PERSEU

 

                                               

 

Seu pai tinha mania de nomes gregos para os filhos, isso ele via em seus outros irmãos, só por parte de pai.

Depois de uma larga disputa, com seu avô materno pela sua guarda, seu pai ganhou, mas logo em seguida como se casou de novo, o enfiou com dez anos numa escola interno, para ele que estava acostumado a viver com seus avôs, aonde lhe queriam, foi um duro golpe.

Por sorte dele, seu avô tinha conseguido com o juiz, pelo menos autorização para visita-lo na escola, bem como o receber em sua casa, no Natal, isso já compensava.

O velho não faltava nenhuma semana, sua avó ao contrário nunca aparecia, o coitado dava desculpas esfarrapadas.

Ele entendia, sua mãe não tinha se casado com seu pai, apenas tinha aceitado que ele lhe colocasse o nome, mas para a velha era como se ele fosse um bastardo, feito fora do casamento.

Bom de sua mãe, nem pensar, pois logo que o pariu, foi embora, se casou com um homem rico, foi viver do outro lado do mundo, na Australia.

O velho toda as semanas, lhe trazia as revistas que ele gostava, bem como algum livro que ele tinha escutado falar em aula, mas que não existia na biblioteca.

Ele depois que lia, anotava tudo que lhe interessava, dava a mesma para a pessoa que levava a biblioteca.

Ele pensava, eu já li, fiz anotações sobre o que me interessava, ainda tinha uma coisa, o mesmo de nome Jarvis, era o primeiro em ler, depois se sentava com ele em alguma mesa que estivesse ocupando, trazia o que tinha anotado também, tinham longos bate-papos.

Muitos diziam que esse homem abusava dele, mas nunca lhe tocou, ao contrário, lhe ensinou a se defender dos que abusavam dos menores.

Acabou sendo um bom amigo de seu avô também.

Quando ia para a casa do meu avô, eu me soltava, a velha me olhava com cara feia, mas ele ria a bessa, os dois saímos essa é a verdade, passávamos o dia inteiro pela cidade, ia me mostrando os lugares que adorava, uma destas vezes encontramos meu pai, num restaurante no píer, com uma garota muito jovem, o velho soltou que ele devia ter vergonha, mas não nos aproximamos, ele tampouco nos viu.

Quando já tinha 15 anos, mais dois anos poderia ir a universidade, discutia com o professor responsável pela biblioteca, bem como com meu avô, qual o caminho a seguir.

Pela primeira vez, meu pai através dele, perguntou o que eu queria de presente de aniversário, eu pedi um laptop, para escrever.

Ele me mandou um de segunda mão, eu mesmo assim agradeci, o interessante, é que dura até hoje.

Ele pensava que eu queria isso para jogar, como faziam os meninos da minha idade, mas nunca me interessei sobre isso.

Nas vésperas de fazer 16 anos, caiu uma bomba, ele estava andando com uma garota menor de idade, o pai dela descobriu, lhe deu um belo tiro na cabeça.

Meu avô veio me buscar para o enterro, fiquei com pena da mulher dele, que ficava para trás com três filhos.

O pior foi na leitura de testamento, basicamente o seu dinheiro todo era para mim, pois era o filho mais velho reconhecido. Na hora fiquei aturdido, meu avô, conversou com a senhora, pois eu não tinha maturidade para isso, ela no fundo tinha dinheiro de sua família, a casa que viviam estava no nome dela.

Meu avô, conversou comigo, concordamos em fazer um fideicomisso para os três um dia irem a universidade, me disse ele, não se esqueça que eres meu herdeiro.

Eu ainda tinha como herança o escritório de advogados que ele tinha, falei com meu avô, se era uma coisa que não me interessava, era isso, ser advogado, o juiz depois de conversar comigo, autorizou ele a vender aos outros que trabalhavam lá, o local sim era meu, pagariam um aluguel.

O melhor foi que no fim do semestre, eu podia já sair da escola, ir viver com ele.

Minha avó, não sei se por saber que eu tinha dinheiro passou a me tratar melhor.

Passei o último ano, indo numa escola perto de casa, me preparando para a universidade.

O mais interessante, por hábito, íamos sempre visitar o professor.

Me dava pena, pois ele reclamava que ali ninguém se interessava por livros.

Quando acabei o curso, podia até optar por uma bolsa de estudos, mas meu avô, convidou o professor, fomos os três almoçar, no píer, nosso lugar favorito.

A conversa foi sobre o que fazer na universidade.

Meu avô, era médico, mas nem por isso insistia nada a esse respeito, me dizia muito sério, que tinha que pensar, pois levaria o resto de minha vida, numa profissão, tinha que saber escolher.

O professor tinha um amigo, psicólogo, marcou uma hora para eu ir conversar primeiro com o mesmo, depois quem sabe fazer um teste.

Eu na verdade já tinha meio definido, adorava literatura, queria era aprender a me expressar, a entender os escritores, mas nenhum dos dois disse nada a respeito.

Conversei com o psicólogo, bem como fiz o teste.

Na leitura de testamento, me tinham entregado uma carta do meu pai, enfiei no bolso e me esqueci, nunca mais tinha usado essa roupa.

Um dia minha avó, fazendo limpeza nos armários, ia doar a uma ong, as roupas que eu não usava mais, pois tinha crescido muito, mas tinha a mania de examinar os bolsos, encontrou a mesma, como diria depois meu avô, por sorte estava lacrada, assim ela não abriu.

Me entregou a mesma, eu nem me lembrava mais da mesma.

Ele pedia antes de tudo desculpas, mas tinha ficado furioso com minha mãe, pois quando começaram a sair, ela era menor de idade, ele parecia gostar de mulheres assim, quando ficou gravida, o ameaçou, ele pensou que ela quisesse se casar com ele, mas nada queria era dinheiro, sonhava em ir para Hollywood, mas algo depois a fez mudar de ideia.

Pois ficou gorda, odiava isso, mal podia se olhar no espelho, fizeram um teste de ADN, quando nasci, para ter certeza de que o filho era dele.

Logo em seguida ela fez um regime impressionante, para emagrecer, para ser bonita outra vez, como dizia minha avó.

Logo encontrou na universidade, que ia atrasada esse australiano, que era filho de um milionário de lá, quando viu estava casada com ele, ele acabava a universidade, foram os dois embora, me largado para trás.

Pedia desculpas, também dizendo que nunca tinha estado preparado para ser pai, pois o seu era muito severo, isso ele não queria ser, ao mesmo tempo comentava de seus três filhos, nunca quis nenhum deles, fiz isso por causa da mãe deles.

Te deixo essas coisas, porque isso estava no testamento que meu pai me obrigou a assinar, mas sei que vais te virar, pois teu avô também tem dinheiro.

Nunca confie em tua mãe, é uma mulher desequilibrada.

A carta de uma certa maneira não tinha nem pé nem cabeça, não sei se ele ao escrever tinha a cabeça meio perturbada, pois achei incrível ele falar assim dos filhos, anos depois conversando com um deles, descobri que tinha sido o pai mais frio que se podia imaginar, que nunca se aproximava deles.

Eu resolvi fazer literatura, talvez por gostar tanto de ler, meu avô disse uma coisa acertada, eres jovem, se vês ao final que não é isso que queres, mude de rumo.

Ele veio me perguntar se queria ir viver perto da universidade, eu não via motivo para sair de casa, gostava de estar com ele.

Minha avó, agora até era simpática, nunca tocava no nome da filha.

Um dia o velho me contou que tinha tido um filho mais velho do que ela, foi filho do meu primeiro casamento, era complicado, nunca nada estava bom, um dia desapareceu, só soube depois que tinha entrado para o exército, pois não sabia o que fazer da sua vida, sabia que eu seria contra.

Fez tudo na surdina, da mesma maneira morreu, foi encontrado com um grupo de soldados todos despedaçados, tinha no pescoço como os outros, sua medalha com o número.

Foi como foi identificado.

Sua mãe ao contrário dele, foi criada cheia de vontades pela tua avó, quando me casei com ela, logo em seguida a esta gestação, descobriu que não podia ter mais nenhum filho.

Embora eu chamasse a atenção, ela fazia todas as vontades de sua mãe, na verdade nunca soube o que passava pela cabeça dela, para ter esse romance com teu pai, que era mais velho do que ela, quando disse que estava gravida, o mundo caiu para tua avó.

Pois pensava que ela teria um casamento como o famoso “comeram perdizes, foram felizes”, mas ao viver com teu pai, viu que a coisa era diferente, que ele era complicado, tampouco lhe era fiel, foi quando ela decidiu não se casar, soltou aqui em casa, que ela não estava disposta a ter cornos.

Nunca entendi por que ele depois queria a tua guarda, fez o possível e impossível para isso, teve sorte o juiz era um conhecido dele, depois conseguiu te enfiar numa escola.

O que o velho fez, me disse que escolhesse um carro para ir a universidade, eu pensei muito, sempre teria problemas de estacionamento, preferi uma vespa, podia ter dito uma moto, mas queria algo prático.

No dia que fiz a matricula, uma coisa me interessou, eu poderia fazer junto um curso de jornalismo, me inscrevi para os dois, seria apertado, mas me interessava, sempre tinha lido os jornais, para assim ter conversas com ele.

Ficou contente, assim se uma coisa não der certo podes ter outro caminho.

Por gozação, por eu andar de vespa, ter um sobrenome italiano, tampouco era muito alto, passaram a me chamar de Troy Mini, isso acabou ficando.

Evidentemente sempre tinha achado que Perseu Troy, os dois nomes não tinha nada a ver.

Ia bem nos dois cursos, nessa época minha avó descobriu que tinha um câncer, o mais interessante ele dizia sempre, em casa de ferreiro o espeto é de pau, pois ele sendo médico, ela ia a outro, não gostava de consultar com ele.

Então, já era tarde, lhe fizeram todos os exames, mas as possibilidades de uma operação ou um tratamento mais agressivo, era difícil.

Ele fez uma coisa avisou minha mãe, mandando uma carta com a direção que tinha dela na Australia, a mesma voltou com um carimbo de destinatário desconhecido.

Ele foi ao consulado, ver se conseguia através deles.

Tudo que eles tinham de registro, era seu casamento, depois um divorcio tempos depois, fora isso ninguém sabia dela, podia ter mudado de nome.

Por isso quando minha avó morreu, ela não estava presente, esta tinha ficado muito magoada, por não saber nada da filha que tinha criado com carinho.

Eu tentei com isso suprir, passava todos os momentos que tinha livre, que meu avô não estava em casa com ela.

Mas não durou muito tempo, antes de morreu, um dia me pediu desculpas, por ter-se afastado de mim, pensei que ias seguir como teu pai, isso eu não queria passar de novo.

No enterro não tinha muita gente, ela era uma pessoa muito fechada, a única coisa, era as conhecidas que iam com ela a missa, que ficaram escandalizadas, de meu avô rezar um Kadish na hora de colocar a caixa no panteão da família, só então descobriram por que ele nunca ia a missa, era judeu.

Ele me explicou depois, apesar do sobrenome italiano, era de uma família judia de Veneza.

Nas primeiras férias que tive, fomos os dois até lá, dizia que minha avó, cada vez que ele falava em viajar, dizia que não, que era americana, que não tinha nada que fazer em outro pais.

Eles ao contrário de divertiram horrores, pegaram um avião até Milan, de lá foram para Veneza, estiveram mais de dez dias, ele procurou saber se existiam algum parente dele, mas era um nome comum, mas nenhum era judeu.

Depois descemos para Florença, Siena, San Geminiano, por último fomos para Roma, ele ria muito, fomos a uma sinagoga, para saber se tinha registro de alguma família com esse sobrenome, mas a única que encontraram foi o nome de seu pai, nada mais.

Ele deve ter andado aqui, antes de ir embora com a família, na época era um garoto, por isso quando eu perguntava, nunca se lembrava de nada.

Voltaram para casa, ele agora no segundo ano, nas férias foi fazer um estagio num jornal, as aulas de literatura valiam, pois assim ele podia corrigir textos, os tornar mais simples.

O Editor gostou logo dele, um dia já no final do estágio, um dos jornalistas estava doente, pediu que ele fosse fazer uma entrevista com um artista plástico, um escultor que ia expor em San Francisco e depois em Los Angeles.

Ele procurou tudo sobre o mesmo, descobriu que o dito cujo tinha começado como pintor ali na cidade, mas quando foi para Paris, descobriu a escultura.

Procurou ler tudo que havia sobre o mesmo na internet, para não ser um idiota nas perguntas.

Só não perguntou nada sobre sua vida pessoal, o mais próximo que chegou disso, foi perguntar, o que ele achava essa volta, depois de ter passado tanto tempo fora.

No final o mesmo elogiou sua perguntas, nada de fofocas sobre a minha vida, isso eu gosto, pois a maioria, nem sabe de como são as minhas escultura, querem logo saber se faço sexo com alguém.

Por isso gosto de Paris, ninguém faz esse tipo de pergunta.

Estiveram conversando longamente, ainda o apresentou um jornalista que estava ali com ele, vindo da França. 

Riu muito, pois ele soltou, outro já iria perguntar se é meu amante.

O outro, riu dizendo, quem ia te aguentar horas e horas no ateliê, só um outro louco por escrever.

A matéria saiu no jornal, ele aproveitou, fez uma entrevista com o jornalista, como ele via San Francisco, já que conhecia vários lugares do mundo.

O mesmo lhe disse que depois deveria fazer uma pós graduação na Sorbonne, ias gostar.

Ele conseguiu publicar as duas matérias, o editor mandou lhe pagar como jornalista, ficou todo cheio de si, com seu primeiro dinheiro ganho com seu trabalho, convidou seu avô, bem como o professor, para irem jantar no Píer.

Sem querer lá estavam jantando o jornalista, bem como o escultor, acabaram fazendo isso junto.

O professor encantado de conhecer gente nova.

Agora que sua avó não estava, ele se hospedava na casa do avô.

Voltou todos os anos seguintes para estagiar no Jornal, no final no último ano, ele já escrevia sobre várias coisas que lhe pediam.

Entrevistou, escritores, atores de cinema, cantores, todos elogiavam ele nunca perguntar sobre a vida particular dos mesmos, mas estar interessado sim no que faziam.

Um deles disse que se ele estivessem em Los Angeles ia morrer de fome, pois os jornalistas de lá adoravam carniça.

Quando ele acabou as duas universidades com boa nota, foram os três a Paris, queria ver quais as reais possibilidades de fazer uma pós graduação na Sorbonne.

Tinham o contato do jornalista amante do escultor, esse logo soltou que o outro estava na Africa, mas algo morreu entre nós, voltou diferente de San Francisco, o reencontro com seu passado lhe passou fatura.

Foi com ele a universidade, aonde conhecia muita gente, dinheiro para se manter, ele tinha, da herança do pai, que nem tinha tocado.

Se surpreendeu do jornalista, André Amarante, o convidar para se hospedar em sua casa, até encontrar um lugar.

O apartamento do mesmo era imenso, tinha herdado de seus pais.

Sua preocupação era seu avô, mas ficou surpreso, do professor ter deixado a escola, ficaria vivendo lá com ele.   Mas todas as semanas tinham um papo incrível os três por telefone, sabia que estariam sentados na biblioteca da casa.

Se contavam todas as novidades, ele levava a sério o curso que fazia.

Um dia André lhe ofereceu a oportunidade de escrever uma matéria, como um estudante americano, via a possibilidade de estudar uma pós graduação na Sorbonne.

Ele o fez da maneira mais prática, escrevendo em francês, inclusive pediu que ele revisasse.

Foi publicado numa revista de domingo do melhor jornal da cidade, comprou dois exemplares, mandou para seu avô, assinava como Troy Giamini, tinha descoberto que seu nome Troy era o mesmo nome de seu tio morto.

Logo lhe surgiu outras oportunidades, o André, sempre lhe apresentava alguém, um dia voltou chateado, tinha reencontrado um jornalista conhecido, esse lhe perguntou se ele era seu amante.

Imagine, tenho muito mais idade que você, como pode imaginar isso.

Nunca tinha lhe perguntado nada, ele afora algumas aventuras com alguns da universidade, nunca tinha tido uma aventura maior, ou mais completa.

Ficou sem saber o que falar, tinha adorado se reencontrar com o André, sem querer soltou que ele tinha se interessado nele, já em San Francisco.

Eres um homem diferente, foste simpático comigo, teu namorado é um cara bonito, adora se sentir cortejado, mas tu, foste agradável, me deu informações sobre o curso, além de me receber bem aqui, me perguntam sempre se não tenho aventuras, mas não posso, estou interessado em ti.

Assim entre eles, começou um relacionamento, quase um ano depois o escultor voltou da Africa, procurou o André, fez o maior escândalo, de saber que os dois estavam vivendo um romance.

Ele tinha contado ao seu avô o que estava passando, preocupado que esse soubesse de outra maneira.

Mas ele aceitou bem, bastava ver como olhavas o André para saber.

Quando seu avô ficou doente, André foi com ele para San Francisco, ele esteve até o final com seu avô, tentaram de novo saber de sua mãe para avisar, mas nada, era como se tivesse sumido no mapa.

O velho morreu, o enterro foi impressionante, o rabino que atendia seu avô, o ensinou a rezar o Kadish, André também ajudou, pois no fundo era judeu.

Se surpreendeu de aparecerem seus três irmãos, o maior deles ia entrar na universidade, usaria o fideicomisso, assim posso estudar o que quero sem pressão.

Ficou contente com isso, perguntou pela mãe deles, nunca esperou a resposta.

Ela nos enfiou numa escola, se casou de novo, quase não a vemos, por sorte fomos os três para o mesmo lugar, nós ajudamos entre nós.

Deixou seu endereço com eles, disse que vivia com o André, não tinha nada que esconder.

A leitura do testamento foi simples, ele deixava uma boa quantidade de dinheiro para o professor, seu grande amigo na velhice, o resto tudo era dele, a casa um outro apartamento na cidade, bem como o lugar aonde tinha tido seu consultório, além de dinheiro no banco.

André brincando disse que agora ia viver as custas dele.

Quando voltaram, André já antes tinha arrumado para ele escrever no Le Monde, agora lhe davam matérias que devia escrever em vários lugares, por sorte nada de ir à guerra.

Numa delas, foi a Australia, procurou pelo o endereço que tinha por sua mãe, levou uma bofetada na cara, ela era um dessas dondocas de sociedade, ela mesma tinha devolvido a carta, tinha na sua cabeça cortado os laços com sua família.

Se encontrou com ele, fora de sua casa, não queria que o marido nem os filhos soubessem desse erro de seu passado.

Quando ela disse isso, erro de seu passado, ele ficou de boca aberta.

Se levantou, foi embora, nesse dia embarcava para Nova Zelandia para fazer uma matéria.

Voltou direto, via Sidney, para Paris, matou as saudades que sentia sempre do André, o viu diferente, dias depois lhe contou que tinha um problema, estava com Leucemia, seu pai também tinha morrido assim.

Tinha mais uma reportagem para escrever, em Oslo, ia pedir que mandassem outro em seu lugar, mas André o convenceu de ir, é perto, vais e volta.

Tinha conversado com ele, a respeito de ter reencontrado sua mãe, além do que tinha acontecido.

A única coisa que disse para ela, era que seus pais pensaram que tinha morrido, respondeu, que para ela sim, mas tampouco explicou por quê.

André tinha um amigo muito próximo, que o estava acompanhado aos exames médicos, ele foi fazer a reportagem que queriam.

Estava fazendo as malas para voltar, quando esse lhe chamou, que fosse para Paris urgentemente.

Chegou tarde, André tinha morrido, não queria ter a vida que seu pai tinha tido, com entra e sai de hospitais, nem tampouco sessões de quimioterapia, tinha se suicidado.

Foi uma porrada na cara dele.

Rezou o Kadish, foi duro convencer o rabino que o atendia, a fazer a cerimônia, pois considerava horrível um suicídio.

Na cerimônia, tinham muitos amigos dele, todos falavam o mesmo, alguns tinham acompanhado o tempo que ele cuidou de seu pai, tinha ficado estagnado no seu trabalho, por não poder sair de Paris.

Foram a leitura do testamento, ele lhe deixava o apartamento, o dinheiro que tinha, ia para uma bolsa de estudos da Sorbonne para novos jornalistas.

Mas a casa para ele, era uma coisa pesada, era dele, cada canto dela o fazia se lembrar dele, doou sua biblioteca a universidade, mandou vender a mesma, que fosse complementar essas bolsas de estudos.

Arrumou um apartamento menor para ele, agora era livre para voar, mas com um gosto amargo na boca, pois o tinha amado.

Esteve logo em seguida meses na Africa do sul, escrevendo sobre tudo que via por lá, desde reportagens turísticas para a revista, como sobre a política da região.

Fez o mesmo na Índia, percorrendo todo o pais, adorava isso, ainda foi a Goa por alguns dias, visitar as plantações de chá de um conhecido.

Quando voltou a Paris, teve que procurar um apartamento para viver.

Foi quando voltou a San Francisco a pedido do professor, esse seguia vivendo na casa do avô, para ele sozinho era muito, agora iria trabalhar depois de aposentado, numa biblioteca de um dos bairros, preferia mudar.

Tinha que pensar, queria agora escrever um livro sobre suas andanças, conversou com o Jornal, ficaria como correspondente nessa lado do Estados Unidos, assim poderia escrever o livro.

Entende o que o professor dizia a casa era imensa para uma pessoa sozinha, mas mandou limpar tudo, pintar, usava basicamente a biblioteca, bem como um quarto e um salão.

O resto era demais, adorava a biblioteca, aonde tinha passado as melhores horas de sua vida, conversando com seu avô.

Quando lançou a livro, seus irmãos apareceram, todos tinha feito universidade com o fideicomisso, cada um numa coisa diferente, mas realmente eram pessoas com outras ideias que não a sua.

Ficou surpreso um dia que sua mãe fez contato com o advogado, tinha mandado alguém dar uma olhada como ele vivia.

Segundo soube, agora era viúva, com um filho em cada lugar da Australia, queria fazer contato com ele.

Diga que estou viajando, não quero nada com essa mulher.

Mesmo assim, estava em Vancouver lançando seu livro quando ela apareceu, queria seu autografo, bem como o livro de presente.

Aqui se pagam os livros, não são meus, mas sim da livraria, primeiro há que pagar para depois ter o autografo.

Ficou vermelha por debaixo da incrível mascara de maquilagem que usava, ele seguiu como nada, por desconfiança, não fez a assinatura que sempre fazia, mudou a mesma.

Depois apareceu num restaurante que ele estava jantando com outros jornalistas, queria falar com ele.

Foi claro, sinto muito, mas não tenho nada que falar com a senhora.

Se despediu de todos, por incrível, ele tinha um voo noturno para San Francisco, resolveu mudar, como teria que ir na semana seguinte para NYC, trocou o voo.

Soube depois que ela tinha ido ao advogado, bem como a sua casa.

Queria claro o de sempre dinheiro, estava arruinada, o testamento do marido, favorecia aos filhos, para ela deixou só uma pensão, estava acostumada a viver por todo o alto, agora não era mais possível.

O advogado o alertou, ela é o tipo de pessoa, que se dás uma mão, logo quer a outra, sempre voltará por mais.

Fez o que tinha que fazer em NYC, de lá se mandou para Paris.

Lhe ofereceram fazer um grupo de reportagem sobre os países da América do Sul, que viviam sobre ditatura.

Quando voltou o advogado contou que ela vivia agora numa casa de pessoas de idade em Melbourne, mas que sempre escrevia para ele, lhe entregou uma quantidade de cartas.

Ele perguntou ao advogado se tinha uma trituradora, não ia abrir nenhuma.

Estava escrevendo um segundo livro sobre a América do Sul, os contrastes povo.

Lançou o livro lá, depois em NYC, em seguida foi para Paris.

Dois anos depois, estava em Israel, quando descobriu uma pessoa com o mesmo sobrenome dele, procurou saber de aonde era, era um parente de longe de seu avô, ficou impressionado com o homem um ultraortodoxo, um homem de mentalidade fechada, era muito mais jovem que seu avô, descobriu que seria seu irmão pequeno.

Falou horrores de seu avô, ele não gostou, procurou saber a verdade, pois esse homem conforme as pessoas, distorcionava tudo que dizia.

Foi uma experiencia traumática, porque escutou várias vertentes da mesma história, cada um contada por algum membro de sua família.

Ao final, mandou tudo a merda, se mandou, nunca tinha precisado deles.

De novo em San Francisco, tinha material suficiente para escrever um livro, tinha gravado todas as histórias contadas por essa família.

Era como um livro, em que cada capitulo, cada um dava uma versão, no fundo descobriu que não sabiam quem era seu avô realmente, colocou de uma certa maneira o nome de “Burla”, sobre o assunto, pois nada era como diziam.

Quando o livro foi editado em Israel, quiseram processa-lo, mas ele tinha gravado cada conversa sem a pessoa saber.

Quando o chamaram para depor, seu advogado apresentou todas as gravações, aonde estava justamente o que cada um tinha falado.

Ao mesmo tempo, o advogado apresentou um documento, em que todos os vizinhos, reclamavam dessa família, criavam problemas aonde viviam.

Lhe pediam milhões de indenização, por mentir sobre eles.

Deu tudo em nada, nem dinheiro para pagar às custas do processo tinham, viviam de explorar os crédulos americanos.

Viviam de esmolas, todos metidos nas Yeshivá, se balançando o tempo todo, decorando a Torá e os outros livros sagrados.

Já não voltaria a Israel, quando se deu conta, estava já com uma boa idade, nem tinha usado a maior parte de sua herança, com os seus livros também tinha ganhado dinheiro, o que sentia isso sim, era a solidão de sua vida, as relações com seus pais, o tinha feito ficar desconfiados das pessoas.

Nunca procurou os irmão que tinha na Australia, não interessava, fez sim uma coisa, separou dinheiro, fez como tinha feito com o dinheiro do apartamento do André, fundos de uma bolsa de estudo de Jornalismo, mas usou o nome de seu avô, para isso.

Muitos pensavam que era um descendente de Italianos, mas ele não se incomodou, nunca falava no assunto, tudo era gerido pelo advogado.

Com 65 anos, definitivamente se parou para pensar, não tinha filhos, nem romances, era conhecido por ser daqueles que tem uma aventura de uma noite, nunca passava disso.

O professor voltou a viver na casa com ele, agora com uma idade super avançada, mas totalmente lucido, reclamava do mesmo, não tinha construído uma família, mas não se arrependia.

Podia conversar horas sobre algum assunto.

Quando esse morreu, o enterrou junto ao panteão da família, aonde estava seus avôs, afinal ele tinha se transformado num familiar.

Deixou preparado um lugar para ele.

Se preparou a consciência muito antes de saber que tinha um problema degenerativo nos ossos.

Pensou muito no André o único homem que ele tinha amando na vida.

Ainda escreveu um último livro sobre isso, quando uma pessoa lucida, decide terminar a vida que foi tão produtiva, para não pesar na vida de outras pessoas.

Tudo que tinha ia para as bolsas de estudos, considerava que não tinha família.

Com tudo organizado, com dificuldades de se locomover, as vezes sonhava pelos países que tinha andado, algumas vezes tinha escapado correndo dos lugares, hoje já não poderia fazer isso.

Se preparou, deixou inclusive uma mortalha que tinha comprado em Israel, bem como a roupa para ser enterrado.

Um dia em que as dores eram fantásticas, se suicidou, o descobriram dias depois, quando vieram fazer uma limpeza na casa.

O enterro foi simples, muita gente o conhecia, mas não podia dizer que eram seus amigos, os irmãos apareceram, falaram com o advogado se havia uma leitura de testamento.

Esse foi claro, ele distribuiu tudo antes, pela bolsa de estudos, não sobra nada.

Um rabino com quem conversava, rezou o Kadish ao pé do Panteão, aonde ele foi se encontrar com seus dois melhores amigos, seu avô e o professor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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