FRÈRES DE SANG
FRÈRES DE SANG

Para contar a história de meu filho,
primeiro tenho que chegar até lá, fui filho de um juiz francês, que trabalhava no
Palais de Justice, aonde trabalho também hoje em dia.
Claro que sabia desde pequeno que ele não
era casado com minha mãe, uma mulher impressionante, trabalhava no Palacio do
Champs-Élysées, tinham se conhecido segundo ela por acaso, ele já contava outra
história.
Anos depois descobrir que ele tinha outros
filhos fora de seu casamento, esbarrei com um rapaz com o mesmo sobrenome,
estava na minha classe quando entrei para a universidade.
Rimos muito, ele também sabia que era um
filho fora do casamento, mas meu pai tinha reconhecido todos, com minha mãe,
ele disse que era o último, fez uma operação de vasectomia.
Quando minha mãe ficou doente ele veio
viver lá em casa, tinha acabado de se aposentar, resolveu assumir sua vida,
cuidou dela até sua morte, depois ficou vivendo lá, colocou o apartamento em
meu nome, bem como um outro que tinha assim não ficas com problemas de herança.
Eu nessa época tinha conhecido Mamadou, na
universidade, ele estava começando a dar aulas de Yoruba, me interessei, falava
já outras línguas, inclusive o hebreu, fui talvez o único filho que meu pai
levou para a sinagoga, dizia que aos outros não interessavam, já que suas mães
era católicas.
Mamadou, passou a viver lá em casa, os dois
juntos éramos, como a água e vinho, eu muito branco com uns cabelos que diziam
que era igual de meu pai, crespos, rebeldes, os deles pareciam uma juba de
leão, todo branco.
Eu achava interessante, lá em casa nunca
aparecia ninguém procurando por ele, dizia que preferia manter os outros filhos
afastados, os conheço pouco.
Mamadou, foi como que adotado por ele, numa
primeira viagem que fizemos a Nigeria, para conhecer de aonde ele tinha saído,
o velho veio junto.
Um belo dia, o vejo conversando com um
garoto muito magro, com uns óculos que tinham visto vida melhor, estava todo
remendado.
Meu pai se apaixonou pelo garoto, quando o
trouxe para conversar comigo, fiquei impressionado, falava bem o Yoruba, bem
como falava alguma coisa em francês.
Me contou que ele na verdade não era dali,
que seus pais viviam numa aldeia na fronteira, que tinha sido todos
assassinados.
Mamadou, traduzia o que não entendíamos,
ele depois foi saber com os mais velhos sobre o garoto.
Uma senhora lhe contou, que ele tinha vindo
caminhando desde a fronteira, chegou aqui num estado lastimável, assustado, o
nosso babalaô, foi quem cuidou dele.
Vive da comida que as pessoas lhe dão, as
roupas são sobras dos outros garotos.
Meu pai, moveu mundos e fundos, o
arrastamos conosco, na embaixada de França, o problema era que meu pai era
velho demais, acabei eu adotando o menino, passou a se chamar Francis Klein,
meu pai não o largava, afinal usava seu nome.
Foi como juntar nele, as duas coisas, o
animismo e o judaísmo.
Quando voltamos das férias, ele tinha um
neto, deixei para ele meu velho quarto da casa, uma coisa que meu velho tinha
feito para mim, o teto, tinha aplicações de planetas, estrelas, que de noite no
escuro, pareciam estar acessas.
Mamadou usava um outro quarto, eu fiquei
com um que tinha reformado, já que meu velho usava o da minha mãe, o
apartamento tinha outra coisa, que era aonde nos reuníamos, a biblioteca, o
velho tinha trazido seus livros que estavam no gabinete no Palais de Justice.
Ali em volta de uma mesa de centro, tinha
colocado poltronas antigas, diferentes entre si, todas de couro.
Seu neto se sentava ao seu lado, os dois
pareciam ter conversas impressionantes, aos sábados ele ia com o avô a
sinagoga, era interessante, para ele foi fácil aprender outra língua, como o
francês, pois já falava o dialeto de sua tribo, o Yoruba, francês, aprendia
hebreu com o velho.
Foi interessante, pois ele dizia que eu
tinha sido seu primeiro filho em ir com ele a sinagoga, mas ir com seu neto,
era primordial.
Eu ia junto claro, Francis, adorava o
velho, para ele, era como ter reencontrado sua família, seu quarto ficava ao
lado do meu, quando tinha algum pesadelo, algo parecia me despertar, isso que
tenho um sono muito pesado.
O velho se preparou a consciência, fez um
fundo para o Francis ir a universidade, quando sentiu que estava ficando velho
demais, foi arrumando tudo, seu testamento, incluía todos os filhos que tinha
tido.
Organizou com seu advogado, como queria seu
enterro, pois sabia que se fosse para a casa da sua mulher oficial, como ele
dizia, iria para um cerimonia católica, ele odiava essa ideia.
Mas antes de morrer, fomos os quatro a
Israel, que ele nunca tinha tido oportunidade de conhecer.
Justo nessa época, depois de ter sido
fiscal, eu passei a ser juiz, claro os mais velhos, me perguntavam sempre se
era filho dele.
Muita gente pensava que eu tinha algum
relacionamento com o Mamadou, mas na verdade ele era meu melhor amigo, isso
sim, além da universidade, ensinava a muita gente dos bairros a falarem Yoruba,
reclamava sempre que os jovens não queria nada com isso, queriam ser franceses.
Quando meu pai morreu, tive que esfriar a
cabeça, havia muita coisa que fazer, depois de chamar o seu médico pessoal para
fazer o atestado de óbito, o advogado, que ficou lá em casa, enquanto peguei a
lista dos seus filhos todos, fui avisando um a um, deixei por último o filho
que tinha originalmente com sua mulher oficial.
Esse queria ir imediatamente ir buscar o
pai, o deixei falando com o advogado, depois do outro ter concordado, a contra
gosto, passamos a avisar os amigos do velho. Estava preocupado com o Francis
tão agarrado com ele.
Na verdade era ele quem estava com meu pai
na hora que morreu, quando entrei no quarto, ele estava segurando a mão dele,
rezando em Yoruba.
Depois o levamos para a Sinagoga que
frequentamos, foram chegando os filhos, todos diziam que eu era o mais parecido
com ele.
Apresentava a todos meu filho, me olhavam
surpreso, afinal Francis era negro, eu por mais moreno que fosse, mas resolvi
fazer uma coisa, não explicar.
Por último chegou o mais velho, com sua
mãe, sem querer quase soltei uma gargalhada, já tinha feito sexo com ele a anos
atrás, tinha sido uma coisa interessante, mas nunca mais o vi.
Ficou me olhando, como procurando na sua
cabeça me localizar.
Me apresentou sua mãe, ela ia falar algo do
ritual, eu lhe disse para falar com o advogado, afinal eu estava fazendo o que
ele tinha pedido.
Depois só perguntou quando ele tinha
voltado a frequentar sinagoga, lhe expliquei, ela pareceu ficar contente, pelo
menos se reconciliou com seu passado.
Na hora da cerimônia, me adiantei com meu
filho, os dois rezamos o Kadish, ele depois cantou algo em Yoruba, que sempre o
via fazer com meu pai.
As pessoas ficaram surpreendidas, ali
estavam muitos fiscais, juízes da velha guarda, da época dele, bem como
conhecidos meus.
Apresentei a sua mulher os outros filhos,
mas ela me olhou, só tu eres parecido com ele, também o único a ter a mesma
profissão.
O advogado avisou da leitura de testamento
no dia seguinte.
Apareceram todos, o velho deve ter visto
muito disso a vida inteira, brigas de família, deixava para cada filho a mesma
quantidade de dinheiro, só a mim que não, a tinha transferido para seu neto ir à
universidade.
As propriedade, aonde vivia sua mulher, com
o filho, era dela já a muito tempo, o nosso, creio que nem tinha feito a
universidade, quando colocou no meu nome.
O que me surpreendeu foi sua mulher
Mirthes, pedir para ir buscar alguma coisa dele, os levei até minha casa, vi
que o filho olhava com surpresa a simplicidade, mas quando viu a biblioteca,
riu, eu também adoraria isso, contei que ali nos reuníamos sempre para
conversar.
Ele fez a mesma pergunta que muitos faziam,
se Mamadou era alguma coisa minha.
A resposta foi a de sempre, meu melhor
amigo.
A Mirthes adorou foi o quarto do meu filho,
disse que ele tinha feito um assim para seu filho, mas que esse na adolescência
tinha tirado tudo.
Entendeu que talvez nessa época o pai
tivesse vindo morar com eles.
Nas mesas de cabeceira, numa tinha uma foto
dele com minha mãe, no outro lado uma com a Mirthes.
Ela achou interessante, nesse momento
Francis, disse, sempre falava de como tinha conhecido a senhora.
Vamos ver se não mentiu, me conte como foi.
Deixei os dois sentados na cama, lado a
lado, vi meu filho muito sério contando.
Ela voltou para o salão emocionada, o sem
vergonha nunca se esqueceu.
O filho perguntou do que falava, ela disse
que ele tinha contado para o Francis como tinham se conhecido.
Foi quando eu soube que todas as semanas
meu pai, tomava café com seu filho mais velho para conversarem, recuperar o
tempo perdido.
Ao se despedir, perguntou se podia voltar,
para conversar comigo, eu disse que sim, mais ou menos falei meus horários.
Dois dias depois, estava estudando um
processo, Francis tinha ido ao Cinema com Mamadou, ele apareceu.
Nos sentamos na biblioteca, ele foi como eu
gostava direto ao assunto, que tinha se assustado, em me encontrar, saber que
erámos meio irmãos.
Foste a pessoa que mais gostei, mas na
época estava confuso, infelizmente não trocamos numero de celular, poderia ter
procurado.
Não passa nada lhe disse, agora já sabes
aonde estou.
Me pediu para contar a historia do Francis,
meu pai tinha me comentado, mas não entrou em detalhes.
Contei para ele tudo que podia, como o
velho adorava seu neto, foi ele quem o trouxe para a família.
Mostrei uma foto dos dois juntos na
Nigeria, como tinham se conhecido.
Francis muito magro, com aqueles óculos
todo emendado, nem parece o de agora.
O ano que vem, terá que começar a pensar
que universidade quer fazer.
Roger disse que isso ele fazia, era
orientador numa escola, justamente de jovens que estão para ir à universidade.
Nisso chegaram os dois, Mamadou, disse que
ia preparar um lanche para todos, deixei Francis conversando com o Roger, fui
ajudar a colocar a mesa.
Tinha contado para o Mamadou, depois do
enterro que já o conhecia.
Esse ria, veio atrás de ti, vejo como te
olha.
Quando foi embora, ficou segurando minha
mão, perguntou se podia ir no sábado conosco a sinagoga.
Lhe disse o horário, bem como fazíamos.
Ele apareceu, estranho Mamadou estar ali,
lhe expliquei que tinha começado ir por causa do nosso pai, ele é animista, mas
respeita tudo isso, além de fazer companhia ao Francis.
O convidamos para almoçar depois, ele penso
que iriamos a algum restaurante.
Lhe expliquei com a doença do nosso pai,
passamos a comer em casa, ele se cansava muito de vir a sinagoga, ir a um
restaurante o confundia por ter sempre gente demais.
Depois nos sentamos na biblioteca, ficamos
conversando.
Lhe contei como tinha sido, conhecer o
outro irmão, que tinha estudado comigo, o velho nunca escondeu nada. Sei que tinha o hábito de se encontrar com
todos os filhos que tinha.
Eu pensava que ele era um sem vergonha,
para ter tantos filhos fora do casamento, mas depois descobri que ele cuidava
de todos, os encaminhou na vida.
Minha mãe sim sabia de tudo isso, pois ele
contava.
Mesmo vivendo aqui, ele sempre encontrava
um jeito de passar por casa, para nos ver, conversar com ela, a transformou na
sua melhor amiga.
Ela riu muito com a história do Neto, agora
vejo que de uma certa maneira, é como se ele tivesse escolhido.
Pois nenhum dos filhos lhe deu netos.
Ele agora vinha uma vez por semana, se
sentava com Francis para falar do futuro, o ajudou bastante para ele se
decidir, iria fazer medicina, que era uma coisa que gostava.
Um dia lhe disse que esse garoto tem um
dom, fala comigo de igual para igual, me soltou em plena cara, até quando vou
ficar esperando para avançar.
Na hora não entendi, me disse que vê como
te olho, esperando que me dês atenção.
Um dia chovia demais, ele ficou para
dormir, foi como se reencontraram, Roger lhe perguntou se o fato de serem meio-irmão
não o incomodava.
Nem pensar, gosto de estar contigo.
A única que estranhou um pouco foi sua mãe,
mas foi justo nessa época, que resolveu ir viver com uma irmã dela, que vivia
em Carcassone.
Roger basicamente passou a viver com eles,
era um a mais na biblioteca.
Comentarios
Publicar un comentario