DANTE

                                                 

 

Se podia dizer que a partir de seu nome, nada nele era real, a não ser sua própria pessoa. A muito tinha escapado da Sicília, dizia como tinha escutado de um português falando, “faz tanto tempo, que nem sei se é verdade”.

Agora no alto de seus 85 anos, tinha a sensação de que estava fazendo um balanço de sua vida, olhando o mar que adorava.

Era um garoto, devia ter uns cinco anos de idade, quando o foram buscar no orfanato aonde vivia, ele de uma certa maneira era diferente de muitos garotos que estavam ali, tinha a pele mais morena, talvez uma mistura com Argelinos, ou mesmo negros, seus olhos era um destaque eram verdes brilhantes.

Os que o levaram era dois homens imensos, foram, para o interior, mas atrás de Palermo, não sabia direito pela idade, ter estado sempre no orfanato, aonde era.   Sabia só da capital, porque a freira sempre falava isso.

Foram parar num campo, no outro dia o chamaram a seis da manhã, mas ele já estava em pé, com a cara lavada, tinha lavado os dentes colocando a pasta nos dedos, como fazia no orfanato, a roupa era a mesma, mas tinha passado um pano molhado pelo corpo.

Lhe deram café com leite, que para ele era o melhor do mundo, um pedaço de pão, por isso no orfanato levantava cedo, pois mais tarde não tinha nada, talvez um café aguado.

Os homens o arrastaram para o campo, com eles, seu trabalho lhe ensinaram, era recolher as batatas, num carrinho maior do que ele, iam as caixas, lhe ensinaram como fazer, se concentrou sempre era assim, prestava atenção em tudo, já tinha aprendido, foi fazendo o que o homem disse.

Trabalharam a manhã inteira, depois voltaram para a casa, pois o sol estava muito forte, um deles já estava lá preparando o macarrão, isso era a comida de todo os dias, jogou por cima um molho de tomate de lata, nada mais.

O que colocaram no seu prato sumiu, tinha fome pelo trabalho, um deles riu, assim vai crescer rápido, o quanto mais rápido melhor.

Na hora não, entendeu, mas com o passar do tempo sim, queriam um trabalhador braçal, como eles, quando foram descansar, pois o calor era muito, viu que dos dois se jogavam nus na mesma cama.

Foi para aonde tinha dormido, no outro quarto, num colchão no chão.

Depois viu como eles tomavam banhos juntos, no final do dia, ainda trabalhou com eles numa horta atrás da casa, lhe ensinaram a colher os tomates, como tinha que ser, um ainda comentou a velha tinha razão, aprende de primeira.

Chegou um tempo que ele fazia esse serviço sozinho, quando não estavam vendo, colocava um tomate inteiro na boca.

Havia pimentos, cenouras, foi aprendendo, mas a comida sempre era a mesma, verão ou inverno, macarrão, tomate em lata, nada mudava.

Nunca comiam os tomates da horta, era para vender, isso no sábado iam a vila mais próxima, vendiam tudo, batatas, tomates, o que tivessem colhido.

Viu que os dois repartiam o dinheiro, mas com o tempo descobriu aonde cada um escondia esse dinheiro.

A ele não davam nada, quanto muito lhe compraram um sapato para o inverno, bem como uma roupa, mas tudo numa loja de segunda mão, não se importou.

Tinha aonde dormir, comer, nunca reclamava de comer o macarrão que lhe davam, pois os mesmos comiam igual.

Depois escutava a conversa dos dois, quando ficarmos velhos, vamos viver como reis.

Ele não entendia isso, se tinham dinheiro, porque não aproveitar agora, talvez isso tivesse ficado na sua cabeça.

A velhice, havia que ter dinheiro para ela.

Ele não cresceu muito, mas tinha uma coisa, que os dois sempre olhavam o seu piru, era grande para seu tamanho.

Um dia que foram a vila, estava trabalhando, quando viu um rapaz que trabalhava com o vizinho, este estava olhando seu piru, acho graça nisso, o rapaz era bonito, nesse dia perguntou se podia pegar, isso ele tinha visto os dois fazerem, um pegar o do outro.

Disse que sim, queria saber como era, o outro logo colocou na boca, ele gostou, nunca tinha sentido algo assim.

Na vez seguinte, ele disse, vim com o rabo limpo, na hora ele não entendeu, o sujeito se colocou de quatro na terra lhe ensinou como fazer.

Pelos seus cálculos tinha 12 anos, mas hoje podia rir, já estava aprendendo a usar seu documento, como dizia o rapaz.

Isso foi durante um bom tempo, até que o pai do mesmo o viu fazendo isso, fez um escândalo tremendo.

Os viu falando com seus tios, lhe explicaram que quando alguém perguntasse, eles eram seus tios.

Foi então que passaram a olhar, um deles, sempre encontrava uma maneira de passar a mão.

Por vergonha, tomava banho mais cedo do que eles, inclusive no inverno, com a água fria, queria era estar limpo.

Esse rapaz com que ele fazia sexo, falava de seus sonhos de ir para a América, basta conseguir entrar num barco para os Estados Unidos.

Um dia apareceu uma mulher, ficou olhando para ele, depois falou com os dois, porque ele não ia a escola, reclamaram que tinham que trabalhar.

Ela aprontou a maior confusão, agora ia todos os dias na escola, o duro era que depois tinha que fazer suas tarefas embaixo de um sol de rachar.

Mas tinha achado interessante, quando lhe perguntaram seu nome, viu um livro, na capa, estava Dante, ele já sabia ler, o sobrenome ele não sabia.

Pelo menos o fato de não estar de manhã, já chegava, comia seu prato frio de macarrão, sem reclamar, tinha fome, pois ia andando para a escola, lá aprendeu a ler e escrever, descobriu também que existiam outras línguas.

Pois numa turma mais avançada, embora fosse na mesma sala, lhes ensinavam inglês, se tocou que era o que o rapaz dizia, na América falavam dessa maneira.

Passou a prestar atenção, mesmo estando fazendo algum exercício de matemática.

Um dia os dois homens o arrastaram para a cama deles, queriam fazer sexo com ele, saiu correndo, porque um deles tinha enfiado o seu dedo sujo no seu cu.

Nesse dia dormiu em cima de uma árvore, morrendo de medo de cair.

Os dois riam dele, não adianta fugir, ainda vamos conseguir.

Na escola contou quantos anos poderia ter, um dia perguntou a professora, como se tirava um documento, ela disse que era necessário uma certidão de nascimento, lhe deu a sua, que os homens tinham dado, mas era outro nome.  Samuel Cardo.

Cada vez, mais prestava atenção aonde guardavam dinheiro, descobriu aonde tinha essa certidão, fez o cálculo, pelos seus cálculos, ele tinha 17 anos.  Não tinha crescido muito, mas sim tinha um bom corpo, forte, duro, do trabalho braçal.

Um dia só um deles foi ao mercado, o outro o pegou de jeito, imaginou, agora estou perdido, tinha visto os dois fazendo sexo, esse estava sempre sentado em cima do outro.

Foi o que fez, colocou na boca com ansiedade, dizendo que grande é, depois se sentou em cima dele, começou a se mexer, como um louco, urrava de prazer.

Depois o mandou se lavar, pela primeira vez ejaculou.

Escutou o vizinho falando com outro, um dia na estrada, quanto tempo vai durar esse menino, os dois sempre desaparecem quando ficam grandes.

Nesse dia escutou quando voltou da escola, os dois discutindo, como um se atrevia a usar o garoto antes dele, nessa noite dormiu numa árvore mais longe, que tinha descoberto que tinha as ramas de cima mais apertadas.

O escutou os dois o chamando, mas esperto tinha engolido a comida com pressa e desapareceu, nessa noite dormiu mal, começou a pensar, é hora de desaparecer, já tinha escondido em outro lugar sua certidão de nascimento do orfanato.

Precisava era de dinheiro, isso ele não tinha nenhum, no sábado um queria ficar, mas os dois discutiram foram para a vila, ele não teve conversa, os ajudou a carregar a carroça, depois foi trabalhar.

Tomou um banho quando os viu longe, colocou sua roupa da escola que estava limpa, só não tinha cuecas, mas nem sabia o que era.

Pegou as duas latas, as deixou vazia, colocou tudo numa mochila que a professora tinha dado para ele, bem como o último livro que está lhe emprestou.

Em vez de pegar a estrada da vila, foi em direção a estrada maior, a que ia para Palermo, conseguiu uma carona, só tinha uma nota fora da mochila.

Lá foi para o cais do porto, se informou primeiro aonde tirar documentos, depois no cais se informou se precisavam de alguém para trabalhar na carga e descarga.

O homem só fez uma observação que ele comprasse cuecas justas, para colocar esse piru para cima, que chamava muita atenção.

Comprou duas, como uma mulher lhe disse no mercado.

Estava dormindo numa casa velha, no dia seguinte se apresentou ao porto, ajudou a carregar um navio, mas esse ia em outra direção, China, pensou não sei nada do mundo.

Conseguiu os documentos, tirou um passaporte também o homem lhe explicou como fazer, nessa casa abandonada, pelo menos podia tomar banho, o chuveiro ainda funcionava, apesar de estar tudo sujo.

Comprou como os outros estivadores, uma calças jeans, camisetas, não podia gastar muito dinheiro, um dia o da estiva disse que hoje iam trabalhar num americano, o fizeram o dia inteiro, o bom que recebiam no final do dia.

Pelo menos comia, foi quando descobriu que o dinheiro lá era outro, que o deles não valia muito, entendeu aonde tinha que trocar, o fez, a quantidade minguou.

Perguntou se precisavam de alguém a bordo, um homem disse que um auxiliar de cozinha, se ele sabia cozinhar.

Não mas aprendo fácil.

Esta noite, apareça aqui, tens passaporte, ele disse que sim.

De noite foi, o homem o fez subir a bordo, depois dos fiscais terem passado, num último instante, o levou para o cozinha do navio, disse aonde ia dormir, o apresentou ao comandante, esse ao cozinheiro, um negro alto, magro, esse o examinou de cima a baixo.

Vamos ver, se não aprende jogamos pela borda, todos riram.

Mas aprendeu rapidamente tudo como ele queria, ainda limpava a cozinha depois, como o homem gostava.

Quando saíram de Sines em Portugal, o último porto, ele já era mais um de bordo, se levantava muito cedo para tomar banho, assim não incomodava os outros, quando se levantavam, ele já tinha feito o café, bem como tostado pão que tirava de noite do congelador, fazia os ovos como tinham lhe ensinado.

Uma noite de lua estava na lateral do navio, escondido dos outros que faziam muita confusão jogando cartas, quando apareceu um dos homens da máquina, era um negro diferente do outro, era baixinho, magro, o examinou, passou a mão pelo seu piru, o levou para baixo dos barcos salva vidas, abaixou as calças, depois de o chupar, pediu se podia fazer sexo com ele.

Adorou o contato com a pele dele, depois lhe deu uns dólares, claro ele guardou, foi como colocar no jornal, agora cada dia aparecia um, inclusive o próprio cozinheiro.

Quando o comandante descobriu, também queria, mas o levou para seu camarote, o homem era mais velho, parecia ter mais experiencia, foi o melhor deles todos.

Sabia beijar bem, lhe ensinou como fazer mais coisas.

Agora faltava uma semana para chegarem, foi quando lhe disse que ele precisava de um visto de entrada, terás que continuar no navio.

Perguntou para o cozinheiro.   Esse se matou de rir, ele não pode descer, pois tem problemas aqui, uma mulher que ele deve dinheiro da pensão, o barco tem bandeira da Libéria, assim a bordo ele fica livre, mas não se preocupe, desces comigo, arrumarei um jeito.

Ficou deslumbrado quando entraram no porto de NYC, dito e feito, o comandante o queria prender no seu camarote, mas conseguiu escapar, desceu no meio de todos os que iam passar o dia em terra, saíram de fininho, ele seguiu seu companheiro de cozinha.

Na rua lhe deu um endereço, essa é a casa de minha mãe, eu tenho que voltar, tenho contrato, lhe deu um envelope, entregue a ela.

O levou até uma estação de metrô, disse aonde tinha que descer, o fez pronunciar direito o nome da rua, o número.

Lá foi o outro embora, ficou um minuto parado olhando para cima, os edifícios, se assustou um pouco, entrou no metro, com um tique que o outro lhe entregou.

Desceu no Bronx, se informou da rua, foi na direção eu o outro tinha escrito.

Teve que esperar, segundo uma vizinha a senhora, estava limpando uma casa.

Quando essa chegou, ficou olhando para ele, lhe explicou que seu filho tinha o mandado trazer alguma coisa para ela.

O fez entrar, a primeira coisa era a cozinha, brilhava de limpa.

Perguntou se queria água gelada, fazia muito calor, ele bebeu rápido, ela colocou mais rindo, devagar.

Depois se sentou do outro lado, começo a ler o bilhete, ele pede que te ajude, é um malandro, se vem aqui em casa, sabe que não o deixo partir.

Mas foi o melhor, seus irmãos morreram todos nas drogas, esse pelo menos aprendeu a cozinhar.

A ajudou a guardar as compras, lhe perguntou se tinha aonde ficar.

Disse que não, que tinha vindo da Sicília, em busca de uma vida melhor.

Ah, o sonho americano soltou ela, falava devagar com ele para que entendesse.

Vou te arrumar uma escola, para falares e escreveres melhor.

Tens roupa para lavar?

Lhe ensinou como fazer, venha, o levou a uma loja na esquina, dessas que vendem de tudo, falou com um homem, depois descobriu que era indiano, perguntou se precisava de alguém para trabalhar.

Perguntou se ele sabia fazer alguma coisa.

Se não sei, aprendo fácil, assim passou um tempo, ia a escola de noite, aprendeu a pronunciar direito, via a televisão, nunca tinha visto uma, a senhora Mirthes, adorava escutar telejornais, via como os apresentadores pronunciavam as palavras, dizia sempre a um que era o seu preferido, esse sim sabe falar, preste atenção.

Um dia na escola, o professor o mandou ler um texto, fez como o apresentador, todos riram, menos este.

Este de novo, lhe chamou a atenção que devia usar cuecas mais apertadas, pois marcava muito seu piru.

Eu sei que é grande, mas parece que estas fazendo propaganda, não me diga que te prostituiu.

Ele nem sabia o que era isso.

O outro lhe comentou que as vezes perdia alguma aluno, que tinha bom atributo, por isso, achavam mais fácil se prostituir.

Lhe explicou o que era, esse sempre lhe conseguia livros, gostava mais do que ver televisão, algumas palavras, perguntava a Mirthes o que queria dizer, como pronunciar.

Ela estava contente, uma parte de seu salário do armazém, ele dava para ela, afinal vivia lá.

Encontrou calças nos fundos do armazém, perguntou ao dono, se não as vendia.

Esse comentou que um irmão dele, que tinha vindo com ele da Índia, começou a vender calças por aí, como legitima, mas eram falsas, não sei em que se meteu, acabou morto.

Como ele trabalhava bem, o homem disse que escolhesse o que quisesse.

Pegou duas, perguntou quanto era, o homem disse que nada.

Comprou mais cuecas, a senhora Mirthes disse que comprassem negras, eram as melhores.

Ele passava por um sobrinho dela, mulato, dizia, pois a pele dele era escura, entendeu quando viu outros como ele, ela explicou por que tinham essa cor.

Foi quando entendeu, que seu pai devia ser negro, ou sua mãe, em Palermo, tinha visto algumas perto do porto se prostituindo.

Um dia o professor, disse que numa escola que ele trabalhava, tinha um teatro, se ele queria experimentar, lhe deu um monte de papeis, presos, foi marcando o que ele tinha que decorar, achou mais fácil decorar tudo, o outro lhe explicou que tinha que falar somente o que estava marcado.

No dia que tinham combinado, um sábado, saiu mais cedo do trabalho, foi lá.

Achou raro, que era mais para o centro da cidade, tinha um cartaz na porta, “Sonho de uma noite de verão” a data da estreia, duas semanas depois.

O mesmo subiu no palco com ele, estava escura a plateia, marcou com ele duas páginas, fazes como te ensinei, imagine que tem muita gente aqui, tem que te escutar, nada de gritar, mas fale bem articulado.

Ele fez como o homem tinha falado.

Tens razão disse uma voz, tem possibilidades.

Sabe o resto do texto.

Sim senhor, achei melhor decorar tudo, ele desceu do palco, apareceu um homem branco como uma parede, com os cabelos vermelhos, quase colocou a mão neles.

Vamos experimentar, contou para ele a história, quem era o autor, isso ele nem tinha ideia, de quem era.

Como não era alto, iria fazer o papel de Punk, o professor lhe explicou.

Estamos passando o texto, porque só agora temos o teatro para ensaiar.

Ele por ter lido tudo, sabia inclusive as falas dos outros, foi entendendo seu personagem, com os outros ficavam fácil.

Atrasaram uma semana, porque uma das atrizes jamais sabia o texto que tinha que falar, ele sim sabia.

Quando um dia o professor John, disse que originalmente na época, só podiam ser homens os atores, então faziam o papel feminino, a entrada dessa atriz era pequena, um dia apareceu drogada para ensaiar.

Ele disse que para não perderem o ensaio, sabia o papel dela, procurou fazer uma voz parecida com a sua.

Como ele não estaria em cena nessa, hora, lhe deram os dois papeis.

Saia, em seguida entrava vestido como ela, fazia sua parte e desaparecia, entrando do outro lado com o seu personagem.

Lhe pagariam mais por isso.

Na estreia, convidou Dona Mirthes, para assistir, ela se matou de rir, pois ele tinha lhe contado quando entraria de mulher.

Os jornais falavam no dia seguinte de um ator versátil, pois ela estava sentada ao lado de um crítico de arte, muito orgulhosa, disse que ele era seu menino, veja como fez o papel feminino, sem errar nada, em seguida entra outra vez com esse personagem engraçado.

Falavam do espetáculo, mas principalmente dele.

Para espanto do professor, seguiu indo suas aulas como se nada, do mesmo jeito trabalhava no armazém, nunca se sabe, como ela dizia sempre para ele, nunca feche uma porta, nunca se sabe.

O professor, lhe deu outros livros de Shakespeare para ele ler, ria dizendo para um estreante, uma obra assim, é bom demais.

Depois fez outra que o professor conseguiu, não ficou muito tempo em cartaz, este dizia que o texto era tonto, mas se saiu bem, de novo o crítico falou dele.  Isso criou um problema com os outros, pois só falava nele.

Depois nada, vê dizia ela, esse mundo é assim, se tivesses deixado teu emprego, agora estaria com a boca aberta por aí.

Nesse tempo, tinha medo de fazer sexo, com as pessoas, escutou insinuações, mas ficou quieto, fazia a cara de não ter entendido.

Mirthes, estava tentando arrumar documentos para ele.

O crítico o indicou para um filme, mas o diretor descobriu que ele não tinha papeis, conseguiu com um policial conhecido dele, o homem o olhou de cima a baixo, mas lhe disse ao ouvido que queria experimentar.

Ele entendeu, mas resolveu mudar seu nome, o homem conseguiu tudo para ele, agora era um americano, passado por baixo da porta como dizia Mirthes. 

Passou a se chamar Dante Brown, pois esse era o sobrenome dela.

Dante era o nome do filho caçula dela, que tinha morrido nas drogas, com 15 anos.

Regulavam de idade, foi fácil, de uma certa maneira ela seria a mãe que ele nunca tinha tido.

Fez o filme, era diferente do teatro, teve que aprender, no mesmo havia um ator antigo, negro, quando o viu com a Mirthes, que queria ver como se fazia um filme, a apresentou ao mesmo, esse passou a ensaiar com ele as cenas.

Foi fácil, ele sabia o texto, as vezes se confundia, pois não seguiam a ordem original do texto.

Mas aprendeu a se apanhar.

Voltou a trabalhar como sempre, pois só tinha pedido um tempo ao homem do armazém, assim, garantia seu emprego.

Mirthes fez com que ele abrisse uma conta no banco, com seu nome novo, guardou tudo que tinha escondido em casa.

Dizia ela em sua cabeça, tens casa, comida nunca falta, o jeito é guardar dinheiro para o futuro.

Isso ficou na sua cabeça, quando o queriam contratar para um trabalho em Hollywood, primeiro falou com ela, acredito que deves esperar um pouco, leia o texto com seu professor, veja o que ele diz.

Este falou a mesma coisa, como sempre querem os novatos, para esses filmes idiotas de verão, te farão andar sem camisa, quiça mostrem teu documento, disse isso rindo.

Eu também acho que deves esperar, além de ter cuidado com os contratos, claro quando lhe deram, foram a um advogado, que lhe explicou se ele assinasse, teria que fazer mais três filmes por um salário baixo.

Entendeu como funcionava a coisa.

Sou jovem pensou, ainda estou começando, gostava da história, mas entre cinema e teatro, preferia o último.

O professor lhe deu um livro, esse é da tua terra, Seis Personagens em busca de um autor.

Será que consigo em italiano, o professor como sempre o conseguiu, foi comparando a tradução, como os livros nem sempre eram dele, foi anotando numa folha a parte, marcava o número da página, bem como a frase, depois fazia nova tradução.

Mostrou para o professor, quem fez isso, fez uma tradução literal, veja esse personagem pronúncia uma frase em dialeto da Sicília, o traduziram de outra maneira.  Quer dizer exatamente o contrário, senão fica sem sentido.

 O professor o levou para fazer o casting, ele meteu na cabeça esse personagem tão siciliano, o fez tranquilamente com outro ator, que falava em inglês, ele em dialeto.

Depois explicou a frase para o homem, além de outras duas.

Fizeram em inglês, mas falou como ele achava que devia ser a tradução, as pessoas que estavam na plateia riram, pois a cena era cômica.

O diretor disse que agora entendia essa cena.

Revisou o texto inteiro com ele, conseguiu o papel.

O crítico de arte, veio assistir, o elogiou, lhe perguntou por que tinha trocado de nome, honestamente ele explicou.

Ele durante o espetáculo, soltava alguns palavrões, em dialeto, o pessoal vinha abaixo, pois ele fazia de uma maneira encaixada ao texto.

O critico o convidou para jantar, foi junto com o professor, explicou que ele era quem o tinha lançado nessa arena de teatro.

Um dia sem querer, foi se lembrando do orfanato, os sentimentos que tinha lá, mesmo no dia que saiu pela primeira vez com os dois homens um ao lado do outro, era como um condenado a caminho do cadafalso.

Despertou, sentou-se na cama, começou a escrever sobre esse sentimento, no orfanato, a sensação de estar sempre correndo, para ser o primeiro em tomar banho, enquanto a água ainda estivesse morna, para comer também em primeiro enquanto tinha tudo na mesa.

Depois a sensação de que o tempo não passava, a maioria corria atrás de uma bola de pano, feita com resto de roupas, por uma freira.

Ele parecia um retardado, pois ao mesmo tempo observava tudo isso, como deixava sua cabeça voar, para imaginar como era tudo fora dali.

Quando saiu, sentiu que as cores eram diferentes, algo não encaixava, no momento que viu a primeira vez uma batata saindo da terra, a tentação de colocar a mesma na boca, antes que desaparecesse.    O sabor do tomate roubado a cada dia, quando não o observavam, o colocava inteiro na boca, para depois apertar.

O sumo do mesmo as vezes escorrendo pelo lado de fora de sua boca.

Se levantou da cama, sentou-se na mesa que ficava encostada na janela, ao olhar para fora, para o negro da noite, foi relatando as vezes que dormia em cima de uma árvore, pois já sabia o que era um abuso.   Medo, frio, a noite escura, algum ruido de pássaros perdidos como ele dizia, a sensação de que esse pássaro, tinha perdido o caminho de volta para sua casa.

Talvez, ligava isso a vontade que ele tinha de voltar ao orfanato, que no fundo lhe dava um sentido de segurança, com toda sua penúria, mas seguro.

O estranho de comer todos os dias o mesmo macarrão, não reclamar, com medo de lhe tirarem o prato.

Ainda pensou, talvez todo esse medo das coisas, o tivesse ir em frente, desde o dia que chegou naquelas terras, tinha tido tempo de fazer duas coisas, uma a que lhe mandavam fazer, a outra desligar sua cabeça para estar observando tudo, talvez por isso sabia aonde estavam as caixas com dinheiro.

Agora que sabia a existência de banco, porque esses homens escondiam o dinheiro, inclusive um do outro, será que não confiavam entre si.

Sentiu sono outra vez, voltou para a cama, dormiu profundamente, se levantou como sempre cedo, para usar o banho antes de Mirthes, assim o deixava limpo para ela, enquanto ele preparava o café, ela seguia limpando algumas casas, seguia não recebendo notícia do filho que devia estar pelo mundo.

Nesse dia deixou diante do prato dela, o que tinha escrito durante a noite.

Ela leu, sorriu, para quem tinha pouca informação, escreves bem, mostre para teu amigo o professor.

Jeff Saks, era professor, porque amava o que fazia, ensinar a quem tinha ânsia de aprender, não gostava de dar aulas para crianças nem jovens, mas ali aonde estava, pois, essas pessoas, por necessidade ou ânsia de aprender o que não tinha tido oportunidade, levavam a sério.

Ele destacava sempre o Dante como seu melhor aluno, absorvia o que ele lhe dizia, uma dia lhe perguntou sobre esse sentido de observação que ele tinha, aparentemente estava fazendo uma coisa, mas ao mesmo tempo observando tudo em sua volta, o tinha visto fazer isso no palco, enquanto falava seu texto, super concentrado, estava com a atenção também voltada aos outros que estavam com ele no palco.

Nas filmagens que tinha acompanhado, ele fazia o mesmo, sabia exatamente seguir as ordens do diretor, pensar no personagem, nos sentimentos, fazia algo completo.

Não era o primeiro papel, mas o que fazia dominava a cena completamente, sorriu imaginando se ele tivesse feito um curso desses aonde saiam os atores famosos, como seria.

Quando ele lhe deu o texto para ler, ficou impressionado, sua letra era de uma certa maneira infantil, mas ali estava expresso todo os sentimentos.

Ele descrevendo o horto, cercado de cactos, era de um detalhismo impressionante, o sabor do tomate,  mesmo em sua boca, ele era capaz de sentir o sabor que ele falava.

Nesse dia quando chegou em casa, fez isso, pegou um tomate pequeno, para sentir essa experiencia.

No dia seguinte lhe deu de presente um Olivetti portátil, a tinha usado muito, a pouco tempo de presente lhe deram outra, Dante o tinha olhado com surpresa, nesse dia o levou a uma outra sala, aonde uma senhora ensinava as senhoras, que queriam trabalhar a escrever a máquina.

Ele não se importou, se sentou numa que ela lhe mostrou no final da sala, lhe ensinou a colocar e apoiar a mão, para escrever os exercícios.

Dias depois se cruzou com o professor, rindo disse, só lhe falta uma saia justa, para começar a trabalhar, pois ele é mais rápido do que elas escrevendo.

Jeff lhe devolveu o texto, só com uma correção, de uma acentuação, disse que passasse o mesmo para a máquina, mas faça uma coisa, tente se lembrar de tudo o mais.

Quando apresentou já como forma de um relato, ficou impressionado, tinha aprendido mais uma coisa.

Mirthes, adorou, convidou o Jeff para almoçar no domingo, num momento que pediu para ele ir à rua comprar pão, lhe perguntou o que poderiam fazer em seguida por esse menino.

Sempre sonhei que um de meus filhos fosse a universidade, o único que tinha essa possibilidade, não sei como se perdeu nas drogas, querendo provar que era tão homem como os de uma gang.

Entre as casas que limpo, tem um senhor que é professor da universidade, achas que devo mostrar para ele esse texto.

Dias depois telefonou para o Jeff, disse aonde estava, ele foi até lá, era a casa desse professor.

Comentou que o Dante era seu melhor aluno, o mais interessado, como ele tinha absorvido o personagem de Shakespeare, depois lendo todos os livros, comentava comigo, como esse homem podia construir esses personagens todos, isso foi motivo de muitas conversas com os outros alunos, um dia ele conseguiu que eu levasse a turma toda para assistir.

Dias depois os dois o levaram para conversar com o mesmo na universidade.

Ele ainda perguntou a Mirthes, por ter visto um cartaz de procura-se uma pessoa para limpeza, que era isso.

Mas quando se viu numa sala, com uma bancada de professores, todos muito sérios, um deles, pelo visto o que conhecia Mirthes, o mandou se sentar na frente deles.

Fizeram um extenuado bombardeio, todos tinham diante de si, uma cópia do seu texto.

Um deles lhe perguntou o que gostaria de aprender?

Disse que gostaria como Mister Shakespeare, saber colocar para fora o que ele via, usou como exemplo, quando tinha feito a obra de Pirandello, imaginem esse homem nasceu na mesma ilha que nasci, mas nunca tinha escutado falar nele.   Mas o que me chamou a atenção, quando o professor Jeff me deu um original, que ele usava termos que tem a ver com o dialeto que escutei desde criança, ao comparar um texto com o outro, tinham feito errado, o que o homem dizia era cômico, mas na tradução ficava uma coisa séria.

Acho, posso estar errado, mas as vezes essas tiradas cômicas que ele faz no seu texto, atingem mais o público, que só coisa profundas, sérias.

Todos somos personagens em construção, vejo por mim, sai de um orfanato, não sei sequer aonde fica, para trabalhar no campo, mas essa mudança, sair da rotina, como conto no texto, para um horizonte diferente me fez pensar mais, querer mais.

Me lembro dos meus dias a bordo, que ficava nas horas de descanso, olhando o mar, que é uma coisa imensa, imaginando o que veria quando chegasse, eu que nunca tinha visto sequer uma foto de NYC, quando vi aquela senhora, com a tocha iluminando o caminho, pensei, a escolheram bem, ilumina o caminho dos que estão perdidos, sem saber aonde vão.

Viu que eles conversavam entre si.

O professor, lhe perguntou se poderia escrever um texto sobre isso, queriam ver como ele se saia.

Dois dias depois, voltou, tinha trabalhado de madrugada, pois tinha voltado a trabalhar no armazém, o homem dizia que ele sempre era bem-vindo, era de confiança.

Primeiro fechou os olhos, se lembrou do momento que o navio partiu de Sines em Portugal, que saiu a mar aberto, sabia que agora o navio só pararia em NYC, encostado na parede do barco, as vezes de noite, antes de começar suas aventuras sexuais, ali pensando como era esse pais, um dia que esteve pela primeira vez na cabine do capitão, viu um mapa dos Estados Unidos da América preso na parede, viu a imensidão do mesmo, comparado com a ilha de Sicília, era como se tivesse que ir por esse pais todo.

Escutou os marinheiros falando do sonho americano, o único que falava do sonho de ir pelo mundo era o filho da Mirthes, embora eu não conheça direito a nenhum país, sei que agora existem todos.

Cada um do barco, era de um lugar diferente, aproveitava depois de fazerem sexo, para perguntar de aonde tinham saído, cada um relatava de uma maneira diferente, o lugar, porque tinha escapado, o que queria da vida.

Nada comparado a ele, que queria chegar, encontrar seu caminho, melhorar sua vida.

No dia que chegaram, já tinha combinado com o filho da Mirthes, que o levaria até o metrô para ir para a casa de sua mãe, ele ali, vendo o dia amanhecer, a Estátua da Liberdade, era como esse senhora soubesse quem eu era, como tinha feito um longo caminho até aqui para chegar ao princípio de uma caminhada.

Jeff tinha ficado impressionado, pois imaginou que ele levaria dias escrevendo.

Não havia nada a corrigir, foi com ele a universidade levar. 

Dois dias depois foi chamado outra vez, Jeff tinha se surpreendido, dele ter ido se informar, que se ele fizesse a limpeza dali, ajudaria a pagar um curso.  A secretária ficou de boca aberta.

Quando falaram que o aceitavam como bolsista, tinha conseguido uma para ele.

Ele perguntou se como forma de agradecimento queriam que ele limpasse pelo menos os corredores, tinha visto o cartaz, comentou.

Não, queremos que estudes, dois professores, pareciam o disputar.

Ele ia ter aulas de literatura americana, outro lhe ensinaria a escrever, um outro daria aulas de inglês para ele.

Teria que se levantar cedo comentaram, estarás nas aulas com outros estudantes, a maioria nem sabe por que estão aqui, tampouco sabem escrever ou se colocar como tu, inclusive aparentemente são mais jovens que você.

Qualquer dúvida não se esqueça que podes pedir ao professor um atendimento em seu gabinete.

O que ensinava literatura, lhe perguntou se tinha escutado falar em Mark Twain, foi honesto, não senhor, leia seus livros, depois venha sempre falar comigo no meu gabinete.

Lhe disse o nome dos dois livros que devia ler primeiro, Tom Sawyer, depois Huckeberry Finn, ele não leu, devorou os dois, comprou os dois livros, não os queria emprestado,

Comprou também uns cadernos pequenos, para fazer anotações como fazia com os texto de teatro e cinema.

Quando foi a primeira vez, tinha lido o Tom Sawyer de cabo a rabo, várias vezes, inclusive se sentava no metro em direção a universidade, lendo o mesmo.

Para o professor ele tinha absorvido o personagem, pediu que ele escrevesse como se sentia lendo esse livro.

O fez analisando cada capítulo do mesmo, ao mesmo tempo, acompanhava as aulas prestando atenção, ao mesmo tempo, observando o comportamento dos colegas, a maioria vinha de famílias bem, era como se estivessem ali para passar o tempo.

Começou a escrever sobre as frases soltas que soltavam, como imaginavam o futuro, sentava-se por perto nos intervalos, para os observar, mas principalmente escutar o que diziam.

A maioria era bazofia, pensavam, esse não vai chegar a lugar nenhum.

A cada dia dedicava uma hora da madrugada para escrever o que estava na sua cabeça sobre isso, no dia que deu para o Jeff ler, esse se matou de rir.

Explicou para ele, porque preferia dar aulas nessas classes noturnas, as crianças, não fazem minha cabeça, poderia dizer, neles posso enfiar uma mensagem, isso é falso, veja como são quando são maiores, estão perdidos, estudam, poucos sabem o que realmente querem.

A mim me criticaram quando comecei a ensinar uma senhora que trabalhava na casa de meus pais, a ler a escrever, meu pai me chamou a atenção, que não o deveria fazer, pois a estava ensinando a pensar, logo ela iria querer sair do círculo de sociedade que lhe correspondia.

Quando decidi não estudar direito como ele, tampouco trabalhar no seu escritório, foi um caos, pois segundo ele, era o filho destinado a isso, o mais inteligente da família.

Acabou me colocando para fora de casa, pois segui em frente, por sorte recebi o apoio de meu avô materno, esse sim, entendeu o que eu pensava.

Ele também é um emigrante como tu, se fez sozinho nessa cidade, por isso vivo com ele, esse homem apesar da idade continua trabalhando, como fez todos os dias de sua vida, minha mãe esconde de todo mundo que seu pai tem um armazém de ferramentas, que vive em cima do mesmo no Brooklyn, ela foi a universidade, como muitas mulheres deste vasto pais, para encontrar um homem que lhe desse um futuro confortável.

Renegam dele, também porque é judeu, eu vou a sinagoga com ele, sempre que posso.

Quando o apresentou ao seu avô, ficou impressionado, com a ligação imediata que surgiu entre os dois, tinha lhe dado o primeiro texto do Dante para ele.

Pela primeira vez, viu seu avô emocionado, com certas passagens.

Quando os apresentou, ficou impressionado, com seu avô contando ao Dante, como ele tinha saído de uma aldeia, no cu da Alemanha, para fugir dos nazistas, cada passo, o caminho até Amsterdam para fugir num navio, contou que tinha feito a metade do caminho caminhando, com as botas penduradas no pescoço, para não gastar, só tinha um saco, com a outra peça de roupa que tinha.  Por sorte consegui num navio, um trabalho, limpava a cozinha, tudo que houvesse que limpar.

O que lhe impressionava era a atenção que o Dante prestava, depois o velho foi lhe contando como tinha seguido em frente, como tinha chegado, a não ser com o dinheiro que ganhou ao finalizar a viagem, soube depois que tinha sido o último barco que tinha saído de Amsterdam, que o pais tinha sido invadido.

Aprendi a falar a língua, embora até hoje meu neto me corrige, pois pronuncio tudo muito carregado.

Minha mulher foi o meu apoio toda a vida, só tivemos uma filha, pois a imaginávamos indo a universidade, para ser uma mulher forte, mas depois descobrimos que como a maioria das amigas, iam para conseguir um casamento que desse um status social.

Por sorte tenho meu neto, falava isso colocando a mão sobre a do Jeff, que contra o vento e maré resolveu fazer o que era direito, ensinar os que chegam esperando encontrar esse eldorado que não existe.

Quando mostrou o texto sobre os alunos, seu professor, o chamou as gargalhadas, penso igual, é como se estivesse perdendo meu tempo.

Agora quero que reveja esse texto, crie um personagem que analise cada um, imagina de aonde saíram, o que pensavam os pais dos mesmo, quando chegaram aqui, pois a maioria no fundo, é fruto de emigrantes, primeira ou segunda geração, que sonha que o filho vá a universidade.

Ele escrevia sobre o avô do Jeff, no momento era complicado, de manhã, fazia a universidade, de tarde ensaiava uma peça de teatro, que lhe interessava fazer, era um segundo personagem, não o mais importante, mas sem querer encaixava com o que estava acontecendo com ele nesse momento, o Zoológico de Cristal de Tennessee Willians.  Gostava desse personagem frágil, tão oposto a ele, nessa casa, em que todos de uma certa maneira viviam do passado.

Já sabia o texto inteiro, todas as falas dos companheiros que ainda trabalhavam com o texto na mão.

Era o mesmo diretor do seu primeiro trabalho.

Quando soube que ele estava na universidade, ficou contente, sei que contigo é tudo ou nada.

Nessa época o chamaram para Hollywood, para a mesma merda de sempre, um filme sobre jovens.   Jeff leu o texto, disse que era uma grande besteira.

Na verdade, muitos começam por aí, mas pouco escapam desse estereótipo que constroem em cima deles.

Quando a peça estreou, Jeff levou seu avô e Mirthes, os dois adoraram o trabalho dele.

O velho lhe disse, que mesmo não sendo o ator principal, ele engolia os outros quando estavam em cena.

Perguntou ao avô do Jeff, se podia ir visita-lo no final de semana, levou o que tinha escrito da história dele, tinha se colocado na pele dele, um jovem judeu, de uma vila perdida, sentido o que ia acontecer com seu país, a negativa de seus pais, em ver a realidade, só sua mãe lhe deu algo de dinheiro, se achas isso, é melhor partires.

Anos depois tinha procurado, a vila tinha sido bombardeada na guerra, não sobrava nada, além dos poucos que viviam ali, a maioria da vila tinha sido deportada aos campos de concentração, ninguém voltou para contar.

O velho quando leu, parou, pediu ao neto seu remédio de coração, colocou uma pílula embaixo da língua, estou me emocionando.

Depois de terminar, o abraçou, a história ele contava até a chegada a NYC, a impressão que o mesmo relatava, os edifícios que pareciam monstruosos, até encontrar o emprego nessa loja de ferragens, como tinha conhecido sua mulher a filha do proprietário, judeus como ele.

No final se fundiram num abraço, os três.

Jeff estava emocionado.

Levou o relato para o professor, contou como tinha escutado essa história, disse que estava construindo a outra que este tinha mandado fazer.

Eres o único que trazes teu trabalho para mim, os outros só entregam no final, cheio de erros, palavras perdidas, alguns nem vale o papel que escreveram.

Agora quando ia dormir, Mirthes colocava um copo com leite quente para ele, ao lado da máquina de escrever.

Jeff tinha feito uma coisa, conhecendo sua mãe e seu pai, pediu para o avô fazer um documento, permitindo a publicação do texto numa revista de um jornal, era o que entrava na casa dos pais.

O velho se matou de rir, imagino a cara de tua mãe, lendo a história que ela fez tudo para esquecer.

Dante ficou fascinado, quando viu que saia na revista, avisou seu professor, Mirthes, ria muito, meu filho publica num jornal.

Já Jeff teve que aguentar a mãe, além do pai, pois ele tinha colocado o nome real do avô do Jeff.

Ficaram furiosos, sua mãe, que nunca ia ver o pai, foi falar com ele, depois disse ao Jeff que ele estava louco, que essa história não era real.

Jeff conhecia algumas amigas dela, mandou o artigo para a mesma, dizia a história da minha família, bem como da vossa.

Entre eles tinha nascido a muito tempo um relacionamento, mas nunca nada demais, eram amigos demais para irem além.

Jeff começou a contar, quando ele era garoto, que ia visitar os avôs escondido de seus pais, não entendia, porque nunca eram convidados a casa deles, nem para Ação de Graças, Natal, o avô lhe explicou que ele e sua mulher, como você mesmo é judeu.  Não temos essas festas.

Teu pai esconde, mas o avô dele também era judeu.

Em casa faziam tudo que uma família americana faria nessas datas.

Quando sua avó morreu, foi basicamente quando ele entrou na universidade, estudando o que queria contra a vontade do pai, contou tudo isso ao Dante.

Ele juntou um texto no outro, montou seu primeiro livro.

Jeff o beijava muito quando leu tudo.

Poderias, estar te prostituindo com esse piru imenso, ou fazendo filmes pornográficos, mas estás na linha dura.

A peça ficou o tempo necessário para chamar a atenção de um diretor, esse veio falar com ele, gostava do seu trabalho, lhe deu o roteiro que ia trabalhar, a história se passava em NYC, seria filmada ali mesmo.

Era a história de um músico de Jazz, mulato como ele que chega ao mais alto, mas veja bem o adoro, é meu pai, mas morreu, ninguém se lembra dele, quando te vi no teatro, pareces muito com ele.

Lhe trouxe todos os discos que o mesmo tinha publicado, ele disse que não entendia de música, mas ia escutar, isso fazia nas suas horas tranquilas, no princípio da noite quando ia escrever.

Ainda estava batalhando para criar esse personagem que o professor tinha pedido.

Concordou em fazer o filme se o mesmo fosse feito nas férias da universidade.

Assinou o contrato, depois que o Jeff levou o mesmo a um advogado.

Jeff achava incrível, ele terminava o livro, que tinha feito juntando a história de seu avô, bem como a dele próprio, tudo que tinha escutado dele.

Quando leu pela primeira vez, foi ele que chorou, me entendeste, pela primeira vez o beijou na boca, poderia te amar, mas eres um pássaro livre, não quero te colocar numa jaula.

Seu avô morreu logo depois, a filha ficou furiosa, pois Jeff era o único herdeiro, nada para a filha, nem os outros netos que ele sequer conhecia.

O mais interessante, que os negócios de seu pai, não iam bem.

Nunca disse a ninguém a quanto montava sua herança, o local da loja, além do apartamento em cima foi comprado por uma construtora para um edifício, junto com o do lado.

Jeff comprou um apartamento pequeno para ele, mas um dos quartos transformou em sua biblioteca, com o dinheiro que tinha, fez uma coisa, começou a estudar outra vez, agora aprendia fazer roteiros de cinema.   Disse ao Dante que queria escrever o roteiro do livro que ele tinha feito.

Conseguiu que o mesmo fosse editado.

Ele estava em plena filmagem quando soube da morte do velho, pediu desculpa, mas tinha que apoiar pelo menos dois dias seu melhor amigo.

Ele estava fazendo um trabalho interessante, tinha perguntado ao diretor, qual músicas do seu pai, apareceriam no filme, as escutava até se cansar, queria saber o que o mesmo sentia ao tocar essas músicas, para assim transmitir no filme, embora ele não tocasse o instrumento.

Quando terminou o filme, foi ver o copião com o Jeff, esse apertava seu braço, nas horas que se emocionava.

O dinheiro do filme, bem como o do livro, foi direto para o banco, Mirthes dizia que se fosse um de seus filhos, iam comprar um puta carro, joias para se exibirem como fazem esses garotos de agora, usando esses colares imitando a ouro.

O livro chegou as livraria ao mesmo tempo que o filme se estreou, então nas entrevistas falava dos dois.

Quem não gostou foi a mãe do Jeff, quando ele mostrou o papel assinado pelo avô, reconhecido em cartório, que permitia isso, eu agora estou transformando o mesmo num roteiro de cinema.

A mãe conseguiu uma coisa, trocou seu nome, ficando com só o do marido.

Nas entrevista sobre o livro, ele ia com o Jeff, o apresentava como um dos personagens do livro, eu tive o grande prazer de conversar com seu avô que me contou toda essa história, bem como meu amigo, me contou a parte que vai até ele.  Falava que tinha aprendido a ler e escrever em inglês com o Jeff, nas aulas noturnas que ele dava para emigrantes.

Sem querer ele me abriu as portas do Eldorado, pois isso significa, trabalhar, para ser alguém.

Numa das tardes de autógrafos quem apareceu foi o crítico de teatro, conversaram muito depois.

Quando Jeff disse que estava escrevendo um roteiro em cima do livro, ele pediu para ver, posso te ajudar se queres, comecei minha vida escrevendo roteiros em Hollywood.

Ele durante anos, seguiu compaginando os dois ofícios, escrever ao mesmo tempo, fazer cinema ou teatro.

Quando apresentou o trabalho que o professor tinha pedido, foi considerado seu trabalho de final de curso.  Os companheiros de classe não entendiam esse personagem, nem os outros da história, não se viam retratados, desse grupo todo, só um escapou, foi ser jornalista de um pequeno jornal do interior, os outros seguiram no nada.

Jeff um dia tomou coragem, disse que seu medo era sempre o mesmo, lhe perder, quando Mirthes morreu, eles foram viver juntos, arrumaram um apartamento maior, em que cada um tinha seu lugar para escrever.

O filme do Jeff fez sucesso, inclusive foi candidato ao Oscar de roteiro.

Sua família nem se verbalizou, ele passou a usar só o sobrenome do avô para tudo, era como se tivesse construído um personagem.

Os dois viveram sempre juntos, quando Dante ia para Hollywood, fazer um filme ele ia junto, pois agora escrevia sem parar.

Foi quando lhe disse que queria escrever o roteiro de sua história, a primeira quando tinha descoberto que podia escrever.

Nas férias foram os dois a Sicília, tinha contratado um detetive, para saber aonde era o orfanato, esse o levou a um lugar, que caia aos pedaços, um dia o teto da capela desmoronou, matando várias freiras, as crianças foram mandadas para outro lugar.

Ele saiu dali, parou um momento fechou os olhos, só disse direita, foi andando pela estrada, até que Jeff lhe alcançou com o carro, as vezes ele pedia, me deixa ir andando, pois assim vou me lembrando de coisas.

Conseguiu localizar o lugar aonde tinha vivido como os dois homens eu o tinham levado.

O vizinho contou que a terra não era deles, faziam uma coisa, traziam crianças para trabalharem para eles, depois os vendiam para outras pessoas.

Ele tinha escapado disso, tudo estava no chão, riu muito, quando se aproximou do que era a antiga horta, o homem disse que tinha chovido muito nesse último mês, um pé de tomate estava carregado, ele limpou nas mangas um, enfiou na boca, fazendo como quando era criança.

Ficou ali rindo como um louco, soltou uma gargalhada imensa.

Os dois escreveram o roteiro junto, que terminava com ele, encostado no navio olhando a Estátua da Liberdade lhe dando a bem-vinda.

Ele não fazia nenhum papel, foi duro conseguir um garoto, depois um rapaz, para fazer o mesmo, claro agora já tinha os cabelos brancos.

Jeff tinha morrido antes dele, cuidou dele até o final, nunca tinha falado, que tinha se apaixonado por ele, no dia que lhe começou a ensinar.

Os dois não gostava de usar a palavra amor, ou eu te amo, pois sempre lhe parecia vazias.

Os irmãos não foram ao enterro, mas estavam falidos, procuraram saber sobre testamento, a muitos anos, o tinha de uma maneira de um casal, era de um para o outro, o grande apartamento que viviam, ele seguia ajudando a escola aonde tinha aprendido, bem como o Jeff.

Tinha ajudado a melhorar as condições do local.

Agora olhava para trás tudo isso, as vezes ia até o ferry para Long Island, para fazer um passeio de atravessar para o outro lado, só para ver a Estátua da Liberdade, dizia que só ela não ficava velha.

Como dizia o Jeff, se não estás em cena, ou fazendo um filme esquecem de ti.

Era uma verdade, dias antes tinha visto um filme velho dele na televisão, ficou rindo muito com isso, acho que hoje o faria diferente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

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