ESCAPE

 

                                  

 

A sociedade tinha se dividido mais depois da terceira guerra mundial.  Agora era governada por um grupo que controlava todo.  Metade de América tinha sido destruída. Os efeitos das bombas tinham não só feito estragos nos humanos, mas também na própria estrutura da terra.

A tinham sacado do seu eixo natural, vulcões ficaram ativos novamente, tinham surgido algumas novas ilhas e outras tinham desaparecido.  Europa tinha sobrado pela metade, e América do Norte, cortada pela metade.  América Central tinha desaparecido totalmente, bem como sua população.  A América do Sul, reduzida a sua metade, África era um continente pequeno, a península arábica, tinha desaparecido, bem como seu deserto.

Em alguns o efeito das bombas na população era um dano sem conserto.  Os novos humanoides, eram considerados de terceira. Tinham uma vida curta. Como diziam os científicos, menos mal que tinham perdido a capacidade de se reproduzirem.

Serviam para serem explorados.

A nova ordem, controlava todo mundo. Mal nasciam, se introduzia um chip que durava toda sua vida. Se sabia aonde estavam, o que faziam, e todos seus movimentos.

Com uma certa idade, depois de um aprendizado básico, se sabia em que categoria colocar esses novos humanos. Eram examinados pelas máquinas, que embora manejadas por outros humanos, também erravam em algumas ocasiões.

Os erros provocavam revoltas asiladas, o que nem sempre era produtivo. Como a polícia era controlada a distância por seus chips.  Se ativava o mecanismo, selvageria nesses policiais, os poucos que sobreviviam aos massacres, em seguida eram capturados.

O mundo em si estava organizado. Os com menos capacidades, produziam em pequenos oásis comida para os mais aptos a viver mais tempo. Mesmo a comida era racionada. Cada pessoa tinha uma quantidade de comida relacionada com sua altura e peso, o mais importante com o serviço que executavam.

Policiais, militares, recebiam um tipo de alimentação, que os fazia serem mais fortes, mais agressivos. Também morriam antes pelo desgaste físico que essas comidas provocavam.

A camada mais alta, que executava serviços, intelectuais, científicos, esses recebiam uma alimentação que os trazia de corpo esbeltos, viviam mais tempo.

Mesmo assim os de alto mando, tinham entre esses alguns que usavam como pilotos de provas, lhes induziam a assassinar ou serem um exemplo de controle a quem quisesse ou pudesse escapar.

No momento que as crianças, eram analisadas uma a uma, por máquinas, médicos e psicólogos, eram separadas de seus pais, enviadas a serem treinadas para suas funções. 

Nos possíveis erros, estava Jacques Cherrier, tinham errado com ele redondamente.  Acabou sendo treinado para ser um faz tudo, tinha habilidades, manuais, mesmo intelectuais, mas estas estavam ocultas, ainda não tinham aflorado a sua consciência.

Mal completou 20 anos, foi enviado a trabalhar como ajudante para tudo, de um dos grandes cientistas.   Era um escravo na concepção certa.  Estava para servir a este em todos os sentidos.

Professor Brum, era um tipo calado, fora o principal inventor do chips que tudo controlava.  Tinha trabalhado anos e anos, nos computadores, energia solar que os controlava.  Ao menor deslize de algum humano, se sabia imediatamente que a pessoa, estava fora de controle, era sumariamente eliminada, como uma ameaça a sociedade. Esses eram normalmente, os que o computador, médicos, analista, erravam.

Se procurava saber quem tinha feita a análise, eram castigados severamente.  Considerados como causadores reais dos problemas.   Eram enviados a trabalhar com os menos favorecidos, ali passariam o resto de seus dias.

O chip marcava a cara das pessoas, com um sistema que era fácil de identificar.  Em cada categoria, as mais baixas tinham lunares na face esquerda, os de nível médio ou serviçais tinham listras na face direita, os de nível alto como um sistema de identificação na testa.  Qualquer um que não tivesse nenhuma identificação, eram simplesmente eliminados, pois escapavam ao sistema.

Tudo isso era feito na surdina, as pessoas simplesmente desapareciam, não havia como reclamar, os policiais simplesmente ignoravam qualquer reclamação.

Na verdade, estava ali, só para controlar as pessoas, eles mesmo não tinham vontade própria.

Estava tudo tão organizado, que as vezes chegava a ser chato, como dizia o próprio Brum.    Quando este se cansou de estar no departamento de criação de chips, além de ter uma certa idade, resolveu se afastar do círculo de poder.   Para não levantar nenhuma suspeita, ofereceu-se para seguir trabalhando a partir da casa que lhe tocava para aposentadoria.  Levava junto seu ajudante, nada mais.

Jacques, foi com o Brum, como iria a qualquer lugar que lhe enviassem. Mesmo porque suas ondas mentais, estava ali para isso para servir.

Foram enviados para um antigo mosteiro, quase fora do controle da Europa.   Ali viveriam, deviam prestar contas.

Ficava no alto de uma montanha, tinha sido usado por monges antes de que a religião, deixasse de existir.

Quase tudo tinha sido sequestrado da biblioteca, menos uma parte que tinha ficado sobre os escombros causados por uma bomba.

Nos primeiros tempos Brum se dedicou a disfrutar do tempo vago que tinha, se deitava numa cadeira que servia para descansar a sombra de um antigo claustro.  Jacques depois de todas as tarefas executadas perfeitamente, se sentia sem vontades.

Vagando pela antiga biblioteca, na qual só restavam livros sem importância, primeiro se dedicou a juntá-los todos em uma só estante. Foi quando descobriu a parte que estava abaixo dos escombros. Lentamente para não chamar atenção, foi retirando pedra por pedra.  As ia levando para um outro lado da biblioteca que estava vazio, empilhando como se fosse uma pirâmide.

Tinha visto na capa de um dos livros uma, sem tomar consciência estava repetindo o que tinha visto.   Quando acabava de chegar quase ao teto, começava outra, assim, conseguiu abrir espaço para tirar tudo que estava debaixo dos escombros.

Não se detinha para ler nenhum título ou mesmo folear alguns, os levou para umas estantes, no mais profundo da biblioteca.  Seguindo seus instintos, procurou não chamar a atenção do Brum para isso.  Este tinha retomado seus trabalhos no laboratório que tinham concebido para ele, com dois ajudantes, que vinham periodicamente.

Queriam desenvolver um chips que ao menor sinal de rebeldia, provocaria um ataque a pessoa que o usasse, mataria instantaneamente.  Se deixaria de necessitar da polícia ou do exército para isso.  Eliminariam essa camada da sociedade que era violenta.  A ideia era ao fazer a triagem, esses seriam eliminados imediatamente.

Jacques estava encarregado de escrever todas as ideias, mas em momento algum devia fazer nenhum comentário ou observação.

Observou um erro cometido, mas não verbalizou.  Anotou num papel que mantinha sempre em seu bolso, o falho, quiçá para mais tarde comentar com o Brum.

Ao contrário disso, desta vez viu que o erro seria garrafal.

Trouxeram uma série de policiais, homens do exército, para serem usados como cobaias.   Eram retirados os chips que usavam, imediatamente colocado os outros.   Jacques que também participava dessa operação, viu os defeitos aparecerem, pois imediatamente os mesmos deixavam de ser submissos, se tornavam incontroláveis.

Eram eliminados sumariamente, os científicos não encontravam o erro.

Tenho que ficar quieto, não posso sinalizar aonde está o erro.

De noite no seu quarto, na abadia, ao contrário da cidade não tinha célula de vídeo para o controlar. Começou a estudar o erro.

Viu uma possibilidade de criar um chip que fizessem as pessoas escaparem do controle das máquinas, dos homens de cima.

Nos livros encontrados, descobriu um escrito por um monge, que se dedicava a meditação, explicava como controlar a mente, desligar pedaços do cérebro que impediam a concentração. Tinha sido usado pelos monges para escaparem das tentações sexuais que causava viverem retirados do mundo. Começou a usar esses exercícios para escapar de seu próprio chip. No momento que a central viu que por momentos o seu chip deixava de funcionar, avisou a Brum, mas este disse que ele continuava a executar tranquilamente o trabalho de sempre.  Foi o erro que cometeu.

De noite, quando limpava o laboratório, começou a roubar pequenas peças, bases para um chip.

Consertou o erro cometido, estudou como fazer que o chip não recebesse influência ou controle dos computadores.  Foi anotando cada erro cometido nas experiencias, ao mesmo tempo usando isso ao seu favor.

Num dos dias que desceu a vila, para abastecer o mosteiro de comida, viu uma ação policial, havia um casal com um garoto levado pelas mãos, como o policial matava os pais da criança, lhe dava uma pancada que o deixou como morto.

Esperou nas sombras, carregou com ele a criança assim que abandonaram o lugar, antes que chegassem os da faxina, os que fariam desaparecer os cadáveres.

Levou o garoto até uma parte do convento que estava abandonado, colocou o menino sobre um velho colchão, viu que seu coração latia muito de espaço.  Tirou se chip experimental do envelope que o continha, examinou a ferida na cabeça do garoto.  Trouxe material até ali, o adormeceu profundamente abriu, como tinha visto o professor fazer, retirou o chip original, colocou o novo.

Cuidou do garoto toda a noite. Quando despertou, fez um gesto de silencio, para que este não fizesse ruído. Lhe trouxe alimentação, cuidou da ferida.  Disse que não saísse dali que descansasse, depois lhe trazia comida.

O garoto obedeceu a tudo que ele dizia.

Fez todas suas obrigações, desde ajudar a levantar Brum, sua comida, depois o serviço de laboratório.

Como não falava nada durante esse tempo, seguiu seu instinto fez exercícios para que a máquina não pudesse perceber sua excitação.   Quando viu que funcionava, seguiu quieto. Nesse dia fizeram de novo teste com um policial superviolento ao trocarem o chip esse escapou ao controle dos homens, matou um deles.  Brum estava furioso, porque o revolver de descargas elétricas deixava de funcionar contra o homem, talvez porque alguma coisa tivesse mudado no circuito.

Quando finalmente conseguiram matar a cobaia, a conta era trágica, um assistente morto, outro ferido e o próprio Brum, tinha um corte no braço.

No dia seguinte chegaram de helicóptero um grupo de cientistas, disseram que Brum ficava suspenso de suas funções, que já estava velho demais para ficar brincando com o que não devia. Todos os novos testes estavam suspensos.

Num descuido dos técnicos, conseguiu roubar o chip da cabeça do policial, assim poderia pesquisar o que tinha dado errado.

Nada era por um acaso.  Os técnicos examinaram inclusive a ele, viram que seu chip estava perfeito, talvez fosse um problema do computador por estarem tão afastados da central.  Suas funções agora era cuidar de Brum, que esse não usasse as instalações do complexo.

Ou seja, tinha tudo para ele.  Esperou um dia, cuidando agora somente do garoto, de Brum.  Este último tinha mergulhado numa tremenda depressão.

Descobriu que o mesmo não usava chip, ou seja, não tinham controle sobre ele.  Passou a usar o laboratório de noite. Viu que ninguém procurava o garoto, ou seja, o chip tinha funcionado.

Procurou aonde tinham errado no chip novo, descobriu, analisou se fizesse em sentido contrário funcionária de outra maneira. Mas como prova-lo. Esperou outro estalido de cólera na vila, viu um homem grande se defendendo dos policiais, estes caiam em cima dele com toda força, o deixaram a nocaute.

Com todas suas forças o arrastrou até uma rua estreita, ali estava o burro que usava para carregar as comidas para o convento. O Jogou em cima do animal, esperou ficar escuro para subir ao convento.   Quando chegou, o deixou com o garoto, pediu que o cuidasse.  Brum estava nervoso pois não o encontrava, disse que tinha ido a vila, que ficara preso pela confusão.   Ele reclamou do povo ignorante, que merecia justamente isso. Colocou mais remédio para dormir na sua comida, o deixou dormindo num cadeirão.

O homem não tinha despertado, tinha um latido muito fraco, o primeiro que fez, foi fazer a incisão trocar o chip.  O garoto o ajudava institivamente. Se via pelo seu olhar que era inteligente.

Depois cuidou dos ferimentos do homem, dando pontos aonde lhe tinham cortado a carne.     Esperou, tinha que saber como funcionava a mutação implantada no chip.   O homem levou um dia para se despertar totalmente.  Quando o fez, perguntou aonde estava, o que fazia ali.  Não mostrava nenhum signo de violência.  Tampouco procuraram por ele nos outros dias.

Então funciona. Pensou, analisava o comportamento do homem o tempo todo. Quando finalmente se restabeleceu, estava preocupado por se acaso procuravam por ele.   Lhe contou que tinha trocado seu chip por um inibidor, assim não saberiam que estava vivo.  Um dos grandes erros eram que quando havia uma revolta davam mortos todos eram enterrados em algum lugar, sem retirar os chips já não serviam.

Ele precisava se livrar do seu.  Treinou o homem, este o ajudou a fazer o seguinte. Trocou o seu por um novo, colocou o seu na cabeça do Brum.  Assim poderiam saber que ele estava vivo, funcionando, Brum cada vez mais deprimido não representava perigo.

Livre da monitorização, fabricou mais uns quantos chips, o homem que se dizia chamar Jean, foi trazendo amigos de sua agrupação, foram trocando os chips, os colocando em animais.  Como as pessoas da vila se movimentavam muito os computadores não notariam a diferença.

Já eram 10 pessoas fora do controle das máquinas. Todos cabeças pensantes, homens que a sociedade tinha desprezado.

Um dia, como Brum não notava a diferença, deixou o garoto cuidando dele, foram até a fronteira.  Queriam saber como funcionava do outro lado. Do alto de uma montanha observavam uma vila próxima.  Estava pelo menos a cinquenta quilômetros da deles, eram mais controlados, com mais violência de aonde estavam.

Por aqui não podemos escapar.

Procurou na biblioteca, mapas da região, encontrou num velho livro de geografia, um caminho pelas montanhas, que levava a uma série de grutas em um vale.  Restava saber como era ali.

Encarregou Jean mais dois de fazerem o caminho até lá. Não podia deixar as pessoas circularem pelos lugares do convento que poderiam estar vigiados, por isso, fechou todos esses espaços. Os avisou do perigo.  Todos entenderam o significado disso.

Jean retornou uma semana depois sozinho.  Tinha deixado os outros dois lá, tomando conta do que tinham descoberto.

Era um vale esquecido por todos, tinha registrado num dos aparelhos que tinham levado como era.  Rapidamente se dirigiu aos livros que tinha resgatado do desmoronamento. Sua memória tinha guardado um livro antigo que tinha manuseado. Falava de uma civilização antiga, os Anasazi, que desapareceram sem explicação, depois substituídos pelos Hopi, Zuñi finalmente Índios Pueblos, todos eles desapareceram durante a guerra mundial que tinha terminado com essas minorias.

Mostrou os desenhos aos Jean, ele concordou era justamente um desses lugares, comentou que as árvores do fundo do vale tinha crescido tanto que acabavam tapando para o mundo exterior o que havia ali. Numa das paredes descobrimos uma caverna imensa que devia ter sido usada para algo, há sinais de fogo muito antigo.  O jeito agora era levar o resto do pessoal para lá.

Conversou muito com Jean, ele levaria todos, depois voltaria para busca-lo, enquanto ele organizava como ficariam ali.

Teria que encontrar alguém para substituir, ou o melhor seria transportar parte da maquinaria para esse vale.  O problema seria como. Sua inteligência o fazia ser uma pessoa pratica, tudo tinha que ser bem pensado.   As máquinas de fabricar chips eram grandes, pesadas, mas na realidade o que as construía era uma pequena parte.  Trabalhou nisso, construiu três, pois assim poderia trabalhar rápido.  Agora ajudado por um dos que tinha resgatado por último, visitavam as vilas próximas, aonde estavam atirados os que tinham sido eliminados. Recuperavam todos os chips.   Quando Jean voltou, muito contente da vida. Disse que tinha se encontrado com um grupo de policiais que estavam altamente alcoolizados, pode se aproximar sem ser notado.  Tinham ordens de eliminar Brum, destruir o monastério, laboratórios.   Conseguiram roubar 5 burros, carregaram o material.   Mas antes com pena do Brum, o deixou narcotizado, no laboratório. Preparou um explosivo potente com o material que tinha por lá.   Mandou os outros seguirem em frente, já os alcançaria, ficaram somente ele, Jean, o garoto que ele chamava de Ovo, pois tinha cabeça muito redonda.    A uma grande distância quando chegaram os policiais, quase todos bêbados, esperou que todos entrassem no Laboratório explodindo o mesmo.

Pela primeira vez na vida, matava alguém.  Mas tinha que velar para vida dos demais.  Entrou ele sozinho no que sobrava do laboratório, tirou uma arma elétrica de um dos policiais, os poucos que sobravam com vida, foi eliminando.  Não lhe causava prazer nisso, mas tinha que pensar nos outros.

Professor Brum tinha morrido, com a queda de uma grande laje sobre ele.

Jean quis entrar para ajudar, mas não permitiu.  Bastava um ter que executar a sangre frio alguns para livrar os outros.

Partiram rapidamente, pois sabiam que em seguida chegariam mais policiais, principalmente porque falharia o controle dos chips neles.

Já estava muito longe, quando escutaram os viajantes elétricos como chamavam, uma espécie de pequenos aparelhos que voavam a baixa altura.

Mas já tinham se embrenhado na mata, levaram dois dias para chegar.  Jean preferiu de acordo com ele dar uma volta, para não chamar atenção.  De qualquer maneira, a última pessoa, ia varrendo as marcas no chão.  Ao lado ia outro, que jogava um líquido que retirava o cheiro.

Inclusive tinham envolvido seus sapatos em finas peles, que não deixavam marcas.

Quando chegaram, levaram o material todo para o mais fundo da caverna. Dela saiam vários caminhos que depois se dedicariam em explorar.

Estavam exaustos, deixaram os burros amarados numa árvore imensa. Já tinham se acostumado a dormir no chão.

Teria que pensar agora, como fazer esse grupo ir em frente. O problema é que eram somente homens.  Necessitavam de mulheres para fazer uma nova população.

Começaram a explorar os caminhos que saiam da caverna, alguns saiam do alto, bom lugar para montar guardas, mas um dos últimos, viu que era muito largo. Munidos de lâmpadas, água, comida, seguiram por ele, encontraram esqueletos, cerâmicas antigas, mas seguiram em frente.  Apesar de terem perdido um pouco a noção de aonde estavam, calculou que levavam dois dias caminhando.  Tinham parado para descansar nas partes mais largas, dormido. Por isso calculava o tempo.

Saiu ele primeiro, viu que estava do outro lado do grande muro, tinha sido construído por um louco, um tal de Tramp, conforme a história contava.  Caminharam com cuidado. Depois de meio dia de marcha, encontram um povoado, basicamente habitado por jovens.  Quando conseguiu se comunicar, descobriu que eles não levavam chips, mas de tempo em tempo chegava uma nave do outro lado, que levava os que tinham idade para trabalhar.

Perguntou se queriam ir com eles. Tinham medo, pois sempre havia um guarda por ali, que controlava tudo.

Não teve dúvida, matou, queimando o guarda, mas deixando seu chips avariado.  Todos envolveram seus pés em panos e pele de animais.  A maioria eram garotas na idade de 14 a 15 anos, o rapaz comentou que em breve elas seriam levadas para prostibulos do outro lado.  Pelo menos era o que contava o guarda.

Eram ligeiros de corpo, por isso tinham facilidade de os seguir. Penetraram outra vez por aonde tinham entrado, fechando bem a saída.  Os novos ficaram assustados, mas os tranquilizou. A volta lhe pareceu mais curta, pois estavam com pressa de chegar.

Em todo caminho foi pensando como controlar a nova situação entre eles, foi conversando com Jean a respeito.  Esse tinha uma linha de pensamento prática.  O mais fácil, dizia ele, seria as mulheres escolherem os homens com quem queriam viver e ter filhos.   Ruminou bastante a ideia, achou que valia a pena tentar.

Os homens que tinham ficado, olhavam ansiosos as garotas. Mas fez uma grande reunião com todos, explicou que teriam que fazer. Construir um novo grupo humano.  As mulheres deviam escolher seus companheiros.  Durante um dia ou dois, elas observariam, escolheriam. Era pela ordem de idade, as mais velhas tinham esse direito primeiro. 

De uma certa maneira funcionou, pois, viu que elas conversavam entre si, antes mesmo de escolherem, faziam uma análise natural dos pretendentes.

Uma que tinha caminhado ao lado dele todo o percurso, o tinha observado desde o primeiro momento. Embora não fosse a mais velha, era quem comandava o grupo.   Foi direta a ele segurando sua mão.   Não a rejeitou, viu que era seu complemento, o ajudaria a controlar os outros.

Cada uma foi escolhendo seu homem, mesmo alguns de seu próprio grupo de origem.  Só dois homens preferiram não ter mulheres, estavam acostumados a estar sós.

Criaram uma equipe de caçadores, as mulheres se dedicavam ao plantio, tudo isso dentro da área do vale, procuravam nunca sair acima da montanha.  Tinham postos de guarda, que se revezavam.

Passou o tempo nasceram as primeiras crianças. Uma nasceu com defeito congênito, queriam matá-la, ele não permitiu. Nem todos somos perfeitos nesse mundo. Posso cuidar dele. O defeito era numa das pernas.  Com cuidado, dedicação, conseguiu, corrigir a mesma.

As vezes se sentia tumultuado, eram já muitos, estava acostumado com a solidão do laboratório.

Um dia reparou numa falha no fundo da caverna, examinou bem, se subisse um pouco seu corpo magro, conseguia passar.  Já na parte de dentro, reparou, que tinha sido tapada, por fora simplesmente parecia uma falha, mas dentro era um outro espaço. Resolveu explorar. Numa parede mais ao fundo, notou como uma ondulação, eram como nichos, a maioria tapados com barro, imaginou que devia se tratar de um cemitério ancestral. Bem ao centro um nicho, forrado de pedras lisas, formava como uma cama.  Inclusive tinha uma pedra com forma de travesseiro, sem pensar muito se deitou.  Imediatamente caiu num sono profundo, se sentiu rodeado de pessoas diferentes. Era como voltar no tempo, estavam sentadas em volta de uma fogueira, junto no centro aonde tinha notado terra enegrecida.  Um dos homens o chamou para sentar-se junto com eles. Saiu do seu corpo, sentou-se junto com eles.

Foram lhe mostrando o que iria acontecer com seu novo povo. Lhe diziam que fazia bem.  Em pouco tempo estariam buscando um Deus para venerar. Devia controlar isso, pois poderiam cada um criar um tipo de deus, provocar uma cisma.  Devia ao contrário os treinar para serem guerreiros, pois teriam que combater os homens de poder.  Chegaria o momento que teriam que partir para o outro lado da barreira. Lhe mostraram o lugar que ninguém ia hoje em dia.  Poderás viver ali, por muitos anos em paz, eles encontraram seu Deus.  Foram traçando em sua cabeça um caminho por aonde deviam seguir.  O que devia evitar.  Chegará o momento, que muitos o consideraram um ditador, por comandar tudo.  Quando chegue a isso, volte, te estaremos esperando.  Seus filhos, mostrou o primeiro garoto que tinha salvado, depois o garoto que tinha salvado de ser assassinado pelo próprio clã. Esses serão teus companheiros, terás que preparar mostraram o José, para comandar o dia que partas.

Será um excelente general para defender o teu povo. Este te amará da mesma maneira que vai te odiar, por pensarem que estavam seguros.  Teus atos romperam uma rotina que as pessoas estavam acostumadas.  Isso com o tempo provoca receios.

Quando tudo está estático, um movimento rompe com os moldes. Num primeiro momento isso cria a expansão. Mas em seguida pode se retrair.  Por isso deves buscar que estejam sempre em movimento.  Este lugar que estamos indicando está diretamente ligado a este. Somos uma parte da dissidência do outro. Iremos contigo em espírito.

Venha sempre que possa, que tenhas dúvidas, um erro que sempre causaram as civilizações, separar homens e mulheres. Treine a ambos para serem guerreiros, assim poderão defender seus filhos quando necessário.

Foi sugado de volta ao seu corpo, pois escutava o Ovo o procurando.  Saiu do lugar aonde estava, Ovo sabia perfeitamente aonde ele estava.  Estive aqui várias vezes, os velhos são muitos simpáticos.    Ele tinha visto como ele os guerreiros de antanho.

Fez uma reunião com todos, explicou que teriam que treinar para serem guerreiros para poderem subsistir.  Alguns a princípio reclamaram, mas quando disse que não haveria distinção de sexo, que todos deveriam apreender, foi ovacionado pelas mulheres.

José foi o encarregado de ensinar a se defenderem, como usar as armas dos soldados.  Deveriam dirigir a mesma ao pescoço da pessoa, a eletricidade entraria na cabeça da pessoa paralisando o chips.   Deixariam de obedecer às ordens.

Os ensinou a luta corporal, para que pudessem se defender também nesse aspecto.

Jacques se habituou a ir aonde estavam os nichos como ele chamava. Ali podia se relaxar, pensar, muitas vezes conversar com alguns dos antepassados.

Percebeu que Ovo estava sempre de guarda do lado de fora, pois se alguém perguntava por ele dava outra indicação.

Encontrava solução para os problemas mais simples.

Um dia um dos homens com um traje de guerreiro, lhe avisou que do outro lado da muralha, tinha uma vila, aonde ficavam os rapazes sequestrados das famílias, eram treinados como antigamente para serem gladiadores, para divertir os homens do poder.

Quando chegavam a idade própria, colocavam os chips depois eram confinados em naves que os levavam para outro lugar.  Lutavam, se perdiam, imediatamente eram apagados através do chips. Disse que deveria ir em uma época que partiam os maiores, resgatar os menores.  Os maiores já tinham sofrido uma lavagem cerebral, causariam problemas. Os acompanharei.

Comentou com José, que não acreditou muito nele. O jeito foi trazê-lo aos nichos.  Quando José viu os homens todos, se assustou, mas foi tranquilizado.  O guerreiro lhe explicou novamente como funcionava a coisa.  Fazia de tal maneira que podia ver como era o lugar.

Era como se fosse um acampamento de soldados, os garotos eram alimentados, deviam fazer exercícios a maior parte do tempo, serão de grande ajuda no teu exército.

José prometeu guardar segredo do lugar, se prepararam a consciência, iriam um grupo pequeno, sabiam que nessa época, encontraria, poucos soldados.  Deveriam roubar também o arsenal.    O espírito foi indicando a José como devia proceder, os outros estranhavam que as vezes parecia falar sozinho. Deveriam levar os garotos a uma gruta muito bem escondida numa montanha próxima, até que os deixassem de procurar. Ali teriam comida, água para aguentar uns 15 dias. Depois caminhariam pela noite. Mostrou a Jacques aonde estavam os sistemas de vigilância, que deveriam eliminar primeiro.

Prepararam a gruta, para receber os jovens.  Ele junto com Ovo e José, eliminaram os controles de vigilância. No momento só havia três soldados controlando um grupo de jovens entre 12 e 15 anos.  Um deles quando os viu, se assustou, ia gritar, o espírito se materializou, mostrando o que ia acontecer com eles se ficassem.

Os seguiram até a gruta.  Tinham ajudado aos homens a levar tudo do arsenal.

Ante que caísse a noite, viram que focos de luzes, examinava desde o céu a procura dos jovens.  Não sabiam quem tinha atacado, imaginavam que podia ter sido alguma facção rival que os tinha levado. Cinco dias depois acabaram as buscas, nessa noite partiram para o vale.

Foram saudados como heróis. Os mais jovens foram como que adotados pelas famílias já constituída, os maiores, ficaram com os homens que preferiam ficar solteiros.  Agora tinham mais gente para fazerem a guarda.

Jacques foi surpreendido um dia em que entrou um dos guardas para dizer que tinha visto ao longe naves de busca.  Algo tinha falhado.

Imediatamente Ovo apareceu dizendo que os maiores, queriam falar.

Chegou o momento de partir, não perca homens, se entras em lutas perderas muitos dos teus, chegou o momento de partirem. Os buscarão por aqui, nunca vão imaginar que partiram para o outro lado da muralha.  Prepararam toda a comida possível, catimploras de água, partiram, fizeram um grupo com José na cabeça, pois conhecia o túnel. Ao final um grupo de homens se encargaria de fechar o túnel.

Jacques, Ovo, acionaram o fechamento do túnel, do outro lado ficavam os espíritos, uns quantos os acompanharia.

Quando saíram do outro lado da muralha era noite. Deveriam se guiar pelas estrelas como tinham lhes ensinado.  Soldados, os que ali viviam, tinham medo da noite.

Quando amanhecia, encontravam sempre um lugar para se esconderem. Os espíritos, conseguiam fazer com que evitassem qualquer contato com os povos bárbaros da região.  A maioria tinha problemas devido as antigas bombas atômicas.  Tampouco eram procurados pelos soldados para capturar jovens, pois achavam que neles nunca havia nenhum suficientemente inteligente para servir.

Finalmente depois de uns 15 dias chegaram ao lugar que os espíritos o tinham mostrado.  Era o que sobrava das antigas ruinas maias.  Os bombardeios tinham sem querer destapado boa parte das ruinas, coisa que os antigos arqueólogos não tinham encontrado. Começaram a montar casas no meio da floresta que tinha recuperado seu espaço anterior.  Um dos espíritos lhes explicou, o que o homem tira da floresta, ela recupera quando ele deixa de existir.  Aqui terão caça, pesca, limpem os espaços entre as árvores para plantarem, não plantem a céu aberto, para não chamarem atenção.  Nem façam contato com outros, sigam mantendo seu exército para sua defesa. Levou ele, José e Ovo para o interior de um antigo templo, foram descendo uma rampa em caracol, muito grande, não se tinha noção da profundidade, lhe disse que este lugar também servia para se esconderem em qualquer problema.

Mas o mais importante era ao final de tudo, um outro lugar com nichos, viram os espíritos que habitavam o lugar, estavam contentes. Mas mantenham o teu povo afastado daqui, só vocês que nos veem devem vir quando precisem de auxílio. A população cresceu, havia boa caça, covas com água não contaminada, tinham o que comer, beber.   As crianças eram ensinadas por Jacques a pensar por si mesma, a ler, escrever.  Em breve, nem se lembravam de aonde tinham vindo.  Tinham noção de grupo, no fundo era como criar uma civilização.

Um dos homens disse aos outros que uma das esculturas tinha feito milagre, no dia seguinte a mesma escultura estava cheia de oferendas.  Achavam que tinham que sacrificar alguém em honra do novo/velho Deus encontrado.

Não adiantava falar, que não era verdade, Jacques sentiu que era uma repetição do início da humanidade.  Necessitavam de um Deus, seja qual seja. Com os espíritos urdiu um plano, ele já estava cansado, a idade pesava.  Lhe recomendaram fazer milagres.  Ainda pensou, mais milagres que os retirar da escravidão.  O jeito foi com a ajuda dos espíritos, enfrentar a imagem que veneravam. Com os dedos, carregados de uma energia que tinha montado, a partir dos chips. Explodiu a mesma, pronto o povo já tinha seu herói, alguém a quem venerar.  Nessa mesma noite desapareceu, com a ajuda de Ovo.  O espírito que os tinha guiado, já estava ali, para levá-lo de volta ao lugar de origem de tudo. Foi uma viagem extenuante, porque a idade agora lhe pesava. Andar no túnel escuro também, o pior foi retirar os escombros para poderem entrar na grande caverna.

Estava tudo destruído, os soldados tinham feito uma destruição total.   Mas por sorte não tinham encontrado os nichos, desta vez entrou com dificuldade, ajudado por Ovo.  Estava exausto do longo caminho, já só queria se alimentar de água.

Os espíritos os esperavam. Ovo o ajudou a deitar-se num dos nichos vazios, estiveram ali com ele todos os espíritos.  Junto a eles viu toda sua vida passar.  Desde que tinha nascido, quem eram seus pais, pois ele não o sabia, como tinha sido relegado as tarefas de ajudante, quando na verdade ele era um gênio.

Viu como essa sociedade, estava agora sendo dominada pelas máquinas, os homens de cima, já não existiam, tinham sido eliminados pelas máquinas.  Fizeste um trabalho incrível, pois salvaste parte da humanidade de serem escravizados pelas máquinas.  Alguns dos que tu ensinaste, agora com o tempo criaram uma contra máquina que destruirá todo o criado pelas máquinas.  Haverá um tempo negro, mas não importa, seguirão em frente.

Le horrorizava ver o futuro, bem como olhar o passado. Um era mais negro do que o outro.  Um dos espíritos ainda lhe disse, os humanos são considerados animais racionais.   Mas na verdade não deixam de serem animais.

Sempre será assim, a sociedade, nunca poderá se ocupar das pessoas, isso a faz injusta.

Ovo seria um novo messias encarregado de levar seu povo mais adentro na floresta, para voltarem a perder toda, qualquer racionalidade.  Terem noção de ter um Deus, não os impedia de cometerem erros bárbaros.

Finalmente deixou de respirar, era interessante vê-lo junto com os outros espíritos.

Ovo fechou o nicho aonde estava.

Depois de um tempo meditando junto aos espíritos, Ovo retornou para junto do povo, quando começaram as aproximações de outras espécies humanas.

Lhe tocou levar o povo para outro lugar, se repetiu novamente a necessidade de um novo Deus.

Sempre seria isso, a renovação, sempre trairia novos deuses.  Não havia via de escapes, a partir que a humanidade sempre necessita de Deuses como o ar que respira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

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