RITORNO
“RITORNO AL PASSATO”, era o título do seu
último livro, era um ajuste de contas, com toda sua vida, afinal já estava com 95
anos mesmo.
A guerra o tinha pegado de calças curtas na
sua Sicília de origem, a princípio não sabia com certeza de que vila tinha
saído.
Tudo que sabia era que tinha ido morar com
a família de seu tio, que cuidava de uma fazenda de um velho mafioso,
aparentemente ele era o dono, ninguém falava no dono original, ele mandava e
desmandava em tudo.
Com a chegada do fascismo do Duce Benito
Mussolini, muita coisa ficou confusa, o pior veio depois com a chegada dos
alemães, a coisa ficou feia, eles mandavam em tudo.
Ele tinha uns 15 anos na época, usava para
arar as terras um trator velho, o único ali nas redondezas, o resto aravam como
antigamente, ou puxado por um cavalo ou por um boi.
Por isso todos consideravam seu tio um
homem rico.
Viviam numa parte de uma mansão, havia uma
parte que só sua tia, com as empregadas entrava uma vez por semana, para
limpar, abrir as grandes portas de vidro, mas nenhuma das crianças, ou mesmo os
homens entravam ali.
Ele só viu uma vez o grande senhor, chegar,
cercado de seus homens, nesse dia essa parte se abriu, os homens faziam filas
para falar com o mesmo.
A maioria tinha perdido os filhos na
guerra, então tinham um problema sério, ao parecer este entendia, pois também
tinha perdido filhos.
Ele ao contrário tinha perdido os pais, bem
como dois irmãos pequenos.
No verão, dormia no celeiro, com uma
escopeta ao lado, para vigiar se ninguém vinha roubar o feno, coisas de seu
tio, foi assim que teve sua primeira aventura sexual, com o rapaz que cuidava
dos cavalos.
Esse não era dali, vinha de Palermo, os
cavalos era do senhor, então era como se o mesmo fosse um funcionário
privilegiado, mas na verdade ajudava em tudo.
Quando o viu nu, tomando banho com um
balde, viu que tinha a coisa bem proporcionada, apesar da idade.
Pelo espelho pequeno que havia no banheiro,
sabia que não era feio, tinha um bom corpo para sua idade, por trabalhar pesado
no campo.
Quando era menor, ainda vivendo com os
pais, tinha aprendido a ler e escrever, adorava um livro, o roubava da
biblioteca do senhor, tinha uma entrada escondida que ele encontrou, nunca
disse nada a ninguém, mas dali as vezes assistia por uma fresta o que ele
chamava de beija mão.
Os homens brutos, vinham, se curvavam
diante do senhor, este estendia a mão, com um anel, os homens beijavam. Alguns ele se levantava, dava um beijo de
cada lado.
Seu tio comentava depois na cozinha, que
nesse dia esses homens tomavam um banho completo para não cheirarem mal, para o
grande senhor.
Ele quando viu a biblioteca, ficou como
louco, nunca viu ninguém colocar a mão nesses livros.
Só ele que os roubava, colocava na bolsa
que usava, quando ia ao campo cuidar das ovelhas ou das cabras.
Se sentava embaixo de uma árvore, devorava
os mesmo, adorava a descrição que o escritor fazia das cidades aonde se passava
a história.
Tinha na sua cabeça, como seria Roma, a
cidade eterna, a imaginava conforme o livro que lia.
Eles tinham sorte, a pouca comida dava para
todos, sua tia, bem como as outras mulheres preparavam macarrão, quando
cozinhavam o mesmo, sempre tinha um pedaço de carne dentro da água para dar um
sabor.
Mas normalmente usavam muito alho e cebola
muito picada para render.
Era um manjar quando comiam isso.
Houve um período que seu tio comentava que
graças a deus estavam longe do mar, pois senão os alemães estariam por lá.
Mas foi só ele verbalizar isso, um dia
apareceu um comboio, vinha com uma autorização do patrão para os deixarem usar
a parte que ele usava normalmente.
Seu tio lhe deu ordem, para estar o mais
longe possível da casa, então levava as ovelhas, cabras, o cachorro, para
longe, mais para o alto da montanha, lá existia uma cabana, era lá que dormia, um
dos garotos subia, com uma cesta, cheia de pães, alguma outra coisa, queijo
forte.
Agua ele tinha de ali mesmo, um pequeno
lago, aonde aproveitava o verão para tomar banho nu.
Um dia se sentiu observado, apareceu um
soldado alemão, que pelo visto, tinha se perdido, não o entendia, mas apontou
para seu piru, logo estava se deliciando com o mesmo.
Agora subia de vez em quando.
Da mesma maneira que esses homens
apareceram, foram embora, mais para a linha do Mar.
Se escutava falar que os americanos se
aproximavam.
Quem veio ficar escondido na casa familiar,
foi um professor, soube depois que o mesmo era judeu, o queria deportar para
algum campo de concentração. Tinha
estudado junto com seu tio, chegou lá num velho carro, o ensinou a conduzir no
mesmo.
Sabia que ele tinha escondido, uma bandeira
americana, dizia que era para sinalizar aonde podia aterrissar.
Um dia foi com ele a cabana, seu tio tinha
escutado que os alemães, voltavam, achou melhor ele subir com ele.
Quando o viu nu, queria o mesmo que o
alemão.
Achava estranho, esses homens usavam seu
piru, mas sem um beijo, nada, nem um abraço, era o que queriam, depois pensaria
que era o resultado de uma época que isso era pecado.
Ele se sentia bem, fazendo sexo, para ele
era uma coisa normal, via as ovelhas a cabras fazendo isso, era natural.
Sabia que entre homens não havia
reprodução, então era perfeito.
Se falava cada vez mais da chegada dos
americanos, cada homem que voltava da cidade, parava para comentar isso, que os
alemães, estavam nervosos, que havia que tomar cuidado.
Estava um dia lá no alto, quando chegou o
professor, vinha trazendo alguns livros para ele, gostava pois ficavam
conversando sobre o mesmo, tinha lhe dado uns blocos, aonde ele devia escrever
as palavras que não entendia.
Gostava disso, infelizmente dizia não pude
seguir estudando, seu tio achava uma besteira, se ele mesmo só tinha estudado
até uma certa altura, depois tinha começado a trabalhar duro nas terras,
primeiro com seu pai, depois quando esse morreu, ele ficou no lugar.
Mas quem levava as contas da casa, de tudo
era sua mulher, ela sim tinha estudado mais.
O carro estava escondido embaixo de uma
árvore, o professor sempre o cobria com uma lona, se passava algum avião, não
viam.
O estava fudendo, ali em pé, encostado numa
árvore, quando ele viu um avião, segundo o professor que ficou nervoso, o mesmo
era americano, logo outro barulho, esse era um alemão.
O professor saiu para a estrada como
estava, nu, levando nas mãos a bandeira americana.
Os aviões fizeram a volta, pelo visto ele
que não entendia nada, vinha o americano perseguindo o alemão, esse quando viu
o professor enrolado na bandeira, disparou, ele foi caindo, sendo metralhando
pelo alemão.
Ficou escondido, nem pensar em chamar mais
atenção, nisso viu que o americano, abatia o avião alemão, metralhava inclusive
o piloto que tinha saltado de paraquedas.
Ele correu por debaixo das árvores, para
ver aonde tinha caído o avião, a parte da frente que ele chamava de bico,
estava metido no riacho, o resto estava pegando fogo.
Foi quando viu o alemão, estava ainda vivo,
pegou uma pedra, começou a bater na sua cabeça, afinal ele tinha matado seu
único amigo.
O jogou mais para dentro da floresta, o
deixou ali, examinou os bolsos, encontrou uma arma, a escondeu na cabana,
depois voltou aonde estava o professor, suou para conseguir lhe retirar a
bandeira, conseguir colocar suas calças, pois tinha um dos pés virado para
trás, o enfiou no carro, no banco detrás, enrolado na lona. Desceu com ele,
avisou seu tio, providenciaram uma cova ali mesmo junto aos mortos da fazenda.
Sorriu tordo dizendo que pelo menos não
precisavam chamar o padre, pois esse era fascista.
Melhor subires para trazer as ovelhas e
cabras, leve o carro contigo, esconda embaixo da lona.
Foi o que ele fez, no dia seguinte, se via
desde o alto, os bombardeios, bem protegido por uma saliência da rocha, viu
como os americanos iam abatendo os poucos aviões que existiam ali.
Depois começaram a subir em jeep até aonde
ele estava, resolveu descer as ovelhas, pois os homens lhe eram estranhos.
Tinha que ir pela lateral da estrada, pois
não paravam de subir militares.
Uma parte se instalou na parte de cima da
montanha, fizeram um acampamento, ele voltou para levar o carro para baixo,
quando a estrada ficou desimpedida.
Escondeu no celeiro, colocou a lona por
cima, bem como feno, assim o carro ficava escondido, para todos os efeitos
agora era dele.
Seu quarto, ficou para dois jornalistas que
se hospedaram na casa grande.
Desta vez não vinham com autorização do
patrão, ao parecer tinham bombardeado seu palacete na vila embaixo, tinha
morrido o mesmo e seus homens.
Seu tio deu um suspiro imenso.
Um dos jornalistas, falava alguma coisa de
italiano, disse que lá na América, existiam muitos.
Nessa noite choveu muito, como fazia muito
calor, tirou a roupa, ficou completamente nu, sabia que da casa todos estavam
dormindo, pegou um pedação de sabão, foi se lavando.
Foi quando um deles apareceu, logo estavam
fazendo sexo, pela primeira vez alguém lhe beijou na boca.
Fizeram sexo várias vezes, o outro parecia
gostar, tentava falar com ele, lhe disse que era um tipo bonito.
Agora os americanos, esperavam ordem para
cruzar o estreito, com ferry, para chegarem ao outro lado.
Um dia foi ao seu quarto buscar roupas,
estavam os dois deitados lendo, viu que um deles lia um livro que ele já tinha
lido, ficou curioso, comentou com ele se gostava desse livro, começou a falar
do personagem principal, o comparando com um que era o secundário, esse sim
sabe das coisas, não é um homem impressionante, mas como verbaliza as coisas
sabe mais que o outro, os dois ficaram prestando atenção nele.
Esse quarto é seu?
Sim, aqui as camas são sempre grandes,
porque normalmente as crianças dormem todas juntas, lá na minha casa, dormia
com meus irmãos, mas morreram todos num bombardeio.
Acabou dormindo com os dois, nunca tinha
feito sexo assim com dois homens.
Quando falavam que iam embora, tinham um
problema não tinham carro.
Ele disse que se o levassem junto, cederia
o seu, mas precisavam de gasolina.
Isso arrumamos com os militares, sem avisar
seus tios, que com certeza não iam querer perder a mão de obra barata, saiu
escondido com eles, mas antes fez uma coisa, sabia aonde se escondia dinheiro,
tinha vivido todo esse tempo ali, nunca lhe deram nenhum tostão, era no túnel
que ia até a biblioteca, tinha um lugar que seu tio escondia dinheiro.
Não teve conversa, pegou uma boa
quantidade, de notas de maior valor, se mandou de madrugada com os jornalistas,
logo tinham gasolina cedida pelos militares, foram acompanhando os mesmos,
atravessaram, já do outro lado, tinham americanos, por isso foi fácil, eles iam
entrevistando as pessoas das vilas, para fazerem uma reportagem.
Viu como eles faziam, iam anotado o que
diziam, estava aprendendo inglês, com eles, ia traduzindo o que lhes diziam
quando não entendiam.
Mas o mais interessante, viu que anotavam
somente o que lhes interessavam, a história inteira não tinha valor para eles.
Ele ao contrário escutava tudo, anotava
tudo.
Os americanos, acharam divertido ele fazer
isso, lhe davam blocos como usavam, disseram para ele escrever com letra miúda,
assim durava mais.
Era o que ele fazia, escutava as histórias
do que essa gente tinha passado, as desgraças, falavam da fome, o fato de os
alemães roubarem tudo, inclusive os americanos faziam iguais, era como uma nova
invasão.
Seguiu fazendo sexo com os dois, quando
conseguiam um quarto, era como se ele fosse o terceiro membro dos dois.
Quando foram chegando a Roma, notou que os
dois gostavam de fazer sexo entre si, foi retirando seu time de campo.
Conseguiram em Roma, um lugar para alugar,
num velho palácio, todo dividido em apartamento.
O mais interessante, foram entrevistar o
dono, era professor na universidade, ele quando entrou na biblioteca do mesmo,
se apaixonou pelo lugar, foi passando a mão pelos livros, olhando os títulos, o
homem lhe perguntou se gostava de ler.
Nem chegou a responder, um dos jornalistas
disse que eu vivia com um livro nas mãos.
Fizeram a entrevista com ele, queria saber
como era dar aulas na universidade num tempo dominado pelo fascismo.
Difícil, pois se queres sobreviver, tens
que aceitar tudo isso, claro perdi muitos alunos, alguns foram para a guerra,
não voltaram, outros foram perseguidos pelos alemães, pois eram judeus, escondi
alguns aqui, por isso, não podia chamar a atenção.
Tive sorte, mas houve momentos de extremo
pavor, pois no sótão tinha alguns judeus, aqui em baixo alemães. Era difícil
controlar tudo.
O professor olhava para ele, interessado,
os jornalistas foram embora, iam comer com outros numa tratoria, mas não o
convidaram.
Pensei que eras jornalista como eles.
Não, aproveitei para vir para cá, realizar
meus sonhos, apenas cedi meu carro para eles, com a condição de vir junto,
durante o trajeto, fui fazendo tradução, ao mesmo tempo que aprendia o inglês.
Pensa ir com eles, em frente?
Não senhor, meu destino sempre foi Roma,
contou como sonhava em chegar lá, dos livros que tinha lido, adoravam quando
descreviam algum lugar da cidade.
Mas não posso ir adiante, nem tenho
documentos meus.
Com te chamas?
Enzo Garibaldi.
Uau, sabes quem foi Garibaldi?
Sim meu tio vivia falando nesse nome, tenho
várias versões na minha cabeça, pois cada um a conta de uma maneira, as vezes a
mesma coisa, mas vista de ângulos diferentes.
Começou a lhe perguntar o que tinha
estudado.
Contou que tinha seguido estudando por
conta própria, já que não sobrava tempo de ir à escola.
Posso te ensinar, o que sonhas na verdade?
Quero aprender a escrever, contar
histórias, saber como fazer isso.
Não escondeu do homem que tinha vindo com
os dois, pois fazia sexo com os mesmos, mas acho que chegaram à conclusão de
que gostam mais de fazer entre si.
No dia seguinte professor Carlo Ambrósio,
começou a lhe mostrar a cidade, se impressionou com ele, que mencionava o livro
que falava de tal lugar.
Quando os americanos foram embora, foram na
surdina, levando seu carro, nem podia botar uma denúncia, pois o carro tampouco
era dele.
O professor Ambrósio, o convidou para ficar
na sua casa, enquanto resolviam como fazer para ele seguir seus estudos, a
sorte que ele conhecia muita gente, aconselhado por um amigo, mas conversou com
ele antes, o adotou, passou a se chamar Enzo Garibaldi Duarte, o sobrenome do
outro.
Sem querer começaram uma relação, era a
primeira que ele tinha a sério, embora levasse o nome dele, ninguém sabia que
tinham uma relação, um adorava a cabeça do outro, bem como o romance com eles
foi subindo de nível, a um ponto que se entendiam de maravilha.
Nada era ostentoso, pois se sabiam
vigiados.
Ele fez provas para o situar numa escola,
logo no ano seguinte conseguiu entrar para a universidade, tinha curso de
literatura, bem como de escrita.
Começou pela história do professor que
tinha morrido nu, enrolado na bandeira americana, tinha pensado muito no
assunto, não falou do relacionamento sexual, mas sim como se ele estivesse no
lago tomando banho.
Para Ambrósio contou a verdade, mas
escreveu sobre as conversas, de como o mesmo lhe ensinava a ler, a prestar
atenção nos personagens, analisar os mesmos, bem como descobrir as palavras que
ele não sabia.
Mostrou o texto para o Ambrósio antes, este
de uma certa maneira ficou surpreso, com a claridade como escrevia.
Conseguia descrever a ação do que tinha
acontecido, do momento que avião alemão o mata com várias rajadas de
metralhadora.
Seguiu adiante, imaginando o que aconteceu
com o piloto, porque o matou se era uma simples pessoa, numa estrada, talvez
por causa da bandeira, mas acreditava que do ar, não se via como bandeira
americana, já que estava enrolado nela.
Ou talvez, por saber que o avião americano
o ia derrubar, como de fato aconteceu.
Segundo o professor, que depois conversou
com o Ambrósio, de longe foi a melhor narrativa que tinha recebido nos últimos
anos.
Nos exercícios seguinte, foi escrevendo
desde a primeira história que tinha anotado, relatava o lugar aonde estavam, se
era uma praça, tudo que estava em volta, como lia nos livros, para entrar
finalmente na história que a pessoa estava contando.
Se a praça estava bombardeada, como se via
a pessoa ali, aflita, sem saber que rumo tomar na sua vida. Alguns mais jovens,
chegavam a dizer, que agora com os americanos, talvez conseguisse ir para a
América atrás do sonho americano, como certos antepassados dele.
Um foi interessante, o mesmo tinha sofrido
na carne, ser um retornado, seus filhos foram recrutados, nunca mais soube
deles, era considerado um paira durante a época do fascismo, um traidor, por
ter emigrado, voltado com dinheiro, ter comprado a melhor casa da vila, depois
ser visto como uma merda, ele que tinha ajudado a muita gente de lá.
Se confessava perplexo, pois agora todos
corriam para ele, pois ele falava inglês, os americanos o festejavam, então
como se nada tivesse acontecido o convidavam para um café, para participar com
os outros da sua idade que tinham sobrevivido, a alguma coisa.
Agora era ele que não queria nada com essa
gente, quando as coisas se acalmasse, voltaria para a América, pois ainda tinha
dois filhos por lá, que não quiseram retornar.
Depois transformou isso numa história
isolada, o professor, levou a primeira, bem como essa a um editor, estes
estavam sedentos de novidades, pois os velhos escritores que tinha sido calados
durante esse época não sabiam o que escrever.
Acabou o curso, lhe convidaram para
aprender a escrever roteiro de cinema, foi trabalhar na Cinecittà, aonde
aprendeu a escrever, desde comedias, dramas, usar o famoso cinismo italiano.
Seguiu escrevendo, bem como sua vida com
Ambrósio, os dois se davam muito bem, podiam conversar horas sobre algum
assunto.
Esse dava aulas, mas nunca tinha se
atrevido a escrever, o apresentou sim a professores que tiveram que se camuflar
durante esse período, como tinham se sentido.
Um professor de matemática da universidade,
que tinha sangue judeu nas veias, por um antepassado dele, tinha sido um dos
que tinham se escondido na casa do Ambrósio, até que esse o conseguiu levar
para uma vila distante, no campo.
O eterno medo de ir parar num campo de
concentração, foram dias de conversas a três, lhe intrigava a postura desse
jovem, tão sério, as vezes Ambrósio lhe chamava a atenção, pois a pessoa tinha
contado alguma coisa divertida, mas ele estava mergulhado em narrar isso, que
se esquecia de rir.
Quando conseguiu que seu primeiro texto
interessasse a um diretor de cinema, reescreveu a história, criando minucias,
como via nos textos transformados para o cinema.
Tinha sido trabalhando lá, que no dia a dia
tinha aprendido as nuances de como desenvolver a história criando essas
minucias dos personagens.
O filme ganho dois prêmios, um foi ele pelo
texto do filme.
Isso impulsionou sua carreira para escrever
mais para o cinema, ele que nunca tinha visto um filme agora ia com Ambrósio,
ficavam de mãos dadas assistindo o filme.
Se era americano, falavam da maneira
diferente de enfocar a história, as vezes a transformando numa banalidade.
Nessa época começaram a surgir histórias da
guerra.
Um dia socorreu uma mulher, que estava
sendo agredida por outras, tinha sido amante de um soldado alemão, tinha um
filho do mesmo.
Conversou muito com ela, convenceu o
Ambrósio de arrumar um lugar no edifício que era dele, para ela viver com o
filho.
O garoto era muito inteligente, sentava-se
com os dois conversando, procurava ler o livro, tirar dúvidas com eles.
A mulher estava doente, pediu ao Ambrósio
para cuidar de seu filho, se acontecesse alguma coisa. Fizeram um documento
para isso, sabia que a justiça italiana era complicada. Quando ela morreu, foi
mais um a ter o sobrenome do Ambrósio, o trocaram de colégio, assim pararam de
lhe fazer bullying.
Era um a mais na família deles.
Anos depois, de ter acabado a universidade,
era uma sumidade em matemática, emigrou para os Estados Unidos, queria escapar
do que chamava de culpa mental.
Conversou muito com Enzo, contando como se
sentia em se saber filho de um alemão, que tinha matado muita pessoas
italianas.
Escreveu um roteiro de um filme sobre isso,
a culpa dos inocentes, pois a mãe para sobreviver tinha se prostituido, o fato
de ser amante do alemão, foi uma consequência para ter o que comer, a famosa
lei da sobrevivência.
O filme fez um sucesso incrível, conversou
com o rapaz, lhe deu o dinheiro que ganhou para ele começar a vida lá, Ambrósio
ficou chateado, pois com o tempo deixou de corresponder com eles.
Ele foi honesto, Ambrósio, temos que pensar
que ajudamos, sem imaginar uma retribuição, se faz isso pelo que se quer.
Os anos foram passando, ele agora era mais
conhecido como Garibaldi Duarte, tinha orgulho de ser considerado um filho do
Ambrósio, esse quando se aposentou, teve um período de melancolia, não tinha
imaginado o que faria quando parasse de trabalhar.
Não sabia desfrutar do tempo que agora
tinha em seu poder, lia, lhe pediam para escrever alguma coisa, dizia que isso
era coisa de seu filho.
Os anos foram passando, ele cada vez mais
fechado, a um ponto de lhe dizer que não se incomodava que ele tivesse
aventuras com outras pessoas.
Mas isso nem lhe passava pela cabeça, seu
tempo era limitado, aproveitado o tempo livre para fazer companhia ao homem que
amava, para tentar tira-lo do que o fazia triste.
Numas férias o arrastou para uma praia no
sul, assim o sol e o mar, pareceram trazer tranquilidade ao Ambrósio.
Alugaram uma casa, na praia, ele tinha seu
horário para escrever, aproveitava que Ambrósio fazia a siesta, nessa hora ele
ficava no salão que dava para o mar, escrevendo sem parar.
Um dia foi ao banheiro, escutou um suspiro
profundo do Ambrósio, quando chegou perto dele tinha morrido de um enfarte
fulminante.
O duro foi transportar o corpo para Roma,
conseguir fazer um enterro como ele merecia, foi ajudado pelo seu amigo
professor de matemática. Que insistiu
com os antigos companheiros de universidade para fazerem uma homenagem a ele.
Foi enterrado no panteão de sua família, um
advogado se aproximou, disse que tinha que lhe entregar alguns documentos,
relativos à herança.
Ambrósio era o último de sua família,
deixava tudo para ele, dinheiro no banco, a edifício, tive que vender dois
apartamentos para pagar a despesas disso tudo.
Agora a biblioteca era seu canto predileto,
voltou a trabalhar na Cinecittà, era como se tivessem esquecido dele.
Um diretor americano, precisava de alguém
que transformasse um texto que tinha, a história se passava em Genova, ele foi
para lá, para sentir como as pessoas falavam, foi refazendo o texto, ajudou o
diretor, acabou que como estava baseado num livro, ele basicamente escreveu o
texto novamente, adaptando a realidade de agora.
Foi candidato a um Oscar por isso, pois o
filme era considerado americano.
Depois foi convidado pelo mesmo, pois tinha
entendido sua maneira de trabalhar, esse faria em seguida um texto sobre a
guerra civil de Espanha, que depois se transformaria em um clássico, mas como
ele dizia, se quisesse ter ficado rico, tinha ficado em Hollywood, mas não
gostava da vida de lá, sentia falta da sua amada Roma.
Agora o recebiam bem, afinal tinha sido
candidato a um Oscar, além do filme seguinte fazer sucesso.
Logo estava escrevendo para muitos
diretores italianos, adorava acompanhar a filmagem, mesmo trabalhar na montagem
de um filme.
Ficou conhecido como um homem capaz de
muitas coisas.
O mais interessante, nunca mais tinha
voltado a Sicília, quando escreveu um roteiro inteiro numa história que se
passava lá, tentou localizar o lugar de aonde tinha saído, seus parentes tinha
ocupado o lugar do chefe da máfia a quem pertencia tudo, nada mais era como
antes, mas não se identificou como sendo da família, observou de longe.
Escreveu uma história mais voltada para a
política, de como muita gente aproveitando a confusão do final da guerra, tinha
trocado de nome, mudado para outro lugar, até mesmo emigrado, para escapar de
qualquer problema, inclusive tinha um personagem que era a prostituta que para
sobreviver vive com um alemão.
O filme ganhou vários prêmios, o mais
interessante era que essas festas o aborreciam, nunca ia recolher os prémios
dizia para o diretor, se não fosse pelo mesmo não tinha feito o filme, que
fosse recolher o mesmo.
Seguiu trabalhando, tinha suas aventuras,
dizia que a carne era tremula, ansiava por prazeres, mas nunca mais se
identificou com ninguém ao nível que tinha com o Ambrósio, sentia falta disso,
alguém para compartir sua vida, conversar, trocar ideias.
Isso de uma certa maneira o foi fechando
para os relacionamentos, tinha seu trabalho, o fazia perfeitamente, apoiava os
diretores, escolhia com quem queria trabalhar, seguia em frente, acompanhava as
filmagens a montagem do filme, dizia que quando acabava isso tudo, já tinha
parido o mesmo, ele agora que se apanhe para viver sua vida.
Disse isso numa entrevistas que lhe fizeram
ao finalizar um filme, que os mesmo eram como os filhos, são paridos, educados,
mas chega o momento que tem que voar por si só, isso eram o que ele sentia e
fazia.
Teve uma filme, que odiou desde o primeiro
dia a filmagem, o diretor foi substituído, pois teve um enfarte, o sujeito que
veio simplesmente lhe ignorou, fez o filme como queria ou achava que era,
ignorando basicamente o texto.
Virou uma merda, foi de um fracasso total.
Quando lhe perguntaram, as vezes na vida
temos esses abortos, alguns espontâneos, outros mais sofridos.
Hoje me pergunto no que se transformou esse
filme, pois a história real, sempre foi interessante, anos depois o filho do
diretor que tinha morrido, voltou a refazer o filme, ele acompanhou o mesmo até
a montagem, não tinha nada a ver com o anterior, o rapaz dizia, meu pai falou
tanto nesse filme que ficou na minha cabeça, por isso claro chamei o Garibaldi,
pois ele conhecia o meandro do texto.
Ganharam vários prêmios, inclusive
representaram Itália nos Oscares.
Seguiu trabalhando até os oitenta anos, foi
quando começou a escrever o livro, sobre tudo que tinha vivido, principalmente
a primeira parte de sua vida, na Sicília.
Muita gente lia isso como um romance, não
como uma biografia, pois a maioria dos jovens queriam era esquecer de qualquer
coisa relacionada a guerra, ao passado.
Preferiam pular esse período, sem que nada
se machucasse.
Estava numa idade, que os amigos vinham
visita-lo, a maioria dessa época dizia isso, passamos páginas, para muitos
nunca existiu Benito Mussolini, essa época foi banida da história do pais.
Era uma verdade, ele rindo soltava, se não
conhecesse a política italiana, diria que anos depois voltaria disfarçada de
outro nome.
Tinha tudo disposto para sua morte, queria
ser enterrado ao lado de seu querido Ambrósio, cada vez mais se lembrava das
largas histórias que conversavam os dois.
O segundo livro foi sobre esse período, descaradamente falava que ele
era seu pai, ao mesmo tempo seu amante, mas que lhe tinha dado a oportunidade
de ser alguém.
Só os amigos mais íntimos, sabiam disso,
mas estavam todos velhos demais para ficar falando sobre o assunto.
Foi de uma certa maneira um escândalo, como
sempre numa sociedade como ele dizia hipócrita.
Deixou de escrever, tinha pensado em
escrever a partir de sua volta a Sicília, escreveu mais como um desabafo, para
ser publicado depois de sua morte.
A anos vinham ajudando muita gente, deixou
dinheiro para muitos lugares, menos para a igreja, que era a rainha da
hipocrisia como ele dizia.
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