AUSTIN

 

                                            

 

Quando lhe perguntavam de aonde era, ele dizia que tinha nascido em Austin, não era mentira, mas não Estados Unidos, um bairro de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, a única diferença dos demais era que era loiro de olhos azuis, muito branco.

Faziam a maior gozação com ele, por isso, o chamavam de branquinho azedo, mas não se incomodava.

Seu nome sim era um problema, Desiderio Costa Leite, a maioria como sua mãe, o chamavam por um diminutivo Dési, ele jurou que quando tivesse idade mudaria, pois achava esse nome horrível, coisas de seu pai.

Ele trabalhava numa indústria lá em Nova Iguaçu, sua mãe ao contrário saia logo cedo de casa, ia limpar casas lá prós lado da Tijuca, Grajau, Usina, Alto da Tijuca, cada dia ia a uma casa.

Era como se mantinha a casa, se podia chamar de casa um barraco no meio da quase floresta por ali.  No verão o calor era insuportável, justamente por causa da floresta, o clima era úmido, saias do banho, para entrar outra vez.  Na verdade o chuveiro era uma borracha de plástico, que vinha do telhado.

Nunca reclamava de nada, mas aos 10 anos conheceu um primo de sua mãe que vivia em Copacabana, veio esnobando, quando foi embora sua mãe soltou, esse come sardinha em lata, arrota caviar.

Ele perguntou o que era caviar. 

Ela se matou de rir, tentou explicar, um dia encontrou um vidro pequeno na geladeira de uma cliente, trouxe para ele experimentar, achou horrível.

Ele era o melhor aluno da escola ali perto, bem como jogava futebol sem gostar muito, para não ser diferente dos demais, seu pai tinha lhe orientado, tens que fazer o que fazem os outros, pois senão serás o bobo da corte.

Mas por sorte, era o único que morava no morro, então subia sozinho, com a cabeça nas nuvens, como lhe sobrava tempo de tarde, se plantava lá embaixo, na hora que todas as senhoras voltavam de trabalhar na casa dos outros, tinham aproveitado para fazerem compras, do que não tinha por ali.  Ele sempre as ajudava a subir, para assim ganhar uns trocados.     

Com isso não pedia dinheiro aos pais, televisão nem pensar, ali não tinha antena, além de estar fora do orçamento, tinham uma de algum conhecido que comprou uma mais moderna, mas servia mais como decoração, tinha uma imagem de São Jorge em cima, o santo de sua mãe.

Logo que pode arrumou um emprego num velho armazém do bairro, o dono, se matava de rir, dizia que os outros entravam para roubar alguma coisa, ele tinha entrado perguntando se podia ter um emprego.

Era um faz tudo, recolocava as mercadorias que tinham saído muito pela manhã, anotava como estava o estoque, levava um bloco para isso.  Antes de fechar, varria o mesmo, depois passava um pano molhado, assim estava pronto para o dia seguinte.

O dinheiro metade ele dava para sua mãe, a outra metade, escondia numa lata, embaixo de sua cama, pegada a parede.

Como era ele que limpava seu quarto, acostumado a limpar o armazém, fazia o mesmo antes de sua mãe chegar, passava uma vassoura, depois um pano molhado.

Ela dizia que as amigas reclamavam que os filhos não ajudavam em casa, queriam sempre se dar bem, ele era diferente.

Um dia na escola, um garoto que estava num grupo de marginais, vendia agora na entrada drogas, lhe deu um empurrão, ele era mais alto, forte também por ajudar a descarregar caminhão, fazia força no armazém.

Ele ia subindo ao morro, o mesmo lhe passou a perna, caiu de costa, mas se levantou de um pulo, enfrentou o mesmo, que tirou um canivete, o mesmo quando viu, era ele quem o tinha, lhe deu uma surra de fazer gosto.

O chefe do tráfico, um dia apareceu no armazém, queria que ele fosse trabalhar para ele, foi educado, muito obrigado, mas estou bem aqui, ainda fez uma coisa, mostrou o dono, ele está velho, se eu não lhe ajudo, tem que fechar o armazém.

Ele conhecia a mãe do sujeito, ainda disse, imagina a senhora sua mãe, que mal pode descer o morro, como vai ficar, normalmente eu levo as compras para ela.

O sujeito ficou olhando para ele sério, riu, eres um bom sem vergonha isso sim.

Dias depois, soube que o sujeito tinha levado um tiro, numa disputa de lugar com o tráfico de drogas.

Seu pai dizia, a polícia nunca faz nada, aliás a maioria tem mais cara de bandido que os próprios.

Tinha um que ficava na porta da escola, ele nisso concordava com o pai, pois os que vendiam drogas, faziam na cara do sujeito, ele fingia que não via.

Um belo dia, seu pai quase perdeu o braço na fábrica, tinha direito a uma pensão, pois perdeu o movimento do braço, a empresa o indenizou, colocou o mesmo na rua.

Seu pai ficou super deprimido, um dia chegou não o viu em casa, quando saiu por detrás aonde tinham um bela mangueira, ele estava pendurado na mesma, tinha se enforcado, por não suportar que agora a mulher trazia comida para casa, bem como o filho, era um inútil, sempre dizia isso.

Sua mãe que tinha brigado com a família, para se casar com ele, voltou para a casa dos pais, na Tijuca, seu avô o olhou pela primeira vez, como se estivesse vendo um marciano, pois todos na família eram morenos, ele ao contrário tinha saído ao seu pai, loiro, olhos azuis.

Nessa época deu uma esticada, chegou à altura que teria depois, 1,85 metros de altura, seguia fazendo esportes na escola, para se enturmar.

O diretor que era da zona Sul, um dia montou uma quadra de vôlei, com areia, queria competir num campeonato em Copacabana.

Lá foi ele, sem querer era o melhor do grupo, embora o fizesse só para se enturmar, gostava.

Foi a primeira vez que foi com os amigos a Copacabana.

Se deslumbrou, como diria o professor, Copacabana, me engana.

Dizia que todos se deslumbrava com ela, mas que tudo ali, não passava de uma fachada.  Ele era o melhor aluno de inglês, na segunda vez que foram jogar, depois saíram andando pelo calçadão. Num hotel antigo dali, viu um cartaz que precisavam de gente, pediu para o professor, esse foi com ele, se informar.

O gerente para testar, falou todo o tempo com ele em inglês, se saiu bem.

Teria que tomar um ônibus na Tijuca, que o deixava na Barata Ribeiro, andava dois quarteirões, estava no trabalho, como dinheiro que tinha guardado, comprou dois ternos numa loja antiga ali da Tijuca, ia as aulas de manhã, comia alguma coisa, ia no ônibus estudando.  Trabalhava até as 10 da noite, quando trocavam os turnos.

Nas férias, durante dois anos, fez o turno da noite substituindo quem estava de férias.

Assim ganhavam mais, como sempre fazia, dava uma parte para a mãe.

Seu avô que o tinha olhado com desconfiança, agora o olhava diferente, comentou que seu único filho, nunca tinha feito isso.

Um dia sua mãe lhe contou que o velho tinha sido militar, era muito duro, por isso não aceitou meu casamento com teu pai, queria que eu fosse a universidade, meu irmão foi trabalhar num shopping, conheceu um americano, se mandou daqui com esse homem.

Assim ficou sabendo da história da família.

Ele queria fazer universidade, mas claro, precisava tirar uma nota altíssima, para fazer o vestibular, para ganhar uma bolsa de estudos, seu avô, tinha um amigo da aeronáutica, que disse que se ele entrasse para lá, lhe conseguia uma bolsa, mas tinha que estudar o que queriam.

Agradeceu como sempre educadamente, mas isso não era com ele, que lhe dirigissem sua vida.

O velho até ficou impressionado, infelizmente meu neto, me dinheiro mal dá para pagar as despesas da casa.

De qualquer maneira ele fez o vestibular, passou com boa nota, mas nenhuma lhe dava direito a bolsa de estudos.

Tampouco sabia muito bem o que queria fazer.

Resolveu, passou a trabalhar o dia inteiro no Hotel, ganhava mais, dava também mais dinheiro em casa.

As vezes saia com o pessoal do hotel, para tomar uma cerveja, mas como sempre para simplesmente se enturmar.

Alguns tinham aventuras com os turistas que apareciam sós no hotel, um dia, viu um nome numa reserva, achou interessante, Milton Costa Leite, falou com a mãe, ela riu o desgraçado vem ao Rio, nem para visitar a família.

Deu de cara no dia seguinte, com um homem moreno de cabelos crespos, com muitos fios brancos, um belo tipo.

Riu, no fundo ele era parecido com seu avô, lhe comentou, o senhor é muito parecido com seu pai. Se apresentou, sou seu sobrinho.

O homem ficou olhando para ele, sorriu, tinha os dentes perfeitos de quem se cuida.

No final do dia o esperou, se sentaram num quiosque na frente do hotel, ele perguntou pela mãe dele, pela sua mãe, por último por seu pai.

Continua o mesmo rabugento de sempre?

Acho que não, quando me conheceu, depois que meu pai morreu, me examinou muito, mas como dou um duro danado, além de dar dinheiro em casa para contribuir, acho que mudou de opinião.

Chamou sua mãe pelo seu velho celular, que já tinha sido dela, passou para ele.

Nisso se deu conta, ele não tinha o sobrenome do pai, ia perguntar a sua mãe por quê?

Os deixou falando, pois em seguida ela passou o celular para sua avó, ele ria.

Disse que diziam para ele ir com ele até a casa dos velhos.

Vai ser duro, terei que explicar, porque não fico lá, mas depois de amanhã, chega o homem com quem vivo a muitos anos, não é o mesmo com quem fui embora, este é professor da universidade de NYC.

Foram os dois de ônibus como ele fazia sempre, o tomavam ali ao lado no Lido.

Nada mudou nessa terra, é a primeira vez que volto em 20 anos ou mais.

O que o senhor faz por lá.

Tenho uma loja no Soho, lhe explicou o que era, vendo roupas finas de homem, para profissionais, a maioria é importada, aproveitei para vir, pois a estão reformando, modernizando um pouco, ficou antiquada.

Tem um senhor que trabalha comigo, um velho alfaiate judeu, ele ficou de olhar, assim pude sair, a muitos anos não tiro umas férias assim.

Foi interessante o encontro dele com o pai.

Esse ficava pequeno junto do filho, bem como dele, a única coisa que soltou, era que não sabia a quem os dois tinham saído.

Contou mais ou menos o que tinha contado, da loja que tinha, o duro que tinha dado esses anos todos.

Quando a mãe lhe perguntou por que não ficava em casa, ele foi honesto, o velho fechou a cara, mas depois se relaxou.

O velho tirou o carro da garagem, o levou de volta ao hotel, assim podiam conversar.

Dois dias depois chegou o namorado do tio, era um outro tipo como ele.

Este o apresentou, de noite foi jantar com eles, o sujeito era agradável, riu muito de poder conversar todo o tempo com ele em inglês.

Arrumou para eles, um homem que trabalhava na frente do Hotel, para levar para todos os lugares turísticos.

Um dia seu tio foi com ele, almoçar na casa dos pais, o homem caiu bem ao seu avô, ele reclamou que eu não tinha podido ir à universidade, pois faltava dinheiro para isso.

Meu tio me perguntou no dia seguinte, o que gostaria de estudar, lhe disse que me saia muito bem em Línguas, que gostava também de literatura, mas que nas escolas não te preparam para isso.

Me defendo bem em inglês, francês, enrolo no alemão, não me aperto.

Pois James é professor justamente disso.

Antes de irem embora o convidaram para ir para NYC, antes de falar com seu avô, falou em particular com sua mãe, ela lhe deu força.

Tinha dinheiro economizado, as vezes recebia gorjetas em dólares, falou com o gerente do hotel, que era camarada, esse disse que valia a pena, que um dos que trabalhavam lá tinha ido, hoje era gerente de um dos grandes hotéis, te dou uma carta de referência.

Voltou com os dois, eles iam na classe executiva, ele na turística, com um visto que James tinha arrumado no consulado para ele.

O levou a universidade, apresentou os documentos, teria ainda um mês, descobriu que seu tio tinha uma apartamento, mas estava alugado, pois vivia com James.

O mais interessante, é que tinha sido simpático no Brasil, mas era uma pessoa cheia de manias.

Uns dias depois, foi ao hotel recomendado, saiu de lá com um emprego, o gerente o colocou para atender vários clientes ao mesmo tempo, se saiu bem.

Quando começou as aulas, ele fez uma coisa, conseguiu através de um colega, um quarto num apartamento que dividiam 4 pessoas, era antigo, grande, dava para pagar com seu salário.

Mas antes conversou com seu tio, pois via o James reclamando, não queria causar problemas.

Tinha aulas de manhã, depois dali mesmo ia para o trabalho, seu tio lhe arrumou dois bons trajes na sua loja, ele anotou o preço, logo que pode pagou o primeiro, depois o outro.

O tio, para sua surpresa entendeu, disse que quando tinha chegado, tinha ficado devendo muitos favores, isso me enchia o saco.

As vezes nos dias de folga almoçava com ele, no corredor da universidade se encontrava com o James, falava amigavelmente, tinha lhe agradecido muito sua acolhida.

No final do primeiro ano, suas notas eram excelentes, optou por fazer algumas classes que lhe interessavam de literatura.

Agora vivia mais longe no Brooklyn, num pequeno apartamento, que o chefe lhe tinha arrumado, se saia bem no trabalho, nas férias cobria as dos colegas, sem reclamar, estava acostumado, trabalhava basicamente o dia inteiro, bem como ganhava mais.

Não esbanjava dinheiro, quando terminou de pagar ao tio, comprou outro traje.

Escrevia para a mãe sempre, está lhe dava notícias, mandava para o avô as notas que tirava, sabia que isso o fazia feliz.

Finalmente quando terminou a universidade, tinha juntado dinheiro, já tinha conseguido ajudado pelo seu gerente o green Card, assim trabalhava tranquilo.

Era também o subgerente do hotel, era um trabalho que gostava, pois resolvia problemas, sabia conversar com os clientes, só reclamava que os brasileiros, sempre causavam problemas, principalmente nesse hotel, que se hospedavam os que tinham dinheiro.

Fazia uma coisa, pois a maioria achava que falava um bom inglês, explicava devagar o que a pessoa perguntava.

Mas via que não era só com ele, pois eram mal educados.

Não sobrava muito tempo para a vida sexual, como dizia seu tio, primeiro ele tinha que plantar a segurança no seu trabalho, seguiam comendo uma vez por semana, os dois sozinhos, James sempre tinha uma desculpa.

O tio dizia, que realmente as coisas não iam bem, tinha pedido seu apartamento para o inquilino, tempos depois voltou a viver lá.

Levou o maior susto, um dia que foi chamado ao gabinete do James, ele não era seu professor, mas sim chefe de departamento.   O mesmo lhe passou a maior cantada, ficou mais branco do que era.

Era um tipo que nem lhe atraia, além de as vezes o achar pedante.

Se esquivou da cantada, mas ele insistia, o pior que foi dizer que tinha sido ao contrário.

Se encarou com seu tio, o senhor acha que sou o tipo que cospe no prato que come.

Nessas alturas o tio lhe disse que ia usar isso para se livrar dele, a merda esta comendo a muito tempo, ele como todos acha que fazendo sexo com um mais jovem, ficará melhor.

O tio o convidou para ir morar com ele, apesar do seu apartamento ser menor.

Disse que não, gostava da sua independência, imagina, sonhei com isso muitos anos, pois viver na casa do avô não era fácil, estávamos lá de por favor.

Foi nas férias a primeira vez ao Brasil, conseguiu uma bilhete barato por ser fora de estação, se matou de rir, pois logo o confundiram com um turista.

Chegou na casa do avô rindo, lhe contou o que tinha passado, mas realmente estas diferente.

Dias depois foi visitar o gerente do hotel que tinha trabalhado.

Teu chefe vive te elogiando, ficou preocupado, que tu fosse se encostar como muitos brasileiros, mas que trabalhas duro.

Tinha tido dois convites para sair, ir para outro hotel, mas pensou muito a respeito, estava bem, ganhava suficiente para pagar seu apartamento, as despesas de seu curso.

Ia começar uma pós-graduação no ano seguinte, isso lhe deixava contente.

Foi quando soube que seu melhor professor o tinha defendido, pois James tinha votado contra.

Entendeu, a rejeição o tinha ofendido.

Na verdade ele não tinha tempo para aventuras, tinha si, alguns romances, levava cantada dos clientes, insinuando que ele devia subir.

Mal sabiam que havia câmeras nos corredores, que o veriam entrar no quarto de alguém.

Sabia se esquivar, educadamente, sem ofender.

Um dos dias que foi comer com seu tio, isso era praxe, para lhe contar da viagem, apareceu no restaurante, um cliente dele, um advogado, pensou que ele era seu namorado.

O apresentou como seu sobrinho, explicou que ele estava agora fazendo pós-graduação em filologia, o outro lhe interessou.

Sem querer por saber aonde trabalhava, apareceu, o tipo era simpático, nada de bonito, mas sabia se vestir segundo seu tio.

Foi franco com ele, os dois tinham o mesmo problema, falta de tempo, ele tinha saído de um divorcio complicado, fui idiota, para subir, me casei com a filha do antigo dono do escritório, me encheu o saco a vida inteira, eu queria ter um filho, mas ela nunca suportou as crianças, descobri agora no divórcio que cada vez que ficava gravida, abortava.

Assim ficou fácil conseguir o divórcio.

Começaram a se encontrar, este o levou ao seu apartamento, que era um pouco maior que o seu, mas tinha uma bela biblioteca, riu muito quando ele entrou passando a mão pelos livros.

Anos depois passariam a viver juntos, para ele era fácil, o dono da cadeia dos hotéis, lhe tinha transferido para outro maior, aonde ele era gerente, dois tinham o mesmo cargo, faziam horários diferentes.

Se dava bem com todo mundo, foi em frente. Bob Crane, era respeitado como advogado, seu tio ficou contente por ele, tinha planejado ir ao Brasil, seu tio tinha ido ao enterro do pai, mas ele não pode escapar.

Mandou foi uma carta para a avó e para a mãe.

Planejava ir com o Bob, nas seguintes, mas as coisas saíram mal, os dois tinham pensado em se casar, ir de lua de Mel ao Brasil, assim ele conheceria sua família.

Um dia levou um susto, o chamaram da polícia, pois nos documentos do Bob, constava como pessoa a ser avisada por alguma coisa, ele.

Estava saindo do fórum, o tinham confundido com um juiz, lhe deram um tiro na cabeça a queima roupa.

Pelo menos não teve uma morte dolorosa.

Mais supresso ficou, quando o chamaram a leitura de testamento, ele não tinha família, então deixou o apartamento, bem como o dinheiro no banco para ele.

Os próprios advogados do escritório que o conheciam, lhe ajudaram.

Foi lamber suas feridas no Brasil, conversou muito com sua mãe, além de gostar muito do Bob, principalmente o respeitava.

Nunca soube como, ao voltar de férias o dono da empresa, o chamou, lhe deu os pêsames, o Bob era seu advogado, alguém no escritório tinha falado dele.

Esse homem, era rico, viúvo com um filho, o convidou para jantar, lá lhe contou que Bob tinha sido a paixão de sua vida, na época que os dois eram casados, eu fiquei viúvo, ele se divorciou, mas foi franco comigo, gostava de outra pessoa.

Quando falava com ele, sempre me dizia que estava feliz, que ia se casar, iriam de lua de mel ao Brasil, não liguei uma coisa com outra.

Agora falava sempre com ele, seu filho era um garoto complicado, uma vez, apareceu no hotel a procura do pai, o viu meio perdido, como estava na hora de seu descanso, o levou para tomar café.

Este lhe contou que tinha brigado na escola, o porquê.

Tinham lhe chamado de viado, o menino tinha uns doze anos, nem sei o que sou ainda, acho isso uma maldade, o outro é filho de pai milionário, me denunciou ao diretor, agora tenho que entregar uma carta para meu pai.

Vou te aconselhar, fale toda a verdade para ele, aprenda realmente a se defender desses tipos, eu nunca levei desafio nenhum para casa, imagina, contou para ele como o chamavam por ser tão branco, o garoto se relaxou, ficou rindo.

Iam conversando, quando voltaram para o hotel, o pai já estava, os viu juntos e rindo.

Ele contou ao mesmo que a conversa que tinha tido comigo, tinha valido.

Disse ao pai que odiava estudar nessa escola, só tinham filhos de gente rica, que eram maus estudantes.

Andrew Schild, veio falar, com ele, lhe perguntou o que pesava a respeito.

Acho teu filho um rapaz inteligente, eu o escutaria, falou de um colégio ligado a universidade, aonde tinha feito práticas numa das suas férias.

O garoto ficou imensamente feliz, assim poderia seguir depois o curso que queria.

Volta e meia aparecia no hotel, para falar com ele alguma coisa, faziam gozação, que o garoto estava apaixonado por ele.

Disse que nem pensar, apenas necessita de um amigo para conversar, ah se eu tivesse um na época que tinha duvidas de que estudar, o que fazer para seguir adiante.

Essas eram as conversas dele, Junior dizia que com ele era fácil falar.

Quando Andrew lhe convidou uma noite para jantar, de uma certa maneira era uma desculpa razoável, para o que acabou acontecendo.

Tinha sido feliz com Bob, podiam falar horas sobre muitos assuntos.

Foi honesto com Andrew, pois afinal ele era seu chefe.

Os dois se encontravam em seu apartamento, mas ele sempre ia embora, pois não queria deixar o filho sozinho.  Ele entendia.

No aniversário do Junior, ele veio pessoalmente lhe convidar, o levou antes a loja de seu tio, para ele escolher um traje, ficou todo feliz.

Poderia ter-se deslumbrado com o apartamento do Andrew, mas o achou exagerado, falando depois com o Junior, esse disse, que era herança de sua avó, mas tinha lhe mostrado seu quarto, que era mais simples de tudo isso.

Um dia Andrew disse que amava a simplicidade de sua casa, isso que ele tinha retirado os papeis de parede velhos do apartamento, pintado de branco.

Com o dinheiro que Bob tinha lhe deixado, poderia ter saído do emprego, seu antigo gerente agora trabalhava num escritório central, que administrava todos.

Um dia o convidou para almoçar, o queria trabalhando lá.

Perguntou a ele se alguém o tinha indicado para isso.

Me ofendes, queria falar contigo antes, pois assim posso falar com o chefe, temos hotéis não só aqui, mas em muitos lugares, há que se mover para todos os lados aonde existam problemas, tu eres bom nisso.

Ficou quieto, só falando com tio, sobre o que ele achava, sendo amante do chefe, ir trabalhar no mesmo escritório que ele.

Se teu chefe falou, espere que ele te diga alguma coisa.

Se vestia muito bem, agora, tinha aprendido com seu tio, a pouco tempo ele tinha tido uma oferta de compra do local, bem como seu apartamento em cima.

Primeiro pensei em aceitar, mas depois pensei, o que vou fazer, voltar para o Brasil, posar de milionário, o que foi embora com uma mão na frente, outra atrás, arrumar um boy na praia, não sou desses, preciso disso, mais como trabalho, para minha mente não parar.

Os dois foram juntos ao enterro de sua avó no Rio, sua mãe, a muito tempo vivia com um senhor amigo dela de infância, os dois se davam bem.

Ficariam vivendo no apartamento, embora no testamento do velho, era para seu filho.

Aproveitaram ficaram vários dias, como sempre foi visitar seu antigo chefe, esse disse que o proprietário tinha morrido, que os filhos queriam vender.

Falou com Andrew, que queria expandir, mas te aconselho a fechar e reformar totalmente o mesmo, dando lhe um padrão como os de aqui.

Voltou ao Rio com ele, se hospedaram no Copacabana Palace, apresentou sua mãe, ele foi super simpático.

Falou do relacionamento que ele tinha com seu filho, o ano que vem ira a universidade.

Andrew fechou negócio, ele fez uma coisa, levou o antigo chefe para NYC, para ser treinado como devia ser o hotel, depois de pronto.

Levou quase dois anos em reforma, o fizeram de cima a baixo, só mantiveram a fachada, com isso ele teve que ir várias vezes ao Rio, numa delas, levou o Junior com ele.

Um dia num final de tarde, o levou para ver desde o Arpoador, a paisagem de Ipanema.

O rapaz disse que era uma maravilha, quando o apresentou a sua mãe e seu marido, ele foi super educado.

Antes de ir embora pediu para voltar a pedra do Arpoador, lá lhe fez uma pergunta, se ele gostava realmente de seu pai.

Sim, por quê?

Pois acho que deverias viver junto conosco, sei que vão falar que estas dando um golpe do bau, mas não precisas do dinheiro dele, ele se sente muito sozinho, as vezes volta para casa, sei que esteve contigo, suspira, creio que por ele tinha ficado lá.

Não seja por isso, o apartamento de vocês, não me é cômodo, venham os dois a viver comigo.

Tenho um quarto que seria genial para ti, além de que podes usar a biblioteca para estudar.

Andrew se matou de rir, quando o filho lhe fez a proposta.

Resolveram experimentar, deixou nas mãos do Junior, a decoração de seu quarto.

Agora eram uma família, mas seguiu trabalhando como nada, nunca falava a não ser que fosse estritamente necessário alguma coisa de casa com o Andrew.

Viajava mais é claro, tinha que atender várias frentes, algumas vezes viajava com o Andrew.

Usavam sempre alguma suíte dos hotéis, para assim ter o lugar como um escritório enquanto estavam por lá.

Seu tio cuidava do Junior, se comportava como se fosse seu avô.

Quando o mesmo morreu, foi ele quem os avisou, voltaram no primeiro avião.

Junior ficou traumatizado, pois o tinha visto morrer na sua frente.

Foi um enterro interessante, ele seria cremado, levaria suas cinzas para ficar com o dos avôs no Rio, mesmo assim, a funerária estava abarrotada.

O mais interessante, ele sugeriu que Junior ficasse levando a loja, tinha ensinado tudo para ele, além de que o mesmo tinha um bom gosto incrível, estava estudando na Parsons.

Ele ficou como um bobo, pois realmente tio Milton como o chamava, era como um avô para ele.

Foram os três levar as cinzas para o Rio.

Avisaram sua mãe, mas ficaram na suíte do hotel do Rio, tinham uma clientela agora diferente, exclusiva, competiam de uma certa maneira com o Copacabana Palace que era perto.

Ele viu sua mãe, mais velha, claro, o tempo passa, a festa que ela fez para o Junior, que a chamou de avó, foi ótima.

Finalmente tenho um neto, se deu bem com o Andrew em seguida, ele convidou os dois para irem a NYC, mas eles gostavam da vida que levavam.

Anos depois ele voltaria com o Junior para o enterro dela.

Andrew na época, estava em Xangai, resolvendo a venda de um hotel que tinham por lá, que dava muitos problemas.

Mesmo assim foi se encontrar com eles no Rio.

Ele agora era herdeiro do apartamento velho do avô, contou para o Junior como ele era duro na queda.

Junior levava a loja que ele tinha herdado do tio, eram como sócios, mas ele não interferia em nada, quando terminou a Parsons, sabia o que queria fazer.

Reformou a loja, bem como o apartamento de cima, pensou que ele ia querer viver lá, mas fez como se fosse um segundo andar da loja, contratou dois alfaiates antigos, ele desenhava os trajes, agora alguns femininos, para uma clientela de mulheres executivas.

Fazia sucesso, ele ria, pois de uma certa maneira tinha lucro com isso.

Quando apresentou seu primeiro namorado aos dois, esses riram muito, pois estavam ficando velhos, ele não disse nada ao Andrew, mas ele tinha vindo falar com ele antes.

Ele sabia que não duraria muito, avisou só o Junior que tivesse cuidado como tinha feito na época da Parsons, com drogas, bebidas, festas demais.

Realmente não durou muito, ele ria, dizendo, quando comentei contigo, pela tua cara, sabias disso, mas me deixou viver.

Sim tens que pensar que a vida é tua, tudo que fazes aqui, pagas aqui, nada de céu, inferno.

Tinham agora um problema que Andrew ia resolvendo, sabia que o filho nunca assumiria os hotéis, quando teve uma grande oferta, beirava os sessenta anos, sentaram-se os três, para decidir, sempre sonhei em viver num lugar simples, uma casa numa praia, se mataram de rir quando Junior, soltou, Arpoador.

Ele tinha levado seu pai lá num pôr do sol.

Tai, eu ia gostar.

Vendeu para uma grande corporação o hotel, menos o do Rio, assim teria do que se ocupar.

Ele ficou de uma certa maneira numa situação complicada, de um lado o Andrew que se aposentava, mas para ele faltava alguns anos.

Mas foi com ele até lá arrumaram um apartamento como ele queria, Junior veio ver, adorou.

Ele ficou trabalhando na empresa o que lhe faltava, mas sempre escapava para ver o seu homem, acabaram se casando, Junior foi o padrinho.

Quando se aposentou, veio viver com o Andrew, nunca tinha imaginado voltar a viver no Rio de Janeiro, não tinha sonhado com isso, manteve seu apartamento, pois o Junior vivia lá.

Não se sentia cômodo essa era a verdade, seguiam o confundindo com um turista americano, pois as vezes o viam conversando com o Andrew em inglês.

Quando esse ficou doente, teve que voltar para NYC, tinha uma doença degenerativa, cuidou dele, quem usava o apartamento no Rio, era o Junior.

Ele não ia nunca, dizia que não se sentia à vontade lá, saia como Andrew, o levava na cadeira de rodas, a todos os lugares que ele gostava.

Discutiam sobre o que fazer com o apartamento da família, foi com ele a uma imobiliária, podia vender como estava, ou chamar um antiquário que avaliasse tudo.

Esse comprou o recheio inteiro, depois ele vendeu, colocando tudo numa conta do Junior.

Esse voltava do Brasil, cheio de entusiasmo pela maneira informal como as pessoas se vestiam.

Numa dessas idas e vindas, trouxe com ele um rapaz, um mulato que tinha estudado no Senai Cetiqt, criaram uma nova tendencia, ele comprou com o dinheiro do apartamento uma loja ao lado da sua, aonde vendiam roupas modernas.

Ele lhe dizia que era como fazer uma revisão da revisão, pois os desenhadores brasileiros, iam a Paris e NYC, para saberem o que fazer, ele trazia de volta esse conceito modificado lá.

Mas o melhor que dava certo.

Quando o entrevistavam sempre falava no seu tio Milton, era quem tinha lhe dado um empurrão.

Infelizmente ele acabou morrendo antes que o Andrew, um dia não despertou, ficou sentado na cama, olhando seu homem ao seu lado, pensou, vou te esperar do outro lado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                            

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