DANTE
Se podia dizer que a partir de seu nome,
nada nele era real, a não ser sua própria pessoa. A muito tinha escapado da
Sicília, dizia como tinha escutado de um português falando, “faz tanto tempo,
que nem sei se é verdade”.
Agora no alto de seus 85 anos, tinha a
sensação de que estava fazendo um balanço de sua vida, olhando o mar que
adorava.
Era um garoto, devia ter uns cinco anos de
idade, quando o foram buscar no orfanato aonde vivia, ele de uma certa maneira
era diferente de muitos garotos que estavam ali, tinha a pele mais morena,
talvez uma mistura com Argelinos, ou mesmo negros, seus olhos era um destaque
eram verdes brilhantes.
Os que o levaram era dois homens imensos,
foram, para o interior, mas atrás de Palermo, não sabia direito pela idade, ter
estado sempre no orfanato, aonde era.
Sabia só da capital, porque a freira sempre falava isso.
Foram parar num campo, no outro dia o
chamaram a seis da manhã, mas ele já estava em pé, com a cara lavada, tinha
lavado os dentes colocando a pasta nos dedos, como fazia no orfanato, a roupa
era a mesma, mas tinha passado um pano molhado pelo corpo.
Lhe deram café com leite, que para ele era
o melhor do mundo, um pedaço de pão, por isso no orfanato levantava cedo, pois
mais tarde não tinha nada, talvez um café aguado.
Os homens o arrastaram para o campo, com
eles, seu trabalho lhe ensinaram, era recolher as batatas, num carrinho maior
do que ele, iam as caixas, lhe ensinaram como fazer, se concentrou sempre era
assim, prestava atenção em tudo, já tinha aprendido, foi fazendo o que o homem
disse.
Trabalharam a manhã inteira, depois
voltaram para a casa, pois o sol estava muito forte, um deles já estava lá
preparando o macarrão, isso era a comida de todo os dias, jogou por cima um
molho de tomate de lata, nada mais.
O que colocaram no seu prato sumiu, tinha
fome pelo trabalho, um deles riu, assim vai crescer rápido, o quanto mais
rápido melhor.
Na hora não, entendeu, mas com o passar do
tempo sim, queriam um trabalhador braçal, como eles, quando foram descansar,
pois o calor era muito, viu que dos dois se jogavam nus na mesma cama.
Foi para aonde tinha dormido, no outro
quarto, num colchão no chão.
Depois viu como eles tomavam banhos juntos,
no final do dia, ainda trabalhou com eles numa horta atrás da casa, lhe
ensinaram a colher os tomates, como tinha que ser, um ainda comentou a velha
tinha razão, aprende de primeira.
Chegou um tempo que ele fazia esse serviço
sozinho, quando não estavam vendo, colocava um tomate inteiro na boca.
Havia pimentos, cenouras, foi aprendendo,
mas a comida sempre era a mesma, verão ou inverno, macarrão, tomate em lata,
nada mudava.
Nunca comiam os tomates da horta, era para
vender, isso no sábado iam a vila mais próxima, vendiam tudo, batatas, tomates,
o que tivessem colhido.
Viu que os dois repartiam o dinheiro, mas
com o tempo descobriu aonde cada um escondia esse dinheiro.
A ele não davam nada, quanto muito lhe
compraram um sapato para o inverno, bem como uma roupa, mas tudo numa loja de
segunda mão, não se importou.
Tinha aonde dormir, comer, nunca reclamava
de comer o macarrão que lhe davam, pois os mesmos comiam igual.
Depois escutava a conversa dos dois, quando
ficarmos velhos, vamos viver como reis.
Ele não entendia isso, se tinham dinheiro,
porque não aproveitar agora, talvez isso tivesse ficado na sua cabeça.
A velhice, havia que ter dinheiro para ela.
Ele não cresceu muito, mas tinha uma coisa,
que os dois sempre olhavam o seu piru, era grande para seu tamanho.
Um dia que foram a vila, estava
trabalhando, quando viu um rapaz que trabalhava com o vizinho, este estava
olhando seu piru, acho graça nisso, o rapaz era bonito, nesse dia perguntou se
podia pegar, isso ele tinha visto os dois fazerem, um pegar o do outro.
Disse que sim, queria saber como era, o
outro logo colocou na boca, ele gostou, nunca tinha sentido algo assim.
Na vez seguinte, ele disse, vim com o rabo
limpo, na hora ele não entendeu, o sujeito se colocou de quatro na terra lhe
ensinou como fazer.
Pelos seus cálculos tinha 12 anos, mas hoje
podia rir, já estava aprendendo a usar seu documento, como dizia o rapaz.
Isso foi durante um bom tempo, até que o
pai do mesmo o viu fazendo isso, fez um escândalo tremendo.
Os viu falando com seus tios, lhe
explicaram que quando alguém perguntasse, eles eram seus tios.
Foi então que passaram a olhar, um deles,
sempre encontrava uma maneira de passar a mão.
Por vergonha, tomava banho mais cedo do que
eles, inclusive no inverno, com a água fria, queria era estar limpo.
Esse rapaz com que ele fazia sexo, falava
de seus sonhos de ir para a América, basta conseguir entrar num barco para os
Estados Unidos.
Um dia apareceu uma mulher, ficou olhando
para ele, depois falou com os dois, porque ele não ia a escola, reclamaram que
tinham que trabalhar.
Ela aprontou a maior confusão, agora ia
todos os dias na escola, o duro era que depois tinha que fazer suas tarefas
embaixo de um sol de rachar.
Mas tinha achado interessante, quando lhe
perguntaram seu nome, viu um livro, na capa, estava Dante, ele já sabia ler, o
sobrenome ele não sabia.
Pelo menos o fato de não estar de manhã, já
chegava, comia seu prato frio de macarrão, sem reclamar, tinha fome, pois ia
andando para a escola, lá aprendeu a ler e escrever, descobriu também que
existiam outras línguas.
Pois numa turma mais avançada, embora fosse
na mesma sala, lhes ensinavam inglês, se tocou que era o que o rapaz dizia, na
América falavam dessa maneira.
Passou a prestar atenção, mesmo estando
fazendo algum exercício de matemática.
Um dia os dois homens o arrastaram para a
cama deles, queriam fazer sexo com ele, saiu correndo, porque um deles tinha
enfiado o seu dedo sujo no seu cu.
Nesse dia dormiu em cima de uma árvore,
morrendo de medo de cair.
Os dois riam dele, não adianta fugir, ainda
vamos conseguir.
Na escola contou quantos anos poderia ter,
um dia perguntou a professora, como se tirava um documento, ela disse que era
necessário uma certidão de nascimento, lhe deu a sua, que os homens tinham
dado, mas era outro nome. Samuel Cardo.
Cada vez, mais prestava atenção aonde
guardavam dinheiro, descobriu aonde tinha essa certidão, fez o cálculo, pelos
seus cálculos, ele tinha 17 anos. Não
tinha crescido muito, mas sim tinha um bom corpo, forte, duro, do trabalho
braçal.
Um dia só um deles foi ao mercado, o outro
o pegou de jeito, imaginou, agora estou perdido, tinha visto os dois fazendo
sexo, esse estava sempre sentado em cima do outro.
Foi o que fez, colocou na boca com
ansiedade, dizendo que grande é, depois se sentou em cima dele, começou a se
mexer, como um louco, urrava de prazer.
Depois o mandou se lavar, pela primeira vez
ejaculou.
Escutou o vizinho falando com outro, um dia
na estrada, quanto tempo vai durar esse menino, os dois sempre desaparecem
quando ficam grandes.
Nesse dia escutou quando voltou da escola,
os dois discutindo, como um se atrevia a usar o garoto antes dele, nessa noite
dormiu numa árvore mais longe, que tinha descoberto que tinha as ramas de cima
mais apertadas.
O escutou os dois o chamando, mas esperto
tinha engolido a comida com pressa e desapareceu, nessa noite dormiu mal,
começou a pensar, é hora de desaparecer, já tinha escondido em outro lugar sua
certidão de nascimento do orfanato.
Precisava era de dinheiro, isso ele não
tinha nenhum, no sábado um queria ficar, mas os dois discutiram foram para a
vila, ele não teve conversa, os ajudou a carregar a carroça, depois foi
trabalhar.
Tomou um banho quando os viu longe, colocou
sua roupa da escola que estava limpa, só não tinha cuecas, mas nem sabia o que
era.
Pegou as duas latas, as deixou vazia,
colocou tudo numa mochila que a professora tinha dado para ele, bem como o
último livro que está lhe emprestou.
Em vez de pegar a estrada da vila, foi em
direção a estrada maior, a que ia para Palermo, conseguiu uma carona, só tinha
uma nota fora da mochila.
Lá foi para o cais do porto, se informou
primeiro aonde tirar documentos, depois no cais se informou se precisavam de
alguém para trabalhar na carga e descarga.
O homem só fez uma observação que ele
comprasse cuecas justas, para colocar esse piru para cima, que chamava muita
atenção.
Comprou duas, como uma mulher lhe disse no
mercado.
Estava dormindo numa casa velha, no dia
seguinte se apresentou ao porto, ajudou a carregar um navio, mas esse ia em
outra direção, China, pensou não sei nada do mundo.
Conseguiu os documentos, tirou um
passaporte também o homem lhe explicou como fazer, nessa casa abandonada, pelo
menos podia tomar banho, o chuveiro ainda funcionava, apesar de estar tudo
sujo.
Comprou como os outros estivadores, uma
calças jeans, camisetas, não podia gastar muito dinheiro, um dia o da estiva
disse que hoje iam trabalhar num americano, o fizeram o dia inteiro, o bom que
recebiam no final do dia.
Pelo menos comia, foi quando descobriu que
o dinheiro lá era outro, que o deles não valia muito, entendeu aonde tinha que
trocar, o fez, a quantidade minguou.
Perguntou se precisavam de alguém a bordo,
um homem disse que um auxiliar de cozinha, se ele sabia cozinhar.
Não mas aprendo fácil.
Esta noite, apareça aqui, tens passaporte,
ele disse que sim.
De noite foi, o homem o fez subir a bordo,
depois dos fiscais terem passado, num último instante, o levou para o cozinha
do navio, disse aonde ia dormir, o apresentou ao comandante, esse ao
cozinheiro, um negro alto, magro, esse o examinou de cima a baixo.
Vamos ver, se não aprende jogamos pela
borda, todos riram.
Mas aprendeu rapidamente tudo como ele
queria, ainda limpava a cozinha depois, como o homem gostava.
Quando saíram de Sines em Portugal, o
último porto, ele já era mais um de bordo, se levantava muito cedo para tomar
banho, assim não incomodava os outros, quando se levantavam, ele já tinha feito
o café, bem como tostado pão que tirava de noite do congelador, fazia os ovos
como tinham lhe ensinado.
Uma noite de lua estava na lateral do
navio, escondido dos outros que faziam muita confusão jogando cartas, quando
apareceu um dos homens da máquina, era um negro diferente do outro, era
baixinho, magro, o examinou, passou a mão pelo seu piru, o levou para baixo dos
barcos salva vidas, abaixou as calças, depois de o chupar, pediu se podia fazer
sexo com ele.
Adorou o contato com a pele dele, depois
lhe deu uns dólares, claro ele guardou, foi como colocar no jornal, agora cada
dia aparecia um, inclusive o próprio cozinheiro.
Quando o comandante descobriu, também
queria, mas o levou para seu camarote, o homem era mais velho, parecia ter mais
experiencia, foi o melhor deles todos.
Sabia beijar bem, lhe ensinou como fazer
mais coisas.
Agora faltava uma semana para chegarem, foi
quando lhe disse que ele precisava de um visto de entrada, terás que continuar
no navio.
Perguntou para o cozinheiro. Esse se matou de rir, ele não pode descer,
pois tem problemas aqui, uma mulher que ele deve dinheiro da pensão, o barco
tem bandeira da Libéria, assim a bordo ele fica livre, mas não se preocupe,
desces comigo, arrumarei um jeito.
Ficou deslumbrado quando entraram no porto
de NYC, dito e feito, o comandante o queria prender no seu camarote, mas
conseguiu escapar, desceu no meio de todos os que iam passar o dia em terra,
saíram de fininho, ele seguiu seu companheiro de cozinha.
Na rua lhe deu um endereço, essa é a casa
de minha mãe, eu tenho que voltar, tenho contrato, lhe deu um envelope,
entregue a ela.
O levou até uma estação de metrô, disse
aonde tinha que descer, o fez pronunciar direito o nome da rua, o número.
Lá foi o outro embora, ficou um minuto
parado olhando para cima, os edifícios, se assustou um pouco, entrou no metro,
com um tique que o outro lhe entregou.
Desceu no Bronx, se informou da rua, foi na
direção eu o outro tinha escrito.
Teve que esperar, segundo uma vizinha a
senhora, estava limpando uma casa.
Quando essa chegou, ficou olhando para ele,
lhe explicou que seu filho tinha o mandado trazer alguma coisa para ela.
O fez entrar, a primeira coisa era a
cozinha, brilhava de limpa.
Perguntou se queria água gelada, fazia
muito calor, ele bebeu rápido, ela colocou mais rindo, devagar.
Depois se sentou do outro lado, começo a
ler o bilhete, ele pede que te ajude, é um malandro, se vem aqui em casa, sabe
que não o deixo partir.
Mas foi o melhor, seus irmãos morreram
todos nas drogas, esse pelo menos aprendeu a cozinhar.
A ajudou a guardar as compras, lhe
perguntou se tinha aonde ficar.
Disse que não, que tinha vindo da Sicília,
em busca de uma vida melhor.
Ah, o sonho americano soltou ela, falava
devagar com ele para que entendesse.
Vou te arrumar uma escola, para falares e
escreveres melhor.
Tens roupa para lavar?
Lhe ensinou como fazer, venha, o levou a
uma loja na esquina, dessas que vendem de tudo, falou com um homem, depois
descobriu que era indiano, perguntou se precisava de alguém para trabalhar.
Perguntou se ele sabia fazer alguma coisa.
Se não sei, aprendo fácil, assim passou um
tempo, ia a escola de noite, aprendeu a pronunciar direito, via a televisão,
nunca tinha visto uma, a senhora Mirthes, adorava escutar telejornais, via como
os apresentadores pronunciavam as palavras, dizia sempre a um que era o seu
preferido, esse sim sabe falar, preste atenção.
Um dia na escola, o professor o mandou ler
um texto, fez como o apresentador, todos riram, menos este.
Este de novo, lhe chamou a atenção que
devia usar cuecas mais apertadas, pois marcava muito seu piru.
Eu sei que é grande, mas parece que estas
fazendo propaganda, não me diga que te prostituiu.
Ele nem sabia o que era isso.
O outro lhe comentou que as vezes perdia
alguma aluno, que tinha bom atributo, por isso, achavam mais fácil se
prostituir.
Lhe explicou o que era, esse sempre lhe
conseguia livros, gostava mais do que ver televisão, algumas palavras,
perguntava a Mirthes o que queria dizer, como pronunciar.
Ela estava contente, uma parte de seu
salário do armazém, ele dava para ela, afinal vivia lá.
Encontrou calças nos fundos do armazém,
perguntou ao dono, se não as vendia.
Esse comentou que um irmão dele, que tinha
vindo com ele da Índia, começou a vender calças por aí, como legitima, mas eram
falsas, não sei em que se meteu, acabou morto.
Como ele trabalhava bem, o homem disse que
escolhesse o que quisesse.
Pegou duas, perguntou quanto era, o homem
disse que nada.
Comprou mais cuecas, a senhora Mirthes
disse que comprassem negras, eram as melhores.
Ele passava por um sobrinho dela, mulato,
dizia, pois a pele dele era escura, entendeu quando viu outros como ele, ela
explicou por que tinham essa cor.
Foi quando entendeu, que seu pai devia ser
negro, ou sua mãe, em Palermo, tinha visto algumas perto do porto se
prostituindo.
Um dia o professor, disse que numa escola
que ele trabalhava, tinha um teatro, se ele queria experimentar, lhe deu um
monte de papeis, presos, foi marcando o que ele tinha que decorar, achou mais
fácil decorar tudo, o outro lhe explicou que tinha que falar somente o que
estava marcado.
No dia que tinham combinado, um sábado,
saiu mais cedo do trabalho, foi lá.
Achou raro, que era mais para o centro da
cidade, tinha um cartaz na porta, “Sonho de uma noite de verão” a data da
estreia, duas semanas depois.
O mesmo subiu no palco com ele, estava
escura a plateia, marcou com ele duas páginas, fazes como te ensinei, imagine
que tem muita gente aqui, tem que te escutar, nada de gritar, mas fale bem
articulado.
Ele fez como o homem tinha falado.
Tens razão disse uma voz, tem
possibilidades.
Sabe o resto do texto.
Sim senhor, achei melhor decorar tudo, ele
desceu do palco, apareceu um homem branco como uma parede, com os cabelos
vermelhos, quase colocou a mão neles.
Vamos experimentar, contou para ele a
história, quem era o autor, isso ele nem tinha ideia, de quem era.
Como não era alto, iria fazer o papel de
Punk, o professor lhe explicou.
Estamos passando o texto, porque só agora
temos o teatro para ensaiar.
Ele por ter lido tudo, sabia inclusive as
falas dos outros, foi entendendo seu personagem, com os outros ficavam fácil.
Atrasaram uma semana, porque uma das
atrizes jamais sabia o texto que tinha que falar, ele sim sabia.
Quando um dia o professor John, disse que
originalmente na época, só podiam ser homens os atores, então faziam o papel
feminino, a entrada dessa atriz era pequena, um dia apareceu drogada para
ensaiar.
Ele disse que para não perderem o ensaio,
sabia o papel dela, procurou fazer uma voz parecida com a sua.
Como ele não estaria em cena nessa, hora,
lhe deram os dois papeis.
Saia, em seguida entrava vestido como ela,
fazia sua parte e desaparecia, entrando do outro lado com o seu personagem.
Lhe pagariam mais por isso.
Na estreia, convidou Dona Mirthes, para
assistir, ela se matou de rir, pois ele tinha lhe contado quando entraria de
mulher.
Os jornais falavam no dia seguinte de um
ator versátil, pois ela estava sentada ao lado de um crítico de arte, muito
orgulhosa, disse que ele era seu menino, veja como fez o papel feminino, sem
errar nada, em seguida entra outra vez com esse personagem engraçado.
Falavam do espetáculo, mas principalmente
dele.
Para espanto do professor, seguiu indo suas
aulas como se nada, do mesmo jeito trabalhava no armazém, nunca se sabe, como
ela dizia sempre para ele, nunca feche uma porta, nunca se sabe.
O professor, lhe deu outros livros de
Shakespeare para ele ler, ria dizendo para um estreante, uma obra assim, é bom
demais.
Depois fez outra que o professor conseguiu,
não ficou muito tempo em cartaz, este dizia que o texto era tonto, mas se saiu
bem, de novo o crítico falou dele. Isso
criou um problema com os outros, pois só falava nele.
Depois nada, vê dizia ela, esse mundo é
assim, se tivesses deixado teu emprego, agora estaria com a boca aberta por aí.
Nesse tempo, tinha medo de fazer sexo, com
as pessoas, escutou insinuações, mas ficou quieto, fazia a cara de não ter
entendido.
Mirthes, estava tentando arrumar documentos
para ele.
O crítico o indicou para um filme, mas o
diretor descobriu que ele não tinha papeis, conseguiu com um policial conhecido
dele, o homem o olhou de cima a baixo, mas lhe disse ao ouvido que queria
experimentar.
Ele entendeu, mas resolveu mudar seu nome,
o homem conseguiu tudo para ele, agora era um americano, passado por baixo da
porta como dizia Mirthes.
Passou a se chamar Dante Brown, pois esse
era o sobrenome dela.
Dante era o nome do filho caçula dela, que
tinha morrido nas drogas, com 15 anos.
Regulavam de idade, foi fácil, de uma certa
maneira ela seria a mãe que ele nunca tinha tido.
Fez o filme, era diferente do teatro, teve
que aprender, no mesmo havia um ator antigo, negro, quando o viu com a Mirthes,
que queria ver como se fazia um filme, a apresentou ao mesmo, esse passou a
ensaiar com ele as cenas.
Foi fácil, ele sabia o texto, as vezes se
confundia, pois não seguiam a ordem original do texto.
Mas aprendeu a se apanhar.
Voltou a trabalhar como sempre, pois só
tinha pedido um tempo ao homem do armazém, assim, garantia seu emprego.
Mirthes fez com que ele abrisse uma conta
no banco, com seu nome novo, guardou tudo que tinha escondido em casa.
Dizia ela em sua cabeça, tens casa, comida
nunca falta, o jeito é guardar dinheiro para o futuro.
Isso ficou na sua cabeça, quando o queriam
contratar para um trabalho em Hollywood, primeiro falou com ela, acredito que
deves esperar um pouco, leia o texto com seu professor, veja o que ele diz.
Este falou a mesma coisa, como sempre
querem os novatos, para esses filmes idiotas de verão, te farão andar sem
camisa, quiça mostrem teu documento, disse isso rindo.
Eu também acho que deves esperar, além de
ter cuidado com os contratos, claro quando lhe deram, foram a um advogado, que
lhe explicou se ele assinasse, teria que fazer mais três filmes por um salário
baixo.
Entendeu como funcionava a coisa.
Sou jovem pensou, ainda estou começando,
gostava da história, mas entre cinema e teatro, preferia o último.
O professor lhe deu um livro, esse é da tua
terra, Seis Personagens em busca de um autor.
Será que consigo em italiano, o professor
como sempre o conseguiu, foi comparando a tradução, como os livros nem sempre
eram dele, foi anotando numa folha a parte, marcava o número da página, bem
como a frase, depois fazia nova tradução.
Mostrou para o professor, quem fez isso,
fez uma tradução literal, veja esse personagem pronúncia uma frase em dialeto
da Sicília, o traduziram de outra maneira.
Quer dizer exatamente o contrário, senão fica sem sentido.
O
professor o levou para fazer o casting, ele meteu na cabeça esse personagem tão
siciliano, o fez tranquilamente com outro ator, que falava em inglês, ele em
dialeto.
Depois explicou a frase para o homem, além
de outras duas.
Fizeram em inglês, mas falou como ele
achava que devia ser a tradução, as pessoas que estavam na plateia riram, pois
a cena era cômica.
O diretor disse que agora entendia essa
cena.
Revisou o texto inteiro com ele, conseguiu
o papel.
O crítico de arte, veio assistir, o
elogiou, lhe perguntou por que tinha trocado de nome, honestamente ele
explicou.
Ele durante o espetáculo, soltava alguns
palavrões, em dialeto, o pessoal vinha abaixo, pois ele fazia de uma maneira
encaixada ao texto.
O critico o convidou para jantar, foi junto
com o professor, explicou que ele era quem o tinha lançado nessa arena de
teatro.
Um dia sem querer, foi se lembrando do
orfanato, os sentimentos que tinha lá, mesmo no dia que saiu pela primeira vez
com os dois homens um ao lado do outro, era como um condenado a caminho do
cadafalso.
Despertou, sentou-se na cama, começou a
escrever sobre esse sentimento, no orfanato, a sensação de estar sempre
correndo, para ser o primeiro em tomar banho, enquanto a água ainda estivesse
morna, para comer também em primeiro enquanto tinha tudo na mesa.
Depois a sensação de que o tempo não
passava, a maioria corria atrás de uma bola de pano, feita com resto de roupas,
por uma freira.
Ele parecia um retardado, pois ao mesmo
tempo observava tudo isso, como deixava sua cabeça voar, para imaginar como era
tudo fora dali.
Quando saiu, sentiu que as cores eram
diferentes, algo não encaixava, no momento que viu a primeira vez uma batata
saindo da terra, a tentação de colocar a mesma na boca, antes que
desaparecesse. O sabor do tomate
roubado a cada dia, quando não o observavam, o colocava inteiro na boca, para
depois apertar.
O sumo do mesmo as vezes escorrendo pelo
lado de fora de sua boca.
Se levantou da cama, sentou-se na mesa que
ficava encostada na janela, ao olhar para fora, para o negro da noite, foi
relatando as vezes que dormia em cima de uma árvore, pois já sabia o que era um
abuso. Medo, frio, a noite escura, algum
ruido de pássaros perdidos como ele dizia, a sensação de que esse pássaro,
tinha perdido o caminho de volta para sua casa.
Talvez, ligava isso a vontade que ele tinha
de voltar ao orfanato, que no fundo lhe dava um sentido de segurança, com toda
sua penúria, mas seguro.
O estranho de comer todos os dias o mesmo
macarrão, não reclamar, com medo de lhe tirarem o prato.
Ainda pensou, talvez todo esse medo das
coisas, o tivesse ir em frente, desde o dia que chegou naquelas terras, tinha
tido tempo de fazer duas coisas, uma a que lhe mandavam fazer, a outra desligar
sua cabeça para estar observando tudo, talvez por isso sabia aonde estavam as
caixas com dinheiro.
Agora que sabia a existência de banco,
porque esses homens escondiam o dinheiro, inclusive um do outro, será que não
confiavam entre si.
Sentiu sono outra vez, voltou para a cama,
dormiu profundamente, se levantou como sempre cedo, para usar o banho antes de
Mirthes, assim o deixava limpo para ela, enquanto ele preparava o café, ela
seguia limpando algumas casas, seguia não recebendo notícia do filho que devia
estar pelo mundo.
Nesse dia deixou diante do prato dela, o
que tinha escrito durante a noite.
Ela leu, sorriu, para quem tinha pouca
informação, escreves bem, mostre para teu amigo o professor.
Jeff Saks, era professor, porque amava o que fazia, ensinar a quem
tinha ânsia de aprender, não gostava de dar aulas para crianças nem jovens, mas
ali aonde estava, pois, essas pessoas, por necessidade ou ânsia de aprender o
que não tinha tido oportunidade, levavam a sério.
Ele destacava sempre o Dante como seu
melhor aluno, absorvia o que ele lhe dizia, uma dia lhe perguntou sobre esse
sentido de observação que ele tinha, aparentemente estava fazendo uma coisa,
mas ao mesmo tempo observando tudo em sua volta, o tinha visto fazer isso no
palco, enquanto falava seu texto, super concentrado, estava com a atenção também
voltada aos outros que estavam com ele no palco.
Nas filmagens que tinha acompanhado, ele
fazia o mesmo, sabia exatamente seguir as ordens do diretor, pensar no
personagem, nos sentimentos, fazia algo completo.
Não era o primeiro papel, mas o que fazia
dominava a cena completamente, sorriu imaginando se ele tivesse feito um curso
desses aonde saiam os atores famosos, como seria.
Quando ele lhe deu o texto para ler, ficou
impressionado, sua letra era de uma certa maneira infantil, mas ali estava expresso
todo os sentimentos.
Ele descrevendo o horto, cercado de cactos,
era de um detalhismo impressionante, o sabor do tomate, mesmo em sua boca, ele era capaz de sentir o
sabor que ele falava.
Nesse dia quando chegou em casa, fez isso,
pegou um tomate pequeno, para sentir essa experiencia.
No dia seguinte lhe deu de presente um Olivetti
portátil, a tinha usado muito, a pouco tempo de presente lhe deram outra, Dante
o tinha olhado com surpresa, nesse dia o levou a uma outra sala, aonde uma
senhora ensinava as senhoras, que queriam trabalhar a escrever a máquina.
Ele não se importou, se sentou numa que ela
lhe mostrou no final da sala, lhe ensinou a colocar e apoiar a mão, para
escrever os exercícios.
Dias depois se cruzou com o professor,
rindo disse, só lhe falta uma saia justa, para começar a trabalhar, pois ele é
mais rápido do que elas escrevendo.
Jeff lhe devolveu o texto, só com uma
correção, de uma acentuação, disse que passasse o mesmo para a máquina, mas
faça uma coisa, tente se lembrar de tudo o mais.
Quando apresentou já como forma de um
relato, ficou impressionado, tinha aprendido mais uma coisa.
Mirthes, adorou, convidou o Jeff para
almoçar no domingo, num momento que pediu para ele ir à rua comprar pão, lhe
perguntou o que poderiam fazer em seguida por esse menino.
Sempre sonhei que um de meus filhos fosse a
universidade, o único que tinha essa possibilidade, não sei como se perdeu nas
drogas, querendo provar que era tão homem como os de uma gang.
Entre as casas que limpo, tem um senhor que
é professor da universidade, achas que devo mostrar para ele esse texto.
Dias depois telefonou para o Jeff, disse
aonde estava, ele foi até lá, era a casa desse professor.
Comentou que o Dante era seu melhor aluno,
o mais interessado, como ele tinha absorvido o personagem de Shakespeare,
depois lendo todos os livros, comentava comigo, como esse homem podia construir
esses personagens todos, isso foi motivo de muitas conversas com os outros
alunos, um dia ele conseguiu que eu levasse a turma toda para assistir.
Dias depois os dois o levaram para
conversar com o mesmo na universidade.
Ele ainda perguntou a Mirthes, por ter
visto um cartaz de procura-se uma pessoa para limpeza, que era isso.
Mas quando se viu numa sala, com uma
bancada de professores, todos muito sérios, um deles, pelo visto o que conhecia
Mirthes, o mandou se sentar na frente deles.
Fizeram um extenuado bombardeio, todos
tinham diante de si, uma cópia do seu texto.
Um deles lhe perguntou o que gostaria de
aprender?
Disse que gostaria como Mister Shakespeare,
saber colocar para fora o que ele via, usou como exemplo, quando tinha feito a
obra de Pirandello, imaginem esse homem nasceu na mesma ilha que nasci, mas
nunca tinha escutado falar nele. Mas o
que me chamou a atenção, quando o professor Jeff me deu um original, que ele
usava termos que tem a ver com o dialeto que escutei desde criança, ao comparar
um texto com o outro, tinham feito errado, o que o homem dizia era cômico, mas
na tradução ficava uma coisa séria.
Acho, posso estar errado, mas as vezes
essas tiradas cômicas que ele faz no seu texto, atingem mais o público, que só
coisa profundas, sérias.
Todos somos personagens em construção, vejo
por mim, sai de um orfanato, não sei sequer aonde fica, para trabalhar no
campo, mas essa mudança, sair da rotina, como conto no texto, para um horizonte
diferente me fez pensar mais, querer mais.
Me lembro dos meus dias a bordo, que ficava
nas horas de descanso, olhando o mar, que é uma coisa imensa, imaginando o que
veria quando chegasse, eu que nunca tinha visto sequer uma foto de NYC, quando
vi aquela senhora, com a tocha iluminando o caminho, pensei, a escolheram bem,
ilumina o caminho dos que estão perdidos, sem saber aonde vão.
Viu que eles conversavam entre si.
O professor, lhe perguntou se poderia
escrever um texto sobre isso, queriam ver como ele se saia.
Dois dias depois, voltou, tinha trabalhado
de madrugada, pois tinha voltado a trabalhar no armazém, o homem dizia que ele
sempre era bem-vindo, era de confiança.
Primeiro fechou os olhos, se lembrou do
momento que o navio partiu de Sines em Portugal, que saiu a mar aberto, sabia
que agora o navio só pararia em NYC, encostado na parede do barco, as vezes de
noite, antes de começar suas aventuras sexuais, ali pensando como era esse
pais, um dia que esteve pela primeira vez na cabine do capitão, viu um mapa dos
Estados Unidos da América preso na parede, viu a imensidão do mesmo, comparado
com a ilha de Sicília, era como se tivesse que ir por esse pais todo.
Escutou os marinheiros falando do sonho
americano, o único que falava do sonho de ir pelo mundo era o filho da Mirthes,
embora eu não conheça direito a nenhum país, sei que agora existem todos.
Cada um do barco, era de um lugar
diferente, aproveitava depois de fazerem sexo, para perguntar de aonde tinham
saído, cada um relatava de uma maneira diferente, o lugar, porque tinha
escapado, o que queria da vida.
Nada comparado a ele, que queria chegar,
encontrar seu caminho, melhorar sua vida.
No dia que chegaram, já tinha combinado com
o filho da Mirthes, que o levaria até o metrô para ir para a casa de sua mãe, ele
ali, vendo o dia amanhecer, a Estátua da Liberdade, era como esse senhora
soubesse quem eu era, como tinha feito um longo caminho até aqui para chegar ao
princípio de uma caminhada.
Jeff tinha ficado impressionado, pois
imaginou que ele levaria dias escrevendo.
Não havia nada a corrigir, foi com ele a
universidade levar.
Dois dias depois foi chamado outra vez, Jeff
tinha se surpreendido, dele ter ido se informar, que se ele fizesse a limpeza
dali, ajudaria a pagar um curso. A
secretária ficou de boca aberta.
Quando falaram que o aceitavam como
bolsista, tinha conseguido uma para ele.
Ele perguntou se como forma de
agradecimento queriam que ele limpasse pelo menos os corredores, tinha visto o
cartaz, comentou.
Não, queremos que estudes, dois
professores, pareciam o disputar.
Ele ia ter aulas de literatura americana,
outro lhe ensinaria a escrever, um outro daria aulas de inglês para ele.
Teria que se levantar cedo comentaram,
estarás nas aulas com outros estudantes, a maioria nem sabe por que estão aqui,
tampouco sabem escrever ou se colocar como tu, inclusive aparentemente são mais
jovens que você.
Qualquer dúvida não se esqueça que podes
pedir ao professor um atendimento em seu gabinete.
O que ensinava literatura, lhe perguntou se
tinha escutado falar em Mark Twain, foi honesto, não senhor, leia seus livros,
depois venha sempre falar comigo no meu gabinete.
Lhe disse o nome dos dois livros que devia
ler primeiro, Tom Sawyer, depois Huckeberry Finn, ele não leu, devorou os dois,
comprou os dois livros, não os queria emprestado,
Comprou também uns cadernos pequenos, para
fazer anotações como fazia com os texto de teatro e cinema.
Quando foi a primeira vez, tinha lido o Tom
Sawyer de cabo a rabo, várias vezes, inclusive se sentava no metro em direção a
universidade, lendo o mesmo.
Para o professor ele tinha absorvido o
personagem, pediu que ele escrevesse como se sentia lendo esse livro.
O fez analisando cada capítulo do mesmo, ao
mesmo tempo, acompanhava as aulas prestando atenção, ao mesmo tempo, observando
o comportamento dos colegas, a maioria vinha de famílias bem, era como se
estivessem ali para passar o tempo.
Começou a escrever sobre as frases soltas
que soltavam, como imaginavam o futuro, sentava-se por perto nos intervalos,
para os observar, mas principalmente escutar o que diziam.
A maioria era bazofia, pensavam, esse não
vai chegar a lugar nenhum.
A cada dia dedicava uma hora da madrugada
para escrever o que estava na sua cabeça sobre isso, no dia que deu para o Jeff
ler, esse se matou de rir.
Explicou para ele, porque preferia dar
aulas nessas classes noturnas, as crianças, não fazem minha cabeça, poderia
dizer, neles posso enfiar uma mensagem, isso é falso, veja como são quando são
maiores, estão perdidos, estudam, poucos sabem o que realmente querem.
A mim me criticaram quando comecei a
ensinar uma senhora que trabalhava na casa de meus pais, a ler a escrever, meu
pai me chamou a atenção, que não o deveria fazer, pois a estava ensinando a
pensar, logo ela iria querer sair do círculo de sociedade que lhe correspondia.
Quando decidi não estudar direito como ele,
tampouco trabalhar no seu escritório, foi um caos, pois segundo ele, era o
filho destinado a isso, o mais inteligente da família.
Acabou me colocando para fora de casa, pois
segui em frente, por sorte recebi o apoio de meu avô materno, esse sim,
entendeu o que eu pensava.
Ele também é um emigrante como tu, se fez
sozinho nessa cidade, por isso vivo com ele, esse homem apesar da idade
continua trabalhando, como fez todos os dias de sua vida, minha mãe esconde de
todo mundo que seu pai tem um armazém de ferramentas, que vive em cima do mesmo
no Brooklyn, ela foi a universidade, como muitas mulheres deste vasto pais,
para encontrar um homem que lhe desse um futuro confortável.
Renegam dele, também porque é judeu, eu vou
a sinagoga com ele, sempre que posso.
Quando o apresentou ao seu avô, ficou
impressionado, com a ligação imediata que surgiu entre os dois, tinha lhe dado
o primeiro texto do Dante para ele.
Pela primeira vez, viu seu avô emocionado,
com certas passagens.
Quando os apresentou, ficou impressionado,
com seu avô contando ao Dante, como ele tinha saído de uma aldeia, no cu da
Alemanha, para fugir dos nazistas, cada passo, o caminho até Amsterdam para
fugir num navio, contou que tinha feito a metade do caminho caminhando, com as
botas penduradas no pescoço, para não gastar, só tinha um saco, com a outra
peça de roupa que tinha. Por sorte
consegui num navio, um trabalho, limpava a cozinha, tudo que houvesse que
limpar.
O que lhe impressionava era a atenção que o
Dante prestava, depois o velho foi lhe contando como tinha seguido em frente,
como tinha chegado, a não ser com o dinheiro que ganhou ao finalizar a viagem, soube
depois que tinha sido o último barco que tinha saído de Amsterdam, que o pais
tinha sido invadido.
Aprendi a falar a língua, embora até hoje
meu neto me corrige, pois pronuncio tudo muito carregado.
Minha mulher foi o meu apoio toda a vida,
só tivemos uma filha, pois a imaginávamos indo a universidade, para ser uma
mulher forte, mas depois descobrimos que como a maioria das amigas, iam para
conseguir um casamento que desse um status social.
Por sorte tenho meu neto, falava isso
colocando a mão sobre a do Jeff, que contra o vento e maré resolveu fazer o que
era direito, ensinar os que chegam esperando encontrar esse eldorado que não
existe.
Quando mostrou o texto sobre os alunos, seu
professor, o chamou as gargalhadas, penso igual, é como se estivesse perdendo
meu tempo.
Agora quero que reveja esse texto, crie um
personagem que analise cada um, imagina de aonde saíram, o que pensavam os pais
dos mesmo, quando chegaram aqui, pois a maioria no fundo, é fruto de
emigrantes, primeira ou segunda geração, que sonha que o filho vá a
universidade.
Ele escrevia sobre o avô do Jeff, no
momento era complicado, de manhã, fazia a universidade, de tarde ensaiava uma
peça de teatro, que lhe interessava fazer, era um segundo personagem, não o
mais importante, mas sem querer encaixava com o que estava acontecendo com ele
nesse momento, o Zoológico de Cristal de Tennessee Willians. Gostava desse personagem frágil, tão oposto a
ele, nessa casa, em que todos de uma certa maneira viviam do passado.
Já sabia o texto inteiro, todas as falas
dos companheiros que ainda trabalhavam com o texto na mão.
Era o mesmo diretor do seu primeiro
trabalho.
Quando soube que ele estava na
universidade, ficou contente, sei que contigo é tudo ou nada.
Nessa época o chamaram para Hollywood, para
a mesma merda de sempre, um filme sobre jovens. Jeff leu o texto, disse que era uma grande
besteira.
Na verdade, muitos começam por aí, mas
pouco escapam desse estereótipo que constroem em cima deles.
Quando a peça estreou, Jeff levou seu avô e
Mirthes, os dois adoraram o trabalho dele.
O velho lhe disse, que mesmo não sendo o
ator principal, ele engolia os outros quando estavam em cena.
Perguntou ao avô do Jeff, se podia ir
visita-lo no final de semana, levou o que tinha escrito da história dele, tinha
se colocado na pele dele, um jovem judeu, de uma vila perdida, sentido o que ia
acontecer com seu país, a negativa de seus pais, em ver a realidade, só sua mãe
lhe deu algo de dinheiro, se achas isso, é melhor partires.
Anos depois tinha procurado, a vila tinha
sido bombardeada na guerra, não sobrava nada, além dos poucos que viviam ali, a
maioria da vila tinha sido deportada aos campos de concentração, ninguém voltou
para contar.
O velho quando leu, parou, pediu ao neto
seu remédio de coração, colocou uma pílula embaixo da língua, estou me
emocionando.
Depois de terminar, o abraçou, a história
ele contava até a chegada a NYC, a impressão que o mesmo relatava, os edifícios
que pareciam monstruosos, até encontrar o emprego nessa loja de ferragens, como
tinha conhecido sua mulher a filha do proprietário, judeus como ele.
No final se fundiram num abraço, os três.
Jeff estava emocionado.
Levou o relato para o professor, contou
como tinha escutado essa história, disse que estava construindo a outra que
este tinha mandado fazer.
Eres o único que trazes teu trabalho para
mim, os outros só entregam no final, cheio de erros, palavras perdidas, alguns
nem vale o papel que escreveram.
Agora quando ia dormir, Mirthes colocava um
copo com leite quente para ele, ao lado da máquina de escrever.
Jeff tinha feito uma coisa, conhecendo sua
mãe e seu pai, pediu para o avô fazer um documento, permitindo a publicação do
texto numa revista de um jornal, era o que entrava na casa dos pais.
O velho se matou de rir, imagino a cara de
tua mãe, lendo a história que ela fez tudo para esquecer.
Dante ficou fascinado, quando viu que saia
na revista, avisou seu professor, Mirthes, ria muito, meu filho publica num
jornal.
Já Jeff teve que aguentar a mãe, além do
pai, pois ele tinha colocado o nome real do avô do Jeff.
Ficaram furiosos, sua mãe, que nunca ia ver
o pai, foi falar com ele, depois disse ao Jeff que ele estava louco, que essa
história não era real.
Jeff conhecia algumas amigas dela, mandou o
artigo para a mesma, dizia a história da minha família, bem como da vossa.
Entre eles tinha nascido a muito tempo um
relacionamento, mas nunca nada demais, eram amigos demais para irem além.
Jeff começou a contar, quando ele era
garoto, que ia visitar os avôs escondido de seus pais, não entendia, porque
nunca eram convidados a casa deles, nem para Ação de Graças, Natal, o avô lhe
explicou que ele e sua mulher, como você mesmo é judeu. Não temos essas festas.
Teu pai esconde, mas o avô dele também era
judeu.
Em casa faziam tudo que uma família
americana faria nessas datas.
Quando sua avó morreu, foi basicamente
quando ele entrou na universidade, estudando o que queria contra a vontade do
pai, contou tudo isso ao Dante.
Ele juntou um texto no outro, montou seu
primeiro livro.
Jeff o beijava muito quando leu tudo.
Poderias, estar te prostituindo com esse
piru imenso, ou fazendo filmes pornográficos, mas estás na linha dura.
A peça ficou o tempo necessário para chamar
a atenção de um diretor, esse veio falar com ele, gostava do seu trabalho, lhe
deu o roteiro que ia trabalhar, a história se passava em NYC, seria filmada ali
mesmo.
Era a história de um músico de Jazz, mulato
como ele que chega ao mais alto, mas veja bem o adoro, é meu pai, mas morreu,
ninguém se lembra dele, quando te vi no teatro, pareces muito com ele.
Lhe trouxe todos os discos que o mesmo
tinha publicado, ele disse que não entendia de música, mas ia escutar, isso
fazia nas suas horas tranquilas, no princípio da noite quando ia escrever.
Ainda estava batalhando para criar esse
personagem que o professor tinha pedido.
Concordou em fazer o filme se o mesmo fosse
feito nas férias da universidade.
Assinou o contrato, depois que o Jeff levou
o mesmo a um advogado.
Jeff achava incrível, ele terminava o
livro, que tinha feito juntando a história de seu avô, bem como a dele próprio,
tudo que tinha escutado dele.
Quando leu pela primeira vez, foi ele que
chorou, me entendeste, pela primeira vez o beijou na boca, poderia te amar, mas
eres um pássaro livre, não quero te colocar numa jaula.
Seu avô morreu logo depois, a filha ficou
furiosa, pois Jeff era o único herdeiro, nada para a filha, nem os outros netos
que ele sequer conhecia.
O mais interessante, que os negócios de seu
pai, não iam bem.
Nunca disse a ninguém a quanto montava sua
herança, o local da loja, além do apartamento em cima foi comprado por uma
construtora para um edifício, junto com o do lado.
Jeff comprou um apartamento pequeno para
ele, mas um dos quartos transformou em sua biblioteca, com o dinheiro que
tinha, fez uma coisa, começou a estudar outra vez, agora aprendia fazer
roteiros de cinema. Disse ao Dante que
queria escrever o roteiro do livro que ele tinha feito.
Conseguiu que o mesmo fosse editado.
Ele estava em plena filmagem quando soube
da morte do velho, pediu desculpa, mas tinha que apoiar pelo menos dois dias
seu melhor amigo.
Ele estava fazendo um trabalho
interessante, tinha perguntado ao diretor, qual músicas do seu pai, apareceriam
no filme, as escutava até se cansar, queria saber o que o mesmo sentia ao tocar
essas músicas, para assim transmitir no filme, embora ele não tocasse o
instrumento.
Quando terminou o filme, foi ver o copião
com o Jeff, esse apertava seu braço, nas horas que se emocionava.
O dinheiro do filme, bem como o do livro,
foi direto para o banco, Mirthes dizia que se fosse um de seus filhos, iam
comprar um puta carro, joias para se exibirem como fazem esses garotos de
agora, usando esses colares imitando a ouro.
O livro chegou as livraria ao mesmo tempo
que o filme se estreou, então nas entrevistas falava dos dois.
Quem não gostou foi a mãe do Jeff, quando
ele mostrou o papel assinado pelo avô, reconhecido em cartório, que permitia
isso, eu agora estou transformando o mesmo num roteiro de cinema.
A mãe conseguiu uma coisa, trocou seu nome,
ficando com só o do marido.
Nas entrevista sobre o livro, ele ia com o
Jeff, o apresentava como um dos personagens do livro, eu tive o grande prazer
de conversar com seu avô que me contou toda essa história, bem como meu amigo,
me contou a parte que vai até ele.
Falava que tinha aprendido a ler e escrever em inglês com o Jeff, nas
aulas noturnas que ele dava para emigrantes.
Sem querer ele me abriu as portas do
Eldorado, pois isso significa, trabalhar, para ser alguém.
Numa das tardes de autógrafos quem apareceu
foi o crítico de teatro, conversaram muito depois.
Quando Jeff disse que estava escrevendo um
roteiro em cima do livro, ele pediu para ver, posso te ajudar se queres,
comecei minha vida escrevendo roteiros em Hollywood.
Ele durante anos, seguiu compaginando os
dois ofícios, escrever ao mesmo tempo, fazer cinema ou teatro.
Quando apresentou o trabalho que o
professor tinha pedido, foi considerado seu trabalho de final de curso. Os companheiros de classe não entendiam esse
personagem, nem os outros da história, não se viam retratados, desse grupo
todo, só um escapou, foi ser jornalista de um pequeno jornal do interior, os
outros seguiram no nada.
Jeff um dia tomou coragem, disse que seu
medo era sempre o mesmo, lhe perder, quando Mirthes morreu, eles foram viver
juntos, arrumaram um apartamento maior, em que cada um tinha seu lugar para
escrever.
O filme do Jeff fez sucesso, inclusive foi
candidato ao Oscar de roteiro.
Sua família nem se verbalizou, ele passou a
usar só o sobrenome do avô para tudo, era como se tivesse construído um
personagem.
Os dois viveram sempre juntos, quando Dante
ia para Hollywood, fazer um filme ele ia junto, pois agora escrevia sem parar.
Foi quando lhe disse que queria escrever o
roteiro de sua história, a primeira quando tinha descoberto que podia escrever.
Nas férias foram os dois a Sicília, tinha
contratado um detetive, para saber aonde era o orfanato, esse o levou a um
lugar, que caia aos pedaços, um dia o teto da capela desmoronou, matando várias
freiras, as crianças foram mandadas para outro lugar.
Ele saiu dali, parou um momento fechou os
olhos, só disse direita, foi andando pela estrada, até que Jeff lhe alcançou
com o carro, as vezes ele pedia, me deixa ir andando, pois assim vou me
lembrando de coisas.
Conseguiu localizar o lugar aonde tinha
vivido como os dois homens eu o tinham levado.
O vizinho contou que a terra não era deles,
faziam uma coisa, traziam crianças para trabalharem para eles, depois os
vendiam para outras pessoas.
Ele tinha escapado disso, tudo estava no
chão, riu muito, quando se aproximou do que era a antiga horta, o homem disse
que tinha chovido muito nesse último mês, um pé de tomate estava carregado, ele
limpou nas mangas um, enfiou na boca, fazendo como quando era criança.
Ficou ali rindo como um louco, soltou uma
gargalhada imensa.
Os dois escreveram o roteiro junto, que
terminava com ele, encostado no navio olhando a Estátua da Liberdade lhe dando
a bem-vinda.
Ele não fazia nenhum papel, foi duro
conseguir um garoto, depois um rapaz, para fazer o mesmo, claro agora já tinha
os cabelos brancos.
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Jeff tinha morrido antes dele, cuidou dele até o final, nunca tinha
falado, que tinha se apaixonado por ele, no dia que lhe começou a ensinar.
Os dois não gostava de usar a palavra amor,
ou eu te amo, pois sempre lhe parecia vazias.
Os irmãos não foram ao enterro, mas estavam
falidos, procuraram saber sobre testamento, a muitos anos, o tinha de uma
maneira de um casal, era de um para o outro, o grande apartamento que viviam,
ele seguia ajudando a escola aonde tinha aprendido, bem como o Jeff.
Tinha ajudado a melhorar as condições do
local.
Agora olhava para trás tudo isso, as vezes
ia até o ferry para Long Island, para fazer um passeio de atravessar para o
outro lado, só para ver a Estátua da Liberdade, dizia que só ela não ficava
velha.
Como dizia o Jeff, se não estás em cena, ou
fazendo um filme esquecem de ti.
Era uma verdade, dias antes tinha visto um
filme velho dele na televisão, ficou rindo muito com isso, acho que hoje o
faria diferente.
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