FLYING WHALE
FLYING WHALE
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Despertou lentamente de mais um sonho
absurdo, como sempre estava no deserto de algum filme de cowboy, no céu passava
uma baleia voando, era como se suas aletas fossem asas, além claro da cauda. Uma vez tinha consultado sobre isso a um
psicólogo que trabalhava com sonhos, esse lhe disse que tinha a ver com
insegurança sobre o futuro, ou que se sentia usado como vítima.
Pensou em seguida, hoje a filha da puta da
minha tia, vai encher o saco.
Não deu outra, estava no banheiro quando a
mesma chamou pelo celular, hoje teria que fazer um caminho diferente de todos
os dias, com isso gastaria mais tempo para chegar à universidade, teria agora
que avisar seu pai, para que fizesse o mesmo.
Sempre tinha sido um problema sério isso,
ele adorava o pai, nem sabia como ele podia ter tanta paciência com a família
de sua mãe.
Ele na época que se separaram ainda era
professor em Oxford, um belo dia sua mãe resolveu ir embora, pediu o divórcio,
renunciando a tudo, bem como o arrastando atrás dela.
Foram viver na velha casa da família em
Londres, perto da universidade, bem como do Museu Britânico, uma bela casa,
nessa época seu avô ainda era vivo.
Ele mal conhecia o velho, mas não gostou do
mesmo em seguida, cheirava mal, uma barba branca, mas amarela perto da boca,
passava o dia inteiro fumando cachimbo, que também apestava.
Por sorte dele, o velho não se aproximava
muito. Sua tia era outra, que lhe caia
muito mal, sempre vestida de negro, como se fosse uma viúva.
Sentia falta de casa, do seu pai, admirava
o mesmo, nunca tinha entendido por que sua mãe tinha pedido o divórcio, ela
alegava que ele tinha uma aventura com uma aluna, o que não era verdade, ele
achava todas umas idiotas, dizia sempre que a maioria estava ali, para arrumar
um casamento importante, com algum desavisado.
Dizia isso rindo, olhando sua mãe, disse
que tinha caído no conto do vigário com ela, pois ela tinha feito exatamente
isso, ela quando descobriu que por detrás de toda a aparência dele, não tinha
merda nenhuma, estudava com uma bolsa de estudos, depois ficou como professor
adjunto de literatura antiga.
Então a casa que viviam era alugada, talvez
por isso, tenha resolvido não pedir nada no divórcio. A verdade seja dita, ele a obrigou a
terminar a universidade, por isso agora ela tinha um emprego, apesar da família
ter dinheiro.
Sua mãe saia de manhã para trabalhar, o
deixava numa escola ali perto, que pertencia a universidade, como diziam era
moderna, pois ali se experimentava novas técnicas de ensino, que ele achava
idiotas, mas nunca dizia nada, pois era o melhor aluno de sua turma.
Odiava de paixão, ter que usar um uniforme,
que pouco permitia aos alunos mais liberdades, incluía uma gravata, só se
sentia livre, na aulas de natação, ou fazendo algum esportes, com isso, comia
lá, depois ou ia para a biblioteca, ou fazendo alguma exercício, adorava
escapar para a piscina num horário que nunca tinha ninguém, ficava atravessando
de um lado para o outro, na época era meio gordinho, diziam que ele parecia uma
baleia, atravessando por baixo d’água, de um lado para o outro.
Mergulhava de um lado, saia do outro, isso
para ele, significava liberdade, nada de ir para casa, lá seu avô estaria
sentado no salão, vendo telejornal, o dia inteiro sem parar, não entendia, pois
as notícias não mudavam muito, com direito a ele ficar reclamando sozinho.
Sua tia, escapava, a única que sobrava era
uma senhora que trabalhava a muitos anos ali.
Os fins de semana que tocava ao seu pai,
esse vinha, tinha como fixo um hotel pequeno ali perto, com um quarto com duas
camas.
Era interessante, pois ao contrário de não
falar nada a semana inteira, os dois falavam horrores, ele era o único que se
interessava pelos seus estudos, o que pensava das aulas, o que achava de
literatura, algumas vezes, o arrastava para ver alguma peça de teatro, que
fosse um clássico.
Principalmente se fosse algo de Shakespeare,
os dois gostavam, na maioria, eram velhos atores, que faziam isso com a alma,
como ele dizia.
Depois iam jantar em algum lugar calmo, que
os dois pudesse seguir conversando sobre o texto.
Às vezes, lhe comprava o livro sobre o
texto, para ele ler, aí acontecia uma coisa, trocavam correspondência,
comentando sobre isso.
Sua tia criticava, se já se viram a dois
dias, que tanto tens que falar com ele, arrancava a página que estava
escrevendo, para ler, quando reclamou com sua mãe, essa se matou de rir, tem
medo de que fales mal dela para teu pai.
Na verdade, ele nunca mencionava o nome de
nenhum deles ao seu pai, os momentos que tinham juntos, eram só deles.
Adorava a forma como seu pai se vestia, era
totalmente diferente dos outros professores que ele conhecia da universidade.
Fazia uma mistura de roupas, adorava uma
calça de veludo cotelê, tinha várias, para ir variando de cor durante a semana,
as camisas sempre eram brancas, mas não usava gravatas, sim lenços no pescoço,
coletes, um casaco de tweed, botas, os outros professores, usavam ternos
completos, mas ele era diferente.
Diziam que suas aulas eram famosas, pois
conseguia captar a atenção dos alunos, com sua voz potente.
Lhe dizia sempre, tens que treinar a voz,
para se fazer escutar, que prestem atenção no que dizes, valorizar as palavras.
Diriam depois, que ele devia era ter feito
teatro, pois sabia usar a voz, uma quando estava de férias, foi assistir uma
palestra dele, usava como sala de aula, um anfiteatro, o mandou sentar-se na última
fila, acima de tudo, depois me conta se escutaste minha voz perfeitamente.
Era verdade, parecia que estava falando
para essas pessoas da última fila.
Seu alunos pareciam hipnotizado por ele.
O mundo parecia ter parado, com isso ele
foi aprendendo com o pai a valorizar sua voz.
Nessa época apareceu na escola, um
professor, que dava classes de teatro, com ele, quando o viu falando, pensou
imediatamente no pai, fazia os exercícios que o mesmo ensinava como se
estivesse numa conversa particular.
O raro, era que quando estava com seu pai,
num restaurante, ele falava como num sussurro, mas se escutava plenamente, pois
vocalizava bem.
Quando tinha 14 anos, primeiro morreu o
velho, tiveram que colocar incenso no velório, pois cheirava mal.
As duas ficaram com um belo patrimônio,
isso sim, logo em seguida minha mãe descobriu que tinha um câncer, desses que
são letais, que quando muito, se pode ir tratando, mas que solução o médico
tirou de qualquer contesto.
As duas resolveram vender a casa imensa,
assim poderiam ir para um apartamento menor.
Meu pai quando soube, veio falar com ela,
não sei como a convenceu, voltamos para Oxford, diga-se de passagem, nunca
poderia falar dele, pois o período que dava aulas, tinha uma senhora para
cuidar dela, depois ele mesmo cuidava, inclusive fazia sua higiene antes da
senhora ir embora, a ajudava nisso, a partir que ficou em cima de uma cama.
Ele fez uma coisa, disse que não
necessitava do dinheiro dela, mas que com a parte da herança que tinha
recebido, abrisse uma conta em meu nome, assim eu poderia ir a universidade
tranquilamente.
Ela aceitou, minha tia ficou furiosa, pois
teve que pagar a parte dela, no apartamento que tinham se mudado, bem como
abrir parte do resto da herança que ainda estava em conjunto.
Quando ela morreu, menos de um ano depois,
já estava tudo resolvido, a única coisa que foi feita a pedido dela, queria ser
cremada, nada de enterro, nem velório, missa, nada disso, que ele levasse suas
cinzas para um lugar, aonde se deram o primeiro beijo.
Minha tia ficou uma fera, pois tinha
encomendado missa, toda a parafernália que era um enterro de gente como ela,
mas meu pai, não era tonto, tinha feito tudo isso, com um advogado, bem como
registrado todas as vontades dela.
Quando ela morreu, minha tia apareceu,
queria a minha guarda, mas foi inútil, eu disse que viver com ela, nem pensar.
Adorava voltar a viver em Oxford, com o
tempo, passei a imitar meu pai na maneira de se vestir, a única coisa
diferente, era que ele usava um bigode, que o pessoal chamava de limpa trilhos,
era cheio, mas sempre bem aparados, adorava vê-lo tirar um pequeno pente do
bolso, passar pelo mesmo.
Em muitas coisas éramos iguais, os cabelos
crespos, olhos verdes, os meus mais escuros, pele cheia de sardas.
Com os anos, passei a usar os cabelos
imensos, presos atrás com um elástico.
Acabei fazendo meus estudos em Oxford, mas
me interessei mais por literatura contemporânea.
Depois fui fazer uma pós-graduação, em NYC,
quem arrumou para mim, foi um professor, amigo de meu pai, fui estudar
literatura comparada sobre autores contemporâneos.
Mas nunca perdemos a ideia de ir passar
finais de semana em Londres, para assistir algum espetáculo de teatro, sair
para jantar, conversar.
Ele como eu, não gostava de pubs, nem de
beber, ou mesmo fumar.
As pessoas diziam, como podíamos ter tantas
coisa para conversar, pois isso era praxe.
Alguns conhecidos mais próximos, não eram
amigos, isso nunca tive, ele era meu único amigo, diziam que tinham inveja, com
seus pais, trocavam monossílabos.
Como eu, ele adorava a piscina, isso fazia
que os dois tivéssemos ombros largos, bem como quadril estreito, marcávamos, ou
íamos juntos ou encontrávamos lá.
Depois de alguns anos, minha tia apareceu,
tinha gastado toda sua parte da herança, queria dinheiro.
Foi quando entendi tudo, ela nunca tinha
trabalhado, não sabia fazer nada, devia horrores de impostos sobre o
apartamento que tinha tocada a ela.
Pior foi descobrir que como estava no nome
das duas, o governo queria cobrar a parte de minha mãe, mas o advogado
conseguiu provar com os documentos, que ela tinha ficado com o mesmo ela
sozinha, mas isso foi duro.
O governo moveu uma ação, ou pagava, ou
perdia o apartamento.
Cada coisa dessa, ela aparecia, pedindo
dinheiro, o advogado alertou meu pai, se dás dinheiro, isso será uma sangria,
pois sempre vira por mais.
Agora ela vivia num apartamento desses do
governo, num bairro marginal, odiava, bem como as pessoas a odiavam.
A última vez tinha aparecido com um padre
da igreja aonde ia, quando este encheu o saco de meu pai, não esperava a
resposta, ela não é da minha família, nem lhe devo nada, ao contrário, só tenho
queixas sobre seu comportamento.
Por ultimo tinha descoberto que se
prostituia com velhos, para ganhar dinheiro.
O tal padre conseguiu mete-la numa casa de
pessoas de idade, mas volta e meia tinha problemas.
Foi quando se descobriu, que ela na
verdade, tinha sido a garota bonita do papai, que tinha ficado para trás, tampouco
tinha estudado muito, pois lhe dava preguiça, seu pai, dizia um dia encontraras
um trouxa que se case contigo, eu mesmo o tinha visto falar nisso mil vezes.
Mas como era uma pessoa desagradável, isso
nunca aconteceu.
Agora não só ficava atrás do meu pai, bem
como vinha me pedir dinheiro.
Quando era assim me fazia lembrar nos anos
que tinha vivido na mesma casa que ela e o velho, que tinha sempre reclamações
a meu respeito. Nunca ajudou a cuidar da
minha mãe, dizia que já tinha cuidado do velho, o que não era verdade, pois ele
se cuidava sozinho.
Ela fazia uma coisa, ficava parada diante
do edifício que eu morava, ou na frente do de meu pai.
Nessa época eu tinha ficado mais tempo em
Oxford, ele se mudou para Londres, tinha um convite irrecusável, montar um
departamento, como o que tinha em Oxford, estava de saco cheio das regras de
lá, por isso aceitou.
Mas eu ia todos os finais de semana para
ficar com ele, um dia andando na rua, um fotografo nos parou, pois nos
vestíamos iguais, nada ver como as outras pessoas.
Sem querer saímos numa revista de moda,
alguém viu, vieram nos chamar para fazer um filme.
Rimos muito, mas claro nem tínhamos pensado
no assunto.
Eu ao contrário, quando estudava
universidade, tinha feito teatro, gostava muito, mas fazer cinema, não me
atraia.
Quando acabou meu contrato com Oxford, eu
devia cumprir por causa da bolsa de estudos, com a que fui estudar nos Estados
Unidos, arrumei um emprego em Londres, não na mesma universidade dele, mas na
escola aonde tinha estudado.
Foi a maior gozação quando uma professora
nos descobriu os dois, numa revista de moda.
Foi franca comigo devias explorar este teu
lado, eu agora ajudava o velho professor que me tinha feito gostar de fazer
teatro, com os alunos, dava classe de voz para eles.
Um dia ensaiava com eles, vi uma pessoa
diferente na plateia, era um amigo dessa professora, me convidou para ir a uma
leitura de texto, ela insistiu.
Lá fomos os dois, meu pai foi por
curiosidade, acabamos os dois fazendo o texto, era um largo diálogo de pai e
filho que não se entendem.
Fizemos rindo, pois entre nós a coisa era
diferente.
Quando estreou, a crítica elogiou o
trabalho dos dois. Logo surgiram mais
oportunidades, mas ele não quis seguir, se não quis de jovem, agora tampouco
quero, gosto do que faço, ensinar.
Eu ao contrário equilibrava, entre dar
aulas, fazer teatro, por isso, fui viver sozinho, tinha gostado dessa
experiencia quando vivi em NYC, foi muito bom para mim, assim não tinha
dependência de ninguém, mas nossos encontros eram sempre da mesma maneira.
Nessa época, ele dizia que tarde, começou
um relacionamento com outro professor, mas cada um na sua casa, pois ele dizia
que o outro tinha mil manias.
Foi quando me chamaram para fazer um filme,
insistiram tanto, que fui fazer o casting, não gostava muito do texto, diga-se
de passagem.
Me ofereceram inclusive o papel principal,
mas disse que só podia fazer durante o período de férias.
Meu pai se matava de rir, acabei com um
filho artista.
As pessoas não entendiam, quando todo mundo
depois do espetáculo, saia para os pubs, eu saia com meu pai, por aí para
conversar.
Pegamos o hábito de andar de braços dados,
conversando seriamente.
As pessoas estranhavam aqueles dois homens,
que se vestiam diferente, com uma cara mais séria do mundo, andando de braços
dados, numa conversa séria.
Descobrimos nessa época uma loja que vendia
roupas de segunda mão, uma vez por mês, íamos de compras, o dono ficou nosso
amigo, nos avisava quando tinha coisas diferentes.
Fiz o filme, o diretor ria dizendo que
queria que os outros atores fosse como eu, pois chegava com o texto decorado,
me submetia a chefe de vestiário, entrava em cena, já pronto, só não gostava de
cenas divertidas, com muito humor, pois era sério demais.
As fazia da mesma maneira, sério, sem
esboçar nunca um sorriso, isso fazia que a situação, fosse mais divertida
ainda.
Logo um crítico falou sobre isso, que eu
levava a sério, mesmo as situações mais esdruxulas, que nunca ria, ou mesmo
sorria. Cheguei a ganhar um prémio com
esse papel, que nem fui recolher, só de pensar em ter que colocar um smoking,
tirou qualquer dúvida a respeito.
Vimos os dois pela televisão da casa de meu
pai, pois na minha não tinha.
Quando soltaram que o prêmio era meu, o
diretor foi receber o mesmo.
Depois ficaria na casa de meu pai, ocupando
uma estante.
Eu seguia minha vida normal, dava aulas, os
alunos as vezes comentavam, meu velho amigo professor de teatro se aposentou,
eu segui no seu lugar, com isso tinha a desculpa de não aceitar a maioria dos
convites para cinema.
Mas um dos problemas agora era que minha
tia aparecia, tinha se casado com um velho, atrás de dinheiro, se deu mal, pois
o velho só aparentava, mas não tinha aonde cair morto, teve que voltar para a
residência que vivia.
Aparecia, fazia um verdadeiro teatro,
falando que a família não a queria, que tinha se dedicado a mim os melhores
anos da sua vida, o mesmo fazia na porta do edifício de meu pai, nesse dia
tocava sair por detrás.
Na universidade meu pai tinha falado com a
segurança, que ela no fundo não era nada dele, apenas uma mulher louca, podiam
chamar a polícia, eu fiz o mesmo aonde trabalhava.
Acho que ela viu um cartaz do espetáculo
que eu fazia, que acabei saindo na televisão numa entrevista, pois estávamos a
um ano em cartaz, eu na verdade estava se saco cheio, a repetição as vezes me
enchia o saco.
Ela apareceu no teatro, se levantou em
plena função, para falar mal de mim, muita gente que não conhecia o texto,
pensou que fazia parte, por sorte era o intervalo, a retiraram do teatro.
Ficou me esperando na saída dos atores, o
segurança me avisou, saiu por outra saída.
Acabei tendo que falar com os jornais a
respeito, essa mulher nunca cuidou de mim, tampouco de minha mãe, como vive
pregando, é sim uma pessoa que nunca quis estudar, queria se casar com um homem
rico, mas se deu mal por ser desagradável.
Nessa época, me surgiu um filme em
Hollywood, gostei do texto, antes fui ver os filmes do diretor, queria saber
como ele trabalhava os textos.
O mais interessante, foi que viu como eu me
vestia, perguntou se podia fazer isso no filme, era para justamente o papel de
um professor de Oxford, que recebe uma herança nos Estados Unidos, um rancho,
tem que virar cowboy.
Ele me queria pela tal história que eu
fazia tudo muito sério, muitas cenas eram cômicas, mas eu as fazia sem sentido
de humor nenhum, executava simplesmente suas ordens, de como fazer as mesmas.
Tipo, um cavalo me jogar no barro, eu me
levantar como se fosse uma coisa normal, nada de reclamar, ou fazer algo
divertido.
Ele me mostrou um outro texto, queria
filmar na Inglaterra, era sobre um sujeito mal-humorado, que levava tudo como
se fosse pão, pão, queijo, queijo.
Fiz os dois filmes, o primeiro, foi
interessante, meu estilo de roupas, não combinavam com Hollywood, sim com o
filme, mas o calor que eu não estava acostumado, as roupas relaxadas de lá, não
faziam o meu gênero.
Acabei o filme, voltei logo para casa,
conversei muito com meu pai, ele sim ficou curioso, disse que já tinha visto no
cinema, um dia irei contigo para saber dessa sensação.
O filme fez um sucesso danado, justamente
pelo fato de ser uma comedia, falava de mim como ator, pois era sério demais,
as cenas ficavam hilarias.
O filme de Oxford, foi outro sucesso, mas
tinha acabado o tempo de licença que tinha da escola, quando voltei, tinha
outro no meu lugar, tinha se apossado do que eu mais gostava, das aulas de
teatro.
Nessa época, meu pai, sem querer voltou ao
seio de sua religião original, foi quando descobri que era judeu, nunca tinha
me tocado a respeito, pois nunca íamos a igreja nenhuma.
Ao mesmo tempo, ele teve um problema na
universidade, agora era chefe de departamento, apareceu um professor, que se
misturava com os alunos, ele achou uma coisa fora do normal, até que um aluno
veio reclamar que o outro passava dos limites.
Passou a observar o outro, o mesmo se
insinuava para os alunos, vinha já de outra universidade, com as mesmas
reclamações.
Um dia o mesmo me confundiu com meu pai,
descia por uma escada, que estava meio escura, creio que ele viu as roupas, me
atacou, por sorte um bedel viu, me ajudou a controlar o mesmo, havia uma denúncia
de um aluno, ao que ele tinha ajudado a passar de ano, mas queria sexo.
Meu pai descobriu, foi em cima do mesmo, ia
para a rua.
O filho da puta quase me matou, se não
fosse esse senhor me ajudar, creio que tinha morrido.
Foi uma experiencia desagradável, eu tinha
ido me encontrar com meu pai, para irmos a um jantar, os corredores já estavam
desertos, ele estava ainda na sua sala de chefe.
Só apareceu quando o avisaram.
Fomos para o hospital, pois tinha
dificuldade em falar, pois os outro tinha tentado me asfixiar.
Levei meses com uma voz rouca, o médico não
sabia o que fazer.
Mas isso, sem querer me ajudou a compor um
personagem, para novamente o cinema.
As pessoas de aonde eu trabalhava, me
criticavam, se fosse outro, já estaria morando num belo apartamento, com carro
de último tipo, eu ao contrário seguia vivendo no mesmo, ia a escola de metrô,
nada demais, nem as roupas eram diferentes.
Talvez por causa da nova voz que tinha, eu
estive fazendo um tratamento com um foniatra, que me ajudou bastante, agora
sabia que teria essa voz para sempre.
Nessa época sonhei novamente com a baleia, logo
em seguida avisei meu pai, soubemos que minha tia, tinha tentado se casar com
um velho que vivia na mesma residência, acabou matando o mesmo, pois esse se
ria nas costas dela.
Apareceu um advogado, querendo que
pagássemos a conta, tiramos o corpo fora, acabou sendo defendida por um desses
de ofício, que o quem paga é o governo.
Nem depor a favor dela, aceitamos. Iria passar o resto de seus dias na prisão.
Me apareceu um texto, descobri depois que o
diretor tinha mandado por causa da minha voz.
Iria ser filmando na Nova Zelandia, tinha a
ver com baleias, li o texto mil vezes, mostrei o mesmo para meu pai, pois ele
sabia da história das baleias.
O personagem tinha isso, estava no meio do
deserto, sempre via baleias no ar, ficava assustado, numa das cenas era
interessante, o mesmo está no deserto, de repente olha para cima, tem uma
baleia voando, quando a mesma cai em cima dele, é como se levasse uma descarga
de água.
No caso do personagem, o mesmo descende de
pescadores de baleias, como se fazia antigamente, é como se elas o
perseguissem.
Uma cena se transformou em hilária, pois
ele é perseguido em pleno deserto por um bando de baleias, o duro foi filmar,
pois era eu sozinho em cena, pois a perseguição seria montada por efeitos
especiais, tinha que imaginar isso.
O diretor as vezes tinha que interromper a
filmagem, pois ele mesmo se matava de rir.
Eu tinha que imaginar essas baleias atrás
de mim, mas o fazia sério, então a cena ficava como ele queria.
Meu pai, tinha férias, ao mesmo tempo,
tinha acabado seu relacionamento com o professor, o convenci de ir comigo.
Foi divertido, ele sempre me cobrava porque
não tinha ninguém na minha vida.
Eu lhe respondia, que a maioria das pessoas
que se aproximavam, não me interessavam, pois não tinha o que falar com elas.
No filme, fazia umas cenas com um ator de
lá, que era descendente de maoris, era o extremo oposto de mim, eu era magro,
embora tivesse os ombros largos e cintura estreita, era alto, mas ele era mais,
era como uns três de mim.
Na história ele é um xamã que o personagem
vai consultar, que o arrasta, para uma saída para ver baleias, foi uma coisa
genial.
Meu pai notou como ele me olhava, disse que
o fazia de uma maneira diferente.
Sem querer acabei com ele na cama, era como
estar em cima de uma baleia imensa, fazendo sexo.
Contei para ele, a história que eu sonhava
com baleias voando quando tinha algum problema.
Ele riu, por isso, nós gostamos.
Fazíamos sucesso os dois, pela maneira como
nos vestíamos, meu pai, estava relaxado, ria muito, acho que virei viver aqui,
se aposentava no semestre seguinte, eu estava de licença mais uma vez da
escola, logo me chamaram para fazer uma série lá, me queriam pela minha maneira
de ser, seria um professor que vem de Oxford, mas que não encaixa na vida de
lá, até que aprende a fazer surf.
Eu tive que aprender, meu amigo Otto, eu
achava diferente ele ter um nome alemão, mas me apresentou seu pai, que era de
Hamburgo, um homem imenso, soltou que tinha se encontrado lá.
Vivia meio nu, sempre com um sarongs,
enrolado na cintura, ver meu pai assim eu ri muito.
Para a série, aprendi a duras penas a fazer
surf, o melhor que filmavam justamente isso, eu caindo da prancha, como um
idiota inglês.
Tinha passado a usar um bigode como meu
pai, quando nos viam juntos, achavam graça.
Ele voltou eu fiquei fazendo o trabalho,
além da primeira vez estar apaixonado por alguém.
Comecei a dar aulas de teatro, para a
cidade aonde se passava a série, Tauranga, adorava, pois era uma mistura
incrível de etnias, além de aborígenes, ali estavam todos os tipos de
emigrantes que formavam a cidadania local.
Me convidaram para dar aulas de literatura.
Meu pai adiantou sua aposentadoria,
desmontou meu pequeno apartamento, veio ficar lá comigo.
Como era um lugar que eu podia me mover
para fazer qualquer coisa, com isso fiz filmes na Australia, tem uma foto nessa
época, estou com a parte de cima da minha forma de vestir, mas na parte de
baixo, uso um sarongs enrolado na cintura.
Nunca imaginei que meu pai, fosse mudar
tudo, passou a só andar de bermudas, só no inverno é que usava roupas antigas, aprendeu
a fazer surf, estava sempre com o pai do Otto, para todos os lados, os dois
estavam aposentados.
Um dia o Otto me disse, acho que entre eles
está rolando alguma coisa, foi dito e feito, meu pai diria que tinha encontrado
depois de velho sua meia laranja.
Eu adorava dar aulas, lá, nada dos alunos
complicados que tinha em Londres, ali a maioria queria aprender alguma coisa,
depois tinha as aulas de teatro, que eram uma miscelânea de raças.
Fomos ficando, eu nunca tinha amado uma
pessoa como o Otto, foi interessante, os dois éramos muito sérios, nada como a
maioria que tem que mostrar que estão juntos, saiamos os quatro para jantar,
muitas pessoas vinham falar comigo, eu simplesmente diziam que era a família
que tinha me adotado por lá.
Era uma verdade, um dia, uma senhora me
parou na entrada da escola, se apresentou como assistente social, me falou de
um garoto, que estava num orfanato, ele quando viu o senhor na televisão, disse
que se parecia com seu pai.
Fomos até lá, levei meu velho, ele se
encantou com o garoto imediatamente, fomos descobrir que era neto de um irmão
dele, que tinha desaparecido no mapa, fizemos inclusive teste de ADN, acabei
adotando o garoto.
Agora sim era uma família, fazíamos tudo
juntos, surf, ele adorava minhas aulas de teatro, foi contando ao meu pai, aos
poucos, sobre seu pai.
Do avô ele não se lembrava, só que vivia na
Australia, meu pai, começou a procurar esse irmão dele.
Só descobriu que esse tinha uma família
imensa, vários filhos, com várias mulheres, em muitos lugares de lá, mas que já
tinha morrido a muito tempo.
Mas não se importou, ele tinha sua própria
família.
Agora meu filho Brian, é o terceiro a usar
esse nome, pois é nome do meu pai também, estuda a universidade, é um aluno
brilhante de medicina, seu sonho desde criança.
Nunca mais voltei a Londres, é como se
fosse uma vida passada, o mais interessante, nunca mais sonhei com baleias
voando, Otto diz que é porque eu tenho a minha própria, que é ele.
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