KARL MANDESEN
Seu nome era Karl, imagina com esse nome,
além de ser loiro, de olhos azuis, muito branco, alto, forte, já de criança
trabalhava, ajudando a mãe no que podia.
Ela era uma mulher de armas a tomar, como
se dizia, tinha vindo de Recife para o Rio, com ele na barriga, a família a
tinha colocado para fora de casa, pois tinha ficado gravida do filho de uma
patroa.
Ela era filha de descendentes de alemães,
que tinham emigrado depois da guerra, para o Brasil, precisamente Recife.
Ele nasceu ali, aonde ela arrumou um lugar
para ficar, com o pouco dinheiro que tinha, foi ajudada sim pela mãe de Santo
do lugar.
Era na favela Pavão, Pavãozinho, viviam no
mais alto, ela logo arrumou emprego, para trabalhar em muitos apartamentos ali
no Posto Seis, assim não estava longe de casa, inclusive de alguns que eram
alugados por temporada, ela cuidava de limpar os mesmo, preparar a roupa de
cama e banho para o seguinte turista.
Quando era pequeno, ele ficava no terreiro
de Mãe Lucia do Oxalá, que o adorava, mal começou a falar, ele ficava olhando
para as casas de santo, falava alguma coisa com alguém até que descobriu que
ele via os Orixás.
Pensou isso porque é um garoto, quando
ficar grande, não os verá mais.
Mal começou a andar, ia atrás dela, colocar
água nas quartinhas que algum filho de santo esquecia, depois ele já com 5
anos, fazia isso sozinho, ela se matava de rir, pois ia reclamando como ela
fazia, que eram desagradecidos, quando precisavam dos Orixás corriam, mas
depois esqueciam do mesmo.
Falava com os orixás, metendo a cara para
dentro de suas casas, lhes dizia bom dia em Yoruba como ela fazia.
Disse a sua mãe que ela devia conseguir
para ele ficar num jardim de infância, assim convivia com outras de sua idade.
Mas quem arrumou foi ela, ele chegava na
sua casa, reclamando que os outros garotos eram tontos, queriam ficar correndo
atrás de uma bola, ele tinha seu trabalho, colocar água nas quartinhas.
Logo foi a escola, se aborrecia, aprendia
de primeira, gostava de um livro, de televisão, programas de crianças, ele nem
olhava.
Tinham a vida agora mais folgada, sua mãe,
trabalhava para uma senhora que cuidava de vários apartamentos para turistas,
então tinha muito mais trabalho, além de se vestir melhor, era uma mulher
bonita apesar de tudo.
Na favela o conheciam como “Gringo”, já os
moleques que ficavam correndo atrás de bolas, ao invés de ir à escola, o
chamavam de “Mandy”, um nome mais feminino.
Teve um que lhe encheu o saco, era filho de
um que passava drogas. Esse um dia
chegou com o olho roxo em casa, o pai foi tomar satisfação com Mãe Lucia, essa
o enfrentou, teu filho será a mesma bosta que sempre foste, mau aluno, drogas,
se acha o máximo, mas no fundo eres uma bela merda. Saia do meu terreiro, pois senão serás tu que
vais para casa com o olho roxo.
Lá foi o mesmo embora com o olho roxo, pois
ela era quem tinha ensinado o Karl a se defender, pior, muita gente viu, em
seguida a favela inteira sabia que o metido a machão, estava com o olho roxo,
por culpa de mãe Lucia.
Arrumou seus panos de bunda como ela dizia,
desapareceu com a mulher e o filho, foi cantar de galo em outro terreiro.
Ele na escola ia muito bem, a mãe falava
com ele em alemão, para não se esquecer, pois era o idioma que falavam na casa
de sua família, um dia Mãe Lucia, arrastou aquele menino magro, com ela, foi a
uma escola judia, mas alemã, em Botafogo, falou com o diretor, o conhecia de
longa data, já ele estava matriculado.
Aprendeu a descer da favela, ir até Avenida
Nossa Senhora de Copacabana pegar o ônibus, tinha aulas de alemão, francês,
hebreu, o diretor um dia a chamou, pois ele era o melhor aluno, tinham feito um
teste, o iriam adiantar um ano, pois ele sabia a matéria toda do ano seguinte.
Sua mãe ficava orgulhosa, pois tinha
sonhado em fazer universidade, embora seu pai era dos que pensavam que para uma
mulher bastava se casar bem.
Quando ele tinha 15 anos, ela conheceu um
turista alemão que alugou por um mês um apartamento no Posto Seis, o homem se
interessou por ela, a convidou para jantar, mãe Lucia rapidamente jogou os
búzios. Gostou e não gostou, pois se ela fosse embora, levava seu garoto como o
chamava.
Mas Exu disse que era esse o caminho dele,
mas um dia voltara, jamais esquecerá da senhora, nem desse lugar.
No verão seguinte o alemão apareceu outra
vez, subiu até o morro para conhecer mãe Lucia e o filho de sua amada.
Ficou impressionado com o garoto
conversando com ele, com respeito, bem como em alemão.
Acabou pedindo para ela se casar com ele,
contou sua vida, era viúvo, vivia em Munich, tinha uma pequena empresa.
Ela falou com mãe Lucia, faça o seguinte,
um contrato de matrimonio, tinha lido nas revista que alguém deixava ali para
ela.
Foram consultar um advogado, como sempre
conhecido de mãe Lucia, estudaram um tipo de contrato, viriam sempre nas
férias, não queria que o filho perdesse suas raízes.
Outra série de detalhes, registraram o
mesmo no consulado alemão, o homem concordou com tudo, estava farto de estar
só.
Esperou acabar o ano letivo, levou todos
seus documentos, para poder entrar numa escola de lá.
Lá foram os três, ele e sua mãe, inclusive
com dois passaportes, um brasileiro, outro alemão.
Tinha se casado no registro civil,
reconhecido o contrato, bem como os documentos de casamento no consulado.
Sua mãe perguntou se queria trocar seu
sobrenome, ele disse que não, sempre serei Mandesen.
Mãe Lucia fez uma firmeza para eles,
conversou muito com ele, ficou surpresa, dele fazer uma ronda com todos os
orixás dali, conhecia cada um pelo seu nome, pensei que não te lembrava mais
deles.
Imagine, um deles vai comigo, mostrou para
ela, saia da casa de Exu, um negro magro, com uma cara de mau, impressionante.
Ele é meu anjo da guarda, como dizem os
católicos.
Sua mãe dizia que seu pai ficaria
horrorizado do filho estudar numa escola de judeus, já seu marido contente pois
era judeu.
Vivia numa bela edifício antigo, perto da
Marienplatz, não na rua principal aonde Hans tinha sua loja, sua mãe passou a
trabalhar com ele, o melhor foi que ele a incentivou a retornar seus estudos.
Ele se deu bem, fez o último ano antes da
universidade, conseguiu uma bolsa de estudos, depois de pensar muito, conversar
com Hans, resolveu fazer Informática e Tecnologia da Informação, isso será o
futuro dizia para ele.
Todas as férias, ele fechava a loja, era
inverno lá, tinha menos clientes, turistas, iam ao Rio de Janeiro, alugavam o
mesmo apartamento, mas ele fazia uma coisa, subia a favela inteira, ia passar
esse tempo lá em cima com seus amigos, Mãe Lucia, ficava feliz, pois tinha
pensado que com o tempo, uma nova vida ele esqueceria de seus amigos desde
infância.
Mas ele não esquecia, tampouco o nome das
pessoas, ia subindo a favela, falando com as pessoas, perguntado como iam, os
amigos de infância lhe davam pena, a maioria já estava em algum trabalho
braçal, ou nas drogas.
Primeiro ele fazia um verdadeiro relatório
para ela, embora fizesse uma coisa antiga, como dizia sua mãe, escrevia sempre
para Mãe Lucia, a considerava como sua avó.
Tenho que escrever mãe, ela não tem
computador, só aquele celular velho que a senhora lhe deu.
Os dois nessas cartas faziam um verdadeiro
relato do que acontecia com eles, estava acostumado a conversar com ela desde
sempre.
Foi fazendo todas as práticas possíveis,
nas empresas da cidade, de informática.
Um dia Karl lhe disse que um cliente e
amigo dele, disse que precisavam de gente na Siemens, que ele fosse a
entrevista.
Foi conversar com um senhor que era quase
vizinho deles, ao qual cumprimentava todos os dias com um belo sorriso, um bom
dia.
Esse sabia que ele falava português também.
Se saiu bem na entrevista, agora ia a
universidade de manhã para acabar o último ano, de tarde até o final do dia,
trabalhava lá, num departamento novo de informática.
Nas férias foi de novo ao Brasil, trouxe
vários livros para o seu chefe.
No ano seguinte sugeriu que ele fosse a São
Paulo, a central no Brasil, que fizesse um estagio lá, já que falava português.
Mas foi interessante, chegou como alemão,
escutou que falavam mal dele em português, pelas costas, diziam que tinha vindo
espionar para os chefes da Alemanha.
Ele deixou pensarem que não sabia de nada,
que era um gringo tonto.
Mas na primeira reunião, fez um resumo do
que tinha visto ali, mas falando em português, os que tinha falado na frente
dele, mal, ficaram de boca aberta.
Claro foram despedidos imediatamente.
Foi para ficar um ano, mas acabou ficando
cinco.
Ia todos os finais de semana para o Rio de
Janeiro, afinal estava bem, ganhava um salário alemão, que no Brasil era muito.
Ia passar com seus amigos, quando lhe
perguntavam o que fazia indo ao Rio, dizia vou ver meus amigos.
Pensavam esse vai para a farra, o samba,
muita cerveja.
Mas nada, ele passava o tempo todo lá, com
mãe Lucia, tinha aulas de Yoruba, descobriu que na universidade de São Paulo,
tinha um Nigeriano, que dava aulas de Yoruba, fazia aulas com o mesmo sem
ninguém saber.
Nas férias agora fazia o invertido, ia a
Munich, Hans tinha orgulho do filho que tinha.
Resultou que sua mãe morreu antes do
esperado, um dia se sentiu mal na loja, Hans correu com ela para o Hospital,
mas era tarde, tinha tido um enfarte.
Ele veio correndo, para o enterro, Hans
estava arrasado.
Outra vez fico sozinho, estás longe, ele
agora era um dos diretores da empresa no Brasil, mas mantinha um salário
alemão, lhe sobrava dinheiro.
Para sua surpresa, Hans resolveu vir viver
no Rio, comprou o apartamento que sempre alugava, era ele agora que subia para
conversar com mãe Lucia, quando ele vinha no final de semana, lhe fazia a maior
festa.
Levava uma vida simples como sempre tinha
levado, segundo mãe Lucia, o tinha adotado, mas ele realmente parecia ser filho
do Hans.
Havia uma sintonia entre os dois, queriam
que ele voltasse para Alemanha, mas que fosse para Berlin.
Não queria deixar o pai para trás, afinal
tinha abandonado sua vida lá para estar próximo dele.
Pensou muito, tinha aprendido muita coisa
nesse tempo, além de ter-se especializado ele mesmo no que fazia.
Resolveu montar uma empresa no rio de
consultoria na área da informática empresarial.
Alugou um escritório no centro da cidade,
na época da Siemens tinha feito muitos contatos, então era mais fácil.
Foi viver com o Hans, mas nunca deixava de
subir.
Ele tinha seu guia por perto sempre, que o
avisava de algum malandro brasileiro querendo se aproveitar dele.
Hans só reclamava de uma coisa, não tinha
netos, dizia para os educar mal.
Segundo o Karl, ele estava ficando era
brasileiro, tinha feito amizades, no final do dia se reunia com conhecidos para
tomar uma cerveja, comer uma casquinha de siri.
Mas tinha uma coisa, nunca tinha se
interessado por samba, nada disso.
Karl era igual, nada o distraia de seu
trabalho, tinha tentado vários relacionamentos, mas nunca davam certo, pois
chegava o momento que desconfiava da pessoa, sempre se queriam dar bem.
Hans dizia que os brasileiros tinha isso,
adoravam se encostar, tua mãe não pois tinha sangue alemão, como tu.
Seu oásis, era subir o morro, o pessoal
estranhava, pois entrava ano, saia ano, ele seguia branco, ia muito pouco a
praia, quando ia, dizia que ia tomar um banho de descarrego, fazia como todos
os filhos de santo, esperava as sete ondas, pedia licença, para entrar.
Um de seus amigos de infância, que ainda
vivia no morro, era o filho de um dos poucos pescadores ainda existente ali no posto
seis, não tinha tido sorte nos estudos, dizia, quem vai dar trabalho, a um
filho de pescador, mulato escuro, dizia olhando na cara dele, mas bom de cama.
Fazes muita propaganda Zé Maria, por isso
estás sozinho.
Tô sozinho Gringo, porque gosto de alguém
que nem me percebe.
Um dia saíram os dois para tomar uma
cerveja, ficou impressionado, Zé Maria, entendia o que ele falava de
computação. Adorava o assunto, mas foi
franco com ele, adoro mesmo é sair com meu velho de madrugada, ir pescar, isso
me dá uma paz incrível.
Um dia que o pai dele estava doente, um
final de semana, o convidou para ir com ele.
Ele que vinha de uma semana tumultuada, se
relaxou, entendeu o que o outro dizia.
Veja posso ser brasileiro nesse aspecto, me
conformo com pouco, mas se olhas o barraco do meu pai, temos de tudo que
necessitamos,
Agora chegava de manhã, deixava seu pai ali
com os peixes, ia trabalhar no escritório do Karl, esse não desconfiou que ele
fazia isso para estar perto dele.
Um dia, chovia a mares, não ia sair essa
noite para pescar, ficou acabando um trabalho.
Karl fazia gozação com ele, sem querer esse
o agarrou, lhe deu um beijo imenso.
Ele ficou parado, nunca tinha se sentido
assim com ninguém.
Foram juntos para casa, de mãos dadas no
taxi que os levava.
Essa noite deram vazão ao que sentiam.
Nunca mais se largaram, Zé Maria confessou
que gostava dele desde garoto, mas que seu pai lhe avisava, ele só vem de
férias, depois vive nos estrangeiros.
Quando o pai morreu, ele passou a trabalhar
direto com o Karl, se davam bem, a empresa ia bem obrigado.
Recebiam convites para se incorporarem a
alguma grande empresa ou americana, ou europeia.
Mas seguiam ali trabalhando, não precisavam
de muito.
Quando sua mãe morreu, tinha trazido suas
cinzas, a tinha colocado no Iroco da casa de santo.
Zé fazia muita gozação com ele, gringo, um
dia serás pai de santo.
Quando Hans morreu dormindo, tinha uma
sorriso na cara, fez suas últimas vontades, o cremou, deixou as cinzas ao lado
de sua mãe.
O mais interessante o advogado dele, o
chamou, o apartamento que tinha comprado era dele, bem como uma conta imensa no
banco do Brasil, tinha vendido tudo que tinha por lá a tempos, loja,
apartamento, esse dinheiro convertido em Reais, davam um valor alto, tinha ido
transferindo o mesmo aos poucos para lá, para não chamar a atenção.
Esses anos todos, esse dinheiro tinha sido
aplicado, ele levava uma vida modesta esse era a verdade, não era daquelas
pessoas de esbanjar.
Nessa época receberam uma oferta de uma empresa
alemã, que queria comprar o negócio deles, para entrar no mercado brasileiro.
Um olhou para o outro, sentaram-se, Zé
Maria alugava a barca do pai, para um conhecido, nessa noite saíram os dois de
barco, não iam pescar, a noite era de lua cheia, ficaram conversando.
Zé foi honesto, sentia falta disso, a vida
no mar, pode ser uma vida de pobre, mas adoro.
Venderam a empresa, ele ficou com muito
dinheiro, agora subia todos os dias, Mãe Lucia dizia que estava ficando velha,
mas ninguém sabia sua idade real, se perguntavam ficava ofendida.
Isso era uma pergunta que não se fazia a
uma senhora.
A ajudava em tudo, inclusive a atender as
pessoas que a procuravam, jogava búzios, quando aparecia o de sempre alguém
querendo vida fácil, dizia na cara da pessoa que devia era procurar um emprego
isso sim.
Esse povo é malandro Zé, querem sempre se
dar bem.
Algumas noites, principalmente quando fazia
Lua cheia, ele saia com seu amado de barco.
Um dia um dos senhores que ainda tinham
barco por ali, pediu para falar com os dois, foram se sentar num bar.
Uma de suas filhas, tinha mais de um filho,
um deles, um garoto, dizia que se sentia mulher, perguntou se o podia levar ao
terreiro.
Claro que sim, será um prazer.
O velho contou que o pai, não aceitava o
filho, sequer fala com ele, o garoto esta cada vez mais fechado.
Foi interessante, o menino chegou, ficou
olhando a casa dos Orixás, pediu licença, foi andando por ali, aqui parece que
estou finalmente em casa.
Conversou com ele, jogou, entendeu a
situação, tinha nascido como muitos num corpo errado.
Ainda tinha como que na sua última
encarnação sido mulher, isso tinha ficado nele.
O velho trouxe sua filha, perguntou se
tinha levado o menino a algum médico especializado.
Disse que não, meu marido me mata se faço
isso.
Mas tomou coragem, pois ele ia junto,
falaram com um psicólogo, depois como um médico, como podiam ajudar o garoto.
Sabiam que o processo era largo.
Depois foi conversar com, o pai do garoto,
esse disse que de maneira nenhuma ia ajudar nisso, se ele queria, podia dar seu
filho para ele.
O mesmo lhe deu a guarda, anos depois a
adoção do garoto.
Esse quando subia, dizia que ali era aonde
gostava de estar.
Virou filho dos dois, quando saiam de
barco, o levavam com eles.
Pena que teu avô Hans não te conheceu, ia
te adorar.
Para todos os efeitos, ele considerava mãe
Lucia como sua avó.
Um dia apareceu um advogado lá no morro
atrás dela, foi então que ficou conhecendo uma parte da vida dessa mulher que
vivia ali numa favela, mas sem nunca reclamar de nada.
Ela pediu, os dois foram com ela ao
advogado.
Tinham demorado em encontra-la, da sua
família, só restava um irmão, esse tinha câncer, queria rever a irmã.
Foram com ela ao hospital, ele quando a viu
vestida de sua roupa de sempre de santo, riu, eu tive que dizer ao advogado,
que devias ter agora alguma coisa de santo, pois foi por causa disso que nosso
pai, um idiota, te expulsou de casa.
Era para todos os efeitos, católico,
apostólico, romano, se esquecendo que sua família na verdade vinha de judeus
convertidos.
Quando assumi os negócios da família, ele
queria me matar, pois assumi meu lado judeu também, me soltou na cara, não
basta uma filha mãe de santo, agora um filho judeu.
Quando o irmão morreu, fizeram uma
cerimonia como ele queria, Karl rezou o Kadish, como tinha aprendido, o tinha
feito no enterro do Hans, agora fazia de novo, Mãe Lucia, rezou em Yoruba pelo
irmão.
Mas o mais surpreendente foi a herança que
ele lhe deixou, a velha casa familiar na Gávea, uma bela casa por sinal, além
de dinheiro.
Ela investiu uma parte para reformar o
terreiro modernizando um pouco a parte que vivia, saiu barato, os que faziam a
obra, faziam porque era para ela.
Mas o resto já no seu testamento, era para
o neto.
Nesta época finalmente tinha saído a adoção
ele já estava com 14 anos, seria uma mulher lindíssima, resolveu se chamar como
a mãe do Karl, Marie Mandesen, assim seguiria dentro da família.
Começou seu largo processo de conversão, ia
ao psicólogo desde que morava com eles, mas levava uma vida recatada.
Ia a escola, como seu pai Karl queria, nada
de uma filha idiota, dizia que sua mãe tinha voltado a estudar quando foram
para a Alemanha, que seu avô achava que mulher era para cuidar de casa.
A operação, foi feita numa das melhores clínicas
especializadas do Brasil, tudo correu bem.
Marie agora usava os cabelos compridos,
presos sempre com um tocado do santo do dia, tinha estudado psicologia, para
poder ajudar os que eram como ele.
Trabalhava numa ONG no centro da
cidade. Ninguém diria que aquele
mulherão tinha sido um garoto assustado.
Subia o morro, fazendo o que o pai fazia,
falava com todo mundo, ajudava os velhos, conseguia medicina para muitos que
não tinha dinheiro.
Se alguém se metia com ela, alguém soltava,
ela é filha de Pai Gringo, e do Zé Maria, esse como tinha um corpo imenso de
trabalhar no mar, ninguém se aproximava muito.
Zé Maria era quem sempre perguntava a
filha, se não tinha namorados.
Marie dizia que ainda se acostumava ao seu
corpo novo, um dia desses quem sabe.
O mais interessante, era que tinha
aprendido com seu pai Karl, falava alemão, hebreu, Yoruba, um dia um
estrangeiro, que alugava o apartamento ao lado do que tinha sido do Hans a viu,
ficou como louco, era um homem de uns trinta anos, divorciado, com um filho
pequeno, o menino quando via a Marie, corria para ela, falando em alemão, ela
lhe respondia, tinha paciência com o mesmo.
O mais interessante, mesmo sabendo que ela
era uma transexual, se apaixonou, queria se casar.
Mas ela levou antes, para ele conhecer seus
pais.
Quando ele viu os dois homens, imensos,
além da avó, como ela chamava Mãe Lucia, ficou como tonto, melhor foi o menino
sair correndo atrás da casa de santo, olhava para dentro de cada uma, soltou,
vivo sonhando com essa gente.
Mãe Lucia dizia que podia morrer tranquila,
uma quarta geração chegava para cuidar de seu terreiro.
O mais interessante, esse homem era da
mesma região aonde Karl tinha vivido, Baviera, era de uma família importante.
Quando Mãe Lucia morreu, fizeram suas
vontades, ser cremada, ficar aí no Iroco, com seus amigos de sempre.
O menino ficou tremendamente triste, dizia
que perdia a avó querida dele, porque a da Alemanha olhava feio para ele.
Primeiro Marie foi conhecer a família dele,
claro não podia dar certo, o menino era agarrado com ela, o jeito foi o
namorado voltar com ela para o Brasil.
Assumiria ajudado por Karl os negocios da
empresa familiar no Rio.
Passou a viver com a Marie, no apartamento
do Hans, o menino foi a mesma escola que ele tinha estudado, o pai a princípio
não gostou, uma escola de judeus.
Aqui todos somos, brasileiros, judeus, alemães,
pai de santo, pescador, tudo ao mesmo tempo.
Otto Gruber, quando foi pescar a primeira
vez com o Zé Maria, voltou alucinado, me relaxei completamente.
Depois levaria uma noite o Junior com eles.
Que ria muito, dizia que o maior peixe era dele.
Pai Gringo, levava a casa de santo como
sempre, os que vinham para pedir besteira pensavam muito antes, ele não tinha
festas no terreiro, afinal era pequeno, tinha sim muita gente que subia
realmente necessitando de ajuda.
Um dia Marie subiu com um homem que estava
de férias no Rio, tinha o mesmo sobrenome dele, chamou pelo celular.
Ele rapidamente jogou para saber quem era,
era um irmão de sua mãe.
O homem chegou lá em cima, ofegante, pois
Marie estava acostumada a subir rápido, hábito de anos fazendo isso.
Quando soube que ele era seu sobrinho abriu
um sorriso imenso, nosso pai, era um idiota, queria controlar tudo, como se
estivesse na Alemanha, mas nunca deu certo, fomos cada um escapando, eu vivo em
Olinda, sou pintor, o velho acabou sozinho.
Quando conheceu Zé Maria, riu muito, até eu
me casava com um homem desse.
Imagina, meu pai, nunca teve um neto, pois
seus filhos não queriam filhos, mas tampouco sabia que existias, ou pelo menos
não comentava.
Eu vivi durante muitos anos, com um homem
que me lançou ao mundo, tinha a melhor galeria de Recife, me fez tornar
conhecido, mas adoro meu canto.
Quando soube que Marie, era filha dele, riu
muito, mas ele lhe explicou por quê.
Ria muito, dizendo o velho ia ter um enfarte, era um homem antigo,
parado no tempo.
Os convidou nas férias para ir a Olinda,
mas nunca foram.
Otto Junior, dizia que não tinha gostado
desse homem, é interesseiro.
Vira-se para o lado, dizia não é verdade
meu amigo, o amigo era o Exu Bara.
Marie, quando ia para seu trabalho na ONG,
o deixava na escola, depois ia buscar, ele adorava tomar banho de mar, aprendeu
a nadar com o Zé Maria, depois aprendeu a fazer surf levado pelo mesmo.
Era um carioca, mas do que tu, Karl.
Muita água passou embaixo da ponte, agora
tinha no terreiro gente que vinha sempre, não os chamava de clientes, mas sim
gente que buscava realmente alguma coisa, explicação ou orientação sobre suas
vidas, para isso ele estava ali.
Mas o mais interessante, ele nunca teve
outro homem que não fosse o Zé Maria, agora nas noites de lua, se sentavam num
banco no terreiro, ficavam aproveitando esse momento de paz.
Tinha uma família completa, o Otto Junior,
nos dias de lua subia, dizia ao pai, vou dormir com meu avô, pois hoje tem lua
cheia lá em cima no terreiro, vira magia pura.
Comentarios
Publicar un comentario