OBSESSION

 

                                             

 

Fui criado no meio de pessoas complicadas, de um lado minha mãe, que tinha obsessão a ser famosa a qualquer custo, vendia sua vida a qualquer um que divulgasse, nunca foi famosa por méritos próprios.

Uma vez vi uma entrevista com ela, devia ter uns doze anos, entrei num bar com meu pai, lá estava ela na televisão em NYC, segundo ele falando mentiras.

Quando perguntaram por mim, ela mudou a postura que estava sentada, bem como respondeu uma pergunta anterior, o sujeito insistiu, ela soltou na maior, creio que te enganas, não tenho filhos.

Meu pai ficou uma fera, telefonou em seguida para ela, lhe disse na cara, que a pensão que lhe pagava, se acabava, preferia guardar para meu futuro.

Foi imediatamente a seu advogado, nada de deixar para amanhã, foram ao juiz, eu pago a pensão do meu filho, mas ele vive comigo, porque ela nunca atende o garoto como deve, larga na casa dos pais, que estão velhos demais para isso, apresentou um atestado de uma assistente social, que tinha guardado, agora foi longe demais, passou a entrevista para o Juiz, imediatamente ele deu minha guarda ao meu pai.

Eu fiquei rindo, pois ele era uma pessoa obsessiva com o que fazia, vivia na verdade de uma herança de seu avô, porque seus pais, achavam um horror o que ele fazia.

Vivíamos em New Orleans, ele tinha uma mansão antiga, que tinha pertencido aos seus avôs maternos, seu pai odiava tudo relativo à cidade, pois podiam pensar que ele tinha raízes africanas.

Meu pai pelo que ele o contava obcecado por música desde garoto, justamente as que seu pai não gostava, Jazz, Rock Roll, tudo relativo à negritude.    Como ele dizia, vão a opera, mal começa estão os dois dormindo, por isso tem um camarote, assim ninguém vê.

As salas da velha mansão, estava abarrotada de discos, cds, fitas cassetes, tudo relativo a música, ele era sempre consultado por jornalistas, pessoas da música, escutava a todos, tinha um programa de rádio, aonde ele só falava das músicas que queria.

Por isso, o colocaram num horário, que ninguém queria, se pediam para divulgar uma música, primeiro escutava a mesma, se não gostava, podia se conhecia a pessoa, indicar aonde podia melhorar.

Ele mesmo tinha uma série de músicas, cantada por grandes cantores, por isso minha mãe num primeiro momento tinha se deslumbrado com ele.

Meus avôs paternos odiavam a mesma, primeiro porque era uma mulata, seus pais eram negros, viviam em Baton Rouge, meu pai sempre me levava para visita-los.

Eles não tem culpa de tua mãe ser como é.

Logo se casou outra vez, com um homem rico, de uma certa maneira agora frequentava a alta sociedade de NYC, mas nunca falava de seu filho.

Fui crescendo com isso, num dos salões de baixo, meu pai tinha um piano antigo desses negros, usados em concertos.

Eu me sentava ali, fechava os olhos, as vezes sentia ao meu lado um negro, bem vestido, estilo antigo, ele foi me ensinando a tocar piano, mas só fazia isso, quando meu pai não estava em casa.

Um dia esqueceu de uma partitura, voltou, pensou, quem é que meu filho está escutando, mas ficou de boca aberta, me ver sentado no piano, tocando com os olhos fechados, era um belo blues.

Ficou ali parado quieto, escutando tudo, na cabeça dele, meu mestre disse, ele não precisa de professores, isso tudo está dentro dele.

Como não o tinha visto, emendei com outra música que gostava, o pior era dele, estava escrita para guitarra, mas a toquei da minha maneira, quando olhei para trás, estava ele ali na porta chorando, aquele homem imenso, loiro, olhos azuis, as lagrimas corriam pela sua cara.

Só me abraçou, isso ele fazia muito, nesse dia pensou, tenho que proteger meu filho, sabia que se acontecesse algo, teria que viver com seus pais, isso nem pensar, se ele não tinha aguentado, como seria.

Apesar de ser uma pessoa compulsiva, sabia administrar seu dinheiro, cada vez foi colocando mais numa conta no banco para caso ele faltasse.

Só fez uma coisa, me disse muito sério, vejo que tens talento, mas tens que começar de uma base clássica, contratou um professor, que quando eu chegava da escola, estava ali me esperando, dizia meus pais iam odiar, o mesmo era negro retinto, foi um grande amigo até morrer muitos anos depois.

Me ensinou todos os exercícios possíveis, mas o mais interessante, me ensinou a tocar como um concertista, me fez escutar uma série de compositores americanos, europeus, os grandes clássicos, assim fui montando o meu caminho.

De noite, o meu amigo espiritual, me ensinava a outra parte, tocar jazz, blues, a cantar, a soltar minha voz.

Uma vez um amigo dele, passou pela frente da casa, escutava no celular, ele no seu programa noturno, achou raro, quem então, estava em casa, depois pensou, meu amigo ficou louco de vez, deixou o aparelho ligado.

Nisso me escutou a cantar uma velho blues desses cantados nas beira dos pântanos, de Lousiana, disse que ficou com os cabelos do braços em ponta, com a voz que escutava, resolveu bater na porta, demorei para atender, abri a porta, pois o conhecia, tinha ordens de não deixar nunca ninguém entrar.

Tio Henry, lhe soltei.

A música tinha parado, ele perguntou quem cantava, eu não sabia o que dizer, tudo que sabia dele, que além de ser um grande amigo de meu pai, era jornalista, justamente disso de música.

O convidei para entrar, fui a geladeira, a única coisa de bebida naquela casa, eram cervejas bem geladas.

O fiz sentar-se numa poltrona, meu pai o encontrou assim, duas horas depois quando voltou para casa.

A partir desse dia se tornou meu protetor, só falou uma coisa com meu pai, o esconda o máximo, pois é um diamante em bruto, um dia será famoso.

Meu pai me pediu para tocar para ele, sua música, que eu tinha feito em outro andamento, começava como se fosse Jazz, de repente eu passava a tocar como se fosse música clássica.

As lagrimas corriam pela cara do Tio Henry.

No dia seguinte, meu pai levou o maior susto, chegava um outro piano de cauda, de concertos, um das melhores marcas, junto com os homens, que subiam o mesmo, estava tio Henry, disse que tinha sido de sua mulher, ela tinha morrido no Katrina, o piano tinha se salvado, pois estava no andar de cima da casa, senão tinha ido pro brejo.

A partir desse dia, vinha sempre, se tornou meu terceiro professor, me ensinava composição.

Eu ia a escola de manhã, depois não parava mais.

No final de curso, antes de ir a universidade, dei um concerto na escola, meus colegas gravaram, toquei a música de meu pai, como eu fazia, começava com um Jazz, depois passava para clássico, em seguida estava no Youtube.

Ele ficou como louco, porque um professor, bem como tio Henry lhe mostraram quantas pessoas tinham visto.

No dia seguinte em casa, parecia uma romaria, agentes de músicas, programas queria me gravar, saímos de fininho, fomos para a casa de meus avôs em Baton Rouge, mostrou para eles no celular.

O velho se sentou comigo, o sonho da minha vida, era que tua mãe estudasse, tudo que eu nunca pude fazer, mas ela sempre quis boa vida, nem existimos mais, imagina saberem que seus pais são negros, sem eira nem beira.

Meu pai, apesar de tudo, tinha os pés no chão, me disse que eu teria uma oportunidade, de ser alguém, sabes que eu toco violão, piano, mas nunca fui cantor, ou mesmo grande nisso.

Quando fiz essa música apanhei muito, para conseguir finalizar a mesma.

Mas isso tens fácil, devias ir para a Juilliard School, estudar se aprimorar, embora ache que não vão ter muito que te ensinar.

Tio Henry concordava com ele, mas também insistiu.

Foi conosco a NYC, para os dias que eu tinha provas.

Nos divertimos horrores, pois fomos assistir a todos os concertos da cidade, seja de Jazz ou de Música Clássica.

Nenhum dia desses anteriores, toquei qualquer instrumento, dizia que eu tinha que me relaxar.

Quando passei por uma sala, cheia de instrumentos, era como eles dissessem, estamos aqui te esperando, fui direto a um saxofone, era velho, passei a mão por ele, como tinha que esperar me chamarem, coloquei o mesmo na boca, ao meu lado apareceu um homem muito magro, me sobrou ao ouvido uma música, comecei a tocar, quando me dei conta na porta, estavam vários jovens como eu que iam fazer a prova, bem como um senhor com os cabelos brancos imensos, presos num rabo de cavalo.

Me disse que o instrumento era dele, eu agradeci ter permitido tocar o mesmo.

Logo me chamaram, me sentei no piano, esperavam que eu tocasse a música que tinha aparecido no Youtube, mas toquei mesmo era que tinha tocado no saxofone, sem querer comecei a cantar a música.   Na minha cabeça deu um estalo, tinha uma pequena parte dessa música, que pertencia na verdade a uma obra de Debussy, passei a tocar a mesma, a cara do homem era impressionante.

Quando acabei, me perguntaram se tocava algum outro instrumento, disse que tinha acabado de experimentar o Saxofone, que era do professor, ele foi buscar outro, passei a mão pelo mesmo dizendo, olá amigo.

Quase soltei uma gargalhada, pois estava ali meu amigo, o que tinha me ensinado a tocar piano, me disse, este instrumento foi meu, pertencia ao meu avô, soltou a música na minha cabeça, ele tocava essa música, era sua preferida.

Era um velho blues, a toquei como o saxofone ia me guiando.

Quando terminei, suava um pouco, tirei do bolso detrás um lenço, enxuguei minha cabeça.

Os professores riram, perguntaram o que eu tinha ido fazer lá, se já sabia tocar.

Lhes disse que não tinha muita base, que precisava aprender a fundo tudo sobre música, se queria ir em frente.

Mas que iria estudar literatura ao mesmo tempo, pois era minha outra grande paixão.

Meu pai, tinha sua vida de New Orleans, ele e tio Henry conversaram muito, este achava que eu talvez pudesse ficar na casa dos meus avôs paternos, fomos até lá, só meu avô estava levantado, foi grosseiro, perguntou ao meu pai, se tinha acabado seu dinheiro, se vinha pedir alguma coisa.

Fiquei olhando para o velho, tinha uma cara de amargura, ali no salão tinha um piano de cauda, fechado a chave, fechei os olhos, a tampa se levantou sozinha, mentalmente comecei a tocar, uma música que sua filha preferida tocava para ele.

Levou um belo susto, nisso apareceu minha avó no salão não gostei dela no ato.

Que confusão é essa, quem abriu o piano da minha filha.

Puxei a mão do meu pai, disse, aqui não quero ficar.

Saímos sem nos despedir.

Voltamos a escola, olhando um quadro, aonde ofereciam hospedagem, aluguel de quarto, coisas assim o professor que tinha o saxofone, nos viu, meu pai lhe explicou o problema, tinham que arrumar um lugar para que eu ficasse.

Nos arrastou com ele, vivia no Brooklyn, numa casa das antigas, o primeiro andar era um imenso salão, com piano, ali tinha outros instrumentos, um violoncelo que parecia dizer, vem cá meu filho.

Depois subimos, no andar de cima, era como se fosse outro apartamento, mas nos levou ao terceiro andar, disse que tinha um quarto que alugava a algum aluno que não tinha família, era grande, tinha um banheiro incluído.

Disse quanto custava, meu pai disse que podia pagar, com meu fideicomisso, de anos e anos de dinheiro guardado.

De manhã eu iria a universidade estudar literatura, depois ia para a Juilliard, seguia estudando, tinha aulas de composição, aprendi a tocar outros instrumentos, inclusive adaptar partituras para eles.

No final do ano, meu pai, bem como Tio Henry vieram para assistir o final do curso.

Eu tinha preparado várias músicas durante esse tempo, escutava agora com os professores, os seus compositores prediletos.

Fiz um arranjo, comecei a tocar, desde Wagner, Debussy, Ravel, tudo misturado, eles se matavam de rir.  Depois diriam que eu tinha roubado a apresentação dos meus companheiros, amigos não tinha.

Meu pai quando falei isso, me disse que nessa vida era assim, que ele ao contrário, conhecia Tio Henry desde que tinha chegado a New Orleans, fomos amigos sempre.

Depois toquei uma música com um grupo, tinha vontade de me soltar, de todos compositores, Bach era o que menos gostava, era como se fosse uma coisa pesada para mim.

Alguns diziam que escutando o mesmo relaxavam, mas comigo não funcionava, tinha vontade de trocar os movimentos, fazer tudo diferente, a música em si era bonita, mas me faltava algo vital.  Na verdade era para os outros brilharem.

Aceitei o desafio, toquei como tinham me pedido, a vontade que tinha era de começar a improvisar.

Meu professor disse que eu tinha que aprender a tocar com os outros, podes não ser como eles, mas um dia tocaras com uma orquestra, terás não só que obedecer ao Maestro, como respeitar teus companheiros de trabalho.

Foi duro reconheço, as vezes nas noites depois do ensaio, ia para casa com a música na cabeça, tocando em cima da mesma, cheia de improvisações.

Depois de mim tocavam vários outros alunos, eu teria que tocar no final, como prêmio pelas melhores notas, me sentei no piano, muito sério, fechei os olhos, comecei a fazer o que tinha feito todos os dias, improvisando na minha cabeça.

Se escutava um silencio monumental, quando acabei, todo mundo estava em pé, me aplaudiram muito.

O professor ao me abraçar, me disse, filho da puta, usaste a mesma música a maioria nem desconfiou.

Realmente muita gente depois me perguntou de quem era a mesma, eu disse sem pensar, Bach.

Tinha vários diretores de orquestras ali, só um entendeu o que eu tinha feito, tinha tocado a música detrás para frente, mas improvisando, em outro andamento.

Veio falar comigo, era maestro convidado da orquestra sinfônica, quero trabalhar contigo.

Eu disse que agora ia de férias com meu pai, para New Orleans.

O apresentei, se conheciam de muitos anos atrás.

Eu tinha conseguido um violoncelo, através do Tio Henry, como sempre era ele que me incentivava a isso, fiz uma coisa, preparei a tal música de Bach, como tinha tocado, transcrevendo para Violoncelo.

No final das férias o diretor da orquestra chamou, eu disse que estava muito ocupado, pois estava me preparando para me apresentar com a orquestra de New Orleans, num concerto benéfico, me perguntou o que ia tocar, eu disse que a mesma música.

Ele veio na surdina, se hospedou num hotel, conseguiu bilhetes para entrar.

Eu tinha feito partitura para todos que iam me acompanhar, foi interessante, alguns estudavam justamente jazz, principalmente os da área de sopro.

Começamos a tocar com a orquestra, num determinado momento, os de sopro começavam a improvisar em cima do tema, eu me incorporava com o saxofone, tio Henry tinha comprado o mesmo como presente de Natal, num antiquário.

Isso pegou todo mundo de surpresa, quando acabamos de apresentar, éramos os últimos, o público aplaudia em pé.

A maioria nem tinha entendido, tudo que sabia, pelo programa que era uma música de Bach.

O maestro veio falar comigo, tinha trabalhado sozinho a música, como eu tinha feito, mas nunca imaginei o que fizeste no final.  Só lhe disse que queria incentivar os músicos dos metais a trabalharem mais.

Nessa noite estava cansado, fiquei em casa, meu pai e Tio Henry o arrastaram para ver esses mesmos músicos numa casa de Jazz.

Depois o maestro comentaria, conseguiste algo diferente, porque depois sozinhos, eles eram como qualquer outro músicos de metais.

Em seguida voltei para NYC, meu professor tinha ido assistir ao espetáculo, de uma certa maneira me começou a proteger do diretor da orquestra, cuidado ele quer ter sucesso a tuas custas.

Um dia apareceu com uma partitura, tentava inovar em cima da mesma, me trouxe a gravação da orquestra, algo não funcionava.

Fui com meu professor, assistir o ensaio, ele me disse ao ouvido, isso é maior que ele, caia fora.

Aleguei que tinha que apresentar um trabalho, comentei que ao mesmo tempo em literatura, estava escrevendo um trabalho, em cima de textos que tinha sido aproveitado para Operas, Ballet, coisas assim, tinha começado meu trabalho de final de curso antes do previsto.

Não gostou muito, mas entendi, ele queria que eu arrumasse para ele, a confusão que tinha montado.

Acabou apresentando como era na partitura original, sem nada novo em cima.

Resolvi fazer um curso de regência, me conseguiram uma bolsa para estudar no conservatório de Paris.

Meu pai, queria ir junto, mas quem ia cuidar de suas coisas, seus programas de rádio.

Fez uma coisa, iria ao final do curso, gravaria entrevistas com os americanos que tocavam Jazz em Paris, bem como artistas de lá.  Era fácil mandar para seu programa, Tio Henry ia a estação, apresentava em seu lugar.

Passou dois meses lá, comigo, me diverti horrores com ele.

Mas tinha que apresentar ao final do curso, escolhi uma de Debussy.  Trabalhei com três pianistas, um começava tocando como era a partitura, o seguinte, a tocava com um toque de jazz, o terceiro como se fosse um blues, tudo ao mesmo tempo a sonoridade era impressionante, depois entravam os cellos, depois o resto da orquestra, o público não esperava, alguns pensavam inclusive que era alguma música nova.

De repente a um toque meu, todos paravam, voltavam ao final como se fosse uma música clássica, entrava uma cantora de Opera, em seguida aparecia outra, mais outra a música ficava rica.

O público se levanto aplaudindo como louco.

Meu pai, bem como Tio Henry que tinha chegado de manhã, me abraçaram, meu tio me disse ao ouvido, eu nunca duvidei de ti.

Estava louco para ir para casa, faziam dois anos que não ia.

Nisso morreram meus avôs de NYC, como diria meu pai, nunca tinham se preocupado com testamento, pois pensavam que eram imortais.

Resultado toda sua fortuna ficou para meu pai, mandou vender tudo, comprou uma casa de shows de um amigo, reformou a mesma, no andar de cima conseguiu uma licença de rádio aonde tinha agora seu programa.

Eu toquei com um grupo que tinha montado com gente dali, tocamos jazz, eu ia montando as músicas, as vezes achava estranho, quando era garoto, ele sempre levava mulheres para lá, agora vivia com a gente tio Henry, um dia me levantei mais cedo, os dois estavam se beijando na cozinha.

Fiz a maior gozação, fingi que estava gravando no celular, vou colocar no Youtube.

Mas na verdade, via que entre eles tinha nascido mais que a amizade que sempre tiveram.

Um dia sentaram comigo, pois tinha vários convites, mas queria ficar um tempo parado, fui visitar meus avôs em Baton Rouge, ficaram contentes, nunca esqueces destes velhos.

A princípio ia com meu pai, agora ia sozinho.

Um dia minha avô me levou a beira do Mississipi, numa cabana velha, ali estava sentada a beira do rio, uma velha, sem idade.

Então esse é o menino músico, me mandou buscar água no rio, virou minhas mãos para cima, riu muito, eres bem guardado, esses homens foram músicos excepcionais, numa época que nem sempre isso era possível.

Está bem guardado senhora, tens uma vida longa, mas uma coisa, faça seu pai ir ao médico, não está muito bem.

Foi um deus nos acuda, pois ele odiava médicos, tomar remédios, coisas assim, mas tio Henry o convenceu, pior nos exames deram que tinha um câncer tipo desses galopantes.

Só teve tempo de se preparar, passar tudo para meu nome.

Não sai de seu lado, morreu segurando a mão dos dois, pediu que um cuidasse do outro.

Em seguida, fui fazer um trabalho com a Orquestra de San Francisco, fiz o que tinha feito em Paris, fez sucesso, depois me chamaram para o Lincoln Center, lá fui eu, meus velhos professores me receberam com festa.

Teria uma surpresa desagradável, estava no camarim depois da apresentação, tinha acabado de tomar um banho, escutei uma discussão do outro lado da porta, era minha bendita mãe, querendo entrar de qualquer jeito, mas tio Henry não deixava.

Abri a porta, ela nem me reconheceu, foi entrando, aonde está este.

Este quem lhe perguntei?

O que é maestro, fui eu que lhe fiz assim.

Ah, o maestro, já saiu a algum tempo tinha um compromisso, ficou me olhando na cara, saiu como tinha entrado.

Eu ao contrário de ficar bravo, fiquei rindo, nem me reconheceu, me vesti rapidamente, saímos dali, tinha gente me esperando, mas saímos por uma lateral.

Quando cheguei a New Orleans, estava louco para descansar, mas me avisaram que meus avôs tinham morrido em Baton Rouge, pedi para ele ligar para ela avisando.

A resposta foi contundente, não sabia de quem ele estava falando.

Fizemos uma cerimonia na igreja que iam, toquei no órgão da mesma uma música que ela adorava, depois paguei tudo no cemitério.

Fui visitar a mulher do rio, a tinha visto na Igreja, me alertou, cuidado a louca ficou furiosa quando a enganaste, vai te encher o saco, mas estás protegido.

Dois anos depois de uma turnê pela Europa, voltei, estava louco para estar tranquilo em casa um bom tempo.

Eu nunca atendia o telefone, quem o fazia era o Tio Henry, reclamou de uma pessoa que chamava, quando escutava a voz dele, desligava.

Seis meses depois me apresentava no Metropolitan de NYC, levamos semanas ensaiando, um novo trabalho para eles, era difícil mudar a maneira de pensar de músicos de orquestra que estão acostumados mais ou menos ao pré estabelecido.

Estava lotado no dia da estreia, estávamos no meio do espetáculo, eu não tocava nada desta vez, só vi os que me protegiam ali, como que me alertaram, alguém fazia algo, colocava luz na cara do que estivesse fazendo nesse momento uma apresentação em solitário, procurando atrapalhar.

Parei o concerto, mas o de segurança já tinham chegado ao camarote de quem fazia isso retirando as pessoas de lá.

Segui como se nada, ao final o público aplaudia, quando sai, havia uma bela confusão, no foyer, era ela, os músicos que ela tinha incomodado, estavam a denunciando.

Me perguntou se não ia defende-la, pedi um papel para denunciar a mesma, ia dormir no xadrez, para ver o sol nascer quadrado, um velho, o seu marido, veio falar comigo.

O senhor me desculpe, mas não o conheço, como tampouco essa senhora, aliás se fosse o senhor, ia buscar no seu passado, seus pais morreram a alguns meses, ela foi avisada, não apareceu, ah, fiz cara de surpresa, eles são negros, o senhor não gosta de negros verdade, a cara dele o denunciava, pois ela o é no fundo.

Fui embora, dois dias depois a julgavam por alteração de ordem, entrou toda compungida na sala, vestida de negro, recatada.

Eu tinha falado com o advogado dos músicos, para perguntar por que fazia isso, esses músicos, era negros como ela.

Ficou uma fera, se descontrolou toda.

Eu sou branca, gritava, ele mostrou uma cópia da sua certidão de nascimento, bem como uma foto dos meus avôs, o mandou tomar no cu.

É esse filho da puta que está se vingando.

Quando me chamaram o juiz elogiou meu trabalho, perguntou se era verdade o de meus avôs, eu disse que sim, pedi ao advogado que mostrou uma noticia no jornal, eu ao lado de todos da igreja deles.

Se mistura com essa gentuza soltou ela.

A senhora tenha respeito pelos seus pais, que a criaram muito bem, sempre me trataram com carinho.

Filho da puta, soltou, não perdi a calma, se a senhora diz que é, tudo bem, existem muitas putas pelo mundo.

Entendeu o jogo de palavras, atrás estava sentado seu marido, fez um sinal ao advogado para controlar, mas a sala estava cheia de jornalistas.

No outro dia, saia tudo outra vez nos jornais.

Dias depois se falava que ele tinha pedido o divórcio.

Mas a estas alturas já estava de novo em New Orleans, ela mandou um advogado atrás de mim, tinha perdido muito, agora era uma qualquer, pois seu marido só lhe daria uma pensão.

Queria dinheiro claro.

Mas meu dinheiro, eu usava de uma maneira diferente, dava bolsas de estudos, para alunos de música, principalmente se fossem negros, mexicanos, gente que tinha pouco para estudar.

Disse a ele que meu dinheiro estava tudo nisso, que eu tinha a casa de meu pai para viver, tinha feito uma coisa a anos, contratei especialistas, que documentaram tudo que estava lá, transformassem em arquivo digital, o que estava ali, foi tudo para um museu ligado a escola de Música de New Orleans, como ele tinha sonhado.

Fui de viagem, ficaria meses fora, nesse meio tempo, ela tentou colocar fogo na mansão que era dele, mas estava vazia, pois estavam fazendo obras, um senhor que cuidava da mesma durante a noite a surpreendeu, a polícia a prendeu.

Quando perguntou por mim, disseram que estava em Paris, que teria que esperar presa minha volta, pois me negava a retirar a queixa.

O advogado do ex-marido me procurou, pois vinha fazendo escândalos um atrás do outro, me neguei a recebe-lo, pois estava no meio de um trabalho de vários meses com a orquestra.

Apresentamos uma nova composição minha, que na verdade era de um dos espíritos que me acompanhavam.

Começava com uma melodia melancólica, depois ia mudando para uma ode aos escravos, havia uma parte que amava, que entrava um coral, cantando um lamento.

Ninguém se deu conta, a não ser alguns que sabiam, a mesma era em Yoruba, os jornais me elogiavam.

Fizeram várias reportagens comigo, bem como entrevista na televisão, um deles me perguntou a história das bolsas, aleguei não saber do que estava falando, pois tudo era feito em nome de meu pai.

Disse que meu pai tinha deixado toda sua herança para isso, aproveitei falei do seu acervo que hoje em dia estava no Museu ligado a escola de Música, inclusive se podia pesquisar via internet.

Todo um registro de músicos americanos, negros, soltei na maior que seus pais tinham horror em saber que o filho era casado com uma mulher descendente de negros, além de amar esses músicos, ele só recebeu a herança, pois era filho único, esqueceram de fazer um testamento, a ironia do destino, é que uma parte justamente é para essas pessoas que não podem pagar um estudo.

Só um de um jornal, me perguntou pela minha mãe, lhe respondi se queria falar de meus avôs de Baton Rouge, tudo bem, mas não sabia de quem ele estava falando, minha mãe tinha desaparecido quando eu era criança, nem tinha ideia de aonde andava.

O juiz queria terminar o processo, me neguei a retirar a queixa, tampouco voltei a New Orleans, fui trabalhar com uma orquestra no Japão, só voltei meses depois.

Sem os cuidados que tinha antes, tinha os cabelos, como de uma negra mesmo, era conflitiva na prisão, pois tinha sido condenada.

O marido, veio falar comigo na minha casa, restaurada, ainda teve a coragem de perguntar se tio Henry era meu amante.

Perguntei o que ele queria?

Que eu retirasse a queixa, apesar de tudo a amava, essa história tinha acabado com o relacionamento deles, em sociedade, agora ninguém me convida para nada por causa disso, estou sozinho, mas acostumado com ela.

Mas teve que cumprir toda a pena.

Ele a levou para uma viagem pela Europa, mas tudo no sigilo.

Não a voltei a ver nunca mais.

Segui minha vida como sempre, agora como a mansão, estava bem, volta e meia recebíamos algum aluno que não tinha casa.

Tio Henry reclamava que estava velho para me acompanhar, eu fui ficando para trás, cuidando dele, esse homem tinha me lançado, tinha sido meu segundo pai, não o ia deixar na estaca.

Dois anos depois morreu, eu segui trabalhando em cima do arquivo de meu pai.

Lancei uma série de músicos a muito esquecidos, fui levando a vida em frente, mas sempre ia a Baton Rouge, conversar com a senhora amiga de minha avô.

Quando tio Henry morreu, preparei como ele queria seu enterro, depois o coloquei ao lado de meu pai.

Preocupado, preparei tudo, todo o dinheiro ganho esses anos todos com meu trabalho, ia justamente para uma fundação que ele tinha montado em nome de meu pai, para ajudar os músicos.

Agora me apresentava sempre na sua velha casa de shows, cantando e tocando jazz, me dava um prazer imenso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentarios

Entradas populares de este blog

PRECISO ANDAR

PALAVRAS

DR. CASTELLO