BARAFUNDA

                                               

Essa palavra tinha como sinônimos, confusão, desordem, por aí vai.

Um dia minha avô uma mãe de santo com uma história muito peculiar, estava jogando os búzios para tirar uma dúvida, de repente apareceu no jogo, alguma coisa que ia acontecer com a família, sua Yao, Regina, um travesti de muito cuidado, lindo de morrer, correu assustado, pois era raro Mãe Dirce de Oxalá, soltar uma gargalhada.

Essa não conseguia parar de rir, ainda mais da cara assustada da Regina, conhecida como Astolfo Silva Magalhães.

Chamou minha mãe correndo, essa veio, sem entender nada, só lhe disse, se não queres causar muita confusão no teu destino, fica em casa hoje, nada de ir ao samba com teu pai.

Meu avô, José Nascimento da Silva, mais conhecido como o Delegado Nascimento, de uma delegacia tranquila em Padre Miguel, subúrbio do Rio de Janeiro.

Isso para a filha era como falar uma blasfêmia, como o pai, adorava o samba, era uma sexta-feira, dia que ele tinha livre para ir tocar com a bateria de sua escola de Samba, Mocidade Independente de Padre Miguel.

Ao mesmo tempo era Ogan no terreiro de sua mulher, ele já estava lá quando ela apareceu.

Imagina a história, minha avô estudava direito, seu pai era advogado, sonhava com um filho para ficar com seu escritório ali na Avenida Rio Branco, no centro da cidade.

Mas nada, tinha uma filha, encheu o saco dela, para fazer direito, assim tinha um herdeiro no negócio.

A coisa começou, que minha avô desmaiava na universidade, minha bisavô a levou a todos os médicos possíveis, diziam que não tinha nada, inclusive a psicólogos levou.

Um dia uma vizinha dela, ali em Ipanema, disse que ia ao seu pai de Santo, é longe, mas o sujeito é bom demais.

Venha, pode ser que ele possa te ajudar com tua filha.

Lá foram as três, para Padre Miguel, segundo minha avó o mais longe que tinha ido, era o centro da cidade.

Fazia um calor de rachar, mas ela suava frio.

Mal chegaram ao portão do terreiro, quando esse se abriu, ela incorporou, veio lá de dentro o pai de Santo, Felipe do Obaluaye, foi logo saudando o espirito, era um velho Oxalá, motivo pelo qual ela desmaiava.

Jogou para ela, depois mandar sua Yao, lhe preparar um banho de ervas.

É minha filha, vens com tudo, teu caminho não é este que estas seguindo, para agradar teu pai, nada disso tem a ver contigo, sonhavas mesmo era ser enfermeira.

Ela se matou de rir, nunca tinha comentado com ninguém isso, ele foi falando tudo para ela.

A mandou vir no sábado, sei que não gostas de sair com os amigos para beber nesse dia, está preparando sem saber teu caminho.

Ela convenceu a mãe, lá foram as três de novo no sábado, a Yao, lhe arrumou uma roupa branca, ela estava na roda, quando olhou em direção aos atabaques viu José Nascimento da Silva, um mulato, lindo de olhos verdes, que não tirava os olhos dela, estava deslumbrado, nessa época ele era um simples policial, pois não tinha conseguido ir à universidade, seu pai também era policial, sua mãe uma das filhas de santo de Pai Felipe.

Foi aí que nasceu o amor entre os dois.

Na segunda-feira, ela encarou o pai, antes dele ir trabalhar, disse que ia abandonar a faculdade de direito, que esse sonho não era dela, que iria fazer enfermagem.

O velho Jose Arcanjo, um baiano arretado, ficou uma fera, mas ela agora tinha a mãe de seu lado, pior foi contar que estava indo a um terreiro de candomblé.  Mais furioso, ele soltou que tinha fugido da Bahia, que sua mãe, era filha de santo de um terreiro.

Passou dias furioso, sem falar, nem com a mulher, nem com a filha, que fazia tudo pelas costas dele, eu o conheci, era muito dramático em suas coisas.

Minha avô começou a conversar com o José Nascimento, foram se conhecendo, um belo dia, lhe disse por que não fazia o curso de direito de noite, se informou para ele.

O pior foi quando o apresentou ao pai, esse que se vangloriava de ser branco, como todo baiano, quando viu aquele mulato mais alto que ele, 1,90 metro de altura, mas de olhos verdes, não gostou, mas quando disse que por insistência dela, estava estudando direito, engoliu em seco, passou a trata-lo bem.

Mas claro teve uma conversa com ele, minha filha é de família, nada de avançar, se queres ir a sério tudo bem.

José Nascimento, disse que cortou um cortado com o Dr. Arcanjo, quando terminou o curso de direito, tinha estagiado no escritório do velho, disse que nem pensar, o mesmo defendia bandidos, mas o curso lhe valeu para subir dentro da polícia, por isso acabaria como advogado em Padre Miguel.

Minha avó ao mesmo tempo que se desenvolvia no terreiro, já conseguia entender o Yorubá, bem como jogar búzios para as pessoas, era a mão direita de Pai Felipe, esse dizia que no dia que ela tinha entrado, sabia que estava ali, quem o vinha substituir.

Ela tinha de frente Oxalá, com Nanã Baruque, um coisa muito forte.

Os dois se casaram no civil, minha avó, já estava gravida da minha mãe, dizia que se casar de branco pela igreja era uma blasfêmia, fizeram sim uma cerimônia no terreiro.

Foi a única vez que o Doutor Arcanjo, colocou os pés lá.

Ela conseguiu logo um lugar no Hospital Estadual Albert Schweitzer, ele foram morar, numa casa, que a parte da frente dava para uma rua, mas a parte detrás, estava dentro dos terrenos do terreiro de Pai Felipe, ela sempre usaria a varanda detrás, para atender as pessoas, jogar búzios.

Tiveram minha mãe, que na verdade era a segunda, a primeira filha morreu mal nasceu, tinha uma deformação qualquer, mas pai Felipe lhe disse, isso é um Karma que estas pagando, logo terás uma filha linda.

De fato, minha mãe, era muito bonita, uma mistura dos dois, branca, cabelos castanhos claros, quando diziam que era loira ficava uma fera, olhos verdes como o pai, bastava dois dias de praia para estar morena.

Estava de férias, tinha acabado de fazer o vestibular, embora não tivesse muito definida do que queria fazer, claro de um lado tinha a pressão do avô Arcanjo, que dizia que tinha que estudar direito, de outro sua mãe que dizia que tinha que escolher ela, sabia o que, pois tinha jogado, mas nunca interferia.

Ela tinha sido criada ali, em Padre Miguel, passava as férias em Ipanema com os avôs, o que lhe dava uma bela mistura de vida.

Adorava um samba, como o pai, imaginem uma mulher de 1,80 metro de altura, umas pernas quilométricas, como dizia o pessoal, saia todos os anos como passistas, não gostava da ideia de ser rainha da bateria, queria mesmo era sambar no meio de seus amigos.

Quando a mãe disse que devia pensar se devia ou não ir, apareceu aqui no jogo, se vais, isso tudo vai virar uma barafunda.

Regina, se matava de rir, pois sabia que minha mãe, ficava esperando a sexta-feira, dia de ensaio na quadra, para se esbaldar no samba.

Regina ou Astolfo, não ia nunca, embora seu homem fosse, além de ser policial, era ajudante do delegado Nascimento, tocava surdo na bateria.

A história dos dois, para mim, eles foram meus tios queridos.

Um dia meu avô Delegado Nascimento, apareceu no hospital aonde minha mãe trabalhava, trazendo um rapaz, acho que pensaram que estava morto, vieram desovar aqui, num terreno baldio, mas uns garotos, viram, me avisaram.

Ficou dias em estado de coma, minha avó cuidou dele com muita atenção, se via que era um rapaz de fino trato, pois tinha as mãos lisas, foi para casa, se sentou na varanda cismando, abriu sua mesa de jogo, pensou no rapaz e jogou, viu ali toda a história do mesmo.

Era de uma família rica, lá pros lados de São Gonçalo, do outro lado da Bahia de Guanabara, depois de Niterói, achou interessante, vieram de longe com ele.

Seu pai, disse no jogo, que vinha para ficar com ela, devia ter sido tua filha, mas nasceu como homem em outro lugar.

Quando a cara que estava inchada de porradas que tinha levado dos irmãos, foram murchando, viu que era um rapaz lindo, tinha claro rosto de mulher, fino, mas era homem, tinha nascido num corpo errado.

Se notava que estava tomando hormonas para ter peito.

Minha avó cuidou dele, depois o levou para sua casa, a amizade dele com minha mãe, era impressionante, eram como duas irmãs.

O mais interessante, foi quando Gustavo Magalhães, o ajudante de meu avô o viu, disse a ele, que homem lindo é esse.

O delegado Nascimento, soltou logo, não é para teu bico.

Mas era tarde, aquele negro imenso, segundo meu avô, se estivesse de olhos fechados no escuro, ninguém o via, o mesmo já estava apaixonado, ele que vivia atrás de todos os rabos de saia que via pela frente.

Levou um bom tempo para conseguir um sorriso do Regina, mas quando o fez, ele se rendeu completamente, disse ao meu avô, me importa uma merda, que tenha um piru no meio das pernas, eu o quero assim mesmo.

Acabaram os dois vivendo na casa que tinha sido de Pai Felipe, quando esse morreu, deixou tudo para minha mãe, pois ela era como sua filha.

Os dois só reclamavam de uma coisa, não podiam ter filhos, até que nascemos.

Voltando a história, nesse dia, chegou ao porto um navio mercante, vinha da Rússia, no Porto de Odessa, Ucrania, tinha embarcado meu pai, Andrei Popov, tinha saído para conhecer o mundo, pois não sabia o que queria estudar, seu pai era o coronel Popov, tinha sido do exercito russo, quando tudo era a mesma coisa.

Tinha conhecido a mãe dele, na Angola, aonde era adido militar, foi a uma formatura numa escola, viu aquela mulata linda, se apaixonou, era casado, mas nem por isso deixou a mesma de lado, quando ficou gravida, ele que não tinha filhos de seu matrimonio, a levou com ele para Moscou.   Sua mulher aceitou, nunca tinha podido dar um filho a ele, bem como aceitou a outra mulher.

Anos depois, quando Ucrania se separou da Rússia, ele foi ser diretor do Porto de Odessa, ao mesmo tempo recomeçava sua vida, sua mulher que era Moscovita, disse que nem pensar ir para lá, o pior foi que a mãe dele tampouco foi, as duas tinham um relacionamento nas costas dele.

Arrastou o filho com ele, acabou de estudar lá.

Falou com o pai, esse lhe arrumou para ir nesse navio, que faria todo o mediterrâneo, depois desceria pelas costa do Marrocos, Dakar, de lá atravessavam para o Rio de Janeiro, iria para Buenos Aires, voltaria pela Africa do Sul, subindo toda a costa outra vez.

Ele foi se abrindo, fez camaradagem como pessoal de bordo, que era uma mistura de raças impressionante, no mesmo tinha um negro brasileiro, que lhe disse, quando chegares ao Rio, vais ficar como louco.

Realmente, quando o navio entrou na Bahia de Guanabara, ele ficou com os olhos escancarados, tinha aprendido com o companheiro, várias palavras em português, principalmente palavrões, sabia pronunciar “filho da puta”, corretamente.

Quando desceram do barco, o amigo disse que ia a Padre Miguel visitar sua família, depois iria ao samba para matar as saudades.

Arrastou o Andrei com ele, foi aquela festa, sua mãe tinha preparado um belo feijão preto, com algumas carnes, arroz, farofa, uma bela salada, para o filho matar a saudade, quem sabe ficar.

Mais tarde, como viviam ali perto da quadra da Padre Miguel, meu pai, achou estranho o batuque que escutava, os dois tomaram seu belo banho, com dizia o amigo, tinham que ir cheirosos, para encantar as mulatas.

Usou uma roupa do amigo, eram iguais de grandes, Andrei Popov, tinha quase dois metros de altura, o amigo não ficava atrás.

Lá foram eles, segundo ele, acreditava que sua parte de Angola, estivesse em ação, embora ele tivesse saído ao pai, era claro, olhos azuis, cabelos loiros crespos, mal sabia que no Brasil, seria chamado de mulato sarará, pois se fosse a praia ficava moreno.

O amigo se matava de rir, pois mal chegou começou a se mover, como um dos muitos negros e mulatos que andavam por ali.

Foi quando viu minha mãe, Adalgisa Arcanjo Silva, dançando como uma louca com suas pernas monumentais, em cima de uma plataforma que a fazia mais alta ainda.

Ficou como um louco, quando se chegou perto, ela o olhou de cima a baixo, pensou de aonde saiu esse branquinho que sabe sambar.

Pronto a barafunda estava para começar.

Ele conseguia se expressar em inglês, seu amigo o apresentou a minha mãe, explicou que ele era russo.

Ela argumentou que ele sabia sambar, disse isso rindo, com sua fileira de dentes brancos, perfeitos.

Ele já estava com os quatro pneus arriados, como diria a Regina.

Ele não tinha aonde dormir, ela o levou para sua casa, quando apresentou ao seu pai, entendeu logo que ele era da Polícia.

Quando o amigo, veio busca-lo para embarcar, ele disse que ficava, tinha ido buscar suas coisas a bordo, inclusive os documentos.

Avisaria por carta ao seu pai, que tinha ficado no Rio de Janeiro.

O delegado Nascimento, conseguiu documentos para ele, além de um emprego, passou a trabalhar na Refinaria Duque de Caxias, na subida para Petrópolis, mas antes se meteu num curso de português, como sua mãe falava em casa com ele, foi fácil.

O melhor foi que minha avó, jogou para ele, soltou que mistura, era filho de Xangô, Iansã, com Ogum de lado, bem como um Exu forte.

Na primeira gira que participou, incorporou o mesmo, que foi dizendo, esse menino, finalmente encontrou seu lugar.

Ela já sabia que ele era filho de uma Angolana.

Era mais um na casa, mas não avançava sinal, pois minha mãe, era ainda menor de idade, mas era capaz de se jogar embaixo de um tanque militar por ela.

Saiam, iam ao cinema, mas ficou mesmo deslumbrado, quando o Delegado Nascimento o levou para seu lugar preferido, para Barra de Guaratiba, aonde viviam seus pais, no meio do mato, com uma praia pequena na frente.

Ali ele se esbaldou, falou pela primeira vez em seu pai o General Popov, esse tinha recebido a carta, mas imaginou, se agarrou a algum rabo de saia, é como eu.

Ele tinha ficado intrigado, sim com uma coisa, quando conheceu Regina, viu que era um homem, mas vestido de mulher, ali com sua roupa de candomblé, minha mãe lhe disse que cuidado, pois era mulher do Gustavo, esse era tão grande, que ninguém, nem ousava fazer uma brincadeira, ainda mais que usava sempre uma arma na cintura.

O mais interessante, que Regina que tinha estudos, era quem conseguia o entender no seu inglês, macarrônico, além de ensinar português.

Um dia os dois começaram a namorar a sério, ele já tinha um emprego estável, logo começou a estudar, incentivado pela minha avô, engenharia mecânica, pediu a mão da minha mãe.

Isso não é comigo disse minha avó, fale com o Delegado Nascimento, esse jogou para minha mãe, começara por causa dela, a viver juntos, para saber se dava certo.

Um ano depois quando fez 20 anos, estava gravida, ele escreveu ao seu pai que ia ser avô.

O velho só ficou contente que ele tinha emprego, bem como fazia universidade, pois tinha mandado seus documentos.

O mais interessante, era que apesar de minha mãe ser alta, a barriga desde o começo era grande, foram fazer exames, claro não deu outra, estava gravida de gêmeos.

Andrei aviso ao pai, que eram dois meninos.

Esse disse que ia providenciar sua aposentadoria, pois estava farto de viver sozinho.

Mas o melhor foi, a única que sabia desde o principio era minha avó, pois tinha visto no jogo, o que seriamos diferentes.

Minha mãe durante a gravidez toda, ia ao samba com meu pai, ele a vigiava, bem como meu avô e o Magalhães, como chamavam o Gustavo.

Já tinha passado das contas, estava com uma barriga imensa, rompeu águas ali na quadra, minha avó, estava essa noite cobrindo uma companheira, a levaram para o hospital.

Chamou logo um médico, pois ela não tinha dilatação nenhuma, tiveram que fazer uma cesária.

O médico se matou de rir, pois um era eu, branco, quase transparente, o outro era negro.

Esse não sabia explicar, mas minha avó, lhe disse que a mãe de meu pai era de Angola, aí ele entendeu tudo, nesse Brasil tudo é possível.

A diferença, imaginavam que eu era albino, pois tinha os cabelos tão loiros, quase brancos, mas os olhos negros, já meu irmão, que era negro, tinha os olhos da minha mãe, verdes.

Meu pai, ria, pois tinha assistido o parto, ficou impressionado, como era possível isso, minha avó lhe explicou.

Agora de cara os dois erámos iguais, mesmo tamanho e peso.

O velho Arcanjo, ao mesmo tempo ficou surpreso, tinha conhecido o Andrei, mas quando viu os dois abriu a boca.

Os dois passamos a nos chamar Gabriel, eu, meu irmão se chama Ezequiel, o mais interessante, foi a formação do nome.

Gabriel Arcanjo Silva Popov, era um nome para ninguém botar defeito, Ezequiel era igual.

Tínhamos na verdade duas mães, porque Regina e Magalhães, nos adotaram, pois representávamos os dois juntos.

Regina branca, Magalhães, negro.

Fizeram uma foto da família inteira junto, no dia que nos mergulharam no mar, em forma de batizado, lá em Barra de Guaratiba, na casa dos outros bisavôs, até o Doutor Arcanjo foi.

A foto familiar, Andrei mandou para o pai.

Nem um mês, depois ele disse o dia que chegava, o delegado Nascimento, foi com o Magalhães, o buscar no aeroporto.

Tinham uma placa, Coronel Popov, todo mundo olhava.

Ele falava alguma coisa em português, tinha aprendido na Angola.

Mas quando chegou na casa dos meus avôs, ficou como um louco, temos uma foto na parede, dele muito branco, com a cabeça raspada, com os dois, cada um num braço.

Ele dizia que duas coisas o surpreenderam nesse dia, num determinado momento, começamos a chorar, mas bastou a Regina me pegar, bem como o Magalhães, paramos no ato.

Minha avô diria ao meu ouvido anos depois, que era para termos sido filhos deles.

Mais curioso, foi ele descobrir que Regina era um homem, ele nunca operou o piru, mas se vestia de mulher, se sentia assim.

Num domingo seguinte que fomos para Barra de Guaratiba, dizem que ele abriu os braços, soltou, estou em casa.

Nunca mais voltou, foi como o filho, veio para ficar, de novo o Delegado Nascimento, arrumou os papeis para ele, bem como um emprego, passou a administrar as finanças da escola de Samba, adorava estar no barracão, na preparação dos carros, do carnaval, não sabia sambar, mas ficava como um louco atrás das mulatas, das negras.

Mas quando falavam em casamento, ele pulava fora, tive duas mulheres, que me botaram para escanteio.

Quando contou isso ao Delegado Nascimento, riram muito, melhor tomar cuidado.

Anos depois conheceu uma filha de santo de minha avô, foi viver com ela, que era viúva tinha dois filhos, os criou como dele, a família crescia dizia minha avó.

O mais interessante, era como crescíamos os dois, a maior parte do tempo no terreiro, os dois corríamos sempre a colocar águas nas quartinhas, mas meu irmão Ezequiel, adorava entrar na casa dos Exus, o via conversando, com alguém, um dia ele me disse que ali tinha um homem negro que cuidava dos dois.

Me mostrou, demorei para ver, mas o homem passou a mão na minha cabeça, passei a ir conversar com ele.

Minha avó descobriu a história, porque preocupada Regina tinha visto os dois na casa de Exu, entram lá, para colocar água nas quartinhas, ficam conversando.

Minha avó foi até lá, riu muito, pois falávamos em Yoruba com o homem negro.

Esse disse que ia explicar para ela no jogo de búzios, ele era Exu dos dois ao mesmo tempo, nos cuidaria sempre.

Meu irmão estava destinado a ser pai de Santo, de Obaluaye, como pai Felipe, mas eu seria médico de almas.

Minha avó diria que eu sempre seria um filho de santo, preparado, pois adorava vê-la jogar, as vezes acrescentava algo em Yoruba que ela não tinha visto.

Se chegava alguém, eu olhava de cima a baixo a pessoa, dizia para ela, esse vem pedir para ganhar na loteria, quando devia vir pedir um trabalho.

Não dava outra, depois me perguntava, como eu sabia, lhe respondia que tinha olhado a cabeça do mesmo, conseguia ver a aura do sujeito.

Já Ezequiel, era mais pé no chão, o dele, era aprender a tocar os atabaques, que o fascinavam, ir ao samba, com meu avô, adorava ficar ali sentado no chão no meio da bateria toda, tocando a todo volume, se matava de rir, quando um errava.

Mas no sábado, os dois estávamos ali, firmes no terreiro.

Eu me sentava ao pé da minha avó, ficava prestando a atenção, as vezes me levantava, quando algum filho fingia estar incorporando, ia até o mesmo, o negro ao meu lado, botava a mão, o dito cujo rodava como um louco.

Já meu irmão, se sentava aos pés do Magalhães, dos outros Ogans, sabia todos os pontos, ainda era capaz de cantar os mesmos em Yoruba.

Um dia me levantei, corri para o quarto de minha avó, lhe disse baixinho no ouvido, o avô Arcanjo, voou.

Ela entendeu, ligou para a senhora que cuidava dele, minha bisavó já tinha morrido a tempo, mas ele se negava a sair de seu apartamento.

Quem ia visita-lo sempre era o Delegado Nascimento, dizia que o velho tirava da prisão, os que ele tinha metido lá, era um negócio familiar, falava isso as gargalhadas.

O velho deixou seu apartamento, bem como um bom dinheiro em fideicomisso, para que nos dois fossemos a universidade, já nem pensava no que íamos ser, dizia advogados não, ele tinha vendido sua parte do negócio quando se aposentou, esse dinheiro era o que estava no banco.

Vivia falando com minha avó para convencer meus pais, de irem morar em Ipanema.

Minha mãe, era enfermeira como a sua, trabalhava no hospital da Lagoa, o que era longe para ela, ir todos os dias.

Meu pai, agora trabalhava, na central da Petrobras, na cidade.   Acabamos nos mudando, mas chegava na sexta-feira, íamos para Padre Miguel, a tempo de minha mãe ir ao ensaio da escola de Samba.

O mais interessante os dois nos interessamos pela praia, fazer surf, foi quando sentimos a primeira vez, preconceito de cor, como andávamos sempre juntos os dois, um dia escutei falando de mim, o que faz esse garoto andando com esse negrinho.

Eu não entendi, mas meu irmão sim, parou segurou o que tinha falado isso na escola, nos fez olhar bem, somos gêmeos seu idiota.

Uma professora viu, resolveu explicar para a turma sobre isso, a maioria entendeu, mas seguimos sempre tendo problemas.

Quando ficamos maiores, o mais interessante, o que comentava, levava um belo soco na cara, não do meu irmão, mas meu, pois achava um absurdo isso.

Ele ficava chateado, minha avó, um dia entrou com os dois na casa de Exu, pediu para ele nos explicar por quê.

Eu aceitava, mas Ezequiel, não, passou a tirar notas baixas, não queria ir para Ipanema, o jeito foi voltamos a viver lá com nossos outros pais, Regina e Magalhães, a escola dali, havia tanta mistura, que isso era normal, mas Ipanema, nem de brincadeira queríamos ir.

Acabou que meus pais, voltaram para casa também preferiam aguentar o tráfego para irem para casa, do que estar longe de nós.

Minha mãe resolveu o problema, vindo trabalhar aonde minha avó, tinha sido enfermeira chefe, logo ocupava o mesmo posto, impunha ordem, com toda a altura que tinha.

Meu pai é que tinha problemas, até que lhe mandaram cuidar de umas obras aonde tinha começado, respirou aliviado.

Estávamos para decidir nosso destino universitário, eu mais ou menos sabia o que queria, tinha conversado muito com Exu.

Mas estava preocupado com o Ezequiel, vi que na hora do recreio, andava sempre com um rapaz filho do chefe do tráfico dali.

Falei com ele, riu da minha cara de preocupação, nem pareces entender, esse garoto tem problemas, venha, vamos conversar com ele.

Foi o que fizemos, a coisa era feia, sua mãe, quando gravida tinha tomado drogas, ele tinha problemas de concentração para estudar.

O arrastamos para o terreiro, minha avó olhou, não disse um pio, o arrastamos para a casa dos Exus, ele tinha medo, mas conseguimos convence-lo, em sua volta, formou uma parede de Exus que viviam ali, quando tudo acabou, estava melhor.

Ezequiel, tinha ido ele mesmo preparar um banho de ervas para o garoto, depois nos sentamos com ele, foi interessante, sem querer eu tinha sentado na mesa de jogo de minha avó, rimos quando vimos os búzios correndo de um lado para o outro, todas as coisas ali em movimento, comecei a ler o que diziam, tudo era em Yoruba, não vi que minha avó estava atrás, fui falando com ele o que via.

Se ele queria sobreviver, tinha que sair do lado do seu pai, pense bem, ele tem outros filhos, pode se apanhar sem ti.

Nisso no portão apareceu seu pai, estava uma fera, mas fui até lá tranquilamente, sabia que o Exu estava do meu lado, tirei o revolver que tinha na cintura, dei para um capanga dele, o senhor espera aqui, vou conversar com seu chefe.

O arrastei pelas mãos, o mesmo parecia uma criança, segundo minha avô, entre os dois lhe demos um banho de ervas, aí me sentei para conversar com ele.

Fui claro, seu filho se experimenta qualquer coisa de drogas, estará fudido, assim em grossas palavras, sua mãe, tomou enquanto estava gravida, se ele se vicia, nunca mais será o mesmo.

Está é preocupado pelo senhor, que o criou, sabe o que o senhor faz, quer cuidar do senhor, mas se fica perto, morre, temos que encontrar uma solução.

Segundo minha avó, sentada num cadeirão do outro lado, a cara do homem era impressionante, de machão que era, escutar um rapaz da idade de seu filho, falando sério com ele, era interessante.  Ela não se meteu na conversa, a única vez que ele olhou para ela, esperando que falasse algo, lhe soltou, seu negócio é com meu neto, acredite nele, os dois são filhos de Exu.

Falei com o homem muito tempo, ele não queria ficar longe do filho, era o único que lhe fazia um carinho, que lhe aceitava como era, sem pedir nada em troca.

Resultado, ficou morando lá em casa, mas ele aparecia sempre, vinha de noite, com seu capanga de confiança, todos sabiam que ali era a casa do Delegado Nascimento, ninguém se aproximava.

Gesualdo, virou filho de santo do meu irmão Ezequiel, era seu protegido, anos depois seu amante.

Eu fui estudar medicina, ao contrário do meu irmão, que foi estudar psicologia, em seguida me especializei em psiquiatria, no fundo estávamos no mesmo ramo.

Ele se dedicou mais ao terreiro, eu fui indo de hospital em hospital, conseguia separar os enfermos mentais, dos que estavam perturbados espiritualmente, os ia tratando.

Mas sexta-feira, acabava meu trabalho, ia para casa, no sábado era dia de o ajudar.

Nunca me casaria, meu trabalho não permitia, ajudei meu irmão, além de Josualdo a cuidar dos nossos velhos, que sempre tinham sido importantes para nós.

O mais interessante, no fim da vida dos dois, o coronel Popov, delegado Nascimento, foram viver com suas mulheres, na praia que adoravam, no domingo era próprio passar com eles.

Os dois filhos adotivos do Coronel Popov, um se formou em engenharia química, foi trabalhar com meu pai, o outro era enfermeiro, um dia me cruzei com ele num hospital, me pareceu que ia acontecer algo entre a gente, mas só muitos anos depois, quando os velhos não estavam já vivos, foi que nos esbarramos outra vez, no enterro do General.

Ai finalmente aconteceu, era interessante, pois dos filhos da sua mulher, esse era o mais negro, parecia um tição, assim o chamava.

As vezes me parecia estar falando com meu pai Magalhães, pois tinha a mesma postura dele.

Regina foi a última em morrer, com quase 95 anos, tinha sobrevivido a todos, a muitas coisas, ao final ficava sentada na varanda, observando as filhas de santo, quando alguma exagerava alguma coisa, chamava a atenção.  Usava um turbante sempre, do santo do dia, com seus cabelos imensos que o Magalhães adorava.

Dizia as vezes com saudade dele, fui de um só homem minha vida inteira, pensava em me transformar em mulher, mas ele me queria como eu era, desde o primeiro dia, me contava sempre a história do Delegado Nascimento, que eu não era para o bico dele.

Nunca ninguém se atreveu a mexer comigo, fomos o casamento perfeito.

Quando me viu com o Tição, se matou de rir, teu pai Magalhães, ia gostar dele.

Meu irmão sim adotou todas as crianças que abandonavam na porta do terreiro, tinha nascido para ser pai, adorava todas, as colocava para frente, dizia que era sua obrigação.

Fico imaginando sempre, o velho Arcanjo, que em paz descanse, ele tinha sonhado com um punhado de netos, só teve dois, a sua maneira nos quis, minha mãe se surpreendia, pois dizia que ele era preconceituoso, mas entre os dois, sabia que ele adorava o Ezequiel, quando íamos até lá, era com ele que conversava mais.

Devo ter saído a ele, ao contrário, nunca suportei nenhum idiota com preconceito de cor, pois num pais como o nosso, que está tudo misturado, é impossível, mas existe.

As vezes tenho a fantasia, contei isso uma vez para o Ezequiel que se matou de rir, imaginando, colocar todas as raças do Brasil, numa batedora, para ver que sai.

Ele ria dizendo, vai sair muito Exu.

Quando abriram perto do terreiro, creio que foi de proposito, um Reino de Deus, começaram a falar mal do meu irmão, por causa do Gesualdo, seu pai, ainda era o chefe dali, talvez o que mais tinha aguentado, talvez também porque não consumia drogas, mandou seus homens dar um corretivo no sujeito, fomos descobrir depois, que o mesmo era um desses que ia aos terreiros, fingia que incorporava, mas queria era festa.

Quando viu dinheiro que isso dava aos pastores, resolveu explorar, lhe obrigaram a contar tudo aos seus crentes, lhe abaixaram as calças, lhe deram um corretivo na frente de todos.

O idiota ainda foi contar com qual das mulheres dali andava, saiu correndo com as calças na mão, nunca mais apareceu.

Os que tinham saído do terreiro para se juntar com ele, voltavam arrependidos, mas nunca mais conseguiram entrar lá.

Eu conseguia sempre separar o Joio do Trigo, como dizia meu irmão, fazia jus ao meu nome segundo ele, o Arcanjo Gabriel, fazia isso.

Nunca me senti um anjo essa era a verdade, ao contrário, era capaz de encostar as pessoas na parede.

Haja visto, as surras que dei em alguém que tivesse ofendido minha família.

Ezequiel dizia que eu nem lhe dava tempo de se preparar para uma briga, já estava nela.

Ele dizia que se tranquilizava, pois eu sempre olharia pelos meus.

Aquele bando enorme que eram seus filhos, corriam quando me viam para contar o que tinha acontecido durante a semana, eram uma miscelânea de cores e raças, para eles tudo era o mesmo, vê dizia ao Tição, para eles não existe isso de raça.

Meu homem diz que sou louco, mas que gosta assim mesmo de mim.

No hospital é igual, procuro tratar todos os pacientes com respeito, olho bem, examino das duas maneiras que conheço, alguns saíram de lá, graças a mim, outros nem tanto, ficaram para sempre enjaulados como digo.

 

 

 

                                               BARAFUNDA

Essa palavra tinha como sinônimos, confusão, desordem, por aí vai.

Um dia minha avô uma mãe de santo com uma história muito peculiar, estava jogando os búzios para tirar uma dúvida, de repente apareceu no jogo, alguma coisa que ia acontecer com a família, sua Yao, Regina, um travesti de muito cuidado, lindo de morrer, correu assustado, pois era raro Mãe Dirce de Oxalá, soltar uma gargalhada.

Essa não conseguia parar de rir, ainda mais da cara assustada da Regina, conhecida como Astolfo Silva Magalhães.

Chamou minha mãe correndo, essa veio, sem entender nada, só lhe disse, se não queres causar muita confusão no teu destino, fica em casa hoje, nada de ir ao samba com teu pai.

Meu avô, José Nascimento da Silva, mais conhecido como o Delegado Nascimento, de uma delegacia tranquila em Padre Miguel, subúrbio do Rio de Janeiro.

Isso para a filha era como falar uma blasfêmia, como o pai, adorava o samba, era uma sexta-feira, dia que ele tinha livre para ir tocar com a bateria de sua escola de Samba, Mocidade Independente de Padre Miguel.

Ao mesmo tempo era Ogan no terreiro de sua mulher, ele já estava lá quando ela apareceu.

Imagina a história, minha avô estudava direito, seu pai era advogado, sonhava com um filho para ficar com seu escritório ali na Avenida Rio Branco, no centro da cidade.

Mas nada, tinha uma filha, encheu o saco dela, para fazer direito, assim tinha um herdeiro no negócio.

A coisa começou, que minha avô desmaiava na universidade, minha bisavô a levou a todos os médicos possíveis, diziam que não tinha nada, inclusive a psicólogos levou.

Um dia uma vizinha dela, ali em Ipanema, disse que ia ao seu pai de Santo, é longe, mas o sujeito é bom demais.

Venha, pode ser que ele possa te ajudar com tua filha.

Lá foram as três, para Padre Miguel, segundo minha avó o mais longe que tinha ido, era o centro da cidade.

Fazia um calor de rachar, mas ela suava frio.

Mal chegaram ao portão do terreiro, quando esse se abriu, ela incorporou, veio lá de dentro o pai de Santo, Felipe do Obaluaye, foi logo saudando o espirito, era um velho Oxalá, motivo pelo qual ela desmaiava.

Jogou para ela, depois mandar sua Yao, lhe preparar um banho de ervas.

É minha filha, vens com tudo, teu caminho não é este que estas seguindo, para agradar teu pai, nada disso tem a ver contigo, sonhavas mesmo era ser enfermeira.

Ela se matou de rir, nunca tinha comentado com ninguém isso, ele foi falando tudo para ela.

A mandou vir no sábado, sei que não gostas de sair com os amigos para beber nesse dia, está preparando sem saber teu caminho.

Ela convenceu a mãe, lá foram as três de novo no sábado, a Yao, lhe arrumou uma roupa branca, ela estava na roda, quando olhou em direção aos atabaques viu José Nascimento da Silva, um mulato, lindo de olhos verdes, que não tirava os olhos dela, estava deslumbrado, nessa época ele era um simples policial, pois não tinha conseguido ir à universidade, seu pai também era policial, sua mãe uma das filhas de santo de Pai Felipe.

Foi aí que nasceu o amor entre os dois.

Na segunda-feira, ela encarou o pai, antes dele ir trabalhar, disse que ia abandonar a faculdade de direito, que esse sonho não era dela, que iria fazer enfermagem.

O velho Jose Arcanjo, um baiano arretado, ficou uma fera, mas ela agora tinha a mãe de seu lado, pior foi contar que estava indo a um terreiro de candomblé.  Mais furioso, ele soltou que tinha fugido da Bahia, que sua mãe, era filha de santo de um terreiro.

Passou dias furioso, sem falar, nem com a mulher, nem com a filha, que fazia tudo pelas costas dele, eu o conheci, era muito dramático em suas coisas.

Minha avô começou a conversar com o José Nascimento, foram se conhecendo, um belo dia, lhe disse por que não fazia o curso de direito de noite, se informou para ele.

O pior foi quando o apresentou ao pai, esse que se vangloriava de ser branco, como todo baiano, quando viu aquele mulato mais alto que ele, 1,90 metro de altura, mas de olhos verdes, não gostou, mas quando disse que por insistência dela, estava estudando direito, engoliu em seco, passou a trata-lo bem.

Mas claro teve uma conversa com ele, minha filha é de família, nada de avançar, se queres ir a sério tudo bem.

José Nascimento, disse que cortou um cortado com o Dr. Arcanjo, quando terminou o curso de direito, tinha estagiado no escritório do velho, disse que nem pensar, o mesmo defendia bandidos, mas o curso lhe valeu para subir dentro da polícia, por isso acabaria como advogado em Padre Miguel.

Minha avó ao mesmo tempo que se desenvolvia no terreiro, já conseguia entender o Yorubá, bem como jogar búzios para as pessoas, era a mão direita de Pai Felipe, esse dizia que no dia que ela tinha entrado, sabia que estava ali, quem o vinha substituir.

Ela tinha de frente Oxalá, com Nanã Baruque, um coisa muito forte.

Os dois se casaram no civil, minha avó, já estava gravida da minha mãe, dizia que se casar de branco pela igreja era uma blasfêmia, fizeram sim uma cerimônia no terreiro.

Foi a única vez que o Doutor Arcanjo, colocou os pés lá.

Ela conseguiu logo um lugar no Hospital Estadual Albert Schweitzer, ele foram morar, numa casa, que a parte da frente dava para uma rua, mas a parte detrás, estava dentro dos terrenos do terreiro de Pai Felipe, ela sempre usaria a varanda detrás, para atender as pessoas, jogar búzios.

Tiveram minha mãe, que na verdade era a segunda, a primeira filha morreu mal nasceu, tinha uma deformação qualquer, mas pai Felipe lhe disse, isso é um Karma que estas pagando, logo terás uma filha linda.

De fato, minha mãe, era muito bonita, uma mistura dos dois, branca, cabelos castanhos claros, quando diziam que era loira ficava uma fera, olhos verdes como o pai, bastava dois dias de praia para estar morena.

Estava de férias, tinha acabado de fazer o vestibular, embora não tivesse muito definida do que queria fazer, claro de um lado tinha a pressão do avô Arcanjo, que dizia que tinha que estudar direito, de outro sua mãe que dizia que tinha que escolher ela, sabia o que, pois tinha jogado, mas nunca interferia.

Ela tinha sido criada ali, em Padre Miguel, passava as férias em Ipanema com os avôs, o que lhe dava uma bela mistura de vida.

Adorava um samba, como o pai, imaginem uma mulher de 1,80 metro de altura, umas pernas quilométricas, como dizia o pessoal, saia todos os anos como passistas, não gostava da ideia de ser rainha da bateria, queria mesmo era sambar no meio de seus amigos.

Quando a mãe disse que devia pensar se devia ou não ir, apareceu aqui no jogo, se vais, isso tudo vai virar uma barafunda.

Regina, se matava de rir, pois sabia que minha mãe, ficava esperando a sexta-feira, dia de ensaio na quadra, para se esbaldar no samba.

Regina ou Astolfo, não ia nunca, embora seu homem fosse, além de ser policial, era ajudante do delegado Nascimento, tocava surdo na bateria.

A história dos dois, para mim, eles foram meus tios queridos.

Um dia meu avô Delegado Nascimento, apareceu no hospital aonde minha mãe trabalhava, trazendo um rapaz, acho que pensaram que estava morto, vieram desovar aqui, num terreno baldio, mas uns garotos, viram, me avisaram.

Ficou dias em estado de coma, minha avó cuidou dele com muita atenção, se via que era um rapaz de fino trato, pois tinha as mãos lisas, foi para casa, se sentou na varanda cismando, abriu sua mesa de jogo, pensou no rapaz e jogou, viu ali toda a história do mesmo.

Era de uma família rica, lá pros lados de São Gonçalo, do outro lado da Bahia de Guanabara, depois de Niterói, achou interessante, vieram de longe com ele.

Seu pai, disse no jogo, que vinha para ficar com ela, devia ter sido tua filha, mas nasceu como homem em outro lugar.

Quando a cara que estava inchada de porradas que tinha levado dos irmãos, foram murchando, viu que era um rapaz lindo, tinha claro rosto de mulher, fino, mas era homem, tinha nascido num corpo errado.

Se notava que estava tomando hormonas para ter peito.

Minha avó cuidou dele, depois o levou para sua casa, a amizade dele com minha mãe, era impressionante, eram como duas irmãs.

O mais interessante, foi quando Gustavo Magalhães, o ajudante de meu avô o viu, disse a ele, que homem lindo é esse.

O delegado Nascimento, soltou logo, não é para teu bico.

Mas era tarde, aquele negro imenso, segundo meu avô, se estivesse de olhos fechados no escuro, ninguém o via, o mesmo já estava apaixonado, ele que vivia atrás de todos os rabos de saia que via pela frente.

Levou um bom tempo para conseguir um sorriso do Regina, mas quando o fez, ele se rendeu completamente, disse ao meu avô, me importa uma merda, que tenha um piru no meio das pernas, eu o quero assim mesmo.

Acabaram os dois vivendo na casa que tinha sido de Pai Felipe, quando esse morreu, deixou tudo para minha mãe, pois ela era como sua filha.

Os dois só reclamavam de uma coisa, não podiam ter filhos, até que nascemos.

Voltando a história, nesse dia, chegou ao porto um navio mercante, vinha da Rússia, no Porto de Odessa, Ucrania, tinha embarcado meu pai, Andrei Popov, tinha saído para conhecer o mundo, pois não sabia o que queria estudar, seu pai era o coronel Popov, tinha sido do exercito russo, quando tudo era a mesma coisa.

Tinha conhecido a mãe dele, na Angola, aonde era adido militar, foi a uma formatura numa escola, viu aquela mulata linda, se apaixonou, era casado, mas nem por isso deixou a mesma de lado, quando ficou gravida, ele que não tinha filhos de seu matrimonio, a levou com ele para Moscou.   Sua mulher aceitou, nunca tinha podido dar um filho a ele, bem como aceitou a outra mulher.

Anos depois, quando Ucrania se separou da Rússia, ele foi ser diretor do Porto de Odessa, ao mesmo tempo recomeçava sua vida, sua mulher que era Moscovita, disse que nem pensar ir para lá, o pior foi que a mãe dele tampouco foi, as duas tinham um relacionamento nas costas dele.

Arrastou o filho com ele, acabou de estudar lá.

Falou com o pai, esse lhe arrumou para ir nesse navio, que faria todo o mediterrâneo, depois desceria pelas costa do Marrocos, Dakar, de lá atravessavam para o Rio de Janeiro, iria para Buenos Aires, voltaria pela Africa do Sul, subindo toda a costa outra vez.

Ele foi se abrindo, fez camaradagem como pessoal de bordo, que era uma mistura de raças impressionante, no mesmo tinha um negro brasileiro, que lhe disse, quando chegares ao Rio, vais ficar como louco.

Realmente, quando o navio entrou na Bahia de Guanabara, ele ficou com os olhos escancarados, tinha aprendido com o companheiro, várias palavras em português, principalmente palavrões, sabia pronunciar “filho da puta”, corretamente.

Quando desceram do barco, o amigo disse que ia a Padre Miguel visitar sua família, depois iria ao samba para matar as saudades.

Arrastou o Andrei com ele, foi aquela festa, sua mãe tinha preparado um belo feijão preto, com algumas carnes, arroz, farofa, uma bela salada, para o filho matar a saudade, quem sabe ficar.

Mais tarde, como viviam ali perto da quadra da Padre Miguel, meu pai, achou estranho o batuque que escutava, os dois tomaram seu belo banho, com dizia o amigo, tinham que ir cheirosos, para encantar as mulatas.

Usou uma roupa do amigo, eram iguais de grandes, Andrei Popov, tinha quase dois metros de altura, o amigo não ficava atrás.

Lá foram eles, segundo ele, acreditava que sua parte de Angola, estivesse em ação, embora ele tivesse saído ao pai, era claro, olhos azuis, cabelos loiros crespos, mal sabia que no Brasil, seria chamado de mulato sarará, pois se fosse a praia ficava moreno.

O amigo se matava de rir, pois mal chegou começou a se mover, como um dos muitos negros e mulatos que andavam por ali.

Foi quando viu minha mãe, Adalgisa Arcanjo Silva, dançando como uma louca com suas pernas monumentais, em cima de uma plataforma que a fazia mais alta ainda.

Ficou como um louco, quando se chegou perto, ela o olhou de cima a baixo, pensou de aonde saiu esse branquinho que sabe sambar.

Pronto a barafunda estava para começar.

Ele conseguia se expressar em inglês, seu amigo o apresentou a minha mãe, explicou que ele era russo.

Ela argumentou que ele sabia sambar, disse isso rindo, com sua fileira de dentes brancos, perfeitos.

Ele já estava com os quatro pneus arriados, como diria a Regina.

Ele não tinha aonde dormir, ela o levou para sua casa, quando apresentou ao seu pai, entendeu logo que ele era da Polícia.

Quando o amigo, veio busca-lo para embarcar, ele disse que ficava, tinha ido buscar suas coisas a bordo, inclusive os documentos.

Avisaria por carta ao seu pai, que tinha ficado no Rio de Janeiro.

O delegado Nascimento, conseguiu documentos para ele, além de um emprego, passou a trabalhar na Refinaria Duque de Caxias, na subida para Petrópolis, mas antes se meteu num curso de português, como sua mãe falava em casa com ele, foi fácil.

O melhor foi que minha avó, jogou para ele, soltou que mistura, era filho de Xangô, Iansã, com Ogum de lado, bem como um Exu forte.

Na primeira gira que participou, incorporou o mesmo, que foi dizendo, esse menino, finalmente encontrou seu lugar.

Ela já sabia que ele era filho de uma Angolana.

Era mais um na casa, mas não avançava sinal, pois minha mãe, era ainda menor de idade, mas era capaz de se jogar embaixo de um tanque militar por ela.

Saiam, iam ao cinema, mas ficou mesmo deslumbrado, quando o Delegado Nascimento o levou para seu lugar preferido, para Barra de Guaratiba, aonde viviam seus pais, no meio do mato, com uma praia pequena na frente.

Ali ele se esbaldou, falou pela primeira vez em seu pai o General Popov, esse tinha recebido a carta, mas imaginou, se agarrou a algum rabo de saia, é como eu.

Ele tinha ficado intrigado, sim com uma coisa, quando conheceu Regina, viu que era um homem, mas vestido de mulher, ali com sua roupa de candomblé, minha mãe lhe disse que cuidado, pois era mulher do Gustavo, esse era tão grande, que ninguém, nem ousava fazer uma brincadeira, ainda mais que usava sempre uma arma na cintura.

O mais interessante, que Regina que tinha estudos, era quem conseguia o entender no seu inglês, macarrônico, além de ensinar português.

Um dia os dois começaram a namorar a sério, ele já tinha um emprego estável, logo começou a estudar, incentivado pela minha avô, engenharia mecânica, pediu a mão da minha mãe.

Isso não é comigo disse minha avó, fale com o Delegado Nascimento, esse jogou para minha mãe, começara por causa dela, a viver juntos, para saber se dava certo.

Um ano depois quando fez 20 anos, estava gravida, ele escreveu ao seu pai que ia ser avô.

O velho só ficou contente que ele tinha emprego, bem como fazia universidade, pois tinha mandado seus documentos.

O mais interessante, era que apesar de minha mãe ser alta, a barriga desde o começo era grande, foram fazer exames, claro não deu outra, estava gravida de gêmeos.

Andrei aviso ao pai, que eram dois meninos.

Esse disse que ia providenciar sua aposentadoria, pois estava farto de viver sozinho.

Mas o melhor foi, a única que sabia desde o principio era minha avó, pois tinha visto no jogo, o que seriamos diferentes.

Minha mãe durante a gravidez toda, ia ao samba com meu pai, ele a vigiava, bem como meu avô e o Magalhães, como chamavam o Gustavo.

Já tinha passado das contas, estava com uma barriga imensa, rompeu águas ali na quadra, minha avó, estava essa noite cobrindo uma companheira, a levaram para o hospital.

Chamou logo um médico, pois ela não tinha dilatação nenhuma, tiveram que fazer uma cesária.

O médico se matou de rir, pois um era eu, branco, quase transparente, o outro era negro.

Esse não sabia explicar, mas minha avó, lhe disse que a mãe de meu pai era de Angola, aí ele entendeu tudo, nesse Brasil tudo é possível.

A diferença, imaginavam que eu era albino, pois tinha os cabelos tão loiros, quase brancos, mas os olhos negros, já meu irmão, que era negro, tinha os olhos da minha mãe, verdes.

Meu pai, ria, pois tinha assistido o parto, ficou impressionado, como era possível isso, minha avó lhe explicou.

Agora de cara os dois erámos iguais, mesmo tamanho e peso.

O velho Arcanjo, ao mesmo tempo ficou surpreso, tinha conhecido o Andrei, mas quando viu os dois abriu a boca.

Os dois passamos a nos chamar Gabriel, eu, meu irmão se chama Ezequiel, o mais interessante, foi a formação do nome.

Gabriel Arcanjo Silva Popov, era um nome para ninguém botar defeito, Ezequiel era igual.

Tínhamos na verdade duas mães, porque Regina e Magalhães, nos adotaram, pois representávamos os dois juntos.

Regina branca, Magalhães, negro.

Fizeram uma foto da família inteira junto, no dia que nos mergulharam no mar, em forma de batizado, lá em Barra de Guaratiba, na casa dos outros bisavôs, até o Doutor Arcanjo foi.

A foto familiar, Andrei mandou para o pai.

Nem um mês, depois ele disse o dia que chegava, o delegado Nascimento, foi com o Magalhães, o buscar no aeroporto.

Tinham uma placa, Coronel Popov, todo mundo olhava.

Ele falava alguma coisa em português, tinha aprendido na Angola.

Mas quando chegou na casa dos meus avôs, ficou como um louco, temos uma foto na parede, dele muito branco, com a cabeça raspada, com os dois, cada um num braço.

Ele dizia que duas coisas o surpreenderam nesse dia, num determinado momento, começamos a chorar, mas bastou a Regina me pegar, bem como o Magalhães, paramos no ato.

Minha avô diria ao meu ouvido anos depois, que era para termos sido filhos deles.

Mais curioso, foi ele descobrir que Regina era um homem, ele nunca operou o piru, mas se vestia de mulher, se sentia assim.

Num domingo seguinte que fomos para Barra de Guaratiba, dizem que ele abriu os braços, soltou, estou em casa.

Nunca mais voltou, foi como o filho, veio para ficar, de novo o Delegado Nascimento, arrumou os papeis para ele, bem como um emprego, passou a administrar as finanças da escola de Samba, adorava estar no barracão, na preparação dos carros, do carnaval, não sabia sambar, mas ficava como um louco atrás das mulatas, das negras.

Mas quando falavam em casamento, ele pulava fora, tive duas mulheres, que me botaram para escanteio.

Quando contou isso ao Delegado Nascimento, riram muito, melhor tomar cuidado.

Anos depois conheceu uma filha de santo de minha avô, foi viver com ela, que era viúva tinha dois filhos, os criou como dele, a família crescia dizia minha avó.

O mais interessante, era como crescíamos os dois, a maior parte do tempo no terreiro, os dois corríamos sempre a colocar águas nas quartinhas, mas meu irmão Ezequiel, adorava entrar na casa dos Exus, o via conversando, com alguém, um dia ele me disse que ali tinha um homem negro que cuidava dos dois.

Me mostrou, demorei para ver, mas o homem passou a mão na minha cabeça, passei a ir conversar com ele.

Minha avó descobriu a história, porque preocupada Regina tinha visto os dois na casa de Exu, entram lá, para colocar água nas quartinhas, ficam conversando.

Minha avó foi até lá, riu muito, pois falávamos em Yoruba com o homem negro.

Esse disse que ia explicar para ela no jogo de búzios, ele era Exu dos dois ao mesmo tempo, nos cuidaria sempre.

Meu irmão estava destinado a ser pai de Santo, de Obaluaye, como pai Felipe, mas eu seria médico de almas.

Minha avó diria que eu sempre seria um filho de santo, preparado, pois adorava vê-la jogar, as vezes acrescentava algo em Yoruba que ela não tinha visto.

Se chegava alguém, eu olhava de cima a baixo a pessoa, dizia para ela, esse vem pedir para ganhar na loteria, quando devia vir pedir um trabalho.

Não dava outra, depois me perguntava, como eu sabia, lhe respondia que tinha olhado a cabeça do mesmo, conseguia ver a aura do sujeito.

Já Ezequiel, era mais pé no chão, o dele, era aprender a tocar os atabaques, que o fascinavam, ir ao samba, com meu avô, adorava ficar ali sentado no chão no meio da bateria toda, tocando a todo volume, se matava de rir, quando um errava.

Mas no sábado, os dois estávamos ali, firmes no terreiro.

Eu me sentava ao pé da minha avó, ficava prestando a atenção, as vezes me levantava, quando algum filho fingia estar incorporando, ia até o mesmo, o negro ao meu lado, botava a mão, o dito cujo rodava como um louco.

Já meu irmão, se sentava aos pés do Magalhães, dos outros Ogans, sabia todos os pontos, ainda era capaz de cantar os mesmos em Yoruba.

Um dia me levantei, corri para o quarto de minha avó, lhe disse baixinho no ouvido, o avô Arcanjo, voou.

Ela entendeu, ligou para a senhora que cuidava dele, minha bisavó já tinha morrido a tempo, mas ele se negava a sair de seu apartamento.

Quem ia visita-lo sempre era o Delegado Nascimento, dizia que o velho tirava da prisão, os que ele tinha metido lá, era um negócio familiar, falava isso as gargalhadas.

O velho deixou seu apartamento, bem como um bom dinheiro em fideicomisso, para que nos dois fossemos a universidade, já nem pensava no que íamos ser, dizia advogados não, ele tinha vendido sua parte do negócio quando se aposentou, esse dinheiro era o que estava no banco.

Vivia falando com minha avó para convencer meus pais, de irem morar em Ipanema.

Minha mãe, era enfermeira como a sua, trabalhava no hospital da Lagoa, o que era longe para ela, ir todos os dias.

Meu pai, agora trabalhava, na central da Petrobras, na cidade.   Acabamos nos mudando, mas chegava na sexta-feira, íamos para Padre Miguel, a tempo de minha mãe ir ao ensaio da escola de Samba.

O mais interessante os dois nos interessamos pela praia, fazer surf, foi quando sentimos a primeira vez, preconceito de cor, como andávamos sempre juntos os dois, um dia escutei falando de mim, o que faz esse garoto andando com esse negrinho.

Eu não entendi, mas meu irmão sim, parou segurou o que tinha falado isso na escola, nos fez olhar bem, somos gêmeos seu idiota.

Uma professora viu, resolveu explicar para a turma sobre isso, a maioria entendeu, mas seguimos sempre tendo problemas.

Quando ficamos maiores, o mais interessante, o que comentava, levava um belo soco na cara, não do meu irmão, mas meu, pois achava um absurdo isso.

Ele ficava chateado, minha avó, um dia entrou com os dois na casa de Exu, pediu para ele nos explicar por quê.

Eu aceitava, mas Ezequiel, não, passou a tirar notas baixas, não queria ir para Ipanema, o jeito foi voltamos a viver lá com nossos outros pais, Regina e Magalhães, a escola dali, havia tanta mistura, que isso era normal, mas Ipanema, nem de brincadeira queríamos ir.

Acabou que meus pais, voltaram para casa também preferiam aguentar o tráfego para irem para casa, do que estar longe de nós.

Minha mãe resolveu o problema, vindo trabalhar aonde minha avó, tinha sido enfermeira chefe, logo ocupava o mesmo posto, impunha ordem, com toda a altura que tinha.

Meu pai é que tinha problemas, até que lhe mandaram cuidar de umas obras aonde tinha começado, respirou aliviado.

Estávamos para decidir nosso destino universitário, eu mais ou menos sabia o que queria, tinha conversado muito com Exu.

Mas estava preocupado com o Ezequiel, vi que na hora do recreio, andava sempre com um rapaz filho do chefe do tráfico dali.

Falei com ele, riu da minha cara de preocupação, nem pareces entender, esse garoto tem problemas, venha, vamos conversar com ele.

Foi o que fizemos, a coisa era feia, sua mãe, quando gravida tinha tomado drogas, ele tinha problemas de concentração para estudar.

O arrastamos para o terreiro, minha avó olhou, não disse um pio, o arrastamos para a casa dos Exus, ele tinha medo, mas conseguimos convence-lo, em sua volta, formou uma parede de Exus que viviam ali, quando tudo acabou, estava melhor.

Ezequiel, tinha ido ele mesmo preparar um banho de ervas para o garoto, depois nos sentamos com ele, foi interessante, sem querer eu tinha sentado na mesa de jogo de minha avó, rimos quando vimos os búzios correndo de um lado para o outro, todas as coisas ali em movimento, comecei a ler o que diziam, tudo era em Yoruba, não vi que minha avó estava atrás, fui falando com ele o que via.

Se ele queria sobreviver, tinha que sair do lado do seu pai, pense bem, ele tem outros filhos, pode se apanhar sem ti.

Nisso no portão apareceu seu pai, estava uma fera, mas fui até lá tranquilamente, sabia que o Exu estava do meu lado, tirei o revolver que tinha na cintura, dei para um capanga dele, o senhor espera aqui, vou conversar com seu chefe.

O arrastei pelas mãos, o mesmo parecia uma criança, segundo minha avô, entre os dois lhe demos um banho de ervas, aí me sentei para conversar com ele.

Fui claro, seu filho se experimenta qualquer coisa de drogas, estará fudido, assim em grossas palavras, sua mãe, tomou enquanto estava gravida, se ele se vicia, nunca mais será o mesmo.

Está é preocupado pelo senhor, que o criou, sabe o que o senhor faz, quer cuidar do senhor, mas se fica perto, morre, temos que encontrar uma solução.

Segundo minha avó, sentada num cadeirão do outro lado, a cara do homem era impressionante, de machão que era, escutar um rapaz da idade de seu filho, falando sério com ele, era interessante.  Ela não se meteu na conversa, a única vez que ele olhou para ela, esperando que falasse algo, lhe soltou, seu negócio é com meu neto, acredite nele, os dois são filhos de Exu.

Falei com o homem muito tempo, ele não queria ficar longe do filho, era o único que lhe fazia um carinho, que lhe aceitava como era, sem pedir nada em troca.

Resultado, ficou morando lá em casa, mas ele aparecia sempre, vinha de noite, com seu capanga de confiança, todos sabiam que ali era a casa do Delegado Nascimento, ninguém se aproximava.

Gesualdo, virou filho de santo do meu irmão Ezequiel, era seu protegido, anos depois seu amante.

Eu fui estudar medicina, ao contrário do meu irmão, que foi estudar psicologia, em seguida me especializei em psiquiatria, no fundo estávamos no mesmo ramo.

Ele se dedicou mais ao terreiro, eu fui indo de hospital em hospital, conseguia separar os enfermos mentais, dos que estavam perturbados espiritualmente, os ia tratando.

Mas sexta-feira, acabava meu trabalho, ia para casa, no sábado era dia de o ajudar.

Nunca me casaria, meu trabalho não permitia, ajudei meu irmão, além de Josualdo a cuidar dos nossos velhos, que sempre tinham sido importantes para nós.

O mais interessante, no fim da vida dos dois, o coronel Popov, delegado Nascimento, foram viver com suas mulheres, na praia que adoravam, no domingo era próprio passar com eles.

Os dois filhos adotivos do Coronel Popov, um se formou em engenharia química, foi trabalhar com meu pai, o outro era enfermeiro, um dia me cruzei com ele num hospital, me pareceu que ia acontecer algo entre a gente, mas só muitos anos depois, quando os velhos não estavam já vivos, foi que nos esbarramos outra vez, no enterro do General.

Ai finalmente aconteceu, era interessante, pois dos filhos da sua mulher, esse era o mais negro, parecia um tição, assim o chamava.

As vezes me parecia estar falando com meu pai Magalhães, pois tinha a mesma postura dele.

Regina foi a última em morrer, com quase 95 anos, tinha sobrevivido a todos, a muitas coisas, ao final ficava sentada na varanda, observando as filhas de santo, quando alguma exagerava alguma coisa, chamava a atenção.  Usava um turbante sempre, do santo do dia, com seus cabelos imensos que o Magalhães adorava.

Dizia as vezes com saudade dele, fui de um só homem minha vida inteira, pensava em me transformar em mulher, mas ele me queria como eu era, desde o primeiro dia, me contava sempre a história do Delegado Nascimento, que eu não era para o bico dele.

Nunca ninguém se atreveu a mexer comigo, fomos o casamento perfeito.

Quando me viu com o Tição, se matou de rir, teu pai Magalhães, ia gostar dele.

Meu irmão sim adotou todas as crianças que abandonavam na porta do terreiro, tinha nascido para ser pai, adorava todas, as colocava para frente, dizia que era sua obrigação.

Fico imaginando sempre, o velho Arcanjo, que em paz descanse, ele tinha sonhado com um punhado de netos, só teve dois, a sua maneira nos quis, minha mãe se surpreendia, pois dizia que ele era preconceituoso, mas entre os dois, sabia que ele adorava o Ezequiel, quando íamos até lá, era com ele que conversava mais.

Devo ter saído a ele, ao contrário, nunca suportei nenhum idiota com preconceito de cor, pois num pais como o nosso, que está tudo misturado, é impossível, mas existe.

As vezes tenho a fantasia, contei isso uma vez para o Ezequiel que se matou de rir, imaginando, colocar todas as raças do Brasil, numa batedora, para ver que sai.

Ele ria dizendo, vai sair muito Exu.

Quando abriram perto do terreiro, creio que foi de proposito, um Reino de Deus, começaram a falar mal do meu irmão, por causa do Gesualdo, seu pai, ainda era o chefe dali, talvez o que mais tinha aguentado, talvez também porque não consumia drogas, mandou seus homens dar um corretivo no sujeito, fomos descobrir depois, que o mesmo era um desses que ia aos terreiros, fingia que incorporava, mas queria era festa.

Quando viu dinheiro que isso dava aos pastores, resolveu explorar, lhe obrigaram a contar tudo aos seus crentes, lhe abaixaram as calças, lhe deram um corretivo na frente de todos.

O idiota ainda foi contar com qual das mulheres dali andava, saiu correndo com as calças na mão, nunca mais apareceu.

Os que tinham saído do terreiro para se juntar com ele, voltavam arrependidos, mas nunca mais conseguiram entrar lá.

Eu conseguia sempre separar o Joio do Trigo, como dizia meu irmão, fazia jus ao meu nome segundo ele, o Arcanjo Gabriel, fazia isso.

Nunca me senti um anjo essa era a verdade, ao contrário, era capaz de encostar as pessoas na parede.

Haja visto, as surras que dei em alguém que tivesse ofendido minha família.

Ezequiel dizia que eu nem lhe dava tempo de se preparar para uma briga, já estava nela.

Ele dizia que se tranquilizava, pois eu sempre olharia pelos meus.

Aquele bando enorme que eram seus filhos, corriam quando me viam para contar o que tinha acontecido durante a semana, eram uma miscelânea de cores e raças, para eles tudo era o mesmo, vê dizia ao Tição, para eles não existe isso de raça.

Meu homem diz que sou louco, mas que gosta assim mesmo de mim.

No hospital é igual, procuro tratar todos os pacientes com respeito, olho bem, examino das duas maneiras que conheço, alguns saíram de lá, graças a mim, outros nem tanto, ficaram para sempre enjaulados como digo.

 

 

 

 

                                               BARAFUNDA

Essa palavra tinha como sinônimos, confusão, desordem, por aí vai.

Um dia minha avô uma mãe de santo com uma história muito peculiar, estava jogando os búzios para tirar uma dúvida, de repente apareceu no jogo, alguma coisa que ia acontecer com a família, sua Yao, Regina, um travesti de muito cuidado, lindo de morrer, correu assustado, pois era raro Mãe Dirce de Oxalá, soltar uma gargalhada.

Essa não conseguia parar de rir, ainda mais da cara assustada da Regina, conhecida como Astolfo Silva Magalhães.

Chamou minha mãe correndo, essa veio, sem entender nada, só lhe disse, se não queres causar muita confusão no teu destino, fica em casa hoje, nada de ir ao samba com teu pai.

Meu avô, José Nascimento da Silva, mais conhecido como o Delegado Nascimento, de uma delegacia tranquila em Padre Miguel, subúrbio do Rio de Janeiro.

Isso para a filha era como falar uma blasfêmia, como o pai, adorava o samba, era uma sexta-feira, dia que ele tinha livre para ir tocar com a bateria de sua escola de Samba, Mocidade Independente de Padre Miguel.

Ao mesmo tempo era Ogan no terreiro de sua mulher, ele já estava lá quando ela apareceu.

Imagina a história, minha avô estudava direito, seu pai era advogado, sonhava com um filho para ficar com seu escritório ali na Avenida Rio Branco, no centro da cidade.

Mas nada, tinha uma filha, encheu o saco dela, para fazer direito, assim tinha um herdeiro no negócio.

A coisa começou, que minha avô desmaiava na universidade, minha bisavô a levou a todos os médicos possíveis, diziam que não tinha nada, inclusive a psicólogos levou.

Um dia uma vizinha dela, ali em Ipanema, disse que ia ao seu pai de Santo, é longe, mas o sujeito é bom demais.

Venha, pode ser que ele possa te ajudar com tua filha.

Lá foram as três, para Padre Miguel, segundo minha avó o mais longe que tinha ido, era o centro da cidade.

Fazia um calor de rachar, mas ela suava frio.

Mal chegaram ao portão do terreiro, quando esse se abriu, ela incorporou, veio lá de dentro o pai de Santo, Felipe do Obaluaye, foi logo saudando o espirito, era um velho Oxalá, motivo pelo qual ela desmaiava.

Jogou para ela, depois mandar sua Yao, lhe preparar um banho de ervas.

É minha filha, vens com tudo, teu caminho não é este que estas seguindo, para agradar teu pai, nada disso tem a ver contigo, sonhavas mesmo era ser enfermeira.

Ela se matou de rir, nunca tinha comentado com ninguém isso, ele foi falando tudo para ela.

A mandou vir no sábado, sei que não gostas de sair com os amigos para beber nesse dia, está preparando sem saber teu caminho.

Ela convenceu a mãe, lá foram as três de novo no sábado, a Yao, lhe arrumou uma roupa branca, ela estava na roda, quando olhou em direção aos atabaques viu José Nascimento da Silva, um mulato, lindo de olhos verdes, que não tirava os olhos dela, estava deslumbrado, nessa época ele era um simples policial, pois não tinha conseguido ir à universidade, seu pai também era policial, sua mãe uma das filhas de santo de Pai Felipe.

Foi aí que nasceu o amor entre os dois.

Na segunda-feira, ela encarou o pai, antes dele ir trabalhar, disse que ia abandonar a faculdade de direito, que esse sonho não era dela, que iria fazer enfermagem.

O velho Jose Arcanjo, um baiano arretado, ficou uma fera, mas ela agora tinha a mãe de seu lado, pior foi contar que estava indo a um terreiro de candomblé.  Mais furioso, ele soltou que tinha fugido da Bahia, que sua mãe, era filha de santo de um terreiro.

Passou dias furioso, sem falar, nem com a mulher, nem com a filha, que fazia tudo pelas costas dele, eu o conheci, era muito dramático em suas coisas.

Minha avô começou a conversar com o José Nascimento, foram se conhecendo, um belo dia, lhe disse por que não fazia o curso de direito de noite, se informou para ele.

O pior foi quando o apresentou ao pai, esse que se vangloriava de ser branco, como todo baiano, quando viu aquele mulato mais alto que ele, 1,90 metro de altura, mas de olhos verdes, não gostou, mas quando disse que por insistência dela, estava estudando direito, engoliu em seco, passou a trata-lo bem.

Mas claro teve uma conversa com ele, minha filha é de família, nada de avançar, se queres ir a sério tudo bem.

José Nascimento, disse que cortou um cortado com o Dr. Arcanjo, quando terminou o curso de direito, tinha estagiado no escritório do velho, disse que nem pensar, o mesmo defendia bandidos, mas o curso lhe valeu para subir dentro da polícia, por isso acabaria como advogado em Padre Miguel.

Minha avó ao mesmo tempo que se desenvolvia no terreiro, já conseguia entender o Yorubá, bem como jogar búzios para as pessoas, era a mão direita de Pai Felipe, esse dizia que no dia que ela tinha entrado, sabia que estava ali, quem o vinha substituir.

Ela tinha de frente Oxalá, com Nanã Baruque, um coisa muito forte.

Os dois se casaram no civil, minha avó, já estava gravida da minha mãe, dizia que se casar de branco pela igreja era uma blasfêmia, fizeram sim uma cerimônia no terreiro.

Foi a única vez que o Doutor Arcanjo, colocou os pés lá.

Ela conseguiu logo um lugar no Hospital Estadual Albert Schweitzer, ele foram morar, numa casa, que a parte da frente dava para uma rua, mas a parte detrás, estava dentro dos terrenos do terreiro de Pai Felipe, ela sempre usaria a varanda detrás, para atender as pessoas, jogar búzios.

Tiveram minha mãe, que na verdade era a segunda, a primeira filha morreu mal nasceu, tinha uma deformação qualquer, mas pai Felipe lhe disse, isso é um Karma que estas pagando, logo terás uma filha linda.

De fato, minha mãe, era muito bonita, uma mistura dos dois, branca, cabelos castanhos claros, quando diziam que era loira ficava uma fera, olhos verdes como o pai, bastava dois dias de praia para estar morena.

Estava de férias, tinha acabado de fazer o vestibular, embora não tivesse muito definida do que queria fazer, claro de um lado tinha a pressão do avô Arcanjo, que dizia que tinha que estudar direito, de outro sua mãe que dizia que tinha que escolher ela, sabia o que, pois tinha jogado, mas nunca interferia.

Ela tinha sido criada ali, em Padre Miguel, passava as férias em Ipanema com os avôs, o que lhe dava uma bela mistura de vida.

Adorava um samba, como o pai, imaginem uma mulher de 1,80 metro de altura, umas pernas quilométricas, como dizia o pessoal, saia todos os anos como passistas, não gostava da ideia de ser rainha da bateria, queria mesmo era sambar no meio de seus amigos.

Quando a mãe disse que devia pensar se devia ou não ir, apareceu aqui no jogo, se vais, isso tudo vai virar uma barafunda.

Regina, se matava de rir, pois sabia que minha mãe, ficava esperando a sexta-feira, dia de ensaio na quadra, para se esbaldar no samba.

Regina ou Astolfo, não ia nunca, embora seu homem fosse, além de ser policial, era ajudante do delegado Nascimento, tocava surdo na bateria.

A história dos dois, para mim, eles foram meus tios queridos.

Um dia meu avô Delegado Nascimento, apareceu no hospital aonde minha mãe trabalhava, trazendo um rapaz, acho que pensaram que estava morto, vieram desovar aqui, num terreno baldio, mas uns garotos, viram, me avisaram.

Ficou dias em estado de coma, minha avó cuidou dele com muita atenção, se via que era um rapaz de fino trato, pois tinha as mãos lisas, foi para casa, se sentou na varanda cismando, abriu sua mesa de jogo, pensou no rapaz e jogou, viu ali toda a história do mesmo.

Era de uma família rica, lá pros lados de São Gonçalo, do outro lado da Bahia de Guanabara, depois de Niterói, achou interessante, vieram de longe com ele.

Seu pai, disse no jogo, que vinha para ficar com ela, devia ter sido tua filha, mas nasceu como homem em outro lugar.

Quando a cara que estava inchada de porradas que tinha levado dos irmãos, foram murchando, viu que era um rapaz lindo, tinha claro rosto de mulher, fino, mas era homem, tinha nascido num corpo errado.

Se notava que estava tomando hormonas para ter peito.

Minha avó cuidou dele, depois o levou para sua casa, a amizade dele com minha mãe, era impressionante, eram como duas irmãs.

O mais interessante, foi quando Gustavo Magalhães, o ajudante de meu avô o viu, disse a ele, que homem lindo é esse.

O delegado Nascimento, soltou logo, não é para teu bico.

Mas era tarde, aquele negro imenso, segundo meu avô, se estivesse de olhos fechados no escuro, ninguém o via, o mesmo já estava apaixonado, ele que vivia atrás de todos os rabos de saia que via pela frente.

Levou um bom tempo para conseguir um sorriso do Regina, mas quando o fez, ele se rendeu completamente, disse ao meu avô, me importa uma merda, que tenha um piru no meio das pernas, eu o quero assim mesmo.

Acabaram os dois vivendo na casa que tinha sido de Pai Felipe, quando esse morreu, deixou tudo para minha mãe, pois ela era como sua filha.

Os dois só reclamavam de uma coisa, não podiam ter filhos, até que nascemos.

Voltando a história, nesse dia, chegou ao porto um navio mercante, vinha da Rússia, no Porto de Odessa, Ucrania, tinha embarcado meu pai, Andrei Popov, tinha saído para conhecer o mundo, pois não sabia o que queria estudar, seu pai era o coronel Popov, tinha sido do exercito russo, quando tudo era a mesma coisa.

Tinha conhecido a mãe dele, na Angola, aonde era adido militar, foi a uma formatura numa escola, viu aquela mulata linda, se apaixonou, era casado, mas nem por isso deixou a mesma de lado, quando ficou gravida, ele que não tinha filhos de seu matrimonio, a levou com ele para Moscou.   Sua mulher aceitou, nunca tinha podido dar um filho a ele, bem como aceitou a outra mulher.

Anos depois, quando Ucrania se separou da Rússia, ele foi ser diretor do Porto de Odessa, ao mesmo tempo recomeçava sua vida, sua mulher que era Moscovita, disse que nem pensar ir para lá, o pior foi que a mãe dele tampouco foi, as duas tinham um relacionamento nas costas dele.

Arrastou o filho com ele, acabou de estudar lá.

Falou com o pai, esse lhe arrumou para ir nesse navio, que faria todo o mediterrâneo, depois desceria pelas costa do Marrocos, Dakar, de lá atravessavam para o Rio de Janeiro, iria para Buenos Aires, voltaria pela Africa do Sul, subindo toda a costa outra vez.

Ele foi se abrindo, fez camaradagem como pessoal de bordo, que era uma mistura de raças impressionante, no mesmo tinha um negro brasileiro, que lhe disse, quando chegares ao Rio, vais ficar como louco.

Realmente, quando o navio entrou na Bahia de Guanabara, ele ficou com os olhos escancarados, tinha aprendido com o companheiro, várias palavras em português, principalmente palavrões, sabia pronunciar “filho da puta”, corretamente.

Quando desceram do barco, o amigo disse que ia a Padre Miguel visitar sua família, depois iria ao samba para matar as saudades.

Arrastou o Andrei com ele, foi aquela festa, sua mãe tinha preparado um belo feijão preto, com algumas carnes, arroz, farofa, uma bela salada, para o filho matar a saudade, quem sabe ficar.

Mais tarde, como viviam ali perto da quadra da Padre Miguel, meu pai, achou estranho o batuque que escutava, os dois tomaram seu belo banho, com dizia o amigo, tinham que ir cheirosos, para encantar as mulatas.

Usou uma roupa do amigo, eram iguais de grandes, Andrei Popov, tinha quase dois metros de altura, o amigo não ficava atrás.

Lá foram eles, segundo ele, acreditava que sua parte de Angola, estivesse em ação, embora ele tivesse saído ao pai, era claro, olhos azuis, cabelos loiros crespos, mal sabia que no Brasil, seria chamado de mulato sarará, pois se fosse a praia ficava moreno.

O amigo se matava de rir, pois mal chegou começou a se mover, como um dos muitos negros e mulatos que andavam por ali.

Foi quando viu minha mãe, Adalgisa Arcanjo Silva, dançando como uma louca com suas pernas monumentais, em cima de uma plataforma que a fazia mais alta ainda.

Ficou como um louco, quando se chegou perto, ela o olhou de cima a baixo, pensou de aonde saiu esse branquinho que sabe sambar.

Pronto a barafunda estava para começar.

Ele conseguia se expressar em inglês, seu amigo o apresentou a minha mãe, explicou que ele era russo.

Ela argumentou que ele sabia sambar, disse isso rindo, com sua fileira de dentes brancos, perfeitos.

Ele já estava com os quatro pneus arriados, como diria a Regina.

Ele não tinha aonde dormir, ela o levou para sua casa, quando apresentou ao seu pai, entendeu logo que ele era da Polícia.

Quando o amigo, veio busca-lo para embarcar, ele disse que ficava, tinha ido buscar suas coisas a bordo, inclusive os documentos.

Avisaria por carta ao seu pai, que tinha ficado no Rio de Janeiro.

O delegado Nascimento, conseguiu documentos para ele, além de um emprego, passou a trabalhar na Refinaria Duque de Caxias, na subida para Petrópolis, mas antes se meteu num curso de português, como sua mãe falava em casa com ele, foi fácil.

O melhor foi que minha avó, jogou para ele, soltou que mistura, era filho de Xangô, Iansã, com Ogum de lado, bem como um Exu forte.

Na primeira gira que participou, incorporou o mesmo, que foi dizendo, esse menino, finalmente encontrou seu lugar.

Ela já sabia que ele era filho de uma Angolana.

Era mais um na casa, mas não avançava sinal, pois minha mãe, era ainda menor de idade, mas era capaz de se jogar embaixo de um tanque militar por ela.

Saiam, iam ao cinema, mas ficou mesmo deslumbrado, quando o Delegado Nascimento o levou para seu lugar preferido, para Barra de Guaratiba, aonde viviam seus pais, no meio do mato, com uma praia pequena na frente.

Ali ele se esbaldou, falou pela primeira vez em seu pai o General Popov, esse tinha recebido a carta, mas imaginou, se agarrou a algum rabo de saia, é como eu.

Ele tinha ficado intrigado, sim com uma coisa, quando conheceu Regina, viu que era um homem, mas vestido de mulher, ali com sua roupa de candomblé, minha mãe lhe disse que cuidado, pois era mulher do Gustavo, esse era tão grande, que ninguém, nem ousava fazer uma brincadeira, ainda mais que usava sempre uma arma na cintura.

O mais interessante, que Regina que tinha estudos, era quem conseguia o entender no seu inglês, macarrônico, além de ensinar português.

Um dia os dois começaram a namorar a sério, ele já tinha um emprego estável, logo começou a estudar, incentivado pela minha avô, engenharia mecânica, pediu a mão da minha mãe.

Isso não é comigo disse minha avó, fale com o Delegado Nascimento, esse jogou para minha mãe, começara por causa dela, a viver juntos, para saber se dava certo.

Um ano depois quando fez 20 anos, estava gravida, ele escreveu ao seu pai que ia ser avô.

O velho só ficou contente que ele tinha emprego, bem como fazia universidade, pois tinha mandado seus documentos.

O mais interessante, era que apesar de minha mãe ser alta, a barriga desde o começo era grande, foram fazer exames, claro não deu outra, estava gravida de gêmeos.

Andrei aviso ao pai, que eram dois meninos.

Esse disse que ia providenciar sua aposentadoria, pois estava farto de viver sozinho.

Mas o melhor foi, a única que sabia desde o principio era minha avó, pois tinha visto no jogo, o que seriamos diferentes.

Minha mãe durante a gravidez toda, ia ao samba com meu pai, ele a vigiava, bem como meu avô e o Magalhães, como chamavam o Gustavo.

Já tinha passado das contas, estava com uma barriga imensa, rompeu águas ali na quadra, minha avó, estava essa noite cobrindo uma companheira, a levaram para o hospital.

Chamou logo um médico, pois ela não tinha dilatação nenhuma, tiveram que fazer uma cesária.

O médico se matou de rir, pois um era eu, branco, quase transparente, o outro era negro.

Esse não sabia explicar, mas minha avó, lhe disse que a mãe de meu pai era de Angola, aí ele entendeu tudo, nesse Brasil tudo é possível.

A diferença, imaginavam que eu era albino, pois tinha os cabelos tão loiros, quase brancos, mas os olhos negros, já meu irmão, que era negro, tinha os olhos da minha mãe, verdes.

Meu pai, ria, pois tinha assistido o parto, ficou impressionado, como era possível isso, minha avó lhe explicou.

Agora de cara os dois erámos iguais, mesmo tamanho e peso.

O velho Arcanjo, ao mesmo tempo ficou surpreso, tinha conhecido o Andrei, mas quando viu os dois abriu a boca.

Os dois passamos a nos chamar Gabriel, eu, meu irmão se chama Ezequiel, o mais interessante, foi a formação do nome.

Gabriel Arcanjo Silva Popov, era um nome para ninguém botar defeito, Ezequiel era igual.

Tínhamos na verdade duas mães, porque Regina e Magalhães, nos adotaram, pois representávamos os dois juntos.

Regina branca, Magalhães, negro.

Fizeram uma foto da família inteira junto, no dia que nos mergulharam no mar, em forma de batizado, lá em Barra de Guaratiba, na casa dos outros bisavôs, até o Doutor Arcanjo foi.

A foto familiar, Andrei mandou para o pai.

Nem um mês, depois ele disse o dia que chegava, o delegado Nascimento, foi com o Magalhães, o buscar no aeroporto.

Tinham uma placa, Coronel Popov, todo mundo olhava.

Ele falava alguma coisa em português, tinha aprendido na Angola.

Mas quando chegou na casa dos meus avôs, ficou como um louco, temos uma foto na parede, dele muito branco, com a cabeça raspada, com os dois, cada um num braço.

Ele dizia que duas coisas o surpreenderam nesse dia, num determinado momento, começamos a chorar, mas bastou a Regina me pegar, bem como o Magalhães, paramos no ato.

Minha avô diria ao meu ouvido anos depois, que era para termos sido filhos deles.

Mais curioso, foi ele descobrir que Regina era um homem, ele nunca operou o piru, mas se vestia de mulher, se sentia assim.

Num domingo seguinte que fomos para Barra de Guaratiba, dizem que ele abriu os braços, soltou, estou em casa.

Nunca mais voltou, foi como o filho, veio para ficar, de novo o Delegado Nascimento, arrumou os papeis para ele, bem como um emprego, passou a administrar as finanças da escola de Samba, adorava estar no barracão, na preparação dos carros, do carnaval, não sabia sambar, mas ficava como um louco atrás das mulatas, das negras.

Mas quando falavam em casamento, ele pulava fora, tive duas mulheres, que me botaram para escanteio.

Quando contou isso ao Delegado Nascimento, riram muito, melhor tomar cuidado.

Anos depois conheceu uma filha de santo de minha avô, foi viver com ela, que era viúva tinha dois filhos, os criou como dele, a família crescia dizia minha avó.

O mais interessante, era como crescíamos os dois, a maior parte do tempo no terreiro, os dois corríamos sempre a colocar águas nas quartinhas, mas meu irmão Ezequiel, adorava entrar na casa dos Exus, o via conversando, com alguém, um dia ele me disse que ali tinha um homem negro que cuidava dos dois.

Me mostrou, demorei para ver, mas o homem passou a mão na minha cabeça, passei a ir conversar com ele.

Minha avó descobriu a história, porque preocupada Regina tinha visto os dois na casa de Exu, entram lá, para colocar água nas quartinhas, ficam conversando.

Minha avó foi até lá, riu muito, pois falávamos em Yoruba com o homem negro.

Esse disse que ia explicar para ela no jogo de búzios, ele era Exu dos dois ao mesmo tempo, nos cuidaria sempre.

Meu irmão estava destinado a ser pai de Santo, de Obaluaye, como pai Felipe, mas eu seria médico de almas.

Minha avó diria que eu sempre seria um filho de santo, preparado, pois adorava vê-la jogar, as vezes acrescentava algo em Yoruba que ela não tinha visto.

Se chegava alguém, eu olhava de cima a baixo a pessoa, dizia para ela, esse vem pedir para ganhar na loteria, quando devia vir pedir um trabalho.

Não dava outra, depois me perguntava, como eu sabia, lhe respondia que tinha olhado a cabeça do mesmo, conseguia ver a aura do sujeito.

Já Ezequiel, era mais pé no chão, o dele, era aprender a tocar os atabaques, que o fascinavam, ir ao samba, com meu avô, adorava ficar ali sentado no chão no meio da bateria toda, tocando a todo volume, se matava de rir, quando um errava.

Mas no sábado, os dois estávamos ali, firmes no terreiro.

Eu me sentava ao pé da minha avó, ficava prestando a atenção, as vezes me levantava, quando algum filho fingia estar incorporando, ia até o mesmo, o negro ao meu lado, botava a mão, o dito cujo rodava como um louco.

Já meu irmão, se sentava aos pés do Magalhães, dos outros Ogans, sabia todos os pontos, ainda era capaz de cantar os mesmos em Yoruba.

Um dia me levantei, corri para o quarto de minha avó, lhe disse baixinho no ouvido, o avô Arcanjo, voou.

Ela entendeu, ligou para a senhora que cuidava dele, minha bisavó já tinha morrido a tempo, mas ele se negava a sair de seu apartamento.

Quem ia visita-lo sempre era o Delegado Nascimento, dizia que o velho tirava da prisão, os que ele tinha metido lá, era um negócio familiar, falava isso as gargalhadas.

O velho deixou seu apartamento, bem como um bom dinheiro em fideicomisso, para que nos dois fossemos a universidade, já nem pensava no que íamos ser, dizia advogados não, ele tinha vendido sua parte do negócio quando se aposentou, esse dinheiro era o que estava no banco.

Vivia falando com minha avó para convencer meus pais, de irem morar em Ipanema.

Minha mãe, era enfermeira como a sua, trabalhava no hospital da Lagoa, o que era longe para ela, ir todos os dias.

Meu pai, agora trabalhava, na central da Petrobras, na cidade.   Acabamos nos mudando, mas chegava na sexta-feira, íamos para Padre Miguel, a tempo de minha mãe ir ao ensaio da escola de Samba.

O mais interessante os dois nos interessamos pela praia, fazer surf, foi quando sentimos a primeira vez, preconceito de cor, como andávamos sempre juntos os dois, um dia escutei falando de mim, o que faz esse garoto andando com esse negrinho.

Eu não entendi, mas meu irmão sim, parou segurou o que tinha falado isso na escola, nos fez olhar bem, somos gêmeos seu idiota.

Uma professora viu, resolveu explicar para a turma sobre isso, a maioria entendeu, mas seguimos sempre tendo problemas.

Quando ficamos maiores, o mais interessante, o que comentava, levava um belo soco na cara, não do meu irmão, mas meu, pois achava um absurdo isso.

Ele ficava chateado, minha avó, um dia entrou com os dois na casa de Exu, pediu para ele nos explicar por quê.

Eu aceitava, mas Ezequiel, não, passou a tirar notas baixas, não queria ir para Ipanema, o jeito foi voltamos a viver lá com nossos outros pais, Regina e Magalhães, a escola dali, havia tanta mistura, que isso era normal, mas Ipanema, nem de brincadeira queríamos ir.

Acabou que meus pais, voltaram para casa também preferiam aguentar o tráfego para irem para casa, do que estar longe de nós.

Minha mãe resolveu o problema, vindo trabalhar aonde minha avó, tinha sido enfermeira chefe, logo ocupava o mesmo posto, impunha ordem, com toda a altura que tinha.

Meu pai é que tinha problemas, até que lhe mandaram cuidar de umas obras aonde tinha começado, respirou aliviado.

Estávamos para decidir nosso destino universitário, eu mais ou menos sabia o que queria, tinha conversado muito com Exu.

Mas estava preocupado com o Ezequiel, vi que na hora do recreio, andava sempre com um rapaz filho do chefe do tráfico dali.

Falei com ele, riu da minha cara de preocupação, nem pareces entender, esse garoto tem problemas, venha, vamos conversar com ele.

Foi o que fizemos, a coisa era feia, sua mãe, quando gravida tinha tomado drogas, ele tinha problemas de concentração para estudar.

O arrastamos para o terreiro, minha avó olhou, não disse um pio, o arrastamos para a casa dos Exus, ele tinha medo, mas conseguimos convence-lo, em sua volta, formou uma parede de Exus que viviam ali, quando tudo acabou, estava melhor.

Ezequiel, tinha ido ele mesmo preparar um banho de ervas para o garoto, depois nos sentamos com ele, foi interessante, sem querer eu tinha sentado na mesa de jogo de minha avó, rimos quando vimos os búzios correndo de um lado para o outro, todas as coisas ali em movimento, comecei a ler o que diziam, tudo era em Yoruba, não vi que minha avó estava atrás, fui falando com ele o que via.

Se ele queria sobreviver, tinha que sair do lado do seu pai, pense bem, ele tem outros filhos, pode se apanhar sem ti.

Nisso no portão apareceu seu pai, estava uma fera, mas fui até lá tranquilamente, sabia que o Exu estava do meu lado, tirei o revolver que tinha na cintura, dei para um capanga dele, o senhor espera aqui, vou conversar com seu chefe.

O arrastei pelas mãos, o mesmo parecia uma criança, segundo minha avô, entre os dois lhe demos um banho de ervas, aí me sentei para conversar com ele.

Fui claro, seu filho se experimenta qualquer coisa de drogas, estará fudido, assim em grossas palavras, sua mãe, tomou enquanto estava gravida, se ele se vicia, nunca mais será o mesmo.

Está é preocupado pelo senhor, que o criou, sabe o que o senhor faz, quer cuidar do senhor, mas se fica perto, morre, temos que encontrar uma solução.

Segundo minha avó, sentada num cadeirão do outro lado, a cara do homem era impressionante, de machão que era, escutar um rapaz da idade de seu filho, falando sério com ele, era interessante.  Ela não se meteu na conversa, a única vez que ele olhou para ela, esperando que falasse algo, lhe soltou, seu negócio é com meu neto, acredite nele, os dois são filhos de Exu.

Falei com o homem muito tempo, ele não queria ficar longe do filho, era o único que lhe fazia um carinho, que lhe aceitava como era, sem pedir nada em troca.

Resultado, ficou morando lá em casa, mas ele aparecia sempre, vinha de noite, com seu capanga de confiança, todos sabiam que ali era a casa do Delegado Nascimento, ninguém se aproximava.

Gesualdo, virou filho de santo do meu irmão Ezequiel, era seu protegido, anos depois seu amante.

Eu fui estudar medicina, ao contrário do meu irmão, que foi estudar psicologia, em seguida me especializei em psiquiatria, no fundo estávamos no mesmo ramo.

Ele se dedicou mais ao terreiro, eu fui indo de hospital em hospital, conseguia separar os enfermos mentais, dos que estavam perturbados espiritualmente, os ia tratando.

Mas sexta-feira, acabava meu trabalho, ia para casa, no sábado era dia de o ajudar.

Nunca me casaria, meu trabalho não permitia, ajudei meu irmão, além de Josualdo a cuidar dos nossos velhos, que sempre tinham sido importantes para nós.

O mais interessante, no fim da vida dos dois, o coronel Popov, delegado Nascimento, foram viver com suas mulheres, na praia que adoravam, no domingo era próprio passar com eles.

Os dois filhos adotivos do Coronel Popov, um se formou em engenharia química, foi trabalhar com meu pai, o outro era enfermeiro, um dia me cruzei com ele num hospital, me pareceu que ia acontecer algo entre a gente, mas só muitos anos depois, quando os velhos não estavam já vivos, foi que nos esbarramos outra vez, no enterro do General.

Ai finalmente aconteceu, era interessante, pois dos filhos da sua mulher, esse era o mais negro, parecia um tição, assim o chamava.

As vezes me parecia estar falando com meu pai Magalhães, pois tinha a mesma postura dele.

Regina foi a última em morrer, com quase 95 anos, tinha sobrevivido a todos, a muitas coisas, ao final ficava sentada na varanda, observando as filhas de santo, quando alguma exagerava alguma coisa, chamava a atenção.  Usava um turbante sempre, do santo do dia, com seus cabelos imensos que o Magalhães adorava.

Dizia as vezes com saudade dele, fui de um só homem minha vida inteira, pensava em me transformar em mulher, mas ele me queria como eu era, desde o primeiro dia, me contava sempre a história do Delegado Nascimento, que eu não era para o bico dele.

Nunca ninguém se atreveu a mexer comigo, fomos o casamento perfeito.

Quando me viu com o Tição, se matou de rir, teu pai Magalhães, ia gostar dele.

Meu irmão sim adotou todas as crianças que abandonavam na porta do terreiro, tinha nascido para ser pai, adorava todas, as colocava para frente, dizia que era sua obrigação.

Fico imaginando sempre, o velho Arcanjo, que em paz descanse, ele tinha sonhado com um punhado de netos, só teve dois, a sua maneira nos quis, minha mãe se surpreendia, pois dizia que ele era preconceituoso, mas entre os dois, sabia que ele adorava o Ezequiel, quando íamos até lá, era com ele que conversava mais.

Devo ter saído a ele, ao contrário, nunca suportei nenhum idiota com preconceito de cor, pois num pais como o nosso, que está tudo misturado, é impossível, mas existe.

As vezes tenho a fantasia, contei isso uma vez para o Ezequiel que se matou de rir, imaginando, colocar todas as raças do Brasil, numa batedora, para ver que sai.

Ele ria dizendo, vai sair muito Exu.

Quando abriram perto do terreiro, creio que foi de proposito, um Reino de Deus, começaram a falar mal do meu irmão, por causa do Gesualdo, seu pai, ainda era o chefe dali, talvez o que mais tinha aguentado, talvez também porque não consumia drogas, mandou seus homens dar um corretivo no sujeito, fomos descobrir depois, que o mesmo era um desses que ia aos terreiros, fingia que incorporava, mas queria era festa.

Quando viu dinheiro que isso dava aos pastores, resolveu explorar, lhe obrigaram a contar tudo aos seus crentes, lhe abaixaram as calças, lhe deram um corretivo na frente de todos.

O idiota ainda foi contar com qual das mulheres dali andava, saiu correndo com as calças na mão, nunca mais apareceu.

Os que tinham saído do terreiro para se juntar com ele, voltavam arrependidos, mas nunca mais conseguiram entrar lá.

Eu conseguia sempre separar o Joio do Trigo, como dizia meu irmão, fazia jus ao meu nome segundo ele, o Arcanjo Gabriel, fazia isso.

Nunca me senti um anjo essa era a verdade, ao contrário, era capaz de encostar as pessoas na parede.

Haja visto, as surras que dei em alguém que tivesse ofendido minha família.

Ezequiel dizia que eu nem lhe dava tempo de se preparar para uma briga, já estava nela.

Ele dizia que se tranquilizava, pois eu sempre olharia pelos meus.

Aquele bando enorme que eram seus filhos, corriam quando me viam para contar o que tinha acontecido durante a semana, eram uma miscelânea de cores e raças, para eles tudo era o mesmo, vê dizia ao Tição, para eles não existe isso de raça.

Meu homem diz que sou louco, mas que gosta assim mesmo de mim.

No hospital é igual, procuro tratar todos os pacientes com respeito, olho bem, examino das duas maneiras que conheço, alguns saíram de lá, graças a mim, outros nem tanto, ficaram para sempre enjaulados como digo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

  

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