva se ajoelhou ali, começou a limpar
o terreno, disse ao Ogan, vá buscar esse homem que está dormindo, mas se
surpreendeu, que ele já vinha de mãos dadas com o filho.
Ela ainda pensou, só num terreiro acontece
essas coisas, ou talvez no Brasil.
Ele se colocou de joelhos ao lado dela,
foram limpando tudo, ali estava o corpo de um homem muito magro, ainda com os
grilhetas de prisioneiro, todo enferrujado.
Os dois não falavam, levaram mais de dois
dias trabalhando, para conseguirem tirar tudo dali.
Resolveram não falar nada para não chamar
atenção, os ossos dentro de uma urna, foram enterrados embaixo da imensa árvore
que era lugar sagrado dali.
O exu agradeceu, agora sempre estaria ao
lado de Jean Claude.
Os meses foram passando, até que de Paris,
chamaram o Marcel.
Nesse tempo, ele tinha imensas conversas
com Marialva, tinha encontrado sua alma gêmea, o jeito foi se casarem pelo
civil, ela nem o quis apresentar a sua família, que iriam perguntar se tinha
dinheiro, tirou uma licença sem remuneração da universidade, iria estudar o que
tinha sonhado na Sorbonne.
O mais interessante, foi que nessa semana,
Jean Claude, passou o tempo todo, falando com todos os espíritos dali, pai
Jerônimo adorou, dizia a todos, eu vou, mas vou voltar sempre, vocês são minha
gente.
Lá foram os três com novos documentos para
Paris, nele constava o Marcel como pai, ela como mãe, Jeanette jamais poderia
fazer nada.
O apartamento dele, era imenso, quase ao
lado do Museu de Cluny, ele contou ao filho que essas terras tinham sido de sua
família, a muitos anos atrás.
Um dia que passavam por ali, ele apontou,
uma esquina, ali está enterrado um antepassado do senhor.
Marcel como conhecia o pessoal do Museu,
pediu licença para ir até aonde ele dizia, ele foi com um pedaço de árvore, traçando
no chão, aonde estava cada pessoa, dizia inclusive quanto de profundidade
estavam.
Marcel chamou o responsável, este disse que
ali era uma antiga capela do Palacio, que tinham parado as escavações, é
possível tudo isso, já te avisamos, afinal são tua família.
Ele estava impressionado, com o filho, ria
muito, as vezes o levantava no ar, lhe dizia, o que vês desde aí.
As coisas entraram na rotina, Marialva
fazia dois cursos ao mesmo tempo, tudo que tinha sonhado, nas férias iriam ao
Egito, iam retomar a escavação, isso era um velho sonho dela.
Jean Claude, estava esticando, falava um
francês perfeito, um dia disse a mãe que ia descer, da janela viu que estava
sentado na praça, com um senhor, com um barrete na cabeça, vestido com uma
chilaba.
Desceu assustada, parou ficou escutando,
ele em Yoruba, consolava o homem, este dizia que estava perdido, tinha vindo
ajudar a família, essa tinha vergonha dele.
Ela se sentou do outro lado, o homem tinha
vindo do Benin, mas os parentes tinham vergonha dele, por ser um babalaô, mas
nunca fiz mal a ninguém. Eles se
converteram, são mulçumanos,
Ele lhe perguntou se tinha aonde dormir?
Essa noite dormi embaixo de uma ponte, não
sei andar nessa cidade monstruosa.
O levaram para cima, lhe deram uma toalha
para tomar um banho, nas dependências de empregados que ninguém usava.
Marialva lhe arrumou alguma roupa do Marcel
que servia ao homem, cuecas, meias, colocou a roupa do mesmo para lavar.
Quando Marcel chegou, tinha conhecido o
homem numa de suas viagens, passou a viver com eles, era como se fosse o avô do
Jean Claude.
Saia com ele, para se sentarem a beira do
rio, conversando sobre os Orixás na língua original, ele o ensinava a falar
direito o Yoruba, com o estalos natural, que mudava tudo o que as vezes queria
dizer os espíritos.
Mutum, tinha seus documentos na casa dos
parentes, foram até lá buscar, esses pediram que o pusessem num avião, para
voltar para casa.
Ele os olhou com pena, vocês, foram o meio
exato para eu encontrar minha verdadeira família.
As vezes os dois iam fazer as coisas dos
santos, em algum jardim.
Um dia dois policiais negros os viram, não
estavam fazendo nada demais.
Um deles ficou surpreso, que o Jean Claude,
falasse de seu avô que vivia no subúrbio, que ele devia ir visita-lo, amanhã,
venha nos buscar, ele está muito triste e sozinho.
No dia seguinte foram com o mesmo, era um
velho sem idade definida, quando os viu, sonhei com vocês, começou a falar sem
parar em Yoruba original, com mil estalos.
O neto ficou de boca aberta, ele entregou
ao mesmo, uma caixa, aqui está meus bens terrenais, vou fazem uma larga viagem,
morreu nessa noite.
Marcel e sua mãe, ajudaram o policial, a
fazer o enterro do avô, iam cremar o mesmo para mandar para seu pais de origem.
Quando chegou a época de ir a escavações,
Marcel queria deixar Jean Claude para trás, com medo dos perigos de lá, mas
como o Mutum ia junto concordou.
No Cairo, o encarregado reclamou dele ter
trazido sua família toda, mas eles alugaram um carro grande, para levar
mantimentos, uma bela tenda para eles.
Mutum, dormia num tapete na porta, para
proteger seu neto.
O arqueólogo insistia no mesmo lugar, ele
pegou o homem pela mão, que o seguiu como um cachorro sem dono, o levou, chamou
dois homens, mandou tirar duas pedras que estavam ali, quando a moveram,
apareceu o primeiro degrau.
Foi um achado importante, foi a temporada
toda analisando cada peça encontrada.
Ele foi até o alto da montanha, mostrou ao
Mutum, uma entrada, só é perigoso, pois isso está cheio de serpentes, por aqui
entraram saqueadores, morreram todos pela sua ambição.
Mutum comentou com Marcel, esse levou o
arqueólogo chefe até lá.
Conseguiram com um equipamento moderno, que
foi filmando a descida toda, encontravam várias pessoas uma em cima da outra, só
os esqueletos.
Ele avisou, cuidado, quando finalmente
abrirem, tem ninhos de serpentes.
O arqueólogo, queria saber como ele via
essas coisas, toda, quem lhe explicou foi o Mutum, mas o homem não acreditava.
Um dia o mesmo estava sentado numa pedra,
ele se chegou, sentou-se ao lado, começou a falar com ele, que não adiantava
ele se preocupar por esse filho perdido nas drogas, não tinha volta atrás, cada
um escolhe seu caminho.
Na sua ausência, sua mulher alimentou uma
raiva interna intensa no mesmo, dizia que não o querias, por isso ias pelo
mundo, agora é tarde demais, ele nunca vai acreditar em ti.
No final da temporada, ele recebeu a
notícia através da polícia que tinha sido encontrado num lugar de ocupas,
morto.
Ele deixou ao cargo do Marcel o final da
temporada, foi enterrar o filho, antes foi falar com o Jean Claude, que o
consolou.
Um pouco mais além de aonde estavam
escavando, um dia ele cutucando com um troço de madeira, moveu algumas pedras,
encontrou uma imagem pequena de Anúbis, a mesma falou com ele, que ali, estava
enterrado um sacerdote muito importante, que cultuava justamente a ele, disse
que Anúbis era quase que a mesma representação de Exu, do animismo.
Marcel o encontrou, sentado na pedra,
conversando com a imagem.
Aonde tiraste isso, estava preocupado,
Mutum veio correndo, ele lhe explicou, meu pai se assusta muito comigo, ele
contou o que a imagem tinha informado, Marcel mandou marcar o lugar muito
sigilosamente, quando voltaram ao Cairo, pediu licença, para na seguinte
temporada, escavar perto de aonde estavam.
O problema era que precisava de um
financiador.
Ele abraçou ao pai, não se preocupe, vamos
encontrar alguém.
Um dia disse ao Mutum, temos que ir a uma
igreja, acender umas velas, mas não dessas falsas, que são luzes de Natal.
Quando saíram, ele viu um homem sentado
tomando chá, num bar justo ao lado, foi puxando o Mutum, esse homem, é um
estudioso de Anúbis, pediu educadamente licença.
O homem olhou estranhando aquele garoto,
magro, com umas pernas compridas, com a calças já curtas para ele, mas com uns
olhos incríveis, ao lado dele um negro, imenso.
Ele como sempre foi direto ao assunto, se
ele podia lhe explicar coisas com respeito a Anúbis, tenho que entender, ele me
disse que vinha de uma ligação antiga com os adeptos da mãe terra, da primeira
religião animista, significava o mesmo que Exu, era a ligação, entre Osiris e a
reencarnação, orientava o caminho dos mortos e dos vivos.
A cara do homem era espantosa.
Quando disse que seu pai era o Marcel,
disse que o conhecia da Universidade.
Foi caminhando para casa, o convidou para
subir, assim conhece minha mãe, nisso chegava o Marcel, era um velho professor
dele.
Teu filho é uma criança especial.
O senhor nem imagina quanto.
Contou o que tinha encontrado, ele tinha
trazido a pequena imagem, de Anúbis, dentro de sua mochila de garoto, era
pequena.
Explicou aonde a tinha encontrado, tudo que
ela tinha lhe falado.
Os sacerdotes dedicados a Anúbis, era
considerados especiais, pois lidavam com a morte, o além, as almas, o caminho
da eternidade.
Foi outro que virou assíduo da casa, quando
Marcel recebeu a autorização, para escavar, o mesmo conseguiu um patrocinador.
Lá foram eles outra vez para o Egito.
Ele foi direto aonde tinha encontrado a
imagem, a pedra marcada estava lá.
Depois dessa pedra, tem uma imensa, teremos
que abrir por essa lateral, pois é como uma roda da vida, ela gira, liberando a
entrada.
O velho professor, tinha conversas imensas
com ele, com Mutum, foi lhe explicando tudo que sabia, eu parodiando um sábio
que dizia só sei que não sei nada.
A outra escavação estava abandonada, agora
viria um inglês, que tinha a autorização para seguir adiante.
Quando vieram os do museu, os encarregados
da antiguidades do pais, se surpreenderam com a roda, encontrada, pois nela
estavam gravadas as história de Anúbis, bem como de Osiris.
Marialva, se encarregava da limpeza da
mesma.
O mais interessante, bastava alguma pessoa
se ferir, ou mesmo ficar doente, ele corria para ajudar, dizia o que tinham que
fazer, mas a maioria das vezes ele mesmo cuidava das pessoas, essas passavam a
ser como seus guardiões.
Quando chegaram a uma porta, ele parou na
frente, começou a falar num dialeto muito antigo, todos se surpreenderam, ele
chamou sua mãe, uma parte estava em aramaico.
Ela explicou que não era uma maldição, mas
que era como dizendo que ali estava o último sacerdote de Anúbis, desterrado,
por ser negar a revelar aos romanos, os segredos de sua religião.
Ele encontrou uma clave, que fazia a porta
se mover para a lateral, avisou, atrás tem uma serpente, uma real, outra uma
escultura.
A real, ele começou a silvar, a mesma como
se entendesse tudo, se enrolou aos seus pés, a outra era uma escultura imensa,
que ao tocar, se abriu em duas, dando passagem para seguirem o caminho.
Era um tumulo simples, mas as paredes
estavam decoradas, com toda a história de Anúbis, tudo em ouro, além de uma
pedra negra.
O sarcófago, era de uma beleza
impressionante, a caixa posterior era diferente de tudo, era como se fosse de
um metal mais recente que as outras.
Nessa época tinha descoberto o ferro.
Dentro um outro, com a mesma decoração,
ouro, prata, um material diferente.
Chamaram o encarregado que veio do Cairo,
disse que nunca tinha visto nada igual.
Ele segurou a mão do homem, disse que
quando voltasse ao Cairo, devia ir ao médico, tinha um problema de estomago,
que se não cuidasse, viraria câncer.
O homem olhava assustado.
O professor, disse que esse menino, era
como um descendente de Anúbis, foi ele que encontrou tudo.
Mais um para ser seu amigo.
Assim foi construindo amizades, para o
resto de sua vida.
Quando retiraram o que podiam dali,
inclusive um painel que estava atrás do sarcófago, ele disse que atrás da
parede, havia uma série de enterramentos dos sacerdotes do Deus Anúbis, mas
isso seria para o ano seguinte.
O governo autorizou imediatamente o
seguimento da escavação. Levariam anos,
escavando ali, o professor disse que já podia morrer em paz, mas esteve nas
escavações, até os 90 anos.
Marialva sempre falava com pai Jeronimo,
esse um dia a avisou, que Jeanette tinha aparecido, o marido estava arruinado,
tinha visto fotos deles nas revistas, uma família que trabalhava no Egito.
Durante o período que não estavam
trabalhando lá, viviam em Alexandria, ele estudava antecipadamente na
Universidade, tinha largas discuções com seus velhos amigos, sabia que ela
tentaria tirar dinheiro do Marcel, mas esse coitado não tinha.
Foi interessante, como se ele tivesse
movido fios, ela foi presa com o marido, por tentar matar um dos irmãos deste
que na verdade, eram os que tinham dinheiro.
Ele ria, cada vez que ela tentar se
aproximar de mim, lhe acontecera, alguma coisa que não espera.
Nesses anos todos, saiam matérias sobre o
trabalho deles, falavam do trabalho da Marialva de descobrir o que estava
escrito nas paredes, foram mais cinco sacerdotes que encontraram no mesmo
lugar, todos de épocas diferentes.
Alguns com enxovais como se dizia,
suntuoso. O último, era o melhor, nada
de ouro, tudo era de prata, um outro metal, que depois os especialista diziam
que eram de algum asteroide, pois não conseguiam definir o que era.
Nesse estava escrito, que Anúbis, não só
abria a porta do outro mundo, abria também as portas do céu.
O painel detrás, era suntuoso, depois seria
muito discutido, pois tinham uma imagens parecidas com a dos que cultuavam
personagens parecidos no Mali.
Foram até lá levando material, foi uma
coisa impressionante.
Um velho se aproximou dele, tinha a cabeça
na mesma forma que aparecia na múmia desse sacerdote, subiram a montanha,
passaram a noite ali, olhando a constelação de Orion, aonde estava o planeta de
Osiris, como diziam os Egípcios.
Nessas alturas, ele já tinha se formado,
falava várias línguas mortas.
Foi quando lhes avisaram que pai Jerônimo
estava mal, tinham acabado seu trabalho ali, foram todos para o Brasil, o
professor foi o único que ficou para trás, estava escrevendo seu derradeiro
livro sobre o assunto.
Quando chegaram, encontraram pai Jerônimo
muito mal, mas entre eles, o ajudaram, ele lhe fez uma operação espiritual, tens
que viver mais alguns anos ainda meu pai.
Este ria, dizendo, só de te ver chegar, é
de como te recebem os guias espirituais de meu terreiro, já fico contente.
Ele subiu no dia seguinte com Mutum,
acompanhado de seu Exu, contou a história do mesmo para ele. Tomaram um belo
banho de descarrego ali.
Quando desceram tinha uma pessoa esperando
para uma consulta com Pai Jerônimo, Mutum tomou a dianteira, se sentou, lavou
as mãos numa quartinha ao lado, segurou a mão da senhora, foi dizendo tudo que
a afligia.
Ele não precisava de guias, nem de búzios
para saber das coisas, diria depois ao pai Jerônimo que seu menino ainda era
maior do que ele.
Ficou lá depois ajudando pai Jerônimo, eles
voltaram para o enterro do professor, que foi enterrado com todas as glorias
possíveis, inclusive com direito a Presidente do País.
Deixava tudo que tinha para a universidade,
seus estudos sobre Anúbis, bem como Osiris.
A ele agradecia, o fato de o ter tirado do
ostracismo, lhe devolvido a vida.
Nessa época foram procurados por um
advogado, quem tinha herdado tudo da família do Marcel, tinha sido um irmão de
seu pai, agora tocava a ele.
Com isso recebia uma bela pensão, para
seguirem seus estudos ali mesmo em sua casa.
Um dia o arqueólogo do Museu de Cluny,
apareceu, tinha usado um aparelho novo, realmente estava tudo como ele tinha
falado, iam começar as escavações, o convidaram para participar, assim ele não
se afastava muito dos pais que amava.
Prematuramente ele tinha mais cabelos
brancos que seu pai.
Cuidou deles durante anos, Marcel adorava
agora, podia fazer palestras sobre o que tinha encontrado nas duas escavações,
principalmente do sacerdote de Anúbis, sempre mencionava o professor que tinha
sido um dos pontos principais.
Um dia ele entrou em seu quarto, a imagem
de Anúbis brilhava, lhe avisava que Pai Jerônimo, desta vez partia de vez.
Foram correndo para o Brasil, ainda tiveram
dias com ele, que foi lhe explicando, como tinha deixado tudo, agora as terras
como ele era o último herdeiro, que usassem os documentos que tinham dele como
seu pai, assim herdaria tudo, para seguir com o terreiro.
O dinheiro que ele tinha, reformaram tudo,
ele passaria a viver lá com Mutum, alguns filhos de santo, foram embora, pois
Pai Jerônimo com a idade, não prestava muito atenção nas coisas, ele ao
contrário era mais rigoroso.
Adotou o nome de João de Barabo, foi como
se o mesmo tivesse feito uma bela limpeza por lá.
Marialva e seu pai, se dividiam entre seus
trabalhos, ela escreveu ainda dois livros, sobre o que tinha pesquisado dessas
escavações, tinha um nome hoje em dia.
Quando Marcel morreu, pediu que o
cremassem, queria ficar aonde estava o filho, o levaram para atrás da
cachoeira, aonde já estavam os ossos de Barabo.
Um belo dia sua mãe apareceu, velha, queria
dinheiro.
Só lhe posso pagar, alguma coisa, se queres
ficar de faxineira aqui, porque dinheiro não tenho.
Ainda tentou, ameaçando de denunciar
Marialva para ter roubado seu filho.
Ele ficou furioso, que lastima, a única
coisa boa que fizeste, foi me deixando para trás, fui educado por um pai
maravilhoso, essa mulher a quem sempre chamei de mãe, para mim eres uma bela
desconhecida, que emprestou sua barriga para eu nascer.
Lembre-se de meu nome, sabe quem eu sou
verdade.
Ela desapareceu, nunca mais soube dela.
Marialva realizou o último desejo do
Marcel, tudo que ele tinha, a biblioteca imensa do apartamento foi doado ao
Museu de Cluny, vendeu o apartamento, voltou para o Brasil.
Vivia agora lá com ele, era como se fosse a
chefe das Yaos.
Mutum, que nem sabia sua idade verdadeira,
pelo seu passaporte, tinha mais de cem anos, um dia lhe disse baixinho, amanhã,
vou partir, por favor, que minhas cinzas fiquem juntas, com os outros atrás da
cachoeira.
Anos depois faria o mesmo com as de
Marialva, sua verdadeira mãe.
Ele como dizia tinha uma sina, viveu até os
105 anos até que apareceu um filho digno de Exu para o substituir.
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