FULANI - BOROBO
Voltava do
enterro de seu pai, de sua mãe, além de seu avô, ela tinha atirado nos dois,
além de escrever nas costas, na camisa de meu pai, “NÈGRE”, o que era muito
estranho, pois o pai era moreno, ele sim era mais escuro que seu pai, com os
cabelos muito crespos, olhos negros também, mas nisso se parecia seu avô.
Nada fazia
sentido, tudo que podia dizer a polícia era que ela ultimamente andava muito
estranha, achava mesmo que desequilibrada, gritava, saia com um grupo de
mulheres da sinagoga que ele não entendia, a maioria eram viúvas, ia a casinos no
Champs-Élysées, tudo muito estranho, voltava irritada, nem se aproximava dele, aliás
isso tinha sido desde criança, quem cuidava dele, ou era seu avô ou seu pai.
O apartamento
imenso era de seu avô, seu pai trabalhava para ele, depois ficou com o
escritório, que dirigia com seu melhor amigo desde criança Nelson, esse não era
ao contrário de meu pai Judeu, mas se davam bem.
Adorava sair
com os dois no final de semana, fazer algum programa, sua mãe imediatamente
caia fora da ideia.
Seu avô quando
ainda estava bem, ia também se divertia muito.
Mas ao sábados
ele preferia ir a Sinagoga, quando meu pai, não o levava, vinha uma pessoa
busca-lo, como dizia ele era um pilar da sociedade Israelita em Paris.
Vivíamos num
belo apartamento na Ilê de Saint-Louis, virado para o Rio Sena, ele adorava
ficar sentado em sua poltrona, pensando na vida como dizia.
As vezes me
dizia, que analisava tanto a mesma que não sabia se tinha ou não feito algo
errado, se o tivesse feito, agora não estava aqui comigo.
Eu aproveitava,
me sentava no chão, encostado em suas pernas, assim se minha mãe me procurava,
para me mandar estudar, odiava que eu ficasse perto do velho, ao entrar não me
via.
Ele
aproveitava, despenteava meus cabelos crespos, que ela tinha se esforçado em
que ficassem lisos como os dela.
Sempre tive a
sensação, desde pequeno que era uma mulher rara.
Ultimamente
desde a morte de minha avó, que ela ajudava a cuidar, alguma coisa estava
errada, seu avô lhe perguntava o que sua mulher tinha lhe falado no leito de
morte, mas ela não dizia nada.
A um tempo atrás, imagino que o velho já
previa algum desfecho, me deu um caderno grosso, um diário percebi logo,
enfiado num saco de veludo negro, com seu emblema por cima, me disse para o
ler, quando fosse um pouco mais velho.
O guardei, bem
escondido como ele sugeriu.
Minha mãe tinha
mania de entrar no meu quarto de adolescente, mas o mesmo estava sempre limpo,
em ordem, mesmo assim, levantava o colchão para ver se tinha alguma coisa
embaixo.
A pouco tempo
tinha ficado furiosa, pois encontrou uma série de meus trabalhos.
Melhor
explicar, um dia um dos professores, que era conhecido do meu avô, tinha sido
seu cliente num caso, ele achou estranho mais foi.
Sentou-se com
ele, abriu uma pasta, foi passando desenhos, feitos por mim em aula, esse
menino tem futuro.
O velho riu, eu
sei, contou a ele, que quando era garoto tio Nelson tinha me dado um desses
pacotes de massas de modelar, que eu tinha feito verdadeiras caras, a do
Nelson, ele a tinha em seu apartamento, outra da minha avó, que disse que era
bonita, mas a mesma acabou, logo lhe comprei mais, mas sua mãe proibiu a ele de
fazer, isso era feio segundo ela.
Ou seja ele
também pode fazer esculturas, se eu fosse o senhor o levava a École de Beaux
Arts, quem sabe nas férias ele não possa fazer cursos avulsos.
No dia que
fomos, por ele conhecer o diretor, este mostrava as salas de aulas, claro
esperando um donativo, sempre precisavam.
Quando vi a sala de modelagem, fiquei como um louco, na última mesa,
tinha um bloco de Grés, me sentei sem ninguém dizer nada, comecei a trabalhar,
em cima de uma mesa, ao centro tinha um busto em mármore, fui até lá umas
quantas vezes, olhei em ângulos diferentes, fiz o mesmo.
Da porta o
diretor e meu avô, só olhavam, nisso entrou o professor, veio por detrás, ficou
parado olhando, me perguntou como tinha feito, eu fui lhe explicando, fui olhar
várias vezes de perto, pois havia um ângulo morto, então tinha que saber como
era desse lado.
O diretor se
adiantou, apresentou meu avô, lhe contou do pedido desse, se eu apesar de jovem
podia fazer aulas.
Claro que sim, será
um prazer ensinar o pouco que sei ao jovem, me arrastou com ele a sala de um
velho professor de desenho de pessoas.
Me fez
sentar-me me disse para desenhar o mesmo, imagine que vais fazer uma escultura
depois, o velho ficou esperando, não se movia, eu mesmo me levantei para ir
olhar o mesmo de perto.
Quando
terminei, me disse, mostre para o professor, pode ser que te aceite em suas
aulas, o mesmo riu, disse que isso era uma traição, o pegar assim pelos pés.
Recebo poucos
alunos, pois já devia ter-me aposentado, mas meu amor ao desenho, é maior.
A partir desse
dia, eu ia as aulas, mas confesso que adorava a de modelagem, escultura, quando
levei alguma para casa, minha mãe ficou uma fera.
Eu tinha feito
a cabeça de um homem negro, que o professor tinha pedido para posar para os
alunos.
Eram poucos ali
nas férias, mas eu me sentava logo a frente, me levantava para olhar o homem de
perto, ou qualquer modelo que ele conseguisse.
Ela quando viu,
fez uma coisa que não entendi, atirou no chão, em minha casa, não.
Eu juntei os
pedaços, levei para a escola, refiz novamente, ainda não tinha sido cozido,
depois pedi ao tio Nelson para guardar para mim.
A partir desse
diz, todos que se coziam iam para sua casa, dizia rindo, mexendo nos meus
cabelos, que ele ia ficar rico no dia que eu fosse famoso, vou vender todas, me
aposentar.
Minha mãe, me
proibiu de ir as aulas na École de Beaux Arts, mas eu ia escondido, depois das
aulas, dizia que comia na escola, como a mesma ficava diante da sinagoga, iria
depois para lá.
Mentira
deslavada, eu nunca ia a sinagoga, corria para minhas aulas de desenho, escultura.
Agora aprendia
a fazer uma figura humana em pé.
Adorava, sonhava com o dia que faria alguma em tamanho natural.
Só não esperava
esse desfecho.
Dois dias
antes, tinha escutado uma discussão, entre meus pais, tinha aparecido um homem
no escritório dele, para cobrar dívidas dela no casino, era uma verdadeira
fortuna.
Quando
perguntou a ela, sobre a herança que tinha recebido dos pais, disse que já
tinha gastado tudo.
Ele se negou a
pagar, falas tanto em religião, mas os pecados dos outros te interessam mais,
os teus não, verdade?
Ela fez o que
sempre fazia, atirar alguma coisa no chão, como uma menina malcriada.
O homem
apareceu lá em casa, ela tinha assinado várias coisas, escutei o homem falando
com ela, seu marido tem razão, se a senhora é casada com separações de bens, a dívida
é sua, eu a avisei para se controlar nos jogos.
Perguntou se o
apartamento era dela.
Riu com ironia,
aqui nada é meu, o apartamento é do meu sogro, as obras de artes, eram da sua
mulher, mesmo assim tirou um quadro da parede, depois descobriria que valia uma
fortuna, disse ao homem quanto valia o mesmo, o mesmo levou, mas a fez assinar
um papel que tinha sido entregue em pagamento de uma dívida.
Isso pareceu animá-la,
pois logo em seguida, tirou outro, levou a um antiquário, que o tinha taxado,
estava escrito atrás, esse ligou para meu avô, que o levou de volta para casa,
o escutei falando com ela a respeito.
Estava furioso,
isso nunca será teu, é do meu herdeiro, nem meu filho colocará mão nas obras de
arte.
Ela soltou que
precisava de dinheiro para acompanhar suas amigas.
Mas ele não
deu, depois o escutei falar com meu pai, que não o fizesse, pois isso seria
como abrir uma torneira, nunca mais vais poder fechar a mesma.
No dia que tudo
tinha acontecido, eu estava justo na École de Beaux Arts, fazendo minhas aulas.
Quando cheguei
no edifício, vi carros da polícia, ali em pé, com os ombros caídos, estava tio
Nelson, as lagrimas corriam pela sua cara, na hora demorei para assimilar.
Foi quando o
inspector começou suas perguntas, entramos em casa, meu avô estava sentado na
sua poltrona, como se estivesse olhando o Sena, tinha um tiro no peito.
Já meu pai, o
tiro tinha sido nas costas, era como se ele estivesse a caminho do armário que
continha armas da coleção do meu avô, depois ela estava sentada numa poltrona, o
tiro tinha sido no queijo, de baixo para cima, tinha destruído metade de sua
cara.
Contei o que
tinha visto, as discussões por dinheiro, a última tinha sido no dia anterior,
em que apareceu o homem outra vez, pois quando foi vender o quadro, ninguém
queria, pois sabia que ela não era a proprietária.
Nada nessa casa
é meu, gritava, tenho que aguentar esse velho, nisso seu pai soltou, que ele
era o dono do apartamento, não quiseste viver no de teus pais, pois eram mais
humilde.
Levaria anos
para entender isso, ela tinha um mal gosto nato para se vestir, quase todas
suas roupas eram escuras, que não lhe favoreciam.
Quando iam a
alguma festa, meu pai reclamava, se não tinha outra coisa para colocar, pois
sempre era a mais feia.
Eu só tinha
herdado dela uma coisa, o nariz, desses de judeus, me diziam que tinha nariz de
papagaio.
Por sorte tinha
aprendido a dizer o Kadish, tio Nelson fez uma maldade, a mandou enterrar no
mausoléu da sua família, meu pai e meu avô, do outro lado do cemitério.
Eu levaria um
tempo para saber que meu pai tinha uma vida dupla, ele era o amante de tio
Nelson.
Esse nunca se
recuperou da morte dele.
Eu fiquei sobre
a guarda dele até ter 18 anos, quando me emanciparia, fui morar no seu
apartamento que era completamente diferente, no primeiro dia, estranhei, tinha
ido várias vezes, mas nunca tinha passado do salão da entrada, mas na
biblioteca, tinha uma foto dele abraçado com meu pai, outra de outro lado, uma
com os três num dos passeios que fizemos, mas um dia o procurando entrei em seu
quarto, na mesa de cabeceira, tinha uma foto dos dois com a cara junta, ele viu
que eu tinha me aproximado, meu pai estava lindo nessa foto, parecia feliz, foi
quando me contou que os dois eram namorados desde que se conheceram, foi quando
ele chegou aqui.
Como chegou
aqui.
Seu pai, não
nasceu aqui, foi seu avô que o trouxe, me contou o que sabia, que ele era
partisan, tinha sofrido muito na guerra, lhe torturaram, talvez por isso não
podia ter filhos.
Ele tinha um
irmão que era rabino, seus pais o tinham mandado para Africa, antes da Guerra, este
o chamou, vivia no Benin, em Cotonú, aonde tinha uma sinagoga numa aldeia.
Ele foi até lá,
trouxe teu pai, era sobrinho dele, o adotou, era filho do seu irmão Rabino, com
uma jovem Fulani, uma etnia de lá, normalmente são nômades, existem em vários
lugares de Africa, como me explicou teu pai um dia. Mas uma pequena parte desse
povo é judeu, ou esteve misturado com judeus da diáspora espanhola.
Segundo ele,
ela não era totalmente negra, mas sim uma mulata clara, não se lembrava dela,
pois já tinha morrido quando ele veio.
O pai dele
verdadeiro, estava muito mal de saúde, por uma vida difícil, por isso chamou o
irmão.
Mas teu avô
queria teu pai, como filho.
Agora fazia
sentido o que ela tinha escrito nas costas dele, uma das coisas que sabia da
mãe, era preconceituosa, devia odiar saber que estava casada com um africano.
Uma coisa era
certa, nisso ela e sua avô coincidiam, era duas mulheres distantes, nunca se
aproximavam muito dele, talvez por isso, seu avô, bem como seu pai, eram mais
presentes.
Quanta
besteira, verdade tio Nelson, hoje que o mundo inteiro está misturado, ele
mesmo tinha um companheiro na escola que era filho de um diplomata, era
africano, judeu, era o único menino de lá, fez amizade com ele, pois os outros
o ignoravam.
Tai, ia contar
para ele, que ele também tinha raízes africanas.
Os dias
seguintes foram complicados, teve que ir com seu tio a outro advogado, escutar
a leitura de testamento de seu avô, tudo era para ele, não só o apartamento,
bem como mais propriedades, além de aonde estava o escritório, um fideicomisso no
banco para ele terminar seus estudos.
Seu pai, não
tinha testamento, segundo tio Nelson era jovem para pensar nisso, nunca lhe
passou pela cabeça terminar assim, estava sim resolvido, devido aos últimos
acontecimentos, se divorciar dela, o problema que ela tinha gastado toda sua
fortuna pessoal em besteiras, jogo, coisas assim.
As tais amigas
ficaram horrorizadas com tudo isso, mas mesmo assim declararam a polícia, que
ela sabia da relação do marido com o socio na empresa.
Quando tio
Nelson foi declarar, eu fui junto, ele não escondeu nada, me disse tens que
escutar, já que vais viver comigo.
A única coisa
que meu pai tinha deixado era um documento que se algo lhe acontecesse, tudo do
escritório seria do Nelson, bem como a minha guarda, isso ele fez, por
insistência de seu avô.
Tornei a contar
ao inspector, a história do dinheiro do jogo, do quadro, ele perguntou se eu
podia reconhecer o homem.
Me mostraram
várias fotos, até que eu identifiquei o mesmo.
Esse declarou
exatamente igual, que ela era desequilibrada, ia com essas amigas ricas, as
outras eram comedidas, mas ela não sabia se controlar, jogava como uma louca,
havia uma gravação que durante um jogo, aonde ganhava, “vou limpar o casino, finalmente ficarei
livre desse negro”,
Ou seja, já
estava desequilibrada, achava que ia ganhar milhões, recuperar toda a herança
que já tinha gastado, tinha vendido a casa dos pais, bem como o negócio que
tinham o mesmo, torrado tudo em jogo.
Quando fui
procurar o livro que meu avô tinha dado para guardar, mas não estava aonde eu
tinha escondido, como sabia que minha mãe sempre procurava coisas no meu
quarto, fui ao seu, eles dormiam em quartos separados, estava escondido atrás
de sua cama.
Foi quando
comecei a ler, era a história de meu avô como Partisan, bem como depois quando
foi buscar meu pai no Benin, falava do seu irmão, como estava mal de saúde, mas
entendia, a vida que levava era impressionante para ele, acostumado ao conforto
de seu grande apartamento. Vivia numa
choça, com meu pai, feita de galhos ou troços de madeira, cobertas de barro, a
sinagoga era nada menos que um imenso lugar aberto, com telhado de palha.
Mas ele amava
isso, imagine nem banheiro tinha, a muito custo conseguiu convencer o pessoal
de tomar banho, fez um comunitário, aonde existia um espécie de balde com um
chuveiro embaixo, o seguinte tinha que encher o balde, desde um poço que tinha
construído.
Cagar era no
mato, falava o difícil que tinha sido para ele, acostumado as coisas de um homem
da sociedade de Paris.
Entendi quando
ele me disse, quando avisei que ia, que fosse sem preconceitos, aberto, mas é
difícil.
Contava como
tinha se apaixonado por meu pai, que o seguia o tempo todo.
Depois contava
como sua mulher tinha ignorado meu pai desde o princípio. Depois o casamento que arrumou para ele, com
uma parente distante, cuja família tinha se escondido no Marrocos, durante a
guerra, com certeza essa menina tem uma mistura com negros, basta olhar os
cabelos dela.
Era uma
verdade, seu único luxo era ir ao cabelereiro esticar o mesmo, seu tom de pele
era mais para o escuro, mas tinha horror aos negros.
Isso divertia
minha avô, pelas costas a chamava de negra.
Se ela tinha
lido tudo isso, normal que tivesse se desequilibrado, sua cabeça já andava
sobre o fio de uma navalha, se tinha lido esse diário, seria pior.
Seu avô tinha
feito um comentário, tinha se surpreendido que seu irmão tinha se casado com
uma mulata, mas lhe confessou que tinha filhos com outras, mas todos
reconhecidos.
Colocou na
cabeça que teria que ir ao Benin procurar sua família.
Quando acabou a
escola, depois das entrevistas que tinha feito na Sorbonne, tinha resolvido
realmente era continuar na École de Beaux Arts, principalmente depois que
Nelson lhe contou que seu pai, odiava ser advogado, tinha feito para agradar
seu avô.
Tens dinheiro,
siga o que gostas.
Mas resolveu
tirar férias, ir com ele ao Benin, fez contatos por lá, conhecia muita gente,
alguém da embaixada, conseguiu um guia para eles.
Foram em
direção a vila que seu avô descrevia.
O homem que os
acompanhava, lhes explicou que a maioria dos Fulani-Borobo, eram nômades, que
cuidavam de ovelhas, uns eram agricultores, normalmente trabalham para gente
mais rica.
Quando comentou
sobre o que falava seu avô, ele disse que era certo, a maioria das pessoas que
vem aqui, não conseguem se liberar da capa que existe entre uma sociedade como
a de Paris, em comparação como vivem as pessoas nas vilas.
Portanto,
procurem ser o mais normal possível.
A sinagoga,
ainda era como o avô descrevia, mas quem a levava agora, era um negro, disse
que tinha aprendido tudo com seu tio.
Era um senhor com os cabelos brancos, se lembrava de seu pai, sentiu
muito por saber que estava morto, rezaram um Kadish ali, pela alma dos dois.
Disse que quem
sabia realmente de toda a história do Rabino Klein, era a senhora que não era
totalmente judia, mistura o animismo como todos, com o judaísmo.
A mulher quando
o viu, primeiro sorriu, ao saber quem era, riu a bessa, eres a cara do Rabino,
o mesmo jeito de andar, quando vinhas em minha direção, era como vê-lo caminhar
para falar comigo, para me consultar de alguma coisa.
Tinha sempre um
problema, não queria ofender as pessoas, que o consultava, entender essa
mistura de Judaísmo com os Orixás. Tínhamos conversa de horas, sobretudo, tinha
chegado aqui acompanhado de um velho rabino, que implicava com tudo. Ele ao contrário queria entender. Procurou melhorar a vida das pessoas,
conversava realmente com ela, participava da colheita, de tudo que se fazia por
aqui, se tornou um experto em cardar a lã, coisa que faziam as mulheres, mas
era uma maneira dele poder participar das conversas delas.
Foi assim que
conheceu suas três esposas. Mas na
verdade só se casou, aproveitando um rabino que passou por aqui, com a mãe do
teu pai.
Teve filhos com
todas, os reconheceu, mas a maioria foi embora, chamou um garoto que andava por
ali, disse ao mesmo, vá buscar teu avô.
O garoto os
tinha seguido desde que chegaram, tinha o nariz como o dele, tampouco era muito
escuro.
Veio trazendo
um homem alto, muito mais que eles dois, ela os apresentou, o mais interessante
foi que usou seu nome do meio Christo Klein, filho do teu irmão.
O outro o
abraçou o levantando do chão, o garoto se matava de rir.
Apresentou o
Nelson, contou de seu pai, bem como do avô que tinham morrido, vim encontrar
minhas raízes, meus parentes.
A velha lhe
disse, não diga que tens dinheiro. O
homem da embaixada disse o mesmo, vão querer logo te explorar.
Seu tio queria
que eles ficassem em sua choça, mas eles tinham trazido barracas, os meninos
adoraram, ajudar a montar.
O menino se
enfiou na dele, se jogou em cima de seu saco de dormir, dizendo que era macio,
em casa dormimos em cima de forragem.
Na hora não entendeu, até que entraram na choça.
O chão estava
coberto de forragem seca para alimentar animais.
Eles disseram
ao homem da embaixada que ficariam lá uns dias, o seu tio, ia avisar aos
parentes que ele estava lá.
O mais
interessante, era como Nelson, conseguia se comunicar com a senhora, falavam
horas e horas.
Foi ela quem
lhe disse que esse garoto, apontou ao neto de seu tio, Abraham, era inteligente
demais, ali se perderia, que deviam levar com eles, já ensinei tudo que podia,
inclusive ele escreve em aramaico que eu aprendi com o rabino.
Mas era com
ele, que o menino ficava por perto, foi ele quem o ensinou aonde ir cagar, o
mais longe possível da aldeia, sinalizou, aquele lado é das mulheres, assim
disse o rabino, este dos homens.
O que ele devia
fazer depois, na primeira vez foi incomodo, mas depois já nem pensou mais, o
fez normalmente.
O homem da
embaixada deixou seu saco de dormir, o garoto, na primeira noite dormiu na sua
tenda, em cima de um, dizia que dentro fazia muito calor.
Falava com ele,
em francês, em hebreu, que tinha aprendido na escola, com o rabino, o mesmo
dava aulas aos meninos.
Lhe fez milhões
de perguntas sobre aonde ele morava.
Quando escuto as histórias que meu avô conta de seu irmão que foi
embora, levado por o irmão do rabino, para estudar longe, fico com inveja.
Aqui, já
estudei o que podia, agora me tocara, ir cuidar de ovelhas, ajudar no campo,
não é que não goste, mas adoro um livro, as vezes vou escondido a casa do
rabino, ler o que ele herdou de teu avô.
Ou sejam eles
sabiam que seu pai tinha descendentes.
Quando lhe
perguntou, ele disse que a velha, tinha contando nas reuniões que faziam ao pé
da fogueira isso, que ele tinha estudado, tinha filho, um dia virá aqui para se
encontrar.
Ficou de boca
aberta, no dia seguinte, foi falar com ela.
Esta, fez uma
coisa, abriu um círculo no chão na frente dela, desenhou alguma coisa que ele
sem saber por que foi entendendo, depois conseguiria reproduzir, tirou de uma
bolsa que tinha na cintura, pedrinhas, pedaços de metal, conchas minúsculas,
misturou com uma erva seca que tinha nos bolsos, passou pela sua cabeça,
falando em outra linga, depois ele saberia que era Peul, a língua ancestral
deles.
Quando soltou
tudo no centro, algumas rodaram, até ficar em alguma posição, era riu, dos dois
lados tens sangue negro, tua mãe, era uma mistura de raças, judia, misturada
com marroquinos, que por sua vez, tinham sangue negro, mas nunca aceitou isso.
Ele pensou por
isso ao ler o livro, deve ter ficado como louca, seu segredo estava fora de
controle.
Falou isso com
ela, essa pegou uma pedra, muito pequena, disse que essa era a cabeça que
tinha, uma mulher sem muitos estudos, sem saber orientar sua vida, se ofendeu
muitas vezes, pois a mulher de teu avô o fazia de proposito.
Odiava teu pai,
por não ser filho legitimo dela, dizia que seu ventre estava seco, por culpa de
teu avô, então descarregava sua raiva nisso, perturbar seu matrimonio.
Depois foi ela
quem contou a tua mãe, o relacionamento de teu pai, com seu amigo, esse homem
te ama como se fosses seu filho.
Isso era
verdade, ele imaginou que ao ir viver com Tio Nelson, seria difícil, era mais
feliz lá que tinha sido na sua casa.
Os dois tinham largas conversas na pequena biblioteca de seu
apartamento, iam aos museus, discutiam arte.
Serás bom no
que faças, pegou um pouco de água com uma concha de casca de cocô, jogou na
terra, disse para ele apanhar, ficar amassando a mesma.
Nem viu que o
Abraham, tinha se sentado ali ao lado, sem prestar muita atenção, foi apertando
o barro que tinha feito em sua mão, quando viu estava fazendo a cabeça da
senhora, essa ria muito.
Virou-se para o
menino, disse que depois o levasse aonde tinha mais grés.
Seguiu falando
com ele, que seu destino era outro que nada de ir trabalhar nesse escritório,
seu pai não era feliz lá.
Pegou uma peça
de metal, que parecia a ponta de uma flecha, se via que a mesma era velha, a
jogou para cima, a mesma caiu de ponta justo no centro aonde estavam as outras.
Ela soltou uma
gargalhada imensa, ele está contigo, fez um estalo com sua língua, ele viu um
negro imenso, magro, armado como guerreiro, ele cuida de ti.
Com outro estalo o homem
desapareceu.
Abraham, disse que sonhava com esse
homem.
Sim ele é protetor dos dois, foi o
primeiro judeu a chegar aqui, é um Exu, no animismo.
Estará sempre contigo.
Amanhã volte, que agora estou
cansada, sou muito velha para isso.
Disse ao menino que o levasse aonde
tinha falado.
Esse o saiu arrastando pela mão, viu
que o rabino conversava com tio Nelson.
Esse parecia anotar coisas num papel.
O menino o
levou até a beira do riacho que passava por ali, voltou correndo com um balde
velho, cheio de furo, os dois começaram a coletar barro, depois o levaram para
um banco na frente da casa do avô do Abe, como o chamava.
Ele começou a
montar a cabeça do Abe, o usava como modelo, logo estava ali cercado de
garotos, foi fazendo um a um.
Depois os
meninos foram buscar mais barro, ele começou a fazer todos como pequenas
esculturas montando a estrutura, com pequenos galhos que estavam por ali.
Não soube dizer
quanto tempo tinha ficado fazendo isso.
Só escutou a
voz do rabino, dizendo que se ele quisesse cozer, tinham um forno, que faziam
pão uma vez por semana.
As mulheres
correram a acender o mesmo, eles foram levando com cuidado cada cabeça, Abe foi
buscar a da velha, depois colocaram no forno.
Ele sabia o
tempo que deviam ficar lá.
Se sentou depois
desenhando as senhoras, com seus turbantes, cada uma arrumava de um jeito, para
posar para ele.
O rabino
comentou, já conquistastes o teu povo.
Nesse dia quase
noite começaram a chegar carros, eram os parentes Klein. Cada um o abraçava o
levantando do chão, perguntavam se o tinham alimentado mal, pois era mais baixo
do que eles.
Nessa noite, se
sentaram todos na frente da choça do avô do Abe, ficaram falando do que sabiam,
o que faziam, aonde moravam.
Nelson
perguntou como tinha sabido deles.
Um deles a
gargalhada, soltou dizendo que ao som dos Tam-Tam, dos tambores, mas eles não
tinham escutado nada, ele tirou do bolso um celular velho, apertou um botão, o
alarma era o som de um atabaque, se mataram de rir.
Ao saberem da
morte de seu pai, todos rezaram juntos um Kadish por eles.
Queriam saber o
que ele pensava fazer agora, ainda riram que ele precisava pegar sol, para ter
cor.
Quando viram as
esculturas, adoraram, queriam uma deles também.
Ali a luz da
fogueira ele desenhou os mais velhos falando, de aonde viviam, do que faziam,
falavam um hebreu velho, devagar.
Alguns as vezes
voltavam ali para a aldeia, diziam que estava cheias de mulheres velhas que
ocupavam a sinagoga inteira.
O Rabino
aproveitou que estavam todos ali, fez uma cerimônia no dia seguinte, ele foi
buscar a velha, que veio de braço dado com ele.
Nesse dia não
voltou a falar com ela, um deles ainda levou Nelson a cidade, lhe pediu para
ver se conseguia mais lápis, bem como blocos de papel.
Voltaria três
dias depois com o homem da embaixada, com um caminhão atrás.
Traziam bancos
novos para a sinagoga, bem como material para montar um telhado novo.
Os meninos
ficaram loucos quando viram o pacote de blocos de papel que ele tinha trazido,
comprei tudo que estava na loja.
Os blocos
pequenos, deu para o Abe, que compartiu com os outros.
Ele seguiu desenhando
e fazendo com os meninos esculturas, os ensinou como tinha que ser.
Os mesmos o
arrastaram, até um lugar, mais distantes, ali vivia um velho que fazia
esculturas de madeira, ficou louco, perguntou se vendia, quando tenho bastante,
levo ao mercado de Cotonou, vendo para algum turista dizendo que são velhas,
lhe explicou como fazia para ficarem com jeito de velha.
Mandou que as
cheirasse, tinham um cheiro ácido, ele chamou os meninos para o ajudarem a
desenterrar algumas, as colocava no lugar que iam mijar.
Ele se matou de
rir, tinha entendido.
O homem lhe
perguntou, se ele já tinha trabalhado em metal, pois seu trabalho era muito
rudimentar.
Ficou dias lá
com esse homem trabalhando, os meninos conseguiam pedaços de metal para
eles. Sem querer estava tendo aulas do
que não tinha ainda prendido na escola.
Terei que
conseguir um studio quando volte, aonde eu possa trabalhar, na casa do Tio
Nelson isso não era possível, sentiu que um mundo novo se abria para ele,
conversaria com seu tio, algum dos locais que o velho o tinha deixado, não
tinha prestado muita atenção na leitura do testamento deste.
Tio Nelson
apareceu, com o rabino, andavam sempre juntos, vieram ver o que eles estavam
fazendo, os meninos todos estavam ali o tempo todo.
Soube que dois
dias depois apareceria como uma feira na vila, aonde uns comerciantes judeus
traziam coisas para vender, panos, roupas para os homens que usavam como um
camisão imenso, cheio de estampas, bem como sandálias, coisas para os garotos.
Chamou Abe a
parte, lhe deu dinheiro, que tinha trocado quando chegou, vais comprar para
teus amigos, uma camiseta para cada um, bem como para ti, ok.
Podemos comprar
chinelos também, sim, falou com Nelson, que tinha mais dinheiro, deu para eles.
Ele só ficou de
longe desenhando esse mercado, as mulheres faziam uma coisa, escolhiam o
tecido, vinham mostrar para eles, se gostava.
Uma se sentou
na frente dele, disse que tinha que ir a um casamento, o que pensava, fez com o
tecido um turbante, ele a desenhou, assim, mostrou para ela, que ria muito,
disse que se podia fazer outro para ela.
Ele fez, desta
vez com lápis de cor, ela correu para mostrar as outras, o final parecia ter
desenhado todos dali.
Como sabia que
o homem das esculturas, usava panos no corpo, comprou alguns, o mesmo para ele,
a partir desse dia, usava como os homens dali um pano em volta da cintura.
Era mais fácil
para ir cagar.
Nelson se
matava de rir, pois quando ia cagar os garotos diziam para tampar muito bem
pois fedia mais que os deles.
O via
conversando muito com o avô do Abraham, lhe perguntou o que estava fazendo, ele
não tem família, só o avô, quero levá-lo conosco, mas o velho tem que ir a
Cotonou, para fazer os papeis, estamos esperando um que vem com o carro velho, para
irmos.
Não pode ser em
teu nome, pois eres aparentemente jovem demais para se responsabilizar por ele.
Foram para
Cotonou, com uma lista imensa feita pelas mulheres, era uma caminhonete, os
dois foram em cima, além do homem das esculturas, levava muitas para o mercado.
Disse que ia
comprar metal, para aproveitar que ele estava lá, para irem trabalhando.
Quando viu as
férias já estavam acabando, os papeis chegaram justo na véspera, mas não tinham
falado nada com o Abe, pois o poderia excitar.
Ele passou os
dois últimos dias se dividindo entre a velha, e o escultor, para descobrir no
final que ele era filho dela.
Levava com ele
as que mais tinha gostado de madeira, para dar de presente ao professor da École
de Beaux Arts, sabia que ele adorava isso.
A tiracolo,
embarcaram com o Abe, que estava com medo, se sentou no meio deles, segurando a
mão dos dois.
Uma aeromoça,
perguntou quem era seu pai, ele disse como o avô tinha ensinado, o Nelson.
Esse ficou todo
orgulhoso.
No aeroporto
tiveram alguns problemas, mas quando viram os documentos que a embaixada tinha
dado, ficou tudo bem.
Abe já estava
com medo de ter que voltar para casa.
Não, agora tua
casa será aqui conosco.
No dia
seguinte, foram comprar roupas, ir ao médico, fazer exames, para não o
assustar, fizeram os três, o que foi bom, Nelson tinha um pouco de anemia,
devido a mudança de comida.
Tenho que me
cuidar, agora tenho um filho, como sempre sonhei.
Todas as noites
ele ia ao quarto do Abe, para coloca-lo na cama, mas de manhã o garoto estava
no chão.
Ele viu com o
Nelson, existia uma espécie de loja, que estava fechada, seu avô a tinha
comprada de um judeu conhecido, que a vendia para repartir dinheiro com seus
filhos antes de morrer, foi olhar a mesma com os dois, ali seria seu studio.
Mas ia para
casa todos os dias, seu professor adorou os presentes, disse que quando ele
fosse de novo iria junto.
Agora todas as
férias iam para lá, mas nas férias grandes, saiam de Paris, com neve, para
chegar lá com calor.
O professor ia
sempre, ficava hospedado na choça do escultor, trabalhando com ele.
Abe guardava
todo o dinheiro que sobrava de sua mesada, para comprar coisas para seus
amigos, chegava lá se vestia como eles, Nelson dizia que parecia que tinham
soltado uma cabra no campo.
Ele ia logo se
sentar com a velha, ria muito com ela, pois essa avisava o pessoal que ele
voltava.
Nelson estava
sempre com o rabino, esse ano, iam aumentar a sinagoga, bem como fechar uma
parte da mesma, lhe trazia, todas as coisas que usava um rabino em Paris.
Pois as que ele
tinha herdado do avô de Christo, eram velhas demais, para usar.
Um final de
semana a rádio Tam-Tam funcionava, apareciam todos, faziam uma grande festa, de
noite sentados em volta da fogueira.
Teve um ano,
depois que ele fez sua primeira exposição, ajudado pelo professor, que ele
trouxe catálogos, tinha exposto pinturas, bem como pequenas esculturas, feitas
a partir dos desenhos de lá.
Deu um para cada
família, mas um em especial para a velha, para seu filho escultor.
O queria
convencer de ir com eles, mas disse que não seu lugar era ali, quando ela
morra, tenho que substitui-la.
Quando ela
morreu, ele sonhou com ela, sabia que tinha partido.
Abe tinha
espichado, agora estava preste a ir a Universidade, vinha conversar com ele, no
studio, para não falar na frente do Nelson.
Não queria
estudar direito, tinha ido uma vez com ele a casa dos pais dele, que eram muito
velhos, não aceitaram muito bem esse neto negro, bem como que ele cuidasse do
filho do seu antigo amante, sabiam tudo sobre ele.
Nelson como era,
os mandou a merda.
Disse o que
pensava fazer, passarei a administrar somente tuas coisas, teus contratos de
exposição, teus bens, ele na verdade nem sabia direito o que eram.
Quando Abe
descobriu o que queria fazer, estudar literatura, para poder escrever a
história de seu povo, ficou encantado.
Nelson apoiou
incondicionalmente, tens que fazer o que sonhas, pois, a vida é tua.
Na verdade,
tinha sido para os dois um pai, que nunca tinham tido.
Sabiam que a
senhora tinha morrido, esse ano, ficou surpreso, na choça dela agora vivia o
escultor, agora ele cuidava de atender as pessoas como ela fazia.
Ela me preparou
desde pequeno, mas me permitiu enquanto fosse viva, que eu tivesse essa parte
minha de fazer esculturas.
Agora ele
sentava-se com os garotos falando dos Orixás, as vezes os misturava para eles
entenderem com a mitologia hebreia.
Ele achava isso
o máximo, se sentava ao lado escutando, ia desenhando tudo como via o outro
falar, sobre os personagens que apareciam nos livros da sinagoga.
Nelson como
sempre, ajudava o rabino a melhorar a vida da gente ali.
Tinham comprado
para o mesmo, uma caminhonete de segunda mão, velha, mas que funcionava, para
ele poder se mover, até aonde estavam os outros filhos como dizia, se referindo
aos judeus que não podiam ir a sinagoga, um velho sonho dele.
Nelson ia
junto, acho que se teu pai estivesse aqui, ou ia renegar, talvez acompanhar, eu
prefiro essa última hipótese.
Ele fez uma
exposição, sobre as histórias que o escultor contava, com o dinheiro que ganhou
a respeito, no ano seguinte gravou essa história, para o Abe, que escreveu
sobre as mesmas, ele fez todos os desenhos do livro.
Trouxeram para
os meninos, editaram em francês e hebreu, as crianças adoravam. Mas o melhor
mesmo segundo ele, era escutar o mesmo contando, igual era impossível.
Pois ele fazia
os personagens.
Abe tinha um
colega que trabalhava com vídeos, o trouxeram na seguinte, filmou o mesmo
contando todas as histórias.
Fez uma coisa,
montou tudo como se fosse um desenho animado, mas antes passou ali na vila.
Depois foram de
aldeia em aldeia com o Rabino, apresentando de noite para os meninos, mas quem
mais gostavam eram os adultos, viam no desenhos, as histórias que tinham
escutado desde crianças.
Anos depois
quando Nelson morreu, pediu que trouxesse suas cinzas para ficar na aldeia,
sonhei avida inteira, estar ao lado de teu pai, mas comecei a viver meu sonho
particular, no dia que te acompanhei a vila.
Deixou de
herança, dinheiro para o Rabino, ir melhorando cada vez mais a vida das pessoas
dali, agora tinha um dispensário, na verdade um lugar, que vinha um médico, que
tinha estudado graças a eles, como uma enfermeira, uma garota dali que tinha
aprendido.
O melhor foi
que Abe, resolveu vir dar aulas numa escola de Cotonou, seguia escrevendo sobre
o seu povo, pesquisava a respeito, como tinha chegado a serem judeus.
Ele depois de
várias exposições de sucesso, vendeu o apartamento do avô, antes vendeu as
obras de arte, depois de vazio vendeu o mesmo.
Construiu um
imenso studio ali na vila, aonde ensinava os meninos a trabalharem, no início
passava um tempo, até que resolveu ficar para sempre, voltava para casa,
segundo ele.
Mas seu grande
prazer era sentar-se com o seu amigo, conversarem, um dia descobriu que esse o
vinha preparando para ficar no seu lugar.
Sentou-se com o
Abe, para decidirem o que fazer, ele já não voltaria para Paris, dois rapazes
dali, estudavam para rabinos em Paris, viviam no antigo apartamento do Nelson,
foi o único que mantinham.
Um deles veio
trabalhar com o velho rabino, esse satisfeito dizia que graças ao seu amigo
Nelson tinha realizado os sonhos de melhorar a vida de seu povo.
Ele agora
conversava muito com seu Exu, sentava-se no meio da floresta com ele, para
receber ensinamentos, as pessoas perguntavam por que não tinha ninguém.
Ele mesmo se
perguntava isso, tinha tido aventuras com homens, mulheres, mas nunca tinha
durado mais de alguns dias.
Um de seus
parentes, que viviam em Sahel, no Senegal, um dia apareceu, se olharam, o outro
tinha dois metros de altura, era negro como a noite, foi ficando, Abe ria, pois
dizia ele gosta de ti, até que um dia experimentaram, agora vivia ali, ajudando
os dois rabinos, o jovem e o velho.
Abe tinha se
casado com uma das garotas da vila que tinha saído graças ao Nelson para
estudar, agora era professora de garotos como tinha sonhado.
Estavam sempre
juntos.
Ele agora
adorava fazer esculturas de madeira, dentro das histórias que seu amigo
contava, fazia todos os personagens, tinha um galerista de Cotonou, que vinha
buscar seus trabalhos, quando sabiam que era de um famosos de Paris, todos
queriam comprar.
Ele foi levando
a vida, sabia que um dia teria que assumir o lugar do outro escultor, seria o
que entende tudo entre o animismo, o Judaísmo, a mistura dos dois.
As vezes se
sentava na beira da floresta, tinha largas conversas mentais com seus mortos,
agradecia o que tinham feito por ele.
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