MORRO DE SANTA MARTA
Era aonde morava com sua avô, na verdade
era ela que chamava esse lugar assim já estava quase no alto do Morro de Santa
Marta, para não dizer favela.
Ele sempre saia por cima, era militar, da polícia
Militar, tinha estado fora do Pais anos, sendo polícia militar da ONU, devia
isso ao seu padrinho, segundo alguns um homem poderoso, dentro dos comandos
militares.
Por isso tinha subido, agora estava
trabalhando com a polícia Militar no Aeroporto do Galeão, esperando que o
chamassem para outro lugar.
Tinha estado no Haiti, em vários lugares da
Africa, enfim, não podia se lamuriar.
Vinha economizando dinheiro a anos, para
comprar um apartamento para levar sua avô que o tinha criado desde um bebê.
Ele era a típica história que acontecem
todos os dias.
Um dia apareceu na sua porta, um dos
traficantes, trazia uma garota, não devia nem ter 12 anos, estava parindo, ela
a colocou para dentro disse, que trouxesse um carro para a parte de cima,
tinham que ir para um hospital, mas qual nada a garota já estava parindo.
Mal sai, aprontei um berreiro colossal, me
limpou, cortou o cordão umbilical, mas quando olhou minha mãe, já estava morta.
Disse ao homem, a leve daqui, diga ao filha
da puta do teu chefe, que tome atenção, pois estou na sua intenção.
Nem sei como conseguiu, me levou para minha
avô, essa estava acostumada, tinha criado muito filho de gente fina na vida,
logo encontrou uma maneira de me alimentar, as duas não me pergunte como
conseguiram me registrar, eu era como filho de mãe Dalva, fui registrado como Castro
Neves, nada de primeiro nome, sempre seria assim, pai desconhecido.
Sua avô era irmã de Dalva do Obaluaye, uma
mãe de santo que estava velha como sua avô, mas era impressionante sua
sabedoria, foi ela que o apresentou ao seu padrinho, um filho de santo dela,
que estava sempre a consultando.
Acabava de colocar a bota, quando escutou
tiros, pegou sua avô a arrastou para seu quarto que ficava nos fundos, ela
reclamando, meu filho se tivesse que morrer, já tinha partido a tempos.
Ele pegou sua arma, verificou se estava
pronta para usar, abriu a porta do barraco devagar, um tiro, a bala passou
raspando pela sua cabeça, ficou encravada no portal.
Olhou mais para baixo, lá estava um da polícia
militar do posto acima na montanha, correu até ele se arriscando, mas estava
morto.
Quando se virou ainda viu o que tinha
atirado, não o conhecia dali, foi cortando caminho pelas ruelas, isso ele
conhecia o lugar como a palma da mão, de garoto tinha corrido muito por aí,
estava acostumado a correr com a bota pesada do exército.
O pegou um pouco mais acima, o mesmo tinha
parado um momento olhando de um lado ao outro, parou para respirar, estava
ofegante, ainda pensou, esse filho da puta não é daqui.
Quando o sujeito sentiu, já estava em cima
dele, lhe deu um soco forte, o mesmo deixou a cabeça de lado, não era por nada,
ele era campeão de boxe de sua unidade.
Colocou as algemas no sujeito, foi subindo,
achou estranho, não ver nenhum policial, quando chegou ao posto, ficou com a
boca aberta, estavam todos mortos, em posição grotesca, a radio não parava de
chamar, ele foi até a mesma, se identificou, disse quem era, o que tinha
acontecido, enfiou o sujeito na única cela que tinha ali, parecia uma jaula,
não viu chave nenhuma, fechou a mesma com várias algemas que encontrou.
Nem dez minutos depois, escutou as sirenas
dos carros chegando, com os que vinham, eram muitos, um deles ele conhecia, era
um coronel, não ia com a cara do mesmo.
Disse o que tinha visto, não sei quem é
esse sujeito, desceu com dois soldados e o pessoal da ambulância, em volta do
soldado, estavam vários garotos.
Chegou-se um deles, disse baixinho, diga ao
Nando que preciso falar com ele, mas silencio.
O garoto foi se afastando, subiu correndo
pelo outro lado.
Foram subindo com o soldado.
Tudo era estranho, o sujeito se negava a
falar, pela janela, viu o Nando, saiu de fininho, fez um sinal, entraram numa
ruela, lhe perguntou quem era essa gente que estava matando ali na favela, se
eram seus homens.
Nada, são de um grupo que quer o controle
da mesma, acham que sem os policiais, podem subir drogas por aí, distribuir
para baixo.
Dona Dalva, disse que eu ficasse de fora, o
conhecia desde moleque.
Nisso o mesmo garoto veio correndo, algo
tinha acontecido com ela, eles dois correram como faziam quando eram garotos
por ali.
Mal chegaram, ela respirava com
dificuldade, tinha levado um tiro perdido.
Nando saiu dando ordens, eles dois a
levaram até aonde estava a ambulância, mas o coronel disse que era para os
militares, ele soltou essa senhora é minha mãe.
Responsabilidade sua, olhou em volta, todos
os soldados o apoiavam, tiraram o homem morto dali, desceram como loucos, ele
disse aonde tinham que levar, ele tinha as duas como suas dependentes, foram
para o hospital da Aeronáutica, mais abaixo, do outro lado no Rio Comprido.
O médico diria depois, mais uns minutos,
babau.
Quando ela despertou ali estavam os dois,
sorriu, e os chamou como sempre Cain e Abel, pois adoravam que ela lhes
contassem histórias da Bíblia, dizia que a mesma era um imenso romance.
Eles como queriam ser irmãos aceitavam, mas
na verdade tinham o mesmo pai, um traficante que durou alguns anos por lá.
Mas cada um seguiu um caminho completamente
oposto, ele policia militar, o outro traficante, verdade seja dita, desde que
estava ao mando a favela estava tranquila, ele ajudava em tudo.
Não sei de aonde saíram esses filhos da
puta, alguns creio que são gringos, mas não tem um lugar fixo na favela, disse
o nome de uma que era conhecida como puta, ela sim os conhece.
Lhe deram um calmante forte a sua tia, iria
agora buscar sua avô, nunca a tinha chamado de mãe.
Fizeram isso num carro de algum homem que
Nando chamou, chegaram ela estava nervosa, o radio favela como chamavam, as
fofocas corriam como loucas.
Ele avisou seu chefe que tinha tido
imprevisto, que não ia trabalhar, que qualquer coisa estaria no hospital da
aeronáutica.
Sorriu, pois sabia que esse encontraria uma
maneira de aparecer, eram amantes a anos.
Juvenal Pereira, tinha entrado por baixo na
policia militar, era um mulato como ele, de dois metros de altura, adorava
jogar basquete, dizia que teria sido um campeão, se tivesse tido oportunidade.
Ele vinha lá de deus me livre como dizia,
no cu de Minas Gerais, nunca tinha perdido a maneria de dizer “uai”, coisas de
mineiro.
Tinham se conhecido no Haiti, nunca mais se
largaram, se tinha que selecionar alguém para uma missão ele era o primeiro.
Estavam loucos para viver juntos, mas ele
sabia que Castro Neves, jamais abandonaria sua avô. Ele também gostava muito de
tia Dalva, dizia rindo que embora ele fosse católico, apostólico, romano, não
deixava de acreditar em tudo que ela lhe dizia.
Tiveram que medicar sua avó, pois ficou
nervosa, nunca tinha visto a irmã em cima de uma cama, foi quando soltou a
língua, se falava muito nesses homens, já tinham matado alguém do bando do
Nando, para provocar uma guerra, mas esse orientado por tia Dalva, tinha ficado
quieto, falou na mesma mulher.
Ele saiu, telefonou para o coronel,
comentou com ele, o que tinha conseguido de informação, essa mulher ao parecer,
sabe quem são.
A pegaram querendo descer o morro com uma
maleta, no fundo tinha drogas, foi fácil prende-la por isso.
Ninguém sabia de aonde tinha saído a mesma,
havia mil histórias desencontradas.
No final do dia, o Juvenal, apareceu,
beijou as duas, que susto hem, perdão por não vir antes, mas sem esse sem
vergonha, tenho que fazer de tudo.
Era uma mentira deslavada, mas ele sabia
que o Juvenal, tinha verdadeiro horror a hospitais, era forte, duro, mas se
fosse tomar uma injeção era capaz de desmaiar.
Ele de brincadeira, soltou, espera que vou
chamar a enfermeira, acho que tens que tomar uma injeção, as duas se mataram de
rir, pois sabiam da história.
Isso é golpe baixo, disse Juvenal as
gargalhadas.
A enfermeira apareceu, que bagunça é essa
no meu andar, mas quando viu mãe Dalva foi beijar sua mão.
Minha mãe, o que foi que lhe passou, podem
deixar que eu cuido dela, depois rindo soltou, vai ser uma guerra, fazer essa
senhora ficar quieta.
Foi até a janela, o bairro que se via dali,
ele gostava, disse isso para sua avó, podíamos viver aqui.
Nada disso, eu não vou ficar longe da minha
irmã, terão que tirar as duas com os pés para frente, lá do morro.
Eles iam levar sua avó para casa, não tinha
idade para ficar ali, a noite inteira como queria, Juvenal a levaria, ele
ficava.
Nessa noite sua tia, segurou sua mão, creio
que chegou a hora que deves tomar o cargo que te toca.
Ficou olhando para ela, desde criança ele
via os Orixás, sabia que um dia lhe tocaria, como ela dizia que não se
preocupava por ele, nas idas ao exterior, porque sabia que seu Exu Bara ia com
ele, desviaria todas as balas.
Ele de gozação com ela, dizia então tenho o
corpo fechado.
Deixa de falar besteira menino.
Mas era verdade, tinha estado em muitos
apuros, mas sabia que seu Orixá o cuidava.
Sabia que esse dia chegaria, teria que
deixar tudo, para cuidar da casa de santo, aonde tinha nascido.
Tinha sido ele que tinha feito o homem
levar a garota até lá.
Nunca descobriram quem era a mesma, pois
nenhuma família falou nada, quando apareceu seu corpo mais abaixo, lhe deram um
enterro isso sim, uma cova rasa, no cemitério de Jacarepaguá.
Mas nunca tocaram no assunto com ele.
Sabia sim que Nando no fundo era seu irmão
filho do mesmo pai, mas ao contrário dele, este não gostava de estudar, dizia
simplesmente, o meu destino está traçado, vou trazer paz para esse lugar.
Tinha uma coisa, tinha poucos homens, não
permitia que nenhum deles usasse os garotos da favela, tinha que sair por cima,
escondido da policia militar, levar drogas para outro lugar, nem tinha armazém
nada ali, só vivia, escutava todas as reclamações, fazia qualquer coisa para a
favela melhorar.
Até tinha aparecido no vídeo que Michael
Jackson tinha filmado numa laje por lá, dizia de gozação que um dia seria ator
de cinema.
Adorava seu irmão, por isso fazia tudo para
protege-lo, é um soldado, mas moloide, imagina vive com esse outro, um mineiro
ainda por cima.
Juvenal vivia no quartel, dizia que
economizava para comprar um apartamento para os dois.
Mal sabia que ele nunca poderia ir embora
dali.
Tirou férias, passou 10 dias com Tia Dalva
no hospital, os médicos diziam que ela não se cuidava, era uma verdade, dizia
que o corpo material, era velho, mas que ela era jovem por dentro.
Nesses dez dias, ela o foi orientando como
devia fazer, lhe disse aonde tinha dinheiro escondido, recebia uma pensão do
governo, pelos anos que tinha sido enfermeira, a partir de agora tua vida muda.
No sábado ele subiu, foi até lá, as filhas
de santo estranharam, ele chegar vestido de branco, com uma guia de Exu
atravessada no corpo.
Disse que ia assumir o lugar da tia, por
uns tempos, assim ninguém ficava ao leu.
No mesmo dia, se sentou, deixou que o Exu
Bara, lhe orientasse ao jogar búzios, com as coisas de sua tia.
Foi direto ao assunto com um homem que o
vinha consultar, disse o que o mesmo tinha que fazer.
Mandou chamar dois homens, disse que iam
arrumar o terreiro, a casa dos Orixás estava meia abandonada, era interessante
a propriedade, ia até a mata, ali havia uma mangueira imensa, que era o Iroco,
se sentou ali, rezou pedindo orientação.
Entendeu que ela iria se apagando aos
poucos, não sairia do hospital.
Quem não gostou foi o Juvenal, que esperava
que fossem viver juntos, já tinha contado para ele sua história, sabia disso,
que tinham lhe dado tempo para viver fora dali, mas que chegaria sua hora.
Assim dias depois nasceu pai Neves, ele fez
uma senhora obrigação, antes de assumir tudo, passaria a viver lá.
Usou seu uniforme pela última vez, no dia
que foi pedir baixa do seu cargo, receberia uma pensão não muito grande, mas
daria para viver, tinha dinheiro economizado no banco.
A partir desse dia, só se vestia de branco,
mas era uma pessoa pratica, usava calças jeans brancas, camisetas, sempre com sua
guia, de Exu, no corpo.
Juvenal subia para ficar com ele, mas não
se acostumava, tinha sonhado em viverem juntos, um dia disse que tinha que
pensar, ia numa missão da ONU, quando voltasse falariam.
Quem aparecia de noite para conversarem,
era o Nando, ria, quem diria, pai de santo.
Ele sabia de toda a história, mas adorava
soltar isso.
Cala a boca, nem mais um pio, seu Nando.
Ficavam os dois ali sentados no fundo da
casa, olhando para a floresta, ninguém mexia ali.
Ele um dia disse ao irmão, estás
preocupado, verdade, jogou para ele, sabia que um outro grupo queria o espaço,
eram muitos jovens ali para vender drogas.
Nando era quem impedia. Um de seus homens
queria o lugar.
Ele lhe disse uma coisa, porque não
desapareces, devias experimentar outra vida, nunca tentaste.
Dias depois, o Nando, primeiro apareceu com
uma caixa de metal, negra, disse que ali tinha muito dinheiro, depois desceu um
dia com ele o morro, foram a um banco em Copacabana, aonde o fez assinar
documentos, se acontecesse alguma coisa o dinheiro era dele, para usar ajudando
o pessoal do morro.
Tinham enterrado a caixa de metal, por
detrás do Iroco, pediu licença para isso. Ninguém viu nada, afinal era uma
noite sem lua.
Dias depois, mataram o Nando, ficou uma
fera, se enfrentou ao que queria seu lugar, disse que isso nem pensar, tinha
acabado essa história de bandidos no morro.
Meu irmão foi o último, armou uma arapuca,
com os policiais militares, cada um que queria o lugar, acabava preso, passaram
a respeitar, afinal ele não era qualquer pai de santo, era filho de exu Bara.
Ele ficou arrasado com a morte do Nando,
pior que dias depois um garoto que ele tinha colocado para viver com sua avô,
subiu correndo, tinha morrido durante a noite, como ela dizia sem dar trabalho.
A enterrou ao lado da irmã, foi uma
cerimônia bonita, as duas tinham sido as mães que ele não teve.
Juvenal apareceu quando voltou, tinha
ficado sabendo da morte de sua avó, veio dar os pêsames, mas viu que tinha
perdido seu lugar.
Não no sentido de amor ou sexo, ele estava
totalmente voltado para sua obrigação, com seus filhos de santo, com o pessoal
que subia até ali para falar com ele.
Alugou a casa de sua avó, para uma família,
levou o garoto para viver com ele, ninguém sabia de aonde tinha saído o mesmo,
mas tinha uma coisa, se virava para ele, quando pensava em escapar para correr
pela favela, dizia, murcho, ele me diz que tenho que ficar aqui.
Ia a escola, todos os dias, limpo, ele era
pior que sua avó nisso, o garoto Melchior, reclamava, ela era dura, tu mais
ainda.
Ele ria dizendo fui militar, isso é como um
quartel.
Juvenal o ajudou a adotar o garoto, gostava
dele também, esse tentava enrolar o mesmo, acabava dizendo esses militares, são
duro na queda.
Agora se chamava Melchior Neves, quando
alguém perguntava, enchia o peito, dizendo seu nome completo, filho de Pai
Casto Neves, bem como de Exu Bara.
Ia a uma escola lá perto, um dia a diretora
o chamou, desceu pensando o que esse garoto aprontou.
Mas ficou surpreso, ele tirava as maiores
notas da escola, se aborrecia nas aulas, era bom em tudo, queriam saber se ele
autorizava uns testes para saber em que encaixar o mesmo.
Quando saiu os resultados, ele desceu outra
vez, ficou surpreso, tinha um QI, altíssimo, estranhou estar ali, uma senhora
que ele conhecia, era diretora da Escola Alemã Corcovado, lá foi o Melchior
estudar lá, lhe comprou roupas adequadas, mas lhe dizia sempre, nunca despreze
teus amigos que não podem estudar lá.
Juvenal acabou comprado um apartamento como
sonhava, ali mesmo em Botafogo, era pequeno, tentava atrair o Pai Castro para
viver com ele, mas esse ria dizendo, homem já falamos no assunto.
Ele achou melhor, pois viu o Melchior
sofrer bullying, isso tinha acontecido com ele, o deixou ir viver como Juvenal,
mas subia sempre com ele, nos dias de gira, ou para matar a saudade de quem
considerava seu pai.
Agora vinha o pior, chegava o momento dele
ir à universidade, tinha dinheiro guardado para isso, todas suas economias,
além do dinheiro do seu irmão Nando.
Mas a diretora da escola o chamou, lá foi
ele, costa abaixo como dizia.
Ela sem que o Melchior soubesse, lhe tinha
feito provas para uma bolsa de estudos, ele era o melhor aluno da escola,
inclusive em alemão, as línguas para ele eram fáceis.
Tinha conseguido uma bolsa de estudos para
ele, em dois lugares, podia escolher Berlin ou Munich, ela era dessa última, lá
é uma cidade menor, talvez seja melhor, além de que tenho um irmão professor
lá, pode cuidar dele.
Disse que ia pensar, mas antes, ficou
cismando, porque o Exu Bara não tinha falado nada.
Se sentou olhando o Iroco, viu sair dele,
um negro magro, nunca o tinha visto ali.
Riu muito, pois ao lado apareceu o Exu
Bara, foi lhe explicando, esse Orixá, vem de uma terra diferente, foi escravo
de um coronel alemão, que o matou, sabe se colocar lá, ele irá junto com o
Melchior, afinal ele é o exu que vai seguir com ele toda a vida.
Nisso chegou o Melchior com o Juvenal,
correu até os dois, começou a conversar com eles em Yoruba.
Veja Juvenal esse menino é mais completo
que eu, fala melhor Yoruba do que eu possa falar, entende dos Orixás como nada.
Um dia descobriu como ele tinha ido parar
lá, vinha num ônibus, sua mãe estava até a alma de drogas, morreu dentro do
mesmo, parou ali na frente da favela, ele foi subindo até a casa de tia Dalva,
levado pelo Exu Bara, tinha encontrado aonde viver.
Nunca mais falou nessa mãe que vivia nas
drogas, nem sabia o seu nome.
Como ele era branco, anos depois Juvenal,
fuçando os jornais da época, descobriu quem era, uma estudante que tinha vindo
da Alemanha, que tinha se deslumbrando com a falsa liberdade do Rio de Janeiro,
tinha caído rendida, a um homem, que depois de menino nascer a colocou para se
prostituir, mas ninguém sabia quem era.
Os dois preparam direito o filho, como
chamava o Melchior, iria com outros dois para a Alemanha, só que os dois iriam
para Berlin, ele para Munich.
O irmão da diretora o iria buscar em
Berlin.
Agora descia toda semana a determinada hora
para falar com o filho, este tinha descoberto na universidade um senhor que
dava aulas de Yoruba, era da Nigeria, o coitado estava quase desistindo, mas
agora tem mais alunos.
O exu foi trazendo gente para perto dele,
ele entendeu quando me viu.
Tinha sempre uma novidade para contar.
Tirava boas notas, quando foram a sua formatura anos depois, ele tinha bolsas
de estudos para Doutoramento para vários lugares, mas primeiro queria ir a
Nigeria com seu professor, os dois se incorporaram na viagem.
O professor foi com eles para o Brasil, Melchior
foi fazer uma pós graduação em Paris.
Ficaram preocupados, de uma cidade
relativamente pequena para uma grande, mas esse os sossegou, se não fiz nada
demais lá, não vai ser agora, ele na verdade se abria muito com o Juvenal.
Não se atrevia falar de sexo, aventuras com
o pai.
Juvenal ria, dizendo que se pai quisesse,
veria nos búzios.
Ele nunca faria isso, leva a sério o jogo,
pode perguntar por minha saúde, mas não com quem tenho sexo.
Era uma verdade, Castro jamais fazia essas
coisas, havia que respeitar a intimidade de seu filho.
Por isso quando lhe falou de um amigo por
quem estava apaixonado, só lhe disse, escute teu Exu.
Juvenal depois lhe perguntou, se quando
tinham começado, ele tinha consultado o seu.
Rindo respondeu que nem perguntei, foi ele
quem falou que tu eras um tipo sério.
Nos dias que ele descia para conversar como
filho por internet, ficava para dormir, o Juvenal adorava, matava as saudades
de seu homem.
O professor depois de um tempo no Rio, foi
para Salvador dar aulas por lá.
Dizia que a maioria dos pais de santo,
pensavam que falavam o Yoruba, mas era uma pantomina.
Quando finalmente Melchior voltou, veio com
seu companheiro, riram muito, pois pensavam num francês, branquelo, olhos
azuis, loiro, nada era um africano, nigeriano,
Tudo tinha começado por causa do Yoruba.
Esse veio para ficar, Melchior logo
conseguiu um cargo de professor, fez concurso, foi se professor do fundão.
Mas claro, nos finais de semana, para ele
era sagrado estar na casa de santo, que sabia um dia séria sua.
Vivia com o namorado na casa do Juvenal, mas
quando ele subia, esse ia junto, era uma maneira de ver seu homem, embora se
falassem todos os dias.
Houve uma época que se abriu uma igreja do
reino de Deus, lá no morro, Castro não se preocupou, lhe roubou alguns filhos
de santo, mas quando a coisa apertava era a ele, que corriam.
Jamais fazia críticas, achava que todos
tinham direito a escolher seu rumo.
Juvenal, ao contrário ficava furioso,
porque inclusive o pastor tinha saído de lá.
Ele dizia rindo, era o pior filho que tive
em minha casa, acreditava que me enganava incorporando, mas não tinha nenhum
espirito.
O sujeito se meteu com uma mulher casada, o
marido um homem imenso, lhe deu uma surra de fazer gosto, o arrastou pelado
pela favela inteira.
Mas sempre aparecia outro, todos viviam à
custas das pessoas, ele achava errado, nem cobrava para jogar.
Vivia modestamente com o dinheiro de sua
pequena pensão, sem incomodar ninguém.
Quando o namorado do Melchior voltou para
Paris, lá ele era alguém, esse ficou chateado, foi claro, um dia encontraras um
homem que te ame como o Juvenal, nada é perfeito, tampouco os dois o somos,
imagina até hoje tenta me convencer de ir viver com ele.
Quando o fazia usava todos os argumentos,
que foram melhorando com o tempo, mas afinal ele mesmo ria da estratégia
falida.
Acabou ele indo morar lá em cima, quando
ficou mais velho, a desculpa era que não tinha idade para ficar subindo e
descendo, passou a cultivar uma horta de ervas que Castro usava, ali perto da
floresta, as vezes o via falando com alguém do Iroco, se matava de rir.
Quem diria, quando lhe perguntou, ele
soltou na maior, creio que com o tempo, passei a ver teu Exu Bara, ele me
orienta sobre as ervas.
No apartamento agora só vivia o Melchior,
era interessante, todo mundo comentava, esse menino sempre estava ai para todo
mundo, mesmo como é sério agora, professor de universidade, sobe falando com
todo mundo, perguntando pela saúde, aos velhos quando desce pergunta se
necessitam que suba alguma coisa da próxima vez.
Nenhum dos rapazes que se foram daqui, para
uma vida melhor faz isso, nem sequer volta para saber se os pais precisam de
alguma coisa.
Um dia subindo, ele encontrou um
companheiro de correr pelas ruas da favela, agora era médico, uma vez por
semana vinha visitar os velhos de lá, para saber como andavam, começaram a se
falar, logo estavam juntos.
Exu Bara, riu muito, é como tu e Nando,
pena que ele foi por um caminho errado.
Ele sabia que o problema do Nando tinha
sido, que sabia que seu pai era um traficante de drogas, isso mexia com sua
cabeça, pois sabia que o mesmo tinha dinheiro, mas não ajudava ninguém, ele
quis ser diferente, as pessoas não entenderam.
Imagina um traficante de drogas, não
explorar os garotos dali, os transformar em clientes, contando balelas.
Uma lastima, tentei ajuda-lo, mas ele tinha
seu destino traçado, ajudou muita gente essa é a verdade, mas hoje ninguém fala
dele.
A memoria das pessoas é curta demais, quem
se lembra de Mãe Dalva do Obaluaye, ninguém fala dela mais, algumas velhas se
lembram, mas os outros não, um dia também me esqueceram, pois quem estará no
meu lugar será o Melchior.
Juvenal nunca aceitava isso muito bem, um
dia lhe perguntou, será que alguém se lembra da época que estávamos com os
soldados da ONU, ajudando nos lugares com problemas, evidentemente que não.
Até mesmo o homem que os tinha ajudado,
sendo chefe deles, tinha morrido sem pena, nem gloria, os dois tinham ido ao
seu enterro, tinham dois gatos pingados, como não tinha família vivia num casa
de repouso em Jacarepaguá.
Juvenal agora se dedicava plenamente ao que
fazia, nunca descia para nada.
Adorava ficar sentado na varanda dos
fundos, segurando a mão de seu homem, nos dias de lua se via muito bem o
Cristo, ele dizia, que maravilha, o homem faz coisas maravilhosas, mas não
respeita nada depois.
Um dia Castro estava falando com ele,
sentiu sua mão relaxada entre as suas, tinha morrido sem um suspiro sequer.
Seu enterro foi interessante, muita gente
dali da favela, que deviam favores a ele, os tinha ajudado sem esperar nada em
troca.
Nenhum militar, apesar de terem avisado ao
corpo do qual faziam parte, meses depois chegou uma comenda atrasada da ONU, Castro
colocou ao lado de seu retrato que tinha na sua mesa de cabeceira.
Berto o namorado do Melchior, as vezes
vinha consultar a Castro, sobre algum paciente, que ele achava que tinha era
algum problema espiritual.
Esse lhe indicava o que devia fazer.
Agora cada vez mais o Melchior, subia para
fazer companhia ao pai, ficavam horas falando sobre coisas do passado, as vezes
os dois orixás, se juntavam, os orientando.
Quando Castro, beirava os 70 anos, teve um
enfarte, mas coisa leve, a partir desse momento, Melchior passou a viver lá em
cima, o namorado subia, para estar com ele.
Ajudava um garoto que sempre tinha ajudado
o Juvenal a cuidar na horta, esse era bom estudante, o ajudou a ir em frente.
Castro ria, dizendo a história se repete,
sabia que futuramente esse garoto, seria o substituto do Melchior, era uma
coisa cíclica.
Dizia ao seu Exu, um dia desses vou me
encontrar com meu amado, com minhas duas mães aí do outro lado.
Mas levaria mais dez anos ainda para
morrer, ensinava tudo que sabia ao Melchior, segundo ele, era melhor jogando
búzios que ele, pois entendia melhor o Yoruba.
Um dia foi com o rapaz, o garoto que não
saia de lá, esse o levou até o Iroco, que ele queria ver uma coisa, colocou seu
cadeirão lá, quando voltou, tinha morrido, sorria, com se visse algo na árvore.
Melchior, ajudado pelo rapaz que já era seu
ajudante, além do seu namorado médico, prepararam tudo como devia, uma grande
grupo de pessoas acompanhou até o crematório, não queria ser enterrado, suas
cinzas ficaram ali ao pé do Iroco, um dia o rapaz, foi abrir a mesma estava
vazia. Escutou uma gargalhada, era o Exu
Bara, ele está aqui conosco.
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