SALAM SALADINO

                                  

 

Acabava de sair do cinema com seu avô, esse quando vinha a Londres, agora o procurava, achava interessante, pois sua mãe basicamente tinha sido banida da família, quando se casou com seu pai, um médico Sírio, quando ele morreu voltaram para casa.

A desculpa dela, era que ali ele poderia estudar melhor, mas nem se podia chamar casa aonde viviam, num dos bairros obreiros de Londres.

Ela tentou se reconciliar com a família, mas agora quem ostentava ou dirigia a mansão familiar, era sua irmã pequena, que adorava esse poder, tinha se casado para salvar a família da falência total, com um homem tremendamente rico, mas muito mais velho do que ela, era amigo de seu pai.

Um belo dia se surpreendeu, saiu da escola, na época estava se preparando para ir a universidade, não poderia ir a Oxford é claro, pois faltava dinheiro, estudava como um louco para tirar as melhores notas, para conseguir uma bolsa de estudos.

Embora seu pai fosse médico, ele não tinha a menor vontade de ser, embora na escola fosse bom aluno em ciências, nada disso o atraia.

Na Síria tinha sido educado como mulçumano, mas desde que tinha voltado a Londres, sua mãe tinha voltado a velha religião da família, o catolicismo.

Ele achava uma falsidade, embora não acreditasse em Deus, afinal lhe dava igual, não ia a nenhuma das duas.

Saiu da escola, deu de cara com o avô, que só tinha visto quando chegaram de volta, nesse dia ele lhe deu a mão solenemente, nada mais, mas viu que seus olhos sorriam, não comentou nada com sua mãe, pois ela tinha ficado afetada com a repulsa da família.

Por sorte, antes de se casar, tinha terminado a universidade em Oxford, com isso e a ajuda de um velho conhecido, conseguiu para dar aulas numa escola privada.

Foi quando mudaram para uma casa melhor, mas nada comparado com a mansão aonde tinha vivido.

Mesmo em Damasco aonde tinham vivido, tinham uma bela casa, com um belo pátio no meio.

Ela tinha dado aulas numa escola para senhoritas, filhas de gente rica do poder.

Todo mundo o conhecia como Geo Hamatti, ele era o mais adiantado de sua turma.

Ficou parado olhando o avô que estava ao lado do velho carro da família com chofer, isso por ali era uma coisa que chamava a atenção.

Venha, vamos tomar um lanche disse seu avô.

O levou a um lugar chic, no centro de Londres, disse que depois o levava para casa.

Esse primeiro encontro foi meio chato, ele não tinha o que falar com o velho, nunca o tinha visto, só se lembrava de seu pai falando mal dele.

Os seus avôs por parte de pai, tampouco o tinham aceitado, a mistura que levava no sangue era interessante.

Era moreno, cabelos crespos, mas tinha olhos azuis como de sua mãe, era sim muito magro.

Te olho vejo meu filho mais velho que morreu numa das muitas guerras idiotas que nosso pais entra.

Ele tinha contado com sua mãe para fazer um casamento importante, mas ela se casou em Oxford com um estudante de medicina, Sírio ainda por cima, já estava gravida dele.

Ele tinha as duas nacionalidades, mas tinha nascido em Londres.

Sabia que seu tio também era moreno, pois sua mãe comentava muito isso.

Quando acabou o lanche, em que trocaram poucas palavras, o velho lhe entregou um caixinha, isso é um celular, assim posso marcar te ver, sem ter que ir te buscar, imagino que amanhã, todos comentaram, o que fazia esse velho te esperando.

Ele se desculpou, enfiou o celular na mochila, disse que ia ao banheiro, saiu de fininho, entrou no metro, foi para casa.

As duas vezes seguintes, foi igual, escapava do velho, não tinham o que falar.

Um dia o velho apareceu com um volume velho sobre as cruzadas, Ricardo Coração de Leão, ele leu, gostou, isso passou a ser o assunto entre eles.

Adorava história, tinha pensado muito em estudar justamente isso, mas claro, acabaria como um simples professor.

Um ano, depois o velho disse que estava em cartaz um filme que queria ver, Kingdom Of Heaven, Reino dos Céus, era um sábado, nesse dia sua mãe tinha avisado que ia sair com umas amigas para fazer compras, ele quase riu, pois ela não tinha amigas, iria sim sair com o amigo que tinha lhe arrumado emprego.

O velho se sentou ao lado dele, as vezes lhe apertava a mão, nas cenas fortes, ele já tinha visto o filme antes, um dia um professor de história os levou para ver o mesmo, mas não comentou nada com o avô.

Ele parecia emocionado quando saíram, disse que na segunda feira estaria em Londres pela manhã, sei que estarás de férias, marcaram logo cedo, mas ele não disse para que.

Foi se encontrar com ele, perto do apartamento que tinham em Londres.

Achou estranho, confirmou com ele que tinha já 17 anos, tinha pedido que levasse seus documentos. Foram a um banco, o velho abriu uma conta para ele, bem como desceram para as caixas fortes, tinha alugado uma, o mandou ficar de costas, transferiu coisas de uma para a outra.

Ele não viu nada, só o via movendo-se, depois enfiou a chave num cordão de ouro, colocou no pescoço dele, esse cordão, pertenceu ao teu tio, não mostre para ninguém, principalmente tua mãe, guarde essa chave bem escondida.

Perguntou se sua mãe tinha o hábito de ir olhar suas coisas?

Nada, nunca se interessa por nada que eu faça, foram tomar um chá, ele voltou a uma pergunta que tinha feito antes, se ele sabia o que queria fazer na universidade.

Disse que pensava em estudar Literatura e História, quero um dia poder escrever a história de meu pai.

O velho na hora de ir embora, lhe enfiou um anel no dedo, mas o virou a parte chapada para baixo, esse é outra coisa que deves guardar bem escondida.

Quando sua mãe chegou em casa, o viu estudando, não disse nada, contou foi do almoço que tinha tido com o amigo, estava sorridente, de noite se surpreendeu, que ele aparecesse.

Estava muito formal, tenho que falar contigo.

Lhe pediu a mão de sua mãe em matrimonio, ficou com a boca aberta, não sabia o que responder, depois pensou um pouco, soltou, quem vai se casar é ela não eu, quem tem que responder a essa pergunta é ela.

Ele colocou nos dedos dela um anel com um diamante, nem grande, nem pequeno.

Ele era professor da universidade de Londres, bem como trabalhava no British Museu, numa parte que analisava as peças.

Ele ligou para o celular do avô contou isso. 

No dia seguinte quando ela saiu para ir a missa com o namorado, ele apareceu, entrou na casa examinou a mesma, pelo menos ela vai para uma casa melhor.

Que pensas tu.

Se consigo a bolsa de estudos, irei para a universidade, claro não posso ir para Oxford, mas irei aqui na de Londres.

O velho lhe deu um sorriso, disse que viesse com ele, deixe um bilhete para sua mãe dizendo que saíste com um amigo.

Ele nunca fazia isso, mas lhe fez graça.

O velho o levou a casa da família em num dos bairros importante de Londres, ele adorou a biblioteca, essa fui eu quem montou disse o velho, aqui estão os melhores livros que estavam na mansão, sua tia é capaz de querer vender todos para fazer dinheiro.

Se queres podes vir morar aqui.

Ele pensou, sabia como era sua tia, o tinha olhado da cabeça aos pés, como dizendo bastardo.

Acho melhor não, vai dar confusão, me apanharei, por enquanto, se vamos mudar para a casa dele, já se verá.

Achou raro, quando meses depois sua mãe, lhe avisou que iam se casar só pelo civil, no palácio de justiça, aonde se celebravam os casamentos.

Avisei a família, mas não creio que apareçam.

Mas ficou surpresa, de ver seu pai chegar, agora tinha dificuldade para andar, o motorista lhe ajudava, subir escadas era um sacrifício.

Ela ficou surpresa dele me beijar, olá meu neto, disse ele.

Depois se distraiu, com a cerimônia simples que foi feita.

Jerry o novo marido de sua mãe o convidou para tomar alguma coisa num pub, ele se desculpou, mas não andava bem, tenho que voltar para casa, tua irmã não sabe que estou aqui.

Uma semana depois já na casa nova, Jerry tinha o deixado montar seu quarto como queria, tinha era gostado da biblioteca do mesmo, mas se surpreendeu, que todos os livros estavam fechados com chaves, quando tentou abrir um, ele disse que só ele mexia ali, eram seus livros de estudos, se te interessam consigo igual para ti na biblioteca.

Entendeu a mensagem, não queria a mão dele em cima de seus livros, quando sua mãe disse que isso era uma besteira, ele soltou esses livros são meus, não gosto que estejam nas mãos de estranhos.

Ele não disse uma palavra.

Nessa noite, recebeu uma chamada, estranhou, era de madrugada, era o motorista de seu avô, ou seja na verdade seu ajudante de câmera como ele dizia, seu secretário, pau para toda obra.

Seu avô tinha morrido, sua tia tinha dado ordem para não avisar ninguém, ele me deu ordens estritas, que eu devia ir buscar o jovem.

Dentro de uma hora estou na sua nova casa.

Ele se arrumou, tinha um terno escuro, um pouco usado, era de segunda mão, o tinha comprado para ir a uma entrevista na universidade.

Desceu em silencio, sem saber se avisava sua mãe, mas o homem tinha dito que não falasse com ninguém.

Ele chegou lhe deu os pêsames, o senhor era meu melhor amigo, foi falando uma série de coisas, tua tia vai fazer um escândalo, mas essa é a vontade dele, já avisei o advogado, quando chegarmos vai estar lá, ele sabe o que deve fazer.

Só então deves avisar sua mãe.

Ele achava estranho, mas estava chateado, tinha aprendido a aproveitar a companhia do velho depois do filme, ele nunca parava de falar num antepassado deles, que tinha participado das cruzadas, nunca saberemos se é mentira ou não, pois essa coisas de antepassados é assim, está enterrado na cripta da igreja da vila, que ele mandou construir.

Volta e meia vinha com esse assunto, na biblioteca aqui, que montei, frisava sempre isso, que a tinha montado ele, tem muitos livros sobre o assunto, além de toda a história da família e do País.

Quando chegaram o advogado estava esperando fora, o secretário do avô o tinha avisado, entrou com ele na casa, a tia logo aprontou um escândalo, mas ele lhe entregou um bilhete, são ordens do senhor, aqui estão suas últimas vontades.

Um dia o avô lhe perguntou se ele sabia rezar a oração pelos mortos em árabe, ele disse que sim, quero que rezes no meu enterro, não dentro da igreja, mas sim no Panteão da família.

Depois tinha começado a rir, meus antepassados vão se revirar nas tumbas, ele fez a imagem na cabeça, ficaram os dois rindo.

A tia estava furiosa, o advogado se aproximou com um celular, disse que sua mãe, estava no aparelho, disse que hora seria a cerimônia, que ela devia vir.

A tia estava à beira de um ataque histérico, perto de sua mãe, apesar de ser mais nova, tinha cara de velha amargada.

O pior, era o marido, que sentado ali, parecia alheio a tudo, tinha alguns anos menos que seu avô, mas era velho.

Ele pediu se podia ver o avô, o secretário o acompanhou ao quarto do velho, o deixou ali sozinho, ele estava vestido como um Lord que era, com suas roupas, além de comendas no peito.

Sua tia tinha tentado impedir, mas o advogado disse que nem pensar.

No dia seguinte foi uma bela confusão, vieram os da funerária, colocaram seu avô num caixão simples como ele tinha escolhido, o levaram a igreja da vila.

Ali foi um desfile impressionante, ele estava ao lado de sua mãe e do Jerry, ao lado do advogado, mas se surpreendeu, que o secretário, vinha lhe apresentar algumas pessoas, principalmente gente velha, se inclinavam na frente dele.

Sua tia, só faltava espumar.

Depois da cerimônia, foram ao cemitério dali, havia um pequeno Panthéon aonde ficavam os da família, que morriam.

Na hora que iam colocar o caixão para dentro o advogado, lhe fez um sinal, ele parou na frente do caixão, começou a rezar em voz alta como o avô tinha pedido.

A tia aproveitou para desmaiar, disse que isso era demais.

Quando voltaram a mansão, o advogado disse que todos fossem a biblioteca.

A tia apertava a mão do marido, que de vez em quando conseguia escapar.

Acharam estranho, pois o juiz que estava no enterro, veio falar com ele, disse que tinha gostado da oração, ele me disse que tinha pedido que você rezasse.

Foi ele que se sentou na mesa da biblioteca, a tia ficou furiosa, mas o velho a ignorou, passou as duas e a ele, uma cópia, esse testamento foi feito, com a presença de um médico, um psicólogo, minha, de dois advogados, bem como o senhor bispo.

A cara da tia era cômica, enxugava os olhos com um pano, que estava seco, era tudo fingimento.

Ele começou a ler, isso foi escrito pelo meu querido amigo.

Estou imaginando a cena, minha filha mais nova fingindo que está chorando, a outra assustada, meu neto se perguntando que merda esse velho aprontou.

Bom como minha filha não tem herdeiros, tudo é do meu neto, eu já devolvi a muito tempo o dinheiro que o marido dela, emprestou para salvarmos a mansão.

Estava na época abalado com a morte de meu filho, mas me recuperei, paguei tudo, junto aos documentos, estão todos os recibos firmados por ele.

Ela poderá ficar vivendo aqui, terá uma renda para seus gastos, o advogado leu o valor, a casa de Londres, bem como todas as propriedades que ainda restam são do meu neto, esses últimos anos, passei a apreciar sua companhia, é um garoto inteligente, sabe o que quer da vida.

Só o fiz prometer que nunca iria a nenhuma guerra.

A minha filha mais velha, deixou uma renda, para que ela não dependa do marido, o juiz parou, depois continuou, não gosto dele.

Ele quase soltou uma gargalhada, quando tinha contado ao avô sobre os livros, ele disse que só devia haver merdas nessa biblioteca.

O Juiz chamou seu secretário, lhe entregou um envelope, depois a cada um dos empregados da casa, voltou a falar, meu secretário, já conversei com ele, passa a servir ao meu neto, pois os dois se conhecem bem.

A cara de sua mãe era ótima, não sabia que eles se encontravam, nem de que ele conhecia o secretário.

Ainda entregou um envelope fechado com um celo da família, abriu a gaveta, tirou uma chave, foi até uma estante, tirou de lá esse selo, entregou a ele, a partir de hoje eres Lord Geoffrey Abdul Hamatti, se quiseres posteriormente ele deixou um documento autorizando que uses o nome da família.

Sua tia ao escutar isso, soltou um grito abafado, isso é uma infâmia, esse menino é um bastardo.

Não tanto quanto a senhora, aqui está um documento, com um teste de ADN, que a senhora foi concebida fora do casamento dele, de sua mãe com um amante.

Se não está contente, podes ir viver na casa do seu marido.

Ela engoliu em seco, ficou lendo o teste de ADN, firmado por vários médicos.

Sua mãe ainda é viva, vive num hospício, pois o homem com quem ela escapou a abandonou gravida, ele foi lá a recolheu, a reconheceu como filha, nada mais.

Ela só faltava espumar, cada vez que tentava apertar a mão do marido, ele escapava.

Se levantou, foi se sentar numa outra poltrona, longe dela, avisou, depois disso vou para minha casa.

O advogado disse que tinha os papeis em ordem, ele seguiria levando as contas das terras arrendadas, de aonde sairiam o dinheiro para as duas, explicou que era assim cinquenta por cento dessas rendas era do neto, depois quarenta por cento, era para dividir entre as duas mensalmente, iriam para uma conta no banco, os dez por cento restante, eram para a vila.

Disse mais o menos o valor que correspondia por mês a cada uma, bem como teriam que pagar o imposto sobre isso.

Me disse que me esperava no dia seguinte no seu escritório para me explicar tudo.

Eu estava tonto com tantas coisas, da merda, agora era um Lord, me parecia uma brincadeira de mal gosto do mesmo.

O Secretário disse que tinha mandado preparar um almoço tardio para todos, uma espécie de buffet.

O marido de sua tia, disse que ia para sua casa, que odiava estar nessa mansão gelada.

Ela não sabia o que fazer, só lhe perguntou se era verdade que ele tinha lhe pagado cada cêntimo que lhe devia do empréstimo.

Sim, que tu gastas como se fosse água, veja tua irmã, é mais simples se veste melhor que você, que parece uma velha, se queres vir para minha casa bem, senão fique aqui de favor, riu dizendo já não mandas nada.

Ela ia dar uma ordem, o secretário, perguntou a ele, o senhor quer me acompanhar ao salão para comer.

Todos ficaram espantados, ele esperou as senhoras se sentarem, disse ao que servia que colocasse um lugar a mais na mesa, odiava gente em pé, disse ao secretário que se sentasse ao lado dele, terás que me explicar muita coisa.

O homem não sabia o que fazer, mas obedeceu.

Ele baixinho lhe disse, terás que me ensinar a me comportar numa mesa assim, estou acostumado a comer na cozinha, mas disse isso alto e rindo.

A cara da tia era de nojo.

Afinal como te chamas?

Isso pegou o homem de surpresa, lhe disse baixinho, George senhor.

Para de me chamar de senhor, sou muito jovem para isso, meu nome é Geo Hamatti, ai acrescentou o sobrenome da família, D’O’Brein.

Este se virou para ele, perguntando se ia dormir na mansão?

Acho que sim, pois temos que ir ao advogado amanhã, cedo verdade senhor.

O advogado concordou.

Ele fez um gesto a senhora que estava na porta, dizendo que ela preparasse uma cama, na saleta ao lado do quarto do senhor, depois veremos como o senhor Geo, quer o quarto.

Ele quase soltou uma gargalhada, pois tinha achado o quarto um horror, com papeis de paredes velhos, uma cama dossel, quase soltou uma gargalhada.

Sua mãe até o momento estava em silencio, ele olhou para ela, deve estar pensando que se precipitou em se casar, mas o problema é dela não meu.

Jerry aproveitou, tirou do bolso interno de seu casaco, isso chegou na hora que íamos saindo, lhe passaram, era para uma entrevista em Oxford.

Ele sorriu, sabia que ali tinha dedo do velho.

Sua mãe disse que voltava para Londres, ele ainda ficou na biblioteca com o Juiz, o advogado, disse aos dois, vou precisar muito de ajuda, não sabia nada disso.

Ah, lhe disse o advogado, não se esqueça do banco que ele foi como senhor, nem das caixas fortes.

Quando os foi acompanhar até o carro, viu que duas senhoras levavam bagagem da tia para o carro do marido, ia embora toda ofendida.

Nem de despediu de ninguém, ele tinha vontade de gritar, bastarda, como ela tinha feito com ele.

Quando subiu, estava cansado, disse ao George, queria descansar um pouco.

Depois quando desça, gostaria que me falasse como é administrada a casa, bem com os empregados, pode ser.

Olhou o quarto do avô, sorriu, este levaria um susto, ele não sabia por que, mas odiava papeis de parede.

Se deitou, mas foi incapaz de adormecer, era muita coisa na sua cabeça, meia hora depois desceu, foi para a biblioteca, em seguida o George apareceu, ficou em pé na frente dele, disse que se sentasse, odiava olhar para cima.

Vamos acabar com essa coisa de senhor, ficar em pé, eu sou diferente de meu velho.

George se sentou, começou a falar, que na casa havia dois controles de contas, uma fazia tua tia, recebia um dinheiro do advogado, para comprar mantimentos, o resto era comigo, pagar os empregados, administrar tudo.

Isso terás que me explicar devagar.

Ele mandou chamar os pouco empregados da casa, entraram ficaram em pé, ele se levantou, foi se sentar na poltrona que sabia que era o velho que usava.

Mandou todo mundo sentar, espero que continuem trabalhando aqui, George já me avisou que ele é quem controla vocês, com os salários, essas coisas.

Mas tua tia, controlava as despesas da cozinha, nos obrigava a fazer uma comida para ela e o marido, bem como o senhor, para nós outra mais barata.

A cara dele de horror, foi ótima, a cozinheira ficou rindo.

Ele disse que imaginava como era, acho essas coisas uma besteira, aliás a comida do almoço estava ótima.   Só tem uma coisa, não como carne de porco, só de ovelha, nada mais, de resto sou uma pessoa normal.

Depois saiu como George, foi até o pub da vila, que estava lotado, ali estavam os arrendatário que alugavam as terras do avô.

Estavam todos preocupados, como ia ser.

Ele sorriu, mandou servir uma ronda, depois de perguntar ao George se tinha dinheiro, eu não tenho.   Meu avô me pegou de calças curtas, nunca imaginei nada disso, nem sonhava com isso, estava era preocupado, em ir à universidade, nossa amizade era muito recente, ele aparecia, nas primeiras vezes eu fugia dele, quando cheguei a Síria, todos me olhavam como um fantasma, agora entendo por que, sou muito parecido com o filho dele mais velho, que eu não conheci, ele era o herdeiro do velho, se não tivesse morrido.

Amanhã vou me colocar ao dia, com o advogado, depois irei visitar cada um de vocês, para saber como vamos trabalhar juntos.

A partir desse dia, sua vida virou um turbilhão, entendeu porque uma vez seu avô lhe perguntou se ele não tinha pensado em fazer administração de empresas, na verdade, era isso, gerenciar uma empresa.

De noite leu a carta que ele tinha deixado.

Começava contando do dia que ele tinha chegado a mansão, que para ele, era como se seu filho tivesse voltado, sua aproximação gradual.

Tua tia sempre se sentiu dona de tudo, mas além de ser uma má filha, era um carrasco com os empregados, vivia dizendo que eles veriam como seria quando ele morresse.

Nunca esperou que eu usasse o fato de não ser minha filha, já a tinha avisado quando ela te chamou de bastardo, a única que era ali, era ela.

Sua mãe, está internada até hoje, ela nunca a foi visitar, ficou louca, quando o homem com que tinha fugido a abandonou, uma pobre mulher que se casou comigo por obrigação.

Me deu o herdeiro que eu queria, mas veja bem, meu filho sempre foi complicado, odiava obedecer ordens, se achava acima do bem e do mal, poderia ter sido alguém, abandonou os estudos em Oxford, dizendo que eram perda de tempo, mas se meteu em muitas confusões, acabou tendo que entrar para o exército, ou isso ou seria preso, mas não melhorou, ao contrário piorou, fez barbaridades por lá, até que alguém lhe deu um tiro na cabeça.

Espero que sejas mais pés no chão do que ele.

O George me acompanha desde jovem, podes confiar nele.

No dia seguinte, foram ao advogado, agora ele teria que ir durante um bom tempo, para aprender a manejar tudo, disse que tinha mudado de ideia, que entendia o que o avô lhe tinha perguntado sobre estudar administração de empresas, tentarei conjugar.

Lhe chamaram de Oxford, ele comentou da morte do avô, que iria assim que pudesse, mas antes tinha que colocar algumas coisas em ordem.

Foi a casa de sua mãe, buscar roupas, não tinha muitas, mas bastavam, disse que ficaria um tempo na mansão.

Posso ir te visitar perguntou ela?

Sim claro, talvez no momento eu não possa te dar atenção, terei que pensar muito no que fazer, comunicou que tinha mudado de opinião, iria estudar história, mas também administração de empresas.

Iria a entrevista de Oxford, pensaria em tudo, já lhe comunicaria.

George o levou a Oxford, chegar no velho carro do avô, as pessoas ficaram olhando, mas o jovem que desceu, vinha vestido normal, nada demais, como os outros.

Foi entrevistado por uma mesa de professores.

Primeiro se desculpou por não vir antes, a morte de meu avô me pegou de calças curtas, as pessoas sorriram, eu o conhecia a pouco tempo, vivi esses anos anteriores na Síria aonde meu pai era médico.

Penso em estudar administração de empresas, para levar as coisas da família, afinal tenho famílias que dependem de mim, ao mesmo tempo estudar história para seguir um sonho meu, como do meu avô.

Os professores, ficaram impressionados com a maturidade dele.

Quando concordaram com sua admissão, perguntou se podia concentrar suas aulas, até quatro dias da semana, para poder depois estar administrando suas coisas.

Tenho que tentar conjugar tudo.

George lhe ensinou a conduzir, foi fazer a prova, passou facilmente, mas ao invés de comprar um carro do ano, como fariam alguns estudantes, comprou um de segunda mão, que estava a venda no posto de gasolina da vila, alguém que precisava de dinheiro.

George examinou o motor com o dono da oficina que ficava ali, ele os convidou para tomar algo no pub em frente, mas ficaram surpreso, dele só tomar um refrigerante.

Mais tarde, adorou o quarto como tinha ficado, tiraram todo os papeis de parede, só deixou em cima de uma mesa, uma foto do avô com seu tio, nada mais, na mesa de cabeceira, colocou uma foto dele com seu pai, que era a única que tinha.

Antes de começarem as aulas, foi como George a cada terra arrendada, conheceu as casas, conversou com as mulheres, riu com as crianças, perguntando se iam a escola.

Foi quando soube que sua tia tinha mandado a velha professora embora, porque tinha ousado critica-la.

Foi olhar a escola como advogado, mandou limpar tudo, arrumar o telhado, colocar calafetação, que tinha sido o motivo da briga entre as duas, arrumou na cidade um velho ônibus, esse iria recolher de manhã as crianças, avisou aos pais, não queria crianças trabalhando no campo.

As queria estudando, a velha professora, voltou, adorou as mudanças, vou preparar uma sobrinha minha para ficar no meu lugar, pois estou ficando velha.

Ele sempre que podia passava por lá deixava dinheiro para comprarem material.

O advogado veio falar com ele, que sua tia reclamava que o dinheiro que ganhava era pouco, disse que vai entrar com um processo.

Diga que não se esqueça que não era filha do velho, se todo mundo sabe, a coisa fica feia para ela e o marido.

Um dia apareceu com uma proposta dela, para comprar a casa de Londres, ele disse que lhe faltava tempo, queria antes olhar a biblioteca do avô.

A casa em si não era grande ele tinha feito uma reforma, agrupado dois salões para fazer a biblioteca, mas a frente virei morar aqui, não quero vender.

Tinha contratado um grupo de homens de construção, que aos poucos iam recuperando a mansão, bem como as casas da vila, modernizando as mesmas.

Em Oxford, ele era o aluno diferente, chegava com seu carro de segunda mão, estacionava fora do recinto, ia as aulas que tinha, ficava num quarto alugado, com banheiro, nada de farras em pubs, depois dos dias de aula, ia para a mansão, foi aprendendo a administrar tudo.

Atendia tudo que pedia a professora, a alguns alunos, ele inclusive comprava sapatos.

Pouco via sua mãe, mas sabia que não estava contente com seu casamento, ser amiga do Jerry era uma coisa, estar casada com ele outra.

Quando veio falar com ele, lhe soltou, a senhora aceitou o compromisso sem me consultar, agora resolva seu problema, mas pense bem, consulte um advogado, ele pode pedir parte do que lhe toca do dinheiro que a senhora recebe.

Não tocou mais no assunto, mas meses depois apareceu em Oxford, ele estava a caminho de uma aula para ele importante, disse que o esperasse.

Assistiu a aula imperturbável, quando saiu, ela lhe perguntou se podia ficar na mansão.

Poder a senhora pode, mas vai ficar fazendo o que?

Bom posso administra a casa, ajudar em alguma coisa.

Administrar a casa é coisa do George e da senhora Marie, que é a cozinheira, eles decidem tudo, sobre minha ordens, não preciso de ninguém mais, já tive que consertar as merdas de tua irmã, por isso não, mas se for viver lá terás que trabalhar, talvez dando aulas para os mais adiantados da vila.

Ela não gostou da ideia, dava aulas numa boa escola, não voltou mais a falar no assunto.

Ainda lhe perguntou sobre a casa de Londres?

Quando termine a universidade vou viver lá, quero usar a biblioteca que meu avô preparou para mim.

Ela ainda soltou que tinha visto seus companheiros de Oxford, que em comparação a eles, ele se vestia mal.

Não tive tempo ainda de ir na loja de segunda mão aonde compro em Londres, irei dia desses.

Ela ficou de boca aberta, se via que gastava seu dinheiro se vestindo bem.

Ele na verdade era prático, agora tinha o hábito de no sábado sair para andar a cavalo com o George, iam até a vila aonde os do campo traziam coisas para vender, compravam a lista que a senhora da cozinha dizia.

No domingo de manhã, se levantava, quando sabia que o pessoal estava na missa, ia até lá cumprimentava o padre, depois ia com as pessoas até o pub, sempre pagava uma ronda, mas não bebia.

Escutava sempre os problemas de todos, procurava ajudar.

Administrava o dinheiro que era para a vila, para melhorar a mesma.

De uma certa maneira, por ser como era, o pessoal o respeitava, nunca aparecia como uma roupa de senhorito, como ele dizia dos seus companheiros de Oxford.

Tinha aprendido a dividir seu tempo, alguns quando sabiam que ele no fundo tinha dinheiro o convidavam para tomar uma pinta no pub, se desculpava dizendo que não bebia, que era mulçumano.

As vezes quando tinha dúvida, ia se sentar na frente do Panteão da família, mentalmente conversava com o avô.

Se o assunto era ajudar alguém ia conversar com o padre da igreja, ele conhecia todo mundo, inclusive dizia, com esse cuidado, está querendo se aproveitar da tua generosidade.

Escutava mais as mulheres, que os homens, pois elas na verdade refletiam os problemas que tinham em casa, isso dizia sempre seu pai, os homens são pomposos, sempre contam mentiras, as mulheres sabem que os filhos precisam delas.

Tempos depois foi avisado pelo marido da tia, que a mesma tinha morrido, de um ataque ao coração, ao parecer sua mãe escapou do hospital, tinha aparecido em sua casa.

Ela parecia estar vendo um fantasma, isso a impressionou, nessa noite morreu do coração.

O homem disse que já não necessitavam mais dar o dinheiro que davam a ela.

Ele falou com a professora, comprou computadores de segunda mão, contratou um rapaz dali para fazer um curso, ele depois ensinava aos meninos.

O que acabavam a escola, iam para a cidade estudar, ele arrumou um lugar para eles ficarem, se algum voltasse com diploma ele ajudava a ir em frente.

Por isso com o tempo, se abriu mais comercio na vila, já não tinham que ir à cidade comprar.

George estava velho, como dizia, contratou um rapaz da vila, para aprender com ele a administrar tudo, a mesma coisa foi a senhora da cozinha.

Levou o George para viver com ele em Londres, mas claro tinha alguém para cuidar da casa.

George dizia sempre, teu avô iria estar orgulhoso de ti.

Quando ele morreu muitos anos depois, o enterrou no panteão da família.

Tinha contato com sua mãe, tinha brigado com ela, pois quando seu irmã morreu, pediu a parte dela, ele disse que não, que era para a vila, não gostou muito.

Eres como teu pai, acha que ajudando essa gente, um dia te serão agradecidos?

Não espero isso, ele sempre dizia que não havia que esperar agradecimento que se devia fazer porque queríamos.

Quando Jerry morreu, ela ficou com a casa para ela, descobriu que metade dos livros que apareciam nas paredes da biblioteca, eram para impressionar, eram falsos.

O rapaz que ajudava a administrar tudo, virou seu melhor amigo, como tinha sido o George de seu avô, lhe perguntava se não tinha aventuras na época de Oxford.

Não sobrava tempo, é difícil confiar nas pessoas, quando elas te olha como dizendo eres um puto bastardo sírio.

Tinha suas aventuras, mas nunca se apaixonou por ninguém, não tinha encontrada sua meia laranja como se dizia.

Acabou tendo um relacionamento com o Albert o administrador da mansão, mas a coisa foi surgindo devagar.

Mas tampouco escondeu nada, se alguém falava, lhe importava uma merda.

Muitos garotos iam para a outra cidade estudar, alguns seguiram em frente com o dinheiro das bolsas de estudos, que ele ia aumentando cada vez mais com os lucros.

Alguns pais não gostava, pois tinha que contratar gente para trabalhar, pois alguns iam, mas não voltavam, ele achava normal, nunca cobrou de ninguém isso que voltasse para a vida anterior, até achava que era um dever deles seguir em frente.

Alguns voltavam depois já casados, com filhos, para cuidar das terras que os pais tinham cuidado.

Sempre recebia a todos nos dias que estava na mansão.

Acabou escrevendo um livro, sobre o antepassado que tinha estado nas cruzadas, usava o anel que o avô lhe tinha dado, que tinha pertencido a esse antepassado.

As vezes sonhava com o filme que tinha visto com ele, depois ficava rindo da emoção que o velho tinha sentido.

Na verdade, acabou descobrindo ali na biblioteca da mansão livros mais interessantes do que o avô tinha separado, atras de uns deles, encontrou pergaminhos, que passou a estudar.

Escreveu outro livro sobre isso.

Quando sua mãe ficou velha, a levou para viver na casa de Londres, contratou uma senhora para cuidar dela, mas ia pouco lá, hoje era uma perfeita estranha para ele, o mesmo ela dizia dele.

Ele quase ria, pois ela nunca tinha prestado atenção nele.

Um dia lhe soltou na sua cara, que tinha se casado com seu pai, pois sem querer tinha ficado gravida, senão jamais teria me casado com ele, que tinha odiado cada dia que tinha vivido lá.

Ele com os anos, voltou a rezar, tinha um tapete na biblioteca da mansão, aonde se inclinava para fazer as orações em direção a Meca.

Nessa hora, Albert não permitia que ninguém lhe perturbasse.

Se olhava no espelho, pensava será que meu tio agora seria assim.

Mas sempre adorava olhar a foto de seu avô, a única que tinha, que os dois tinham feito em Londres, um dia que tinham estado juntos conversando, a tinha encontrada numa gaveta da mesa da biblioteca dentro de um envelope, agora estava num porta foto em cima da mesma.

Alguns arrendatários, quando ficavam velhos iam embora, outros ficavam ali, ele arrumava gente nova para o lugar deles.

Inclusive tinha duas famílias diferentes, um Sírio que ele tinha reconhecido num mercado de Londres, além de um Turco.

Antes reuniu na igreja com todos, falou dessas famílias, as granjas estavam vazias, queria saber se aprovavam se eles vinham viver lá, contou que os sírios tinham perdido tudo na guerra de lá, os turcos sempre tinha trabalhado na lavoura.

Os trouxe outra vez, para conversarem com os da vila, vieram com as famílias, as crianças.

Logo foram se adaptando a vida ali.

O padre já velho ajudou, trouxe depois um diácono jovem para ajudar, o mesmo era descendente de árabes, ficava mais fácil.

As vezes olhava a foto dos dois em cima da mesa, seu avô parecia dizer, não me enganei contigo.

Ele mantinha seu relacionamento com Albert, sempre discreto, só quando os dois estavam no quarto que compartiam, era que se tratavam pelos nomes.

Adorava ficar deitado na cama, com a cabeça do Albert, no seu peito, mexendo no seus cabelos crespos, loiros, procurei tanto, estavas ao meu lado.

Se lembrou dele, quando veio ao enterro do avô, aquele garoto desengonçado, o olhando de longe, Albert dizia que nesse dia tinha se apaixonado por ele.

Todos temiam que ficasse tudo para sua tia, ninguém gostava dela.

Um dia lhe avisaram que a mãe dela tinha morrido no hospital, tinha mais de 105 anos, a trouxeram enterraram no panteão familiar.

Sua mãe veio, a achou envelhecida, ela nunca tinha ido visitar sua mãe, tampouco falava no assunto.

Olhou como andava tudo, o velho não se enganou contigo, se meu irmão tivesse herdado tudo isso, teria gastado tudo em farra.

Ele tomava isso como um elogio.

Não sabia quantos anos ia viver, mas ia preparando tudo para o futuro.

Tinha conseguido finalmente trazer um dos garotos que tinha indo estudar medicina, para cuidar de uma clínica na vila, voltava casado com dois filhos, a mulher era enfermeira, mandou construir um ambulatório para ele.

Sabia que tinha que investir em sua gente, seu pai falava sempre nisso, os proprietários exploram mas nunca ajudam na verdade os que lhe fazem ficar ricos.

 

 

 

 

 

 

 

 

  

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