HOMONYME

 

                                          

 

Nas reuniões de família, cada vez mais difícil, pois cada um vive num lugar diferente, creio mesmo que tentaram escapar de qualquer jeito de Paris, para não aguentar nossos pais.

Eu sou o terceiro, fui sorteado, na época meu pai adorava Delacroix, dava aulas sobre ele na École de Beaux Arts de Paris, me colocou o nome de Delacroix Saint-Pierre, meu irmão mais velho lhe tocou Rodin Saint-Pierre, de Auguste Rodin, minha irmã foi minha mãe que escolheu o nome Claude, de Camille Claudel, ou seja, basicamente éramos homônimos dos grandes pintores, escultores.

Não sei o que pensavam, de Claude, ela fazia na Alliance uma peça de teatro, em cima do personagem de Camille Claudel, estava gravida, mas enganava bem.

Acho que pensou que minha irmã seguiria como ela com a carreira ou de atriz, ou seria uma escultora, nem uma coisa nem outra.  Era psicóloga na Bretanha, vivia a muitos anos da Ilê de Re, cada vez que tinha que vir a Paris, tinha mil e uma desculpas.

Meu irmão mais velho, homônimo de August Rodin, odiava esculturas, ao contrário de meus pais, odiava qualquer tipo de arte, vivia em Londres, aonde era professor na Universidade de Literatura contemporânea.

Já eu o coitado de todos, fui o único que passei a me dedicar a arte, embora meu pai, tivesse horror ao que eu fazia, ao contrário dele, que fazia de tudo, pintava, era escultor, gravador, eu fazia art através de computador.

Comecei na École de Beaux Arts, herdei de meu irmão Rodin, como o chamávamos, um velho laptop, meu pai odiava tudo que fosse referente a modernidade, principalmente em se tratando de informática.

Um dia conversando com um colega, me falou da L’École 42, me arrastou com ele, passava o resto do dia lá.

Para mim foi como ir a Disneyland, achei fantástico, aquelas salas imensas cheias de computadores, um lugar que funcionava basicamente 24 horas por dia, se podia tomar banho, comer por lá, tudo era possível, tinham orientadores.

Ainda terminei o ano da École de Beaux Arts, no seguinte nem voltei, passava o dia inteiro por lá, foi justamente nessa época depois de mil idas e voltas, meus pais resolveram se divorciar, eu era o único escolho em casa.

Minha mãe tinha um relacionamento com um diretor de cinema, meu pai, passava o dia como sempre entre a École de Beaux Arts e seu Studio.

Fui viver com meu avô paterno, que não tinha nada dos meus pais, ele tinha sido professor até pouco tempo, da Sorbonne, me disse quando meu pai reclamou, tens que fazer o que queres, porque será teu futuro, além de ter que viver o resto da vida com isso.

Me arrumou um quarto na sua casa, vivia sozinho, o mais interessante, a imensa biblioteca, era palco de encontro entre seus amigos, sempre tinha alguém para comer ou jantar, segundo ele quando minha avó era viva, vivia reclamando disso.

Mas ele manteve a empregada de toda a vida, com uma sobrinha que a ajudava.

Mas na verdade, eu só ia para casa, quando estava exausto, comecei a me especializar, trabalhando com programas de fotografia, montagens, adulterando tudo, fazendo como dizia meu pai, uma salada mista, sem sentido para ele.

Quando consegui fazer minha primeira exposição, o velho me financiou, mas vendi bem, devolvi todo o dinheiro para ele.

Ficou surpreso, me soltou na cara, que meu pai, sempre tinha mamado em sua mãe, quando não vendia nada, ia pedir para ela, então pensou que eu seria igual.

Participei de mil e uma exposições coletivas, por toda a França, inclusive na Feira de Arles no sul, mesmo a de Paris.

De repente surgiram os trabalhos em 3D, foi como se tivesse dado um clique em minha cabeça, com o dinheiro que tinha guardado de tudo que vendia, aprendi com esse meu colega, um argelino, duro, liso, teso como ele dizia, a me vestir em lojas de segunda mão, além é claro das roupas durarem mais.

Os dois começamos a discutir com os orientadores sobre as impressões em 3D, foi uma loucura, eu precisava de um lugar para trabalhar, meu avô me falou do sótão do edifício, aonde ele tinha um local, se consegues tirar tudo que está lá, dar um sumiço, por mim tudo bem.

Nos matamos de rir, Jacques era safo, logo chamou um homem, que nos comprou todos os moveis velhos que estavam lá, roupas, examinamos o que nos serviam, o resto foi tudo embora.

O lugar ficou vazio, começamos a comprar componentes para montar nossa impressora, eu com minhas economias, tinha comprado um computador, ou melhor dizendo, montei um para mim, o mais potente possível, o duro foi preparar a parte elétrica, ali só tinha como alimentação uma lâmpada, mas claro quando se quer, se consegue.

O filho do porteiro, era eletricista, logo nos roubou do quadro central, eletricidade para o que necessitávamos, eu o conhecia de toda vida, então foi fácil.

Ele vinha sempre, adorava ficar olhando, aprendendo como íamos fazendo as coisas, falei com meu avô, ele me deu uma sugestão, tens dinheiro guardado verdade, invista, mas tudo com teu nome, porque apesar de teu amigo estar trabalhando contigo, o material tem que ser teu.

Eu entendi, as vezes percebia no Jacques uma certa inveja.

Foi interessante, no meio do trabalho, um dia me disse na cara, tu tens tua vida arranjada, casa, comida e roupa lavada, eu tenho que ir à luta.   Seus pais viviam nas aforas de Paris, num bairro cheio de argelinos.

Um belo dia me disse que através da escola, tinha conseguido um emprego, simplesmente desapareceu.

Eu segui fazendo o que me propunha, agora tinha outro ajudante, o Jean, o rapaz eletricista, quando não estava fazendo nenhum bico, estava lá me ajudando, se interessava em aprender, fui lhe ensinando o básico, o levei para a L’École 42, ele alucinou, logo passa o tempo livre lá como eu.

Meu pai odiava isso, estava sempre reclamando de tudo, dos meus irmãos que tinham escapado, de mim, que ia contra tudo que ele amava.

Quando a primeira impressora ficou pronta, comecei a desenhar, a criar em cima disso, as pequenas obras que podia fazer.   

Jean me disse para copiar esculturas famosas, mas eu queria outra coisa.

Claro, se fazia algo como cópia, não tinha graça na minha cabeça, comecei a criar a partir de desenhos que estavam na minha cabeça.

Eram tudo pequenas esculturas, claro podia fazer copias, quantas quisesse, mas pensava que vulgarizava o que criava.

Fazia até ficar perfeita, quanto tive uma quantidade, levei a galeria aonde tinha exposto pela última vez, o sujeito me caia bem.

Ele olhou tudo aquilo, me disse que era perfeito, veja, aqui na rua passam muitos turistas, se temos um bom preço, eles estão levando uma obra de arte original, sem cópias.

Preparou uma pequena exposição, assinava minhas obras como Pierre Lacroix, imprimia isso com a obra, na parte debaixo, como uma assinatura.

Nem sei como, meu pai por um acaso passava lá com uns alunos, entraram, pois seus alunos adoraram, eram figuras modernas, misturadas com esculturas famosas.

A primeira a ser vendida, era uma que tirei a ideia de uma foto de Einstein, ele com a língua de fora, mas seus cabelos eram como da Medusa da história grega, era uma cabeça inteira, avançava junto com a língua, com os cabelos para trás, ao mesmo tempo em sua cara estava estampada uma explosão atômica.

O dono da galeria me telefonou em seguida, queria mais, pois todo mundo gostava, eu lhe disse que se fizesse assim, ia perder a graça, mas ia pensar numa solução, podia mudar cores, podia criar em cima da mesma, como era um material que se podia manejar depois, fui criando.

Meu pai veio me falar, vi outro dia uma exposição de pequenas esculturas, de um material novo, o sujeito é criativo, um tal de Pierre Lacroix.

Estávamos na biblioteca de meu avô, quando ele viu uma primeira cópia lá, pois tinha dado de presente para o velho, na galeria, custava dois mil euros.

De aonde o senhor tirou isso?

Meu avô respondeu, que era uma obra minha, que eu era o Pierre Lacroix.

Subimos, ele viu a quantidade ali, prontas, em que eu ia modificando cada uma, para ser diferente da outra.

Ficou sério, soltou que isso não era digno de mim.

Não esperava o que meu avô soltou, pelo menos eu invisto com ele, mas me devolve o dinheiro, até agora estou no lucro com teu filho, já contigo isso não acontece, dava facadas na tua mãe, que me pedia dinheiro para ti, mas nunca devolvias nada.

Ficou de boca aberta do pai falar isso com ele, achava isso direito.

Quer ver, esse menino é uma joia, ali tinha um livro, quanto ele tinha me emprestado para investir, quantas esculturas eu tinha feito, o valor da venda, eu colocava 10% de juros, que eu devolvia para ele.

Isso sim é saber trabalhar.

Quando levei as duas caixas de cabeça para a Galeria, ele fez como uma pequena noite inauguração, Jean foi levar comigo.

O da galeria, Paul Tendall, me disse que eu tinha uma pessoa apaixonada por mim.

Eu inocente perguntei quem?

Esse rapaz, te olha com adoração.

Ora eu conhecia o Jean desde criança, ele era colega de minha irmã na escola, só que não tinha notas, nem dinheiro para ir à universidade.

Agora me ajudava a montar uma impressora grande, estávamos dando um duro danado, queria poder imprimir, pelo menos obras com um metro de altura.

Ele se matava de rir comigo.

Um dia nos beijamos, fizemos sexo ali mesmo no chão do pequeno studio.   Foi interessante, ele riu muito, dizendo que não me imaginava tão inocente em sexo, convivendo com pessoas como tinha na École de Beaux Arts.

É verdade, numa me interessei muito por ninguém.

Me soltou na cara que o Jacques tinha ido embora por isso, te adorava, mas não o percebias.

Nunca tinha parado para pensar nele com essa intenção.

Um dia que fui preparar um trabalho, na L’École 42, ele foi sinalizando uma série de pessoas que me olhavam de outra maneira.

Mas não era comigo.

Estava totalmente preocupado com minha nova impressora.

Podia fazer trabalhos maiores, o problema era o material, conseguimos de uma vizinha, que tinha justamente o armazém ao lado do nosso, que me alugasse, me disse que podia ser meu grátis, se me livrava de tudo que estava ali, por sorte não era muita coisa.

Virou nosso armazém, pois precisava de espaço.

Pensei numa foto que tinha visto, de meu pai pequeno, em pé nu, fazendo xixi.

Fiz como experiencia, meu avô adorou, achou que ficava ótimo.

Meu pai quando viu, não gostou muito, assim é fácil trabalhar, mas ficou analisando tudo.

Fiz em cima de um quadro, que eram três mulheres, mudei a posição do garoto, fiz um de cada cor, como se um fosse negro, outro asiático, o terceiro branco.

Ficou uma semana na vitrine da galeria, mas me neguei a fazer mais reproduções, analisamos os dois, o valor que tínhamos gastado em material, Jean era bom nisso, calculamos com um aparelho, a eletricidade que a impressora gastava, além de um porcentagem em criatividade.

Foi o que cobrei da galeria, como Jean me ajudava, dei uma parte para ele.

Não queria, afinal não estou aqui o dia inteiro, mas eu achava justo.

Levamos meu avô até lá, ele adorou, já tinha marca de vendida, agora fazíamos fotos de tudo, montamos um book, o velho para se ocupar, passou a andar pelas galerias, podíamos fazer trabalhos para cada uma, desde que fosse diferente.

Comecei a trabalhar no computador, a figura mais famosa da França, La Liberté, mas fiz uma coisa, a fui transformando, em todas as mulheres emigrantes, que tinha o país, africanas, árabes, o da galeria como me queria prender com ele, limpou a sala principal de qualquer outra coisa, para colocar desde a vitrine, como em fila, em cima de um bancada.

Os preços eram caro, ele não discutia mais, pois uma vez lhe mostrei quanto custava o material, pois as mesmas não eram ocas, mas sim pesavam mais.

Fez uma inauguração, chamou jornalistas, todas tinham um metro de altura.

Jean estava radiante, ria muito, pois eu tinha ido com o macacão que usava pra trabalhar, ele de paletó e gravata, pensavam que era ele o escultor do trabalho.

Meu pai, avisou minha mãe que apareceu, o mais interessante, foi que virou-se para mim, dizendo qual ela queria de presente.

Como, se a senhora, nunca me incentivou a nada, nem tampouco me ajudou, agora quer de presente, tô fora.

Não vi que tinha um jornalista ali atrás de mim, no dia seguinte saia na coluna do mesmo, o que minha mãe tinha falado, atriz famosa, quer explorar o filho.

Ficou furiosa, ela que nunca aparecia, desde que tinha se mudado, agora ia a casa do meu avô, mas nunca a levei para cima.

O velho fazia agora 85 anos, resolveram fazer uma festa para ele, dias antes de meus irmãos chegarem, foi comigo ao Banco, ou melhor me pediu se podia leva-lo, andava com problemas para se mover.

Eu estava com a cabeça no mundo da lua, me pediu que assinasse uns papeis, eu estava ali ao lado desenhando num bloco, assinei tudo que me pediu, sem prestar atenção.

Depois me obrigou a ir com ele, a parte debaixo, aonde tinha um cofre, não me deixou ver o que tinha ali, mas me pediu uma coisa, se eu podia guardar a chave para ele, pois andava se esquecendo de tudo.

Afinal eu era o único que estava na casa dele, meus irmãos nunca chamavam, acredito que por medo de esbarrarem com meu pai.

Vieram a contragosto, meu avô, organizou uma festa, estavam todos seus velhos amigos, foi no restaurante que sempre o levava para conversar e almoçar com eles.

Dois meses depois morreu, eu estava com problemas, o espaço ficava pequeno, tinha que conseguir um lugar para trabalhar.

Guardava todo meu lucro, a parte que dava para o Jean, esse adorava comprar coisas, eu entendia que para ele devia ter valor isso, poder comprar o que não podia antes.

Falava com ele, temos que economizar, não sabemos o dia de amanhã.

Ele ria, dizendo que eu era uma mina de ouro, que queria se casar comigo, para viver como meu amante.

Seu pai ficou sabendo do nosso relacionamento, meu avô sabia desde o primeiro dia, contei para ele, sempre tinha sido meu confidente.

Me fez fazer uma coisa, cada vez que eu dava a parte do Jean, passava um recibo, ele assinava, me levou a um contador, que cuidava dessa parte, tinha que pagar impostos.

Avisei imediatamente meus irmãos, o mais velho disse que infelizmente não podia vir, estava em época de exames, tentaria chegar a tempo.

Minha irmã, reclamou horrores, pois tinha estado em Paris a menos de uma semana.

Meu pai, me impressionou, pois ficou fragilizado, sempre pensei que meu pai seria eterno, sabia que se abria com o velho sempre, seus relacionamentos nunca davam certo.

A cerimônia, era simples, no próprio cemitério, pois ele dizia que odiava as religiões, aquilo estava cheio de velhos colegas dele, amigos de toda a vida, inclusive gente do edifício.

Todos falavam comigo, pois quem estava sempre com meu avô era eu.

Meu pai ficou com ciúmes, mas ele não vivia lá, até minha mãe apareceu, ainda soltou para minha irmã, pelo menos vocês vão receber dinheiro, porque de teu pai e de mim, nunca tocara nada a vocês, achei aquilo de mau gosto.

O advogado avisou que dentro de dois dias faria a leitura de testamento.

Avisou meu irmão, que apareceu, vinha acompanhado de uma mulher mais velha do que ele, mas era famosa por lá.

Eu preocupado, pois o pai do Jean, tinha descoberto que roubávamos eletricidade do edifício, queria que saíssemos de lá, o pressionava também em relação a mim.

Foi interessante, ele também tinha sido convidado pelo advogado.

Começou a leitura do testamento, avisando que toda sua biblioteca, ele tinha doado para uma universidade pequena, em Aix en Provence, aonde ia passar as férias sempre.

O apartamento devia ser vendido, repartido entre os três netos, além de um valor para cada um no banco, incluía o Jean, pois esse sempre fazia tudo que ele lhe pedia, como o levar aos lugares.

Os três receberam uma carta dele, para mim deixou um envelope que depois me entregou o advogado, eu estava preocupado, como ia fazer com meu lugar de trabalho.

Me fez um sinal para ficar.

Arrumei uma desculpa, pois tinha que resolver com ele, o que ia fazer com meu studio, pois claro pertencia ao apartamento, se ia ser vendido, eu estava na rua da amargura.

Me disse que esperasse um pouco, até que lhe avisaram, que podíamos descer, fomos ao banco, apresentou o testamento do velho, uma parte que ele não tinha lido.

Era todo o dinheiro, muito por sinal, que me deixava, para ter meu studio, na carta me dizia que tudo que estava no cofre era meu.

Desci, para olhar, quase cai de costas, além de uma escritura de propriedade, com um bilhete, peça para o Jean te levar, aonde fomos ver o furgão.

Além de mais dinheiro, bem como joias, com um bilhete, que eram da família, que eu podia fazer o que quisesse com elas.

Quando falei com o Jean, sobre o lugar, ele se matou de rir, mas o levou, ficava em Belleville, um edifício pequeno, embaixo tinha sido uma oficina mecânica, o tal furgão estava lá dentro, uma escada estreita, em cima um pequeno apartamento, perfeito para ele.

Ficou como um louco, em uma semana tomou posse, ele, Jean, pintaram tudo por dentro de branco para ter claridade, em cima fizeram o mesmo, aparentemente tinha sido reformado a alguns anos.

O furgão era para transportarem fácil as coisas, quem o conduzia era o Jean, isso tinha sido a desculpa para ver o lugar, a filha do proprietário vendia um furgão, bem como o local.

Transferiram tudo para lá, desocupou o apartamento do avô, a biblioteca foi toda encaixotada, para ir para a universidade.

Os quadros e objetos do apartamento foram vendidos, ele só recuperou uma escultura em 3D uma das primeiras que tinha feito uma cópia para o velho.

Não comentou nada com o pai, quando estava tudo pronto, o convidou para conhecer, fez mil críticas, pensando que agora com o dinheiro que tinha, ia assentar a cabeça, fazer arte real.

Estava fazendo agora uma série dedicada a Estátua da Liberdade, a mesma mutava por todas as nacionalidades que viviam nos Estados Unidos, até um confederado, tinha, homens mulheres, quando imaginou um judeu ultraortodoxo, foi o máximo.

Um dia o dono da galeria apareceu com um colecionista, queria ver como ia o novo trabalho, o mais interessante, o homem não tirava o olho do Jean.

Dias depois telefonou o convidou para almoçar, o relacionamento entre eles, tinha voltado a amizade, nunca poderia dizer que tinha amado profundamente o outro, tinha sim se acostumado a compartir suas ideias com ele, a trabalharem juntos, mas era como se ele fosse um empregado, pois simplesmente o ajudava a administrar tudo, ele poderia fazer igual, mas deixava essa carga para ele, além de fazer uma série de coisas, lhe pagava por isso.

Semanas depois Jean, disse que ia viver com o sujeito, tinha a idade do pai dele, mas lhe oferecia uma vida que ele nunca tinha sonhado, de rico.

O pai dele veio falar com ele, para o convencer a não aceitar, disse que ele era dono de sua vida, não podia fazer isso.

Seguiu indo trabalhar, mas lhe avisou que iria para os Estados Unidos, com o outro.

Ele rapidamente colocou um cartaz em L’École 42, apareceu um rapaz negro imenso, conhecia seu trabalho, sabia que lidava com montagens de computadores, ficou alucinado com a impressora grande que tinha conseguido.

Com ele, começou a montar as estatuas da Liberdade, eram feitas por parte, por serem de tamanho natural, depois havia que colar, pintar detalhes.

Quando perguntou aonde morava, disse que de favor na casa de uma tia.

Ele vinha do Senegal, lhe arrumou um dos quartos do andar de cima, passou a viver lá com ele.

Tinha um nome francês, Pierre Lacombe, achou estranho, lhe explicou que seu pai era de lá.

Quando a série ficou pronta, ocupava toda a galeria, os imensos personagens, era de sua altura, por isso tinha sido feitos por parte.

Saiu várias reportagens no jornal, inclusive da montagem do último, como faziam.

Entrevista de televisão, mil coisas.

Seu pai, criticou duramente seu trabalho, mas foi a inauguração, passava por detrás dele, que falava com um jornalista, tipo dizendo que tinha puxado a ele, era criativo.

Ficou com vontade de rir, sempre mandava catálogos para seu irmão, mas não sabia nada dele, nessa sua irmã apareceu, lhe contou que tinha comprado com o dinheiro do avô uma casa na Ilê de Re aonde vivia, mas seguia igual, nada de relacionamentos, adorava estar sozinha.

Veio a inauguração com sua mãe, que reclamava que agora com a idade, só lhe davam papel de velhas, odiava, mas em momento algum perguntou como ele ia, se precisava de alguma coisa.

Foi uma noite surpreendente, Jean apareceu com seu novo namorado, iria embora no final de semana.   O mesmo comprou uma das esculturas, seria mandada para NYC.

No final da noite estava tudo vendido, o dono da galeria queria repetição, disse que não, já estava pensando em outra coisa.

Pierre Lacombe, era formal, educado, se veste como ele, em lojas de segunda mão, os dois podiam falar horas sobre alguma ideia, demoraram como sempre, principalmente por ele não saber lidar nunca com sua parte emocional, a terem um relacionamento, mas era totalmente diferente do Jean, se entregava totalmente ao sexo.

Para ele era como descobrir finalmente o que gostava, nos últimos anos, com Jean, era como um relacionamento de velhos.

Como uma galeria de NYC tinha comprado várias peças, foi exposta por lá, queriam que ele reproduzisse a mesma, disse que nem pensar, para nunca cair na tentação, guardava o projeto na caixa do banco, assim poderia dizer que não podia fazer cópias, o mesmo tinha sido destruído.

Depois dessa exposição pela primeira vez, tirou férias, foi primeiro passar um dia com sua irmã, levou com ele o Pierre.

Lá conheceram um senhor amigo dela, que era Nigeriano, lhe falou e mostrou muitas coisas dos mitos e Orixás africanos, isso lhe impressionou.

Resolveu já que esse senhor ia passar uma temporada lá, ir junto com ele.

Pierre ainda estava tratando de ter documentos franceses, ele foi sozinho, que de uma maneira foi bom, pois o que veio a seguir, não admitia interferências.

Foi para passar uns 15 dias, ficou dois meses, visitando tudo, olhando o trabalho de jovens de lá, mas se aprofundou realmente como faziam esculturas, uma mistura de técnicas ancestrais.

Voltou diferente, começou a trabalhar como diria seu pai, na arte real.

Pierre se decepcionou a princípio, mas entendeu, ficava a maior parte do dia num novo trabalho que tinha, mas não pensava em se afastar dele.

Quando viu a primeira escultura pronta, ficou impressionado, era uma mistura de técnicas que ninguém mais usava, misturava carvão com o barro, para que esse ficasse negro, seus desenhos eram perfeitos, fazia o desenho como imaginava a escultura de vários ângulos.

Convidou seu pai para ver, esse achou estranho as impressoras, cobertas, no fundo da grande oficina, se emocionou, finalmente alguém seguia seu trabalho.

Andou em volta da mesma, acompanhando os desenhos que estavam pelas paredes.

Ele agora estava fazendo a composição das roupas, os trajes vamos dizer assim, nada como se fosse agora, mas como ele imaginava esses guerreiros.

Foi mostrando para o pai, seus desenhos, o velho afinal batia palmas, seu avô sabia que um dia serias imenso.

Quando tinha tudo pronto, convidou o dono da galeria, esse na hora não entendeu, fez a mesma coisa, pensou que tinha sido feito pela impressora, mas ele estava trabalhando a seguinte, Pierre tinha andado com ele pelo subúrbio, para consegui carvão, bem como uma quantidade imensa de pigmentos negros.

A primeira foi para a galeria, tiveram que trazer uma empresa especializada, para isso.

As pessoas se impressionavam com os detalhes, ele colocou ao pés da mesma uma pote de água, com canela.

As pessoas queriam saber o que era aquilo.

Foi quando em seguida, pensou tenho que começar, como o velho me ensinou, a próxima foi uma escultura de Exu, ao desenhar, vinham em sua cabeça milhões de ideias, de um acabou fazendo 7 esculturas, de como ele imaginava esse mensageiro, entre o humano e os espíritos.

Só depois, é que começou a contar a história, fez uma Nanã, foi buscar um desenho que tinha feito de uma senhora, numa aldeia, uma pessoa de muita idade, com a cara realmente cheia de rugas, a imaginou como a primeira mulher, a que misturava água e terra, para fazer o primeiro humano, a água, era um espelho azul, a terra seu próprio elemento.

Quando a escultura ficou pronta, entendeu de precisava de um lugar para ir guardando, pois ocupavam muito espaço, alugou um armazém justo ao lado, muito grande, ia guardando ali os trabalhos, para os pés de Nanã, criou uma serie de bebês, como se fosse sua criação.

Depois foi fácil, seguiu todos os sonhos que ia tendo, como se os próprios fossem lhe orientando, Pierre que não tinha religião nenhuma, começou a rebuscar com ele, o significado de cada um, a conseguir material para vestir os mesmos, voltou a trabalhar com ele a tempo integral, sentia falta dessa tua energia, dizia abraçado a ele, de noite deitados lado a lado.

Seu pai, vinha sempre agora, ele mesmo pesquisava sobre o assunto, sinto uma energia vital quando entro no teu studio.

Levou 4 anos, a que estava na galeria, ocupava uma parte bem aos fundos, não estava a venda, só concordou com isso, quando teve basicamente todos os Orixás pronto.

Estava exausto, o tempo tinha passado como ele dizia num estalo de dedos, convidou o senhor que tinha ido com ele a Nigeria, que veio, se deslumbrou com seu trabalho, foi lhe explicando cada um deles.   Detalhes que ele não sabia.

Quando preparou tudo no armazém ao lado, como devia montar a exposição, esse homem veio para o ajudar, os Exus, cercavam todos, como protegendo os Orixás.

O dono da galeria levou um susto, nunca mais tinha visto nenhum trabalho, ficou de boca aberta, disse que em sua galeria seria impossível, não tinha espaço, voltou com um outro que ele conhecia, esse sim tinha uma galeria imensa, que podia ser ampliada.

Adorou a ideia, prepararam primeiro o catalogo, veio um especialista em fotografia, o mais interessante, o senhor se acomodou com eles no pequeno apartamento.

Acabou escrevendo a convite dele, tudo no catalogo, o que era cada um, o que representava.

A exposição fez um sucesso danado, primeiro que o dono da galeria era macaco velho, primeiro convidou os jornalistas, pessoal com programas de televisão, para virem ver, não permitiu nenhuma fotografia, isso só depois.

Foi uma noite impressionante, pois o local era todo branco, as esculturas negras, com detalhes em cores, outros materiais, estavam realmente vestidas.

Ele ia apresentando o Pierre seu braço direito nisso tudo, bem como o senhor, um babalorixá da Nigeria, afinal ele tinha feito parte da montagem de texto do catalogo.

Seu pai estava eufórico, orgulhoso de seu filho.

Desta vez ele calculou pelo tempo de serviço de cada uma, perguntou ao seu pai como fazia para pensar num preço, mas o dono da galeria foi além, custavam uma fortuna cada uma.

Tinha feito uma coisa, tinha contato com diretores de museus da Europa inteira, o que fez foi mandar a cada um catálogo da exposição, bem como convites, hospedagem.

Foi uma loucura, no final da noite estava tudo vendido, algumas inclusive para museus.

O grupo de Exus iriam para um museu de Berlin, achou interessante a ideia de quem comprava. Todos juntos, colocados na porta da sala de entrada do mesmo.

Estava exausto ao final, tiraram férias, foi ao Senegal com Pierre, para conhecer sua família de lá.

Depois de relaxado, foi para a Nigeria, seu pai foi junto, ficaram seis meses por lá, acompanharam a saída de santo de um lugar.

Os dois desenhavam como loucos, Pierre gravava tudo, a ideia de cada coisa.

Quando seu amigo Babalorixá disse que ia a Salvador, no Brasil, para uma saída de santo, num dos poucos terreiros dedicados a Exu, eles foram, primeiro conheceram através dele vários terreiros de santo, para depois irem para Itamaracá.

Ficaram dias lá, um calor impressionante, ele só de bermudas brancas e camiseta, desenhando sem parar, seu pai queria era conhecer a cidade, lhe arrumaram alguém para isso.

Ele ficou lá com o Pierre.

Quando a festa aconteceu, na verdade ele já tinha desenhado tudo, o Babalorixá de lá, lhe disse que ele tinha um Exu na frente, uma coisa rara, já que normalmente eles acompanhavam outros Orixás, mas ele não, o tinha só, por isso suas coisas sempre tinham dado certo.

Fez uma obrigação, chegava a ver o mesmo, falando com ele, agora entendia dos sonhos, como lhe orientava para cada escultura.

Quando voltou, foram outros tantos de anos, preparando tudo, inclusive Babalorixá da Bahia veio. Viu antes de todo mundo, como tinha sido orientado a montar a exposição.

Disse que estava perfeito, o viu falando com Pierre que ficava nervoso.

A inauguração, foi impressionante, acho interessante, pois seu irmão veio, agora tinha uma juba impressionante, parecia um leão.

Houve uma reunião familiar, sem sua mãe e claro, essa estava, apesar de reclamar, fazendo um filme em Hollywood.

Ele sem saber muito por que, mas seguindo sua intuição, fez seu testamento.

Logo em seguida a tanta confusão, como sempre se sentia cansado, sonhou com o homem que sempre lhe aparecia, este lhe disse que seu tempo terrenal acabava, que deixasse tudo pronto.

Ele tinha entendido, preparou seu testamento, deixando uma grande parte para o Pierre, mas o resto deixou para uma fundação que cuidava de crianças na Nigeria.

Dias depois, Pierre despertou, viu que ele não se mexia na cama, estava frio, tinha morrido.

Tinha um belo sorriso nos lábios, com se soubesse para aonde ia.

Foi um enterro para ninguém botar defeito, deixou as joias da caixa para sua irmã, já que ela tinha adotado duas meninas.

O resto foi para o Pierre.

Seu pai quase morreu junto, mas ainda viveria muito tempo.

Pierre orientado pelo babalorixá, levou suas cinzas para a Nigeria, aonde ele queria ficar.

Seu pai levou tempo para entender, que ele tinha traçado seu próprio caminho em busca de alguma coisa que lhe faltava, um caminho que começou com as coisas mais modernas, quando era respeitado com isso, se voltou a uma arte ancestral, o extremo oposto.

 

 

 

 

 

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