QASBA ROCK

 

                                                

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Olhou para aquelas mãos que lhe pareciam estender o mundo, teria que pensar muito a respeito, sabia quem era o fulano, mas aparecer assim no cemitério, no enterro de sua mãe, era quase uma ofensa.

Levantou a cabeça, olhou bem nos olhos do “filho da puta” como o chamava, tirando os cabelos imensos, loiros misturados com brancos, que usava, além do exagero de brincos, colares, eram idênticos.

Sua mãe sempre comentava isso, fez maquinalmente um gesto como dizendo obrigado por ter vindo, como dizia a todos que estavam ali, a maioria na verdade não a conhecia, mas era por ele, o catedrático de línguas da Universidade de Los Angeles.

A anos tinha voltado para lá, por causa dela, já estava doente na época, como em sua cabeça ele devia tudo a ela, concordou em deixar Paris, aonde trabalhava na Sorbonne.

Mandou seu curriculum para San Francisco, Los Angeles, as duas o chamaram em seguida, ele era especialista em línguas, falava várias, inclusive todas as derivações do árabe, aramaico.

A deixou escolher, pois dias antes, tinha lhe contando de aonde tinha saído.

Ele ficou olhando sério para ela, aquela mulher pequena, como o podia ter parido, ele era imenso como o filho da puta.

Ela se lembrava de aonde tinha saído, de um lugar pequeno para cima de Sacramento, a família levava um posto de gasolina, ela sonhava com mais, era a melhor aluna na escola, queria escapar da vida miserável que levava ali.

Como viviam num casebre atrás do posto de gasolina, os garotos eram maldosos, diziam que ela quando muito acabaria como puta, de um desses lugares a beira da estrada.

Tinha só duas amigas, essas eram consideradas as loucas da escola, pois adoravam Rock, se escapavam num velho Volkswagen, da mãe de uma delas, para irem aos concertos que se realizavam em Sacramento, não perdiam nenhum.

Ela ao contrário das duas, sonhava em ir a universidade, mas não davam bolsas de estudos ali aonde viviam, se fosse em uma cidade maior, talvez.

Tinha acabado as aulas, o pai disse que tinha arrumado para ela trabalhar de garçonete, num bar que ficava aberto noite e dia, na estrada.

Só durou um dia nesse trabalho, nesse dia pararam ali, uma banda de Rock que ia tocar em Sacramento, os “Qasba Rock”, foi quando viu o homem pela primeira vez, tinha quase dois metros de altura, muito peludo, com uns cabelos loiros, queimados do sol, além de uns olhos azuis, que pareciam de cristal, usava uma dessas roupas de motociclista.

Estavam todos num ônibus, desses que levam os grupos, tinham parado para comer.

Ela os serviu, quando passou por ele, a olhou, sorriu, lhe perguntou se ia vê-los em Sacramento, lhe deu uns quantos bilhetes da entrada, nunca tinha para quem dar.

Ficou como louca, no dia seguinte falou com as amigas, só lhe faltava uma coisa, dinheiro, uma roupa que pudesse chamar a atenção.

As duas ficaram como loucas, lhe emprestaram alguma coisa de roupas, ela muito esperta, foi até a lata que sua mãe guardava as economias.

Nessa tarde quando estavam todos trabalhando, ela devia ir para o restaurante, se mandaram.

Tinha enfiado o pouco de dinheiro como via sua mãe fazer no soutien, melhor cofre não tem, nunca permita nenhum homem passar a mão, dizia a velha com um sorriso na cara.

Tinha uma bolsa, nesse dia logo de manhã, tinha ido à escola, buscar seus documentos, quem sabe podia escapar, estudar, era essa sua obsessão.

Nessa noite foram assistir o concerto, dizer que gostava, era mentira, fazia isso para se enturmar com as amigas.

Depois do concerto, foram ao backstage, ou melhor dizendo aos bastidores, o homem imenso a reconheceu, eres a garota do restaurante.

Ela apresentou as amigas, as trouxe com os convite que me deste.

As amigas estavam alucinadas, tinham ido a muitos concertos, mas nunca conversado com nenhum músico.

Todas as duas, começaram a tomar cerveja, fumar porros, com os músicos, mas ela não, ele lhe estendeu uma garrafa de cerveja, sorriu agradeceu, não gosto de bebida, já sabia o que ela fazia as pessoas, estava cansada, desde garota ver o pai, todo o dia com uma nas mãos, por isso nunca saiam dessa merda.

Lhe passou um porro, ela o fez para experimentar, mas ficou enjoada, disse que isso não era a sua.

Ele deve ter pensado, esbarrei com uma menina de igreja.

Quando falou isso, ela riu, nem passo pela frente, odeio tudo que representam.

O que o impressionava, era que não era como as outras, que eram capazes de se atirarem ao chão, para os cantores de rock passarem por cima.

Ela o olhava de frente, de uma certa maneira era fácil, pois estava sentado, ela não tinham nem 1,70 metros de altura, mas tinha uma cara linda, um corpo bonito também.

Ela viu bem que as amigas, estavam como loucas, dando beijos, deixando que os rapazes, passassem as mãos pelos seus peitos.

Quando ele tentou, ela gentilmente tirou aquelas duas mãos imensas de cima dela.

Conversava com ele, que aonde iam agora.

Finalmente vamos para casa, Los Angeles, estamos a meses na estrada, estou louco para chegar ao meu canto, embora não seja maravilhoso, é meu.

Sem querer se viu contando para ela, que enquanto os outros, gastavam o que ganhavam, ele guardava, vim da merda, quero ser alguém, nada de gastar dinheiro em besteiras.

Soltou na maior, que fumava porros, porque os outros compravam, as cervejas era igual, eu não gasto dinheiro nisso.   Quando não estou com eles dando concertos, estou arrumando motos numa oficina, embaixo do meu apartamento.

Ele a achou uma romântica, mas só lhe permitiu uns quantos beijos, talvez por isso, pela maneira como ela se comportava, ele se interessou por ela.

Tirou do porta-malas uma moto, disse que agora ia para casa, lhe ofereceu um capacete, além de um casaco de couro para a estrada, quando viu estava sentada atrás dele, na moto, rumo a Los Angeles.

Ele vivia num edifício pequeno, perto de Venice Beach, no dia seguinte a levou para tomar um banho de mar, teve que comprar um maio, pois não tinha.

Foi honesta com ele, tenho pouco dinheiro, mas vou conseguir um emprego rapidamente, pois quero ir à universidade.

Ele a olhou espantado, pois normalmente as garotas que iam aos concertos, não queriam nada, apenas se encostar em um que poderia um dia ser famoso.

Ela quando lhe perguntou seu nome, ele respondeu Sexton Smith, pois quando era pequeno, era pele e osso, meu pai dizia que eu acabaria como coveiro.

Foram para cama nessa noite, pois na anterior estava cansado da viagem.

Ela lhe disse rapidamente para ir com calma, pois era virgem.

Ele ficou louco por ela, aquele corpo, além de não ser tonta como as outras que ele ia conhecendo, essas quando viam aonde ele morava, que não era nenhuma mansão de famoso, davam no pé.

Ela ao contrário, a primeira coisa que tinha feito de manhã, foi limpar a cozinha, que tinha louças de antes de saírem de turnê.

Ele desceu para abrir a oficina, ela se virou com o que tinha ali para fazer comida.

No almoço, lhe perguntou como fazia para ir à universidade, queria ver quais as possibilidades que tinha.

Ficou olhando para ela, muito sério lhe perguntou se era isso que queria, estudar.

Foi honesto de dizer que tinha estudado do suficiente para escrever algumas letras, que gostava da guitarra de toda vida, mas tampouco sabia escrever música numa pauta.

Pois devias aprender, senão os outros um dia levaram a gloria por ti.

A maneira como ela falava, era impressionante, pois era séria, sorria pouco, não fazia como as outras que ficava as gargalhadas, histéricas.

Ou quando iam para a cama, ficavam falando sem parar.

O deles foi um descobrimento, lento, normalmente ele penetrava, gozava virava para o lado, dormia.   Mas com ela foi diferente, só fez uma coisa, tomou cuidado, usou camisinha.

No dia seguinte, a levou até a universidade, a acompanhou de longe, quando foi tirar informação na secretária.

Ficou impressionado com sua postura, pois esclareceu que não tinha dinheiro para pagar matricular, mas posso conseguir um emprego, posso limpar os corredores, ou fazer qualquer outro serviço.

A senhora a ficou olhando, lhe perguntou afinal o que queria estudar, ele quase soltou uma gargalhada, quando lhe respondeu que literatura, sua grande paixão.

Ela foi chamar um senhor, um homem de seus cinquenta anos, com os cabelos grandes mal cuidado, mal vestido também, ele olhou as notas, dela, ficou impressionado mais uma vez, pois ele começou a fazer perguntas, ela respondia sério.

Falou com ela de escritores antigos, de repente mudou o disco, começou a falar da geração maldita, que ele adorava, quase soltou uma gargalhada.

A resposta dela, foi original.   “O senhor acha que numa cidadezinha do interior, alguém sabe quem são esses escritores, que as velhas que levam a biblioteca, vão encomendar os mesmo?”

Li Jack Kerouac, porque uma amiga comprou o livro em Sacramento, mas não entendeu nada.

Eu acho que ele faz parte da geração que incentivou os Rockeiros, os novos novelistas a escrever.  Estava em busca de si mesmo, como estão todos creio de nossa geração.

O professor riu, gosto do teu jeito, não eres como esse pomposos filhos de papai, que não entendem merda nenhuma do que digo.

Chamou a secretária, disse que ainda tinha uma bolsa de estudos, comentou que eram de uma fundação, mas quem as concedia era ele.

Anos depois ela descobriria que a tal fundação, era em nome da mãe do professor, uma mulher multimilionária.

Terás direito a um apartamento, bem como um valor por mês para se manter, mas nada de drogas, bebidas, pois posso cancelar tudo de uma hora para outra.

Ele quase soltou uma gargalhada, a pirralha, tinha conseguido uma bolsa de estudos, na maior.

Tinha cara, coragem, o que lhe cativava era que sabia falar.

Ainda ficou até começarem as aulas no pequeno apartamento dele, no dia que foi para a universidade, ele sentiu um vazio lá, pois ela tinha colocado tudo em ordem.

Mas justo em seguida, saiu uma turnê, para o outro lado do pais, iriam começar em Miami, acabariam em NYC, essa era a promessa do homem que os contratou.

Foi levar as poucas coisas que ela tinha a universidade.

Mal sabia que ficaria mais ou menos dois anos fora, durante esse tempo, nunca a tinha chamado, ou escrito, sabia seu endereço, mas para ele isso, era complicado, já basta a dificuldade de ter que escrever uma letra de música, entendeu o que ela dizia, pois não sabia passar para uma pauta.

Aprendeu um NYC, quando a gravadora lhe sugeriu que aprendesse.

Foi a universidade, de longe a viu, com um garoto, pendurado nos quadris, indo as aulas.

Na hora não entendeu, quando se aproximou, ela riu, soltou, finalmente apareceste.

Olhou para o garoto, soltou, esse é teu pai.

O menino olhava para ele com curiosidade.

Ficou parado como uma estátua, em seus planos nunca tinha pensado em ter filhos, odiava crianças, tinha saído de uma família monstruosa, que todos viviam com fome.

Um pai, que vivia bêbado, fazendo filhos em todas as mulheres da redondeza.

Ela entendeu, não se preocupe, já o registrei, ele vai se chamar John Thomas Slot, só levara meu nome, me desculpe estou atrasada para as aulas.

Descobriria que ela tinha conseguido o apoio do professor, que tinha lhe dado a bolsa, quando descobriu que estava gravida, foi falar com ele, achava honesto lhe dizer que tinha fudido com sua bolsa.

Não bebia, nem fumava porros, tampouco ia de farras como as outras, que queriam era arrumar um namorado.

Ele a considerava sua melhor aluna, pois absorvia tudo que lhe ensinava.

Lhe contou o que tinha acontecido, não considerou que era uma idiota, nem posso lhe dizer que me apaixonei por um cantor de rock, apenas, conheci um homem diferente, nunca tive namorados, queria saber como era fazer sexo com ele.

O professor a ajudou, inclusive, a levou para viver, em cima da garagem da sua casa, que ele vivia, descobriria depois que o mesmo era gay.

Anos depois, eles se casariam, ele seria meu pai, para ninguém botar defeito, infelizmente morreu cedo.

Ela acabou a universidade, com a melhor nota da turma toda, em seguida começou a fazer uma pós-graduação, me deixava numa creche, para passar o tempo que ela estivesse nas aulas.

O professor, Gerald Shein, foi quem me ensinou as letras, com esses cubos, as vezes ela tinha que estudar, ele se aborrecia de algumas coisas da vida acadêmica.

Fui o primeiro na creche em aprender a ler e escrever corretamente, ele, tampouco ela, faziam como as outras mães, deixar os filhos sentados na frente de uma televisão.

Ele não tinha, em casa tampouco, ela porque não tinha tempo para ver, ele porque não gostava.

Contava para ela todos os romances que se frustravam, se apaixonava por homens que nunca o entenderam, apesar de ser um doutor em sua área, ele era uma pessoa simples.

Me levava com ele a sinagoga, pois era judeu, mas gostava de ir na hora que não tinha ninguém se sentava comigo, tinha na época uns 8 anos, me dizia, escute o silêncio, vamos falar com deus.

Acabou me adotando, passei a me chamar John Thomas Slot Shein.

Quando ele ficou doente, contraiu a sida de um namorado que teve nessa época, um homem lindo, que ele não sabia era viciado.

Quando descobriu fez uma coisa, se sentou conosco, eu já tinha uns quinze anos, temos que pensar no futuro do nosso filho, se propôs se casar com ela, assim resolvia o problema de meu futuro, do dela, teríamos uma casa para viver, bem como uma certa quantidade de dinheiro.

Ela a princípio negou, não queria se aproveitar, já nos ajudaste muito.

Ele foi claro, sois a única família que tenho, por favor.

Acabou aceitando, foi uma coisa simples, no civil, bem como uma pequena cerimônia com um rabino que ele conhecia, que tinha feito todos os procedimentos comigo, desde uma circuncisão, um pouco tarde, mas fez.

Ele foi ficando pior, tinha épocas excelentes, ela era uma das professoras adjuntas, todos sabiam que estava doente, mas pensavam que era alguma coisa degenerativa.

Passamos a viver na casa dele, aonde me permitiu, usar sua biblioteca, ela será sua um dia.

Eu na verdade, tinha a imagem da minha figura paterna, embora soubesse que ele não era meu pai natural.

Sabia, quem era, pois ela nunca me escondeu, me mostrou uma vez um cartaz de um grupo de rock, eles tinham deixado de ser um grupo que abrem concertos para famosos, para ser um grupo famoso.

Pior, eu nunca gostei das músicas dele, fui inclusive escutar, mas estava acostumado com meu pai Gerard, a escutar música clássica, ele tinha preferência por músicos judeus.

O mais interessante, adorava Wagner, um dia me explicou que os nazista tinha usado a música do próprio, para dizer que o mesmo era pró-nazi.

Mentira, ele já estava morto, tudo manipulação.

Quando estava deprimido pela doença, me pedia para me sentar ali com ele, escutando suas músicas preferidas, começávamos a conversar sobre o futuro.

O que eu pensava em estudar, eu já tinha aprendido a falar hebreu com ele, tinha aulas de francês com um professor originário da Bretanha, bem como falava espanhol, por culpa de uma senhora que cuidava da casa.

Descobrimos depois da sua morte, que ele tinha deixado para a fundação em nome de sua mãe, uma imensa mansão, o dinheiro da fundação, ele nunca tocou.

Nos deixou sim, foi o que realmente era dele.

Seu enterro foi impressionante, afinal acabaram sabendo que morria de AIDS, mas ninguém falava no assunto.   Ali estavam seus melhores alunos, professores, reitores da universidade, muita gente que tinha desfrutado de suas bolsas de estudos.

Um professor adjunto mais antigo, assumiu seu lugar, pior não gostava da minha mãe, como ela dizia, é como se eu o tivesse contagiado de AIDS, mas como explicar que nunca fizemos sexo.

Nisso lhe saiu um convite para ir para San Francisco, sentou-se comigo, aqui não vão deixar que eu vá em frente.

Eu de certa maneira, vivia chateado, pois tudo me lembrava ele pela casa.

Ela resolveu ser prática, fechou a casa, um advogado, se encarregaria dela, se amanhã ou depois resolvesse vender, já se veria.

Arrumou um pequeno apartamento perto da universidade, tudo muito simples, lembrava do apartamento em cima da garagem.

Foi quando entrei para a universidade, tinha as melhores notas, apesar de ter dinheiro para isso, ganhei uma bolsa de estudos, me joguei completamente nos estudos.

Procurava lugares aonde usar a línguas que aprendia.

Ela foi subindo, tampouco parou de estudar, fez uma pós-graduação numa boa universidade em NYC, esse tempo fiquei sozinho, mas tinha dois dias da semana que nós falávamos por telefone.

Mas como dizer a ela, que eu sentia falta daquele homem que me tinha criado, se fosse usar a palavra amor, que se usa tão facilmente, creio que foi o único homem que amei na minha vida.

Ela quando voltou, foi ser chefa de departamento.

Ria muito, um dia me contou que tinha encontrado uma das amigas que tinham como ela fugido da cidade de aonde tinha saído.

Imagine, ela se casou com um contabilista, leva a vida que teria levado lá, cuidando de casa, crianças, um marido que chega cansado em casa.

Ficou deslumbrada que tivesse um filho, do homem com que fugi, mas tinha me casado com um grande professor, que tinha um doutoramento, que era alguém na universidade.

Um dia a conheci, não passava de uma dona de casa, apareceu no nosso apartamento, examinou cada centímetro do mesmo, por aonde ela olhava estava cheio de livros.

Me disse que eu era realmente a cara do Sexton.

Eu sim sabia que era, por isso usava sempre cabelos bem curtos, quase um corte militar, minha maneira de vestir era a mais parecida ao Gerard.

Acabei a universidade, fiz meu primeiro doutoramento.

Numas férias no meio disso, fomos os dois a Paris, sonho que eu tinha, ela de certa maneira, estava farta de me escutar a falar da Sorbonne, como se fosse uma catedral do saber.

Fomos os dois andar por lá, ela se identificou, os dois falávamos francês, foi fácil, logo colocaram um homem para nos mostrar tudo.

Se interessaram pelo meu curriculum, me falaram de uma outra bolsa para fazer um doutoramento em línguas, árabes, farsi, fiquei como um louco, era meu sonho, ali, pelo menos os professores, seriam originários desses lugares.

Acabaram oferecendo a ela, um cargo na universidade, para ela trabalhar em literatura americana.

Tínhamos que resolver o problema da casa de Los Angeles.

Fomos até lá quando voltamos, o advogado nos falou de um catedrático que estava interessado, mas inicialmente só podia alugar, não tinha o valor da mesma.

Então os dois resolvemos alugar, assim ele mantinha a casa.

Ela conseguiu uma licença sem remuneração da universidade, se voltasse, teria que ser de novo por baixo, mas ficaram interessados, queriam que aprendesse como funcionava a de lá.

Ela ria muito, me soltou, será que eu nunca vou parar em lugar nenhum, fugi de casa porque não queria monotonia, pelo visto será assim sempre.

Nos ajudaram a conseguir um apartamento, até que era muito maior do que aonde vivíamos, era perto do Jardim de Plantes, num edifício antigo, o último andar, era perfeito para os dois.

Podia ir andando, ou mesmo de metro, uma só estação, de ônibus duas paradas.

Logo estava mergulhado nos meus estudos, tinha namorados, mas nunca passava de um final de semana, quando me viam mergulhado no que estudava, desistiam.

Tinha visto, como Gerard sofria com os namorados que não davam certo, ele tinha sonhado sempre em ter alguém em sua vida, eu ao contrário, pensava que seria como uma prisão, talvez influenciado por minha mãe.

Achava que o Sexton, esperava que ela ficasse cuidando da casa dele.

Fui conhecendo o mundo, estive estudando em Teerã, na universidade, lá era o único lugar que eu poderia aprender Farsi mais puro.  Depois estive um tempo em Istambul, na universidade também. Sempre conseguia bolsas de estudos, guardava o máximo, para quando não conseguia.

Quando voltei para Paris, logo tinha trabalho na própria Sorbonne, era professor adjunto, logo era catedrático dessas línguas estranhas.

Os anos foram passando, tive amores, desamores, sem querer comparava esses homens que foram passando com o Gerard, inclusive um que era psicólogo, me soltou em plena cara, que eu parecia estar procurando alguém, nos namorados que tinha.

Não procurava uma pessoa que fosse fisicamente semelhante a ele, mas sim tivesse a cabeça brilhante que ele tinha.

Minha mãe um dia, me disse, desça do cavalo, Gerard adorava homens brutos, gente normal até sem estudos nenhum, que fosse diferente dele, nunca se mostrava, como eu sei mais do que você, ou coisa parecida, as aceitava como eram.

Veja teu pai verdadeiro, toca guitarra, nem sabia escrever uma partitura, era a pessoa mais simples nesse ponto, gostava de consertar motos, era o que ele sabia fazer.

Desci do meu pedestal como ela falava, comecei a conhecer gente de todo os dias.

Mas sem querer conheci um rapaz, que tinha vindo fazer pós-graduação, era do Marrocos, fui com ele para lá várias vezes, me sentia em casa, sua família vivia no Zocco de Casablanca, era o único filho que tinha ido à universidade.

Quando voltou para lá, pois não conseguiu nada para ficar.

Senti sua falta, ia vê-lo nas férias, ele se matava de rir comigo, esse americano.

Falava muito na América, creio que conheceu um turista ou homem rico, foi embora para lá com ele, me escreveu uma larga carta, que entre nós sempre seria como estávamos, um romance de férias.

Eu não tinha tido coragem de me jogar nas redes como dizia minha mãe.

Ela durante anos, teve um romance com um professor que ensinava literatura árabe, gostava do sujeito, ela se matava de rir, pois quando o encontrava, falávamos os dois em árabe sem parar.

Era a pessoa mais normal e corrente do mundo, adorava coisas simples, eles faziam uns programas simples possível, nas férias ele gostava de ir a Argélia, aonde estava sua família, o mais raro é que lá tinha uma mulher, uma filha, seu pai só lhe deu dinheiro para ir para Paris estudar, depois que se casou, muito jovem.

Era mais amigo dessa mulher do que marido, minha mãe ficou amiga dela também.

Quando minha mãe ficou doente, a coisa complicou, tinha uma doença degenerativa, foi quando me pediu, quero voltar para casa.

Estávamos os dois com sonhos realizados, a casa seguia lá, avisamos o professor que vivia na casa, ele disse que se aposentava, ia viver na praia.

O duro, foi preparar tudo, a puta biblioteca era imensa.  Levei semanas separando livros, o que não queria levei para o departamento que trabalhava, assim não ficariam abandonados.

O mais interessante, foi que justamente nessa época conheci o sujeito que ia ficar no meu lugar, me apaixonei por ele como um adolescente, mas ele era casado, com filhos.

Na cama era todo uma senhorita, me desiludi completamente, menos mal que ia embora.

O duro, ela já não poderia trabalhar mais, consegui montar um quarto no andar de baixo, como tínhamos feito com o Gerard, uma senhora passava o dia com ela, eu ficava de noite.

Um dia me disse que tinha visto meu pai na televisão, ainda esta o mesmo, agora é como se fosse o decano dos rockeiros, ainda toca sua guitarra, faz shows com vários grupos, mas o que tinha já não existe mais.

Eu conheci um rapaz, na hora não me toquei, se chamava Rock Smith, ia ser meu aluno, todo mundo falava que se parecia muito comigo, usava uns cabelos imensos.

Vinha sempre falar comigo, estudava literatura também, queria ser escritor.

Um dia me perguntou se eu gostava de rock?

Disse rindo que não, na verdade odiava, é muito barulho para mim, gosto muito do silencio.

Me soltou, tenho inveja de ti, pois em casa tenho que aguentar isso, um pai que ama esse tipo de música, uma mãe louca, que toca guitarra todo o tempo que pode, a comida e a casa é uma merda.

Quando foi me procurar em casa, minha mãe ficou conversando com ele, enquanto eu buscava o livro que ele tinha ido buscar.

Me disse na hora que sai, essa casa é um paraíso.

Quando me sentei com minha mãe, ela ria, sabe de quem esse rapaz é filho?

Menor ideia, sei que se chama Rock Smith.

Ela riu, que maldade dar esse nome a uma pessoa.

Ele é filho do teu pai Sexton Smith.

Semanas depois ela morreu, acho que ele viu um cartaz na universidade, por isso tinha ido com o pai ao enterro.

Fizeram ali mesmo uma reunião, eu estava louco para ir para casa.

Estava escapando de fininho, quando dei de cara com o Rock.

Riu, estás escapando para o paraíso?

Sim essa quantidade de gente falando me cansa, quero pensar um pouco, como vai ser minha vida.

Nisso Sexton saiu atrás do filho, nos viu falando, disse ao Rock, esse homem é teu irmão.

Por isso somos parecidos, verdade.

Eu ia pegar um taxi para ir para casa, mas me levaram num Rover.

Posso vir te visitar, perguntou o Sexton?

Me dê uns dias, necessito colocar a casa em ordem, bem com minha cabeça.

O mais interessante, era não podia dizer que sentia alguma coisa, talvez a sensação da morte da pessoa que era minha melhor amiga, companheira desses tempos todos, minha mãe, teria muita coisa para analisar.

Rapidamente, me desfiz da cama de hospital, voltei a transformar o seu quarto como era antes, uma sala para se conversar, nunca se usava a biblioteca para isso.

Tinha tirado uns dias da universidade, para aclarar minhas ideias.

Estava um dia ali jogado, pensando, se quisesse poderia ir pelo mundo, era essa a verdade.

Dias atrás tinha conversado com o advogado, eu nunca tinha usado todo o dinheiro que meu pai Gerard me deixou, ganhava um belo salário, em Paris, ela também, inclusive me deixou dinheiro que tinha economizado também.

Se alguém falasse como ela dizia rindo, quando digo que vivia em Paris, pensam que vivia no glamour, se vestia bem isso sim, tinha descoberto com outras professoras, como se vestir a maneira francesa sem gastar muito dinheiro.

Podia voltar para lá, sabia que quem tinha ficado no meu lugar, não tinha dado certo.

Estava assim com a cabeça, apoiada nas duas mãos, como ficava quando ia a sinagoga.

Quando vi uma pessoa pela janela, era o Sexton.

O fiz entrar, perguntou se eu tinha dor de cabeça, lhe disse que essa posição tinha aprendido com o Gerard, ao ir com ele a sinagoga.

Eres judeu?

Por causa dele sim, quando me adotou, eu sempre ia com ele a sinagoga, fiz todos os preceitos, foi o melhor pai do mundo.

Que sorte tiveste, pois comigo, terias tido o pior, sinto por meu filho Rock, algumas vezes sei que falho com ele, pois em casa é sempre uma confusão.

Sua mãe é muito mais jovem do que eu, toca num grupo de rock de mulheres, as vezes desaparece, ficar comigo tampouco é cômodo, pois estou sempre metido na minha oficina.

Tu saíste a tua mãe, sem querer começou a me contar como a tinha conhecido, que por causa dela tinha aprendido a escrever direito, colocar numa pauta, para os outros músicos, tinha razão, tinha que estudar.

Ela ao contrário, só pensava nisso.

O fez até basicamente morrer, já aqui, alguns professores a vinham consultar a respeito de alguma coisa de literatura francesa, árabe, que ela se tornou uma sumidade.

Sem querer vi que falar com ele, era fácil, como ela dizia, ele era muito pé no chão.

A mãe do Rock, imaginou que ao vir para cá, ia viver numa mansão, mas eu odeio tudo isso.

O grupo que tocava acabou por isso, tínhamos dinheiro, gastavam em carros do ano, drogas, sexo, bebidas, eu era o único que escapava disso.

Eu saí da merda, não ia perder meu tempo, voltando para a mesma.

Pois todos acabaram muito mal, hoje em dia quando me chamam, toco, senão, tudo bem, tenho minha oficina.

Gostas de fazer surf?

Nunca fiz isso na minha vida, passei a vida estudando.

Como ela, verdade, um dia depois que descobrir que estava aqui de novo, Rock me trouxe, passei a tarde conversando com ela, se preocupava com isso, que estavas sempre metido num livro, não tinhas tempo para conhecer ninguém direito.

Agora tenho uma oficina melhor, meu luxo, em cima um bom apartamento, nada a ver como o que tinha quando a conheci, mas isso de mansão, nem pensar.

A mãe do Rock, sai agora de turnê, ficara fora pelo menos seis meses, foi o que aconteceu, tua mãe entrou para a universidade, eu fui fazer uma turnê, que seria meses, indo de Miami a NYC, demorei dois anos para voltar, já tinhas nascido, quando te olhei, me lembrei de como estava sempre minha mãe, com um bebê na cintura, trabalhando como uma escrava, parecia parir um por ano.

Fiquei sem ação, não sabia o que fazer, quando tomei coragem, ela vivia com o Gerard, pensei que tinham alguma coisa, vim algumas vezes te olhar, ele sem querer era para ti o pai que eu gostaria de ter tido, mas não sabia se seria capaz de ser.

Por isso, fui de novo pelo mundo.

Me vi falando para ele, como era o Gerard, o que tinha significado para mim.

No final de semana, Rock veio me buscar, ele arrumou uma mulher para arrumar a casa, diz que agora entende o que eu falo do silencio.

Já não escuta tão alto suas músicas.

Passamos um final de semana fantástico, me ensinaram a fazer surf, ele ainda tomava sua cerveja, mas descobri que Rock tinha horror, minha mãe bebe demais.

Agora vinha sempre estudar lá em casa, escutei um rumor na universidade, que eu estava saindo com um aluno, puxei a maior fofoqueira de lá, contei que tinha encontrado meu pai verdadeiro, que Rock era meu irmão pequeno.

Deixei pela primeira vez em anos, meus cabelos crescerem, quando nos viram juntos, erámos muito parecidos, deixaram de falar.

Contei para ele, como tinha adorado estar em Casablanca, quando tinha meu namorado lá.

Nas férias o convidei para ir comigo, até Sexton se apontou, fomos os três, alugamos um motorhome, fomos descendo pela costa, com pranchas de surf, em Casablanca, procurei por sua família, me informaram que todos viviam na América.

Foi uma viagem fantástica, quem mais se relaxou foi o Sexton, adorava conversar com as pessoas.

Aqui não sabem quem eu sou, ninguém me enche o saco.

Nas férias seguinte, fui com meu irmão para Paris, ficou como um louco com a Sorbonne, parecia que o tinha levado a Disney.

O ajudei a estudar tudo que podia, assim ele podia ir com uma bolsa.

Sexton um dia apareceu lá em casa, estava muito sério, eu não via o Rock a dias.

Me disse que o que ele temia aconteceu, quando sua mãe estava gravida, usava drogas escondida de mim, ele tem um problema, pode passar anos sem acontecer alguma coisa, mas agora como estuda como um louco, começaram a aparecer, esta estudando, de repente para com o lápis no ar, fica sem se mexer algum tempo.

Os médicos dizem que não tem remédio nenhum para isso.

Quando falei com ela a respeito, disse que não pode vir por que agora está fazendo sucesso.

Nunca foi uma mãe perfeita, mas tampouco posso ficar acusando.

Passei a ajudar o Rock, mas a coisa foi piorando, ele podia de repente parar, ficar uns vinte minutos fora do ar, o rapaz que eu tinha conhecido cheio de vida, foi desaparecendo.

As vezes me olhava como procurando alguma coisa para me dizer, fazia sim uma coisa, me abraçava, chorava nos meus ombros.

Um dia não despertou, o médico disse que tinha sido o melhor, pois iria cada vez a pior.

Sua mãe tampouco veio ao enterro.

Eles não era casados.

Meu pai Sexton, ficou meio perdido, um dia me soltou, vamos para o Marrocos, fui muito feliz lá.

Esperamos as férias mais largas, fomos os dois, mas desta vez fizemos uma coisa, fomos por Marrakesh, dali alugamos um furgão, fomos para Esauíra, o lugar que ele tinha gostado muito.

Um dia estava na praia, sentado conversando com ele, os dois agora éramos mais parecidos, pois eu tinha os cabelos imensos como ele.

Escutei uma pessoa me chamando pelo meu nome.

Era meu antigo namorado, me abraçou muito, soube que me procuraste em Casablanca.

Me contou que tinha levado seus pais para a América, mas nunca fui feliz lá.

Sem querer tinham me empurrado para o americano, pensava que assim arrumavam minha vida, fui como uma puta.

Agora voltei para cá, vivo aqui na cidade, dou aulas numa escola, de inglês, do que faça falta.

Me levou com o Sexton para conhecer seu Riad.

Era muito simples.

Sexton disse que ele me olhava de maneira diferente, lhe contei o que tinha acontecido conosco.

Tente recuperar.

Foram umas férias maravilhosas, o mais interessante, Sexton tinha conseguido através de Ibrahim, um Riad para alugar, resolveu ficar um bom tempo, tenho dinheiro, vou usufruir isso aqui.

Voltei, para Los Angeles, mas não tirava Ibrahim da cabeça, vou perder esse homem outra vez.

Fui conversar com o meu advogado, tinha dinheiro suficiente para viver por muitos anos.

Telefonei para ele, perguntando se podia me hospedar, riu muito disse que me esperava de braços abertos.

Tirei uma licença da universidade, como tinha feito minha mãe, avisei aos dois quando chegava, em Marrakech, foram me buscar, quando me abraçaram ao mesmo tempo, soube que tinha chegado finalmente em casa.

Me matei de rir com o Sexton, estava aprendendo a tocar o alaúde, gostava de música árabe.

Ensinamos o Ibrahim a fazer surf, fomos levando a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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