UNEXPECTED

 

                                              UNEXPECTED

Imagen que contiene Forma

Descripción generada automáticamente

 

Estava outra vez com a imagem que tinha as vezes em pesadelos, num túnel com muita luz, mas não encontrava a saída, nem para trás, tampouco para frente, caminhava sem parar, até que se despertava.

Odiava esse pesadelo, pois parecia sempre que o tinha o dia seria uma merda total.

Tinha sonhado isso, no dia que sua mãe tinha morrido, na época tinha quase 16 anos, viviam os dois sozinhos, seu pai nunca estava presente, descobriria depois muitas coisas não muito agradáveis a respeito dele.

Dois dias antes os escutou discutindo, ela dizendo a ele que tinha que parar com o que estava fazendo, ia prejudicar muita gente.  Ele ao mesmo tempo, lhe pedia dinheiro emprestado, que ela negou.

Tudo que sabia, era que administrava os bens de seu avô, um homem fechado em si mesmo, já com muita idade, quando iam ao seu apartamento, o mesmo nunca tinha sequer um sorriso para ele, simplesmente o examinava da cabeça aos pés, como dizendo quem é esse.

O mais interessante com os anos, ficaria mais parecido com ele que com seu pai, o mesmo nariz de águia como dizia sua mãe, pois o mesmo era judeu.

Ela era a filha que restava, seus dois irmãos, morreram muito cedo, por isso ela teve desde sempre atender as vontades dele.   Um morreu para a gloria dos Estados Unidos, o outro morreu numa das muitas guerras de Israel, dois idiotas dizia seu avô.

Ela foi obrigada a estudar administração de empresas, para cuidar de tudo, meu avô foi contra seu casamento, só concordou com uma exigência, que fosse com separação de bens, segundo ele tinha razão.

Tinha na memória, que ela estava na sala de jantar, que usava as vezes para trabalhar de manhã, antes de ir para o escritório, depois passaria pela casa do velho, para conversar sobre negócios com ele, por isso nunca o levava.

No fundo ele gostava, pois aguentar a cara do velho o examinando, lhe fazia perguntas diretas, como ia na escola, suas notas, se ele gostava de matemática.

Ele que não gostava de perguntas, ficava olhando os olhos do velho, sua mãe ao contrário, talvez por estar acostumada a dar conta de tudo para ele, respondia.

As melhores notas são dele, dentro em breve poderá a ir à universidade.

Quando perguntava o que iria estudar, as vezes tinha pensamentos maus, um dia respondeu que tinha pensado em ser bailarino, ou talvez stripper.

A cara do velho, esboçou um esgar mau, como se tivesse ânsia de vomito.

Só disse, nem se atreva.

Nesse dia viu pela primeira vez, sua mãe soltar uma gargalhada na frente do pai, ele adorava isso dela, as gargalhadas.

Ainda soltou, acho melhor stripper.

Ao contrário do pai, que era um tipo bonitão, ele tinha saído a família de sua mãe, tinha visto as fotos dos tios mortos, era parecido com eles.  Moreno, com seu nariz peculiar, cabelos crespos, negros também, bem como os olhos do seu avô, a mulher que cuidava da casa, diziam que eram de um negro ameaçador, pois estavam sempre brilhantes, soltava que pareciam de um gato negro no escuro.

Nesse dia, levantou de mal humor, por um acaso não tinha aulas, tinha que estudar para os exames de final de ano letivo, embora tivesse as melhores notas, se tivesse as mais altas poderia ir a qualquer universidade.

A senhora chegou para trabalhar, vinha com mais café para minha mãe, além dos jornais que trazia da rua, fez uma coisa, que depois fui olhar, colocou os mesmo em cima da mesa, apontou para uma foto.

Minha mãe foi lendo, foi ao mesmo tempo abrindo a boca, como se fosse soltar um grito, caiu para frente, tinha tido um enfarte massivo, descobriu depois.

Quando olhei a foto, era meu pai no final do dia anterior, saído do seu escritório, algemado.

Como em casa não víamos televisão, minha mãe achava perder tempo isso.

A empregada, chamou imediatamente a casa de meu avô, que pelo visto estava tentando falar com minha mãe, quando apareceu, vinha acompanhado do advogado dela.

Nos últimos dois anos, meu pai, não vivia em casa, tinha um apartamento, aonde ele ficava, só aparecia para falar com ela, as vezes era tranquilo, os dois sentados na biblioteca, ela sempre atrás da mesa, ele sentado na frente, as vezes tinha cara que não gostava da situação.

O advogado começou a tomar medidas urgentes, como o escutei dizendo, os dois sabiam que tinha problemas de coração, mas ao ler essa notícia, isso devia ter acabado com ela.

Fui como quem não quer nada, apesar de aturdido, ler a tal notícia.

Dizia que ele tinha feito uma estafa piramidal, teria que descobrir o que era isso, lesado muita gente, se falava em milhões, mas ninguém sabia aonde estava esse dinheiro, ele se negava a falar do assunto.

Meu avô deu ordem, depois que vieram um médico para fazer o atestado de óbito, veio a funerária, ele mandou a mulher escolher uma roupa negra, uma cor que minha mãe odiava, ela disse que não tinha nenhum, trouxe um traje que ela usava muito, azul celeste, ele disse que isso estava bom.

Mandou arrumar em seguida uma maleta com minhas coisas, que eu levasse minha mochila.

Saiu basicamente me arrastando, falando entre os dentes, mal de meu pai, eu bem que avisei que esse sujeito não era de confiança.

Ninguém sabia de aonde meu pai tinha saído, vim descobrir depois, os dois tinham se conhecido na universidade, pelas fotos ele tinha uma pinta impressionante, parecia um galã de cinema.

Como dizia um amigo, que como eu, não se parecia ao seu pai, éramos o que seria considerado feios, principalmente na adolescência os dois cheios de acnes.

Meu pai olhava minha cara as vezes com nojo, a dele eram lisas.

Os dois dias seguintes foram confusos, o apartamento de meu avô perto do Museu Metropolitano, era grande, foi como se me tivesse isolado de tudo.

Ele mesmo me levou para fazer as provas finais, não sei como conseguiu, eu as fiz antes dos meus colegas, num dia que a escola estava vazia.

Mesmo assim senti que meus professores me olhavam feio.

Sei que o vi conversando com o diretor, esse a princípio não concordava com o que ele queria, mas depois aceitou, trocavam meu nome, eu passava a usar seu sobrenome, Klein.

Trocou para Marshall White Klein, o “White” era de meu pai, ele sugeriu que eu usasse Klein somente.

Me fez sentar na biblioteca com ele, muito sério me explicou a situação, mesmo falando no acordo do casamento dos dois.  Tudo era separado, mesmo o apartamento era dela, ali ele só tinha sua roupa.   Sabia que basicamente não vivia lá.

No dia seguinte nos jornais, falavam da mulher que vivia com ele, uma divorciada, com muito dinheiro, que com isso tinha perdido tudo, pois tinha confiado nele a gestão de seu patrimônio.

O juiz, apesar dele ter pedido, não permitiu que ele fosse ao velório de minha mãe, tampouco ao cemitério.

Foi tudo pelo rito judaico, no dia anterior veio um rabino, que me ensinou a rezar o Kadish, já que eu nunca ia a sinagoga, como ela.

Achei estranho, para ser uma mulher que conhecia muita gente da sociedade, ali só estavam duas amigas, que sabia que eram da época da universidade, que me olharam com cara de pena.

Depois algumas pessoas que trabalhavam para meu avô, eles não tinham mais parentes.

O advogado veio falar comigo, fechou a porta da biblioteca, foi franco, anos depois sempre confiaria nele, por isso, falava as coisas muito claras.

Me disse que tinha havido um confronto entre meu pai e meu avô, pois este queria minha guarda, apesar de preso, meu pai não aceitou nada.

Teria que ir para uma escola interna, para terminar o curso, depois seria a universidade.

Acho até melhor, teu avô está acostumado a ser sozinho, terá que voltar a administrar tudo, que era o que tua mãe fazia.

Assim escapas também dos comentários dele, amanhã venho te buscar, para ver duas dessas escolas, são fora da cidade, assim estarás mais protegido, sei que teu avô conseguiu mudar teu nome, o que acho melhor, como nunca saíste em fotos com teu pai, parece que ninguém sabe da tua existência, melhor ser simplesmente Marshall Klein, aliás nunca entendi esse nome.

Eu sim sabia, minha mãe tinha me contado, era como ela chamava seu irmão favorito, pois quando o viu de uniforme, o chamou de Marechal.

Me explicou que dentro em breve seria o julgamento de meu pai, que se eu fosse ele, não ia assistir.

Quase soltei, que meu pai de anos para cá, era um estranho para mim, me olhava como dizendo quem é esse garoto feio, fazia o mesmo que meu avô, me olhava da cabeça aos pés, inclusive se estivesse de calças jeans, camisete e tênis, me olhava feio, pois ele estaria claro super bem vestido.

O advogado continuou dizendo que tudo que minha mãe tinha, era para mim, o apartamento, dinheiro no banco, mas só quando fosse maior de idade, poderia aceder a ele, talvez na época da universidade, antes tens esses dois anos de estudos.

Fomos olhar as escolas, eu estudava numa simples perto de casa, tinha garotos ricos, mas era a mais normal possível.

A primeira odiei de cara, se via que os garotos todos eram filhos de gente rica, me examinaram muito, a segunda me surpreendi, pois era de monges católicos, o advogado disse que tinha estudado nessa, aqui tudo tem regras, é bom, até hoje venho aqui, quando me perguntam, digo sempre que foi aonde aprendi mais, eles sabem que eres judeu, mas isso para eles não importa.

Aceitei ficar nessa, principalmente por uma coisa, que adorava aonde estudava, tinha uma piscina olímpica.

Passei os dias do julgamento de meu pai, lendo os jornais, falavam muito que ele tinha subornado o juiz, pois a pena não era longa, dez anos, com possibilidades de sair antes.

Basicamente em seguida, apesar de ser férias, para a escola, o uniforme lá era uma coisa simples, calças jeans, camisa branca, com minha iniciais bordadas, MK, cuecas, tudo tinha iniciais.

O advogado Klaus, me levou, eu passaria ali todo as férias, pois meu avô estava irritado.

Se despediu de mim, apertando a minha mão, dizendo que esperava que eu mantivesse as boas notas que tinha.

De uma certa maneira, gostei, pois era como estar preso nesse apartamento imenso, só podia entrar na biblioteca, para pegar algum livro, a maioria estava em hebreu, que eu tinha aprendido na escola.

Levei dois comigo, uma das coisas que gostei, a biblioteca da escola, era imensa.

Perguntei logo ao que seria meu orientador, se podia usar a piscina.

Me levantava cedo, entendi rapidamente as regras, tinha que arrumar minha própria cama, a cada dois dias, retirar os lençóis, deixar no saco de roupa suja, dois dias da semana, apareciam um grupo de mulheres, que limpavam tudo.

Passei esses dias, atravessando a piscina de lado a lado, melhorando minhas braçadas, o fazia eu mesmo a correção, quando chegou o professor de natação, o mesmo me ensinava a melhorar, controlava o tempo, me incentivava.

Meu avô nunca veio me visitar, quem aparecia uma vez por mês, era o advogado, sem que eu lhe perguntasse me dava notícias do velho.

Um dia me surpreendi, me contou que o mesmo vinha liquidando todos seus bens, vendendo apartamentos, a fábrica que tinha, uma parte ele está doando para obras da sinagoga, que até estranharam pois ele raramente ia.

Mas não se preocupe, tens o dinheiro de tua mãe, que ela herdou por vez de tua avó, isso ele não pode tocar.

Me disse francamente, que o medo dele, era que teu pai tentasse na hora que ele morresse colocar a mão em cima.

Dois anos depois, antes mesmo de ir a universidade, nunca tinha saído da escola, me tinha adaptado totalmente ao regime, sabia me cuidar, o advogado veio, fomos com meu avô conversar com um juiz, achei estranho, ele estava numa cadeira de rodas.

Fez como sempre me estendeu a mão, disse que estava contente, pois minhas notas era super altas, que eu conseguia manter.

Não comentou nada, depois eu descobrir que nem sabia, eu tinha competido em nome da escola, várias vezes em campeonatos de natação, era quando conseguia sair.

Meu contato com o mundo exterior eram os jornais, bem como o advogado, eu lhe fazia uma lista de livros que queria ler, mandava por carta para ele, em seguida chegavam os mesmo, os lia, os que deixavam de me interessar, dava para a biblioteca.

Quando nos sentamos com o juiz, o advogado leu, me tinha dado no carro uma lista, dos bens de minha mãe, bem como dinheiro aplicado.

A ideia era me independizar, mas teria durante o tempo de universidade, uma espécie de mesada, bem como poderia viver no apartamento que tinha sido dela.

Comentei que viver no mesmo, seria um gasto impressionante, vai engolir minha mesada, nessa lista, não tem nenhum mais simples, que eu mesmo possa manter.

A cara do juiz foi ótima, soltou, se fosse o meu neto ia querer esse para dar festas.

Eu ia dizer, como ia fazer festas, se não tinha amigos.

O juiz concordou contudo, fomos ao banco, aonde acertaram tudo, abriram uma conta em meu nome, teria uma parte da mesada do dinheiro aplicado de minha mãe, a outra parte era do velho.

Eu achava muito, pois não tinha ideia de valores, já que nunca gastava sequer um terço da mesada que recebia na escola, só quando saia para alguma competição, ou uma vez ao mês, comia num Macdonald que existia ali na cidade perto.

 

Fui olhar com o advogado que no fundo administrava tudo isso, dois apartamentos que estavam sendo reformados, para serem alugados.

Gostei de um mais perto da universidade, que era pequeno em comparação com o outro.

Uma sala, dois quartos, banheiro e cozinha pequena.   Esse para mim era perfeito, podia ir andando para a universidade, já que ia estudar na cidade.

Podia ir de metro ou de bicicleta para a mesma.

O advogado, escolheu uma que trabalhava no seu escritório, anos depois seria a que me representaria, fui com ela escolher moveis, no segundo quarto, montei como um escritório, uma mesa grande, uma estante imensa, que pensava encher de livros, na sala que dava para um jardim, uma poltrona grande, com um abajur, seria meu lugar preferido para ler.

O resto sem moveis, ela me aconselhou, disse que fazia isso, vivia sozinha, andamos olhando ali perto, até achar um restaurante que preparava comida para uma semana, ou eu poderia comer lá.

Da casa de minha mãe trouxe dois quadros, um que ela gostava muito, era retangular, alto, figurativo, era como uma escala de cores, sabia que valia muito, depois uma fotografia que ela tinha comprado numa exposição que fomos os dois, era em algum lugar do Texas, um campo imenso, dois cavalos batalhando pela manada.

No meu quarto, só tinha uma cama, maior que a do colégio, mas falei com ela, queria deixar de dormir com os pés fora da cama, tinha esticado, já tinha quase a altura que teria ao final, 1,95 metros de altura.

Agora era mais alto que meu próprio avô, bem como tinha cintura estreita pela natação, seguia não sendo bonito, o resultado da acne.

O melhor, me levou para olhar as lojas, se surpreendeu, por eu ser prático, no subsolo do edifício tinha lavadoras e secadoras, seria mais fácil, calças jeans, camisetas, casacos confortáveis, disse que iria comprando aos poucos.

Estava era louco para sair da casa do meu avô, pois ele passava o tempo todo resmungando, quando um dia entrei na biblioteca, retirei dois livros em hebreu, me disse para devolver.

Não o tinha visto, fiz uma coisa, ali mesmo em pé, dei uma olhada no assunto, os coloquei de volta no lugar, não me interessavam.

Nesse dia, me fez sentar, perguntou o que eu ia estudar, já sabia que iria tocar em administração de empresas, eu tinha pensado no mesmo, pois chegaria o momento que teria que administrar o que ela tinha me deixado.

Mas o que ele não esperava, quando soltei, ficou me olhando sério, esboçou um sorriso, disse que eu era igual ao seu filho Marshall, ia estudar literatura também.

Esses livros em hebreu eram dele, me sinalizou essa parte de estantes, tudo era dele, por isso tenho ciúmes.

Até me surpreendi, dele falar do filho, ia perguntar do outro, mas ele imediatamente fechou a cara.

Conversei com a antiga empregada de casa, que vinha fazer limpeza no apartamento do velho, se podia ir limpar para mim dois dias da semana.

Ela foi olhar, ficou impressionada, de tudo estar arrumado, disse que ia a casa do advogado, a bagunça que o filho dele faz é impressionante.

Eu nem sabia que tinha um filho.

Meu avô não se interessou muito, assim que ficou como eu queria, agradeci a hospedagem, o que ficou surpreso, lhe deixei o número de celular, bem como o endereço do apartamento, ele perguntou simpaticamente se eu precisava de alguma coisa, se estava bem de dinheiro.

Já fiz meus cálculos, acho até que vai sobrar.

Assim foi, quando começaram as aulas, um professor se surpreendeu que eu fazia contabilidade de meu dinheiro, anotava o dia que entrava minhas mesadas na minha conta, a partir daí as despesas, todas, sempre sobrava, isso mesmo que eu gastasse em meu próprio luxo.

Tive sim que organizar meu tempo na universidade, a faria em mais tempo, pois conjugava duas assinaturas diferentes.

Acabou que no segundo ano, só fiquei em literatura, com as coisas que achava interessantes para mim, foi quando consegui me inscrever em linguística em hebreu.

Sem que ninguém falasse nada, tampouco comentei com o velho, fui falar com o rabino que tinha me ensinado a rezar o Kadish, queria um lugar para ir, que o fosse mais de gente jovem.

Ele riu a bessa comigo, pois fui muito educado.

A sinagoga que ele me indicou, depois descobri que o rabino era sobrinho dele, era de pessoas mais jovens.

Mas gostava mesmo de ir, quando tinha folga, tampouco houvesse alguma cerimonia.

Claro que tinha que exprimir meu horário para natação, me chamaram para competir, mas isso tomaria meu tempo, nadar era uma maneira de relaxar, isso de ficar marcando tempo, não era para mim.

Tinha um estudante, de matemática pura, que fazia o mesmo horário que eu, como vinha de Los Angeles, reclamava que ali não podia fazer surf, tinha trazido sua prancha, mas tinha que ir longe para isso.

Foi minha primeira vez fazendo sexo com outro homem, começamos nos chuveiros da universidade, acabamos em casa, mas depois nos encontrávamos, conversávamos, virou meu melhor amigo, os dois precisávamos de uma coisa, atenção, carinho.

Podíamos conversar durante horas, principalmente sobre literatura, comentava que muita gente fazia gozação pois achavam que uma coisa não encaixava na outra.

Seu pai era um grande ator da Broadway, tinha nascido em Los Angeles, pois tinha feito uma série de filmes por lá.

Foi quando pela primeira vez o advogado de meu pai me procurou, queria que eu aparecesse, num pedido de condicional para ele.

Pensei muito, falei com o velho advogado de meu avô, com ele, mas queria uma visão mais jovem, fui falar com a advogada que tinha me ajudado a montar meu apartamento.

Ela riu a bessa, primeiro me perguntou se sabia alguma coisa a respeito dela.

Disse que absolutamente não.

Me contou que tinha o mesmo problema, seu pai estava preso no mesmo lugar, era um sujeito complicado.    Quando me pediu que eu fizesse isso, me neguei, primeiro porque mal o conheço, depois tenho sempre a visão das merdas que ele fez, além de não acreditar que uma pessoa possa se regenerar.

Ela a terceira pessoa que me dizia que não me metesse nisso.

Quando o homem me procurou, lhe disse isso, ficou me olhando, o mais interessante era que sentia uma repulsa com relação ao dito cujo.

Me pediu que fosse falar com o mesmo no presidio.

Tornei a dizer que não, soltou uma coisa que na hora levei um susto, soube que tinha apresentado aos meus advogados, um cobrança de pagamento, pois meu pai não tinha dinheiro.

Ri na cara dele, trabalhas de graça, o meu dinheiro é meu, ele tem dinheiro escondido por aí, problema seu e dele, não autorizei nada.

Acabei a universidade, meu avô ainda foi, em sua cadeira de rodas, tinha me formado cum laude, o velho estava orgulhoso.

Tomei uma decisão nessa época, queria sair de NYC, começar minha vida em outro lugar, a tempos administrava minhas coisas.

A morte de meu avô, foi decisiva para isso.

Um belo dia não despertou, foi um enterro impressionante, nunca imaginei que ele conhecesse tanta gente, o mais interessante nos seus últimos anos, tinha voltado a sinagoga, principalmente a que ele ajudava.   Rezei o Kadish para ele, apesar da distância que me tratava, sabia que sempre seguia meus passos.

No seus documentos, pedia para ser cremado, que levasse uma parte, aonde seu filho preferido estava enterrado em Israel, o resto devia ir para o mausoléu da família.

Justo nesse momento, o rabino da que eu ia, levava um grupo de jovens a uma viagem por Israel.    Lá fui eu levando, depois de estar dias com o grupo, fui procurar saber aonde estava meu tio, foi complicado, pois Klein, havia muitos, mas claro o que ajudou foi o nome Marshall, me levaram até aonde estava seu tumulo, ali deixe as cinzas de meu avô.

Ainda fiquei mais um tempo em Tel Aviv, queria pensar no que ia fazer da minha vida a partir de agora.

Minha advogada, agora tinha um pequeno escritório, o que atendia meu avô também tinha morrido, ela saiu de lá, eu tinha autorizado que retirasse tudo que era meu do escritório, teria que, quando voltasse assistir a leitura do testamento do velho.

Me avisou que meu pai tinha conseguido sair, mas em seguida tinha desaparecido, ninguém sabe aonde está, sumiu no mapa, mas não pagou o advogado que conseguiu isso para ele.

Ri muito, que esperava, defender um caloteiro.

Quando voltei, fui acompanhado por ela, achei incrível, a mim só deixava uma conta num banco, o apartamento com tudo que estava dentro seria vendido, para ser dividido por várias sinagogas, inclusive a que eu ia.

Quando fomos ao banco, me avisaram que tinha uma caixa em meu nome, achei incrível, lá estava o documento assinado por ele, a conta deviam passar para a minha, nem me lembrava que quando me independizaram, tinha assinado alguns documentos para ele.

O mais interessante foi a caixa, uma série de documentos, contra meu pai, com um bilhete, se ele aparecer de novo.

O mais interessante eram fotos comprometedoras, dele com homens, inclusive o tal que tinha sido seu advogado, quase soltei uma gargalhada.

Mas o melhor, debaixo tinha saquinhos de diamantes, pedras preciosas, com um alerta, isso só para emergências, guarde, nunca se sabe do futuro, nunca se atreva a falar disso com ninguém, se fosse divididos, devia ser de tua mãe, de seus tios, mas estão todos mortos, guarde com carinho.

Não retirei nada, tampouco toquei no dinheiro que ele tinha me deixado.

O mais interessante, dias depois um jornalista, me procurou, alguém tinha ventilado que lhe parecia injusto, meu avô ter deixado a maioria de sua fortuna para as sinagogas.

Deve ter feito cara de espanto, quando lhe disse que esse dinheiro ele tinha ganhado sozinho, que ele tinha esse direito, espero só que seja bem aproveitado.

Meu amigo Bob, ou Robert, tinha acabado o curso, voltado para Los Angeles, aonde vivia sua mãe, mas morava numa casa na praia.

Resolvi sair da cidade, pois justamente um dia, apareceu no meu apartamento o dito cujo advogado.

Não abri a porta, como dentro de casa estava tudo escuro, fiquei quieto, depois sai pela porta dos fundos, o vi, parado na frente observando meu apartamento.

Nessa noite falei com o Bob, antes com minha advogada, o sujeito tinha aparecido fazendo um verdadeiro inquérito, sobre o que eu possuía.

Ela se negou a falar, no assunto, me aconselhou a desaparecer durante um tempo, resolvi fazer um curso de escritura em Los Angeles.

Lá fui eu, saindo como um bandido do meu apartamento, pelos fundos, tinha aprendido na minha viagem a Israel, a levar só o necessário, meu único luxo, seria meu laptop.

Bob, foi me buscar, fiquei uns dias na sua casa, depois aluguei um pequeno apartamento perto da universidade.

Ele se matava de rir, que eu seguia fazendo contabilidade de meu dinheiro.

Disse que seus pais, viviam num mundo diferente, sua mãe numa grande mansão nos altos de Hollywood, o pai, vivia num belo apartamento em NYC.

Gastam dinheiro em besteiras, os dois vieram da merda como dizem, adoram um belo carro, roupas finas, coisas assim.

Dizem que sou um vago, ele agora estava fazendo uma pós-graduação em matemática pura, tinha convites para fazer no MIT, resolveu ir para lá, ia reclamando, que como sempre não tinha aonde fazer surf.

Uma coisa era interessante, fazíamos sexo, de igual para igual, nos divertíamos, pois depois ficávamos os dois conversando sobre o que queríamos fazer.

Ele achava raro isso de querer escrever.

O apartamento era pequeno, mas nele tinha vivido um escritor, até ficar famoso, agora vivia também num lugar diferente.

No curso, o primeiro trabalho que escrevi, foram sobre sensações, como eu tinha me sentido quando minha mãe morreu, de descobrir no fundo quem era meu pai, ser observado pelo meu avô, o nome estranho que tinha em homenagem ao seu filho morto.

Mas claro criei uma distância, inventei um personagem, era esse quem contava a história, com ter ido para essa escola, aonde tudo era organizado, tinha ajudado na sua vida.

Depois o seguinte, foi sobre minha viagem a Israel, para levar as cinzas do velho, eu tinha achado incrível a burocracia para saber aonde era o tumulo do meu tio.

Um coronel o tinha conhecido, tivemos conversando sobre o mesmo.

O coronel dizia que era um idealista, imagina um rapaz que tinha tudo nas mãos, filho preferido de seu pai, que tinha largado tudo para ir pelo mundo, se meter nessa guerra, que a única ligação eram ele ser descendente de judeus.

Fiquei matutando nisso, criei um personagem, pensei muito a respeito, tomei um voo de Los Angeles, a Paris, de lá a Israel.

Falei com esse coronel, que me apresentou muitos como meu tio, gente que tinha vindo de outros lugares, aonde tinham uma vida, para lutar pelo pais, além de terem ficado, ou seja sobrevivido.

Sem querer esbarrei com um que era professor na universidade, tinha conhecido meu tio, marcou comigo depois de uma breve conversa, num café.

Foi interessante, contou uma história totalmente aparte disso tudo.

Soltou que meu tio na verdade tinha escapado do velho, que tinha um casamento marcado para ele, com uma herdeira rica, mas isso para esconder que o filho era gay.

Mal chegou aqui, ficamos amigos, acabamos na cama, podíamos falar horas, eu tinha feito o mesmo, escapei de uma família tradicional inglesa, eram fechados, morreu nos meus braços, me mostrou uma série de fotos dos dois.

Foi interessante, o quanto eu era parecido com ele, agora com quase a mesma idade.

O professor, nunca tinha se casado, é difícil manter um relacionamento homossexual aqui.

Falei do que estava escrevendo, perguntei se podia usar a história dos dois.

Eu claro não ia sitar nomes, riu muito, disse claro que sim, brincado disse que era como meu tio.

Acabei com a história, pois a alonguei, imaginando as situações, virou um livro, quando mostrei ao professor, me mandou falar com um editor.

Foi interessante, porque no momento que tinha decidido fazer o curso, era mais como para me botar para fora, sempre tinha amado ler, tinha sido como eu escapava de uma realidade na época, mas nunca parei.

Tinha só feito uma coisa, um dia depois da morte de meu avô, fui ao apartamento dele, retirei todos os livros em hebreu que eram de meu tio, agora me deliciava lendo devagar.

O que eu achava interessante, não conseguia localizar ao meu outro tio, o mais velho, sabia que tinha morrido numa das guerras dos americanos, mas qual, nem ideia, além dele ter um nome simples.

Falei com um senhor que tinha sido militar, trabalhado anos em Washington, ele com os nomes de meus avôs se meteu a procurar, me dizia que assim se movimentava.

Estava para sair meu livro, quando me chamou.

Estava sério, pelo visto meu tio tinha entrado para o exército, para escapar de ir a prisão, por merdas que tinha feito, como filhinho de papai.

Tinha ido para o Vietnam, quando vi sua certidão de nascimento compreendi, era filho do primeiro casamento do meu avô, tinha se metido em mil confusões por lá, tinha morrido de uma maneira idiota, resolvi deixar tudo para mais adiante.

Achava estranho, minha mãe só tinha me falado que eu levava o nome de seu irmão mais velho do que ela, mas do outro tampouco tinha falado nunca, nem o velho comentava.

Agora de certa maneira entendia.

Um belo dia, depois do lançamento do livro, dei de cara com o advogado, o via sempre como um sujeito maligno, não suportava estar na sua presença.

Me falou que meu pai, vivia em algum lugar da américa do sul, nada mais.

Um dia andando pela rua, tive a sensação de estar sendo seguido, mas como em seguida entrei no meu carro, outra gozação, pois era de segunda mão, o mais simples possível, como se diz, um desses que todos da classe média tem.

Estava com a cabeça nas nuvens, pois tinha que decidir se voltava a Israel, tinha uma ideia na cabeça que não acabava de se formar, queria conversar com meu tio postiço, era o melhor momento.  Iria a NYC para umas entrevista pelo lançamento do livro, depois podia de lá pegar um voo.

Falei com ele, me convidou para ficar na sua casa.

Nesse noite, arrumava como sempre uma bagagem mínima, que o mais importante para mim era meu laptop, para seguir escrevendo.

Quando chamaram a porta, estava distraído, abri, tive que prestar atenção, pois não reconheci meu pai.

Ficou me olhando como sempre, agora era mais alto do que ele, só faltou perguntar por seu filho.  Eu fiquei parado, não lhe disse para entrar nada disso, só perguntei o que queria.

Mudou de postura, perguntando se era assim que recebia seu pai.

O meu desapareceu a muito tempo, me desculpe tenho que arrumar minha bagagem, vou para NYC, depois irei por aí.

Me perguntou, para aonde?

Não respondi de imediato, olhando bem sua cara, lhe soltei perguntei por acaso aonde te esconde com teus milhões roubados?

De qualquer maneira, não sai do meio da porta, ficou me olhando sério, reconstruí minha vida, já que ninguém aqui me ajudou.

Cada um tem o que merece, lhe respondi.   Tampouco perguntei o que estava fazendo em Los Angeles.

Virou as costas foi embora, como sempre fazia, sem dizer sequer até logo.

Acabei de arrumar as maletas, telefonei para a companhia aérea, tinha um voo dentro de duas horas, pedi um taxi fui para o aeroporto, o bom que cheguei logo cedo em NYC, relaxado, nem parei para pensar nele.

Do aeroporto, tinha combinado com minha advogada, queria alertar que estaria fora um bom tempo.

Tornou a me contar que o tal advogado tinha tentado através de sua secretária saber sobre minha situação financeira, ela respondeu que tu mesmo administrava tudo.

Contei da visita surpresa, só não sei o que ele está fazendo em Los Angeles, não perguntei, nem ele falou.

Fui para Tel Aviv, dois dias depois, ajudado pelo amigo de meu tio, Joseph, entrevistei muita gente de movimentos gays, para saber como eles se situavam no pais.

O pior foi saber dos que saiam do armário, dos Palestinos, me levou para falar com dois rapazes.

Um deles tinha conseguido que uma família de Tel Aviv, que era uma mistura de árabes e judeus, lhe ajudassem a fazer a universidade.

Falamos sobre seus sonhos, suas ambições, era outro que tinha sobrevivido através da literatura, nos encontramos vários dias, inclusive depois das aulas da universidade.

Seu problema, era que depois ele não sabia o que fazer, me trouxe vários escritos dele, gostei, perguntei se queria vir comigo, uma associação, o ajudou a conseguir o visto, já que eu me responsabilizava.

A primeira coisa que tive que fazer, foi ele deixar de se deslumbrar, pois ficou como louco.

Lhe parei os pés, mas não foi longe, Bob voltou, nos encontramos, se apaixonaram, ele foi viver junto com ele.

Senti tirar um peso das minhas costas, eu de uma certa maneira entendia, quem não tinha nada, se ver de repente num lugar que de uma certa maneira a liberdade era maior, tinha se deslumbrado, não entendia que eu não frequentasse a noite, lugares gays, coisas assim.

Agora fazia uma coisa, como passava uma boa parte do dia, sentado escrevendo, saia logo cedo para andar, nada de correr, depois no final do caminho, aproveitava para dar um mergulho, nadava, me secava, voltava andando para casa, comprava pão fresco, fazia um café, em seguida estava com isso nas mãos trabalhando.

Ao meio-dia, já fazia como uma obrigação, saia para comer, assim pelo menos parava, andava, depois voltava ao trabalho.

Mesmo de longe, analisava em que estavam aplicados meu dinheiro, só aplicava em coisas seguras, vivia com um básico como sempre, nada demasiado.

Com o dinheiro do livro que tinha publicado, abri uma conta, tudo ia para isso, como se fosse outra pessoa.

Bob, me falou que seu pai, vendia a casa da praia, até me interessei, mas gostava tanto do meu canto, que acabei não fazendo negócio.

Depois do meu terceiro livro, o segundo vendi os direitos para fazerem um filme, um diretor judeu que começava sua andada na américa se interessou por ele, financiado por fundos de judeus ricos de NYC.

Fiquei preocupado, pois imaginei que ia mudar um pouco a história, mas felizmente apenas a ajustou mais ainda a realidade de lá.

Joseph veio passar as férias, me encontrei com ele em NYC, conversamos muito, o mais interessante apesar dele ter sido literalmente banido de sua família inglesa, acabou só sobrando ele, seu último irmão, tinha gastado uma fortuna, mas ainda lhe sobrou dinheiro, ia comprar uma casa em Jaffa, para seus dias finais como dizia, não sei se me acostumarei a aposentadoria.

Quando voltei, dei de cara com um senhor mais velho, tinha ido várias vezes ao meu apartamento.

O convidei para entrar, quando falou que era advogado de meu pai, fiquei com um pé atrás.

Me disse que o mesmo tinha morrido num acidente suspeito, morreu ele, além da mulher com quem vivia.

Por isso, só sobrou o garoto.

Devo ter feito cara de surpreendido, ele riu.

Disse que quando veio aqui, fazer uma operação, como não o deixaste entrar não te contou de sua nova família.

Indo ao principal, o menino não tem família, apesar de seu pai ter deixado alguma coisa de dinheiro para ele, vivia gastando muito.

Esse menino irá para um orfanato, foi duro conseguir vir com ele até aqui, pois seus documentos constam o nome original de teu pai.

Se eu fosse mais jovem, confesso que adotaria o mesmo, mas sou um velho, sua mulher era minha sobrinha, mas não temos mais família.

Aonde está esse garoto?

No carro esperando, foi até a janela, fez um sinal, vi sair um garoto, na verdade um quase adolescente, magro como eu.

Quando abri a porta, foi como ver uma cópia de mim na sua idade.

Ele estendeu sua mão, disse seu nome, era o mesmo de meu pai, Walter White.

Ficamos nos olhando, ele tinha a cara cheia de acne.

O homem disse aonde estavam hospedado, se queres fazemos um teste de ADN, para confirmar.

Eu concordei, da mesma maneira que o analisava, ele fazia o mesmo, uma coisa lhe chamou a atenção, foi até a poltrona, cheia de livros em volta, começou a olhar um a um, com que separando os mesmos.

Avisei minha advogada, que disse que tomaria um voo nessa noite, assim podemos conversar com esse senhor.

Eu sabia do hotel que estavam, mas relaxei, vamos ver, sem o teste de ADN não se fazia nada.

O que tinha achado interessante era o que tinha feito com os livros.

Fui dar uma olhada, ele tinha separado os últimos em hebreu, de outros que me interessavam, desses tinha aberto alguns, tinha prestado atenção.

Eram sobre psicologia.

No dia seguinte depois de ir busca-la no aeroporto, fomos nos encontrar com eles, tomamos o café da manhã juntos, ele me olhava com curiosidade.

Era como eu, não falava muito nessa mesma idade.

No hospital, só perguntou se doía para tirar sangue.

Minha advogada, nessas alturas, tinha tirado muito da vida de meu pai, com esse homem, vivia na Guatemala, tinha sido seu advogado lá, ele tinha conhecido sua nova esposa antes aqui.

Entendemos o que ele tinha feito, tinha tirado dinheiro do pais, através desse homem.

O pouco que resta está em nome do Walter.

Mas quando saiu da prisão, mudando de nome, levou uma vida de rico, ou seja nunca mais trabalhou, viviam numa bela mansão na praia, o garoto a mais de dois anos estava interno num colégio, creio que nenhum dos dois tinham imaginado ter um filho, teu pai vivia dizendo que já tinha um que nem conhecia direito.

Nos documentos que deixou, disse que qualquer coisa o procurasse, mas que não esperasse muito de mim.

Enquanto os dois falavam, fomos nos sentar num parque ali na frente do hospital.

Ele ficou me olhando, soltou de repente, vou ficar como tu, verdade, seu inglês era perfeito.

Me contou que na escola que estudava interno, era de americanos, anglicanos, mas nunca fui as cerimonias, exigência do velho, dizia que era judeu.

Isso é verdade, eu sou também.

Nunca entendi por que me enfiaram nessa escola, o que tinha de bom, era que pelo menos não tinha que escutar as discussões dos dois.   Falavam em inglês todo o tempo.

Agora entendo que ela reclamava que ele gastava muito dinheiro em besteiras.

Lhe expliquei que através dos documentos que meu avô tinha me deixado, ele vinha de uma família muito pobre, que subsistia, através de ajudas da sinagoga, o pai dele era alfaiate, nunca o conheci, entendi depois que tinha vergonha da sua família, foi estudar com bolsa de estudos, conheceu minha mãe, que era de família rica.

Acho que na verdade meu avô a deixou estudar, pois seu filho mais velho, de outro casamento, tinha morrido na guerra do Vietnam, o outro de quem levo o nome, morreu em Israel, na guerra da independência.

A diferença de idade deles era grande, creio que ela tinha quase dez anos menos que ele, o adorava.

Rindo contou que nunca tinha entendido o pai, ele fazia uma coisa que nunca entendi, me olhava de cima a baixo, com dizendo quem é esse garoto, nas férias quando ia para casa, achava raro, fazia isso todos os dias.

Um dia me disse que eu era parecido contigo, ele era um homem bonito, vejo que nos dois não temos nada dele.   Muitas vezes me perguntei se era filho dele.

Perguntou se ele gostava de ler?

Imagina a biblioteca da escola, só tem livros em inglês, ele nunca lia nada, a não ser jornais, eu encontrei meu lugar preferido na escola, na biblioteca.

Dois dias depois, saiu o resultado, era realmente seu irmão.

O senhor, transferiu seu dinheiro para Los Angeles, ele disse que não necessitava de nada, esse dinheiro ficaria para ele um dia ir à universidade.

Conseguiu seus documentos, arrumou uma escola perto, no próprio edifício que vivia tinha um apartamento maior, o comprou, se mudaram para lá, depois de reformar o mesmo.

Walter soltou que na casa que viviam na praia, tinha muita coisa, frisando que livros nada.

Perguntou se podia fazer aulas de hebreu, no dia que vi os livros ao lado da tua poltrona, fiquei curioso.

Quando perguntou se ele tinha feito algum preceito judeu, disse que pelo que tinha escutado, só tinham lhe cortado o prepúcio, nada mais.

O levava na mesma sinagoga que ia, mesmo nos seus horários que ia para pensar.

Num primeiro momento pensou em colocar numa escola interno, mas se lembrou do que tinha vivido, era quase o mesmo que um orfanato de luxo.

Sem querer sempre queria ter tido um irmão, os dois conversavam horas, principalmente sobre os livros que ele ia lendo, lhe ensinou a anotar as palavras que não entendia.

Nas férias o levou para fazer seu circuito como chamava, saiam andando, falando sem parar, tomavam um banho de mar, voltavam para casa, lhe tinha passado seu laptop velho, comprou um novo para ele.

Quando Walter escreveu seu primeiro texto, era interessante.

Sem querer se tocou, falava nesse avô imaginário, que era alfaiate, falou com sua advogada, foram a NYC, retirou os documentos que estava ainda na caixa forte, passou para ela.

Só existia um irmão dele, já com bastante idade, levava a alfaiataria do pai.

Foram até lá os dois acabaram rindo, o homem era igual a eles, quando se identificaram, tiveram que rir, pois o sobrenome era diferente, seu pai, tinha mudado quando entrou para a universidade, o White não era seu nome original.

Esse filho da puta, dizia isso, em seguida pedia desculpas, um belo dia quando conseguiu essa bolsa de estudos, basicamente desapareceu, mudou de nome, nem ao enterro da nossa mãe ele veio.

Só o descobri quando houve o escândalo que ele provocou.

Foi quando entendi, ele tinha ficado rico, roubando dos outros, o velho quase morreu de desgosto, como dizia, “era pobre, mas descente”, nossa família vinha da Polonia, meus pais se conheceram num campo de concentração, vieram juntos para cá, formaram uma família, mostrou uma foto de sua mãe, era a ela que ele tinha saído, ao lado estava seu avô, era a cara dos dois.

Contaram como ele os olhava, me sentia examinado cada vez que fazia isso, agora entendo, era como se de quem ele tinha fugido, estava ali mesmo.

Seu tio lhe contou que nunca tinha se casado, cuidei primeiro de minha mãe, muitos anos depois o velho, depois do escândalo, ele nunca mais foi o mesmo, embora nada o ligasse a nós, queria te procurar, mas tinha vergonha.

Me dizia sempre, esse garoto, deve ter uma imagem da nossa família horrível, deve pensar que somos iguais a ele.

Eu nem sabia que vocês existiam.

Meu pai morreu com muita idade, quando saiu teu primeiro livro, mostrei para ele, esse é o teu neto.

Ficou emocionado, pois na parte detrás do livro, tinha uma foto tua, me mostrou uma foto dele, quando tinha chegado aqui, era igual.

Acho que nosso pai, tomou isso como um castigo, ele ser bonito, nos dois somos como a família que ele repudiou.

Lhe disse ao meu tio Oswald, que vivíamos em Los Angeles, tinha negócios em NYC, mas vivia do outro lado do pais.

Quando me aposente, vou visita-los, acabamos o arrastando conosco, agora tínhamos uma família, diferente.

De manhã arrastava meu tio, para andar comigo, o deixava falando tudo que se lembrava, mal sabia ele que gravava na minha cabeça.

Nessa época Bob apareceu novamente, ri muito, pois o rapaz que tinha ido com ele, tinha dado no pé, indo viver em NYC.

Seguia tentando vender a casa do pai, que lhe tinha tocado de herança, ele trabalhava na Nasa, lá pelo menos tenho praia para fazer surf.   A achei perfeita para nós, agora fazia sentido, a comprei com o dinheiro dos meus livros.

O mais interessante, foi que meu tio, ia comigo a sinagoga, aos sábados íamos os três, nas férias seguintes, fomos os três a Israel, eu fiz uma coisa, adotei meu irmão, como meu filho.

Passou a se chamar Walter Klein.

O mais interessante, ficamos na casa do Joseph em Jaffa, se deu perfeitamente com meu tio, tinham a mesma idade, nos dois riamos muito, pois tio Oswald, não tinha uma fluência em hebreu, falava devagar, por acaso Joseph também por dar aulas.

Fomos para ficar 15 dias, ficamos quase dois meses.

Voltamos só os dois, com a promessa de voltar, tio Osvald, ficou, ria muito, tinha um humor diferente.

Meu irmão me cobrava porque nunca tinha ninguém em minha vida, eu o chamava de fedelho, que se metesse em sua vida.

Me acostumei em compartir minha vida com ele, sem querer de não ter uma família, os dois que de uma certa maneira tínhamos sido repudiado por nosso pai, por sermos semelhantes a família que ele queria esquecer, formamos outra.

Vendi um dos apartamentos grandes em NYC, compramos uma casa ao lado do Joseph em Jaffa, agora sempre escapávamos para lá.

Um dia Walter me disse que pensava em fazer universidade lá, Joseph achou melhor ele fazer esses dois últimos anos lá estudando, eu estava escrevendo justamente me baseando nas histórias que me contava Oswald, sobre meu avô polonês.

Ele dizia que eu tinha captado justamente isso, de serem cidadãos poloneses, serem despojados de tudo, conseguir construir uma família em NYC, para ser depois repudiado por seu próprio filho, por ser pobre.

Isso o afetou muitíssimo, mas seguiu lutando.

Formamos uma família diferente, eu sigo escrevendo, tio Oswald, talvez seja o pai que os dois procuramos ter.

Um dia conheci um jornalista de Jerusalém, eu estava numa livraria, aonde vendiam meus livros, os dois últimos tinha escrito em hebreu, me pediu uma entrevista, disso começamos nosso relacionamento.

Meu irmão ri, comigo, diz que eu comecei a amar já velho, embora ache normal, vejo o relacionamento de meu tio com o Joseph, acho o máximo, um cuida do outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentarios

Entradas populares de este blog

PRECISO ANDAR

PALAVRAS

DRAMATIC