NEPOMUCENO

 

                                             

 

Tinha acabado o ensaio com a orquestra do Teatro da Opera de Paris, viu a secretária do diretor, lhe fazendo um sinal insistente, embora ele ainda queria falar com o maestro.

Como ele não ia, ela foi até ele, tinha um celular nas mãos, só disse, M. André Saint-Malo, merda, pensou, boa coisa não devia ser.

Quando escutou sua voz, entendeu, só lhe disse teu pai está morrendo, preciso que venhas.

Tocarei essa noite em seguida pego um voo, já sabia que seria complicado.

Falou com a secretária, um voo noturno para São Paulo ou Rio de Janeiro, com uma conexão para Salvador da Bahia.

Minutos depois ela veio falar com ele, as melhores conexões, eram a partir de São Paulo, tinha um que saia depois da meia noite, ele disse que esse.

Foi ao seu apartamento no Rive Gauche, encheu uma mala de roupa, mais apropriada para o verão, ligou para o Tio André, como chamava, disse como ia fazer, voo direto para Salvador era impossível.

Não demore, foi tudo que ele disse. Numa maleta, preparou, ria sempre disso, que nos aeroportos o faziam abrir, para ver o que eram tantos papeis, mas ele nunca a despachava, criava as vezes problemas, mas eram partituras que estava trabalhando, ou de músicas que ia apresentar, ou mesmo de músicas que estava compondo.

Avisou seu agente, que negociasse, suspendesse tudo, ia para o Brasil, seu pai Tenório Cavalcanti estava morrendo.

O outro ia reclamar, mas ao escutar o nome de seu pai, mudou de ideia, só pediu me informe de tudo a partir de lá.

Hoje ele tocava uma música de Villa Lobos, “o trem caipira”, na segunda parte do concerto, tinha conseguido, trocar para tocar primeiro, explicou o problema, foi para o teatro, já com a bagagem, marcou com um motorista de taxi que sempre o levava de um lado para o outro, que ao levar ao teatro, lhe esperasse na saída de funcionários.

Estava nervoso, a maneira de se relaxar, era ir fazendo um exercício na sua cabeça, ir tocando a música que ia apresentar.  Tinha aprendido isso com sua mãe, sua primeira professora, uma francesa descendente de Checoslovacos, Sofie Nepomuceno, uma mulher linda, foi a grande paixão de seu pai, segundo ele, se apaixonou no momento que Odile, a mulher do André lhe apresentou a amiga.

Ela era da Bretanha, como eles, tinha vindo tentar carreira em Paris, mas descobriu que como ela existiam muitas, se dedicou a ensinar desde jovem.

Ele era capaz de se atirar no chão para ela passar por cima, a adorava.

Ele trabalhava no seu próprio escritório de importação de cacau, da Bahia, da Malásia, de vários lugares de Africa.

Era filho do coronel Cavalcanti, numa época que ninguém falava mais assim, a época dos coronéis tinha acabado a muito, mas ele usava esse título, dizia que era hereditário, na verdade era um bronco, tinha poucos estudos, mas só tinha meu pai como herdeiro, apesar de vários filhos, bastardos claro.

Minha mãe não se casou com meu pai, dizia que como viajava muito para se apresentar, ficar presa numa casa não era a sua, odiava cozinhar, qualquer coisa da casa lhe enchia o saco, a única coisa que limpava com amor era o seu piano de cauda, na casa do André, passava a mão sobre as teclas com amor, isso era um hábito que ele tinha aprendido com ela.

O público, adorava, porque antes de se sentar, ele fazia isso, colocava a mão em cima do mesmo, como dizendo estou aqui, depois passava o dedo por todas as teclas, meninas vamos trabalhar.

Uma vez numa entrevista ele explicou por que fazia isso, tinha aprendido com ela, quando falava nela, mencionava seu nome, Sofie Nepomuceno.

Noutra reportagem lhe perguntaram por que não usava o sobrenome Cavalcanti, ele falou que era muito complicado, vou pelo mundo tocando, se falo todo esse nome, nunca conseguem pronunciar direito, já basta o Nepomuceno.

Era sua ligação com a mãe, tinha aprendido a tocar piano, com 4 anos de idade, ela dava aulas, o levava com ela para o conservatório, ele ficava prestando atenção, um dia tinha acabado de dar aulas a uma garota, que a mãe tinha cismado que devia ser pianista, que ficaria rica, ela comentava com tia Odile, essa menina não tem talento nenhum, mas vá falar isso com sua mãe, escutaram o piano, ele estava tocando o que ela tinha ensinado a garota, as duas ficaram na porta de boca aberta.

Quando contou ao seu pai, ele se matou de rir, soltou ah se o Coronel Cavalcanti descobre, vai mandar cortar os dedos dele.

Mas quando chegava em casa, pedia ao filho, me toque algo para relaxar.

Ninguém sabe como ele descobriu uma nana, de Mozart, nem chegava à metade o pai estava dormindo.   Depois o duro era o fazer levantar-se ir para a cama.

Quando a mãe viajava para algum concerto ele ficava com tia Odile, ela era especialista em treinar pianistas para concertos, o foi ensinando adorava ver seus dedos pequenos, se levantando, tocando a tecla com amor, isso lhe ensinou ela, tens que amar a música, para que ela seja sua.

Ele fez o de sempre, entrou no palco, o publico aplaudia, ele se inclinou, fez seu ritual, muita gente ria disso, quando se sentou, puxou como sempre o microfone, adorava anunciar a música com sua voz grave.

Disse que era como uma despedida, estaria fora algum tempo, falou de Villa Lobos, o maestro fez um sinal, ele começou a tocar imitando no piano um trem partindo, quando acabou o concerto o público estava em pé.

Ele se levantou agradecendo, fazendo como tinha aprendido com sua mãe, colocou a mão no peito.

Pediram claro o bis, ele comentou, hoje uma noticia me fez lembrar muito de duas mulheres a quem devo tudo isso, minha parte técnica a Odile Saint-Malo, a outra minha mãe, Sofie Nepomuceno, ela adorava essa música, quando vivíamos em Salvador da Bahia, no Brasil, uma vez vimos um clico de filme, anunciavam Joana Francesa, de Carlos Diegues, mais conhecido como Cacá Diegues, um dos grandes do cinema de lá.

Ficou sendo para sempre sua música preferida, começou a tocar e cantar, fazia parte de seu repertorio, ele o fazia como cantava Jeanne Moreau, com sotaque francês, viu que o público se embalava.   Acabou de se apresentar, queriam outro bis, mas viu que a secretária lhe fazia um sinal com o relógio, se inclinou profundamente, beijou a mão, colocou no chão do palco.

O público delirava, fez uma coisa, em pé mesmo começou a tocar La Marseillaise, com todos de pé, a orquestra, seguiu ele foi abanando, sentia que estava de despedindo de sua segunda pátria, não sabia o que lhe esperava, se voltava, tudo era uma incógnita.

Saiu correndo, entrou no taxi que já tinha sua bagagem, ao seu lado sua maleta de partituras, passou a mão por ela, sua velha companheira, presente de seu velho.

Parecia ainda escutar o público cantando.  Quando chegou no aeroporto, uma pessoa da Air France lhe esperava, tinham sido avisados, o levaram para a área vip, em seguida ao embarque, acomodaram sua maleta na primeira classe, lhe entregaram o ticket da maleta que tinha despachado.

Deu um suspiro profundo, olhou para o lado, lá estava o negro que o acompanhava a desde que era pequeno.

Uma larga história, verdade meu amigo, pensou, mas em Yoruba, sabia que tinha chegado a hora, tinha esses dois últimos anos, um tour de force como chamava, tinha tocado basicamente no mundo inteiro, América do Norte, Canadá, os países nórdicos, pela Europa inteira, Japão, aonde tinha um publico cativo, Africa do Sul, enfim, estava no fundo cansado, depois desse concerto, ia tirar umas férias justamente para ir ver o pai, que alguns anos, já não vinha a Paris.

Acabou dormindo, sem querer sonhou como tinha conhecido seu amigo, Exu Bara, quando chegaram a Salvador, seu pai aproveitou que seu pai estava em São Paulo o levou as plantações de cacau da família, lhe disse baixinho, isso tudo um dia será teu.

Ele se interessou por uma casa comprida que tinha ao fundo da plantação, lhe perguntou o que era, quem vivia ali.

Ali era a senzala, lhe explicou o pai, viviam os escravos, lhe explicou o que era, ele saiu correndo foi até a porta, ficou de boca aberta ali estava cheio de negros presos nas paredes por grilhetas, chorou muito, como se arrancassem uma parte dele.

Foi difícil consolar o garoto, seu pai não entendia, nada, aquilo estava caindo aos pedaços, vazio, não via o que ele via.

Nessa noite se levantou, saiu andando descalço até lá, pegou água, foi levando de um em um, quando fazia isso, eles soltavam da parede, por último foi esse negro, te esperávamos meu filho, obrigado por livrar todos esses espíritos, sempre estarão contigo, eu vou contigo até o inferno se for necessário.

Anos depois o mesmo o salvaria e sua mãe.

No dia seguinte voltaram para Salvador, seu avô tinha aceitado a contragosto a vinda de Sofie, pois tinha seu neto, nada mais, tinha obrigado meu pai a se casar com uma mulher que ele odiava, na verdade estava gravida do velho, mas esse tinha sua mulher, a mãe de seu pai, meu pai já não era tonto, aceitou, mas fez uma exigência, que as terras ficassem em seu nome, daria uma parte do lucro para ela, mas as terras passavam a ser dele.

O velho não gostou, mas aceitou, afinal eram da família, ia meter a mão de qualquer jeito, o filho que ela esperava nasceu morto.  Ela além de feia, tinha até bigode, nunca mais voltou a ter o corpo de solteira, gorda, segundo seu pai, cheirava mal.

Minha mãe, vinha com títulos do conservatório de Paris, bem como documentação de professora, seu pai, arrumou uma bela casa para eles, em Salvador.

Era lá que ele vivia, não na casa familiar, uma mansão lá prós lados do Farol da Barra.

Minha mãe saia todos os dias para ir dar aulas, um homem a acompanhava, depois a ele a escola, num dos carros do pai.   Depois o ia buscar, comia com a mãe, depois ia ter aulas com ela, o velho quando soube que ele tocava piano não gostou disse que isso não era coisa de homem macho, mas seu filho o ignorou.

Quando tinha uns oito anos, ia adiantado na escola, aprendia tudo rápido, queria era ir para o conservatório, tocar o dia inteiro, o diretor dizia, pelo menos daqui sairá um que sabe realmente tocar.

A maioria, era meninas de classe alta ou média, que os pais queriam que isso lhes dava educação, mas quando muito tocariam alguma música idiota.

Um dia estavam saindo, quando um jagunço, coisa quem nem existia mais, apareceu na frente deles, só sentiu uma força o empurrando, bem como a mãe, a bala ainda a acertou no ombro, depois sempre teria dificuldade para tocar piano com o braço esquerdo.

Era seu amigo negro, ficou na frente do homem, que tinha a boca aberta, claro via na frente dele um negro imenso, com a cara cheia de cicatrizes, a força do mesmo, o foi empurrando para trás, nisso descia a rua um ônibus, pegou o homem em cheio, passando por suas pernas.

Ficou ali atirado, alguém do andar de cima, chamou seu pai, que tinha o escritório logo na esquina, eu tinha corrido, ajudei minha mãe a se levantar, vi a policia perguntando ao homem quem tinha mandado, ele olhava aterrado o negro, esse lhe disse em sua cabeça, fale ou vai ser pior.

Quando meu pai chegou, ele disse, que tinha sido sua mulher, bem como o coronel, que ele tinha que matar essa mulher e o menino, não o queriam como herdeiro.

O homem começou a cuspir sangue, morreu, a cara de meu pai era de puro ódio.

Fez uma coisa, fomos para casa, mas antes ele encontrou o homem que tomava conta de nós, ao lado do carro, tinham lhe cortado a garganta, ou seja o sujeito tinha feito um trabalho completo.

Foi com minha mãe ao hospital, a bala tinha passado pelo nervo.

Fomos para casa, ele disse a senhora que trabalhava lá, ajude a senhora, a fazer uma maleta, ele foi para meu quarto, preparou a minha, riu quando viu tantas partituras por ali, me disse para ir buscar a que estava em cima do piano.

Precisas de uma maleta especial para isso, ele fez a dele, rápido, foi pedindo desculpas a minha mãe, não devia ter pedido que viesses para cá.

Pegamos um voo para o Rio de Janeiro, lá outro para Paris, ficamos na casa de tio André, pois o apartamento de meu pai, estava vivendo um parente dela, que cuidava da importação, quando chegamos lá, tinha uma festa cheia de viados como ele diria depois.

Expulsou todo mundo, mandou o mesmo fazer suas malas e voltar para Salvador.  A cara de ódio do outro, era impressionante, passou por tio André, resmungando, ao passar por mim, soltou, bastardo, meu pai o corrigiu, bastardo eres tu, filho de um coronel, com uma negra, que ninguém sabe quem é, fora daqui.

Ele queria pegar algumas coisas, meu pai chamou o empregado, mandou jogar as roupas do sujeito tudo pela janela, ele que pegue o que queira, o mesmo ainda jogou uma mala que caiu em cima do mesmo.

O idiota ainda ameaçou meu pai.

Mal sabia o que lhe esperava, meu pai, meses antes tinha vindo, viu como o outro esbanjava dinheiro como se fosse o dono de tudo.

Mas na verdade, tinha vindo para pegar um avião para a Malásia, ia ver a plantação de um holandês, que plantava cacau de uma maneira diferente, o fazia no meio da floresta, limpava um caminho ia plantando, o sabor era diferente.

O homem estava cansado, ia se aposentar, comprou tudo em meu nome.

No dia seguinte, estava com alguns clientes no escritório o sujeito entrou, querendo esnobar, disse que ia a Malásia comprar essa plantação, pertence a um tal de Nepomuceno.

Os dois começaram a rir, pode ir, mas compre só bilhete de ida, porque voltar para cá, nem pensar, lhe deram uma caixa com as coisas que tinha em cima de sua mesa, o puseram porta a fora.

Alguém do escritório, depois descobriram quem era, pois lhe contava tudo para seu avô, lhe disse que Nepomuceno, era eu.

Um dia apareceu lá em casa, minha mãe, estava retirando todo o excesso que ele tinha colocado, me viu ao piano, se aproximou, com um revólver, de repente se sentiu no ar, quando olhou para baixo, deu de cara com o Exu Bara, se mijou nas calças, minha mãe, chamou o porteiro, bem como a polícia, foi preso, o cheiro do mesmo era impressionante, tinha se mijado, cagado nas calças, ficava procurando aonde estava esse negro.

Ali não tinha nenhum, foi processado, preso, sua parente chamou meu pai, ele só lhe disse, não perdes por esperar.

Em seguida voltou a Salvador, com tio André do lado.

Foi a um cartório diferente, que não fosse nenhum amigo de meu avô, fez vários documentos, depois foi a fazenda que ela ainda usava como sua casa, lhe disse que assinasse uns papeis, eram os lucros que estavam depositados no banco, ela assinou tudo sem ler.

Depois ele fez o mesmo com o velho que estava lá também, afinal ela era amante dele, no final ele rindo disse ao pai, acho que o senhor é viado, por beijar uma mulher que tem bigode, só pode ser, além de um suvaco fedorento.     Isso quem contava sempre as gargalhadas era tio André.

Quando o velho assinou tudo, disse, bom agora vamos acertar as contas, a senhora acaba de assinar o meu pedido de divorcio concordando, sem direito a nada, pois estas terras são minhas ela ficou uma fera, queria abrir a gaveta da mesa, aonde tinha um revolver, mas meu pai sabia como ela era, tinha tirado a chave, estalou os dedos, ali estava o policial, que tinha escutado o outro dizer que tinha sido mandado por ela, bem pelo velho, para matar minha mãe e a mim.

Ela disse que estava gravida do legitimo herdeiro de seu pai, eles riram, estas gorda, porque não paras de comer.

Era um engodo para o velho fazer suas vontades, quanto ao senhor, não pense que porque acha que é coronel, vai se livrar de tudo, acaba de renunciar as terras que eram de minha mãe, bem como as suas, portanto se tens dinheiro no banco bem, senão está fudido.

Foram julgados, condenados, pois muita gente tinha escutado o homem confessar que os dois tinham mandado matar.

O velho não tinha dinheiro no banco, só na casa, dentro de um cofre, como a mesma não era mais sua, meu pai depositou tudo no banco, em nome do André.

A anos o velho tinha feito uma coisa, ele era herdeiro de sua mãe, o mesmo mandou arrasar a plantação de cacau, deixando só no fundo a floresta que era da mata atlântica, nessa ele não podia mexer.

Seu pai tinha aprendido com o holandês, os empregados tinham se escondido na floresta, ele os ensinou a plantar o cacau ali, trouxe mudas desde a Malásia, plantaram ali, a terra era diferente o cacau era impressionante, na área arrasada, ele plantou um tipo de mangueira, dessas que dão um fruto pequeno, com raízes finas que iam para o subsolo, eram imensas, já a plantou de um jeito para poder plantar depois entre elas cacau, o sabor era todo especial.

O velho quando saiu da cadeia, só tinha a velha mansão familiar em Salvador para viver, bem como um pequeno valor para se manter.

A fulana, ah essa morreu na prisão, no enterro todo mundo ria, tinha um bigode como esses de portugueses, só faltava as pontas viradas nos lados.

O pessoal que trabalhava na casa do velho, o controlava, morreu sozinho, pois tinha ficado só dois dias, o pessoal caiu no carnaval, quando voltaram o velho estava morto na sua poltrona.

Foi enterrado ali mesmo na cidade, nada de sujar o cemitério de Ilhéus, no mausoléu da família, nem pensar.

Ele tinha seguido em Paris, estudando duas coisas ao mesmo tempo, sua mãe, dizia, tens que fazer universidade, a vida do artista acaba um dia.

Ela agora só podia dar aulas, tinha um problema no ombro que ninguém conseguia resolver.

Quando fez 15 anos, deu seu primeiro concerto no conservatório, ela ainda não permitia que ele fizesse em outro lugar.

Seu pai cada vez que vinha, trazia partituras, dos compositores brasileiros que ia descobrindo.

Amava o filho, ser músico para ele, ao contrário do velho, era saber que o filho iria pelo mundo, sendo alguém.

Quando ele estreou no Palais da Ópera Garnier, dando seu primeiro concerto, estavam os dois sentados, num palco, com tio André, tia Odile, que o tinha ensaiado meses, acabou que ela tinha absorvido todos os compositores brasileiros, era uma peça para piano de Villa Lobos, tocou concerto nº 1, para piano e orquestra, nunca mais parou.

Tinha seus compositores franceses também que ele adorava.

Era especialista em Maurice Ravel, Fauré, além de muitos contemporâneos, mas fazia uma coisa, tia Odile, lhe arrumou um agente, esse antes sequer de mostrar para ele o contrato, discutia com os regentes, ele se negava a ficar tocando sempre a mesma coisa, queria coisas novas.

Depois tinha seus bises todos de músicas brasileiras, que ele tinha feito arranjo como se fosse composições de música clássica, os compositores faziam para violão, ele acrescentava o piano.

Com isso tinha várias gravações.

Nesse dia de seu primeiro concerto, quando terminou, todos pediam bises, ele tinha ficado sabendo que Jeanne Moreau, tinha recebido um convite, depois de agradecer, perguntou se ela estava na plateia, ela estava num camarote, falou dizendo que ele e sua mãe a tinham visto no cinema em Salvador em Joana Francesa, amamos essa música, depois indicou sua mãe, murmurou “Merci”, sentou-se ao piano, foi tocando junto ao mesmo tempo cantando, tinha aprendido a fazer isso no conservatório.

O público veio abaixo, pois quando ele falava em português, fazia com sotaque, como sua mãe, terminou fazendo como ela tinha ensinado, foi quando, por instinto, o negro, dizia que devia beijar o chão que pisava.

Beijou os dedos, colocou no chão.  Tocaria ali, mil vezes, depois no novo teatro da Bastilha, que seria como sua segunda casa.

Depois saiu de turnê, até que o pai o avisou que sua mãe estava mal, voltou correndo assim que pode, no lugar do tiro, tinha um câncer, que já tinha alcançado o coração.

No dia do enterro, na parte judia do cemitério, ficou impressionado, seu pai, estavam encurvado, como se tivesse tirado o chão que ele pisava, era um homem jovem, ainda não tinha cinquenta anos, mas nunca mais foi o mesmo.

Levou tio André com ele para Ilhéus, precisava de alguém que cuidasse de tudo para ele, o ajudasse a administrar tudo.    Comprou umas terras ao lado de aonde plantava seu cacau especial, ali mesmo tostavam o mesmo, fazendo misturas.

Descobriu entre as mulheres que viviam ali, uma que era filha bastarda de seu avô a tomou sob sua proteção, ela tinha uma plantação de pimentas rosas que usava nos banhos de santos, começou a misturar o mesmo com cacau, dava um sabor todo especial, mas não o vendia as grandes fabricas, sim aos chocolatiers de Paris, principalmente a dois mais famosos.

Vinha diretamente a eles.

Fazia o mesmo com o da Malásia, só quem se deslocava para lá era o tio André.  Talvez por isso, tia Odile, se mudou para Salvador, dava aulas no conservatório, treinava os melhores de lá, alguns alunos vinham de São Paulo ou Rio de Janeiro, para aprenderem com ela.

Ele nunca tinha tocado na Bahia, tampouco no resto do Brasil, era um belo desconhecido por lá.

Estava moído quando chegou a São Paulo, na hora do embarque foi abordado por um homem que lhe perguntou se ele era o Antoine Nepomuceno?

Disse que era o maestro da orquestra juvenil sinfônica da Bahia, que esperava que o fosse visitar.

Estava tão tonto que disse, fale com Tia Odile.

Odile Saint-Malo, é tua tia?

Sim senhor, fale com ela, vou resolver alguns problemas de família, não sei quanto tempo fico, mas ela sabe aonde estou.

Desta vez dormiu pesado no voo, não viu nada.

Quando ia descer, o negro falou, tem um homem te esperando fora, desconfie dele, teu tio André está fora esperando num carro.

Realmente quando saiu, viu um homem o negro estava do lado dele, passou batido, saiu do aeroporto, foi até o velho carro do seu avô, o motorista estava saindo para ir busca-lo, falou com tio André, tinha um homem com uma camiseta vermelha dentro com uma placa em meu nome.

Ele riu, isso é coisa de jornalista daqui, sabem que chegas, queriam te pegar de surpresa, para saber coisas, mas não disse nada.

Ah se essa maleta falasse soltou tio André, quando viu sua maleta de partituras, ele só faltava levar as mesmas com algemas, presas em seu pulso.

Tomaram estrada, seu pai a muito vivia nas terras que eram de sua mãe, dizia que assim cuidava das suas crianças.

Tinha construído uma casa simples, no meio das outras, ali no meio das árvores.

Seu Exu, quando chegaram, soltou ao seu ouvido, estou em casas, tu também, voltamos de aonde saímos.

Seu pai estava numa cadeira de rodas, tinha uma doença degenerativa, que já tinham atingido as pernas, conheceu sua tia, como tio André, dizia, Maria das Dores, ou Das Dores como as mulheres a conheciam.

Quando ela foi pegar a maleta da sua mão, seu pai riu, isso é impossível Das Dores, é seu bem mais precioso, como sempre me diz.

Sim foi ele quem me deu essa maleta, viu um piano de cola, antigo ali numa parte da sala, era aonde ele tinha aprendido a tocar, quando viviam em Salvador, passou a mão pelo mesmo, alisou as teclas, como tua mãe, verdade filho.

Se sentou começou a tocar uma música que seu pai, gostava, quando viu a porta e a janela, estava cheia de crianças, na porta da cozinha as senhoras que cuidavam da casa olhando.

Deves estar cansado, disse sua tia quando terminou, ficou alisando o teclado, tinha um que estava meio desafinado, foi olhar aonde estava o problema, seu pai disse a sua irmã, ele é assim, enquanto não encontre aonde está desafinado.

Tinha um negrinho olhando para ele fascinado.

Ela disse para ele, esse é meu neto Antoine, como tu.

O garoto correu para ele, mas depois passou os dedos pelas teclas, ele lhe disse qual deveria apertar, foi arrumando o desafinado.

Sentou-se outra vez, com ele no colo, lhe ensinou a tocar duas teclas, enquanto ele tocava uma nana, que sempre fazia para seu pai.

O sem-vergonha, quer me fazer dormir.

Depois finalmente foi tomar banho, quando saiu, quem chegava era sua tia Odile.

Seu pai, estava na cama dormindo.

Saiu com ela de braços dados, o garoto se juntou, segurando sua mão, disse o velho quer falar contigo.   Foi arrastando os dois, até uma parte mais cerrada da floresta. Ali numa cabana, estava sentado um velho, sem idade, do lado dele, estava seu exu, riu quando o garoto correu para ele.

Rindo disse que já sabia tocar para o velho.

Olá, meu filho disse o outro, beijou a mão de tia Odile, nossa benfeitora, foi falando que com ela eles sempre podiam contar, uma filha da Oxum, descobriu quando chegou aqui. O menino correu para dentro trouxe sozinho dois bancos, para eles sentarem.

Depois se sentou no joelho dele, como sempre o tivesse feito.

Depois enquanto ele falava como ia seu pai, soltou o que ele imaginava, se cansa muito, o seu problema não tem solução, tá chegando a hora dele se reunir com a mulher que sempre amou.

Ele entendeu, sua tia apareceu, com mais duas senhoras, todas vestidas de branco com roupas de santo. Entraram na cabana, logo saíram, o levaram para trás da mesma, lhe tiraram a roupa sem nenhuma cerimônia, o menino se matava de rir, pois ele tinha saído a sua mãe, era muito branco, com olhos azuis como os dela, a única coisa parecida com seu pai era o nariz, meio achatado.

Ao lado dele, estava seu Exu, as mulheres ficaram de boca aberta, pois de repente, o alguidar com aguas de rosas, subiu no ar, começou pouco a pouco a cair sobre sua cabeça, se escutou uma voz cantando em Yoruba, era o velho, o ungido chegou. O que libertou as almas presas na senzala.

O menino estava deliciado, segurando a mão dele, o seu Exu, disse, esse é o seu filho, o libertaste lá, mas como nunca tiveste alguém em tua vida, ele chegou por outro caminho.

Quando olhou para frente, estava seu pai na cadeira de rodas, com tio André lhe empurrando.

Levando o garoto, os dois foram em sua direção, ele chorava, disse que já sabia, que era seu neto, o meu preferido.

Quando depois a tia, disse que ele devia estar cansado, disse que não, dormi no avião, fazendo um balanço da minha vida.

O celular da tia Odile não parava, era o diretor da orquestra.

Diga, que em breve os visito, isso basta.

Ela falou que ele estava num encontro familiar, depois um dia desses apareceria.

Depois trouxeram o velho até a casa, vou mostrar para meu pai, uma composição minha, estava na maleta, ah se ela falasse, como diz tio André.

Começou a tocar como um lamento, era inspirada na senzala ele em criança, ele ia cantando em Yoruba, tudo que tinha sentido esse dia, que tinha ficado guardado na sua cabeça.

Depois comentou, que esses últimos anos tinha estudado composição, prometi um dia voltar, tocar na Opera da Bastille, em Paris.   Depois sossegarei o facho.

O Antoine, ficava ali ao lado com um olhar comprido, o sentou nos seus joelhos, o menino olhou em frente começou a dedilhar o piano, como ele ia dizendo.

Tai, teu herdeiro disse o pai.

Dois dias depois o velho não despertou.

Foi um enterro para ninguém, botar defeito. Ia ser cremado, ficaria ali nas suas terras preferidas, justo numa arvore imensa perto de um riacho.

Dias depois veio um tabelião, com tudo para conversarem.

A mansão do velho em Salvador ele mandou vender, que desse esse dinheiro para tia Odile, com certeza ela iria ajudar algum estudante seu.

Ela ria até, foi detalhando tudo, as fazendas, o que faziam.

Escutou tio André dizendo que estava cansado de administrar tudo.

Pois já deveria ter aprendido com tua mulher, a arrumar um ajudante, olha quantos jovens aqui para aprender.

O duro que seu pai, nunca quis uma escola aqui.

Pois vamos construir uma, sabe aquele velho casarão abandonado na entrada daqui, ali vamos construir uma escola para todos.

Começou a movimentar, foi um mês depois para se encontrar com o diretor da Orquestra, ele começou a lhe puxar o saco, ele parou seus pés, não seja tão brasileiro, era interessante, porque ele apesar de falar português, falava com sotaque, isso nunca perderia, alguns o achavam pedante por isso, mas soltava, eu pouco falei português, me é mais fácil falar em Yoruba que português.

A orquestra estava ensaiando, ele perguntou o que?

Villa Lobos, disseram o que.

Ele sentou-se no piano, começou a tocar, já tinha feito isso com seu filho postiço, Junior, se sentou ao lado, começou a tocar, todo mundo de boca aberta, o menino super concentrado.

Meses depois foi para Paris, levou sua tia, pois ela tinha a guarda do Junior, trabalhou duro com a orquestra de lá a estreia de sua primeira composição.

Adoravam era vê-lo cantar em Yoruba. Tinha pedido um outro piano, uma banqueta mais alta, no primeiro dia todo mundo achou raro aquilo, mas um dia a porta se abriu ele entrou com o Junior, apresentou meu filho.

Era um contraste grande, ele branco aquele menino negro.

Arrumou o banco para ele, colocou o microfone na altura para ele poder cantar, vamos passar primeiro a música os dois, depois fazemos com vocês inteira.

Tinha hora que ele deixava o filho ficar tocando, era interessante, com seus dedos pequenos, fazia como Odile tinha ensinado para ele, tocava as teclas com amor.

A orquestra caiu rendida com ele.

Depois ensaiavam sem reclamar.   No dia da estreia, comprou uma roupa para ele, mas entraram os dois vestidos de branco.

O publico veio abaixo, ele tinha ensinado o que fazia, para o Junior.

Aplaudiram muito tempo, o menino parecia que sempre tinha estado no palco.

Tempos depois voltaram para Salvador.   Ele não sabia por que, sentia falta dali, tinham feito muitas mudanças em tudo, agora só exportavam todo cacau já em pó.

Sua tia em Paris, tinha ido aos chocolatiers que trabalhavam com o cacau especial, viu como faziam, se meteu com eles, preparando coisas como ela fazia.

Na volta ensinou as mulheres a fazerem, vendiam em Salvador, numa boutique que uma delas abriu.

Fazia um sucesso danado.

Ele foi ficando, dava aulas ao Junior, quando ele chegou aos 15 anos, tio André tinha morrido, era mais velho que seu pai, Odile voltou para Paris, com o Junior, para ele poder acabar seus estudos, nos primeiros dias de conservatório, os professores diziam que não tinham nada que ensinar, agora ensaiava numa das salas, os concertos que tinha aprendido a amar com o pai, o velho agente, disse que tinha que colocar pernas novas para o acompanhar, logo arrumou um que entendia como devia ser, nada de repetição de concertos, sempre coisas diferentes.

Muita gente pensava que ele tinha morrido, por ter desaparecido, vivia agora com os seus, tocava todos os dias, tio André tinha treinado dois rapazes, que fizeram universidade, para administrarem tudo.

Ele passava uma parte do dia ao lado do velho, atendiam quem procurava ajuda.

Este dizia quando algum pedia alguma coisa idiota, ria descaradamente da cara da pessoa, vá trabalhar vagabundo.

Um dia o velho desapareceu, ninguém o encontrava, ele sim sabia, tinha entrado no Iroco, estava lá, depois aparecia para ele.

Dividia seu dia entre ajudar, depois no final da tarde, se sentava em seu velho piano, tocando músicas que ele amava.

O filho sempre vinha visita-lo, um dia lhe disse, pai, voltei, já cansei disso, meu lugar é aqui contigo. Foi se preparando para ficar no seu lugar.

Era como ele, alguns o chamavam assim eunucos da música, pois dele já falavam nunca tinha tido nenhum relacionamento na vida.

Pelo mundo afora, Junior tinha tocado a música que ele tinha composto da Senzala.

Se apresentava sempre como Antoine Cavalcanti.

Foi espaçando seus concertos, passava mais tempo com ele.

Dali, pela mãos de Odile, saíram muitos músicos, quando ele voltou, ela também, com quase 95 anos, queria quando morresse ficar com seu amado André.

Foram preparando sempre homens e mulheres para ficarem nos lugares chaves.

Tia Odile dizia que nada era permanente, quando morreu a enterraram ao lado do André.

Muitos anos depois, Junior já estava preparado, ele sonhou que era um garoto, entrava de noite na senzala, ia libertando com água, os espíritos presos ali, agora os mesmos estendiam os braços para ele, vir junto.

Junior, o encontrou sentado no piano, com as mãos em cima das teclas, mas morto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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