MC' LAREN
Seu nome certo era Edouard MC’Laren, mas
todo o mundo o chamava de Mclaren, como a marca de automóveis, logo ele que não
era muito aficionado a nenhum.
Era inspector de Polícia, as pessoas se
assustavam com ele, pois tinha 2,20 metros de altura, além de ser forte, apesar
que sempre tinha sido magro, mas fibroso, os cabelos crespos amarelos, bem como
os olhos verdes, ninguém ia pensar que aquele homem, com esse nome, tinha no
seu passado, negros.
Sua mãe era mulata clara, filha de uma
negra, com um irlandês, ele foi criado por essa avó negra, a adorava, logo cedo
na escola, além de por causa de um tio dele, adorava jogar basquete, na escola
ele era capitão da equipe.
Sua mãe um dia se divorciou de seu pai,
desapareceu no mapa, o coitado do MC’Laren, ficou ali vivendo com a família
dela, não tinha outra, tampouco queria afastar o filho da avó que ele adorava.
Era bom aluno na escola, ali no Bronx, claro
na zona que moravam seu pai era um avis rara, mas como era da polícia o pessoal
o respeitava.
Foi ele que disse ao seu tio, para tomar
cuidado com esses tipos que andava.
ran
Isso virou uma ladainha da minha avó, nada
de drogas. De uma certa maneira
funcionou, pois quem encontrou o corpo de meu tio fui eu, o atiraram no beco
que ficava por detrás de casa, que era por aonde eu vinha da escola.
Levei um susto tremendo, ele tinha um
buraco cheio de sangue, no meio da testa.
Chamei meu pai, pelo telefone que estava na
cozinha, minha avó, ainda estava limpando a casa de alguma grã-fina lá pros
lados do Central Park.
Meu pai, avisado veio correndo, mas claro
logo um grupo antidrogas tomou conta do assunto, claro que não resolveram nada,
apesar de meu pai, ter dado a dica do grupo que ele andava.
Disse claramente a minha avó, eu estava na
cozinha também, desse mato não vai aparecer nenhum cachorro.
Na hora eu não entendi, depois sim, pois
não resolveram nada, o caso foi arquivado, como mais um ajuste entre gangs.
Entendi que aconteceria comigo, se me
metesse nisso.
Um professor de educação física que nos
orientava no basquete, disse que eu jogava muito bem, chamou um de uma escola
fina, dessas que disputam campeonatos.
Esse olhou como eu jogava, foi lá em casa,
dizer que eu tinha futuro, mas precisava ir para uma escola melhor.
Agora eu ia todos os dias de manhã, com
minha avó, para a área do Central Park, aonde estava a escola, bem como as
casas que ela trabalhava.
Ninguém me ligava com ela, eu dava um duro
danado para estudar, treinar, depois tomava um banho lá no ginásio, ia para a
biblioteca, fazer tempo para voltar com ela para casa.
A única oportunidade que eu teria de ir à
universidade, seria jogando, com uma bolsa de estudos, apesar de tudo, minhas
notas não eram as mais altas, vamos dizer que eu me classificaria sempre em
terceiro lugar quanto a isso.
Meu pai seguia sendo um policial comum,
diziam que ele não tinha ambição, ele cortava logo, não tenho é vontade de ser
puxa saco, tampouco, receber subornos para olhar para o outro lado.
Justo quando eu entrei para a universidade,
ia estudar direito, jogar ao mesmo tempo, ele levou um tiro, ainda ficou meses
no hospital, por sorte uma das patroas da minha avó, o marido era diretor do
Hospital Mont Sinai, ali em Manhattan, mas ele ficou todo esse tempo em coma.
Despertou, os médicos estavam preocupados,
as enfermeiras lhes fazia graça eu chegar com minha avó, pois erámos como a
água e o vinho, diferentes.
Algumas me perguntavam se ela tinha sido
minha babá, eu dizia que sim, o que era uma verdade, mas acrescentava que ao
mesmo tempo era minha avó, tinha orgulho disso.
Quando nos chamaram, meu pai me olhou,
disse que eu estava imenso, contei que estava fazendo universidade.
No dia seguinte quando voltamos, estava
morto, tinha tido uma parada cardíaca, não houve jeito, ao parecer um pequeno
pedaço de uma bala, tinha ficado no seu corpo, lhe cortou uma veia, pois ele
começou a se mexer.
Foi duro, a polícia, ou a delegacia que ele
trabalhava se encarregou de tudo. Eu
durante dois anos, ou enquanto estivesse fazendo universidade, receberia uma
pensão dele, mas depois não.
O curso em si não me encantava, o escolhi,
por ser a melhor oferta que tive, mas depois vi que não era a minha.
Nessa época começaram meus problemas de
joelho, o que acontece sempre com gente do esporte, tive uma má caída, foi um,
quando me recuperei, foi o outro, já não podia jogar, duas equipes
profissionais me queriam, perderam o interesse rapidamente, fui operado das
duas, no último ano da universidade, menos mal que um dos chefes de meu pai,
arrumou tudo, conseguiu que a policia pagasse esse último ano.
Mas era tarde, já não poderia jogar mais, a
não ser com os amigos.
Ainda cheguei a fazer estagio num
escritório, que a universidade me arrumou, era em pleno centro da cidade, num
edifício emblemático, mas 80% dos clientes eram bandidos, mafiosos, gente das
drogas, ou seja, não era o que eu sonhava.
Falei com o antigo chefe de meu pai, que
sempre me procurava, ele me inscreveu num curso, fui fazer fora, como me
indicou, para ser policial, quando terminei comecei um para ter um trabalho
melhor, de inspector, justo nessa época minha avô um dia voltando do trabalho,
na estação de metrô, lhe empurraram alguém com pressa, caiu pela escada, morreu
ali mesmo.
Agora estava sozinho, não tinha ideia de
aonde tinha ido parar minha mãe, ela tinha se divorciado do meu pai, pois
queria ser cantora de Jazz, se casou com ele, porque estava grávida, nada mais
do que isso, mas amar aquele homem que era carinhoso, isso não lhe
interessava. Como me contava minha
avó, para ela, ele não tinha passado de um romance de verão, o que não esperava
era ficar gravida, creio que por ela teria me abortado.
Mal pude acabar o curso, o dono da casa a
queria, teria que me desfazer de tudo, sempre tinha pensado que a casa era da
família, tampouco tinha dinheiro suficiente para pagar o aluguel, para mim
sozinho era grande.
O jeito, foi escolher algumas coisas da
casa, depois de me apresentar na delegacia que tinham me destinado, mas teria
que começar de baixo na hierarquia, arrumei um pequeno apartamento, levei só o
que cabia, meus moveis de quarto, livros, uma mesa para a pequena cozinha, a
poltrona preferida de meu pai, um abajur, nada mais, depois já se veria, falei
com o pastor da igreja, que arrumou de levar o resto para os paroquianos.
Uma das amigas de minha avó, acho entre
suas coisas, umas cartas da minha mãe, me entregou, falava que nada do que
tinha sonhado dava certo, tinha se casado com um músico, tinha mais dois
filhos, vivia em New Orleans.
Li, guardei, nem me lembrava da cara dela,
porque depois na casa desapareceram todas suas fotos, vi minha avó e meu pai
queimando. Talvez por isso, nem me
movi, só aproveitei, escrevi uma carta comunicando a morte dela, tampouco
respondeu.
Eu segui na polícia, o mais interessante,
era que sempre me tocavam companheiros baixinhos, comecei patrulhando as ruas do
Brooklyn, quando acontecia algum crime, mandava meu companheiro chamar a
central, enquanto eu mesmo ia anotando tudo que estava por ali, chegavam os
inspetores, eu ia sinalizando tudo que tinha visto, alguns pegaram mania por
mim, por isso, sabia que eu não tinha acabado o curso, mas não porquê?
Depois fui trabalhar na delegacia, aonde
estava agora, o que era amigo de meu pai, era ali na Broadway, foi quando dei
de cara com os problemas, ali sim era difícil, muitas coisas aconteciam ao
mesmo, tempo, os inspectores ao contrário, adoravam o que eu fazia, pois
adiantava o trabalho deles, sempre tinham muitos, as vezes chegavam eu estava
interrogando os que ficavam em volta, para saber se alguém tinha visto alguma
coisa, ia filtrando isso, meu companheiro dessa época, me chamava de tonto,
dizia que eu era um puxa saco dos inspectores, quando houve provas outra vez,
eu estudei como um louco, seguia vivendo no meu pequeno apartamento do
Brooklyn, sem me importar com o trajeto que tinha que fazer.
Tive sorte, passei, fiquei destinado ali
mesmo, me tocou um companheiro, que se tornou meu amigo de pôr vida.
Se matava de rir, com minha mania de anotar
tudo, escrever coisas, que algumas vezes depois resolviam o caso.
O chefe gostava de ver o trabalho dos dois,
ele se preocupava que eu não tinha nenhuma namorada.
Um dia lhe contei da minha experiencia, na
universidade, pensavam que eu vinha de família rica, pois sabia me vestir bem,
uma garota, me encheu o saco, um dia a encontrei, estava com minha avó,
educadamente me apresentei, foi uma merda.
Minha avó, tinha trabalhado para sua
família, sabia que tinha um neto, imaginava que o mesmo devia ser negro.
Além de nunca mais falar comigo, contou
para todas as garotas do curso, imagina esse rapaz e neto de uma negra que
limpa casas.
Algumas ainda queriam alguma coisa de sexo,
pensando que pelo meu tamanho eu teria um membro imenso, nada mais longe da
verdade, pequeno não era, mas tampouco o que elas imaginavam.
Nessa época conheci um advogado de um caso
que levávamos, ele me olhava sempre, era um homem lindo, sabia que pelo
sobrenome, que ele era de família bem.
Um dia na frente do Américo da Silva, meu
companheiro, me convidou para jantar.
Fiquei sem ação, Américo me incentivou,
acabei aceitando, na cama foi uma coisa impressionante, mas ele confessou que
tinha esperado com medo de que eu tivesse um membro imenso, era como o dele.
Estivemos juntos dois anos, um dia estava
com ele, nunca perguntava sobre minha família, tudo que sabia era que meu pai,
tinha sido policial, encontramos com a tal garota, que era sua conhecida,
depois falou com ele, se ele sabia que minha avó era negra.
Veio falar comigo, foi quando descobrir que
ele tinha preconceito de cor, a partir desse dia as coisas deixaram de
funcionar.
Só o voltei a ver, anos depois, visitando
alguns amigos no hospital em plena crise de AIDS, eu ia ver os poucos amigos
que tinha.
Nessa época o Américo se casou, com uma
amiga sua de infância, ele era filho de cubanos, mas um belo homem, sua mulher
era complicada, pensava que se casando com ele, logo seria chefe de polícia,
poderia lhe dar uma boa vida.
Eu fui padrinho dele de casamento, bem como
de seu primeiro filho.
Num ponto eu era diferente dele, tinha
ambição, sabia que um dia seria chefe de alguma delegacia pelo menos, mas ele
não, adorava trabalhar comigo, pois o grosso do trabalho fazia eu, mas era
porque queria a coisa perfeita.
Quando ficou gravida do segundo filho,
escutou alguém falando isso, “claro o Americo está com o Edouard, porque ele
faz o grosso do trabalho, para ser chefe vai necessitar ser puxa-saco, coisa
que ele não é, daqui um ano ou dois, seu companheiro será chefe de alguma
delegacia, mas ele não tem a menor possibilidade.
Ela o confrontou, ele disse que isso não
fazia parte dos planos dele, que gostava do que fazia, de aonde estava.
Isso gerou uma briga imensa com os dois,
inclusive me colocaram no meio, ela veio me dizer que eu o deixava para trás, o
que não era verdade.
Sei que um dia ela voltou para a casa da
sua família levando o filho, bem como provocou um aborto, para não ter o
segundo.
Ele ficou arrasado, mas tinha a mim para se
apoiar.
Nessa época um sujeito que tinha tentado de
tudo comigo para ir para a cama, trabalhava conosco, mas eu não queria
confusão, espalhou que eu era amante do Américo, por isso, tinha se divorciado.
Quando vi, isso foi uma bola de neve, todo
mundo falava, o chefe me chamou para saber se era verdade, minha cara de
espanto foi grande, o famoso “como é”, nem tinha ideia dos rumores, não
prestava atenção nas fofocas da delegacia.
Lhe disse que sim, era gay, mas que tinha
alguma coisa com o Américo, não era verdade, era sim meu amigo, tinha sido
padrinho de seu casamento, bem como padrinho de seu filho.
O chefe fez uma coisa, me arrumou um novo
companheiro, um que tinha acabado de fazer o curso, vinha cheio de ideias na
cabeça.
Colocou o Américo para fazer uma coisa que
ele gostava, ficar atrás de uma mesa, relendo relatórios, checando se estava
perfeito.
Quando descobriu quem tinha falado a
fofoca, ele deu uma surra no sujeito, que até fiquei com pena do mesmo.
Depois rindo me disse, se pelo menos o
tivesse deixado dar uma chupada nesse piru pequeno que tens, nada disso tinha
acontecido.
Eu avisei ao rapaz que veio trabalhar
comigo, logo de cara, sobre a fofoca, que minha vida pessoal era só minha.
Tive que o fazer descer do pedestal que
vinha, o coitado, segundo eles suas ilusões foram para a merda, quando viu a
primeira vítima que retiramos de uma lixeira, vomitou como um louco, depois não
podia contar com ele para uma autopsia, desmaiava.
Num tiroteio que nos vimos pelo meio, ele
quase morre, queria se levantar, sair atirando em todo mundo, levou um tiro,
que lhe destroçou a orelha, mas depois uma cirurgia consertou, quase me matei
de rir, quando viu o sangue pensou que estava morto, tive que lhe dar um tapa
na cara, o levei para o hospital, depois ia me agradecer.
Eu tinha minhas dúvidas, de porque o tinham
colocado comigo, quando lhe falei que era gay, sua cara ficou imutável.
Um dia sai com o Américo, para tomar uma
cerveja, o vimos com um rapaz, que claro estava patente que era gay.
Nos apresentou, como seu amigo, depois me
contaria, que tinha uma aventura com o mesmo, desde sua adolescência, que esse
seguia uma carreira na Broadway.
Agora era minha sombra, quando me pediram
sua avaliação como inspector, fiquei com um problema, me sentei antes,
conversei com ele.
Riu muito, disse, imagino que vais contar
que vomito quando vejo um morto, que desmaio na autopsia, que sou gay.
As duas primeiras coisas pode ser, mas que
eres gay, isso é tua vida pessoal, não tenho nada a ver com isso.
Tirando essas duas coisas, ele era bom,
fazia uns relatórios perfeitos, tinha aprendido comigo a anotar tudo, era como
eu perfeccionista.
Falei como chefe em particular, ele disse
que conhecia muita gente que vomitava, ele mesmo tinha feito muitas vezes,
desmaiar também, me contou rindo que no parto de seu primeiro filho, a mulher
queria que ele estivesse presente, desmaiei, nunca mais me quis na sala, para
os outros filhos, me chama até hoje de banana.
Eu segui tendo romances de uma noite,
preferia ir a casa das pessoas, do que levar para a minha, que era longe.
Um dia o Américo me apresentou a uma garota
loira, linda de morrer, estava saindo com ela, essa tinha um humor
impressionante, foi logo falando, quer dizer que esse homem imenso, é quem
destroça essa bundinha que tens.
Caímos os três na gargalhada, estão juntos
até hoje, adoro conversar com ela, sobre qualquer coisa.
Logo em seguida, levei um tiro no joelho
esquerdo, tiveram que me colocar uma prótese, quando descobriu que eu não tinha
família, Anita, esse é seu nome, ia trabalhar, depois quando saia, ia me fazer
companhia, durante um tempo, falávamos de tudo.
Ela tinha confessado ao Américo, que não
poderia ter filhos, pois quando era jovem tinha sofrido um abuso por parte de
um tio, teve que abortar, isso a impedia de ter filhos.
Anos depois o filho do Américo passou a
viver com eles, dizia, ela era melhor mãe, que a sua.
Levei um tempo trabalhando na central,
cuidando de papeis, enquanto fazia fisioterapia, o chefe de polícia, um dia me
viu com meu chefe. Pediu informações ao
meu respeito, logo me tocou ser chefe de uma delegacia, mas antes fui a uma
entrevista com ele.
Me disse que queria uma delegacia no
Village, diferente, falou das casas noturnas, dos problemas da polícia da
região, principalmente da delegacia mais perto de tudo.
A maioria dos homens vai para lá como um
castigo, por ser uma região cheia de gays, disse isso rindo, mal sabem que eu
sou.
Era um homem atraente apesar da idade,
queria mudar essa maneira, mas primeiro quero que observe tudo, faça um
relatório, a partir daí reformulamos.
Primeiro tirei uns dias para andar pela
ruas, olhar aonde era a delegacia do Village, ao que abrangia um espaço muito
grande, não só de casas noturnas, mas de como residência de gente de todos os
tipos.
Depois fui a casas noturnas, procurava
primeiro falar com os das barras, depois com o dono do local, não dizia para
que.
Alguns me atenderam bem, outros me olharam
com desconfiança.
Um dia cheguei normalmente na delegacia,
era como por acaso, lá me esperava o chefe de Polícia.
Me esperou na porta, dentro de um carro,
normal, quando me viu, saiu, entramos juntos, fomos andando, um policial nos
parou, ele muito sério disse que queria falar com o chefe da delegacia, o mesmo
foi um pouco agressivo, queria saber porque, não tinha reconhecido o chefe, mas
alguém sim, veio o chefe nervoso, disse ao outro com quem estava falando, nos
levou para sua sala, quando nos sentamos, nos apresentou, ele me conhecia,
tínhamos nos cruzando antes em alguma reunião.
Vens trabalhar aqui?
Sim, mas porque preciso de ti na central,
essa era a tática do chefe, o levaria para um cargo, sem importância, mas que
todos achavam o máximo, trabalhar na central, significava aposentadoria com um
bom salário. Preciso que orientes o
Edouard para conhecer os homens, não fale nada, deixe que ele analise as
pessoas.
Ele só disse que eu ia ser um dos novos
inspectores de lá, que devia para isso, andar no carro com todos os agentes,
para conhecer como funcionava o bairro, até aonde eles atendiam.
Não sabiam que ele levava um pequeno
gravador.
Escutou comentários desagradáveis, sobre o
chefe, bem como de alguns inspectores contra outros, como uma competição,
descobriria depois que o chefe fazia isso, provocava uma competição interna.
Mas teve um em particular que ele odiou
desde o primeiro momento, o típico machão, anotou seu nome, foi até a central,
o sujeito tinha dado trabalho em todas as delegacias que tinha estado, era
agressivo.
Tinha acabado de se mudar para lá, tinha
conseguido o apartamento que vivia o chefe, que se mudava para outro lugar, com
o que ia ganhar podia pagar o aluguel.
Saiu de noite, viu o tal sujeito num beco,
com um rapaz, o mesmo preso na parede, com o outro lhe possuindo, com as calças
abaixadas, mas de uniforme.
Ele ainda tinha as algemas presa nas
calças, o prendeu, tipo quis reagir, quando viu quem era, disse que estava
dando uma lição a esse viado.
Estava era brutalizando o mesmo, que tinha
um murro na cara.
Pelo rádio do outro se identificou, pediu
duas viaturas, mas não o deixou subir as calças, o outro lhe ameaçou, mas para
surpresa dos policiais que queriam ajudar o mesmo a subir as calças, ele não
permitiu, subiu no carro junto, mandou o rapaz sentar-se na frente.
O policial só faltava babar.
Ninguém sabe como, quando chegaram a
delegacia, havia repórteres na porta, ele disse para o policial parar justo na
porta.
Ele saiu segurando o policial, que dava
passos curtos, com as calças abaixadas, não disse uma palavra.
Levou os dois para dentro, mandou colocar o
policial numa cela, o rapaz em outra mais afastada possível, deixou um gravador
ali, ele ameaçando o outro.
Quando tudo pareceu acalmar-se, o
companheiro do mesmo apareceu, estava jantando grátis num restaurante ali
perto, com o carro.
Sentou-se com o mesmo, lhe perguntou por
que seu companheiro estava sozinho.
Ele sempre faz isso, diz que tem que dar
corretivos aos viados.
Você permite isso?
Ir contra ele, é complicado, o filho da
puta tem uma força imensa, quando está furioso, não há quem o aguente.
Bom, por enquanto, por ter aceitado comida
grátis, ficarás numa cela, até nova ordem.
Mas o chefe?
Eu sou o novo chefe daqui, tinha avisado ao
outro que assumia a delegacia essa mesma noite, este foi para lá com o chefe da
central, que reuniu todos que estavam ali, sem saber o que fazer com esse
inspector novo, que estava agindo contra um colega.
Quando souberam que ele era o novo chefe,
ficaram quietos, ele tinha andado com todos nos carros, sabia como funcionava
cada um, tinha escutado as merdas que eles falavam.
Mas ele não disse nada.
Bom, vosso companheiro estava infringindo
várias leis, primeiro fazia sexo com outro homem, sem o consentimento do mesmo,
em um lugar público, qualquer pessoa vai presa por isso, o segundo o rapaz é
menor de idade, ele não perguntou, simplesmente lhe deu um soco na cara o
obrigou a abaixar as calças, além da agressão, isso é indigno de um polícia.
Apareceu um rapaz, querendo saber do amigo,
trazia seus documentos, o atendeu numa sala, o medo desse agora era se os
outros policiais iam persegui-los.
Ele sem pensar muito, ligou para a Anita,
para saber se sabia de algum lugar.
Marcamos num determinado ponto, levei os
dois rapazes, ficariam em sua casa, qualquer coisa te aviso.
Américo, dois dias depois começava a
trabalhar, transferi para a central um dos inspectores, que todos tinham falado
mal, o sujeito, lhe faltava tudo, sujo, desagradável, seus relatórios eram uma
merda.
Mas antes me sentei com ele, perguntei por
quê?
Não me arrependi da transferência, pois ele
soltou o verbo, lhe faltava pouco para se aposentar, me mandaram para essa
delegacia, aonde nada funciona, começou a falar desde o chefe, até o ultimo
policial.
Pior, me aposentam com um salário de merda,
depois de tantos anos, trabalhando duro.
Mas eu já tinha visto sua ficha, também
tinha vindo transferido de outras tantas delegacia.
Américo ficaria em seu lugar, fez uma
verdadeira faxina, como era na mesa do dito cujo.
Me deu noticias dos rapazes.
Eu mantive o dito cujo preso, até conseguir
falar com um juiz, levantar toda a ficha dele.
Me sentei em sua cela, o fazia todos os
dias, fui direto ao assunto, sua agressividade, sabia que o mesmo tinha saído
de um orfanato, que tinha entrado para o exército.
Tinham abusado dele no orfanato, bem como
tinha problemas de agressão a cadetes no exército.
Lhe perguntei se queria conversar com um
terapeuta, me olhou assustado, ia todos os dias falar com ele, cada dia
descobria uma coisa nova.
Que adorava sexo violento, no fundo era
gay, mas odiava isso, nunca pude ter uma família.
Tinha visto esse rapaz, morava no mesmo
edifício que ele, com seu amigo, creio que foi expulso de sua cidade, por ser
gay.
Imagina o trauma de uma pessoa, ser expulso
de sua família, por ser gay, ai vais o agride, como posso confiar em ti.
Não confie, pois eu mesmo não confio.
Mas não o denunciei, estava em cima da
minha mesa, uma semana depois, entrou um policial, na sua cela, era um
psicólogo, conversou com ele.
Eu vou trabalhar aqui na delegacia, era uma
verdade, teríamos um psicólogo na própria, exigência minha.
Aos poucos ele foi soltando tudo, fui
também conversando com todos dali, dois outros inspectores queriam ir embora,
analisei suas fichas, pelo que entendia, mandavam para lá todos que ninguém
queria.
Lhe disse aos mesmo, não tenho para aonde
manda-los, vocês já passaram por basicamente todas, não são bons funcionários,
mais para o medíocre, o aconselho conversar com nosso psicólogo, para ver se há
como ajuda-lo, depois sabiam que o senhor Américo, é meu braço direito, estarão
subordinados a ele.
Depois conversei com todos os policiais,
depois os que faziam duplas, separados e juntos.
O mais interessante, era que o psicólogo
dizia, que claro na central ninguém queria ir, pois todos sabiam que estavam
sendo obrigados a falar com um deles, nunca falam nada.
As reuniões que fazia o Américo, eu
assistia, mas de longe, não interferia.
Cortou qualquer coisa de receberem
presentes, comidas grátis, tudo que eles consideravam benefícios por estarem
ali.
Lancei um aviso a todas as delegacias, que
aceitávamos policiais gays para trabalhar.
Foram aparecendo como que em segredo, os
colocava para conversar com o Américo, que depois ria, pensam que eu sou gay.
Eu fiz uma proposta ao policial, preso, ele
ia sair, agora tocava a ele, cuidar desses dois rapazes, pois os dois eram
menores de idade.
O que ele tinha agredido, ficava na casa do
Américo, ia estudar enfermaria, ela tinha conseguido uma vaga para ele, ir
fazendo trabalhos menores no hospital que trabalhava.
O outro era mais esperto, levava o Abraham,
como se chamava o policial, com luvas, o controlava.
Ele começou a botar para fora, um dia o
encontrei no Monster, veio conversar comigo, todos sabiam o que tinha
acontecido com ele.
Me disse que eu devia conhecer um outro
lugar, fora dali, aonde iam muitos policiais, mas não estás vestido
direito. Me esperou na esquina, troquei
de roupa, como ele estava calças jeans negra, uma camiseta.
Me levou para um submundo, homens de couro,
uma discoteca que era efêmera, disse que mudavam de lugar, para a policia não
os controlarem, foi me apontando vários policiais, dei de cara com um que
conhecia, era chefe de polícia aposentado.
Riu muito quando me viu, contei que estava
com o Abraham, que estava me mostrando coisas que ficavam sob minha jurisdição,
mas que ninguém tinha me comentado, ele indicou mais gente que era policiais.
Dias depois veio me visitar, conhecia os
homens que promoviam essas festas, tinham medo de que eu aparecesse com os
carros de polícia.
Me falou que os homens que iam a esse
lugar, a maioria gostava de sexo violento, que funcionava assim.
Mas que era proibido drogas, eu na verdade
não tinha visto, ao contrário na porta barravam um que estava drogado.
As vezes agora durante o dia, ou quando
fazia plantão, saia com o Abe como o chamava, para fazer uma ronda, além de seu
companheiro.
Íamos a todas as casas noturnas, algumas
claro tinham o famoso quarto escuro, mas tinha licença para isso, se não
tinham, mandávamos fechar.
Abe dizia rindo, que melhor que fizessem
ali, do que na rua.
Quando estávamos sozinhos, perguntava como
ia a cabeça dele, se matava de rir, um dia soltou que era apaixonado por mim,
mas tinha a sensação de que eu nunca faria sexo com ele.
Nunca tive nenhum romance com um
companheiro, sinto muito.
O incentivei a fazer as provas para
inspector, o Américo o ajudou, ele contava coisas que fazia ao mesmo.
Quando a DEA, o queria mandar infiltrado,
me recusei, ele queria, fui honesto com ele, isso vai significar tua morte.
Me escutou, não aceitou o convite, dizendo
que agora gostava da sua vida.
Seria anos depois um dos muitos que eu iria
visitar no hospital, o enfermeiro que o cuidava com muito carinho, era
justamente o rapaz que ele tinha agredido.
Se tornou uma coisa rotineira, eu ia
visitar todos os policiais que contraiam a AIDS, o governador queria esconder,
mas não permitia.
Pior foi encontrar nas últimas o antigo
chefe que eu conhecia, depois que fiquei sozinho, sem trabalho, fazer sexo, era
minha distração, não tinha família, tinha me escondido durante anos, assim sai
do armário escuro que vivia, mas acabo num lugar mais escuro.
Se fazia um enterro simples, para eles,
afinal eram soldados da polícia.
Esse me dizia sempre, encontre uma pessoa
para te amar, o duro foi encontrar o advogado com quem tinha tido um
relacionamento, o que não gostava de negros, sendo cuidado por dois enfermeiros
negros, seguia igual, morreu no hospital, abandonado pela família.
Ia colaborando com todas as ONG que
surgiram, ajudava no que era possível.
Por um acaso conheci um médico, com ele
conversava, o levava para fazer palestras na delegacia, orientar o pessoal como
tratar quem encontravam abandonados nas ruas, com a doença, os cuidados que
deviam ter, agora já se sabia como se contagiavam.
Eu levava comigo, sempre dois policiais, os
faziam ajudar os enfermeiros, que viam trabalhando naturalmente.
Assim tinham noção do que se passava.
Comecei a sair para conversar com esse
médico, acabamos um dia na sua casa, tinha livre o final de semana, eu também.
Semana depois outro final de semana livre o
levei comigo para comer na casa do Américo, ele conhecia a Anita, foi
interessante.
Tinha me contando que a tempo tinha perdido
seu companheiro, um dos primeiros a cair com AIDS, entre nós já não havia nada,
ele tinha sido meu mentor, nunca entendi, pois queria gente jovem com ele, se
aposentou, se perdeu, tive que me mudar de casa, pois ele trazia menores de
idade, gente que andava nas drogas, queria sexo.
Sou honesto de te dizer, que antes de tudo
isso, já não sentia atração sexual por ele, pois era uma pessoa passiva.
Contigo não, posso te explorar. Mas
tomávamos todos os cuidados possíveis.
Enterramos juntos muita gente.
Por incrível que pareça, Abe se recuperou,
dizia que por causa do rapaz, que o cuidava, foi viver com ele, depois era como
se fosse seu pai, conseguiu que ele fosse fazer medicina que era seu sonho, ia
com o mesmo a casa do Américo, mas sabia que não tinha relações, ele dizia que
precisava de um filho, o rapaz de um pai.
Viveu muitos anos, morreu de outro
problema.
Eu tive que retirar a prótese da minha
perna, a mesma tinha provocado um câncer, na articulação, depois de usar uma
cadeira de rodas, pude colocar uma prótese das primeiras mais modernas. Muita quimioterapia, até que resolvi me
aposentar, todos esses anos guardando dinheiro, pensei muito, conversei com a
pessoa que mais confiava, a Anita, o Américo ficava com ciúmes.
A diferença dos dois, era que ela era pé no
chão, era capaz de analisar comigo tudo.
Foi comigo várias vezes ao oncologo, este
achou melhor eu não usar prótese, quer queira quer não, roça no osso, pode
provocar outra vez, uma continuidade do câncer.
Passei a andar só de cadeiras de rodas, meu
amante, amigo, não me deixou, mas tentava me valer por mim mesmo.
Ele tinha uns anos mais do que eu, estava
também cansado, se aposentou, saiamos os dois sempre, sempre paro para tomar
algo com o Américo, comer na casa deles aos domingos, é o máximo.
Seu filho foi estudar medicina, era um
garoto inteligente.
Os dois perdemos nossos companheiros ao
mesmo tempo, a Anita, sofreu no próprio hospital aonde trabalhava, um enfarte,
caiu dura trabalhando, dizem que colocou a mão no coração, meses depois foi o
meu companheiro.
Um dia não despertou, andava tomando muitos
remédios, mas não me dizia nada.
Américo veio viver comigo, deixou a casa
para o filho que se casou.
As vezes esse dizia que a Anita vivia
dizendo que os dois acabaríamos juntos, como um casal.
Mas nos entendemos, ele não invade meu
espaço, nem eu o dele.
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