GRAY
Gray Calloway, era meu irmão mais velho, a
diferença era regular, ele era o mais velho, depois vinha Nancy, eu, Dorothy,
mas ele desde pequeno me protegia, nasci de sete meses, por um acidente, minha
mãe, mesmo gravida, estava em cima de um cavalo, quando rompeu águas, foi ele
quem a levou até a casa grande como chamávamos a imensa casa da fazenda, lá,
pegou o velho jeep, que tinha aprendido a conduzir, quando ia entrando na
cidade, o xerife o parou, explicou a situação, seguiu o carro do mesmo até o
hospital.
Minha mãe diria depois que tinha sido seu
melhor parto, segundo o médico, dez minutos, em seguida eu estava numa
incubadora.
O xerife que era boa pessoa, elogiou o
rápido atendimento do Gray, ele só tinha 12 anos, foi ver como ele se apanhava
conduzindo, lhe deu um papel que o autorizava a conduzir em caso de
emergências.
Ele adorou, contaria o resto de sua vida,
para seus netos e bisnetos essa história.
Penso nisso olhando essa sua foto,
amarelada pelo tempo, tudo que me restou dele, já não posso ir a fazenda como
ia antes, havia sempre uma época, aproveitava as festas, ia até lá, imagine
sair de Los Angeles, ir até, perto de Colorado Spring aonde estava a fazenda da
família.
Fui o único que foi embora de casa, o Gray
dizia que eu tinha fugido, mas não era verdade.
Ao contrário dele, que era um homem imenso,
forte, eu era mirrado, magro, com os cabelos sempre despenteados, quando ia a
escola, minha mãe antes de sair, passava o pente, mas mal chegava na varanda,
já estava como antes, parecia segundo ele, que tinha levado um susto.
No primeiro dia que fui a escola, ele foi
logo avisando aos garotos que faziam bullying com os menores, que eu era seu
irmão, se algum me provocasse ia se ver com ele, mostrava seu punho.
Íamos os dois até a estrada, ali, passava o
ônibus, mas no inverno com tudo nevado, ele se atrevia a irmos de jeep. O xerife que normalmente estava com seu
carro na entrada da pequena cidade, fingia que não via.
Como a escola ficava logo ali, ficava
admirado, como ele estacionava direito, de longe acenava para o mesmo, depois
colocava a mão sobre meu ombro, como me protegendo, entrava comigo.
Ele jamais imaginou ir embora dali, adorava
voltar para casa, comia alguma coisa, saia disparado para o celeiro, para
arriar seu cavalo, o tinha desde criança, era um potro quando meu pai comprou
para ele.
Me ensinou a cuidar do mesmo, foi ele quem
me ensinou a montar, a cuidar do cavalo, principalmente no inverno. Os outros iam para um pasto mais acima,
protegido do frio.
Os dois compartíamos quarto, conversávamos
sempre antes de dormir, me dizia pirralho, apague essa luz, pois normalmente eu
estava lendo algum livro que tinha tomado emprestado da biblioteca.
Ele dizia que eu tinha aprendido a ler,
antes sequer de falar, estaria minha vida inteira agarrado com um livro.
Quando ia nessa época, levava os livros que
sabia que ele ia gostar de ler pelas noites, dizia sempre que demorava para ter
sono, era sempre uma coisa ligeira, ele gostava de novelas negras, policiais,
detetives, o escambau, colocava uma caixa no banco detrás do meu Chevrolet conversível
de 1947, que um dia vi abandonado depois de uma filmagem, na surdina, o mesmo
tinha as chaves no lugar, fui embora para casa, claro nunca ia aos Estúdios com
ele, ia sim com um velho Volkswagen, que foi o carro que fui embora de casa.
Aprendi a dirigir com o Gray, ele me
obrigava a estacionar direito, dizia que senão ocupava muito espaço.
Esse carro apareceu na cidade, alguém se
meteu em confusão, tinha que pagar para sair baixo fiança, o xerife lhe avisou,
ele foi até lá comprou o mesmo.
Na verdade, era usado pela minha mãe, para
ir com minhas irmãs a cidade para fazer compras.
Quando chegava, ele nem me deixava descer
do carro, queria ele mesmo dar uma volta, era um momento íntimo dos dois, me ia
perguntado como iam as coisas, se estava tudo bem, só depois me deixava ver o
resto da família, dizia que assim pelo menos me tinha um momento só para ele.
Era mentira, porque sempre arrumava um
jeito de sairmos a cavalo só os dois, minha irmãs, sua mulher, diziam que
quando estava lá ele falava sem parar, que depois ficava mudo.
Quem consegue vencer essas mulheres,
parecem que tenho várias rádios postas ao mesmo tempo.
Realmente na fazenda, reinavam as mulheres,
ele mesmo tinha só um filho homem, o resto eram mulheres, que lhe deram muitos
netos também.
Mas agora com a idade, para ir, teria que
ser de avião, levar um acompanhante, pois ando em cadeiras de rodas. Mas na verdade, é que agora ele não está
mais lá, morreu a anos atrás, foi interessante, no seu enterro, o único que
parecia sentir era eu, foi como ele me abandonasse a minha própria sorte.
Tinha falado com ele, como sempre, depois
que mandou instalar um telefone na fazenda, assim toda semana de noite nós
falávamos, ele esperava todo mundo ir dormir, temos uma coisa em comum, eu
prefiro as vezes escrever até tarde da noite, pois estou tranquilo, ele me
chamava, o que eu estava escrevendo, de que ia a história, essas coisas.
Da última vez, reclamava, que o médico o
tinha proibido de andar a cavalo, imagine, ficar aqui dentro de casa, escutando
esses papagaios, nunca param de falar.
Muitas coisas de minha vida, devo a ele,
quando um louco montou um cinema na cidade, íamos os dois, me arrastava com
ele, para ver filmes de cowboy, policiais que ele adorava, mal começava ele
dizia quem era que tinha matado, acertava sempre, ele nunca gostava dos
mocinhos, mas sim dos bandidos, os outros não são interessante.
Dizia rindo depois para mim, esse mocinho
tem cara de quem dá o cu.
A primeira vez que vi alguém fazendo sexo,
foi ele com um mexicano que estava ali de passagem. Ele me viu, fez um sinal com o dedo, como
dizendo silencio.
Talvez por isso, deixei de ter vergonha de
me sentir atraído por algum companheiro de classe.
Quando achei que tinha me apaixonado, corri
para contar para ele, era o capitão da equipe de basquete, eu jogava também,
riam muito, pois eu era o mais baixinho de todos.
Ele me parou os pés.
Primeiro tens que pensar que essa cidade é
pequena, ou vais de putas, ou alguém de passo, nada de se enrolar com alguém da
escola, o pai dele é um idiota, imagino que o filho também seja, se avanças o
sinal, o mesmo vai contar para todo mundo.
Observe bem, antes de dar qualquer passo.
Isso me abriu os olhos, passei observar o
sujeito, estava sempre cercado de garotas, parecia um pavão, se achava o
máximo, pior o aguentavam porque jogava bem, pois era péssimo aluno, numa das
aulas, um professor lhe perguntou sobre um escritor, ele nem tinha ideia de
quem era.
Pensei com meus botões, é um ignorante. Anos depois o encontrei numa das minhas
visitas, gordo, careca, com os olhos vermelhos de quem bebe muito.
Não me reconheceu, mas sim o Gray, veio com
uma conversa mole, o despachamos em seguida.
Gray me contaria depois que uma vez tinha
comido o rabo dele.
Eu achava interessante, Gray se casou com
sua primeira namorada, dizia sempre, só ela para me entender, me respeitar, me
amar, sem condições.
Dizendo isso, poderia dizer que era uma
mulher feia, nada disso, era uma mulher linda, eu sempre dizia que se ela fosse
para Hollywood, seria uma estrela com certeza.
Mas era dura na queda, dizia que não tinha
tempo para essas besteiras, criava seus filhos, ajudava como minha mãe tinha
feito, nas lides da fazenda.
Quando estava para terminar o curso, um
dia, Gray era quem sempre ia a escola, quando chamavam meus pais.
Depois de falar com o diretor, alguns
professores, parou seu velho jeep, perto de um riacho aonde tomávamos banhos,
desceu, fazia um calor imenso, fazia tempo que não chovia, ali tinha um lugar,
com pedras, que tinham formado como uma piscina.
Pirralho, me chamava assim nessa época,
vamos tomar um banho, assim economizamos a água lá de casa.
Os dois sem roupas tomamos um belo banho,
ele se sentou numa pedra, só com o tronco fora d’água falou.
Sabes por que me chamaram?
Eu balancei a cabeça, como dizendo que nem
tinha ideia.
Bom te consideram o melhor aluno da escola,
dizem que a anos não aparece ninguém como você, o diretor andou mexendo seus
pauzinhos, o sujeito era de fora, conseguiu uma bolsa de estudos completa para
ti, mas é longe, soltou rindo Los Angeles, vais trabalhar um dia em Hollywood,
fazer que coloquem homens de verdade nos filmes.
Na hora isso me pareceu sem pé nem cabeça.
A verdade seja dita, eu devorava cada livro
que me caia nas mãos, os que os professores mandavam ler, eu era capaz de dizer
a página que estava o que ele mencionava.
Tirava sempre a nota máxima.
Foi nessa época, que tive minha primeira
briga, eu tinha a cara cheia de sardas, com meus cabelos sempre em revolta,
magro, mas tinha músculos, aprendi a me defender com o Gray, me obrigou a aprender
com ele a dar murros, até golpes baixos.
Um sujeito, recém-chegado à escola, vinha
de outra cidade, queria cantar de galo com todo mundo, depois vivaria meu
amigo. Estava sentado no recreio com um
livro, que estava fazendo um trabalho, ele parou na minha frente, começou a me
encher o saco, levantei a cabeça, para o mesmo, tudo que vi, foi um certo
desespero em seu olha, como se estivesse ali perdido.
Me levantei, ele era mais alto do que eu,
me empurrou, não tive dúvida, lhe dei um belo soco no nariz, acabou sentado no
chão, me olhando.
Estendi a mão para ele, se levantar, além
de lhe dar um lenço que minha mãe colocava atrás das minhas calças. Lhe disse meu nome, Cyrill Calloway, como
vai.
Peter, ficou de boca aberta, disse seu
nome, se sentou ao meu lado, abri meu farnel, que minha mãe sempre colocava na
minha mochila, lhe dei a metade.
Foi realmente o primeiro que fiz um sexo
como devia, seus pais trabalhavam fora, ele sempre estava sozinho em casa.
O encontrei anos depois, em NYC, ele foi um
lançamento de um livro meu. O reconheci
imediatamente, pois quando sorria, a boca ficava torta.
Nessa noite dormiu comigo no hotel, no dia
seguinte me contou que era policial na cidade, não me sobrou outra.
Cada vez que vinha a cidade, lhe chamava,
até que um dia, chamei, atendeu uma mulher, disse que seu marido tinha morrido
num confronto de gangs.
Eu sabia que ele tinha se casado, que tinha
inclusive um filho, me disse rindo que o tinha feito pensando em mim, tem os
mesmos cabelos rebeldes que os teus.
Bom sei que meu irmão, começou a campanha
dele, para eu ir embora, com meus pais, o velho achava que não podia perder um
braço grátis na fazenda, minha mãe sim, sonhava com isso, que um filho fosse a
universidade, um sonho seu de jovem.
Foi ela quem arrumou o dinheiro para a
viagem, me deu as chaves do carro, fazia com que meu pai pagasse um salário
para o Gray, o velho reclamava, se tinha casa, comida, cama para dormir, que
mais queria.
Ele guardava tudo, no dia antes, me enfiou
o dinheiro que tinha nas mãos, vai dar para a gasolina do fusca, até Los
Angeles é um bom caminho.
Tinha estudado comigo todo o trajeto, me
tinha feito fazer as provas de condução para ter documentos, tens cara de
garoto, vão te parar sempre.
Foi uma verdade, a polícia me parou mil
vezes, tinha que mostrar meus documentos, bem como que ia em direção a Los
Angeles, para a universidade.
Quando cheguei me orientando pelo mapa,
tínhamos estudados juntos mil vezes como ia fazer ao entrar na cidade.
Fui a reitoria, a secretária, me
apresentei, um senhor me olhou rindo, depois me diria que eu era um dos poucos
estudantes educados que tinham aparecido.
O diretor da escola aonde estudava era
amigo do mesmo, seria meu primeiro professor de literatura, ele mesmo disse a
secretária que me atendia, eu o levo aonde vai viver.
Ia compartir quarto com outro estudante.
Perguntou se isso me incomodava?
Imagina, eu comparti quarto com meu irmão
mais velho desde garoto.
Tive sorte, era um sujeito como eu, que
vinha de algum lugar.
Precisava arrumar um emprego, o professor,
falou com a senhora que dirigia a biblioteca, soltou rindo, mais um rato de
biblioteca para ti. Disse que o diretor
da escola tinha falado nisso, que eu reclamava pois já tinha lido tudo que
estava lá.
Me pagariam para trabalhar na parte da
tarde, até a hora que fechasse.
Dois dias depois, escrevi minha primeira
carta para o Gray, seria assim durante anos.
As dele eram curtas, dizia sempre ao
começar, nada de novo, nem de podre no reino dos Calloway, depois contava se
alguma égua tinha parido, quem tinha ido embora da cidade, se alguém chegava.
Só voltei, pois tinha que economizar para
isso, a puta gasolina que era muita, para seu casamento, foi uma bela festa, na
verdade Marie já vivia lá com ele, mas estava gravida, minha mãe o convenceu de
se casar.
Ele marcou justo quando eu tinha férias, lá
fui eu levando como sempre todos os livros que tinha lido nesse tempo.
Estava com uns cabelos compridos, como se
usava na época, a primeira coisa que ele fez, foi entrar no carro, vamos fugir
daqui.
Nem me deixou descer para falar com meus
pais.
Fomos parar no riacho, soltou direto, achas
que estou fazendo certo me casar, como se eu que não tinha experiencia nenhuma
de vida a dois pudesse dizer alguma coisa.
Nos dias seguintes andamos sempre um colado
ao outro.
Eu era seu padrinho de casamento, minha mãe
conseguiu que o padre viesse fazer a cerimônia lá na fazenda, pois ali ninguém
ia as missas.
Depois houve um belo churrasco.
O tempo voou, eu tinha que ir embora, me
fez contar com detalhes minha vida por lá.
Eu ia começar um curso de roteirista, como
se dizia na época, aconselhado por um professor.
Contei para ele como funcionava, vamos ver
se realizo teu sonho, de colocar em cena, homens sérios, para fazer o papel,
nada de homem bonito.
Lhe contei de minhas poucas aventuras, ele
se matava de rir, pois eu descrevia como tinha funcionado na cama. Dizia rindo que eu acabaria escrevendo
roteiro de filmes pornográficos.
Depois isso virou uma coisa, sempre que
tinha um tempo livre, escapava para lá.
Logo consegui um trabalho num Estudio, claro
uma coisa era pegar uma história de um livro, como fazíamos num curso,
construir a partir disso, contar a história, colocando inclusive mais
personagens para que ficasse mais rica.
Algumas vezes algum diretor, vinha atrás de
alguma ideia que alguém tivesse.
Um dia escrevi meu primeiro roteiro, a
partir de uma notícia de jornal, um assalto que tinha acontecido numa cidade do
interior.
Quando me falaram no ator que faria o papel
principal, fui falar com o diretor, o senhor me desculpe, esse sujeito não vai
convencer, o personagem é um homem mais bruto, ele é bonito demais, indiquei um
ator que sempre fazia o segundo papel.
Vinha do teatro, tinha cara de mau, o
diretor, o chamou para fazer um casting, foi interessante, eu o conheci,
chamei, disse que a ideia era minha, o fiz entender o texto e o personagem.
Ele fez o filme, segundo ele, seu primeiro
papel principal, foi um sucesso, um dia apareceu no meu pequeno apartamento, se
matou de rir, pois tudo que eu tinha era uma mesa imensa, que ficava perto da
janela, um cadeirão de orelhas, minha cama, claro livros por todas as partes.
Ele trazia um roteiro, queria que eu desse
uma olhada.
Mas primeiro acabamos na cama, foi
interessante, ele era feio, másculo, mas uma pessoa que te explorava até pedires
por favor.
Fomos amantes durante um bom tempo, mas
sempre discretos, ele aparecia com vedetes, ou garotas que fariam pontas no
filme esperando alguma chance.
Um belo dia, deu o pé na bunda de tudo
isso, voltou para NYC, sentia saudades de trabalhar na Broadway. Isso tudo é muito chato, os diretores são
um pé no saco.
Mas antes passou dois dias na minha cama.
Sem querer comentei que todas as pessoas
que me interessavam iam para NYC.
Mas antes, o levei a fazenda comigo, fomos
juntos ao cinema, aonde ele fazia seu primeiro papel de policial.
Meu irmão teve que contar para ele, que
tinha pedido isso, alguém que tivesse cara de homem.
Ele de sacanagem, mas na verdade só
consegui esse papel, porque dei o rabo para ele.
Meu irmão caiu na gargalhada. Tinham colocado no meu quarto duas camas, mas
dormíamos numa só.
Meu velho já tinha morrido, Gray como mais
velho, herdou a fazenda, minhas irmãs eram duas solteironas, só uma se casaria
anos mais tarde, com um cowboy, que a deixou gravida, desapareceu, ele criou o
garoto como se fosse mais um filho dele.
Cada vez que ia, nessa época já tinha meu
chevrolet, vinha carregado, dos pedidos das mulheres, livros, coisas que ele
gostava.
Finalmente emplaquei com meu primeiro
livro, sem querer era a história de uma coisa que tinha acontecido ali, quem me
contou por telefone foi ele.
Pedi que me mandasse os jornais da cidade
sobre o assunto.
Me coloquei no papel de observador de tudo
que tinha acontecido, escrevi o mesmo, virou filme anos depois, com roteiro
meu.
Ele adorou, o convidei para vir de férias,
mas o tirar da fazenda era difícil.
O melhor que depois que leu o livro, me
telefonou, falou horrores, o deixei falar tudo, analisou tudo que tinha
escrito.
Argumentei com ele, que não ia citar o nome
da cidade, pois saberiam que era uma coisa dali, tinha modificado tudo, nada de
nomes parecidos, era uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar.
A partir desse livro não parei mais, me
consideravam um escritor eclético, pois tanto podia escrever sobre um crime, ou
um romance.
Foi quando soube da morte do Peter, estava
para ir a NYC, ver a estreia de um espetáculo que meu amigo trabalhava.
Fiquei com isso na cabeça, fui conhecer a
família dele, realmente seu garoto era parecido comigo, sua mulher falou muito
dele, como ele falava do seu melhor amigo, li todas as notícias do jornal,
ainda pensei, se fosse um bandido teriam falado mais, mas era um simples
policial, escrevi uma história em cima disso, virou filme também.
O raro que fiquei amigo de sua mulher, ela
trabalhava numa grande loja, um dia me chamou, perguntou se eu ia a NYC, pois
precisava falar comigo.
Peguei um avião fui.
Ela ia se casar de novo, pretendia na
verdade, o problema que o garoto não suportava o homem, a recíproca era
verdadeira, ele estava com dez anos, quando eu aparecia, não saia do meu lado, ia
com ele as livrarias, comprava tudo que ele queria.
Me ofereceu a guarda do mesmo.
Sai com ele, para conversar, nos sentamos
num banco de jardim, perguntei o que ele achava do assunto.
Eu era pequeno, escutava meu pai falar de
ti, soltou na maior, parecia que te amava, se era assim eu confio em ti.
Telefonei para o Gray, contei a história.
Claro que sim, na próxima vez tens que
trazer meu sobrinho.
Acabei o adotando, o levei comigo para Los
Angeles, sua mãe iria viver no Canadá, foi interessante com o tempo deixou de
dar notícias, quando tentei localiza-la soube que o tal homem que tinha se
casado a tinha matado, não havia explicações.
Preparei meu filho para isso, se chamava
como o pai dele Peter, nos sentamos como sempre falamos longamente no assunto.
Me disse que não gostava do sujeito, por
uma coisa, tinha uma maneira de olhar, estranha.
Meu filho, parecia um cabrito quando
chegava a fazenda, saia correndo como um louco, para se juntar aos primos,
adorava estar lá, me perguntou por que não podíamos viver lá.
Quando fez 14 anos, me pediu se podia ficar
ali vivendo com tio Gray.
Mas nós falávamos sempre, era bom aluno,
resolveu estudar veterinária, ali faltava gente para isso.
Foi estudar em Denver, voltou casado, mas
nunca mais saiu de lá.
Saber que seu pai também tinha saído dessa
cidade acho que ajudou.
Um dia tocou no assunto de seu pai comigo,
tinha aprendido com Gray a falar as coisas como eram, se eu o tinha amado.
Talvez tenha sido o mais próximo que tinha
chegado disso, da palavra amor.
Eu as vezes me cansava, agora entendia o
que diziam os atores famosos, os cinco minutos que alguém está ao teu lado.
Querem aparecer, dar uma foda, dizer, fiz
sexo com fulano, depois desaparecer.
Passaram muitos pela minha vida, mas só
dois eu tinha gostado, o Peter, meu amigo que hoje em dia é uma glória da Broadway,
nunca se casou, sempre foi considerado um solteiro raro, na época ninguém se
atrevia a dizer gay.
Uma das vezes que fui até lá, me levou a
uma festa, achei um horror, a maioria eram atores conhecidos, alguns bonitos,
ali pareciam soltar as frangas, mudavam de plumagem.
Estava conversando com ele na varanda, um
ator que eu tinha visto num filme, veio falar comigo se eu não tinha nenhum
texto para teatro, rindo disse para os dois.
Era o mesmo tipo dele, um homem duro.
Acabei nessa noite no seu apartamento, ri
muito, parecia estar em casa.
Eu que tinha ido para ficar uns dias,
fiquei dois meses conversando com ele, escrevi um texto sobre isso, de dois
homens que escapam de uma vida rotineira do interior, sonhando em conquistar o
mundo.
Eles começavam conversando, usavam uma
maquilagem que podia ser jovens ou conforme a roupa que trocavam, ficavam mais
velhos, no final, os dois estão sentados cada um em sua poltrona, numa parte do
palco, com o famoso pijama de listras dos aposentados, reclamando da vida, que
poderiam se estivesse juntos ser alguém, tinha toda uma conotação gay, era a
primeira vez que no teatro se fazia isso, não havia nenhuma cena de romance, na
parte do intervalo, era que saiam de cena de mãos dadas, se fazia um foco em
cima das duas mãos entrelaçadas, no segundo ato, era já cada um num lugar
diferente, reclamando de não terem sabido viver juntos.
Peter meu filho, arrastou o Gray pela
primeira vez a NYC, meu irmão parecia estar na Disney, tudo que conhecia da
cidade, tinha sido através do cinema, que passava na televisão da fazenda.
Ia citando, esse lugar aparece no filme
tal.
Se deu de maravilha com o meu namorado,
virou-se para mim, perguntou se podia dormir uma noite com ele.
Sai com meu filho, os deixei sozinho, no
final me diria, mais um pouco fico na grande maça.
O mais interessante era que ele contava
isso tudo para sua mulher.
Acabei trocando de cidade, vim viver em
NYC, meu filho se encontrou comigo em Los Angeles, veio se revezando comigo no
carro.
Aluguei um apartamento perto de aonde ele
tinha vivido no Brooklyn, segui escrevendo, as vezes para o teatro, ou roteiro
de um filme, não gastava muito dinheiro.
Ele mal me deixou lá, foi embora dizendo
que ali, lhe traziam más lembrança, nunca me falou o que.
Seu casamento não deu certo, tomei um
avião, fui para lá, estava como um pintinho embaixo das assas do Gray.
Conversou muito comigo, se abriu, tinha se
apaixonado por um mexicano que trabalhava na fazenda.
Me soltou que quando contou isso ao Gray,
esse soltou que também gostava de fazer sexo com mexicanos, eram ardentes.
Eu lhe contei que a primeira vez que tinha
visto dois homens fazerem sexo, tinha sido justamente o Gray com um mexicano,
no celeiro.
Isso o pareceu relaxar, se sentia frustrado
por seu casamento não ter dado certo, tampouco ficou com o mexicano, que um
belo dia desapareceu, seguiu levando sua clínica.
Anos depois ficou vivendo com um dos filhos
do Gray, o pequeno, ele tinha oito filhos, foi trabalhar com ele na clínica,
outro que o casamento não tinha dado certo, os dois tinham se criado juntos.
Eu fui guardando dinheiro no banco, para
dar de herança a algum neto que quisesse ir a universidade, tinha pagado todo
seu curso.
O mais interessante, um dia me avisou,
encontrei outro Cyrill, me mandou a foto de um garoto, parecido conosco, a
mesma cara cheia de sardas, cabelos sempre despenteados, o conseguiu adotar, os
dois resolveram se casar, foram os primeiros ali na cidade, assim puderam
adotar o garoto, que alguém tinha deixado para trás.
Pelo menos dizia o Gray, outro Cyrill, para
a família, Junior, era especial, quando me viu, eu senti o mesmo, era como me
ver num espelho, minha mãe ainda era viva, com quase cem anos.
O chamava Cyrill, meu filho, venha aqui ler
uma história para essa velha.
Ainda o pude ver ir à universidade, mas foi
fazer o mesmo que o pai, estudar veterinária, adorava os cavalos.
A família do Gray agora era imensa, netos,
bisnetos, quando todos se encontravam, aquilo parecia um circo, meu irmão me
arrastava para nosso lugar preferido, o riacho, nos sentávamos nas pedras para
ficar conversando.
Lhe preocupava sempre que estivesse
sozinho.
Eu lhe dizia que bem tinha feito ele, ter
uma família, no meu caso era impossível, a culpa de um certo modo era minha,
tinha sempre um pé atrás, se tinha amado alguém inocentemente, tinha sido o
Peter, me lembrava sempre dos momentos dos encontros de NYC, eram intensos,
nunca conseguia chegar a isso com outras pessoas.
Escrevi um livro sobre isso, falando desde
o primeiro momento que nos conhecemos, de nossa aventura juvenil, ele foi
embora com a família antes, cada um para um extremo do país.
Do nosso reencontro em NYC, primeiro nos
saciávamos fisicamente, depois ficávamos conversando.
Inventei essas conversas, pois fazia um
esforço para me lembrar com detalhe de tudo isso, um dia me lembrei dele me
falando do filho, que o tinha feito vamos dizer assim pensando em mim.
Fiquei como um tonto rindo.
Mandei o texto antes para meu filho.
Peter me telefonou em seguida, li de cabo a
rabo, ele me falava muito nesse parte de quando o conheceu, dos sanduiches, em
sua casa nunca tinha comida suficiente, do soco no nariz.
Posso publicar o livro.
Claro, assim poderei dizer ao Cyrill, a
história dos avôs dele.
Quando lancei o livro, vieram os três a
cidade, saímos muito, foi divertido.
Mas claro os dois gostavam da vida lá.
Infelizmente meu neto, morreu jovem, tinha
uns vinte e poucos anos, começou a se sentir mal, corri para lá, fomos a Denver
fazer exames no melhor hospital, ele tinha uma doença degenerativa, que algum
de seus pais podiam ter passado para ele.
Em menos de meses, estava numa cadeira de
rodas, pediu se podia ficar na fazenda que adorava, eu fiquei lá esse tempo
todo.
Foi uma pena, na cabeça do Peter, foi duro,
perdia mais alguém que amava.
No dia do enterro, o vi, alisando o cabelo
dos filhos, sorriu para mim, não temos jeito, sempre vamos ter esses cabelos
assim.
Por sorte seu parceiro esteve ao seu lado,
seguiram em frente.
Quando Gray morreu, ele também sentiu
muito, foi uma das últimas vezes que ia até lá. Morreu sentado na varanda,
reclamando que estava proibido de andar a cavalo.
Nisso um cowboy, caia do cavalo, ele se
matou de rir, a cabeça caiu para frente morreu.
Eu estava de turnê de lançamento de mais um
livro, voei imediatamente a Denver, foi para mim difícil, não conseguia sair de
perto do caixão, esperando que meu irmão se levantasse, falasse, venha vamos ao
riacho conversar.
Depois voltaria para o enterro do meu filho
uns anos depois, um enfarte, fui me sentindo sozinho, infelizmente os netos e
bisnetos do Gray eram da família, mas não tinha muita sintonia com eles, já não
podia conduzir, fui ficando, mas me preparei, separei tudo que tinha, mandei
dinheiro para eles, vendi o meu apartamento, fui para uma casa de pessoas
maiores, aonde vivo hoje em dia, tenho poucas coisas, como essas fotos
descoloridas, agora olho uma das minha, acho que a fizeram no Estudio, com a
cara cheia de sardas, os cabelos como sempre rebeldes.
Acho que esse meu olhar, eu queria desafiar
o mundo, devora-lo, isso eu consegui.
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